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Adam Smith em Pequim: Origens e fundamentos do século XXI

Rodrigues da Cunha e Cruz, Marco Aurélio

Abstract

Em 19 Janeiro de 2011 o encontro histórico do líder chinês, em solo estadunidense, com Barack Obama indicou o sinal dos novos tempos. No dia 14 de Fevereiro foi propalada a notícia de que a China ultrapassou o Japão e se tornou a 2ª maior economia do mundo, ao alcançar seis trilhões de dólares no seu produto interno bruto. É incontroverso, pois, que a China desponta como potência mundial e lidera o renascimento econômico oriental. Este desempenho adquirido pelos chineses interfere, de maneira decisiva, nas relações com os demais países, e ressoa, nomeadamente, no modo de entender a economia mundial. Neste contexto, para raciocinar sobre este tema, não se pode avançar em análises geoeconômicas negligenciando sobre os seus reflexos na órbita do principal ator econômico global: os Estados Unidos. A ascensão chinesa e as repercussões internacionais que dela emanam, primordialmente em terras estadunidenses, são os condutores do livro do sociólogo italiano Giovanni Arrighi Adam Smith em Pequim: origens e fundamentos do século xxi.

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Araucaria. Revista Iberoamericana de Filosofía, Política y Humanidades. año 13, nº 25. Primer semestre de 2011. Pp. 197–206. Giovanni Arrighi: Adam Smith em Pequim: origens e fundamentos do século xxi 1 Marco Aurélio Rodrigues da Cunha e Cruz UniCEUB (Centro de Ensino Unificado de Brasília, Brasil) Em 19 Janeiro de 2011 o encontro histórico do líder chinês, em solo estadunidense, com Barack Obama indicou o sinal dos novos tempos. No dia 14 de Fevereiro foi propalada a notícia de que a China ultrapassou o Japão e se tornou a 2ª maior economia do mundo, ao alcançar seis trilhões de dólares no seu produto interno bruto. É incontroverso, pois, que a China desponta como potência mundial e lidera o renascimento econômico oriental. Este desempenho adquirido pelos chineses interfere, de maneira decisiva, nas relações com os demais países, e ressoa, nomeadamente, no modo de entender a economia mundial. Neste contexto, para raciocinar sobre este tema, não se pode avançar em análises geoeconômicas negligenciando sobre os seus reflexos na órbita do principal ator econômico global: os Estados Unidos. A ascensão chinesa e as repercussões internacionais que dela emanam, primordialmente em terras estadunidenses, são os condutores do livro do sociólogo italiano Giovanni Arrighi Adam Smith em Pequim: origens e fundamentos do século xxi . Numa continuação de suas duas últimas publicações (O longo Século xx e Caos e governabilidade no moderno sistema mundial) Arrighi estabelece como dois os objetivos do texto: interpretar «a luz da teoria de desenvolvimento econômico de Adam Smith a atual transferência do epicentro da economia política global da América do Norte para a Ásia oriental» e incluir as lições de A riqueza das nações nas reflexões sobre a citada transferência. Alicerçado, portanto, na releitura das teorias smithianas e marxistas, o Autor analisa a evolução socioeconômica chinesa ao largo dos últimos séculos e a compara com o modelo adotado na Europa e nos Estados Unidos. Propugna, neste sentido, um reestudo de A riqueza das nações para instigar o leitor a meditar sobre as previsões feitas no livro ao concluir que pode ser hodiernamente factível uma sociedade mundial de mercado com base em uma maior igualdade entre as 1 São Paulo: Boitempo, trad. Beatriz Medina, 2008 . Nº de páginas: 448. 198 Marco Aurélio Rodrigues da Cunha e Cruz civilizações e uma equalização de poder entre o Ocidente conquistador e os demais «conquistados». Para sustentar a tese de que o fracasso do Projeto para o Novo Século Norte Americano (como reação aos acontecimentos de 11 de setembro de 2001) e o sucesso do desenvolvimento econômico chinês potencializam a probabilidade da concretização da idéia de igualdade mercadológica de Smith, Arrighi divide o livro em quatro partes, as quais, cada uma, contém três capítulos. A primeira, Adam Smith e a nova época asiática, é introdutória e mais teorética. Avalia‒se a teoria de desenvolvimento econômico de Smith para a compreensão do próprio título de seu livro. O Autor reestrutura a teoria smithiana e a coteja com as teorias de Marx e Schumpeter, para opinar que Smith não era defensor, tampouco teórico, do modelo de desenvolvimento econômico capitalista e que sua teoria de mercados, como instrumentos de domínio, é especialmente transcendente para que se entendam as economias de mercado não capitalistas. Defende que o sucesso chinês se deve, entre outros fatores, por não ter abandonado o gradualismo econômico («curso natural das coisas») em favor das «terapias de choque» estadunidenses, e alerta que a adoção da reforma econômica da China encampou um discurso socialista, mas com corpo capitalista, haja vista que, atualmente, as empresas privadas se tornam a base de sua economia. Ao criar a expressão «marxismo neosmithiano» Arrighi se refere ao filósofo marxista Mario Tronti que no seu artigo “Marx em Detroit” advoga que a formação de partidos social‒democratas, de inspiração marxista, não transformou a Europa no epicentro da luta de classes. Entretanto, adverte que foi em terras ianques, onde a influência de Marx foi mínima, o local onde os trabalhadores conseguiram forçar o capital a se reestruturar para acomodar as exigências de salários mais altos. Observa, pois, que na Europa, Marx vivia ideologicamente, mas nos Estados Unidos suas ideias influíram objetivamente nas relações entre capital e trabalho. Neste contexto, comenta que após serem ou não absorvidas pelos países do centro, a difusão ideológica marxista se deslocou para os chamados periféricos, como China, Vietnã, Cuba e as colônias africanas de Portugal. Todavia, nestes, indica que a realidade social pouco ou nada tinha em comum com a teorizada em O Capital. Por isso, frisa que o marxismo de Fidel Castro, Amílcar Cabral, Ho Chi Minh e Mao Tse Tung se apartava diametralmente da teoria do capital de Karl Marx. Arrighi cita Robert Brenner, quem escreveu um artigo no qual se extrai que dois principais motivos arrefeceram a previsão de desenvolvimento capitalista generalizado: (i) não houve ativação e manutenção da competição que forçaria os organizadores da produção a cortar os custos e maximizar o lucro por meio da especialização e das inovações; (ii) tampouco os produtores diretos perderam o controle dos meios de produção, o que ativaria e manteria a competição que os obrigaria a vender sua força de trabalho aos organizadores 199 Giovanni Aghi: Adam Smith em Pequim: origens e fundamentos do século xx da produção. De fato, somente em alguns países a história da luta de classes criou as duas mencionadas condições necessárias. Brenner, neste sentido, busca a teoria smithiana de A riqueza das nações, onde se colhe que a riqueza de um país se descobre com a especialização das tarefas produtivas decorrente da divisão de trabalho entre as unidades produtivas, cujo grau é determinado, decisivamente, pelo tamanho do mercado. Tendo isto em consideração, conclui‒se que o processo de desenvolvimento econômico tem seu impulso com a expansão do mercado. Despiciendo, portanto, o fato de quem organiza a produção perde ou não a capacidade de reproduzir e se os produtores diretos perderam ou não o controle dos meios de produção. Arrighi refuta, de certo modo, a aludida caracterização, mas a confere relevância pela importância da distinção entre o desenvolvimento da economia de mercado e o desenvolvimento capitalista propriamente dito. Justifica, então, que apesar da disseminação das forças de mercado na busca do lucro, a natureza do desenvolvimento da China não é necessariamente capitalista. Nesta linha de pensamento, se argumenta que há, inegavelmente, uma diferença histórica mundial entre os processos de formação de mercado e os processos de desenvolvimento capitalista. O processo de aprimoramento econômico anterior à Revolução Industrial tinha como motor os ganhos de produtividade que acompanhavam a divisão do trabalho, cada vez maior e mais profunda, limitada pela extensão espacial e pelo ambiente institucional do mercado. Quando se atinge este limite, a economia deságua na denominada «armadilha de equilíbrio de alto nível». A Europa se desvencilhou desta por meio da Revolução Industrial (com as conseqüentes inovações tecnológicas). A «fuga» européia da aludida armadilha foi precedida por «fugas» anteriores, realizadas com grandes reorganizações dos centros e das redes do capitalismo europeu. Esta «saída» foi observada tanto por Smith como por Marx, que destacaram a principal diferença do caminho europeu: sua extroversão, seu investimento no comércio exterior. A riqueza e o poder da burguesia européia não tiveram sua gênese na agricultura, mas no comércio exterior de longa distância. Somente depois a indústria tomou corpo e se tornou a base da economia européia, como no exemplo inglês. Citando a Fernand Braudel, Arrighi concorda que o capitalismo europeu, pautado na extroversão, apenas triunfa quando identificado com o Estado, que, via de conseqüência, buscava viabilizar as condições econômicas para este desenvolvimento, ademais de assegurá‒lo pelo poderio beligerante militar. Já desde a sua primeira fase, em Veneza, Gênova e Florença, os capitalistas têm maior poder de impor seu interesse de classe à custa do interesse nacional, e transformam os governos em comitês de gerenciamento dos negócios da burguesia. Na Holanda do século xvii , a aristocracia dos Regentes governava a favor dos negociantes, mercadores e emprestadores de dinheiro. Na Inglaterra, a Revolução Gloriosa corroborou a ascensão dos negócios à 200 Marco Aurélio Rodrigues da Cunha e Cruz realeza. A acumulação de capital e de poder no contexto do comércio exógeno, guarnecidos pelo Estado, define o caminho europeu de desenvolvimento «capitalista». Na China não. O caminho de desenvolvimento oriental era baseado no mercado, mas não portava a «dinâmica capitalista». A expansão econômica chinesa criou o excedente de mão de obra e a escassez de capital. Soma‒se, ainda, a nominada «Grande Divergência», conceituada como as diferenças no suprimento de recursos e nas relações centro‒periferia, é dizer, a Europa era municiada pelas Américas de forma substancialmente mais volumosa de produtos primários e de demanda de manufaturados do que as regiões da Ásia oriental poderiam obter de suas «periferias». No Oriente, o Autor correlaciona o conceito de Revolução Industriosa, que tem como pano de fundo o fim da servidão do campesinato no século xvii , o fortalecimento da agricultura familiar, o aumento populacional e a escassez crescente de terra arável, fatores que conjugados contribuíram para o surgimento de um modo de produção que contava intensamente com o investimento em mão de obra. Em que pese os camponeses trabalharem mais, sua renda também aumentou, o que potencializou a valorização e o desenvolvimento de uma ética em torno do trabalho. Este contexto criou um caminho tecnológico e institucional que teve papel cardinal na resposta do Oriente aos desafios e às oportunidades gerados pela Revolução Industrial ocidental. A diferença, pois, entre este tipo de desenvolvimento econômico e o desenvolvimento adotado no ocidente era que o asiático mobilizava recursos humanos em vez de não humanos. Por esta razão, Arrighi esclarece que Sugihara outorgou o nome de «caminho desenvolvimentista híbrido» de industrialização intensiva em mão de obra, porque absorvia e utilizava mão de obra de modo mais completo e dependia menos da substituição da mão de obra por maquinaria e capital do que o ocidente. Deste modo, o ressurgimento econômico oriental se relaciona com a convergência entre a opção ocidental de uso intensivo de capital e de elevado consumo de energia, e o modelo asiático, que faz uso intensivo de mão de obra e poupa energia. A Revolução Industrial implantou no ocidente o «milagre da produção» e expandiu a capacidade produtiva de um restrito grupo de países. A Revolução Industriosa introduziu no oriente o «milagre da distribuição» e criou a difusão dos benefícios deste milagre para a vasta maioria da população mundial. Nesta linha de pensamento, o Autor, ao se referir às três grandes ordens originais e constituintes de toda sociedade civilizada ―os que vivem de renda, os que vivem de salário e os que vivem de lucro― desmistifica mitos relacionados à teoria de Smith. Em seu juízo, os escritos smithianos pregavam a existência de um Estado forte para criar e reproduzir as condições de existência do mercado e não defender a sua «autorregulação»; usar o mercado como 201 Giovanni Aghi: Adam Smith em Pequim: origens e fundamentos do século xx instrumento eficaz de governo; regulamentar seu funcionamento; e intervir, de modo incisivo, para retificar ou aplainar resultados (social ou politicamente) indesejáveis. Segundo este raciocínio, Smith exortava o legislador a regular o mercado para dar proteção contra ameaças internas e externas à segurança dos indivíduos e do Estado, ofertar justiça, fomentar a infraestrutura física adequada para desenvolver o comércio e as comunicações, regulamentar a moeda e o crédito, e educar seus administrados para equilibrar o efeito negativo da divisão do trabalho sobre sua qualidade intelectual. Por isso, Arrighi avalia que Smith não propugnou a típica teoria liberal do século xix de um governo minimalista e do mercado autorregulado ou do poder profilático das «terapias de choque» propaladas pelo Consenso de Washington no fim do século xx . Smith, portanto, no sentir de Arrighi, defende a intervenção do Estado para que o legislador contraponha o interesse dos que vivem de lucro, que pode, com certeza, chocar com o interesse social geral. Smith aconselha, pois, que o legislador compense o poder de mercadores e fabricantes fazendo‒os competir entre si e baixar preços e lucros para o fito de expandir a economia. Neste cenário, Smith, na interpretação do Autor, concebe o desenvolvimento econômico como o preenchimento com pessoas e capital físico («patrimonio») de um recipiente espacial («país»), que engloba um volume de recursos naturais e é configurado internamente e restringido externamente por leis e instituições. Quando o país tem capital de menos e tem déficit populacional, há grande potencial progressista de crescimento econômico. Quando o país tem capital total e está totalmente povoado, o potencial de crescimento tende a ser estacionário. Mais um motivo para que, nas palavras de Arrighi, a teoria smithiana impulsione a atividade do Estado para desenvolver o tino progressista ou alterar a posição estacionária da economia de mercado. O Autor relembra que Smith, portanto, se refere à China no fim do período imperial como exemplo de desenvolvimento com base no mercado e aponta seu limite. A tese smithiana destaca que o maior desenvolvimento chinês no comércio exterior poderia aumentar ainda mais a riqueza da China. Em que pese esta desvantagem, Smith estimava que a China, mais que a Europa, possuía o modelo de desenvolvimento econômico («curso natural das coisas») com base no mercado mais aconselhável a ser promovido. Por isso, o Autor comenta o escrito por Wong, Frank e Pomeranz que perceberam a incoerência entre a ideologia ocidental do livre mercado e a maior relevância factual da China no fim do período imperial para o teorizado em A riqueza das nações, daí se retira o instigante título: Adam Smith em Pequim. Na segunda parte, Rastreamento da turbulência global, o Autor utiliza a teoria smithiana para acompanhar a instabilidade global. Faz um paralelo da retração de 1873‒1896, período que teve como protagonista a Grã Bretanha e que David Landes identificou como a «deflação mais drástica da memória 202 Marco Aurélio Rodrigues da Cunha e Cruz humana», e a chamada «estagnação persistente» (Brenner) de 1973‒1993, época em que a principal atriz foi a economia estadunidense. Na retração do século xix a justificativa se circundou na competição entre os agentes da acumulação de capital europeus, o que se denominou de «luta económica» pela «guerra de preços», cumulados com a rápida expansão da produção, ocasionando a diminuição do lucro e a conseqüente «deflação mais drástica». Os governos se tornaram defensores ativos da indústria nacional, com políticas voltadas para o protecionismo e mercantilismo, potencializando a construção de impérios coloniais ultramarinhos. Esta propensão proporcionou a corrida armamentista entre as potências capitalistas em ascensão, tendo como maior beneficiário da recuperação da economia (1896‒1914) a Grã Bretanha. Enquanto sua supremacia industrial arrefecia, o sistema financeiro despontava, junto com os serviços de transporte, representação comercial, corretagem de seguros e intermediação no sistema mundial de pagamentos, período apelidado de belle époque. Esta época termina com a superveniência das duas Grandes Guerras e com o colapso econômico global da década de 1930. Ao iniciar a comparação deste (1873‒1914) com o outro período (1973‒1995), Arrighi aponta como motivo da estagnação persistente de 1973 o chamado «desenvolvimento desigual», que teve como origem o boom das décadas de 1950 e 1960 (Brenner), momento em que houve um círculo virtuoso de lucro elevado, altos investimentos e aumento da produtividade, e como estação terminal o alcance dos retardatários às economias dominantes na década de 1970, resultando no excesso da capacidade produtiva mundial e a conseqüente pressão de baixa sobre a margem de lucro (1965‒1973). Neste contexto, Arrighi responsabiliza as empresas e os governos capitalistas pelo fracasso em restaurar o nível anterior de lucratividade, com a eliminação da capacidade excedente. O Autor, então, diferencia os dois períodos de retração (1873‒1896/1973‒1993) com o argumento de que na década de 1970 os governos dos principais países capitalistas, mormente os Estados Unidos, utilizaram‒se da desvalorização e revalorização da moeda como modo de «luta competitiva», citando como exemplos a revolução monetarista de Reagan e Thatcher em 1979/1980 (que inverteu a desvalorização do dólar americano na década de 1970), o Acordo de Plaza de 1985 (que retomou a desvalorização do dólar) e o «Acordo de Plaza invertido» de 1995 (que mais uma vez reverteu a desvalorização). É interessante notar que este livro antecedeu a crise econômica mundial de 2008, fato que talvez parecesse estar previsto por Arrighi. Esta intuição está presente no texto, pois ao fazer referência à crise de 1930, o Autor aduz que «esse colapso é a única ocorrência, nos últimos 150 anos, que corresponde à imagem que Brenner faz do abalo do sistema com um todo ou <depressão completa>. Se esse é realmente o significado da imagem de Brenner, devemos 203 Giovanni Aghi: Adam Smith em Pequim: origens e fundamentos do século xx concluir que tal crise parece ter sido uma ocorrência excepcional, e não é o método capitalista <padrão> ou <natural> para recuperar a lucratividade» e, na seqüência, indaga «Cabe perguntar, então, se não estará em formação um colapso comparável, e se essa ocorrência é condição tão fundamental para a revitalização da economia global quanto Brenner parece pensar2». O Autor, ainda na linha comparativa, observa que a retração mais antiga (1873‒1896) ocorreu no meio da última e maior onda de conquistas territoriais (colonização do Sul pelo Norte), e que a retração mais recente (1976‒1993) se desenvolveu na oportunidade de maior descolonização da história mundial (também no contexto do desenvolvimento desigual). A gênese desta turbulência, ao seu juízo, foi a acumulação excessiva de capital em um contexto mundial de mercado revoltado com as práticas comerciais do Ocidente. Esta insurreição gerou a primeira crise hegemônica dos Estados Unidos no fim da década de 1960 e início da de 1970. A ação estadunidense foi competir, de modo combativo, pelo capital no mercado financeiro global e intensificar a corrida armamentista contra sua opositora, União Soviética, na década de 1980. Apesar do êxito político e econômico, esta postura norte‒americana criou laços de dependência, cada vez maiores, da riqueza nacional e do poder dos Estados Unidos com relação à poupança, ao capital e ao crédito de investidores estrangeiros. Neste tom, a hegemonia dos Estados Unidos, afetada em 1970‒1980, mas impulsionada com o New Deal, fomentou uma das maiores expansões da história capitalista, pautada, de certa forma, em lições smithianas. A saída para a retomada norte‒americana (belle époque) se deveu, segundo Arrighi, ao keynesianismo militar e social em escala mundial. Para explicar esta postura, o Autor recorda o fenômeno da «financeirização» da economia não financeira, trajetória análoga à do capital britânico um século antes, que também se valeu da financeirização para reagir à intensificação da concorrência industrial. Este fenômeno oportunizou aos Estados Unidos a possibilidade de derrotar a União Soviética na Guerra Fria e domar o Sul. As políticas de Washington durante a Guerra Fria intensificaram a concorrência entre os capitalistas, ao facilitarem a atualização e a expansão da produção japonesa e da Europa ocidental, e fortaleceram o papel social da mão de obra, pelo incentivo à busca do pleno emprego e ao consumo em massa. Entretanto, talvez já admitindo outro colapso, relembra Arrighi a intrigante frase do periódico De Borger (final da belle époque do capitalismo holandês ‒1778): «será a última vez e depois de mim o dilúvio» para encontrar uma linha de convergência entre as expansões financeiras e belles époques do capitalismo histórico e indicar que a principal diferença entre elas é, potencialmente, a maior repercussão devastadora que o declínio de um Estado hegemônico gera. 2 Pp. 127‒128. 204 Marco Aurélio Rodrigues da Cunha e Cruz Na terceira parte, A hegemonia desvendada, o Autor se dedica a examinar a atuação dos Estados Unidos no palco global, no período em que desempenha seu papel de Estado mais poderoso do mundo sem as restrições de outras grandes potências. Arrighi examina, prefacialmente, o duplo fracasso da guerra no Iraque, que tem conexão com a denominada «síndrome do Vietnã». O insucesso na Guerra do Vietnã foi, por certo, o principal propulsor para as «guerras por procuração» que travaram os estadunidenses (Nicarágua, Camboja, Angola, Afeganistão, apoio ao Iraque na guerra contra o Ira, Granada, Panamá e Líbia). Opina o Autor que a derrota final da União Soviética não eliminou a «síndrome do Vietnã», pois foi esta baseada na capacidade financeira superior norte‒americana e não se deveu à sua força militar. Do mesmo modo, a primeira Guerra do Golfo tampouco remediou a aludida «síndrome», porque Saddam Hussein não foi deposto do poder. O Autor assinala a sensata justificativa econômica para a política belicosa estadunidense ao frisar que a hegemony britânica (que também foi chamada de hegemoney) se diferiu da dominação norte‒americana, pois o capital estadunidense enfrentou a deterioração da posição competitiva das empresas ianques especializando‒se na intermediação financeira global. Neste sentido, os Estados Unidos não tinham um império territorial (como a Índia foi para a Grã Bretanha) do qual podia extrair recursos financeiros e militares. O poderio militar norte‒americano, portanto, seria essencial para a estabilidade política mundial, o que motivou a busca pelo poder e pela centralidade da economia política global. A belle époque norte‒americana da década de 1990 teve como base a ideia de que os Estados Unidos tinham a capacidade de serem responsáveis pelas funções globais de mercado de último recurso e de serem a potência político‒ militar indispensável, além da capacidade e disposição do resto do mundo de fornecer aos Estados Unidos o capital de que necessitavam para suas intenções. As «vitórias» contra o bloco soviético, na primeira Guerra do Golfo, na Guerra da Iugoslávia e a emersão da bolha da nova economia estimularam a relação sinérgica entre poder e riqueza norte‒americanos, de um lado, e o fluxo de capital estrangeiro, de outro. Neste contexto, Arrighi aponta que os privilégios de senhoriagem estadunidenses se tornaram a principal fonte de financiamento das guerras que eles eram partícipes, ou autores. O capital estrangeiro, portanto, forneciam bens, serviços e recursos aos Estados Unidos em troca de títulos ianques. Diante desta conjuntura, ao mencionar a desvalorização de 35% do dólar em relação ao euro e 24% diante do iene no fim de 2004, o Autor prevê, mais uma vez, o colapso financeiro mundial de 2008 ao grafar que «Ao que parece, o <maior calote da história> ainda está por acontecer»3. Arrighi ressalta que somente em 2001 houve o rompimento com a década de 1990, pela reação ao 11 de setembro e a adoção do Projeto para o Novo 3 P. 208. 205 Giovanni Aghi: Adam Smith em Pequim: origens e fundamentos do século xx Século Norte‒Americano. O Autor traça uma semelhança entre este e o «primeiro século norte‒americano», que foi reflexo da pax americana que teve a intenção de reagir à Grande Depressão (1930) e ao surgimento do fascismo na Europa, unidos ao Pearl Harbor. Roosevelt ao exortar os sentimentos ideológicos de nacionalismo, elaborou uma ideia de imperialismo, prometendo ordem, segurança e justiça ao seu povo. Alega que a aventura militar iraquiana ratifica o erro da desastrosa Guerra do Vietnã, é dizer, que o átimo da força ocidental atingiu o seu limite e tendeu a implosão. Neste contexto, a China aparece como nova potência e parecer ser a vencedora da guerra dos Estados Unidos contra o terror. A ocupação do Iraque comprometeu a credibilidade do poderio militar dos Estados Unidos, reduziu incisivamente sua centralidade e sua moeda na economia política global e promoveu a China como alternativa à liderança ianque na Ásia oriental e em outras regiões. Na última parte, Linhagens da nova era asiática, o Autor se empenha em traduzir a «ascensão pacífica» econômica chinesa, centrando sua análise nas condições históricas, sociológica e políticas. A China tinha uma economia de mercado estabelecida, de maneira robusta, nas cadeias de mercados locais, uma população numerosa de pequenos artesãos e mercadores itinerantes, movimentadas ruas comerciais e centros urbanos. Desenvolveram‒se grandes organizações comerciais que controlavam redes extensas de intermediários e fornecedores. As melhores oportunidades de desenvolvimento na Ásia oriental se radicavam na orla externa dos Estados do sistema. Este foi o motivo da diáspora ultramarina chinesa, que obteve um lucro exponencial e aprovisionou um fluxo constante de receita para os governos locais e de remessas de valores para as regiões litorâneas da China. A queda do império Zheng e a adoção de uma política introvertida de Qing resultou na desmilitarização dos mercadores chineses e na forte contração do comércio entre os países asiáticos a partir do final do século xviii . A partir de então, houve abertura para a incorporação da Ásia oriental à estrutura do sistema globalizante voltado para o Reino Unido. O sistema de relações interestatais da Ásia oriental se caracterizou, portanto, por uma dinâmica econômica de longo prazo, que tem raízes no século xviii e início do século xix , (que por sua vez teve como alicerce a formação do mercado nacional dos períodos Ming e Qing), e que primou pela introversão da luta pelo poder e gerou uma combinação de forças políticas e econômicas sem tendência à expansão territorial «interminável». O atrativo para o capital estrangeiro, pois, deve‒se a imensa reserva de mão de obra barata e a qualidade desta, em termos de saúde, educação e capacidade de autogerenciamento, combinada à expansão rápida das condições de oferta e demanda para a mobilização produtiva. Discute, neste sentido, a tese de Sugihara de que a densa competição entre os principais atores da Guerra Fria e o resgate do sentimento nacionalista geraram na Ásia oriental uma atmosfera geopolítica propícia para