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Caça e conservação no pantanal brasileiro: o caso da onça-pintada

Süssekind, Felipe

Abstract

O ponto de partida para este artigo é um breve relato de viagem ao Pantanal do Mato Grosso do Sul, no Brasil, a uma fazenda que abrigava um canil especializado na captura de onças-pintadas para estudos científicos. Um lugar onde a pecuária coexiste com o ecoturismo e com projetos de conservação da biodiversidade. O diálogo entre o material etnográfico que apresento e alguns registros e documentos disponíveis sobre a história da fazenda revela diferentes camadas das relações regionais com as onças, contrastando o animal considerado nocivo no passado com a espécie ameaçada que atualmente é foco do interesse conservacionista. O objetivo é refletir sobre contrastes e composições possíveis entre atividades ligadas à biologia da conservação e costumes ligados ao modo de vida pantaneiro, tendo como ponto de partida uso de cães farejadores para captura de animais em estudos científicos.

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REVISTA ANDALUZA DE ANTROPOLOGÍA NÚMERO 21: PERSPECTIVAS ANTROPOLÓGICAS SOBRE EL ESTUDIO DE LA CAZA RECREATIVA ANTHROPOLOGICAL PERSPECTIVES ON RECREATIONAL HUNTING DICIEMBRE DE 2021 ISSN 2174-6796 [pp. 103-122] https://dx.doi.org/10.12795/RAA.2021.21.06 CAÇA E CONSERVAÇÃO NO PANTANAL BRASILEIRO: O CASO DA ONÇA-PINTADA HUNTING AND CONSERVATION IN THE BRAZILIAN PANTANAL: THE CASE OF THE JAGUAR Felipe Süssekind Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro RESUMO O ponto de partida para este artigo é um breve relato de viagem ao Pantanal do Mato Grosso do Sul, no Brasil, a uma fazenda que abrigava um canil especializado na captura de onças-pintadas para estudos científicos. Um lugar onde a pecuária coexiste com o ecoturismo e com projetos de conservação da biodiversidade. O diálogo entre o material etnográfico que apresento e alguns registros e documentos disponíveis sobre a história da fazenda revela diferentes camadas das relações regionais com as onças, contrastando o animal considerado nocivo no passado com a espécie ameaçada que atualmente é foco do interesse conservacionista. O objetivo é refletir sobre contrastes e composições possíveis entre atividades ligadas à biologia da conservação e costumes ligados ao modo de vida pantaneiro, tendo como ponto de partida uso de cães farejadores para captura de animais em estudos científicos Palavras-chave: Caça; Conservação; Onça-pintada; Pantanal; Coexistência humanofauna; Cães de caça. 103 ABSTRACT The starting point for this article is a brief report of a trip to the Pantanal of Mato Grosso do Sul, Brazil, to a farm that was home to a kennel specialized in capturing jaguars for scientific studies. It is a place where livestock farming coexists with ecotourism and biodiversity conservation projects. The dialogue between the ethnographic material I present and some available records and documents about the history of the farm reveals different layers of regional relations with jaguars, contrasting the animal considered harmful in the past with the endangered species that is currently the focus of conservation interest. The objective is to reflect on possible contrasts and compositions between activities related to conservation biology and activities related to the Pantanal traditional way of life, regarding the use of hunting techniques with hounds to capture animals in scientific studies Keywords: Hunting; Conservation; Jaguar; Pantanal; Human-wildlife coexistence; Hounds. INTRODUÇÃO Em março de 2006, depois de alguns contatos via e-mail, fiz uma primeira viagem ao Pantanal para conhecer um projeto de conservação desenvolvido pelo Instituto OnçaPintada (IOP) no Município de Aquidauana, no Mato Grosso do Sul1. O projeto era sediado na Estância Caiman, fazenda de 57 mil hectares onde a criação de gado coexiste com o ecoturismo e com diferentes atividades voltadas para a conservação da vida selvagem. Pantanal é nome que se dá, no Brasil, ao bioma composto pelas planícies alagáveis da bacia do rio Paraguai, no extremo oeste do país. Reconhecido pela enorme biodiversidade, trata-se de uma região considerada pela Unesco como Patrimônio Natural Mundial e Reserva da Biosfera. Para a conservação da onça-pintada (Panthera onca), em particular, o Pantanal é uma área crítica na medida em que abriga um dos últimos grandes remanescentes populacionais de uma espécie altamente ameaçada pela pressão antrópica no território brasileiro2. 1. O Instituto Onça-Pintada, com sede em Goiás, foi fundado por Leandro Silveira e Anah Tereza de Almeida Jácomo em 2002. http://jaguar.org.br/. 2. A espécie é qualificada como “quase ameaçada” pela União Internacional para a Conservação da Natureza, e “vulnerável” pela lista vermelha do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente.Ver, a esse respeito: https://www.icmbio.gov.br/portal/images/stories/biodiversidade/fauna-brasileira/ avaliacao-do-risco/carnivoros/on%C3%A7a-pintada_Panthera_onca.pdf. 104 O IOP investigava questões relacionadas à dieta, ao uso do território e outros aspectos do comportamento das onças3 nesta região, a partir principalmente de equipamentos de rádio-telemetria e armadilhas fotográficas. A captura de novos animais para colocação de colares de rádio mobilizava não só a equipe do projeto, mas também toda a comunidade da fazenda. Vivenciar de perto uma tentativa de captura significou, para mim, na ocasião, uma iniciação meio abrupta ao trabalho de campo para minha tese de doutorado, na qual procuraria abordar a conservação da onça-pintada de uma perspectiva antropológica. Fazendas com milhares de cabeças de gado se estendem por quase todo o Pantanal, e a Estância Caiman abrigava um rebanho com cerca de 34 mil cabeças de gado em 2006, no momento em que visitei a fazenda. A produção de gado de corte é o motor de toda a economia pantaneira, ligada a uma das indústria mais fortes do agronegócio no Brasil, a indústria da carne bovina. A escala industrial da produção da pecuária contrastava, entretanto, com a simplicidade da pequena comunidade rural. Um sistema conectado ao capitalismo industrial de grande escala em fricção com os costumes e práticas locais4. Os moradores da Estância Caiman –incluindo vaqueiros e suas famílias, administradores, técnicos, motoristas e todo o pessoal ligado ao ecoturismo– viviam em pequenas comunidades conectadas por estradas e via rádio. Além da sede, onde ficava a vila principal, havia na fazenda outro quatro pequenos núcleos familiares, ou “retiros”, cada um deles responsável por uma parte do gado da fazenda5. Fui apresentado ao Instituto Onça Pintada por duas pesquisadoras ligadas à medicina veterinária, Mariana Furtado e Cyntia Kashivakura. Um dos aspectos do projeto de pesquisa na fazenda envolvia o estudo da interação entre animais domésticos e silvestres a partir da transmissão do rastreamento de doenças infecciosas, o que dependia da coleta de amostras biológicas das onças. Uma captura estava sendo preparada por elas, e no dia seguinte à minha chegada acompanhei a equipe do projeto ao Canil Jaguaretê, no qual eram criados cães especializados em seguir o rastro das onças-pintadas. A caçada praticada no Pantanal é baseada no uso de cães farejadores, “onceiros”, e pude perceber 3. O termo não marcado “onça” se refere, em geral, no Brasil, à onça-pintada (Panthera onca).A palavra “jaguar”, usada mais raramente no português, tem origem em idiomas indígenas tupi-guarani, falados no Brasil em outros países sul-americanos. Éutilizada na maior parte das Américas, inclusive nos países falantes do inglês, mas curiosamente não no Brasil, onde prevalece o termo “onça”, de origem europeia. Sobre os muitos nomes populares para designar a espécie, ver o trabalho de Papavero (2017). 4. Fricção’ foi o termo usado por Anna Tsing (2005) para descrever a passagem do local ao global, ou a interconexão entre os fluxos do capital e as ecologias regionais. 5. Um retiro é um local afastado da sede da fazenda composto por casas de moradores e, em geral, um cercado, ou “mangueiro”, onde se trabalha com o gado, além de galpões, estábulo e outras instalações usadas para o trabalho rural. 105 logo de saída que a conversão destes –assim como de vaqueiros e antigos caçadores– em agentes conservacionistas era um assunto que envolvia a ressignificação de alguns costumes tradicionais. 1. CAPTURA O caminho até o Retiro Novo, a 15 km da sede, foi percorrido na caminhonete do administrador da fazenda, que a princípio não fez muita questão de ser simpático. “Antropólogo? Têm muito antropólogo aí para defender os índios, mas nenhum para defender o fazendeiro”, me disse. Depois disso, entretanto, concordou em dar um depoimento para a minha pesquisa. Falando sobre o canil, comentou que “antigamente um bom cachorro onceiro valia vinte cabeças de gado, quando era cachorro bom mesmo, mestre”. Contou em seguida que o avô dele tinha vindo do Rio Grande do Sul para o Pantanal. “Naquele tempo tinha muita onça. E o gado era criado sem cerca, tudo no laço e no berrante”. Por fim fez uma referência ao “bagual”, o gado em estado feral, “brabo”, que existia na fazenda no passado. O estatuto do gado bagual, como eu iria constatar mais tarde, era ambíguo. Se por um lado ele podia ser referido como um índice de abandono, ou “atraso”, por outro podia ser uma fonte de afirmação da identidade pantaneira, uma prova de coragem lembrada com nostalgia. A pequena vila do Retiro Novo era formada por um conjunto de casas em torno de um grande curral, ou “mangueiro”, onde se trabalha com o gado. Tinha dezoito moradores quando estive lá, incluindo adultos e crianças. Um rebanho de mais de dez mil cabeças estava sob os cuidados dessa pequena comunidade familiar. O mangueiro é onde os animais do rebanho são contados, vacinados, marcados e pesados, sendo a produção da fazenda comercializada para açougues e frigoríficos nas cidades próximas de Miranda e Aquidauana. O trabalho com o gado, conforme me explicaram, é dividido em funções. O praieiro é quem cuida das casas e do material de montaria; o tropeiro, em geral o mais novo do grupo, é quem sai cedo para reunir os animais de montaria (a “tropa”), “o primeiro a acordar e o último a dormir”. O salgador de coxo percorre a fazenda colocando sal e nutrientes para o gado. O campeiro, por sua vez, é aquele que trabalha à cavalo, na lida diária com o rebanho. O capataz é o responsável pelo retiro e um dos campeiros mais velhos é o encarregado, o segundo no comando. A esposa do capataz é a responsável pela “cantina”, localizada em um salão anexo à cozinha da casa do casal, onde vaqueiros e outros funcionários da fazenda, assim como pesquisadores e guias de turismo, fazem suas refeições. Assim como diferentes tipos de vaqueiros, há tambén diferentes tipos de gado. Uma de vacas leiteiras, que produzem para o consumo interno, pe alguns bois “sinuelos”, usados para conduzir a boiada, vivem nas pequena quantidade 106 proximidades das casas dos moradores. Este gado manso é reconhecido individualmente, “tem até nome”. O gado de corte, por outro lado, criado em uma escala centenas de vezes maior, é numerado e fica distribuído em lotes pelas invernadas da fazenda, dividido em classes de idade. A fazenda comercializa em geral os novilhos, enquanto mantém as novilhas. O abate semanal e a carneação, feitos pelos próprios vaqueiros, são parte da rotina em lugares como o Retiro Novo. Para o consumo interno, são abatidas as “matulas”, escolhidas entre as vacas que não produzem mais. O gado é alimento, mas também fornece matéria-prima para utensílios como a tralha de montaria, ou a “guampa” feita de chifre, usada para se tomar o mate gelado, o “tereré”. Um dos atributos mais importantes de um vaqueiro, porém, é a habilidade com o laço, o que vale tanto para os laçadores quanto para os artesãos. A fabricação do laço é um processo que começa com preparação do couro, passando pelo corte em formato espiral, até chegar no trançado, que é a parte mais difícil. Um bom laço é muito valorizado. Dizem que “o laço é a arma do campeiro”. Há pequenas competições internas com frequência, e campeiros de toda a região representam as fazendas onde trabalham em vaquejadas como as organizadas pelo Clube do Laço, na cidade de Miranda, envolvendo prêmios em dinheiro e prestígio esportivo. No Retiro Novo, os moradores casados viviam com suas famílias em casas cedidas pela fazenda, enquanto os solteiros moravam em uma construção maior, o “galpão”, onde ficava também a base de campo do Instituto Onça-Pintada. Esta última, onde fiquei hospedado, incluía acomodações para pesquisadores e um pequeno laboratório com o equipamento e a estrutura básica para o trabalho de campo. Os animais de estimação dos moradores foram banidos da Estância Caiman a partir do momento em que a área se tornou Refúgio Ecológico, em 1985. Duas décadas depois, o resultado era que animais selvagens como lobinhos, tamanduás, emas e queixadas eram vistos com frequência, além de numerosos bandos de capivaras e jacarés. A exceção em relação à presença dos cães na fazenda era o Canil Jaguaretê. Composto de uma estrutura coberta, dividida em baias e conectada a uma área externa cercada, o canil abrigava exemplares de foxhounds, bloodhounds e coonhounds, alguns importados dos EUA. Os nomes dos cachorros –Zagaia, Berrante, Bugio, entre outros– faziam referência às tradições locais, sendo os dois últimos ligados ao latido, ou “barruar”, característico das raças de caça. O único “mestre”, no entanto, era um pequeno vira-lata, “importado de uma fazenda vizinha”, chamado de Mestrinho. O que fazia dele um mestre, disseram-me, era o fato de que seguiria apenas o rastro da onça, e de nenhum outro animal. A primeira tentativa de captura que presenciei aconteceu dois dias depois dessa visita ao canil. A caminhonete do projeto partiu de manhã bem cedo, com a cachorrada na 107 caçamba, depois do aviso de que um vaqueiro havia localizado um bezerro predado pela onça. Uma parte da equipe seguiu à cavalo. Eles contavam com a ajuda de um fazendeiro vizinho com experiência em caçadas, que ia numa segunda caminhonete. Eu e um estagiário do projeto, também recém chegado, fomos avisados de que não poderíamos acompanha-los, então passamos a manhã na base de campo ouvindo as notícias pelo rádio. Assim ficamos sabendo que chegaram a “acuar” a onça em determinado momento, mas no final ela acabou escapando. O felino costuma subir em uma árvore quando cercado pelos cachorros, onde se torna um alvo fácil para o caçador humano armado. Mas ao invés disso, este tinha se embrenhado no “carandazal”, um mato fechado e cheio de espinhos, de onde enfrentou seus perseguidores. Uma onça acuada no chão –no “sujo”, como dizem– é uma situação extremamente perigosa. O resultado foi que o cão líder, Mestrinho, ficou ferido, com cortes na altura das costelas. “Foi unhada. Se a onça morder, ela mata”, comentou Cyntia, a veterinária, enquanto limpava e suturava os fermentos. No final da tarde, acompanhei os integrantes do projeto –além das duas pesquisadoras, um técnico em zoologia e um estagiário– até o galpão onde os vaqueiros guardavam os apetrechos de montaria. Eles estavam reunidos em roda para tomar o tereré, e a conversa era animada pelos acontecimentos do dia. “Não subiu”, comentou um dos vaqueiros. “Essas onça daqui são braba, fica no caraguatazeiro”, observou o técnico do projeto. Um dos moradores mais antigos do retiro, seu Vicente, o encarregado, contava alguns “causos” que foram recebidos com muitas risadas. Reproduzo um deles a partir das minhas notas. A história começa com um homem (um fazendeiro?) que chama um caçador para ir atrás de uma onça. Os cachorros encontram uma “batida” e seguem no rastro da onça. O caçador segue atrás deles. Mas o homem fica para trás, esperando sozinho. Só que a onça, esperta, tinha rodeado e voltado para perto de onde ele tinha ficado esperando. Distraído pelo barulho dos cachorros, o sujeito não tinha visto a onça subindo numa árvore alta logo atrás dele. Logo depois, ouve o barulho do caçador vindo na sua direção com os cachorros, mas acha que ela vem na frente e, na fuga, escala a mesma árvore alta. Quando o caçador chega e olha pra cima, vê o homem e a onça na mesma árvore. E fala: “não precisa pegar ela sozinho aí em cima não, deixa que eu atiro aqui de baixo”. Nisso, o cabra vê a onça em cima dele e, com o susto, despenca lá de cima, rolando “feito um quati” pelo chão. A cachorrada, achando que é um bicho, parte pra cima e acaba com ele antes que o caçador possa fazer nada. Todos riram bastante da história. Era uma provocação bem humorada aos integrantes do projeto, endereçada principalmente ao técnico de campo, Eduardo Freitas, apelidado de Negão. Os campeiros se divertiam e implicavam com ele, que por sua vez exagerava 108 na valentia com que tinha enfrentado a onça mais cedo. Meu comentário, anotado na época, foi que as relações que os vaqueiros tinham com os integrantes do projeto eram uma transformação daquelas que tinham, no passado, com os caçadores. Entravam em contato quando achavam rastros ou animais abatidos, acompanhavam e participavam das caçadas (ou capturas), e por aí vai. Referiam-se aos pesquisadores como quem “mexe com onça”, assim como eles mesmos “mexem com o gado”. Desde as primeiras capturas de onças no âmbito de projetos científicos no Pantanal, o método tradicional da caçada com cães mostrou-se o mais eficaz6. O tema, porém, é controverso. Em artigo sobre os métodos de campo para o estudo das onças, Furtado e outros observam que “é importante se considerar que a caçada de onças-pintadas é proibida na maior parte dos países onde a espécie ocorre e a contratação de caçadores e cães de caça viola princípios legais e éticos” (Furtado et al., 2008: 41-42). A controvérsia diz respeito, portanto, ao fato de que as onças foram historicamente perseguidas e eliminadas por fazendeiros através de caçadores e do uso de cães, e em muitos lugares continuam sendo, apesar da proibição. Mas ao mesmo tempo, como vimos, esses mesmos cães podem ser decisivos para o estudo das onças. Um cachorro mestre é conhecido por rastrear apenas onças e nenhum outro animal. Mas se ainda hoje um cachorro desse pode ser valorizado como uma forma de eliminar as oncas, no contexto de um projeto conservacionista ele podia ser entendido como um aliado, um mediador que cria as condições para o uso das ferramentas de telemetria e GPS, fundamentais para a pesquisa de campo. O Canil Jaguaretê era uma experiência singular nesse sentido. 2. A MIRANDA ESTÂNCIA E SEUS CAÇADORES “Nessa região, a turma já está mais pra proteger mesmo”, afirma o Sr. Zé Carlos, capataz do Retiro Novo, em um registro em vídeo de março de 2006. “Eles trabalham com esse projeto, tem a proteção dela. E nós ajudamos essa turma aí. Todo mundo se empenha, ajuda”. Ele é um senhor com cabelo grisalho e um bigode preto fino que acentua os traços indígenas. Pergunto se o pessoal da fazenda não fica chateado quando a onça pega um bezerro. “O patrão não liga não, diz pra deixar ela aí”. Depois de passar adiante a guampa do tereré, conclui: “Um dia ela enjoa de comer”7. 6. Na última década, o método com armadilhas de laço tornou-se mais comum e substituiu, em muitos casos, o uso de cães nas pesquisas com onças-pintadas. 7. O patrão, no caso, é o empresário paulista Roberto Klabin. A fazenda foi pioneira no Ecoturismo e, desde 1985, é um refúgio ecológico onde são desenvolvidos uma série de projetos conservacionistas. 109 Seu Zé Carlos conta ainda que chegou com dezessete anos na “Companhia”, a fazenda que deu origem à Estância Caiman, “bem antes dela ser dividida”. “E naquela época o pessoal matava muita onça?”, pergunto. “Matava. Tinha caçador da fazenda mesmo pra matar. O serviço dele era só esse. Era chamado Celestino. Faleceu já. Quando ficou proibido, aí ele foi saindo, trabalhou de contador de gado depois também. Era homem de confiança do Major”. A história da Miranda Estância é um rico testemunho do processo de colonização da região sul do Pantanal, como mostra o trabalho dos historiadores Cezar Benevides e Nanci Leonzo (1999). Criada por investidores ingleses em 1912 para a produção de carne em sistema de charque, carne seca para ser enlatada, TheMiranda Estância Company Limited, a “Companhia”, chegou a ocupar uma área de inacreditáveis 219.506 hectares (Benevides e Leonzo, 1999: 25), praticamente o dobro do tamanho do município do Rio de Janeiro. Em 1952, a fazenda foi comprada por empresários brasileiros a partir do movimento conhecido como “Marcha para o Oeste”, o processo de nacionalização empreendido pelo presidente Getúlio Vargas (ibidem: 148-149). O caçador ao qual seu Zé Carlos se refere é Celestino Prudêncio da Silva, conhecido como “bugre Celestino” (ibidem: 131), um personagem marcante na história da fazenda. O major é o major Alfredo Ellis Netto, descrito pelos historiadores como “um bandeirante moderno” (ibidem: 18), que foi o administrador da propriedade até os anos 1970. Outros personagens que fazem parte da história da Miranda Estância são dois biólogos: Peter Crawshaw e Howard Quigley. Entre 1980 e 1984, eles desenvolveram na fazenda um projeto pioneiro na área da Biologia da Conservação, envolvendo monitoramento de onças-pintadas em vida livre. Coordenado inicialmente por George Schaller, o célebre naturalista norte americano, o projeto era fruto de uma parceria entre a New York Zoological Society, atual Wildlife Conservation Society (WCS), o Instituto Brasileiro de Desenvolvimento Florestal (IBDF), órgão ambiental brasileiro na época, e a Fundação Brasileira para a Conservação da Natureza (FBCN) (Crawshaw, 2006). A primeira base de campo de George Schaller no Pantanal, implantada numa área vizinha ao que é hoje o Parque Nacional do Pantanal Mato-Grossense8, havia sido inviabilizada pelo conflito entre criadores de gado e os felinos, e a pesquisa chegou à Miranda Estância em 1980. Schaller teve que deixar o Pantanal nessa época e trouxe Howard Quigley para substitui-lo (Schaller, 2007). Já sob responsabilidade de Crawshaw e Quigley, o projeto encontrou na fazenda as condições necessárias para sua implementação: uma postura 8. Criado em 1981 e administrado pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) 110 conservacionista consolidada, apoio da comunidade local e uma boa infraestrutura para as atividades de campo, incluindo acomodações, estradas, animais de montaria e pista de pouso (Crawshaw, 2006). Um dos grandes desafios para a conservação do jaguar no Pantanal, entretanto, era o tratamento historicamente dispensado à espécie no contexto da pecuária tradicional. No relatório final do projeto, escrito para o então IBDF, Crawshaw e Quigley afirmam: “Até 1966, a fazenda Miranda Estância contratava caçadores profissionais para diminuir o número de felinos e a sua predação no gado. Um desses caçadores matou, em um período de 8 anos (1959-1966), 68 pintadas e 275 pardas, apenas na área da fazenda” (Crawshaw e Quigley, 1984). Os biólogos se referem aqui ao mesmo caçador mencionado pelo capataz, Celestino, com quem conviveram na Miranda Estância. Ele era reconhecido como um “zagaieiro”, termo reservado aos antigos caçadores nativos do Pantanal. Filho de uma índia bororo e de um homem branco de Cuiabá, o Bugre Celestino é um personagem que remete a um tempo no qual a caçada de onças na fazenda era uma atividade regular. “Zagaia” é o nome que se dá a um tipo de lança usada no passado para caçadas de onças, e os zagaieiros são lembrados com frequência quando os moradores do Pantanal se referem aos tempos antigos9. Não cheguei a conhecer pessoalmente seu Celestino, que faleceu em 2005, um ano antes da minha visita à fazenda. Mas tive a oportunidade, em 2008, de registrar um depoimento do sr. Getúlio dos Santos, genro dele, que também tinha sido funcionário da Miranda Estância, afirmando o seguinte: “Ele [Celestino] aprendeu com o sogro dele, muito tempo atrás, quando era solteiro ainda. Diz que tinha um ditado assim, que para casar com a filha dele tinha que pegar uma onça na zagaia. Ele gostava dela, aí teve que encarar o velho e pegar a onça”. A partir de um trabalho baseado em levantamento bibliográfico sobre o grupo indígena Guató, que habitava no passado o alto rio Paraguai e o São Lourenço, Oliveira (1996) refere-se a uma relação semelhante envolvendo sogro-genro. A caçada de onça, diz o 9. Inspirado em parte pelas viagens de Guimarães Rosa ao Pantanal, o conto “Meu tio o Iauaretê”, de 1961, traz como personagem um zagaieiro de origem indígena que vai “desonçar” uma região destinada à criação de gado. Uma história de transformação na qual a marginalidade da herança indígena se articula com um movimento de devir animal. 111 Aprendi isso no período em que estive na Estância Caiman, quando um desses porcos foi avistado durante a tentativa de captura da onça e abatido por um funcionário da fazenda. Depois disso foi levado para a cantina para ser servido na refeição oferecida aos moradores e visitantes no dia seguinte. Vale lembrar que a fazenda era um refúgio ecológico, sendo que os animais nativos eram o grande atrativo para o turismo. Com exceção da caçada com cães para captura das onças, a caça eventual ao porco-monteiro era a única permitida na propriedade. Quando se refere ao caso do porco e à sustentabilidade do modelo de caça tradicional, Reinaldo Lourival faz a seguinte ressalva: “Com relação às espécies daninhas, as análises devem ser interpretadas com cuidado. As onças-pintadas já foram praticamente eliminadas da região [a Nhecolândia]. As pardas, por sua vez, sofrem perseguição (...) frequente no Pantanal” (1997: 162). De fato, a caça por retaliação à predação do gado é, até hoje, apontada como uma das maiores ameaças para as onças no Pantanal, onde existe há muitos anos uma prática regular de caça envolvendo a eliminação sistemática dos predadores. Desde os antigos safaris até os dias atuais, se constituiu uma técnica específica envolvendo as habilidades combinadas dos cães farejadores e dos caçadores humanos. Nesse sentido, quando pensamos nas possibilidades de coexistência humano-fauna, é significativa, e bastante singular, a experiência envolvendo a colaboração dos de caçadores nativos e de cães de caça em projetos conservacionistas. CONCLUSÕES A partir do trabalho feito na Miranda Estância, Crawshaw e Quigley confirmaram que o gado era uma fonte de alimento regular, e não esporádica, para as onças-pintadas nesta região do Pantanal (Crawshaw e Quigley, 1984). A disponibilidade de bovinos era muitas vezes maior, em termos de biomassa, do que da soma de todas as outras espécies que faziam parte da dieta das onças, o que fazia do gado o alimento mais abundante localmente para a espécie. Não por acaso, desde essa época, a necessidade de lidar com aqueles que veem a onça como uma ameaça e a busca de um modelo participativo têm sido aspectos fundamentais nas discussões sobre a conservação da espécie no Pantanal (Morato et al., 2006; Cavalcanti, 2010). Além da busca por um diálogo com os produtores rurais, através de workshops e outros encontros, há nesse campo uma clara demanda por estudos sobre a percepção local, que vêm ganhando importância ao longo das últimas décadas. 118 Quinze anos depois da minha primeira experiência no Pantanal, com a qual comecei este artigo, a situação das onças na região permanece difícil. Os projetos conservacionistas certamente mitigaram conflitos e trouxeram novas práticas, mas seu alcance é limitado. Com a intensificação da produção, a caça ainda é comum na maior parte da região. Mas novos problemas importantes surgiram para a conservação. O Pantanal está enfrentando grandes incêndios a cada estação seca nos últimos anos, efeito somado das mudanças climáticas, do desmatamento e da sabotagem do sistema de proteção ambiental pelo governo brasileiro atual. Tudo isso gera um quadro bastante sombrio em termos de conservação, não só para as onças, mas para o bioma como um todo. Procurei abordar aqui a ressignificação de certas práticas tradicionais de caça no interior de projetos conservacionistas, incluindo aí o uso de cães em capturas científicas e o contraste entre o animal nocivo e a espécie ameaçada. A partir de uma tradição que remonta aos caçadores-naturalistas do início do século XX, pude caracterizar um modo de relação com a onça-pintada que contrasta com os paradigmas atuais, estabelecidos desde a entrada em cena dos projetos conservacionistas na região. A caça, seja ela definida em termos culturais seja em termos utilitários, é uma realidade que persiste e com a qual a perspectiva conservacionista precisou necessariamente lidar. Em certos casos, como vimos, inclusive incorporando e subvertendo-a. Nesse sentido, para tematizar os contrastes e linhas de continuidade entre práticas de caça e de conservação ligadas à onça-pintada, o tema do conflito humano-fauna parece limitado. Ele é antes de um contexto de efetuação entre outros, os quais incluem também alianças e formas de colaboração. 119 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS Almeida, A. de (1976) Jaguar hunting in Mato Grosso. England: Stanwill Press. Banducci JR., Álvaro (1995) A natureza do pantaneiro - Relações sociais e representação de mundo entre vaqueiros do Pantanal. Dissertação em Antropologia Social, USP. Benevides, Cezar, e Leonzo, Nanci (1999) Miranda Estância. Ingleses, peões e caçadores no Pantanal mato-grossense. Rio de Janeiro: FGV Editora. Campos Filho, Luiz Vicente da Silva (2002) Tradição e ruptura - Cultura e Ambiente Pantaneiros. Cuiabá: Entrelinhas. Cavalcanti, Sandra M. C., Marchini, Silvio, Zimmermann, Alexandra, Gese, Eric M., e Macdonald, David W. (2010) Jaguars, Livestock, and People in Brazil: Realities and Perceptions Behind The Conflict. USDA National Wildlife Research Center. Staff Publications. Paper 918. University of Nebraska. 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