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Sermam nas exequias annuaes do serenissimo senhor Rey de Portugal Dom Manoel de saudosa memoria, celebradas na Santa Casa da misericordia desta corte

Monteiro, Pedro, (O.P.)

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S E RMA M EXEQUIAS ANNUAES /4 DO SERENÍSSIMO SENHOR REY DE PORTUGAL DOM MANOEL. DE SAUDOSA MEMÓRIA, Celebradas na Sanea Cafa da Mifericordia deíla Corte* pregou o May to Reverendo Padre F' PEDRO MONTEYRO, XELIG20S0 DA SAGRADA ORDEM DOS PRE’GA. dores, Prefentado em a Sagrada Theologit, pela Uca o delia, em os EJludos Geraesda mefma Ordem-, Confultor do Santo Officio, Examinador Synodal defie Arcebifpado , & Trepador do Smníffimo Senhor Infante D. Francifcot OFEERECIDO AO REVERENDÍSSIMO PADRE MESTRE ANTONIO ST1EFF Confeffor da Rainha NoíTa Senhora. pm . LISBOA, Na Officmade ANTONIO PEDROZO GALRAM. Com todas as licenças necejfanas, Anno de 1716. v- •_ ■ , ... ■ ■ ■ reverendíssimo padre. STE Sermão , que prêguey 710 Real Templo da Mfericordia dejla Corte, nas Exéquias Annuaes do Sereniffimo Senhor Rey D.Manoel de boa memória, feu Fundador, fttf 0 havia âefahir d luzfe eu vive rtf tf 0 ww parecer tab ligado,que delle me naõpu* dej]e apartar 0 de outras pejjoas doutas, q venero porfiiperiores, & que reconheço por Me (Ires, que me perfuadem,d"e ao prelo, nao ejle fó, mas todos os m ais , q hey pregado em todos os púlpitos dejla Cor¬ te, a q fe permitte fubir Pregador de fora, & nas principaes Feftividades delia, lnclinoume também a ejle parecera confideraçab, de que 0 nao fe fatis - fazer hum fujeyto do que compõem, »«;; jemp/ç procede de humildade, 77/^5 miiytas vezes he jober - ; /wr fer ejle hum tal vicio , que defprezanctòjf alheyo, ate chega a gerar fafio do que he propriol^S^ Quem defeja,que 0 eme dem, n ao e(conde 0pouco, q jabe\ & pelo cÕtrario, jempre occulta, 0 q obra,o q quer fer havido em melhor conta. Vencida afjim a repugnância, de haver de 0 dar ao prelo, nenhu¬ ma duvida fe me offereceo na eleyçao do Patrono, * x p or por efiarem muy vivas na -minta efimaçaõ as hon - raL de qiie a V. Reverendiffma fou devedor, a quèfo púcie fervir de agradecimento efla minha confifjao . Dotou Deos Senhor Nojfo a V\ Reveren¬ diffma de tantas prendas, que o emprender louvailas ,fora fem duvida diminuillas, é" confequenteihetfte offendellasipor efla razadfomente direy deilas, o que o mundo todo fabe. Saõ de forte, que fiorecendo fempre o Sagrado Império de Alemanha, na o menos nas letras, que nas Armas, de entre tantos mil efcolheo a Rainha Noffd Senhora a V. Reverendiffma par afeu ConfeJJor . E a nao haver delias efla Real demonflraçad, que he fem duvida a mais relevante,&eficaz-, baf ava a de ferV.Re-, verendiffma filho da Efclarecida Companhia de JESUS,para que de todos fofe venerado por Rehgiojò exemplar, douto, & político. Efas fao as prendasprincipaes, de q fe devem ornar,os que afff em em femelhantes occupações ds Magefades & delias repar tio comV. Reverendiffma com lar¬ ga mao o Senhor, que di[pende todas. 0 mejmo guarde aV. Reverendiffmapor muy tos annos , co¬ mo lhe peço. Ne fie Convento de Sad Domingos de Lisboa, 13. de Dezembro de 171 j. Humilde Orador de V.Reverendiífima F ye y Redro Monteyro . . LI- LICENÇAS DA ORDEM. O S Padres Meftres Frey Antonio do Sacramento,Ôc Frey Manoel de Aguiar, vejão eíle Sermaõ, k nos informem com os feus pareceres. Saõ Domingos de Lis¬ boa em 13. de Novembro de 1715. Fr.Domingos de S.Tftomfo,Prior Provincial Cenfiira do M.R. P. M. 0 Doutor Frey Jlntomo do Sacra¬ mento, Confiiltor do Santo Ojfício , & Prior do Red Convento de S. Domingos Lisboa. O B e decendo à ordem de V. P. M. Reverenda, li o Sermaõ, que nas Exéquias Annuaes do Serenifü m o Senhor Rey Dom Manoel, prégou o Reveren¬ do Padre Prefentado Frey Pedro Monreyro, Confultor do Santo Officio,Examinador Synodal defte Arcebifpadoj jSc? Pregador do Sereniílimo Senhor Infante D. Francilco , Sc íem embargo de que naõ correm ostemposem favor, dos que imprimem, caufa porque o amor ao meu habito devia náo fòeílranhar, mas impedir efla refoluçao do Author, me animey eom tudo a approvar a fuá determinação, fundado,em que ha de ter a mefma fortu¬ na eíle feu fegundo Sermaõ, que tevejà o primeyro com que fahio à luz no Defaggravo do roubo de Cetuvai. Foy eíle primeyro Sermaõ tão bem afortunado, oue nao fo recitado, mas o que he mais, deocis de impreflb íe avaliou nefta Corte, como eu ouvi, por hum abifmo s & íe eira foy a fortuna do primeyro, a mefma deve compe¬ tir ao .fegundo, naõ fó porque no talento do Author tem a mefma juftiça, mas também, porque hum abifmo naõ pode achar-fefem outro: A bytfus abyjfnminvoca*. A mate- A matería doprimeyro Sermaõ foy odefaggravo da nofla fidelidade na occaíiaõ de hum roubo, que le fez da IVSageílade Divina* a matéria do fegundo he também hum deíàggravoxio noffo amor de outro roubo, que aos noíTos olhos fez a morte de huma Mageftade humana. Foraõ Mecenas ,6c Patronos de hum, õc outro Sermão d-ous preclariílimos Aítros do Firmamento da Compa¬ nhia dej ESUS, como depõem do primeyro os Religioios nos Clauítros * como teítemunhaõ do fegundo as pefioas Reaes nos Palácios * 6c fe o Author em tudo adverti¬ do, 6c em tudo douto, aílim coroou eítes Sermões com ráõ grandes luzes,neceflariamente devo confeflar, que fe fazem benemeritos do nome profundiílimo deabiímos* mas abifmcs cm cuja face fe não vem as trevas : Tenebra erantfupcrfaciem aby/Ji * pois que fe vem apadrinhados por taõ poderofas luzes. E fendo ifto aílim, fou de parecer, que V. P. M. Reverenda permítta, que o mundo ouça hum, 6c outro abif mo, que ainda impreífos fallaõ: Deditabyjfus vocemfuam & fe a modeflia do Author diífer, que os abifmos dizem Sapientia non efim me, entenda V. P. M. Reverenda que eftes faõ os abifmos em que fe acha a genuína intelli gencia das Efcrituras,6c Santos Padres* 6c finalmente ef¬ tes os lugares proprios da fabedoria, porque perguntava J°b: JJpieftfapicntia,autquisejtlocsis intelhgentue ? Concluo, dizendo, que fe o nome de Pedro he o mefrno que pedra,.6c defla grande pedra foraõ cortadas eílas duas colunas,que erigio o Author pelas razões, que pro¬ põem no pnucipio defta fua obra* que pelas mefmas cauías deve V. 1. M. Reverenda obrigallo a que naó fique ^qiu o non p m u t? a da fua capacidade, fenaõ que fahindo a u*-com os ma.s partos do leu engenho, veja o mundo, que ain a co u \ a a e igiaõ nefte feu grade taléto os efpirítos daquellçs Heroes , q Ue tanto 3 e fempehhàraÓ as fu as foasobrigações no púlpito. Efteo meu parecer, V. P.M Reverenda mandará o que for fervido Saó Domingos de Lisboa 13. de Dezembro de 1715. O Doutor Fr. Antomo do Sacramento^ Prior. Cenfura do Aí. R. P.M. Fr. Manoel de AguiaryConfultor do Santo Ojficio,Examinador daMefa da Confctencta 4 & Regente dos Efiudosde S.Domingos de Lisboa. M Anda-me V. P. M. R. diga o meu parecer fobre efte Sermão, que o R. P. Prefentado Frey Pedro Monteyro, Qualificador do Santo Òfficio, Examinador Synodai defte Arcebifpado, & Pregador doSereniílimo Infante o Senhor Dom Francifco, pregou nas Annuaes Exéquias, em que a nobiliflima Mefa da Real Cafada Mifericordia defta Corte correíponde o fanto zelo, com que o Seremílimo Rey Dom Manoel a mandou erigir para refugio da pobreza: & fendo tantos os créditos,q ue o Autor tem aequirido nos púlpitos, em nada deíiguaes aos quegrangeou nas Cadeyras, fica muytõ fácil proferiro meu juízo: & ingenuamente digo, que fendo muyto diftantes, ( amdaque literaes ) & quaí] entre fi oppoftas as fadigas das Cadeyras,& os eanfaflbs dos pulpitosiporque em fira os Cathedraticos unicamente attendem ao folido das verdades, & profundo das razões, com que aclaraõ as doutrinas, fem que lhes levem os cuydados os Tropos da eloquência, para intimar as maxi mas, quando aos Pregadores, fobre a erudição, & alta Dbedona, he precifa a eloquência, para poder perfuadir, & convencer os diftames ,quedaÕaos feus ouvintes * & moftra a expenencia, que fe nao achatom todos as duas prerogativas: porém o grande talento do Authordcfte bermao aílimvenceoasdiílancias, &. unio os dous oppolios extremos, que fefez copia da celebrada eílatiu, com que a Grécia exornou o portico da íua celebre, 6c inS f i>gne CJniverfidade^pondoihe por nome Hermatena, fabricada >,8c compodade Mercúrio , que entre os GreCiár.lib. g ÜS era Deos da eloquência,8c de Minerva,que»era Deoi.ad Ac* ia da fabedoria, como refere o Cícero 5 porque fendo fatic.Hp.tc j | £ ^ e n t e dos Oradores o Príncipe , advertio quantoera eíla união preciía em todos os Oradores, para lhe colhe¬ rem com grãde iua vidade os frutos das doutrinas, q intimaõ aos actetos ouvmtes:pois como diíTe a mayor luz da Igreja Agodinho, o aproyeytar. a todos com branda fuáD vidade de elegãcia,Rhetarica he do difcreto,o fummo,8c 3 6 . :i mayor luílre de hum fabio: Qui eloquenter dicuntjuaviter 5 chrHt’ pdfapienter,falubnter audmntur-,jèdfalubri fuavitate , & 11 * fiaVifalubntate, qttidmeltm ? Torro , qtunonfolhmfapien - ter., ver hm etiam eloquenter vult dicere>perfeão plm potent , Jiutrumque potuent. E fe no Author concorre taõ alta íabedoria com taó viya eloqucncia, judo pareceque fa* yao à luz publica, naõ fó eíla,mas todas as fuas obras pa¬ ra norma, 8c exemplar dos pertendentes do nome de Oradores infignes, 8c de Medres eloquentes. Ede he o meu juizo, V. P. M. Reverenda mandara fempre o me¬ lhor. S.Domingos de Lisboa 13. de Dezembro de 1715» Fr, Manoel de Ag ui ar, F R ey Domingos deS.Thomàs,Medreem SãtaTheologia,Deputado da Bulia, C õfultor do S.OíHcio,Ex¬ aminador das Igrejas do Padroado , Prior Provincial da Qi dé dos Prégadores nedeReyno de Portugal,&c. Vida a informação acima dos Religiofos , a quem commettemos videm edeSermaõrpela prefente damos licença para íeaprelentar no í ribunai do Santo Oídcioj8c imprimir, precedendo as mais hcenças neceííarias. S. Domingos de Lisboa, 13. de Dezembro de 1715 Fr, Domingos de <$’. 7homàs , Prior Provincial. " Protefia - Pròteftação dó Author. P R o t e í laoAuthor deite Sermão, que quan¬ do no primeyro difcuríb delie chama Martyres a alguns Religiofos,que no Oriente dèraõ a vida pela Fé Catholicaàs mãos de infiéis, naõ heo foi intento ufar do dito termo em íua rigorofafignificaçaõ,comoío tem a dos que jàeítaõ por taes conhecidos, approvados, & declarados pela Igreja, (menos a refpeyto daquelles,que jà tivèraõ eíTa approvaçaõ) mas ló ufa do dito ter¬ mo em fentido largo, & vulgar, parà fignificar, que morrèraò morte violenta às mãos de infiéis pela confiííaô da Fé : cuja Proteftação fazem obediência dos Decretos Apoítolicos. Anno* mez , dia, nt fupra. Do Efte hepois o Montc,Sc Rio doPádreMèftre Fr.Pé* dro Monteyro, naó vejo que faya dclle nefte canal dò fcu abreviado Sermaõ coula queobífô, cu turbe ao ferViço de V. Mageítadejpelo que o acho digniPiimd.jde q íe deyxe correr. V. Mageftade mandará o qúe for fervido; S.Eloy de Lisboa em 20.de Janeyro do anno de 1716. : O Padre "Doutor Jofeph da Natividade. Q U e pofla imprimir-fe viílas as licenças do Santo Officio, & Ordinário ,& depois de impreflb tor¬ nara a Mela para fe conferir, & taxar, & fem iífo naõ cor¬ rerá. Lisboa 23. dejaneyro de 1716. Cofia. Andrade , Botelho. Pereyra, Poft eum non fuitjímiíis ei âe cuntfis Regibus fada > fedneque in his , qui ante eumfuerunt . 4. Reg. 18. Pag. r. AVE MARIA. I O dia, em que a gloriofa Santa Luzia havia j partido para o Ceo, deyxcu o mayor Moj narca, que oReynode Portugal vio, o | mundo. Morreo ( digo) o Senhor Dom -1 Manoel de faudofa memória, a cujo fentimento, St a cujo alivio íe dedica o religioío,St o humano deita piedofa acção. A naõ fer .a fua vidachea de heroi¬ cas yirtudes,naõ havia,de que fazer reparo neíla circunftancia : porém fendo, a que referem os feus Hiítoriadores, indicio foy de felicidade grande. Do Verbo Divino encarnado, diííe SaÓ JoaÕ, que era luz verdadeyra, que^lumiavaatódos os homens: Erat Joan. : luxvera, qu<e illumnat omnem hammm. E do meímo orofetizou /acharas, haver deaffiftir como luz aos qucéfuvao nas trevas, & -fombra da morte , para lhes encamin iai aspa ôs para a oeniaventnrança: Ulumináre hisMiUx. m tcnivris, e." mimara Mortisfedent, ad dirimidos pedes 7, ‘ noJtKos m viam pacti. Ordenar pois Deos Senhor Noflb, queeíie vn üuof > ivey morrefíe em dia de Santa Luzia, que quer dizer, Litcti via , parece foy querer dar a enA tender. £ Sermão nas Exeqiíuu tender , que elle.na hora da morte lhe encaminhara os panos paraaBemaventurançapelomeírnocaminho,co¬ mo verdadeyra luz : Erat lux vera , &c. Illuminare hps , qui va tenebrú 3 & in umbra mortisfedent . Lucia lucü via. O anno,em que eíle faleceo , foy o de 15 21. com que faz hoje 194. defua morte; 6c com ferem paífados quafi dous feculos, baila a noticia, que das fuas Reaes virtudes nos daõ os Hiíloriadores, para que os corações Portuguczes ainda fe fintaõ magoados, cheyos de faudade, de fentimento, 6c de dor. Aílim fabem os Monarcas Portuguezesfazer-fe amados de feus VaíTallos, 6c aílim fa¬ bem eíles amar aos feus Monarcas Portuguezes. Mil,6c trinta annos,querem muytos Authores,que vireíTe Adam; com tudo Moyfés fóméte lhe cotou de vida Gcn.5.5. os novecentos 6c trinta: Faãum eft omne tempus y qnod vi - Aurfior l c ^dam>anm nongentiyér triginta. Do que deo a razaõ o hiftorii nieu doutiflimo Hugo Cardeal, dizendo: Moyfesprattrg** m $t centum amos luãus } p ro morte Abel : que Moyfés lhe ’ naõ contara entre os annos de vivo os cem , em que cho¬ rara a Abel feu filho morto. Com que cem annos de duraçaõ, foy ;o mayor fentimento,que ouve no mundo. E o que eílalanta Irmandade tem moílrado para com o Se¬ nhor Rey Dom Manoel, naó coníla fó de cem annos,mas ainda fe naõ extinguio quaíi em dous feculos. Ainda ho¬ je magoa os corações Portuguezes, 8c particularmente os dos Irmãos deíla Santa Cafa , o ouvirem referir a per¬ da defte grande R ey . A j^ a lí Vras » c l Ue elegi por Thema, faõ do quarto íivrodosReysemoCapItdo 18. nellas falia oEfcritor Sagrado de Ezechias, dizendo,que entre os Reysdejua, nem epois, nem antes houve outro, que lhe fofle femelhante. Palavras, qu e fendo entendidas por efte Rey, me parecerao propr.as para o Senhor Rey D. Manoel, que do SeremJTwo Rey de PortugalD. Mamei. 3 que foy entre os defte Keyno, o que Ezechias havia fido entre os de Judà. E fenaõ,ouvi referir, o que delle difle hum dos melhores Hiftoriadorcs de fua vida, que eu naõ faço mais que verter em Portuguez , o que elle efcreveo em Caftelhano. Diz aílim: Oh Rey poderojijftmo , torna a viver , torna a viver , a enfinar ajèr Reys aos que hoje chamao grandes , & Monarcas , para queconheçao , que tufo. fofteo verdadeyragrande,& o verdadeyro Monarca,po:s humilhafies a teus pes tantos Reys do Oriente , & de África,tantos Reynos , tantos mares , tantas Coroas , <& vitorias tan¬ tas. Quem foy dos mortaes tanto como tu ? Nenhum , aindaque fe morda a enveja , o odiofe carcoma , & rayve a ira,por - que tu fó , fb tufoftes o gr ande Emperador de todos os mares , & de todo 0 Oriente. Depois de ouvires ao Hiftoriador de fua vida, vede agora, o como lhe vem próprias as pala¬ vras do Thema : Pofi eum nonfuitJimilü ei , &c. Depois deElRey Ezechias naõ houve no Rey no de Judea ou¬ tro femelhantei Sed neque in his , qui ante eum fuerunt , nem o tinha havido em todos feus anteceflbres. Vede, o como o Hiftoriador Sagrado difle d’ElRey Ezechias,o mefmo que o Hiftoriador defte Rey no çlifte do Senhor Rey D. Manoel ? Temos logo por aílumpto defte Sermão ( & hc o mefmo, que diz o Thema) hum Monarca Íemíemelhante. O dout.ifli m o Ozorio, digniflimo Bifpo do Algarve-, & gravifllmo Chronifta do nofib Monarca,entre asmuytas virtudes, que delle efcreve, refere as feguintes* Fuit religione pius , atqueliberalü.. felicitas iUitts , qua fmt incredibihs. Foy na Rchgiaõ pio, na liberalidade grandiofo, &: no Reynadofeliciíllmo. Eftes tres pontos feràõa matei ia dos ti es difcúríbs, em todos elles verèmos o Se¬ nhor Rey D. Manoel nefte Reyno hum Monarca fem fe^ melhãtc: Pojl cu nonfuitJimiUs ei,de cunctis Regib usjuda\ A 2 fed Faria na Eur.Porr, tom. i. vi¬ da d’E'. D. Man. Ozor. de Rcb.Emman.l.ii p. iuy. 4 Sermaõ nas Exéquias fed nequtin hü, quianteenmfuermt. PRIMEYRO DISCURSO. N A f ceo o Senhor Rey Dom Manoel, no Riba-Tejo, na Villa de Alcoxete, pequeno berço para Prínci¬ pe taõ grande* mas que Corre tem o mundo,que para taó grande Príncipe naõ foííe pequeno berço? Naõ quiz Chriílo Rey dos Reys nafcer na Corte de Judea,mas fim na pequena Cidade de Bellem : Sc achou o Profeta, que bailava eíle grande Nafcimento , para que eíla íe naõ ouMa«b i ve ^ e < ^ e chamar no Reyno de Judea terra pequena : Et é, ' * tu Bethlehem terra Juda nequaquam mínima es m Trinei - fibus Juda: ex te enim exiet Dtix, qui regat populum meum. Duque de Beja foy o primeyro titulo,que teve o Senhor Rey Dom Manoel, deílepaííòu ao de Rey de Portugal, 6c baílou, que em Alcoxete nos nafeefle hum tal Duque, 6c hum tal Rey, para que jà fe naõ conte eíla Villa entre as povoações humildes deíle Reyno : Ex te enim exiet 'Duxj qui regat , &cFoy filho do Infante D. Fernando, 6c de fua mulher a Senhora Dona Beatriz 5 aquelle amado Irmaõ do Senhor Rey D. AíFonfo V. 6c ambos filhos do Senhor Rey D. Duarte 5 eíla filha do Infante Dom Joaõ, 6c Neta do^Senhor Rey Dom Joaõ o I. Favores do Ceo fe notàraõ no eu nafcimento, porque eílando a Infante com as dores c u pa.to pofta em grande perigo, a tempo que Chriílo Sactamentado, q llc era levado na prociífaõ de Corpus c aque Ja Villa, chegou às portas do feu Palacio, cefTou t e a o perigo,Sc o ditofo Infante fahio à luzirazaó, porque no Baptilmo fe lhe poz o feliciffimo nome de Ma¬ noel, que o nao havia cm alg um dos feus antepaíTados, & val o mefmo que dizer, Deos he com-nofeo : Emmanud , nobijcum Deus. do Sereniffimo Rey de Portugal D. Manoel, y Na Circumcifaõ do Baptiíla queriaó os circundantes . queeíte fe chamaííe Zacharias, como feu Pay : Vocabant Luf eum nominef atris fm Zachanam-, porém a May diífe, 59. que de nenhuma iorte,que o feu nome havia de fer Joaõ: jSfequaquam,fedvocabitur Joannes . Replicàraõlhe, que 61. naõ havia tal nome em todos os feus parentes : Quia nz - ' mo efi m cognaúone tua , qui vocctur hoc nomme-, 6c nelta du¬ vida cõmetteraó ao pay a decifaó, que dando-a por eferito, firmou o meímo,que Joaõ havia de fer o nome: Joan¬ nes eji nomenejm * 6c logo entaõ fe teve a relõluçaõ por prodigio : Miraú funt umverfi. E porque fe naõ havia de chamar Zacharias , como feu pay , ou pelo menos ter o nome de algum de feus Avos , ou accendentes, fenaõ o de Joaõ, que o naõ havia nas duas arvores de feus illuftres Progenitores ? Direy: Tinha o Verbo encarnado , 6c nas purilfimas entranhas de Maria Santifíima occulto, vifitado ao Baptiíla, havia-o fantificado ; 6c como o no¬ me de Joaõ fignifica graça: Joannes , tdejl >gratia * quiz o Ceo, que tomaífe o nome do favor, que recebèra, 6c naõ dos parentes, de que procedia. Eíta foy a origem da impofiçaõdo nome dejoaõj 6c femdhante aellanonoífo gloriofo Monarca a do nome de Manoel. Em nenhum dos feus antepaílados fe achava efie nome: fegundo o eílylo do mundo, havia-fe de lhe pòr ode Duar¬ te, ou o de Joaõ,que eíles eraõ os dous Avós,ou pelo me¬ nos, o de algum feu afcendente , 6c com tudo pozfelhe hum, que naõ havia em toda a fua geração: Nemoeflin cognaàone tua^irc. 6: foy o de Manoel,porque na fua impofiçaõfeattedeoaojà referido favor do Ceo, 6c naõ ao eílylo do mundo : Emmannelnohifcttm Dem. Jàdefde o feu nafcimento começou eíle grande Principe acaufar admirações ao mundo: Miratifunt itniverfis pois jà no fahir a luz,fe via cõ elle empenhada a mão de Deos \ E temm A 3 manus 6 Sermão nas -Exéquias tnanus Domini crai cumillo. Entre as Reaes prendas, 6c fingulares virtudes,de que Deos liberalmente dotou, 6c enriqueceo a eíte grande Monarca,foy huma , o fazelio na Religião pio, huit Religione fias. Diga-o o grande zelo, que teve da honra de L)eos, os ardentes defejos de dilatar lua Fé, de extinguir a idolatria, & o quanto poz huma,6c outra coufa em exe¬ cução, dando a conhecer feu nome, 6c fazendo-o adorar nos remotiüimos Reynos, 6c Impérios da Alia, & nas vaíliílimas Capitanias da America, que ifto fó baüa para que fe diga, que nem antes, nem depois,teve neíta virtu¬ de Monarca femelhante. Falia o Texto Sagrado do Santo Rey Ezechias nas palavras do meu Tliema,6c nellas diz,q nem depois,nem antes, houvèra no Reyno dejudea femelhante Rey : Pofteum nonfuitfimilü ei , &c. ôebufeando no mefmo Texto as fuas virtudes achey, que referia delle as feguintes : Ipfe diffipavit exceifa, & contrvuitftataas , & fucciàit lucos , confregitque Serpentem anettm , quemfecerat Moyfes^Jíquidem ufque adillitd tempm filij Ifrael adolebant eiincenjüm. In Domino Deo Ifraelfperavit . D i z 3 q deílruira os Templos profanos,entregara ao ferro os bofques,quebràra os idolos , 6c a Serpente de metal, que Moyfés ha¬ via feyto, & que os Hebreos idolatravaõ,6t que efperava em o Senhor Deos de Ifrael. Palavras, que fe pódem applicar com femelhanca ao que o Senhor Rey D. Manoel obrou na Afia, & na America, 6c também nas praças de Zafim, Azamor,Mazagam, Tite , 6c Almedina , que to¬ mou.na África, que em todas efías deílruhio a idolatria, arruinou luas Mefquitas, queymou feus Pagodes, redu¬ zi 0 a cinzas feus idolos, poz a ferro feus bofques,ou deftruhio fuas embofeadas, & íinalmentea fuaempreza era huma esfera, quafi com a mefma letra de Ezechias: Spe- do Sereniffmò Rey de PortugalD< Manoel. 7 ro in Deo. Efpero em Deos , que he o que o Texto diz daquelle Rey: In Domino Deo lfrael fperavií. Vede 3 c omo em tudo o referido foy femelhante a Ezechias , & como pela mefma razaõ lhe convem em Portugal as mefmas palavras, que o Texto diz delle entre os Reys de Judea, que nem depois de fi, nem antes, fe vira Rey femelhan¬ te : Poft eum nonfüit , &c. Mas efte dizer tem contra fi huma manifefta inílancia. Direis, que os Senhores Reys de Portugal, que fe feguiraõ depois do Senhor Rey Dom Manoel, continuàraõ na mefma Afia,Sc na America com femelhantes miíToens &c que ainda hoje com o mefmo zelo fe enviaõ a dilatar a Fé,& a deftruir a idolatriadogo aindaque fe diga,que naõ teve femelhante antes de fi, naõ fe pode negar, que de¬ pois de fi teve muytos femelhantes. Refpondo ( naõ me aprovey tãdo para a foluçaõ da fuperioridade do poder, com que o Senhor Rey Dom Ma¬ noel emprendeo eftas conquiftas ao com que depois fe profeguiraó , 8c hoje fe continuaõ ) que baila fer nefta empreza o Senhor Rey Dom Manoel o primeyro, para que aindaque nella muytos o imitaflem, fe verifique que depois de fi naõ teve femelhante. Falia o Texto Sagradonocap.23.do4.hvro dos Reys de Jofias , 8t diz, que efte Rey também no feu governo deftruira a idolatria, quebrando feus idolos, prohibindo feus facrificios immundos, Sc toda amais ceguevrade r fuas abominações : Figuras iáotorum , &immunditias^ * &abomwatmes ) q u*fueruntin terra , Jerufilm abfiulitjozias. Pois fe EIRey Jozi a s perfeguio a idolatria com o mefmo zelo da honra de Deos, St talvez mayor, (como quero Abulenfe ) como ainda aílim fediz de Ezechias, que nem antes, nem depois de fi,tivèraoutro, que lhe foífe nefte zelo femelhante? que o naõ tiveífe an¬ tes. 8 Serwao nas Exequial tcs, paíFe • mas que-também em Jozias o naõ tiveíle de¬ pois, como pôde iflb fer ? Acode à duvida o mefmo Abukníe: Non fiút JoJias Jíntilü Ezcchia , qumlicei Jazias dcjtruxerit omnm idòlatriam , qtue era: in tetra,perftffius, qtíàm Ezechias , tamen non firit ei fimilü , quta Ezefü chias hocfecit J fe ipfo , non habens ah quem piorem , cujas 4.Rcg.i tjwteretfír exemphim. JoJias auiem fequntus eft exemplam <11 9 * Ecclejia , magna tamen lans eji , quod ah quisftcent bona^qita nullmantefeciJJet. Naõ foy Joiias Rey femelhante a Eze- «chias, poíto que também deítruiífe a idolatria , naõfó comoelle fez, mas ainda com vcntagem j & a razaõ he> porque Ezechias entre os feus , no deílruilla , foy o primeyro, Stcomo tal naõ teve exemplo. Jofiaspòrèm feguio o exemplo, que lhedeyxou Ezechias; & baílavà fer eíle entre os íeus na deftruiçaõ da idolatria o Rey primeyro, pará que aindaque outro depois o imitaílc-, fe difíefíe delle , que depois de finaó tivera femelhante: Poji eum nonfiiit , &c. Muytos Reys teve o Senhor Rey Dom Manoel, que imitàraó o feu exemplo, ôc o feguiraõ no mefmo zelo de enviar miífoenspara o Oriente, & para oBrafiíjmas quando naõ houvèra outra razaõ mais* que a de fer ncllas o primeyro,eíla fo bailava para lhe applicarmos , o que o Texto diz d’ElRey Ezechias em as palavras do Thema, que na virtude da Religiaõ fora pio fem femelhante: Pbji eum non fiútfimilü eh & c - Deftas fuas Conquiítas refultou também a eíle grande Monarca a gloria, de haver fido Pay de innumeraveis Martyrcs* poisf em numero foraõ.os VaíTallos ( a quem os noílos Reys fempre trãtàraõ;como filhos, ,£c de quem, Phil.lib. *“‘ orno P e i ^y^^^rincipesjfeidenõmmàhaõ fempre Pays: dc crcat. "Sunt enimjoni 1 rmcipespubUciparentes Civitalum , >érgenrnncip. Hum , difleo douto Phüo). que dèraóas vidas, 6c rega¬ rão com feu fangue as terras do Qnente, para ne.lle intro¬ duzirem do Serem fjirtto Rey de Portugal D . Manoel . 9 duzirem à Fé, em cujo odio padeceraò às mãos daquelle barbaro gentilifmo. De Simaõ Cyreneo, aquelle, que ajudou a Chrifto a levar a fua Cruz ao Calvario, diíTe Sa5 Mar¬ cos, 3 por excellencia grande, haver fido Pay de Alexan¬ dre,& de Rufo: PatremAlexanãriyô’ Rufi :fendo pois cer¬ to, que na Efcritura Sagrada naõ pôde haver palavra fuMarc,IS ‘ perflua, com que razaõ nos dará o Euangelifta efta-noti1 1 cia ? Direy o que entendo: quiz o Euangelifta honrar o pay, & achou , que o nao fazia pouco, em dizer delie, que tivera a ventura de ter taes filhos. Foraõ Alexandre, & Rufodousdifcipulos de Chrifto Senhor Noíib cele¬ bres na Igreja pelo martyrio: Hi diM fihj Simonis erant valdè noti } ac celebres in Ecclejia mterfideles , tamquãm ve - rèdifcípuU Chrijliy difle aqui o doutiílimo Syiveyra.E depois de fe dizer de Simaõ,q tivera a felicidade de ajudar a levar a Chrifto a fua Cruz,naõ era pequena hora íaber1 “ fe também de lie, q tivera na Igreja dous filhos Martyres: Fatrem Alexandria & Rufi. Quantos VaíTallos,ou quan¬ tos filhos ( que para os bons Príncipes eftes dous termos, quafi faò fynonymos, & efpecialmente em Portugal , cojnoo fentiaem Caítella a Rainha Dona Ifabei)°teve o .Senhor Rey Dom Manoel, que dèraó pela Fé gloriofamente a vida nas dilatadas Conquiftasdo Oriente? Lede as hiftorias Ecclefiafticas defte Reyno, & ainda as íéculares, & nellas achareis, que foy efte grande Monarca Pay de nnvytos Alexandres, & de maytds Rufes, fóraente da Fm ,„ . nnnha Ordem, febdit® dsfta Provinda, tenho noticia de JSS. quardira Sc qnatno, que .em diifccehtes occalióes dèraó " VKlas.asmáas deffe barbaro gentihfao, em odio da *' nona b ey íem rallar em outros muytos da mefma Ordem, porem ue I rovincias diverías, que paflandoao Oriente, ofkreceráõ.a D eos as vidas em femelhantes íacrificios. f, B Alèm i S ' Sermaõms Exéquias Izrçáo.oimr aos Reos ) & no punir das culpas, inclinava ao pio,-mas quando' erá preciíò, nao faltava ao fevero,en¬ tendendo , que com o exercício deita virtude íe coníèrpio / , z 9 , vaváo os Reynos, & perpetuavaõ os Thrones: Rex y qui h* jíiâicaP in veritate pauperes, thronas ejns in atcrnumfirmabiUir. Para fe reconciliar com Deos , a quem por fuas culpas havia oftendido, frequentava os Sacramentos, & jejuava no difcuríb do annoa^ paó, Sc agua todas as feitas feyras * nos mais dias era no comer parco. Em toda a vida naõ bebco vinho, nem fazia eítimação do alimento mimofo. Recolhia-fe tarde, & todos os dias fe levantava a tratar do bem publico, primeyro que o Sol. Naõ queria, que lhe fallaílem por Alteza, [ eíte era liaquelle tempo o tra¬ tamento dos Reys ] mas dizia, que baítava huma Senho¬ ria. Obfervaçaõ foy do Anjo das Efcolas Santo Thomàs, meu Meítre, efcrita no íeu livro, que compoz para governo de Principes,(que também das politicas podem fer Meítres os Regulares ) que todos os Monarcas grandes com humildade fe íizerão Senhores do mundo, H-.Thom/^que pelo contrario como fauíto, ôc com a foberbao íwf’' P er< ^ era ° : Omnes tnagni Príncipes , & Monarch£ cum ht*- Mb-^u i^iliíaíefiibjngavertint ikurmumyfedamfavjíu , & elatio - ncperâiderüt .O Rey,Rey inferior,que tivemos,foy o Seí* o r ^ -P er n ando,a que huns chamàraõ Fermofo,óutfos Magnifico, No feu governo crefceo o luxo , 6c defcahio :oReyno. p T al aborrecimento tinha aos vicios , que depois de os reprimir nos Reynòs proprios , lhe davaó pena, os que Alivia iefcrii haver nos alheyos. Soava entaõ no mundo, que ha Corte de Roma fe vivia com efcandalo, particu¬ larmente ò eítado Eccltfiafti c o Mandcu humaEmbayxada ao Summo Pontífice , que então era Alexandre Vi. na do Sefeniffimo Reyde Portugal Q.Manoel. 17 na qual,por nao ofFender a fua peífoa, uíàiido de pa¬ lavras geraes , lhe pedia quizeíTe reformar o Ecclefiaílico daquella Cúria. Admirou a Embayxada o Vaticano, mas geralmente em todos fé vio o fruto da Embayxada. , Vendo Saõ Paulo, que Saó Pedro diílimulava com os Judeos algumas coufas, que fervião de eícandalo aos Gentios, que de novo fe convertiáo à Fè, refere elle mefmo, que em fua prefença lhe refiftira, & o impugnara! E o mefmo Apoftolo acrefcenta, que obràra bem, porque aífirma , que Pedro nefte ponto era reprehenfivel: Cum autem venijfet CephasAnUochiam,mfaciem ei refiiti/juia reAd Gal * prehenfibiUs erat. Mas quem naõ reparará neíta acção de 1,XI * Paulo ? Pedro era o Summo Pontífice, Succeffor de Chrifto, & Prelado Supremo de fua Igreja, a quem Pau¬ lo vivia fubordinado,como a feu Príncipe: Tu es Paílor eviUMjPrmceps Apoftolorwn. Pois como fendo Paulo feu inferior , fe atreve a dizerlhe nao obrava bem : In fadem eireftiti ? Nas feguintes palavras déoo Apoftolo a razão: @úia reprehenfibiUs erat : porque no que diílimulava, era reprehenfivel} porque no que conferida , commettiahúma culpa venial, Peccatim Petri ievèfúit , &vemale, difie o doutiífimo A Lapide : & baila htima leve oífenfa commetida contra Deos, para que (fe não exceder no modo) a poífa hum Príncipe Catholico reprefentar ao Summo Pontífice, que a emende. Ifto foy o que obrou o Senhor Rey Dom Manoel neftaEmbayxada: pedio com pala¬ vras geraes ao Summo Pontífice Alexandre VI. quizeíTe reformar o Ecclefiaíl-,co de Roma * & o Pontífice como entendido, lez a léforma , & ■ paílbu a fazer outras demonílraçóes,de que eftimàra a Embavxada.De tudo o re¬ ferido neile difctirfo fe fegue , que foy o Senhor Rey D. Manoel na Religião pio, que nem antes, nem depois, teve o Reyuo outro Monarca adequadamente femelhanb C te: 1 * Sermão nas Exéquias tc, : Poft eum nonfuitfimiUs ei , crc. Fuit Rdigwnt ■ pus . SEGUNDO DISCURSO. N A ò fó foy o Senhor Rey Dom Manoel na Religiáo pio , como ouviftes } mas também foy hum Monarca grandiofo, 6 c liberalillimo : Atqueliberalü , v ir¬ tude própria de Principesj porifíb Chrifto diífe : QuipoUftatemhabent fuper eos, benefici vocantnr. Vede primey. ro a fua grandeza, 6 c liberalidade para com a Igreja, lo¬ go a vereis para com o fecular. Foy o Senhor Rey Dom Manoel Prote&or da Igreja, excedendo aos Theodofios do Oriente, Carlos do Occidente , Hermenegildos, 6c Fernandos de Caftella, Duartes de Inglaterra, Luizes de França, Henriques de Saxonia,Vvenceslaos de Boê¬ mia, Leopoldos de Auítria, 6 c Eftevãos de Ungria. Le«* yantoulhe à fua eufta paífante de cincoenta Templos, Fundou nefte Reyno treze Conventos, hum da Ordem de Chrifto, outro de São Bento, tres de São Domingos, quatro da de São Francifco, 6 c outros quatro da de S. Jeronymo, alèm de outros mitytos nas Conquiftas. Augmentou os dous Reaes Conventos de Alcobaça, 6c Bata¬ lha, 6 c mandou fazer os dormitorios do Real Convento e São Domingos defta Corte. A outros muytos, de que naõ foy FundarW. pnrimipr 'Pri rr \m líircrâS eímolaS* •r, -.a u, em que a iorma excedeo a mátena, com retída perpetua para arder. A obra, que do Seremjfimp Rey de Portugal D . Manoel, xp qué bailava para o acreditar de Monarca pio,&: liberãjjie cite celebre Templo, & Santa Cala da Mifèricordia, de quefoy Fundador & feiis filhos os primeycos' Irmãos, de que tiveraõ principio todas as mais, que hoje ha em todas as quatro partes do mundo, nas quaes, oqueannualmente fe gafta em obras de charidade, fó fe póde contar por milhões. Eílafoy a grande liberalidade do Senhor Rey Dom Manoel para com a Igreja. Como pois lhe naõ faria Deos tantas mercês à fua peíToa, àfua Cafa & ao feu Reyno? * Sómente porque David intentou levantar hum Tem¬ plo a Deos, que naõ chegou a ter eíleyto, nem a fahir da fua idea, lhe louvou o mefmo Senhor o penfamento , dizendolhe: QuodcogitajU in cor de tuoadificareâomumm. i.R<g. mnimeoybmfecifti , hoctpfummentetraãam. Poreftelhe l6 ‘ prometteo o Senhor grandes favores para feu Reyno,pa¬ ra fua Caía, & para o feu Throno : Fidelü tút dommtua & Regnum tuum ufque maternum , ante fackm tnam , & thronus tuus eritfirmus jugiter. E fe eíte prêmio deo Deos a David fomente pelo intento de lhe levantar hum Templo, qual feria o do Senhor Rey Dom Manoel, q ue lhe edificou tantos ? ^ Intercedèraó em certa occafiaõ huns homens para com Chrifto Senhor Noflo , para que efte Senhor fofle fervido dar faude a hum menino filho de hum Centurião que fe achava proximo à morte; & a razão, que para o fàzer lhe propuzèrao, foy, qne aquelle homem era amigo dos da fua Naçao, & que.à.fuacufta lhes havia levanta¬ do huma Synagoga : Dignus eft , ut hoc illtprajies , dtlt -, git enimgentcmtuam , & fynagogam ipfeddificavit. Pezàráoeftas razoes tanto na eítimaçaõ do Senhor, que naô quiz faltar ao que fe lhe pedia, obrou o milagre, dando ao menino repentinamente faude: Fade , & fiem credtdif- * >• C i U 2© Sérmm im Èxtqum •'' • thfiàt tibh&fanat-iis ejlpurvin iliahora. Ouvi agora a luç da Igreja Santo Ambrofio , ponderando cfte lugar : Si commndatur Domino, qut tedificavit Sjnag og a m- } quanto efi commendatior,qm aâijicavit EcckfiamíEtJus mertturgr a - tiam, qui mpietatü receptaeulumprajlitit 3 quanto maior em mretiirgratiam,qm Religionis dommUumpraparauit •? Se d Amb recomenda , o que edificou huma Synagoga - f quanto Serm.ulc*. 1 11218 digno de recomendação para eora o Senhor ferà,o dc Dcdic. que lhe levantou huma Igreja ? Se confeguio de Chrifto ttclcC hum milagre, o que edificou huma Cafa, que ( depois de promulgado oEuangelho} havia defer receptáculo de impiedadej quanto mayor favor lhe merece aquelle, que lhe edificou hüa Cafa deReligiaõ?Continuo pois agora o mefmo argumento de Santo Ambrofio , & digo aílim.: Gomo naó faria o mefmo Senhor mayores mercês, íupe* riores favores ,& fendo neceflario, mayores milagres ao Senhor Rey Dom Manoel, fe efte lhe edificou, n a õ huma Synagoga, nem fó huma Igreja,mas paflante de cincoenta Templos magníficos, muytos Conventos fumptuofos^Hoípitaes opulentos, & em fim efta Santa Cafa em que eftamos, tudo domicílios da verdadeyra Religião > da que ha de permanecer atè o fim dò mundo em feu lou¬ vor ? Si commendatur Domino, &c. _ Não parou ainda aqui a liberalidade do Senhor Rey 1 om Manoel para com a Igreja , ainda fe extendeo a mais a fua liberalidade. Ordenou , que de todas as fuas rendas, que poffuhia na Africá, fe defie o dizimo delias - annua ^ a os S a cerdotes, que là viviaõ, alèm das a da Eur. c l ue P°Hvihiaõ^jà da Coroa, para que fe pudefiem fuftenua vida tar com mais abundancia, & ■ aílifbir ao culto Divino com Logo deooCeofi. Goc?,& naljdoquãto íe agradaradefta mercè,porque no mefmo omros. dia, em que EÍRey a firmou n 0 Paço, lhe deo o Senhor t na do Sereniffimò Reyde Portugal D.Manoel. ria meírna África humagrandiofa. vitoria j alcançada dos Mouros por mão de Dom J oão de Menezes,grande Capitaó de. Arzila. Achava-fe efte grande Monarca no Reyno de Aragaõ na pertençaõ de fer jurado Príncipe herdeyro delle, 6c de todos os mais de Hefpanha, quando de là mefrno, fem ninguém o perfuadir, nem lho lembrar, defpachou hum Decreto para o Arcebifpo defta Corte,em que ordenava» que nenhum Ecclefiaftico pagaíTe Decimas , nem Gizas, nem outros tributos , que atèallipagayaõcomos mais. Paflados alguns annos extendeo o mcfmo Decreto aos Cavalheyros, 6c aos da milicia de Chrifto. Por eíla liberalidade,de que ufava com a Igreja,era tanto o ouro,que Deos lhe dava, 6c tantas as rendas que pofluhia , que di¬ zem os Hiftoriadores, que naõ podiaq os cobradores das rendas Reaes contar o muyto ,que havia que receber 6c que por naõ poderem dar vaíaõ , deferiaõ as cobranças para outro tempo. Chegou no feu tempo o ouro a ler tanto, que quafi teve entre nòs perdida a eftimaçaô. Naõ he menos, o que hoje vem do Braíil, do que vi¬ nha entaõ da Mina, 8c do Oriente. Mas como fe não vè neftes tempos efta abundancia? Que peccados feràó eftes defte Reyno, que ofazem pobre no mefmo tempo, em que pudèra fer íobre todos o mais rico?He verdade conftante, q«e nefte Reyno em todos os Tribunaes, 8c na praça, todos os pagamentos (ha poucos annos) fe fazião em patacas; vede fe appareee hoje huma ? A moeda de prata antiga tem da mefma forte defapparecido toda, os cruzados novos vaò-feextinguindo. Do ouro velho, de que fe fabe, que forão à Cafa da moeda muytos milhoensà fer rilha, como.íe tal não houvera-, o novo vay . peto mefmo caminho, pela barra entra, 8c pela barra fahe. Entaò vindes aos pè$ do Çonfeflbr chorar a vpfia pobreC 3 za. Sermão narÈxequi az za, donde haveis dechorar a voíía culpa. Tem chegado o luxo dos Pomnguç^es a tal eftado,q atè os paramentos das caías haõ de vir inteyramente dos Reynos eftranhos. O que íe gafta fómeute em panos finos, cabeleyras, & re¬ lógios,^ cQUÍas tão efcufadas!) feconta annualméte por milhões. Outro tanto fe gafta em rendas finas, fedas, òc fitas de prata, & ouro, franjas , paífamanes, & galoens. Quantas Prematiças fe teràõ pofto nefte Rcyno fobre efta matéria ? Se não forão juftas, como fe puzèrão ? & fc o foraõ, como fe naõ praticaõ ? Chrifto difte dos que afliftião aos Reys, que eftes veftião os panos finos: Ecce qui mollibtM vejhuntur , in dornibus Regamfunt j como nefte Reyno todos querem paMitth. recer palacianos , poriífo depois fe vem tantos pobres. 11 ' ' Não era iftoaftim no tempo do Senhor Rey Dom Ma. •noel. As peflbas, a que fe permittia veftir feda , ou era das que vinhão da índia, ou das fabricadas nef¬ te Reynoj& para fe veftirem os mais, havia também nelle fabricas* & como neftas tinhãoos Ofticiaes muyto em que trabalhar, tinhão fem pobreza, de que comer, & que veftir. Sófe defpachavade Reyno eftranho, o que era precifamente neceíTario, com obrigaçaõ de levar defte em fazenda o procedido. Defta forte fe confervava o ou¬ ro em Portugal entaõ 5 & do contrario procede a falta, que fe experimenta hoje. Da pobreza fe originão innumerayeis culpas, 6c deftasjuftamentefe deve temer hum grande caftigo de Deos. Ouvi como o Senhor Rey D. Manoel repartia as ri¬ quezas, que annualmente lhe vinhaõ das fuas Conquiftas. Dg;> feusqumtos do ouro mãdava levantar os Téplos Sa¬ grados,^ pagar aos q trabalhavaõ nos edifkícsdcs Con¬ ventos. í odososannos veftiaatodos os Religiofos de S. Francifoo meu Padre,quantos havia em feus Reynos, Sc Con- do SereniJJtmo Rey.de Portuga I D. Manoel. i$ Gònquiítas,que faõ tantos em numero, que c«ydo 3 q uéclles íós igualaó a todos ós Regulares juntos. Com-noíco os Dominicos fé havia com mão taõ larga,q fe lhe naõ reprefentava neceílldade de Convento algum* queanaõ remediafle. Dizia ferem os Meftres de feíi Keynoj pois a íeu cargo eílavão asEfcolas geraes dellc, defde a fua primeyra inílituiçaõ,emtempodefeu Fundador , o Senhor Rey Dom Dinis. Ou para melhor dizer , os mefmos Conventos de Saõ Domingos j huns tempos o de Lisboa, Sc outros o de Coimbra, eraõ as EL colas geraes defte Reyno, quanto à Theologia; em cuja occupaçaõ nos faziaõ osReligiofos de S.Francifco copa» nhia, na primeyra erecçaõ deita Univeríidade,&: nino-ué mais, como coníla dos Eftatutos Reaes delia. Via niais queosProvinciaes Dominicos eraõ perpetuamente os lnquifidores Geraes dcfeus Reynos, por muy t as Bulias Apoítolicas, fendo a primeyra a de Innocencio IV. q Ue Bran <J-nà principia: Odore fm-vi Ordinüveftri, pafladano annode 1246. em cuja dignidade permanecèraõ atèarenovaçaõ f ol ' U l < ' defte Santo Tribunal, que foy depois do governo de feu Succeffor, o Senhor Rey D. Joaó III. ( a mefmadigni¬ dade pofllihiaó todos os Provinciaes de Saô Domingos nos outros Reynos, & o feu Geral em toda a Chriftandade atè arenovaçaõ deftemefmo Tribunal nelles,& fundaçaõ da Congregação do Santo Officio em Roma , nó Pontificado de Paulo III. no anno de 1542.) Efinalmente via, que naõ fó nasCadeyras, mas também nò» *«*..» púlpitos,aelles por profiíTaó,& exercido,lhes perrencia “°" umr o doutrinar os povosgodas eftas razoes o moviaó a fe haí„7h°'. ver com a minha Ordem com maõ mais larga. A’s mais Religiões afliftia também com liberalidade; porque attribuhia as vitorias de África, & as do Orien¬ te , naó fó ao valor dos feus Capitães, & Soldados, mas cambem 14 Scrmaõnas Exéquias também aos Sacrifícios, & Orações dos que veneravaõa Deos por elles. No mefmo tempo, em que tão liberaimente eílava gaftando com a Igreja em Portugal, enviou a Roma ao Summo Pontiíice Leaõ X. huma Embayxada com hum grandiofo prefente, que confiava de hum Cavallo Perfico,quejà havia fido prefente defte Rey para o noflb.Ém cima delle huma Onça de caça, em feu feguimento hum Elefante índio, & emcima hum grandiofo Cofre , que eontinha em íi todas as peças de hum rico ornamento Pontifical , cuberto todo de Diamantes ,& das mais preciofas pedras, que produz o Oriente 5 coufa , que jufiamente poz em admiraçaòàquella Corte, donde foy avaFar t»m f&çíoem quinhentos mil doudos. Là diz o Texto Sax.p.* 4 .c.i . grado , que na Ley antiga o ornamento do Summo SaExod 75 cer d° te eftava todo cheyo de pedras preciofas, & que ay. ’ 3 s ‘ com ellas concorrèraõ os Príncipes: Príncipes vero obtii - in lerunt lapides Onychinos , érgemmas ad ftiperhnmrale , & ©:d. rationale. Para efte ornamento os Príncipes, que concor¬ rèraõ, foraõ muy tos : Hic ejt Pontificü ornatus,fed ad hac explenda Príncipes requiruntur : notou Origenes: & para eftoutro, bailou o Senhor Rey Dom Manoel, porque ria liberalidade excedia aos mais. Caufaadmiraçaõ ler,que nomefmotempo , em que cfte grande Monarca eílava fazendo tantos gaftoSjComo tendes ouvido, cõ a Igreja 9 eítivefTe fuílétando Exércitos em todas as quatro partes do mundo. Na Europa enviou trinta Nàos com tres mil & quinhentos homens de guer¬ ra , a foccorro de Veneza contra o Turco. A África en¬ viou feu Sobrinho, o Duque de Bragança Dom Jayme, com quarenta, em que hia5 dezoyto mil In fantes,Sc dous mil & feiscentos Ginetes, f obre a Cidade de Azamor, que . rendeo, & prefidiou, Sc iuntamènteasCid ades de Tire, do Seremffimo Rey de PortugalD. Manoel, zj .&: Almedina, que os Mouros neita occafiao deíamparàraõ, por Xe naõ atrevereraijâ a íopportar os golpes das efpadas portuguezas, Paraa Ameriça..,.& para a Afia eiiVJ4V4 todos.osannos Armadas poderoèírimas.Occaíiões V uve, enx que .mandou preparar fefíenta Nàos de alto o Infante Dom Luis •40 Oneqte, o que depois fe naõ executou. Trezentas Nàos fu as , eraõ as que commummence trazia neftas Çonquiftas. . , Xodqs eftes gaftoslhenaó impedirão.também o fazerl^ rtuiü ^eíle Reyno quatro Palacios , o daRibeyra, o do Li-:jov;um. U Pioeyroj o de Coimbra, & o de Muje; vinteôe fete forta¬ lezas principaes , alèm de muytos Caftellos inferiores; i4ürar quatro Praças 9 fazer as celebres.pontes de Coim- ;>ra,& de Oiivença, Alfândegas > Gafas da índia, Arma¬ zéns providos de. innumeraveis armas, muytos canhões dé artelharis, moles, fontes, praças, muyto difto. Eque para tudo ifco tiveÜe dinheyro! Naõ me occorre outra ipõfamais quedizer, que poriflb mefrno, quegaftava tâQ libe rd mente com a Igreja r lhe dava Deos dinheyro panvtudo. . . Ouvi hum.grande. Texto literal. Refere São Lucas nfifc A ftos áp$ Apoítolos,que na primitiva Igreja naõ ha¬ via nella homem pobre, todos tinhaõ que comer, & de que veftir, cada hum conforme feueftado;o plebeo, comoplebeoi.o nobre, como nobre; & o Príncipe, como Príncipe, cada íuim dentro, do íeu eílado naõ padecia Aa A neceflidade alguma. .Grande felicidade! parece incri-f. ’ ' vel. N ao haver em toda a Igreja hum homem neceílitado ! Ouvi o í exto : Neque tmm quifqham egens erat interiüos. Admiraisvos do cjueouvisX Pois muyto mais para admirar, he a razaõ diffo. Da-a o Texto logo nas .feguintes palavras: Quotqvotmirnpoffejfores agrornm , aut D * dmo- 3 } Sermaõ nas Exéquias thí4ímyrrham . E diíTe o douciílmioSylveyra^ueof* i. fereceremihceflas,foy proteílarem, qiieaquelieMenino 3i.n.^iiy erao ^ CLI ívey Soberano, 6c elle-stcdcstrc&feusfcudatanoi: Obtukrunt mmera Magi in recogmtionem fitprew/e Maicftâta 'Dnnrtsc , &<ucluti jefer, datar ios dlmsprotcftanThomiftesM, pofto q.ue Chriilo 3 n a ó íó em quanto Deos,mas auv tsc jti j.p. da em quanto homem (como enfma o melhor dos Theologos ) tinha domínio Regia fobre todos os Monarcas do mundo,na execução fòdeites tres do. Oriente recebeq feudo. Contentou-íe Deos, que a feu Filho fo tres Reys do Oriente pagaíTem feudo em reconhecimento da Má-* geftade Di vina p mefmo Senhor quiz, que a huma Mageíhde humana, infinkamenteinferior, & creatura fua, pagaífem feudo, naõ íb tres Reys do Orientemas. deíTe mpfmoOrientc 28. Reys. A que mais podia neíte mundo chegar a felicidade cie hum homem! Da terra íubamos ao Ceo. Nas Yifoens do fen Apocalypfç refe¬ re Saõ joao, que viraothrono da Mageflade Divina, j6c que diante delle lançavaõhuns Anciãos as íuas Co¬ roas: Mittebant CjV onasfaas ante thronnm. E querendo eu faber o numero deftes coroados Anciãos, ou deftes venerandos Reys, vejo que o mefmo Texto me diz, fe¬ rem vinte &. quatro: Vigintiquaiuor feniores. Só 24. Reys eraó nefta occafiaõ, os que vio fe lhe rendiaõ, Sc o louvavaõj 6c ao Senhor Rey Dom Manoel, fendo huma puiatreatura, & fómente huma Mageftade humana, deGihe o-mefroo Dcos 28. Reys por Vaflallos, que ao feti Império, Sc ao feu th remo fobmeçiaõ as fuas Coroas: Mntebant Çoronasfuàs arUe thrmmL Grande felicida¬ de ! fr 47 ' • Pez-Reys refere 0 «cimo EuangeUfta , que vira no Apoealypfe , os quaes ctWaó poftcs em armas , & pelejavaõ contrao CordeyroV porem Jogo acrefcentou* que do Serenijjimo Rey de Portugal D. Manoel. 33 que efteós havia de vencer, Hicim Agno pugnabant, & Agnusvmcet illos. Agora ouviarazaõ dada nas feguintçs palavras do mefmo Textoié^/íW/ã' Dominus Dommorü efl, & Rex Regum cumilíofunt vocaü elccfi y & f deles. Porque eíte Cordeyro he o Senhor dos Senhores,& juntamente o Rey dos Reys > 6c os que comelleeftão íaó Catholicos, faó os chamados Fieis. Ser Senhor de todos ps Senhores , 6c Rey de todos os Reys, he titulo , qiú convem fò a Deos, pelo fupremo dominio, que tem i'o< bre todas as creaturas. Porém com dominio participa¬ do, 6c inferior fe chamãoos homens no.mundo, huns Se¬ nhores, 6c outros Reys : mas com efta diíferença entre os mais, 6c o Senhor Rey Dom Manoel, que os mais não ícràõ íó Reys de povo, mas de muyta nobreza, de muytes Grandes, de muytos Titulares, 6c demuytos Senhoresi o noíío Monarca porém teve de mais q todos, o fer Senhor de taes Senhores, 6c detaes Grandes, q o fizèrão Rey de 28. Reys.Todos eftes primeyro fe puzèraõ em ar¬ mas có formidáveis exercitoSiporèm como osPomigiiezes coniofeu Rey pelejavão. pela parte do Cordeyro ,Chrifto,6c pela introducçao de fua Ley \Etquicuillo funt, vocaü eletfh&fideles ,poriflo todos eftes Reys ficàraõ vécidos, 6c feudatarios, 6c o Cordeyro com o titulo de Rey dos Reys com o dominio fuprerno *.6c o Senhor Rey D. Manoel, Rey dos Reys, mas com dominio participado porém eftecom huina tal ampliação , que fe não acha no mundo nos outros Reys : Hi cum Agnopimiabant, & Agnus vmcet ulos., quoniam , &c. Agora levantara eu huma queftão: qual foy mayor fe¬ licidade do Senhor Rey D. Manoel, ter no Oriente28. Reys por Vaílallos,ou.fer Rey de taes Va(Iallps,que lhe fízèraó feudatarios eííes 28.Reys do Oriéte? Deyxo a reíòluçao à voíía efpeculação, por me não dilatar mais. e R°y Cen.<f« í ri.ztí.j. Chryf. hom. 9. in F.p. i. ad Tmi. 34 Sevmaõ nas Exéquias Fby tâníbèm o Senhor R.ey Dom Manoel feliciffirtíò m Súcceílaó., que a falta delia em qualquer Reyno he deígraçá grande. Notay, que nas letras Divinas, os fi¬ lhes fechamáo bens, 6t o gerar, poíTuir 3 poriíTo Adam • no naíeimento de Cairn diífe: Pòjfidihominem per TJeurn, EDàvid lhes chama herança do Setfhor, & mercê fua-: Receber editas 'Dommifiíij^nerces i fructm ventrvs. E Saõ Joaó Chryfoílomo faliando do grande cuydado,que delíes fedeve ter, lhes chama depoíito grande, 6c preciofo: Magnttm babemos ffetiofúmque depojitumfilws , ingenti iU los fervemos cura. Teve pois o Senhor Rey Dom Ma¬ noel também eíla grande felicidade nos muytos filhos, Sc filhas, que teve. Deo fucceíTaõ a Caílella na Empcratriz D. Ifabelfua filha,mulher do Emperador Carlos V.Deò fucceíTaõ a Alemanha na Emperatriz D.Maria fua Neta, mulher do Emperador Maximiliano H. Deo fucceíTaõ h Saboya na Infante D.Beatriz fua filha,mulher do Duque Carlos III. Deo fucceííaó a Parma em fua Neta a Se¬ nhora D. Maria, mulher do Príncipe Alexandre Farneíio. Deo fucceíTaõ a França em feu Neto o Senhor D. Antônio, filho do Infante D. Luís. E dôde foy mais fe¬ liz, foy, na q deyxoü neíte Reyno.Teve nelle dous filhos Reys,o Senhor Rey D.Joaõ III.& o SenhorCardealRey D.Henrique. Extinta a fucceíTaõ do primeyro filho,nos ficou a do Infante D. Duarte na Sereníílima Senhora D. Catharina, Dnq UeZa Bragança,mui herdo Duque D. Joaó o I. a quem, não o poder dos Çaftelhanos, mas a fal¬ ta de união entre os VaíTallos , tirou a Coróa, que depois •omefmo Rcynoreftitahio, „aõ a,eu filho o Duque D. i heodofio j nias a feu Neto o Senhor Rey Dom João o IV. Pay dos Senhores ReysDom AfFonfoVI. & Dom Pedro II. 6c Avo de Sua Mageflade, que Deos guarde. Eíla he a feíicifllma fucceíTaõ do Senhor Rey Dom Ma¬ noel, cio Sereniffmo Rey de Portugal D. Manoel, j5 #oel 4 pela qual de alguma forte podemos dizer,que ain¬ da exiíte: : Tanta s Impera ter recejjit à nobu >Jcd non totus p:dn . Xeccjjihrehqnit enimnopü liberosfuos } tn quibus eimàebemü v.und? agnofccre iri quibus eum 'ércernimts , & tenemus. Bifr fe Santo Ambroíio a femelhanteintento. it*í ™ Az Relta fomente dizervos a fna mayor felicidade j 6c lie, °*>iru que havendo fido ditolo na vida, ( p iamente cremos) que Tl,cod ° r ' foy mais ditofo na morte. Qiuz hum engenho fazer hum emblema de hum Monarca virtuofo , & pintou o Solfepultando osfeus luminofos rayosnos últimos orizontes, por cima da pintura efcreveo eile lemma: Maior inocçafu. O Sol fempre he grande, mas por fe deyxar ver me¬ lhor no occafo , entaõ nos parece mayor. Sendo eftç grande Rey dos Planetas geroglifico dos Monarcas, com efpecialidade o parece fer do Senhor Rey Dom Manoel, porque ou eíteja no Oriente, ou no Zenid, ou no Occafo,fempre alumea terras fuas, 6c aílifte a Vafiãllos feus. As acções da vida deite Monarca fempre o acreditarão grandes mas as com quefe preparou para morrer, ainda o fizeraõ mayo.r. Foy como o Sol grande no Oriente , mas pareceo mayor em o Occafo: Maior in occajii. Adoeceo pois mortalmente j 6c como toda a fu a vida viveo preparando-fe para eíta hora, nem a morte lhe deo fuíto, nem o colheo de repente : afiim como o Senhor lhe bateo à porta, 6c o chamou, logo abrio, porque não dor¬ mia, vigiava, à imitaçaódos bons fervos, queefperaó pe¬ lo Senhor: Etvosfimiks hominibus cxpcãantibus Domi - ftttmfmm , quando revertatur a nuptijs , ui cutn venerit , o v piâfaverity confeftm aperiant ei. Fez a ProteítaçaÓ da Fe, l ™ ' l u fecebso devotifíimamente os Sacramentos da Igreja com J grandes demonítraçoes de arrependimento de fuas cul¬ pas, fervórofos actos de amor dcDeos,6c de confiança em fua miíericQxdia, por onde piamente cremos,que efpircu E "2 ‘ cm Apòt.i 4 * 3 < Apnd Balth. rcit.f.87. Apud Meiidt.i inl.Rcg.- foi. 5 8 6 . Apud ' v Guerreyrocup.io foi. I40. Marc. 8. jí.dc 37. 3 6 Sermaõ nas Exequuu em o Senhor: 6c eíta he a mayor das felicidades: Beati 'morim, qni m Domino mor wnuir. Teve cite grande grande Monarca 52. annos, 6c íeis mezes & mey o de vida, 6c 26. annos, 6c quaíi dous mezes de Coroa. £is-aqui, Catholiccs, o que duràraõ a hum Rey, que chamamos ditofo, as mayores felicidades deite huindo! Ghegou a morte, 6c em hum iníbmte pa¬ ra elle fe acabou tudo. PoriíTo o Senhor Rey Dom Felippe, o primeyro deite Reyno, 6c fegundo nos demais de Hefpanha,citando para.morrer,a tempo que lhe quefiaõ dar o Sacramento da Unçaõ , mandou chamar ao Príncipe feu filho, chamado também Felippe,6c diífelhe eítas palavras: Qnizqiic âfjijhfjes aefteatfo , para que neU le vejais , 0 em que para 0fer Senhor das Monar chias do mun - do. Oiiviftes,.o que na hora da morte diíle Felippeo pri¬ meyro. Ouvi agora, o que em femelhante hora diífe de¬ pois o fegundo: Nihil conferí Regem ejje , mfiutin morte cruciet &fuijje * para a hora da morte, o haver fido Rey, fomente íerve de Cruz. E o Emperador Fernando diiíe ao feu ConfeíTor Zitardo, a tempo queeítelhemimftrava o mefmo Sacramento, que lhe naõ chamaífe mais Emperador, fenão Fernando* acrefcentando, que efte tratamento bailava, para o que brevemente havia dc fer pò. Oh fc os homens com eftes exemplos, 6c com eftes defenganos coníideràrão bem nefta ultima hora, 6c no em que vem aparar tudo, o de que fefaz eftimaçaõ nef¬ ta vida, de quanto proveyto lhe ferviria eíte penfamento! Fie íem duvida,que naõ haveria ,quem com huma fó culpa mortal quizeífe comprar o fer Emperador de todo o mundo, vendo, que efte dominio brevemente havia de acabar com a vida, 6c que aquella culpa tinha por pena hum inferno fem fim. £ fenaõ re.fpondey àpergunta, que vos faz Cbrif- •*í ‘' to: do Sereniffimo Rey de Portugal D Manoel. 37 fo': Qtiid mm proderit homim , fi lucrettir'fnund»in totum , & dttrimentum anime fu*fdciat ? Aut quid dabit ^ 6 \ c ' hmo commutatwnüpro animafua ? Que aproveyuria ao homem , o fer Senhor do mundo todo, fe depois a íua al¬ ma íe ouvefle de condemnar ? Aquelles Re ys,Monarcas, St Emperadores , que hoje fe achaó ardendo no Inferno, que he, o que tirarão dos feus Reynos, das íuas Monarchias, & dos feus Impérios ? Talvez, que nenhuma ou¬ tra coufa mais que omefmo Inferno j que o ufarem mal do domínio, que Deos lhe deo , & das riquezas, de que os fez Senhores, os poz no lugar em que fe achaõ, & foy a origem das penas, que padecem, Eíla confideração, ôc outras femelhantes foraõ, as que íizèraó , com que o Senhor Rey D. Manoel viveíTe com tanto temor de Deos, 6c poífuiííe aquellas grandes virtu¬ des, porque hoje piamente confideramos , que eftarà go¬ zando da Bemaventiirança. E fe eu na Urna, que hoje cobre as fuas Reacs cinzas, houveíle de pòr epitáfio, naò o compuzèra do dilatado Império, que poíTuhio, fenaõ das grandes virtudes, de que fe ornou. Foy pio para com Deos, liberal para com os homens, ditofo na vida , & feliciflimo na morte. Defcanfe em paz. FiNis, laus deo, Ftrginique Matri. ' • • ■ ' ..v. G j í rV " •>; ■ .rati- \ /,«« : • • ... ■ v-- *2^ . /r; ’ ; :í. ■ , vfbv;- :^áfi-:ví>in «kivr.i . joiv.Ct: ... siíi.u . .-gp ;• •; s.vp/'i: *» .j ~ v £:v, y.ri' ' ; ' <• - ' - ' 1 v •• ' ‘ ■ ; ■ ' . . .. ... . • ."• ■ y > - : cOy::.' ' - • *:j • . . > ■ • • - ■ - <_.. ■■■ , ; mc; ri] ]: • ‘ *° 3 O !• I ; e i K i 1 4