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Descentramentos de sexualidade e genero masculino no esporte : reflexoes atraves do cinema

Chaves Nunes, Paula; Maia Mendes, Mayara Cristina; Araújo Carvalho, Allyson de

Abstract

pensar as relações de gênero e sexualidade no esporte torna-se cada vez mais uma demanda do mundo pós-moderno com seus sujeitos de identidades móveis. Diante disso, escolhemos o cinema como material de estudo, ao compreendê-lo enquanto veiculador e produtor de representações de gênero e sexualidade no esporte. Nessa direção, a pesquisa objetiva compreender estas representações vinculadas ao atleta masculino no cinema contemporâneo, sobre o prisma das categorias de corpo e eficiência. A pesquisa é de caráter descritivo e abordagem qualitativa, adotando como recurso metodológico de análise dos filmes a descrição da experiência estética das imagens. Ao término das análises, foi perceptível que os personagens tencionam diversas possibilidades de ser homem em seus corpos, afirmando, por vezes, códigos caricaturizados homossexuais ou códigos tradicionais masculinos. As películas também descentram noções de virilidade e eficiência atreladas à masculinidade clássica

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89 DESCENTRAMENTOS DE SEXUALIDADE E GÊNERO MASCULINO NO ESPORTE: REFLEXÕES ATRAVÉS DO CINEMA Paula Chaves Nunes Departamento de Educação Física Universidade Federal do Rio Grande do Norte [email protected] Mayara Cristina Maia Mendes Departamento de Educação Física Universidade Federal do Rio Grande do Norte [email protected] Allyson Araújo Carvalho de Departamento de Educação Física Universidade Federal do Rio Grande do Norte [email protected] Resumo: pensar as relações de gênero e sexualidade no esporte torna-se cada vez mais uma demanda do mundo pós-moderno com seus sujeitos de identidades móveis. Diante disso, escolhemos o cinema como material de estudo, ao compreendê-lo enquanto veiculador e produtor de representações de gênero e sexualidade no esporte. Nessa direção, a pesquisa objetiva compreender estas representações vinculadas ao atleta masculino no cinema contemporâneo, sobre o prisma das categorias de corpo e eficiência. A pesquisa é de caráter descritivo e abordagem qualitativa, adotando como recurso metodológico de análise dos filmes a descrição da experiência estética das imagens. Ao término das análises, foi perceptível que os personagens tencionam diversas possibilidades de ser homem em seus corpos, afirmando, por vezes, códigos caricaturizados homossexuais ou códigos tradicionais masculinos. As películas também descentram noções de virilidade e eficiência atreladas à masculinidade clássica. Palavras chave: gênero, esporte, cinema 1. Introdução É notório que a entrada do esporte nos meios de comunicação de massa, em especial os aparatos audiovisuais, favorece uma maior apreciação do fenômeno esportivo e intensifica a(s) ideologia(s) que possam percorrer esta manifestação social. Neste sentido, identificamos que, a partir da massificação do esporte via veiculação de sua imagem nos meios de comunicação, é possível mapear as representações destas manifestações com fins de problematizar a prática junto aos diversos grupos sociais. Acredita-se que a compreensão de esporte expressa nas normas de prática heterocentrada e masculinizada é desencadeada, via de regra, pelos valores da competição, da regulamentação, e do treinamento. A nosso ver é necessária a compreensão de um esporte que abra margem para outras formas de expressões que não só apresente corpos que reafirmem o masculino como local privilegiado no esporte, como já vem sendo verificado na filmografia contemporânea. Deste modo, podemos pensar que a representação de gênero e sexualidade, acompanhando o movimento próprio da cultura pós-moderna tem apontado para o aumento de visibilidade dos descentramentos que acompanham a lógica patriarcalista e heterocentrada. Esse aumento de visibilidade ocorre, num movimento mais amplo, “devido à sua afirmação 90 da diferença, sua recusa das metanarrativas (narrativas ‘dominantes’)” (CONNOR, 2004, p. 183). Ancorados nesta perspectiva de pensar as demandas sociais a partir do consumo de imagens elegemos para este espaço de debate, as representações de gênero e sexualidade que dialogam com o espaço esportivo. Observa-se que as manifestações que descentraram os princípios esportivos foram, por vezes, margeadas pelo discurso de vertente moralista. Enquadram-se neste contexto múltiplas manifestações, mas emblematicamente essa repulsa (ou ofuscamento) foi direcionada aos praticantes que não afirmassem as posturas do masculino e do feminino, a imagem de homem e de mulher, respectivamente. Os registros do distanciamento dos sujeitos desviantes dessa identidade heterocentrada são múltiplos e encontram nos esportes argumentos para afirmações do binarismo entre masculinidade e feminilidade, como é possível perceber nos apontamentos de Dunning e Maguire (1997). […] em numerosos setores da sociedade britânica, notadamente em meios totalmente masculinos, os homens "desviantes" que por uma ou outra razão optam pela vida anti-esportista, se arriscam a ser qualificados de forma insultuosa pelos seus pares, de "afeminados" e até mesmo de "homossexuais". A mesma tendência ocorre com a qualificação também insultuosa de "masculinas” ou "lésbicas" feita as mulheres desportistas (DUNNING; MAGUIRE, 1997, p. 324). Contudo, os descentramentos de virilidade do masculino e da delicadeza do feminino, enquanto arquétipos de gênero e da sexualidade de homens e mulheres vêm ganhando visibilidade nas últimas décadas. Os motivos que provocam essa ampliação de visibilidade dos descentramentos se inserem em um contexto que reflete os movimentos feministas e gays, de meados das décadas de 1960 e 1970 do século passado, que inclui uma postura social contemporânea tributária do realce dado às questões de alteridade com um dos elementos constitutivos da cultura pós-moderna (HUYSSEN, 1992). O esporte, não alheio à conjuntura social que o abarca, identifica (mesmo que com resistência) tais questionamentos e descentramentos em seu campo que possibilitam uma complexificação das posições binárias e maniqueístas em torno do gênero e sexualidade dos sujeitos/atletas. Contudo, destacamos a resistência do fenômeno esportivo a essa nova demanda por compreender que esta desestabiliza a prática esportiva, inclusive, em sua clássica forma de organização das modalidades por categoria e gênero. É necessário destacar que, neste estudo, estamos compreendendo o gênero como construção cultural do sexo, ou como condição social pela qual somos identificados como masculino e feminino, englobando diferentes processos de produção de masculinidades e feminilidades. Paralelamente entendemos a sexualidade como uma construção histórica e social e não como algo que é inerente ao ser humano, esta envolve uma série de crenças, comportamentos, relações e práticas que permitem a homens e mulheres viverem, de determinados modos, seus desejos (afetivos e eróticos) e seus prazeres corporais (LOURO, 1999). Essas masculinidades e feminilidades diversas e não normativas, que fogem do tradicional protótipo de gênero binário são cada vez mais visibilizadas no mundo esportivo, que assiste sujeitos que transitam entre os territórios de gênero, que afirmam em seus corpos códigos e signos não clássicos, na contramão do que se espera de 91 homens e mulheres atletas. Neste sentido, as novas demandas de usos do corpo no esporte que consideram pluralidades de expressões de masculinidades e feminilidades consideram que “os indivíduos, enquanto diferentes uns dos outros, também resignificam o ambiente esportivo de modo distinto, relacionando-se com a homogeneidade e normatividade instituídas por esse cenário também de maneira diversa” (CAMARGO; RIAL, 2009, p. 80). Neste sentido, torna-se necessário compreender quais as implicações que a comunicação de massa oportuniza na disseminação ou não de um estereótipo de corpo estigmatizado, em especial no esporte. No caso específico desta pesquisa, compreender as representações dos sujeitos masculinos descentrados no esporte, a partir da comunicação, considerando que, no período contemporâneo, a tecnologia e os meios de comunicação são verdadeiros veículos da função epistemológica: é dentro do aparato que a percepção está mais indissoluvelmente ligada à epistemologia do que se poderia estar nas formas tradicionais ou nos exercícios tradicionais dos sentidos puros, não misturados (seja linguagem ou visão e cor, ou tintas) (JAMESON, 2006, p. 134) A escolha do cinema como veículo de representação é defendida por sua formatação que comunga de muitos princípios comuns ao esporte, como prática que abrigará nosso debate, ambos práticas sociais que resultaram da Modernidade. Portanto, o cinema é compreendido neste momento como reflexo da experiência epistemológica que ocorre na Modernidade (CHARNEY, 2007, p. 332) que pode desvelar os sentidos creditados ao esporte. Para começar a discutir as relações entre cinema e esporte, devemos destacar o fato de que ambos, mesmo possuindo raízes anteriores, são fenômenos típicos da modernidade, se organizando no âmbito de uma série de mudanças culturais, sociais e econômicas observáveis desde o fim do século XVIII, crescentes no decorrer do século XIX e consolidadas na transição e no decorrer do século XX. Não surpreende o fato de que o cinema e os Jogos Olímpicos tenham surgido na mesma época (1895 e 1896, respectivamente) e no mesmo lugar: França, país-chave para entender um novo estilo de vida que estava sendo gestado (MELO, 2006). Não obstante, também observamos nestas duas linguagens, o cinema e o esporte, confluências na forma de interpenetração na vida social da modernidade, como afirma Ruiz: “El deporte y el cine son lãs dos principales ofertas de ocio del siglo XX y constituyen hoy los principales contenidos – em tiempo de emisión y audiencias alcanzadas – de la industria audiovisual em el mundo entero” (RUIZ apud MELO, 2006, p. 16). Portanto, este artigo versa sobre a interlocução entre cinema, enquanto representação da realidade, e esporte para pensar as questões concernentes aos corpos e sujeitos masculinos que descentram os padrões de masculinidade e virilidade tradicional. Nesse sentido, temos como objetivo geral compreender a representação de gênero e sexualidade vinculada ao atleta masculino no cinema contemporâneo, tecendo considerações para a compreensão do esporte moderno, sobre o prisma das categorias de corpo e eficiência. Atrelado a este objetivo central, o trabalho organiza-se em dois objetivos específicos, a saber: Mapear as formas de representar o corpo masculino desviante na sexualidade e/ou no gênero praticante de esporte no cinema; e Identificar a noção de eficiência no esporte para pensar os estigmas atrelados aos corpos masculinos desviante na sexualidade e/ou no gênero. 92 2. Hipóteses iniciais Nos ancoramos na hipótese central de que o esporte e sua representação no cinema ainda é permeada por uma relação linear, produzida historicamente, entre o esporte, a virilidade e a masculinidade tradicional, como nos mostra Dunning e Maguire (1997, p.323), o esporte é “talvez um dos lugares mais importantes da expressão e da preservação da masculinidade sob suas formas tradicionais”, constituindo-se, não raras vezes, em uma forma de validação dessa masculinidade. No entanto, ao mesmo tempo, entendemos que no mundo pós-moderno essa linearidade apontada acima se encontra em declínio com sujeitos de identidades multifacetadas e não-fixas que descentram do padrão clássico masculino no esporte. Nessa direção corroboramos com o pensamento de Jaeger e Goellner (2011, p.966) ao afirmarem que: “identificamos o esporte como um espaço propício para tencionar as representações de gênero, pois nele produzem-se corpos e subjetividades que desestabilizam as determinações biológicas”. Diante disso, as práticas esportivas que por vezes celebram uma masculinidade clássica, também tem sido palco da expressividade de masculinidades e feminilidades não-tradicionais e diversas, que rompem com as estruturas e modelos unívocos de gênero e sexualidade. E quanto ao cinema nos balizamos na reflexão de que as produções e representações fílmicas se operacionalizam ao mesmo tempo em que nos falam sobre uma sensibilidade cultural/realidade, entendida como experiências e sensibilidades contemporâneas vividas, representadas por imagens que referendam uma “predisposição coletiva para certas práticas culturais” (OLALQUIAGA apud ARAÚJO, 2012, p.28). Nesse sentido, entendendo o cinema enquanto representação das rupturas e descentramentos de gênero e sexualidade no contexto esportivo atual, nos reportamos para a análise de algumas produções cinematográficas do início do século XXI que trazem personagens que seguem um caminho diametralmente oposto no tocante ao que se espera dos padrões de gênero e sexualidade no esporte, na tentativa de confirmar a hipótese de uma flexibilização ou ruptura da masculinidade tradicional e dos padrões hetenormativos nos esportes. 3. Metodologia A pesquisa é de caráter descritivo e de abordagem qualitativa, tendo os estudos culturais (EAGLETON, 2005; HALL, 2005; JAMESON, 2006) como moldura teórica. O trabalho de cunho interdisciplinar articula, sobretudo, conhecimento da área da comunicação e da educação física, além de recorrer a outras disciplinas humanísticas que podem contribuir com as reflexões, tais como: sociologia, antropologia, filosofia, dentre outras. Tendo produções cinematográficas como material de estudo, a intenção foi realizar um esforço teórico para dialogar com três níveis de compreensões do esporte. A saber: O da experiência concreta do vivido, com sua ênfase nos mapas de sentido que informam as práticas culturais de determinados grupos ou sociedades; o das formalizações dessas práticas em produtos simbólicos, os “textos” dessa cultura, texto tomado aí em sua acepção mais abrangente; e o das estruturas sociais mais amplas que determinam esses produtos, momento em que exige lidar com a história específica dessas estruturas (CEVASCO, 2008, p. 74). 93 As argumentações se dão a partir da apreciação e pela interpretação de imagens (AUMONT, 1993) que interpela a significação primaria ou natural (fato representado e nível expressivo) e a significação secundária ou convencional (atribuição de valor a partir de referência cultural). No conjunto das análises adotamos como recurso metodológico a descrição da experiência estética das imagens do esporte a partir de quatro conceitos apontados por Gumbrecht (2006), a saber: o conteúdo da experiência, entendido como produções subjetivas desencadeadas a partir da apreciação estética e que podem estar dialogadas com sensações, conceitos e impressões sobre o objeto; os objetos da experiência estética, compreendidos enquanto a materialidade que dialoga com a percepção do sujeito; as condições da experiência estética, percebida enquanto demarcação histórica e social da possibilidade de apreciação e; os efeitos da experiência estética que demandam uma mudança estrutural na compreensão do fenômeno apreciado. O universo de cinco filmes teve que ser reorganizado durante a realização da pesquisa, devido a dificuldade de encontrar algumas produções raras que tínhamos escolhido anteriormente. A partir da recorrência dos temas de gênero e sexualidade em ambiente esportivo chegamos ao seguinte corpus de análise com filmes da última década que versam sobre os descentramentos do masculino no esporte: Sommer Sturm (2004), The Iron Ladies (2000), Berlim 36 (2009), Guys and Balls (2004) e Beautiful Boxer (2004). As produções foram apreciadas para identificar as cenas que questionam o gênero e a sexualidade dos personagens em ação esportiva através da descrição da experiência estética supracitada. Foi criada uma ficha de análise, organizada em duas categorias, a primeira intitulada de objetos e condições da experiência estética se divide nas seguintes subcategorias: Foco Narrativo; cenário e figurino; trilha sonora; câmera e fotografia, cujos resultados serão apresentados. A segunda categoria de análise diz respeito ao conteúdo e efeitos da experiência estética, subdividida em: corpo e gênero; corpo e sexualidade; esporte e estigma; eficiência e descentramento; corpo e ética. No caso da segunda categoria, seus resultados corroboram mais incisivamente para compreender as categorias de corpo e eficiência do sujeito atleta descentrado do masculino tradicional, objetivo geral de nosso estudo. Os filmes foram utilizados como recurso analógico para pensar estas questões apontadas, disso deriva a não intenção de fazer análises fílmicas, no rigor que o termo tem se desenhado no formato acadêmico, mas antes uma atitude do olhar interrogante do pesquisador que mais se aproxima de uma análise que considera o texto fílmico no que se refere à representação de gênero e sexualidade no cinema, bem como o contexto da produção da obra, sendo o filme um testemunho artístico da compreensão do esporte. A partir dos pontos elencados em cada ficha de análise, foram agrupadas as recorrências de sentido em cada subcategoria, ou seja, o que foi percebido de comum entre os cinco filmes, bem como as representações destoantes para que fossem organizados os resultados da pesquisa. 4. Resultados 4.1 Objetos e condições da experiência estética Quando nos reportamos à primeira categoria de análise das fichas (objetos e condições da experiência estética) no quesito foco narrativo, temos que em quatro das cinco produções fílmicas analisadas a história é contada de forma objetiva, tendo como narrador o próprio autor do filme, sem interferências na história das visões ou pontos de 94 vistas dos personagens. Apenas em Beautiful Boxer, os acontecimentos e trajetórias são narrados pelo próprio personagem principal. No tocante aos cenários existe uma recorrência na relação com o esporte em todos os filmes, com cenários que remetem ao treinamento esportivo, campeonatos, contextos de competições, seja no remo, no futebol, no boxe, no atletismo ou no voleibol. Nessa direção, os figurinos não destoam dos aspectos esportivos, comum nas cinco produções, no entanto, destaco o filme Damas de Ferro, apontando que o figurino de alguns atletas da equipe gay são mais colados, apertados e curtos. Além disso, a maquiagem e adereços são recursos recorrentes aos personagens da película, sendo utilizados tanto durantes os jogos quanto fora deles, momentos estes que evidenciam as vestimentas atreladas ao mundo feminino usadas pelos atletas em sua vida cotidiana. Tais adereços e maquiagens tradicionais femininas são também usados em mais um filme pelo boxeador Nong Toon em Beautiful Boxer. Na contramão destes filmes, dois evidenciam atletas gays que afirmam em seu corpo vestimentas do mundo tradicional masculino, são eles: Tempestade de Verão e Guys and Balls. E por fim, em Berlim 36, o figurino das atletas era composto por roupas esportivas nos momentos de treinamento, e por roupas tradicionalmente femininas nas demais instâncias das relações sociais como vestidos, usados também pelo atleta homem. Na subcategoria sonorização, é comum nas cinco obras o predomínio do som em off, sem a presença real de aparelhos de som nos cenários, bem como os silêncios que são bastante recorrentes, simbolizando as angústias dos personagens, e sempre presentes nos momentos de decisão nas competições. A trilha sonora é um aspecto marcante nos filmes, proporcionando um relevo mais sensível às obras e suavidade ao ambiente e às ações. Os arranjos musicais são sutis e nos dão a dimensão da profundidade dos sentimentos dos personagens, envolvendo emocionalmente os espectadores nas histórias. No caso de um dos filmes (Berlim 36), existem sons extremamente fortes que remetem à tensão do nazismo com imagens desta época obscura na história da humanidade, com arranjos instrumentais fortes que remetem à tensão. Quanto aos efeitos sonoros, estes são visíveis em três películas nas cenas dos jogos, nos quais predomina o barulho da torcida e em momentos tensos do jogo com músicas de suspense. Destaca-se a película Guys and Balls ao mostrar uma cena em que o time descentrado está se deslocando para o jogo escutando e cantando a música “I Will survive”, espécie de hino da população gay, denotando uma caricatura dos personagens. Quando nos reportamos à fotografia e câmera, percebemos que a maior parte das cenas nos filmes são paisagens iluminadas ao retratarem os treinamentos, jogos em campeonatos. Contudo, as cinco produções, de forma tímida ou marcante, jogam com a iluminação, ora forte, ora fraca. No caso de Berlim 36, por exemplo, existe durante todo o filme um jogo entre claro e escuro, dia e noite. As cenas de treinamento são bastante iluminadas, os diálogos tensos geralmente acontecem à noite ou no escuro/penumbra. Essa escuridão também é recorrente nas demais produções em cenas emblemáticas de tristeza, confusão mental e melancolia. No tocante à câmera, o plano geral é predominante nos cinco filmes nas cenas que retratam os movimentos e cenários esportivos, enquanto em algumas cenas é nítido o uso do primeiro plano no intuito de apresentar enfaticamente a expressão facial dos personagens principalmente as expressões de raiva, tristeza, tensão. No caso de Berlim 36, a câmera enfatiza em primeiro plano rostos fechados, concentrados e olhares que se comunicam em silêncio. Outro aspecto comum em todas as películas diz respeito a lentidão de algumas sequências, geralmente em cenas decisivas nos jogos ou competições, como nos movimentos de defesa do goleiro Ecki em Guys and Balls, ou nos saltos de Gretel em Berlim 36. 95 É interessante perceber, com a análise dos filmes nesta primeira categoria mais de ordem “técnica”, que a representação trágica e dramática presente na história do cinema gay da qual no fala Nazário (2007) ainda permeia o universo de representação do homossexual. Tal fato é evidenciado por alguns aspectos mais técnicos das produções, como foi possível observar nos resultados. Nos reportemos, por exemplo, à sonoplastia com a predominância de silêncios e arranjos melancólicos para os momentos angustiantes dos sujeitos descentrados. Para além da sonoplastia, a lentidão da câmera em algumas cenas e as escuridões recorrentes nas cenas de tristeza e confusão mental, evidenciam que tais mecanismos cinematográficos tem produzido sentido para os momentos de opressão dos sujeitos descentrados nos filmes. Nesse sentido, as narrativas sempre (ou quase) objetivam possibilitar a produção de sentido de que descentrar os padrões de gênero e sexualidade causa dor e tristeza. Nessa direção, mesmo que atualmente possamos falar de um crescimento de filmes com a temática gay e a homossexualidade por mais que tenha encontrado espaço em sua pluralidade, ela ainda permanece envolta por estereótipos no que se refere a suas visibilidades no cinema, recorrendo, para além da dramaticidade, colocando em pauta a comicidade, presente em alguns filmes deste estudo. Nesse sentido, “por certo, outros filmes evitaram o trágico ou dramático e, eventualmente, apelaram para o ridículo ou o caricato para se aproximar da temática [...] o homossexual foi (e é) representado muitas vezes como o homem gay afetado.” (LOURO, 2008, p.86). Outro fato interessante a ser destacado a respeito do tratamento secundário dado aos sujeitos masculinos que rompem com os padrões de gênero nas películas analisadas, residindo na recorrência de foco narrativo objetivo nas mesmas, ou seja, as histórias de sujeitos descentrados são contadas por outrem, que não os próprios personagens em quatro filmes. Nesse sentido, ao sujeito homossexual ou que rompe com padrões de gênero ainda não é dado o poder da voz, e de narrar os acontecimentos, que são contados por um interlocutor “externo”. 4.2 Conteúdos e efeitos da experiência estética: relações entre corpo, gênero, esporte e eficiência Optamos discutir as representações de gênero e sexualidade dos sujeitos masculinos nas cinco películas analisadas através das categorias de corpo e eficiência. Primeiramente, é preciso pensar que “[...]é no corpo e através do corpo que os processos de afirmação ou transgressão das normas regulatórias se realizam e se expressam (LOURO, 2013, p.85). Essas marcações são de ordem física, simbólica, social, material, e são recorrentes nos personagens das películas analisadas, por vezes de forma mais evidente. Alguns personagens destas películas materializam em seus corpos uma espécie de paradoxo que desconstrói o padrão de gênero, ao apresentarem uma arquitetura corporal forte e viril, coberta por roupas pequenas, apertadas e culturalmente atreladas ao universo feminino, e expressando gestualidades delicadas. Dois dos três filmes (Guys and Balls e Tempestade de Verão) que versam sobre times queer rompem com a expectativa corporal do gay como sujeito afeminado, tendo equipes compostas por homens que apresentam, em sua maioria, uma arquitetura corporal musculosa sem trejeitos afeminados, contudo, mostram ao mesmo tempo alguns personagens com uma afetação para o feminino bastante caricaturizada. Essa caricatura é simbólica no terceiro filme (Damas de Ferro) com seus sujeitos gays afetados que afirmam em seus corpos características tidas como afeminadas e distantes do padrão heterossexual masculino socialmente aceito. Esses corpos transitam entre o masculino e feminino, embaralhando as noções fixas e binárias do gênero. 96 Essas marcações e características corporais atreladas ao feminino da ordem do visível são responsáveis por uma inferiorização de alguns sujeitos gays nos filmes, atrelando sua aparência descentrada, ou simplesmente sua sexualidade desviante a uma possível falta de rendimento e eficiência nos esportes. Atrelado a isso existe também um processo de generificação das práticas corporais evidenciando que “o campo esportivo é eminentemente um mundo dividido por gênero, no seu sentido “clássico”, o que inclusive teria desencadeado a trama de preconceitos contra os atletas homossexuais (ROJO; MELO, 2006, p. 4). Esses preconceitos e estigmas presentes em todas as películas, são nelfrágicos no processo de impedimento do acesso de atletas gays em competições ou equipes, como acontece em Damas de Ferro, por exemplo. Essa divisão também promove discursos como os obsevados em Beautiful Boxer e Guys and Balls de que boxe e futebol não são espaços para gays. Nesse sentido, Tamagne (2013) afirma que homossexual ainda é visto como o sujeito que falhou em sua virilidade, ou seja, o sujeito que não é másculo ou suficientemente viril para o mundo esportivo, sendo desacreditado. Esses estigmas evidenciam o esporte enquanto espaço de validação da masculinidade clássica (DUNNING; MAGUIRE,1997). Contudo, quatro filmes tentam desconstruir os estereótipos e estigmas do homossexual no esporte, mostrando que sua competência independe dos indicadores culturais de afirmação da sexualidade, de adornos, maquiagens ou vestimentas femininas, problematizando também o estereótipo do gay como sujeito frágil, principalmente após esses sujeitos validarem sua habilidade e competência esportiva, seja balizada na força e arquitetura corporal viril, ou com uma performatividade gestual e corpórea atrelada e adornada com o feminino, ou ainda mesclando as duas performances. Ao nos reportarmos a essa exigência de ordem estética, que subvaloriza o gay afetado para o feminino, em contraponto com o ideal de masculinidade, percebemos, que nos filmes, os sujeitos que descentram da sexualidade heteronormativa quebram com a representação cultural de que a delicadeza da representação do feminino ou a homossexualidade afetaria a competência do esportista gay. Nesse sentido: a identidade da instituição esportiva, geralmente vinculada à virilidade e acoplada a uma ideia de vigor, também dialoga atualmente com sujeitos margeados pelo virtuosismo atlético, que vêm permeando em grande medida a multiplicidade de significações dos esportes presentes no nosso contemporâneo. A máxima olímpica do “mais alto, mais forte e mais veloz”, atualmente, deve ser acrescida de valores, como desejo, impulso, sonho e prazer (ARAÚJO, SANTOS e DIAS, 2013, p.121) Corroborando com o pensamento acima, as películas problematizam e questionam a instituição esportiva tradicional ao mostrar sujeitos gays competentes e eficientes com uma performance da representação cultural que mescla, às vezes, masculino e feminino tradicionais no esporte, balizada ao mesmo tempo na força e na delicadeza, que culminam com performances vitoriosas, contrariando as crenças e expectativas binárias e pessimistas quanto a eficácia dos homossexuais nos esportes. Essas performances ajudam a redefinir os parâmetros de uma virilidade homossexual, ao mesmo tempo em que subvertem as noções definidas do que é ser masculino nos seus moldes tradicionais. Os gays rompem com o modelo viril heterossexual, instaurando sua virilidade singular, sem deixar de sê-lo. (TAMAGNE, 2013). Nesse sentido “Esses sujeitos sugerem uma ampliação nas possibilidades de ser e viver [...] afetam, assim, 97 não só seus próprios destinos, mas certezas, cânones e convenções culturais” (LOURO, 2013, p.24). Na trajetória transgressora de seus corpos, os personagens contribuem para embaralhar os territórios fronteiriços e as normas pertencentes unicamente a determinados espaços e territórios generificados, como por exemplo, os códigos de virilidade. Outra convenção desconstruída por algumas películas diz respeito à comparação objetiva, uma das características principais do esporte moderno, que dividem homens e mulheres em duas categorias distintas e inconciliáveis. Ao colocar mulheres competindo com homens, como em Tempestade de Verão e Berlim 36, e mostrar a dificuldade de “classificar” os atletas travestis e transexuais em Damas de Ferro e Beautiful Boxer, os filmes embaralham as noções de gênero e sua divisão rígida nos esportes. Os sujeitos descentrados nos filmes utilizam-se do esporte como forma de subversão dos jogos (in)visíveis da dominação heteronormativa imposta (CAMARGO; RIAL, 2009). Especialmente Guys and Balls, tempestade de Verão e Damas de Ferro mostram como é difícil para grupos subordinados desafiarem as práticas esportivas incrustadas nas normas heterossexuais. Para tanto, como forma de resistir à masculinidade hegemônica e afirmar-se no espaço esportivo, os filmes evidenciam a formação de equipes majoritariamente gays ou queers. De acordo com os autores supracitados esses grupos esportivos semelhantes que são criados por minorias sexuais tentam criar, um 'porto seguro', livre das tradições e dos rituais heterossexistas. 5. Considerações finais No tocante às concepções de gênero e sexualidade, é perceptível nesse cenário, uma evolução quantitativa na tematização do gay nos esportes, no entanto algumas representações estereotipadas ainda permanecem, ao mesmo tempo em que coexistem com rupturas. Neste processo de crescimento de filmes com a temática gay, o esporte encontrou no cinema uma forma dar visibilidade aos fenômenos e práticas corporais, tendo em vista que este “transformou-se numa instância formativa poderosa, na qual representações de gênero, sexuais e de classe eram (e são) reiteradas, legitimadas ou marginalizadas” (LOURO apud MELO; VAZ, 2009, p.128). Contudo, percebe-se que em grande parte das produções que “os arquétipos binários do homem-masculino e mulher-feminina se fazem presentes tanto na história do esporte quanto no regime de visibilidade dessa prática no cinema, perfazendo uma recorrência da representação de gênero relacionado ao esporte” (ARAÚJO, 2012, p.72-73). No entanto, algumas produções pontuais da primeira década do século XXI têm chamado atenção justamente por fazerem o percurso diametralmente oposto, questionando a lógica sexista e binária dos corpos no esporte. Esse é o caso dos filmes aqui apresentados, que nesse jogo de rupturas e continuidades, torna possível questionar e pensar sobre as novas representações do gay no cenário esportivo que estão sendo tecidas nas películas aqui estudadas, que rompem com a lógica binária de gênero, possibilitando masculinidades e feminilidades no plural. Ao término das análises fílmicas, é perceptível que os personagens tencionam diversas possibilidades de ser homem em seus corpos, rompendo com algumas interdições e afirmando, por vezes, códigos caricaturizados homossexuais ou códigos tradicionais do mundo masculino. As películas também descentram as noções de virilidade e eficiência atreladas à masculinidade clássica ao visibilizar gays viris e eficientes no esporte. Essas performances ajudam a redefinir os parâmetros de uma virilidade homossexual no esporte, ao mesmo tempo em que subverte as noções definidas e fixas do que é ser masculino e viril nos seus moldes tradicionais e clássicos. Esses corpos nos remetem a