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Política, poder e género nas séries televisivas europeias Borgen (Dinamarca) e Le Baron Noir (França)

Cunha, Isabel Ferin

Abstract

Nesta exposição, analisa-se como a Política, o Poder e o Género são representados nas séries televisivas europeias Borgen (Dianamarca) e Le Baron Noir (França). Borgen foi exibida entre 2010 e 2013 e tem como protagonista principal, Birgitte Nyborg, uma candidata de um pequeno partido político que se torna, mais tarde, primeira-ministra dinamarquesa. Le Baron Noir é uma série francesa (2016- 2020) que tem como protagonistas principais Philipe Rickwaert e Amélie Dorendeu, militantes destacados do partido socialista francês e candaditos à presidência. As duas obras de fição focam a mediatização e a profissionalização da política; a complexidade da tomada de decisões; as contradições entre a realpolitik e a moral, bem como os desafios pessoais que se colocam aos atores políticos, nomeadamente às mulheres. O objetivo do artigo é identificar semelhanças e diferenças entre as duas séries nos aspetos ficcional, polítíco e na abordagem do exercício do poder em função do género. Com vista a contextualizar a análise, o estudo traça um breve histórico das obras de ficção televisiva exibidas em Portugal, com ênfase na política e nas questões de género. A metodologia utilizada é ensaística e fundamenta-se na análise das personagens e trajetórias das protagonistas femininas, a partir de categorias pré-definidas, com base em princípios da teoria da narratologia.

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Como citar este artículo: FERIN-CUNHA, Isabel (2021: “Política, poder e género nas séries televisivas europeias: Borgen (Dinamarca) e Le baron noir (França)”, en Revista Internacional de Historia de la Comunicación, (16), pp. 254-280. © Universidad de Sevilla 1 POLÍTICA, PODER E GÉNERO NAS SÉRIES TELEVISIVAS EUROPEIAS BORGEN (DINAMARCA) E LE BARON NOIR (FRANÇA) Politics, Power and Gender in the European television series Borgen (Denmark) and Le Baron Noir (France) DOI: http://dx.doi.org/10.12795/RiCH.2021.i16.12 Recibido: 22-4-2021 Aceptado: 10-6-2021 Publicado: 30-5-2021 Isabel Ferin-Cunha Universidade de Coimbra, Portugal barone.feri[email protected] ORCID https://orcid.org/0000-0001-8701-527X 250 Como citar este artículo: FERIN-CUNHA, Isabel (2021: “Política, poder e género nas séries televisivas europeias: Borgen (Dinamarca) e Le baron noir (França)”, en Revista Internacional de Historia de la Comunicación, nº 16, 2021, pp. 250-275. http://dx.doi.org/10.12795/RiCH.2021.i16.12 Isabel Ferin-Cunha Revista internacional de Historia de la Comunicación, Nº16, año 2021, ISSN 2255-5129, pp. 254-280 2 Resumo: Nesta exposição, analisa-se como a Política, o Poder e o Género são representados nas séries televisivas europeias Borgen (Dianamarca) e Le Baron Noir (França). Borgen foi exibida entre 2010 e 2013 e tem como protagonista principal, Birgitte Nyborg, uma candidata de um pequeno partido político que se torna, mais tarde, primeira-ministra dinamarquesa. Le Baron Noir é uma série francesa (20162020) que tem como protagonistas principais Philipe Rickwaert e Amélie Dorendeu, militantes destacados do partido socialista francês e candaditos à presidência. As duas obras de fição focam a mediatização e a profissionalização da política; a complexidade da tomada de decisões; as contradições entre a realpolitik e a moral, bem como os desafios pessoais que se colocam aos atores políticos, nomeadamente às mulheres. O objetivo do artigo é identificar semelhanças e diferenças entre as duas séries nos aspetos ficcional, polítíco e na abordagem do exercício do poder em função do género. Com vista a contextualizar a análise, o estudo traça um breve histórico das obras de ficção televisiva exibidas em Portugal, com ênfase na política e nas questões de género. A metodologia utilizada é ensaística e fundamenta-se na análise das personagens e trajetórias das protagonistas femininas, a partir de categorias pré-definidas, com base em princípios da teoria da narratologia. Palavras-Chave: Séries; Ficção Política; Política e Género; Borgen; Le Baron Noir. Resumen: En esta exposición analizamos cómo la Política, el Poder y el Género están representados en las series de televisión europeas Borgen (Dinamarca) y Le Baron Noir (Francia). Borgen se mostró entre 2010 y 2013 y está protagonizada por Birgitte Nyborg, candidata de un pequeño partido político que luego se convierte en primera ministra danesa. Le Baron Noir es una serie francesa (2016-2020) cuyos principales protagonistas son Philipe Rickwaert y Amélie Dorendi, destacados miembros del partido socialista francés y candidatos a la presidencia. Las dos obras de ficción se centran en la cobertura mediática y la profesionalización de la política; la complejidad de la toma de decisiones; las contradicciones entre la realpolitik y la moral, así como los desafíos personales que enfrentan los actores políticos, a saber, las mujeres. El objetivo del artículo es identificar similitudes y diferencias entre las dos series en términos de ficción, política y el enfoque del ejercicio del poder basado en el género. Para contextualizar el análisis, el estudio traza una breve historia de las obras de ficción televisiva mostradas en Portugal, con énfasis en la política y las cuestiones de género. La metodología utilizada es ensayística y se basa en el análisis de los personajes y trayectorias de las protagonistas femeninas, a partir de categorías predefinidas, a partir de principios de la teoría de la narratología. Palabras clave: Serie; Ficción política; Política y género; Borgen; Le Baron Noir. Abstract: In this paper, we analyse how Politics, Power and Gender are represented in the European television series Borgen (Denmark) and Le Baron Noir (France). Borgen was shown between 2020 and 2013 and its main protagonist, Birgitte Nyborg, is a candidate for a small political party that later becomes Danish Prime Minister. Le Baron Noir is a French series (2016-2020) whose main protagonists are Philipe Rickwaert and Amélie Dorendeu, prominent militants of the French socialist party and candidates for the presidency. The two fictions focus on media coverage and the professionalization of politics; the complexity of decision-making; the contradictions between realpolitik and morals, as well as the personal challenges facing political actors, namely women. The aim of the article is to identify similarities and differences between the two series in the Revista internacional de Historia de la Comunicación, Nº 16, año 2021, ISSN 2255-5129, pp. 250 - 275 http://dx.doi.org/10.12795/RiCH.2021.i16.12 251 Política, poder e género nas séries televisivas europeias: Borgen (Dinamarca) e Le baron noir (França) Isabel Ferin-Cunha Política, poder e género nas séries televisivas europeias: Borgen (Dinamarca) e Le baron noir (França) Revista internacional de Historia de la Comunicación, Nº16, año 2021, ISSN 2255-5129, pp. 254-280 3 fictional and political aspects considered gender-based aspects of the exercise of power. To contextualize the analysis, the study traces a brief history of television fiction shown in Portugal, with an emphasis on politics and gender issues. The methodology used is essayistic and is based on the trajectories of the female protagonists, from pre-defined categories, based on principals of the narratology theory. Keywords: Series; Political Fiction; Politics and Gender; Borgen; Le Baron Noir. Introdução Os temas da política e do poder na ficção merecem, há décadas, grande atenção na literatura e, posteriormente, na filmografia e na televisão, onde surgem nas suas variantes e formas de atividade humana, exprimindo uma relação dialética entre indivíduos, sexos, grupos, coletividades, instituições, nações, países e regiões. A temática reflete a tensão permanente que articula o espaço público e o privado, envolvendo instituições e sistemas de governação; opções políticas e económicas e, em simultâneo, condicionando as vivências e experiências quotidianas da vida humana. A associação entre política e poder confere à ficção uma variedade de scripts que ora privilegia a capacidade de negociação dos indivíduos ou grupos, ora apresenta instrumentos de coação de diversa natureza— física, psicológica, sexual, moral, ética, económica, política e outros—, ora obriga os “mais fracos” a submeterem-se aos “mais fortes”. Estes procedimentos inspiram-se não só na tradição, no costume e na lei, como na capacidade de persuasão, legitimando-se pelo carisma ou por expedientes de coação física e psicológica (Bobbio, 2004). O entendimento que se tem da natureza da ficção política considera que estas obras — na literatura, no teatro, no cinema, na televisão ou em streaming — tendem a discutir ideias, formas de governo, ou decisões legislativas, embora não se eximam a confrontar carácteres, trajetórias de vida e emoções de personagens (Hoffmann, 2010). Com estes elementos, os autores, roteiristas e criadores de ficção procuram colocar em cena os bastidores da vida política —os dramas e conflitos morais, éticos e emocionais dos decisores— expondo as antecâmaras do poder e da política. Alguns tipos de ficção são, particularmente, desenvolvidos, tais como os que procuram fazer uma reconstrução histórica; os que têm como objetivo a intervenção social; os que almejam utilizar a estória como instrumento de alfabetização ou de denúncia; ou ainda os que visam a reinterpretação de fenómenos, acontecimentos ou processos políticos (Hoffmann, 2010). Em simultâneo, os autores e criadores procuram direcionar o seu olhar para um país, nação, grupo ou indivíduo, independentemente do género, criando contextos e situações específicas no desenrolar de uma obra de ficção política (Bondebjerg, 2015). A introdução de questões de género, nas séries televisivas e em streaming, veio diversificar as tramas, adensando e complexificando os roteiros, ao acentuar os conflitos Revista internacional de Historia de la Comunicación, Nº 16, año 2021, ISSN 2255-5129, pp. 250 - 275 http://dx.doi.org/10.12795/RiCH.2021.i16.12 252 Política, poder e género nas séries televisivas europeias: Borgen (Dinamarca) e Le baron noir (França) Isabel Ferin-Cunha Isabel Ferin-Cunha Revista internacional de Historia de la Comunicación, Nº16, año 2021, ISSN 2255-5129, pp. 254-280 4 vividos pelas mulheres na política (Paxton, Hughes e Kunovich, 2007; Cabrera e Martins, 2019). O foco nas questões de género introduziu novos debates sobre as tensões entre a vida pública e os espaços privados; entre as decisões racionais e o direito à emoção, fundadas em estereótipos culturais e sociais associados às caracterizações de género (Silveirinha, Peixinho e Santos, 2010). O acesso, via streaming, a estes produtos aumentou exponencialmente o seu consumo e consolidou uma vertente de produção que proporciona, aos espectadores, exposição, reflexão e participação na política em sentido lato. O olhar sobre a ficção política é, naturalmente, condicionado pelas trajetórias e pelos contextos da exibição. Em Portugal, mesmo no período da ditadura, terminada a 25 de abril de 1974, e ressalvadas as condicionantes sociais do país, havia acesso a obras, de diferentes nacionalidades, que eram exibidas na televisão pública, Rádio Televisão Portuguesa (RTP). Na vida política portuguesa, no pós-Revolução democrática de 1974, observa-se uma sub-representação e invisibilidade das mulheres (Cabrera e Martins, 2019). A questão do género na política, surgia subtilmente e a partir de estereótipos consolidados sobre as mulheres e o seu “lugar/função” na sociedade, em obras de teatro, séries e filmes de origem norte-americana. A entrada de operadores privados no mercado televisivo, nos anos 90 em Portugal, veio trazer novas dinâmicas à compra de produtos e à produção. A importação de telenovelas brasileiras tonou-se dominante e alimentou, por uma década, os canais públicos e privados (Cunha, 2003). Esta realidade não foi, no entanto, excludente, na medida em que produtos de origem britânica e americana continuaram a circular, enquanto surgia uma indústria nacional de ficção que se afirmou com o início do milénio, por meio de telefilmes, telenovelas e séries. A chegada de novas tecnologias, como o cabo e a fibra, e dos canais pagos, on demand e em streaming, criou uma dinâmica cosmopolita de partilha e visionamento onde se insere a análise das obras Borgen e Le Baron Noir. O objetivo deste artigo é refletir, a partir das séries Borgen (Dianamarca, 2010-2013) e Le Baron Noir (França, 2016-2020), sobre como as mulheres são representadas no exercício de altos cargos de poder nas democracias europeias. Trabalhos como os de Popovié (2019), Silveirinha, Peixinho e Santos (2012), bem como de Paxton, Kunovich, Hughes (2007) inspiraram esta análise. Sendo Portugal um pequeno país europeu, como a Dinamarca, mas sem a tradição de participação política feminina, este exercício de análise pretende esclarecer os constrangimentos e dilemas que, ainda no século XXI, as mulheres enfrentam na política. O foco da análise incide nos percursos e na representação das mulheres, em altos cargos de governação, embora se refira outras personagens e contextos de poder. A série dinamarquesa Borgen é da autoria de Adam Price, Tobias Lindholm e Jeppe Gram, tendo sido transmitida na Danmarks Radio, em três temporadas de 10 episódios cada, entre 2010 e 2013. A protagonista principal, Birgitte Nyborg, é uma candidata, Revista internacional de Historia de la Comunicación, Nº 16, año 2021, ISSN 2255-5129, pp. 250 - 275 http://dx.doi.org/10.12795/RiCH.2021.i16.12 253 Política, poder e género nas séries televisivas europeias: Borgen (Dinamarca) e Le baron noir (França) Isabel Ferin-Cunha Política, poder e género nas séries televisivas europeias: Borgen (Dinamarca) e Le baron noir (França) Revista internacional de Historia de la Comunicación, Nº16, año 2021, ISSN 2255-5129, pp. 254-280 5 casada e com filhos adolescentes, pertencente a um pequeno partido político, que se torna, mais tarde, primeira-ministra dinamarquesa. Le Baron Noir, série francesa exibida em três temporadas, entre 2016 e 2020, no Canal +, é de autoria de Eric Benzekri e JeanBaptiste Delafonm. A série tem como protagonista principal Philipe Rickwaert, um exoperário, ex-presidente da câmara de Dunkerque, conselheiro do Partido Socialista Francês e spin doctor dos candidatos a presidentes da República e por fim, ele mesmo, candidato a presidente de França. Nesta exposição, o foco de interesse situa-se na personagem de Amélie Dorendeu, membro destacado e assessora de um Presidente da República, ao qual sucederá, graças aos conselhos do spin doctor Philipe Rickwaert. A partir de uma leitura exterior ao lugar de produção, isto é, realizada em contexto sócio-político português, pretende-se identificar semelhanças e diferenças entre as duas séries, tanto no aspeto ficcional, como polítíco, assim como na abordagem das questões de género. Salienta-se que a série Borgen antecipou, a eleição na Dinamarca de uma mulher para primeira-ministra, e Le Baron Noir acompanhou a emergência de novas forças políticas, nomeadamente o despontar de Emmanuel Macron, posteriormente eleito presidente de França (2018). Utiliza-se uma perspetiva metodológica ensaística, com base em princípios da teoria da narratologia e media, explicitada em Reis (2018), Hühn, Pier, Schmid e Schönert (2009), Fludernick (2006), Fulton, Huisman, Murphet e Dunn (2005). Por se tratar de séries exibidas em Portugal, com um corpus constituído por duas séries em línguas estrangeiras, dinamarquesa (Borgen) e francesa (Le Baron Noir), a análise não incidirá no discurso, mas privilegiará a identificação de lugares, cenários e situações; a construção de personagens e os seus traços cognitivos. Em simultâneo, objetiva-se compreender como as duas séries descrevem e detalham os territórios da política, bem como perceber se as séries distinguem o exercício do Poder em função do género (Stegger Gemzøe, 2020). Nesta última perspetiva, pretende-se investigar: 1) os traços que caracterizam a personagem principal de Borgen, tendo como hipótese a ideia de “utopia da política”, encenada no feminino pela primeira-ministra; 2) os elementos constitutivos da personagem de Amélie Dorendeu em Le Baron Noir, como a consubstanciação da realpolitik, assumida pelas mulheres, na luta pelo poder. Revista internacional de Historia de la Comunicación, Nº 16, año 2021, ISSN 2255-5129, pp. 250 - 275 http://dx.doi.org/10.12795/RiCH.2021.i16.12 254 Política, poder e género nas séries televisivas europeias: Borgen (Dinamarca) e Le baron noir (França) Isabel Ferin-Cunha Isabel Ferin-Cunha Revista internacional de Historia de la Comunicación, Nº16, año 2021, ISSN 2255-5129, pp. 254-280 6 1 A construção do olhar exterior: marcos do feminino na ficção política seriada em Portugal O mercado televisivo em Portugal nasce no início dos anos noventa, com a criação de duas televisões privadas: a Sociedade Independente de Comunicação (SIC, 1992) e a Televisão Independente (TVI, 1993). Estas estações vieram juntar-se aos dois canais públicos da Rádio Televisão Portuguesa, fundados ainda sob a ditadura: a RTP1, em 1957 e a RTP2, em 1968. Desde o início das emissões regulares das estações públicas, a ficção assumiu um papel estruturante nas grelhas de programação, com ênfase em formatos como o teleteatro, o filme e o folhetim. Entre produções domésticas e importadas o leque de opções envolvia a produção nacional, norte-americana, britânica e, mais esporadicamente, a francesa. A produção em língua castelhana ganhou, neste cenário, alguma representatividade com base em filmes direcionados para crianças e jovens, interpretados por Marisol e Joselito, que alimentaram, não só os esterótipos de self made women/self made man no mundo latino, como uma indústria discográfica, em crescimento, nos finais da década de 50 e inícios de 60 (Cunha, 2003). A primeira grande ruptura, na oferta da televisão pública acontece em 1977, no período pós revolução do 25 de Abril de 1974, quando é importada do Brasil a telenovela Gabriela, produzida pela TV Globo, baseada no romance do escritor brasileiro Jorge Amado. Esta telenovela abordava as desigualdades sociais, o poder instalado dos senhores da terra, bem como a submissão das mulheres na vida pública e privada. A sua exibição, num clima pós revolução, trouxe, para Portugal, temas, dilemas, conflitos e aspirações com que os portugueses, e as portuguesas, se identificaram maioritariamente, contribuindo para a emancipação e a mudança do papel da mulher na sociedade (Cunha, 2003). Dos anos setenta aos noventa, do século XX, a televisão pública mantém uma programação muito centrada, no prime-time, nas telenovelas brasileiras, embora exiba outras obras, tais como teatro, cinema e soap operas, como a americana Dallas, estreada em 1981, com grande sucesso. A literatura académica sobre as soop opera tende a criticar o formato, embora haja autores que o defendam (Ang, 1985), por reforçar o poder patriarcal e relegar as mulheres para um quotidiano de papéis tradicionais (Geragthy, 1991; Blumenthal, 1997). De salientar, em 1993, a adaptação humorística que foi realizada da série britânica, Yes, Minister (1980), com o título A Mulher do Senhor Ministro, centrada nos bastidores da governação portuguesa. Na adaptação, prevalece o cenário doméstico e pontifica a mulher do ministro que exerce, a partir das rotinas do casamento, poder e influência nas decisões governamentais. O aparecimento dos canais privados, no início da década de 90, do século passado, inaugurou um mercado concorrencial entre operadores de televisão. As telenovelas Revista internacional de Historia de la Comunicación, Nº 16, año 2021, ISSN 2255-5129, pp. 250 - 275 http://dx.doi.org/10.12795/RiCH.2021.i16.12 255 Política, poder e género nas séries televisivas europeias: Borgen (Dinamarca) e Le baron noir (França) Isabel Ferin-Cunha Política, poder e género nas séries televisivas europeias: Borgen (Dinamarca) e Le baron noir (França) Revista internacional de Historia de la Comunicación, Nº16, año 2021, ISSN 2255-5129, pp. 254-280 7 brasileiras passaram a ser exibidas, no prime-time, tanto na RTP1, canal público, como na SIC, canal privado. A ambientação e a denúncia política perpassam muitas destas obras, particularmente nas que focaram os anos de ditadura no Brasil, conferindo às mulheres grande visibilidade e protagonismo, como nas mini-séries Anos Dourados (1986) e Anos Rebeldes (1992), produzidas pela Rede Globo. Mas, em simultâneo, e em grande parte destas produções, há uma tendência à sexualização, erotização e sensualização da mulher. Esta realidade, que leva à criação de imagens conotadas com a “mulher objeto”, promove um conjunto de leituras críticas presentes em muitos textos académicos, e feministas, sobre estes produtos no Brasil (Mota, 2015; Baccega e Rocha, 2016). A produção portuguesa da década de 90, e início do milénio recorre, quer ao desenvolvimento de telenovelas e às séries nacionais, quer à produção de telefilmes. As temáticas histórico-políticas estão presentes, com a evocação do fim da monarquia (O Dia do Regicídio, 2007), a Primeira República (Noite Sangrenta, 2010), a ditadura (Até Amanhã Camaradas, 2005, e a A Vida Privada de Salazar, 2008), a guerra colonial (A Noiva, 2001), a revolução de 25 de Abril de 1974 (Capitães de Abril, 1999) ou o regresso dos portugueses das ex-colónias (Depois do Adeus, 2012-13) (Burnay, 2014). Nestas produções, apesar das mulheres aparecerem como protagonistas, em alguns casos destacadas, há uma subalternização constante do seu papel social e a assunção dos estereótipos convencionais, tais como “mulher mãe”, “mulher companheira”, “mulher salvadora”, “mulher fatal” ou “mulher sedutora”. Entende-se estereótipo como um processo de categorização social, empreendido por indivíduos ou grupos que compartilham imagens mentais hipersimplificadas de determinada categoria de indivíduo, instituição ou acontecimento (Lippman, 1922). Nas telenovelas brasileiras, os estereótipos tendem a refletir quer as imagens que os grupos têm de si mesmos (autoestereótipo), quer as imagens que os grupos têm de outros grupos (héteroestereótipos), assumindo, por vezes, a forma de preconceitos. Em Portugal, a visualização diária, e contínua, destes produtos está associada ao crescimento do estigma face às muheres brasileiras migrantes no final da década de noventa e início do milénio (Cunha, 2011; Padilla e França, 2015). Neste período, é também relevante a produção de séries ou telefilmes, muitas veses em regime de co-produção com o Brasil, que utilizou a literatura clássica portuguesa, de escritores como Eça de Queirós (Sobral, 2016), para dar corpo às questões políticas e de género. Outras obras, como a Jóia de África (2002) e Equador (2008), produzidas pela TVI, sobressaem, na primeira década do milénio, por serem rodados em Moçambique, São Tomé e Príncipe e Brasil, e abordarem, não só o poder colonial como a escravatura e a condição feminina nesses períodos. Estão presentes, em ambas as telenovelas, os estereótipos associados à mulher e à sexualidade em ambientes tropicais, retomando a ideia colonial da “mulher sensual e disponível” e que “tudo vale abaixo do equador” (Trexler, 1995). Estas obras, as suas temáticas, bem como os padrões estéticos e Revista internacional de Historia de la Comunicación, Nº 16, año 2021, ISSN 2255-5129, pp. 250 - 275 http://dx.doi.org/10.12795/RiCH.2021.i16.12 256 Política, poder e género nas séries televisivas europeias: Borgen (Dinamarca) e Le baron noir (França) Isabel Ferin-Cunha Isabel Ferin-Cunha Revista internacional de Historia de la Comunicación, Nº16, año 2021, ISSN 2255-5129, pp. 254-280 8 audiovisuais contribuiram para despertar o interesse académico por estes produtos (Cunha, Castilho, Guedes, 2017). A partir da segunda ´década do milénio, aumenta o número de obras de ficção seriada portuguesa e a qualidade técnica das mesmas, mas a migração de grande número de espectadores para a programação on demand e a cabo, faz com que os canais abertos de televisão, abandonem temáticas complexas, dado o público-alvo estar circunscrito a mulheres mais velhas e suburbanas consideradas, “menos exigentes” (Burnay, 2014). A aposta passa a centrar-se na filmografia, onde surge um número considerável de mulheres, que reinvidicando o seu lugar e a temática do feminino, debatem temas universais, com projeção internacional, como Teresa Villaverde (ex. Colo, 2017), Maria de Medeiros (ex. Aos Nossos Filhos, 2019) ou Leonor Telles (ex. Balada de um Batráquio, 2016). Deste modo, a partir da segunda década do milénio, a proliferação dos canais a cabo, e a massificação do streaming, conferiram uma outra dinâmica ao consumo de ficção política seriada e à centralidade das questões de género. A entrada de tecnologias como a ADSL e a Internet, sobretudo a partir de 2006, permitiram serviços por cabo, on demand e em streaming que alinhou os consumos portugueses aos internacionais. Salienta-se, na perspetiva da política e do protagonismo da mulher, três séries americanas com impacto em Portugal: The Good Wife, emitida entre 2009-2016, em nove temporadas, produzida nos Estados Unidos pela CBS e, em Portugal, exibida no canal pago FOX Live; Scandal, emitida entre 2012-2018, em sete temporadas, produzida nos Estados Unidos pela ABC e difundida em Portugal pela FOX Live e House of Cards, com difusão entre 20132019, em seis temporadas, produzida pela Netflix. As três séries, ambientadas nos Estados Unidos, duas em Whashington (Scandal e House of Cards) e uma em Chicago (The Good Wife), põem em cena o acesso, o exercício e os conflitos políticos que envolvem o Poder. No centro de cada estória, há uma personagem feminina, pertencente a uma elite profissional e política — Alicia Frolick (The Good Wife), Olivia Pope (Scandal) e Claire Underwood (House of Cards) — que enfrenta desafios pessoais, familiares e profissionais. As personagens, densas e complexas, movimentam-se no espaço político, seguindo trajetórias independentes às dos seus companheiros ou patrões (Biscarrat, 2017). Os cenários urbanos, a sofisticação dos ambientes, os simbolos de poder, o ritmo das narrativas e os discursos, criam personagens femininas assertivas, cerebrais e capazes de refrear emoções perante os jogos de poder, onde participam com instrumentos jurídicos, políticos e comunicacionais especializados, reinventando formas de sedução e atração sexual. De salientar o conhecimento que as três personagens demonstram acerca do papel dos media, da mediatização da política, bem como da gestão da imagem no espaço público. Em The Good Wife a protagonista, mulher de um promotor americano acusado de corrupção, e envolvido em escândalos sexuais, debate-se com a imprensa, sequiosa de pormenores sórdidos. Em Scandal a protagonista é ex-assessora de Comunicação, da Casa Branca, e gere uma agência de crises que lida, diariamente, com escândalos Revista internacional de Historia de la Comunicación, Nº 16, año 2021, ISSN 2255-5129, pp. 250 - 275 http://dx.doi.org/10.12795/RiCH.2021.i16.12 257 Política, poder e género nas séries televisivas europeias: Borgen (Dinamarca) e Le baron noir (França) Isabel Ferin-Cunha Política, poder e género nas séries televisivas europeias: Borgen (Dinamarca) e Le baron noir (França) Revista internacional de Historia de la Comunicación, Nº16, año 2021, ISSN 2255-5129, pp. 254-280 9 mediáticos a fim de controlar danos na imagem de figuras públicas. Em House of Cards, Claire Underwood, mulher do presidente, utiliza em muitas situações os media, e os seus profissionais, para os seus objetivos especificos, gerindo interesses privados e públicos, por meio de fugas de informação (Popovié, 2017; Coletti, 2017; Maeseele, 2019). Estas séries políticas americanas consolidaram, em Portugal, um nicho de mercado de audiências, em que se inserem as séries Borgen e Le Baron Noir. Ao mesmo tempo, as três personagens femininas de elite impulsionaram a formação de um novo público composto por mulheres, profissionais qualificadas e urbanas, que se revêem nas estratégias de afirmação, pautadas por constantes obstáculos e provocações, apresentadas nessas obras. 2 A natureza da ficção política seriada O impulso à mediatização da sociedade, a partir do desenvolvimento das tecnologias de informação e comunicação, nos anos noventa do século passado, tais como a internet e as redes sociais, incentivou a mediatização da política. Este fenómeno em expansão, sobretudo nos Estados Unidos, desde os anos sessenta, alterou a relação dos cidadãos com a democracia em geral, principalmente promovendo a descrença na política, nos políticos e nos atos eleitorais (Norris, 2000). Num mercado concorrencial, onde os dispositivos digitais e as redes sociais impuseram a informação imediata e instantânea, a imprensa e o jornalismo tendem a adotar parâmetros de verificação da vida política que privilegiem a informação/entretenimento (Brants, 1998). Ao mesmo tempo, a crescente centralidade dos media e das tecnologias de informação e comunicação fazem com que estas instituições assumam um protagonismo social de direito próprio (Hjarvard, 2013). Desde os anos sessenta, do século passado, que o declínio da esfera pública é atribuído à televisão e ao audiovisual (Habermas, 1962; Thompson, 2000), situação que se reconfigurou com a expansão da internet e do digital (Highfield, 2016). Este novo contexto mediático veio alterar, profundamente, a relação entre a política e os media, por um lado, a forma de fazer política e os políticos, incorporaram estratégias de comunicação, por outro lado, os media transformaram-se em atores políticos. Neste processo, instalou-se uma luta contante, entre os dois campos, pela definição de “agendas públicas”, acompanhada de um permanente escrutínio dos media e dos cidadãos, sobre essas mesmas figuras (Bondebjerg, 2014). A crescente pressão sobre a democracia, e sobre os seus partidos tradicionais, constitui o pano de fundo para a dinâmica das atuais séries de ficção política. Os roteiros e as tramas ficcionais tendem a surgir, cada vez mais, como uma forma de os cidadãos tomarem conhecimento, ou mesmo se alfabetizarem, acerca dos processos de governação e dos procedimentos político-partidários em democracia (Lefebvre e Taïeb, Revista internacional de Historia de la Comunicación, Nº 16, año 2021, ISSN 2255-5129, pp. 250 - 275 http://dx.doi.org/10.12795/RiCH.2021.i16.12 258 Política, poder e género nas séries televisivas europeias: Borgen (Dinamarca) e Le baron noir (França) Isabel Ferin-Cunha Isabel Ferin-Cunha Revista internacional de Historia de la Comunicación, Nº16, año 2021, ISSN 2255-5129, pp. 254-280 16 quotidiano que se articula entre o espaço privado de um apartamento de família e o espaço público das instalações governamentais e políticas. Esta análise reforça a definição geral de esfera pública moderna, entendida como o conjunto de locais físicos ou virtuais onde ideias e sentimentos, relevantes para a política, são transmitidos ou trocados. Ao mesmo tempo, acentua a ideia de esfera pública difusa, caracterizada por uma profusão de canais de comunicação que proporcionam a permeabilidade entre a esfera política e a esfera privada (Bennett e Entman, 2001). Deste modo é possível identificar, em ambos os enredos, as componentes e as situações dos espaços políticos, dos espaços mediáticos, dos espaços familiares e dos espaços sociais, e as suas interrelações, bem como as relações entre estas características em ambos os enredos (Bondebjerg,2014). No entanto há diferenças observáveis nas duas séries, pois enquanto a série dinamarquesa apresenta uma dimensão da história mais circunscrita, territorialmente espelhada na simplicidade e austeridade das instalações e nas proporções dos espaços físicos, a série francesa apropria-se dos símbolos imponentes de governação da República, dos palácios majestosos, das salas de espelhos ornamentadas, dos imensos corredores que levam a gabinetes sumptuosos e de estilo reconhecido. Borgen que em português seria “O Castelo”, é a designação popular que remete para o Palácio de Christiansborg, onde estão instalados os três ramos do governo dinamarquês: o parlamento, o gabinete do primeiro-ministro e a suprema corte. Birgitte Nyborg transita entre estes locais públicos e os espaços privados, do seu apartamento à escola dos filhos, e anda pelas ruas a pé ou de bicicleta. A personagem principal masculina da série francesa Le Baron Noir, decalcada na figura política do deputado francês da esquerda socialista Julien Dray, circula entre a região indústrial e portuária de Dunkerque, onde tem uma casa modesta, e Paris, local onde fica num hotel pouco sofisticado. A personagem feminina Amélie Durandeau, de origem burguesa, move-se entre reuniões na sede do PS, os corredores do palácio presidencial, o Palácio do Eliseu, e o seu quarto ambientado num apartamento de luxo. A utilização de carros oficiais e a passagem pelas ruas da capital francesa é constante e o cidadão está ausente nessas deslocações. O enredo privilegia panoramos e vistas do Hotel Matignon, sede do Primeiro-Ministro francês, o Palácio do Luxemburgo, onde se reúne o Senado, e o Palácio de Bourbon, sede da Assembléia Nacional. Na série dinamarquesa os espaços dos media, da imprensa, da televisão, das redações e dos estúdios, são cenários com alguma frequência, ao contrário do que acontece na série francesa, onde os media surgem na forma de notícias televisivas ou intervenção de jornalistas. Borgen mostra, de uma forma muito clara, os bastidores dos media, as reuniões de redação, a pressão pela “cacha” informativa, os telefonemas entre spin doctors, diretores de imprensa e jornalistas, mostrando como o mundo politico, jornalístico e de comunicação estão imbricados. Esta relação consubstancia-se em três Revista internacional de Historia de la Comunicación, Nº 16, año 2021, ISSN 2255-5129, pp. 250 - 275 http://dx.doi.org/10.12795/RiCH.2021.i16.12 265 Política, poder e género nas séries televisivas europeias: Borgen (Dinamarca) e Le baron noir (França) Isabel Ferin-Cunha Política, poder e género nas séries televisivas europeias: Borgen (Dinamarca) e Le baron noir (França) Revista internacional de Historia de la Comunicación, Nº16, año 2021, ISSN 2255-5129, pp. 254-280 17 personagens principais: um chefe de um partido trabalhista que se torna editor chefe de um jornal tabloide; um antigo jornalista que se converte em spin doctor e, posteriormente, retorna a jornalista, e por fim, uma jornalista que opta pela função de spin doctor da candidata a primeira-ministra. 3.1.3 Personagens femininas Foi na Dinamarca que as mulheres primeiro conquistaram o direito de voto na Europa em 1915. Desde 1924, as mulheres dinamarquesas têm presença nos governos, situação que os partidos políticos favoreceram adotando, livremente, legislação em prol da paridade. Esta situação reconhecida, nacional e internacionalmente, não retira dramaticidade e heroicidade ao percurso da personagem Birgitte Nyborg que é confrontada, ao longo da série, com todos os obstáculos que as mulheres que entram na política têm de superar para prosseguir esta carreira. Em França, apesar do papel determinante das mulheres nos diversos períodos históricos, o direito de voto surge apenas em abril de 1944, assistindo-se a partir de então à participação de mulheres em cargos ministeriais. Em 2000, após a fundação, em 1995, do Observatório para a Paridade, será adotado este princípio nas listas eleitorais e nos cargos políticos. A construção das personagens envolve um conjunto de pesquisas de campo e entrevistas com mulheres, bem como a identificação de factos e episódios reais que possam dar versomilhança e solidez à ficção. Este processo mobiliza, ainda, um conjunto de elementos identificáveis como estereótipos, masculinos e femininos, que podem ser facilmente reconhecidos pelos espectadores e utilizados como caracterizadores, físicos e mentais, das personagens (Delaporte, 2020). As personagens da ficção política são, maioritariamente, homens entre os 40 e os 50 anos, com origem em formações partidárias, em situações de conluio, chantagem ou rutura, ameaçados por forças externas ou internas adversas e concorrenciais. Os homens tendem a ser as personagens centrais da ficção política e as mulheres a serem utilizadas como coadjuvantes da sua performance, o que leva algumas analistas a observar que as séries, neste caso as francesas, reportam, preferencialmente, uma “República de machos” (Biscarrat, 2017). Os enredos relatam crises políticas e máquinas partidárias avassaladoras, que corrompem as decisões individuais, preterindo o benefício público em favor de um grupo, grupos ou interesses exógenos. As mulheres surgem, maioritariamente, em papéis secundários, dependentes, política e afetivamente, dos homens, valorizadas pela sua aparência, colaboração ou mesmo submissão (Biscarrat, 2017). O reconhecimento político destas mulheres faz-se, como acontece inicialmente em Borgen e em Le Baron Noir, a partir de um acaso circunstancial, o afastamento do candidato principal e a percepção de que são facilmente manipuláveis. Revista internacional de Historia de la Comunicación, Nº 16, año 2021, ISSN 2255-5129, pp. 250 - 275 http://dx.doi.org/10.12795/RiCH.2021.i16.12 266 Política, poder e género nas séries televisivas europeias: Borgen (Dinamarca) e Le baron noir (França) Isabel Ferin-Cunha Isabel Ferin-Cunha Revista internacional de Historia de la Comunicación, Nº16, año 2021, ISSN 2255-5129, pp. 254-280 18 3.1.2.1 Amélie Dorendeu Amélie Dorendeu, ex-comissária europeia, egressa de uma família burguesa e das melhores universidades francesas, à medida que vai assumindo maior protagonismo político, vai incorporando os cânones da racionalidade nos comportamentos em público. Ao longo da sua carreira, a atração por políticos, homens fortes, faz com que se subalternize nas suas convicções e abandone a sua vida pessoal. Disputada por dois líderes socialistas, no plano político e sexual, acaba por se envolver com o protagonista Philipe Rickwaert, deputado caído em desgraça e spin doctor, homem divorciado e machista. Contudo, Amélie Dorendeu não é o trofeu de beleza e elegância desprotegido que aparenta. Sem nunca ter passado pelo sufrágio universal, ela utiliza a sedução como uma arma de manipulação perigosa, capaz de servir as suas ambições pessoais de poder, primeiro para se tornar o braço direito de um presidente (1ª temporada) e, posteriormente, para ela própria tornar-se presidente de França (2ª temporada).Na 3ª temporada, acossada por movimentos sociais hostis e forças político-partidárias de extrema-direita, põe o cargo à disposição e suicida-se, num ato designado pelos seus pares de “nobreza republicana”. A presidente de França Amélie Dorendeu (Anna Mouglalis) Fonte: Canal + Para muitos franceses, esta personagem (Lefebvre e Taïbe, 2020) encarna uma versão atualizada de Ségolène Royal, militante e deputada solicialista, ex-mulher do presidente François Holande, que apresentou a sua candidatura a presidente em 2007. A descrição, a elegância e a solidão estruturam a sua maneira de estar, embora seja uma política fria e exímia em manobras de bastidores. Raramente demonstra empatia ou solidariedade. O distanciamento e a razão política estratégica orientam as suas decisões pessoais e profissionais. Cercada de luxo e criados de libré, passa o tempo livre recolhida e em silêncio, evitando contatos com os cidadãos, exceto pela televisão. A sua relação com o protagonista principal, Philipe Rickwaert, Le Baron Noir, ainda na qualidade de spin doctor, leva-a a abdicar da sua vida privada, mesmo quando o descarta e se liga a uma Revista internacional de Historia de la Comunicación, Nº 16, año 2021, ISSN 2255-5129, pp. 250 - 275 http://dx.doi.org/10.12795/RiCH.2021.i16.12 267 Política, poder e género nas séries televisivas europeias: Borgen (Dinamarca) e Le baron noir (França) Isabel Ferin-Cunha Política, poder e género nas séries televisivas europeias: Borgen (Dinamarca) e Le baron noir (França) Revista internacional de Historia de la Comunicación, Nº16, año 2021, ISSN 2255-5129, pp. 254-280 19 coligação de direita. O fascínio pelo poder de um homem mais velho e lutador, com um grande conhecimento da história política da França, e do partido socialista francês, é evidente. Philipe Rickwaert de formação operária, defensor da esquerda socialista, obcecado pela política, e com ideias consolidadas sobre como se deve atuar e manipular o espaço público, pouco transita em outros espaços (Laugier, 2018). A sua estratégia de vida de hiperprofissional da política é assumida pela candidata e, em seguida, presidente Amélie Dorendeu, mesmo após as traições políticas e pessoais, que a fazem procurar alianças à direita, pressionada pelo jihadismo e pelo avanço da extrema-direita. Símbolo de uma classe política agarrada ao seu poder e pronta a ceder perante os interesses organizados, ela recorre a discursos conciliadores, com vista a apaziguar os movimentos sociais em crescimento. Na sombra do mentor, a protagonista recria um comportamento individual próprio, evitando relações pessoais, manipulando as que consegue preservar, refugiando-se nos cenários oficiais quando exposta aos media e às fugas de informação. O pragmatismo e a ambição, as tensões entre as exigências de uma economia ultraliberal e a pressão popular crescente, constroem uma personagem ambígua, muito próxima de um vilão, onde impera a realpolitick, muito associada, nos enredos de ficção política, aos protagonistas masculinos. No final, entre pressões e chantagens políticas, cada vez mais duras, Amélie Dorendeu recupera a sua dignidade, ao demitir-se e arcar com responsabilidades, pela má gestão da república. 3.1.2.2 Birgitte Nyborg Birgitte Nyborg é uma mulher casada, e com dois filhos, que tem uma ascensão política num pequeno partido do centro. Movimenta-se num estado nórdico de bem estar social onde o protagonismo feminino de mulheres fortes, muitas vezes mães sozinhas, é considerado uma das características das séries de televisão (Jensen e Jacobson, 2017; Waade, Redvall e Jensen, 2020). Ao longo das três temporadas, uma quarta está prevista para 2022, assite-se à sua ascensão como líder de um pequeno partido centrista, após a revelação de um escândalo envolvendo o anterior dirigente, e a sua chegada a um governo de coligação onde ocupa a pasta de de primeira-ministra e de ministra dos negócios estrangeiros. O enredo articula dilemas privados e públicos e a tentativa de conciliação de uma vida familiar e amorosa com a vida política ativa. Os custos pessoais desta conciliação exigente surgem com o divórcio, a debilitação da saúde pelo cancro e os problemas que afligem a filha. Revista internacional de Historia de la Comunicación, Nº 16, año 2021, ISSN 2255-5129, pp. 250 - 275 http://dx.doi.org/10.12795/RiCH.2021.i16.12 268 Política, poder e género nas séries televisivas europeias: Borgen (Dinamarca) e Le baron noir (França) Isabel Ferin-Cunha Isabel Ferin-Cunha Revista internacional de Historia de la Comunicación, Nº16, año 2021, ISSN 2255-5129, pp. 254-280 20 A primeira-ministra dinamarquesa, Birgitte Nyborg, e sua família. Fonte: https://magg.sapo.pt/televisao/artigos/borgen-a-serie-de-culto-dinamarquesa-vai-regressar-com-umanova-temporada-na-netflix A série e a personagem celebram a democracia parlamentar, focando as negociações, armadilhas e bastidores da política, sem deixar de apresentar o lado mais sombrio e hipócrita da conquista e do exercício do poder. Mas o enredo e a personagem são uma mensagem de esperança para um mundo mais equitativo, ao trazer uma mulher, para o primeiro plano da cena política, que tenta, constantemente, alterar as regras do exercício do poder na sociedade, como na forma de tomar decisões políticas e abordar grandes temas, como o estado social, as reformas, o trabalho, ou propondo um projetolei que obriga as empresas a terem 45% de mulheres no conselho. Neste sentido, a primeira-ministra pode ser comparada a mulheres fortes, na política mundial, como Hillary Clinton ou Nicola Sturgeon (Stegger Gemzøe, 2020). Nyborg é uma personagem positiva, idealista, que demonstra o domínio dos códigos políticos, ao cultivar a autenticidade na comunicação com o público. Ela não vacila quando opta pela família, e expõe as suas emoções, anunciando na televisão em direto, que irá abdicar da sua vida política, para se dedicar à filha. Mas, também, não esconde os seus sentimentos em situações de interesse político, como quando se solidariza com os soldados dinamarqueses destacados no Afeganistão e suas famílias (Le Bart, 2020). A assunção da emoção não aparenta, ao longo do enredo, ter consequências na sua descredibilização política, pelo contrário, os eleitores são cativados pelo discurso sincero que intercala o sentido profissional da política e as condicionantes pessoais de atuação, mesmo quando segue indicações contrárias aos seus spin doctors. A utilização da emoção em contraposição ao cinismo e à hipocrisia política cria uma vantagem face aos adversários, maioritariamente homens. Ao longo da sua trajetória política há uma tendência, crescente, da personagem em esconder, sublimar ou profissionalizar a Revista internacional de Historia de la Comunicación, Nº 16, año 2021, ISSN 2255-5129, pp. 250 - 275 http://dx.doi.org/10.12795/RiCH.2021.i16.12 269 Política, poder e género nas séries televisivas europeias: Borgen (Dinamarca) e Le baron noir (França) Isabel Ferin-Cunha Política, poder e género nas séries televisivas europeias: Borgen (Dinamarca) e Le baron noir (França) Revista internacional de Historia de la Comunicación, Nº16, año 2021, ISSN 2255-5129, pp. 254-280 21 expressão das emoções, principalmente nos confrontos políticos públicos. No entanto, num contexto de afirmação do poder, e numa democracia escrutinada ao pormenor, a personagem luta para manter a autenticidade, a ética e a fidelidade aos seus ideais. O papel dos spin doctors na formatação da imagem política, na valorização de qualidades ou na contenção de estragos, constitui um dos enquadramentos constantes da personagem. Quer seja homem (personagem de Kasper Juul) ou mulher (personagem de Katrine Fønsmark), a função do spin doctor é trabalhar e rentabilizar politicamente a vida emocional de Birgitte Nyborg perante os cidadãos eleitores. Com este objetivo, e na busca de minimizar possíveis danos, procuram ser eles a “contar a estória” aos grandes media, principalmente quando a vida familiar irrompe no espaço público, como no divórcio, na relação com um amante, no tratamento do cancer ou na depressão da filha. O enredo demonstra uma grande promiscuidade entre os media e a política, com dois jornalistas a alternarem estas funções com as de spin doctors e um ex-político a presidir um grande meio de comunicação. Este círculo político-mediático tende a reforçar a mediatização da política a partir da normalização de estratégias de entretenimento e comunicação na política e, por sua vez, a intervenção dos media como atores políticos de pleno direito. O trabalho de contrôle, e rentabilização das emoções, tem uma relação direta com a infotainment, e os diretos de televisão, com que a primeira-ministra é confrontada periodicamente e treinada constantemente pelos seus spin doctors. 4 Discussão e conclusão: as escolhas das mulheres na política Nas séries que analisámos as protagonistas femininas apresentam estratégias contraditórias, embora a centralidade dos seus papéis não se altere substancialmente. Os temas continuam a abordar as campanhas eleitorais; o funcionamento das máquinas políticas; os crimes políticos e econónomicos ou personalidades de governantes fortes (Van Zoonen e Wring, 2012), temáticas que sempre constituem o core business dessas produções. A diferença está no reforço de algumas competências atribuídas às mulheres, tais como a capacidade feminina de gestão, articulando o espaço público e privado, como acontece na personagem de Birgitte Nyborg em Borgen. Nesta figura de primeira-ministra, mais que na da presidente Amélie Dorendeu, de Le Baron Noir, observa-se a facilidade de comunicação com o público e com os media, bem como a habilidade em negociar e estabelecer pontes entre adversários. Ambas as obras reforçam a defesa da imagem privada — em Le Baron Noir a presidente refugia-se na solidão e, em Borgen, este requisito estende-se aos membros da familia — perante a Revista internacional de Historia de la Comunicación, Nº 16, año 2021, ISSN 2255-5129, pp. 250 - 275 http://dx.doi.org/10.12795/RiCH.2021.i16.12 270 Política, poder e género nas séries televisivas europeias: Borgen (Dinamarca) e Le baron noir (França) Isabel Ferin-Cunha Isabel Ferin-Cunha Revista internacional de Historia de la Comunicación, Nº16, año 2021, ISSN 2255-5129, pp. 254-280 22 vigilância mediática e social, que é tendencialmente superior ao exercido face aos seus colegas homens. Instigante é a análise esmiuçada das tomadas de decisão e a exploração da componente emocional, protagonizada pela primeira-ministra Birgitte Nyborg. Estas questões, que nunca constituiram um foco de interesse na investigação em Ciência Política, põem em causa as normas de comportamento político, no espaço público, identificadas com a ideia de sangue-frio e racionalidade, advindas dos ensinamentos de Maquiavel (2012) e Weber (1998). As emoções expressas pela primeira-ministra dinamarquesa são, deste modo, uma mensagem de esperança e autenticidade à política, em contraste com o quadro de crise da democracia, protagonizado pela presidente francesa. As duas personagens femininas, jovens e sensuais, distinguem-se pelos contextos culturais e políticos em que se inserem, respetivamente em França e na Dinamarca. Amélie Dorendeu circula num universo masculino e partidário, onde impera o machismo e a condescendência perante as mulheres. A sua nomeação como presidente é atribuída às artimanhas do seu spin doctor e à ideia de que será facilmente manipulável. Só no final da 3ª temporada o seu carácter, e traços psicológicos, adquirem maior autonomia face ao seu criador, Philipe Rickwaert. Birgitte Nyborg, apesar de ter chegado ao centro do palco, por um acontecimento que lhe é exterior, assume o seu lugar de pleno direito mas, para ela, o desafio maior é conciliar a política com a vida privada (Rousselet, 2018; Lévêque e Matonti, 2020). Ambas as narrativas são universais e cosmopolitas, quanto às estórias que contam, e os conflitos que enunciam, articulando os diferentes espaços da vida de uma mulher na política. Elas obrigam, também, e principalmente em Portugal, a desenvolver um pensamento crítico sobre a paridade e as oportunidades da mulher, quando ela pretende conciliar as vidas profissional e familiar, num mundo em que as tarefas da vida privada ainda lhe são, maioritaria e naturalmente, atribuídas. Referencias bibliográficas AMAT, F., FALCÓ-GIMENO, A., ARENAS, A., MUÑOZ, J. 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