RECITAL DE VIOLINO: REFLEXÃO CRÍTICA SOBRE O PROGRAMA
Abstract
Com esta abertura interpretativa, uma questão se levanta: com tanta variedade de estilo, qual devemos seguir? Será que teremos que seguir algum de todo? Ou será meramente uma questão de expressividade? Onde se encontra a fronteira entre a maneira do intérprete interagir e responder ao estímulo musical proposto pelo compositor e o seu próprio background cultural e emocional?
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ProvaspúblicasparaobtençãodoTítulodeEspecialista RECITALDEVIOLINO ÁGNESSÁROSI Fevereirode2019
ACADEMIA NACIONAL SUPERIOR DE ORQUESTRA REFLEXÃO CRÍTICA SOBRE O PROGRAMA DE RECITAL PARA OBTENÇÃO DO TÍTULO DE ESPECIALISTA POR PROVA PÚBLICA ÁGNES SÁROSI Setembro de 2019
Indice Introdução! 3" MSP vs HIP! 4" Bach uma escolha sentimental! 9" Algumas peculiaridades na análise da Ciaccona! 10" Bach vs Biber:! 11" Programa! 15" Bibliografia! 16
“There is nothing that music cannot do, as long as it remains music.” W.A. Mozart “If musicologists are not asked to perform why are performers required to write?” Dorottya Fabian 1 Introdução" No seu livro “A Musicology of Performance”, Dorottya Fabian enfatiza esta dicotomia entre a “palavra escrita” e a nossa apreciação de música primordialmente auditiva e de percepção multi-modal. As estrelas fazem música ao girar, o corpo do violino responde à oscilação das cordas e também nós respondemos com o swing do nosso corpo. É devido a essa ressonância imediata que a descrição de fenómenos musicais se afigura estranhamente distanciada. Ao ouvirmos o canto do cuco parece-nos um pseudónimo desnecessário a classificação de algo tão mundano como uma “terceira menor”." Se nos detivermos primordialmente no analítico, no escrito ou no que conseguimos verbalizar, e atendendo a que a fruição musical envolve quase todas as zonas do cérebro, estaremos a limitar o nosso potencial perceptivo, uma vez que tendencialmente iremos procurar o que conseguimos aferir, medir, quando na maioria das vezes estamos a lidar com dados não mensuráveis e imateriais. Não obstante, qualquer disciplina necessita de semelhante linguagem especializada e a música não se tornou uma excepção." 3 Fabian,Dorottya A Musicology of Performance ,Theory and Method Based on Bach’s Solos for 1 Violin, Cambridge, UK: Open Book Publishers, 2015. p.63
“Torniamo all’antico: sarà un progresso.” G. Verdi MSP vs HIP" O conflito entre o novo e o velho é intemporal. Dele nascem a evolução histórico-social, as descobertas científicas e técnicas, o movimento das ideias no campo da filosofia, da política, da arte, da religião. Conhecer é analisar as contradições entre o novo e o velho e a forma como foram resolvidas no passado, ou como podem ser resolvidas no presente e, prospectivamente, no futuro." Durante o meu percurso formativo, principalmente no período da minha infância e juventude, como consequência do regime ditatorial no qual vivia (ditadura comunista) as questões ideológicas e estéticas forçosamente não se dissociavam das questões artísticas e pedagógicas. Nesse período, o ideal estético da escola violinística russa foinos transmitido como verdade absoluta. A pureza e uniformidade sonora obtidos através de um vibrato e arcadas uniformes, a redução ao mínimo de inflexões de modo a promover os fraseados longos, tornou-se no que se viria a denominar Mainstream Performance (MSP)." Quando aos dezoito anos ingresso na Academia Franz Liszt em Budapeste, sou confrontada com uma corrente pedagógica e artística paralela, denominada Historicaly Informed Performance (HIP). Esta corrente, apesar de nova para mim, já há muito era explorada. Este revivalismo histórico quando surge como alternativa real ao MSP na última metade do séc. XX, representou uma tradição alternativa, muitas vezes desapreciado pelo mainstream musical e académico. Nesta altura, a procura científica de verdades absolutas e a preocupação com as intenções do compositor e na sua correcta 4
edição era uma prioridade (Urtext). Reinava o ideal utópico de que a função do intérprete deveria ser a recriação historicamente exacta através das edições críticas de um compositor já falecido, almejando deste modo plasmar os seus intuitos." Esta corrente era diametralmente diferente da MSP, não só a nível técnico em consequência da utilização de instrumentos da época, mas também pela suavidade sonora e estilística das interpretações." Aos poucos deu-se uma consciencialização da problemática da reprodução de uma obra musical, uma vez que mesmo numa interpretação, digamos, perfeita, sempre iria faltar o “aqui e agora” da época da sua feitura. Essas dúvidas sobre a verdadeira possibilidade de intuir com precisão tantos dados subjectivos acerca das verdadeiras intenções do compositor, abriu caminho a diferentes interpretações." Em geral, a música barroca tornou-se mais decorativa nas suas ornamentações e dotada de uma maior liberdade rítmica. A variabilidade na escolha de arcadas e articulações, uma pulsação mais vincada e um espectro mais amplo de cores dotou-a de uma maior ousadia e profundidade interpretativas. O abandono de dogmas e verdades absolutas (apesar da manutenção do rigor no respeito pelos manuscritos dos compositores assim como pelos tratados da época) possibilita o desbravar de um caminho apaixonante, expressivo e ousado." Com esta abertura interpretativa, uma questão se levanta: com tanta variedade de estilo, qual devemos seguir? Será que teremos que seguir algum de todo? Ou será meramente uma questão de expressividade? Onde se encontra a fronteira entre a maneira do intérprete interagir e responder ao estímulo musical proposto pelo compositor e o seu próprio background cultural e emocional?" 5
Enquanto professores, ou como júris de concursos, é normal termos as nossas convicções artísticas em respeito ao que acreditamos dever ser o modo como deve soar determinado compositor. No entanto, o que é convincente numa dada interpretação, poderá ser estranho noutra. É uma evidência empática que diversas gerações acreditem estar a servir as intenções do compositor apesar de apresentarem interpretações completamente distintas. A interpretação musical muda constantemente porque o gosto e a imaginação também muda. Gustav Leonhardt pensa sobre a imaginação o seguinte: “…as mudanças feitas nos últimos cinquenta anos, são baseadas no facto da imaginação ter mudado.(…)nos últimos cinquenta anos, começámos gradualmente a ver que a música Barroca (…) é mais expressiva do que a música Romântica, mas mais nos detalhes do que nas longas linhas. Com isso, desenvolveu-se uma técnica, não por si só, mas porque o propósito mudou, devido à nossa imaginação musical ter mudado completamente.”2 Quando vários especialistas no movimento HIP, entre eles Nicolaus Harnoncourt, começaram a dirigir orquestras sinfónicas de grande dimensão no início dos anos 1980, foi possível aquilatar a transmissibilidade do estilo HIP aos instrumentos modernos. O meu interesse e curiosidade num conhecimento historicamente fundamentado das obras para violino solo levou-me à análise de alguns intérpretes nos quais verifiquei uma evidência clara de um crossover de estilos. O primeiro instrumentista a gravar com arco barroco foi Sergiu Luca em 1977 (J.S.Bach The Sonatas and Partitas for Unaccompanied Violin, BWV 1001-1006. Baroque violin. Complete set. Nonesuch 7559-73030-2. Violino Nicolo Amati,1669 with authentic fittings and bow). Leonhardt, Gustav,” One Should not Make a Rule”: Gustav Leonhardt on Baroque keyboard 2 playing’, in Inside Early music: Conversations with Performers, ed.by Bernard D. Sherman, New York: Oxford University Press, 1997 6
Seguiu-se Rachel Barton Pine em 2007.Baroque bow. Complete set. Concert, Montreal Chamber Music Festival: ‘The majesty of Bach: The complete six Sonatas and Partitas’, May 12, 2007(private recording sourced from the artist).3 AVictoria Mullova gravou as 6 Solo Sonatas e Partitas em 2009,(Onyx Classics 4040) Nesta gravação, além do arco barroco também utiliza cordas de tripa. Como consequência da minha curiosidade neste crossover de estilos, parte da minha investigação levou-me a três nomes de referência, que, na minha opinião representam a elite do mainstream e, simultaneamente, são fortemente influenciadas e conhecedoras do HIP: Victoria Mullova, Isabelle Faust e Alina Ibragimova. Apesar de serem de gerações distintas, gravam e tocam concertos com instrumentos modernos assim como com instrumentos da época. Victoria Mullova (1959) estudou nos conservatórios Soviéticos onde teve como professor Leonid Kogan entre outros. Vencedora do Concurso Sibelius em 1980, medalha de ouro no concursoTchaikovsky em 1982 antes de emigrar em 1983. Internacionalmente reconhecida como solista de referência (MSP) até que numa gravação datada de 2007 surpreendeu com a gravação das 6 Solo Sonatas e Partitas (Onyx) e uma forte influência HIP, não só em questões interpretativas mas também na utilização de arco barroco e cordas de tripa. Isabelle Faust (1972) é uma das mais originais violinistas do panorama musical actual. Teve como principal professor Dénes Zsigmondy. Isabelle Faust além de uma intérprete brilhante, é reconhecida pela sua extraordinária versatilidade interpretativa. Explora idiomas e repertórios musicais díspares, inclusive música contemporânea. Colabora com os principais especialistas de música barroca, entre os quais o cravista Andreas Staier Fabian, Dorottya A Musicology of Performance, Theory and Method Based on Bach’s Solos for 3 Violin, Cambridge, UK: open Book Publishers, 2015. p.307 7
que a coadjuvou na preparação e gravação das obras solo de J.S. Bach. Alina Ibragimova (1985) iniciou os seus estudos musicais na Rússia tendo prosseguido a sua formação posteriormente em Inglaterra, nomeadamente na Menuhin School, Guildhall School e no Royal College of Music. É a única das três violinistas que teve formação simultânea de MSP e HIP, o que é revelador do seu interesse no período barroco, sendo mesmo a fundadora do Chiaroscuro, um quarteto de cordas com instrumentos da época. A lista de intérpretes que actualmente seguem um caminho similar é vasta; no entanto, escolhi estas três intérpretes por considerar as suas interpretações, apesar de distintas, extraordinariamente interessantes e onde cada uma apresenta uma personalidade artística ímpar. 8
Programa" H.I.F. von BIBER (1644-1704) Passagalia em sol menor (1670-1674?) J.S. Bach (1685-1750) Partita nº2 BWV 1004 em ré menor (1720) Allemanda Corrente Sarabanda Giga Ciaccona Ágnes Sárosi - Violino 15
Bibliografia" Dukai Barnabás és Ábraham Márta, Részletek az Örökkévalósagból, BioBach-Music Könyv-és Zenemükiadó Bt,2017 Budapest Fabian, Dorottya, A Musicology of Performance, Theory andMethod Based on Bach’s Solos for Violin, Cambridge, UK: open Book Publishers, 2015. Leonhardt, Gustav, “One Should not Make a Rule”: Gustav Leonhardt on Baroque Keyboard Playing’, in Inside Early Music: Conservations with Performers, ed. by Bernard D. Sherman, New York: Oxford University Press, 1997 16
Modernised Urtext Passagalia Passagalia Violino Solo Salzburg 1670-1675? Heinrich Ignaz Franz von Biber 1644 – 1704 Published by Johan Tufvesson. Non-commercial copying welcome Revision :1.5
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