Espaço do patrimônio em meio à profusão de notícias
Abstract
Na década de 1990, o governo da Bahia, Brasil, empreendeu a restauração do Centro Histórico de Salvador. O trabalho foi proposto na intenção de reabilitá-lo para impulsionar o turismo. Por conta disso, uma gentrificação foi promovida no conjunto colonial remanescente dos séculos 18 e 19, considerado Patrimônio da Humanidade. A imprensa, estimulada pela novidade da iniciativa de interromper o processo de arruinamento, passou a cobrir o evento. Neste artigo, o objetivo é mostrar como o jornal A Tarde acolheu a temática. Como base teórica, utilizamos noções de agendamento (McCombs, 2007), publicização (Habermas, 1984) e narrativa do fato (Sodré, 2009).
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ESPAÇO DO PATRIMÔNIO EM MEIO À PROFUSÃO DE NOTÍCIAS Mary Weinstein Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (Uesb) [email protected] RESUMO: Na década de 1990, o governo da Bahia, Brasil, empreendeu a restauração do Centro Histórico de Salvador. O trabalho foi proposto na intenção de reabilitá-lo para impulsionar o turismo. Por conta disso, uma gentrificação foi promovida no conjunto colonial remanescente dos séculos 18 e 19, considerado Patrimônio da Humanidade. A imprensa, estimulada pela novidade da iniciativa de interromper o processo de arruinamento, passou a cobrir o evento. Neste artigo, o objetivo é mostrar como o jornal A Tarde acolheu a temática. Como base teórica, utilizamos noções de agendamento (McCombs, 2007), publicização (Habermas, 1984) e narrativa do fato (Sodré, 2009). PALAVRAS-CHAVE: Gentrificação, Centro Histórico, imprensa, agendamento. ABSTRACT: In the 1990s, the government of Bahia, Brazil, undertook the restoration of the Historic Center of Salvador. The work was proposed to rehabilitate it in order to boost tourism. Therefore, a gentrification occurred on this site of the 18th and 19th centuries considered World Heritage. The press, stimulated by the novelty of the initiative to stop the process of blasting houses, covered the event. In this article, the aim is to show how the traditional newspaper A Tarde accepted the theme. As a theoretical basis, we use notions of agenda-setting (McCombs, 2007), publicizing (Habermas, 1984) and fact narrative (Sodré, 2009). Keywords: Gentrification, Historic Center, press, scheduling. 1. INTRODUÇÃO Nos anos 1990, o Centro Histórico de Salvador, conjunto colonial formado por casarões remanescentes dos séculos 18 e 19, mudou em pelo menos dois aspectos: parte do seu casario foi restaurada, o que contribuiu para retardar o processo de degradação em que se encontrava; e a população moradora foi relocada para dar lugar a uma preservação 829
que tinha como principal objetivo promover tanto o turismo quanto o proponente da ação, o governo do Estado da Bahia. A imprensa local acompanhou o processo dessas duas transformações e é a partir desta condição que o nosso objeto de análise é apresentado. Demonstraremos que a imprensa agendou a iniciativa de restaurar o Centro Histórico, e, por tabela, o governo do Estado, correspondendo à expectativa de que a ação obtivesse repercussão midiática. Buscamos evidenciar que, ao contribuir para a divulgação da empreitada, abriu-se uma lacuna no diálogo público, uma vez que, inicialmente, prevaleceu o agendamento com base predominantemente nos interesses de divulgação do governo e sem a correspondência equitativa da representação dos moradores da área alvo da recuperação. A cobertura jornalística acerca da restauração do Centro Histórico de Salvador que a mídia empreendeu a partir de 1992, quando o governo iniciou o Programa de Recuperação, se destaca no horizonte jornalístico como o período de uma trajetória em que um assunto é agendado e permanece em discussão na esfera pública, embora passando por reelaborações sucessivas no que se refere aos seus atributos mais evidenciados e ao seu enquadramento. Debruçamonos especificamente sobre a atuação do jornal A Tarde, que completou 101 anos, e sua abordagem sobre o Centro Histórico no momento de sua recuperação, buscando contextualizar e observar, no elenco de matérias publicadas, a forma como a temática do patrimônio foi acolhida e em que medida o jornal reproduziu o discurso oficial em detrimento da representação dos moradores locais, contribuindo para a abrupta gentrificação que se efetivou no local. 2. BREVE HISTÓRICO O Centro Histórico, com suas edificações dos séculos 19 e 20, foi tombado em 14 de julho de 1959. A reratificação e ampliação da área foram decretadas em 1983, e a classificação deste espaço como Patrimônio da Humanidade se deu em 1985. Apesar de todas essas patentes oficiais e do sentido que tinha e produzia para populações locais, a área sofreu intenso processo de degradação ao longo da maior parte do século 20. Desde as décadas de 40 e 50, notícias saíam nos jornais dando conta das condições dos seus casarões e de vida das pessoas que ali habitavam. Tentativas de recuperação eram pleiteadas, publicamente, nos jornais, por personalidades diversas, e reformas eram esporadicamente anunciadas, começadas, paralisadas e 830
abandonadas. Até que, na década de 90, iniciou-se uma operação que se transformou em assunto constante na mídia regional e nacional, em decorrência da expectativa construída, em grande parte pelos próprios meios de comunicação, em torno do sucesso que se vislumbrava. Esta recuperação iniciada na década de 90 mantém-se agendada até hoje. A história da recuperação do Centro Histórico proposta pelo Governo do Estado da Bahia começou em 1992, com a I Etapa de um Programa de Recuperação. A iniciativa foi primeiramente divulgada em uma entrevista do tipo ping-pong, em A Tarde, o maior jornal do Estado, o de maior credibilidade e popularidade, no mesmo ano. Há uma década, este mesmo programa de recuperação encontra-se em sua 7ª Etapa. Governos se sucederam, assim como os direcionamentos de suas diversas políticas públicas. Entretanto, a condição do Centro Histórico permaneceu necessitando de especial atenção para que o risco iminente de deterioração do conjunto não se concretizasse. Este histórico que se segue, contendo informações sobre o sítio recuperado e sua população, assim como a trajetória do jornal A Tarde, permite que sejam entendidas as relações que se desenvolviam e que passaram a se desenvolver durante o Programa de Recuperação promovido pelo governo do Estado da Bahia e a cobertura jornalística oferecida. Este histórico contribui para a compreensão da questão sociocultural do Centro Histórico. 2.1. Centro Histórico O Centro de Salvador se mantém como testemunho da história. No início, o seu miolo, o Pelourinho, era predominantemente residencial, próximo à área administrativa da Praça Municipal e comercial da Cidade Baixa, conforme organização ditada pelo projeto do arquiteto-mor, Miguel de Arruda, trazido de Portugal pelo mestre Luis Dias, que chegou com o primeiro governador-geral do Brasil, Tomé de Souza. A cidade começou a se modificar e a se reconfigurar espacialmente conforme crescia em população a ponto de provocar as primeiras preocupações de Wanderley de Pinho com o patrimônio histórico e cultural. No começo do século 20, Pinho, um dos precursores da conservação do patrimônio na capital baiana, apontou atitudes equivocadas, ao mencionar diversos impedimentos encontrados para a proteção do patrimônio. Desde a adulteração de fontes e prédios – “fontes públicas que se rebocam e reformam, tapando inscripções e quebrando cornijas; velhos solares que se mutilam; capelas e templos que se deixam ruir (...)” (PINHO, 1990) -, até a falta de recursos – “onde encontraremos fundos para custear despesas em conservar o que se vae arruinando ou transportar e abrigar o que se vae perdendo?” (PINHO, 1990). Durante as duas décadas seguintes ao discurso de 831
Pinho, o “progresso demolidor” se alastra destruindo monumentos pelo Brasil afora, e especialmente em Salvador, onde os jornais acompanham os fatos e abrem espaços para a discussão pública: Essa ideologia do progresso, reduzida aos aspectos urbanísticos da Cidade do Salvador, vai encontrar seus sectários acastelados na imprensa diária. Os jornais baianos irão indiscutivelmente colaborar na criação de uma opinião pública, não diremos favorável ao urbanismo demolidor, mas pelo menos, deslumbrada e anestesiada em relação ao mesmo. A doutrinação encherá páginas e páginas de vários jornais, nas primeiras décadas do século XX, todos acentuadamente defensores das reformas. Em 1912, não surgirão protestos e vozes discordantes, como em 1928 e 1933, e o tônus será, mesmo de certos membros da inteligência baiana, como veremos adiante, de vôo cego e impensado amor ao “progresso”, com o sacrifício iconoclasta de nossos monumentos históricos (PERES: 2009: 38). Em 1959, ano do tombamento nacional, assim era descrito o Pelourinho por Milton Santos, que faz um relatório sobre as condições de degradação social e arquitetônica da área. Ele relaciona os que vivem sem ocupação definida e descreve o estado de miséria daqueles que moram nos quartos subdivididos por “panos”, que abrigavam três a quatro pessoas, as mesmas que seriam afastadas durante o processo de recuperação de que tratamos. Santos via a imposição jurídica que controlava as condições na ordenação da cidade.: O Pelourinho é uma ladeira-praça, de forma irregular, rodeada por edifícios dos séculos 18 e 19, grandes casas nobres de dois e de três andares que serviram como residências a famílias ricas, mas que hoje caíram em ruínas. O interesse do estudo dessa praça reside no fato de que ela se situa no coração mesmo da área resguardada pelos regulamentos que asseguram proteção aos monumentos históricos da cidade. Assim, ela representa, a um só tempo, um exemplo da influência dos valores jurídicos sobre os fatos de estrutura urbana e um exemplo de degradação (SANTOS, 1959:165-66). O pensamento de Santos sobre o Pelourinho, também, é publicado nos jornais. Na Tribuna da Bahia, na mesma época. “Há uma geografia de Prostituição?” (29/4/1959), com o seguinte apoio explicativo: “A ‘limpeza’ da cidade velha – quando o problema não é só policial – atividade urbana tem razão econômica – soluções exóticas não servem para sanear a zona proibida”. Pouco depois da análise de Santos (1959), sobre o Pelourinho, Torres (1961) faz uma listagem dos logradouros da Sé, tentando vislumbrar o destino de cada um deles e, de algum modo, inventariando ruas ao citar seus nomes, alguns que já iam sendo substituídos. Interessante observar que tanto Santos, quanto Torres – este ampliando a área referencial - referem-se ao espaço em questão como “coração da área resguardada” e “coração da capital”, dando-lhe a ideia de centralidade e de proximidade afetiva (TORRES, 1961:25-26). 832
A ocupação dos demais bairros do Centro Antigo, também, começou a se transformar quando, por volta dos anos 70, localidades mais afastadas passaram a atrair antigos residentes de Nazaré, Desterro, Campo da Pólvora, dentre outras. Na década de 80, aumentou o número de adeptos das novas áreas residenciais. Trocavam-se as ruas do Centro pelas da Pituba, que se expandia, e, pouco depois, já propiciava a formação de sub-bairros, como o do Itaigara, Parque da Cidade e Caminho das Árvores. Os edifícios agora mais altos eram construídos com playground, piscinas e quadras de esportes. Enquanto isso, o Pelourinho e circunvizinhança se degradavam ainda mais porque deixaram de exercer atração sobre as classes que poderiam sustentá-lo com impostos e dignidade. O processo de degradação da área do Pelourinho, área nobre da cidade, é o resultado da crise econômica do século passado e do livre jogo das forças econômicas na dinâmica de transformação que condicionou o tipo específico de crescimento da cidade, causando a desvalorização das zonas de construções antigas. Essa desvalorização econômica conduziu fatalmente à desvalorização social, forçando a mobilidade centrífuga dos moradores de maiores posses, e aumentando a força de atração sobre os grupos situados nos quadros mais baixos da hierarquia do sistema de estratificação social (ESPINHEIRA, 1984:69). A região do Pelourinho passou a ser ainda mais desdenhada pelas classes alta, média e baixa, ao perder as utilidades que tinha, quando deixou de ser área residencial e comercial. Como consequência da falta de interesse econômico voltado para aquele espaço, os seus atrativos arquitetônicos se deterioravam ao deixarem de ser conservados pelos poderes públicos e pelos próprios donos dos imóveis. Salvador optava por um novo e diferente modo de vida, que excluía o Centro Histórico, e, sobretudo, o estigmatizava. As prostitutas convergiram para o Pelourinho, por um lado, atraídas pelas condições sociais e econômicas da localidade, enquanto que, por outro, aí se estabeleceram compelidas pela ação policial dos órgãos encarregados dos costumes (ESPINHEIRA, 1984:70). Por vezes, o sociólogo Gey Espinheira se refere aos jornais como documentos que evidenciavam “o caráter patológico dessa comunidade e da ação policial que aí se faz constante” (ESPINHEIRA, 1971:43). O sociólogo baiano considerava a “análise dos comportamentos divergentes documentados por notas jornalísticas” um complemento para o seu “estudo exploratório”. Ele se refere ao conteúdo dos jornais como a “opinião popular, traduzida pela imprensa”, que permite verificar o grau de discriminação social (ESPINHEIRA, 1971:43). 833
A re-ratificação do tombamento do Centro Histórico ocorreu em 20 de outubro de 1983, com inscrição no Livro do Tombo, em 19 de julho de 1984. A Folha de São Paulo saiu com matéria um dia depois: Foi tombado ontem pelo Conselho Consultivo da Secretaria do Patrimônio Histórico de Salvador, o Centro Histórico de Salvador, uma área aproximadamente de 750 mil metros quadrados, com cerca de 60 mil imóveis e 28 monumentos que, no próximo ano, vai ser indicada à Unesco para se tornar patrimônio mundial da humanidade (Folha de São Paulo, 21/10/1983). A Tarde publica, com chamada apenas ao pé da primeira página, Salvador reconhecida “Cidade Monumento”, com fontes oficiais: o prefeito Manoel Castro e o superintendente do Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Sphan), Ary Guimarães.Houve chamada na capa do jornal, e não manchete. Outras seis matérias sobre patrimônio, relacionadas e não relacionadas à classificação de Patrimônio da Humanidade, seriam publicadas ainda neste mesmo mês. Apenas uma delas, sobre a restauração da Igreja da Piedade terá chamada de capa. Ou seja, o Centro Histórico de Salvador é classificado como Patrimônio da Humanidade e na capa do maior jornal do estado este acontecimento rende apenas uma chamada situada ao pé da primeira página, com foto de 176cms2, e não manchete, mesmo diante dos valores-notícias ineditismo, novidade, número de pessoas afetadas, proximidade etc. Fernandes (2008:30) discorre sobre a série de circunstâncias que forjaram o esvaziamento do Centro, no século 20. Ela menciona um novo modelo de expansão urbana, decorrente da mudança de padrão de crescimento de Salvador para uma lógica industrial-metropolitana. Além do aumento demográfico, nos anos 50 a Petrobras se instala e começa a exploração de petróleo no Recôncavo baiano. O Centro Industrial de Aratu nos anos 60, a implantação do Pólo Petroquímico de Camaçari na década de 70 e, no início dos anos 2000, os investimentos vinculados à indústria automobilística, também em Camaçari, desloca a concentração de trabalhadores das proximidades do Centro. “Essa nova lógica construída ao longo de 40 anos, será marcada por diversas ações intra-urbanas que aceleram ainda mais o processo de perda de ritmo de crescimento da área central da cidade” (FERNANDES, 2008:30). Como pudemos observar até aqui, as matérias veiculadas pelos jornais apontam os aspectos negativos do Centro Histórico e a motivação para o ambiente degradado apontava sempre na direção da população que lá morava. Desde a década de 60, estudos vinham sendo feitos para preservação de conjuntos tombados com o objetivo de incrementar o turismo que mais tarde viria a se confirmar como política. 834
2.2. A Tarde Fundado por Ernesto Simões Filho e em circulação no Estado da Bahia e em Sergipe, o A Tarde perdeu a posição de mais vendido justamente quando alcançava o seu centenário. Entretanto, ainda hoje, mantém-se como periódico de credibilidade no Estado. Ao longo de sua história, o jornal foi o de maior tiragem e vendagem. Essas posições foram perdidas muito como consequência de uma reestruturação do seu concorrente, o Correio da Bahia, pertencente à família do finado e controvertido governador Antônio Carlos Magalhães, o qual foi o proponente da recuperação do Centro Histórico, sítio que serve de motivação para esta análise sobre o objeto jornalístico. O Correio, como passou a ser chamado exatamente para se afastar do espectro do seu antigo proprietário, adotou o formato berliner, diminuiu drasticamente o seu preço ao consumidor e reformulou a padronização de suas matérias, que passaram a ser curtas e sintéticas, ocupando menor espaço nas páginas na publicação. Também, uma intensa campanha de marketing passou a ser veiculada no canal de TV pertencente ao mesmo grupo que edita o Correio. No período em que foram publicadas as unidades jornalísticas que compõem o corpus empírico deste trabalho, o jornal A Tarde era o impresso com maior popularidade e vendagem no mercado jornalístico local. Por meio de uma análise de conteúdo, cujo recorte empírico são as unidades jornalísticas publicadas em A Tarde entre 1992 e 2002, descrevemos a trajetória do jornal em sua abordagem sobre a recuperação do Centro Histórico. 3. ESPAÇO PÚBLICO E QUESTÕES TEÓRICAS A esfera pública é o espaço de mediação onde se pronuncia o diálogo, pretensamente travado entre sociedade e governo, envolvendo diversos interesses desde a Modernidade. A mídia é a intermediação. Esta é uma contingência que afeta a todos os que convivem em comunidade. A imprensa, como espaço privado que se presta à discussão pública, dirige-se aos públicos que consomem o que é produzido pelos meios de comunicação e, certamente, aos que não. Porque a esfera pública implica em contaminação natural entre os que a compõem. A recepção se expande, se amplia, ou se reduz, como pressupõem as teorias, particularmente, a da Agenda-Setting (McCOMBS, 2007), a qual utiliza a ideia de transferência entre agendas da mídia, do público e a dos governos. Para que a recepção se expanda, o assunto precisa ser 835
agendado, ter uma determinada saliência, conforme os preceitos definidos por McCombs (2007). A transferência que ocorre em consequência da interação entre agendas é a própria razão de ser da teoria. Partimos do pressuposto de que a agenda da mídia influencia a agenda do público. Então, neste trabalho, observamos a agenda midiática a partir da constatação do seu agendamento. Não nos atemos às diferenciações entre Agendasetting e Framing, com referência aos seus atributos mais evidenciados e não ao seu enquadramento (WEAVER: 2007). Para chegarmos a um segundo nível da Agendasetting, nos utilizamos da identificação desses atributos. A nossa análise se detém na constatação do agendamento, sem delimitar a influência deste no público. Habermas descreveu a mudança estrutural na esfera pública considerando o jornalismo em sua capacidade de publicizar as mensagens, e também, analisou o seu papel. Há uma síntese da relação que se estabelece quando se tem a imprensa como veículo útil aos propósitos nem sempre anunciados, mas, quase sempre, implícitos na interação da ação política: A “cultura” difundida através dos meios de comunicação de massa é particularmente uma cultura de integração: ela integra não só informação e raciocínio, as formas publicitárias como as formas literárias e beletrística psicológica para uma ocupação e “ajuda de vida” determinada pelo human interest; ela é suficientemente elástica para também assimilar, ao mesmo tempo, elementos da propaganda, até mesmo para servir como uma espécie de super-slogan que, caso ainda não existisse, poderia ter sido simplesmente inventado para fins de public relations do status quo /84ª/. A esfera pública assume funções de propaganda. Quanto mais ela pode ser utilizada como meio de influir política e economicamente, tanto mais apolítica ela se torna no todo e tanto mais aparenta estar privatizada /85/ (HABERMAS, 1984:207-208). E a notícia acaba se tornando uma aliada de empreitadas, legitimando a existência de produtos, quando os coloca em evidência e propõe uma reflexão conforme propósitos definidos pelo próprio proponente do assunto. A notícia é mesmo uma forma incipiente da ‘economia da atenção’ que terminou caracterizando a mídia contemporânea. É, assim, um produto – e certamente caro, considerando-se o custo atual da sua produção na esfera da grande mídia – cuja identidade mercadológica se configura a partir de meados do século XIX, no momento de transição do publicismo ou ‘jornalismo de opinião’ (caracterizado pela produção artesanal, pela periodicidade irregular e por textos fortemente polêmicos) para a ‘imprensa comercial’, organizada em bases industriais, logo voltada para um público massivo, suscetível de sustentar grandes tiragens e assegurar o lucro (SODRÉ: 2009, 25). Portanto, é possível pressupor que a mídia pode se tornar uma aliada do agendamento proposto por determinados proponentes ou pelo agendamento promovido pelo governo ou pelo agendamento do público, sendo esta, a mídia, direcionadora da “economia da 836
atenção” mencionada pelo autor. Seria o que os psicólogos sociais chamam “objeto da atitude” – algo para o qual a atenção do público é dirigida. Este entendimento coincide com a ideia de saliência desenvolvida por McCombs (2007). 4. A COBERTURA DO JORNAL Dentro do espectro empírico definido neste trabalho – que são as unidades jornalísticas publicadas entre o lançamento do Programa de Recuperação e o seu quarto ano de aplicação - em nenhuma matéria em A Tarde, neste período, foi incluída a questão da concorrência de poderes ou responsabilidades sobre o Centro Histórico. Em função do tombamento nacional do referido sítio, há uma poligonal em que prevalece a jurisdição federal. Entretanto, todo o Programa de Recuperação foi idealizado e executado por uma instância governamental diversa, a do Estado da Bahia. A rapidez com que a “recuperação” foi feita, o seu resultado e a desterritorialização dos seus antigos moradores têm sido motivo de estudos acadêmicos e ainda rendem desdobramentos na própria mídia quando confrontados com o estado em que se encontra o mesmo espaço, hoje. A não disputa em torno das responsabilidades e cuidados acerca do Patrimônio Cultural, entre o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), responsável a nível federal, e o governo local tornou-se um exemplo de um conflito dissimulado, sem discussão explícita na esfera pública. Jornalisticamente, o episódio propiciou a participação da mídia como mediadora de discussões que envolviam interesses distintos – o do governo do Estado que queria utilizar a área para catapultar o marketing da sua gestão e o dos antigos moradores que não pretendiam ser evacuados por conta da revalorização da área. O governo tratava a questão como uma “obra” capaz de render votos e notoriedade, a partir do reconhecimento da sociedade, que queria ver o patrimônio do conjunto colonial reabilitado ou apreciava a ideia de usar o Pelourinho como local de entretenimento. Os moradores, por sua vez, encontravam dificuldades para manter o direito de permanecer na área. A imprensa, ainda que tardia e pontualmente, não se eximiu de mostrar a situação da população na condição de praticamente obrigada a se transferir do Centro Histórico para outras partes da cidade, no que ficou conhecido como “assepsia social”,um termo usado em um processo iniciado pelo Ministério Público Estadual. No seguinte trecho do trabalho Desapropriação das memórias indesejáveis: opressão e resistência no Centro Histórico de Salvador, de Juliana Neves Barros e Vanessa Souza Pugliese, “aqui, muito 837
inauguração. Neste ano, aumenta o turismo no Centro Histórico, como informou a matéria “Cresce o fluxo turístico com boas previsões para o futuro” (A TARDE, 01/12/1994:12), com duas fontes – um diretor de marketing da Bahiatursa e um gerente de hotel de luxo. Em relação ao ano anterior, a quantidade de unidades jornalísticas diminuiu significativamente, de 166 para 100, uma queda de 39,7%. Mesmo assim, foi o ano em que as matérias sobre o Centro Histórico de Salvador foram pouco mais da metade do montante daquelas sobre o patrimônio histórico e cultural em geral. Este era o terceiro ano desde que a recuperação tinha sido iniciada. Era o segundo de inaugurações. E, também, o ano em que Antonio Carlos Magalhães deixaria o governo para assumir uma vaga no Senado. Em 1995, foram publicadas 212 matérias sobre o patrimônio histórico e cultural. Aproximadamente, apenas um terço delas tratava do Programa de Recuperação e questões associadas ao Centro Histórico de Salvador. No ano anterior, mais da metade das matérias relativas a patrimônio, o equivalente a 53%, era sobre a recuperação. Portanto, em 1995, apesar de ter havido uma quantidade maior de matérias sobre patrimônio em geral, houve redução das que focaram especificamente na recuperação e no Centro Histórico. O comércio no Pelourinho passa a motivar matérias que informam a diminuição da frequência de visitantes, preços mais altos praticados na área, e dependência dos comerciantes pela visitação de turistas. E a Unesco avalia pesquisa que indica que 22% dos que frequentavam o Pelourinho moravam nele. 6.- CONSIDERAÇÕES FINAIS Não obstante o infindável agendamento promovido pelos meios de comunicação, o qual é perceptivelmente transferido para a agenda dos governos, o Centro Histórico segue enfrentando dificuldades de gestão, as quais comprometem a sua conservação como patrimônio histórico e artístico, e a sua leitura como local que, para manter-se, precisa ser frequentado como qualquer outro, especialmente nas cidades cujos centros se deparam com o esvaziamento, em decorrência da valorização de novos espaços, muitos dos quais privados que acabam por substituir os de tradição. Não só os moradores remanescentes, mas, também, os comerciantes que se instalaram em suas redondezas, dependem de políticas públicas efetivas que contribuam com a sua conservação ou para que, pelo menos, evitem a intensificação da degradação, há muito em curso. Desde o início do Programa de Recuperação do Centro Histórico de 844
Salvador, o assunto é continuamente agendado especialmente pela mídia impressa que circula na capital baiana, como se pode facilmente constatar verificando o conjunto de matérias publicadas continuamente, por diversos veículos. No presente momento, ainda com a VII Etapa de Recuperação em curso, os atributos mais frequentes das matérias veiculadas voltam a ser os desabamentos e incêndios que têm ocorrido nos casarões que integram a poligonal definida pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). Ao contrário da frequência esparsa que se verificava antes da cobertura dessa experiência, as pautas sobre o patrimônio se multiplicaram durantes os primeiros anos da recuperação e permanecem eventualmente sendo publicadas, agora com criticas recorrentes dirigidas à falta de efetividade das medidas tomadas em prol do agonizante Centro Histórico. Essa postura substitui a cobertura direcionada apenas a situações contingenciais. Mais importante ainda é que a questão dos moradores do Centro Histórico, que no início da recuperação foi relegada, entrou definitivamente na pauta. É reiterada abertamente nos discursos que se fazem referentes ao Centro Histórico de Salvador a questão da presença de antigos ocupantes. Ou sobre a presença de novos moradores. Contraditoriamente, outros espaços da cidade correm o risco da gentrificação e o problema é rasamente mencionado, como nas áreas do Largo 2 de Julho, no Santo Antônio Além do Carmo e até na Barra, que desde meados de 2013 vive a iminência de uma grande reforma proposta pelo poder municipal cujo governante, ACM Neto, é neto do governador da Bahia à época da chamada recuperação do Centro Histórico de Salvador. Recentemente, no Largo de São Francisco, em frente à Igreja e Convento de São Francisco, que também se encontra em estado de conservação precário, foi inaugurado um museu em homenagem ao ex-governador que lançou o Programa de Recuperação do Centro Histórico. 7.- REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS: DEARING, J. W. e ROGERS, E. M.(1992): Communication Concepts 6: Agenda-setting. Thousand Oaks, Ca: Sage. ESPINHEIRA, C. G. (1971): A comunidade do Maciel. Salvador: Secretaria de Educação e Cultura/Fundação do Patrimônio Artístico e Cultural da Bahia. ___ (1984): Divergência e prostituição: uma análise sociológica da Comunidade Prostitucional do Maciel. Série Cultura Baiana1. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro; Salvador: Fundação Cultural do Estado da Bahia. 845
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