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O fundo fotográfico Teófilo Rego – da preservação ao acesso online

BARRADAS, Graça

Abstract

A digitalização de fundos fotográficos, em particular no caso dos arquivos privados, os quais muitas vezes têm uma consulta restrita ou vedada ao público, é actualmente uma prática corrente com a dupla função de preservar e difundir. Assiste-se cada vez mais, e principalmente desde o final do século xx, à recuperação e/ou disponibilização ao público em geral, de fundos e colecções fotográficas, tanto por parte de entidades públicas como privadas. A presente comunicação pretende através da sistematização da experiência em curso do projecto de investigação “Fotografia, Arquitectura Moderna e a «Escola do Porto»: Interpretações em torno do Arquivo Teófilo Rego”, reflectir sobre o procedimento que se inicia na preservação de um fundo fotográfico até ao seu acesso online, destacando os paralelismos com o panorama actual da recuperação de fundos de estúdios fotográficos comerciais do século XX em Portugal.

Full text

Recuperação e preservação de fundos fotográficos Em Portugal, os estúdios fotográficos começaram a surgir em meados da segunda metade do século XIX, sobretudo nas grandes cidades, e alguns anos mais tarde nas cidades do interior. No Porto, alguns dos primeiros fotógrafos, ainda amadores, foram estrangeiros, como o escocês Frederick William 2 Flower (1815-1889) e o inglês Joseph James Forrester (1809-1861). Os estúdios fotográficos começaram a emergir na invicta inicialmente vocacionados para a fotografia de retrato, como o estúdio de Miguel Novaes, fundado no Porto em 1854, ou os seus contemporâneos João Baptista Ribeiro (1790-1868) ou Domingos Pinto de Faria (1827-1871). Mais tarde destacarse-iam ainda os estúdios da Casa Biel (anteriormente Casa Fritz) de Emílio Biel (1838-1915) adquirida em 1874; a Fotografia Alvão (anteriormente Foto Velo-Clube) fundada em 1902 por Domingos Alvão (1872-1946); e a Foto 3 Beleza fundada em 1907 por António Beleza . Ao longo da história, nem sempre a fotografia foi reconhecida como parte integrante da categoria das fontes primárias, quer por arquivistas quer por historiadores, o que deu origem a que muitas vezes se verificasse alguma negligência relativamente aos fundos e coleções fotográficas, remetidos 4 frequentemente para a “categoria de miscelâneas ou memorabilia” . A difusão da fotografia ao longo dos anos também se deve em grande parte ao desenvolvimento dos processos fotográficos e ao processo reprográfico das imagens. Assim, podemos estabelecer duas etapas essenciais do processo fotográfico: a primeira criativa, que parte da ideia original da toma de uma 5 fotografia, e a outra reprodutiva, que copia o original tantas vezes quanto se queira, processo este que tornou possível a democratização da fotografia. Foi com o intuito de preservar e dar a conhecer o património fotográfico nacional, que desde o final do século XX, diversas instituições públicas e privadas têm vindo a adquirir, por compra ou doação, espólios, coleções ou fundos fotográficos. Muitos destes documentos fotográficos pertenciam a entidades privadas que, por vezes, não têm possibilidade de manter uma boa conservação dos documentos, nem de providenciar a sua disponibilização ao público de forma eficaz. Neste âmbito, destaca-se a atuação do Centro 6 Português de Fotografia (CPF) que adquiriu diversos fundos fotográficos, muitos anteriormente custodiados pelo extinto Arquivo Nacional de O FUNDO FOTOGRÁFICO TEÓFILO REGO. 1 DA PRESERVAÇÃO AO ACESSO ONLINE Graça Barradas 19 1. Este trabalho é co-financiado pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia I.P. (PIDDAC) e pelo Fundo Europeu de Desenvolvimento Regional – FEDER, através do COMPETE – Programa Operacional Fatores de Competitividade (POFC), no âmbito do projecto PTDC/ATP-AQI/4805/2012 ("Fotografia, Arquitectura Moderna e a «Escola do Porto»: Interpretações em torno do Arquivo Teófilo Rego"). 2. A Fundação Serralves apresentou no 1º Fotoporto, em 1988, a exposição e respetivo catálogo Frederick William Flower a pionner of portuguese photography. 3. Após a morte de Emílio Biel, António Beleza comprou em hasta pública parte do seu espólio no ano de 1916. Fernando de Sousa - "Introdução” in Espólio Fotográfico Português. Coordenação de Fernando de Sousa. s/l: CEPESE, 2008, p. 18. 4. Margery Long, “Photographs in Archival Collections” in Archives and Manuscripts: Administration of Photographic Collections. Chicago: Society of American Archivists, 1984, p. 9. 5. Juan-Miguel Sánchez-Vigil e Antonia SalvadorBanítez – Documentación Fotográfica. Barcelona: Editorial UOC, 2013, p. 19. 6. Criado pelo Decreto-Lei nº160/97 de 25 de Junho, o CPF foi extinto como instituto do Ministério da Cultura pelo Decreto-Lei nº 93/2007 de 29 de Março, ficando como uma unidade orgânica dependente da Direcção-Geral de Arquivos. Fotografia, e que atualmente detém cerca de 2 milhões de documentos 7 fotográficos . O CPF, desde 2005, procedeu à descrição, digitalização e difusão através da base de dados DigitArq, de fundos fotográficos de entidades privadas que se encontram sob a sua custódia, de que são exemplo os estúdios fotográficos Tavares da Fonseca, Lda (Porto), a Fotografia Alvão (Porto), ou a Fotografia Horácio Novais, herdeiros (Lisboa). Esta base de dados encontra-se integrada com a do Arquivo Nacional da Torre do Tombo – Direção Geral do Livro, dos Arquivos e Bibliotecas (DGLAB). Existem igualmente outras instituições portuguesas que adquiriram fundos fotográficos particulares, procedendo posteriormente ao seu tratamento e difusão, como o caso da Fundação Calouste Gulbenkian que recuperou o fundo Estúdio Novais (Lisboa), adquirido em 1985, e o divulgou através da página web da Biblioteca de Artes da Fundação. Por último, referimos ainda o projeto Espólio Fotográfico Português de 2007, com a denominação O Espólio da Foto Beleza. O fundo, com cerca de 8 600.000 espécies fotográficas , foi recuperado pelo Centro de Estudos da População, Economia e Sociedade (CEPESE), disponibilizando online parte das imagens com intuito comercial, divididas entre os seguintes temas: Ciclo do Vinho do Porto; Paisagísticas; Empresariais e associativas; Documentais e monumentos; e Retrato. Muitas vezes na difusão de arquivos fotográficos são-nos apresentadas subdivisões temáticas que originam uma leitura algo equívoca da organização original dos fundos, reduzindo a poucos temas a produção fotográfica do estúdio. É algo comum a adulteração da sua ordem original em função do que se crê ser o interesse do utente / investigador, ou seja, apresentando-a de forma temática, principalmente se o intuito dessa difusão é a comercialização de imagens. À semelhança da recuperação dos fundos dos estúdios fotográficos anteriormente mencionados, o projeto de investigação “Fotografia, Arquitectura Moderna e a «Escola do Porto»: Interpretações em torno do Arquivo Teófilo Rego" (FAMEP) tem como um dos objetivos a seleção, descrição, acondicionamento, digitalização e difusão de parte do fundo fotográfico Teófilo Rego. O Centro de Estudos Arnaldo Araújo (CEAA) da Escola Superior Artística do Porto (ESAP), em cooperação com o Museu Casa da Imagem da Fundação Manuel Leão, propôs-se selecionar um conjunto de cerca de 5000 imagens relativas ao tema da arquitetura moderna, aproximadamente entre o âmbito cronológico de 1940 a 1960. O projeto tem como objetivo principal a promoção e difusão do estudo da arquitetura moderna, em especial do Porto e norte de Portugal e da sua relação com a fotografia. A seleção efetuada por investigadores do projeto terá em conta a qualidade e originalidade tanto das obras arquitetónicas representadas como da própria estética da fotografia, salientando obras inéditas / não publicadas, montagens fotográficas originais e a boa conservação dos negativos. 20 7. Silvestre Lacerda e Natália Gravato - Guia de Fundos e Colecções Fotográficos 07. Lisboa: CPF/DGARQ, 2007, p. 8. 8. Fernando de Sousa - "Introdução” in Espólio…, p. 20. Teófilo Rego – o fotógrafo Teófilo Rego nasceu a 2 de Julho de 1914 no Brasil, viajando para Portugal em 1924. No ano seguinte ingressa nas Oficinas Marques Abreu: zincogravura, fotogravura, símile-gravura (Porto), importante oficina no panorama das artes gráficas e de edição fotográfica em Portugal. Nas oficinas trabalhou inicialmente como tipógrafo impressor passando posteriormente para a área da gravura, onde aprendeu também fotogravura e tipografia. Em 1944 começa a trabalhar nas oficinas Lito Maia (Porto) como fotógrafo de 9 fotolito, onde permanece dois anos . Teófilo Rego filiou-se no Grémio Nacional dos Industriais de Fotografia (Lisboa), Sindicato dos Trabalhadores Gráficos dos Distritos do Porto, Bragança e Vila Real, Associação Fotográfica do Porto, e Associação Nacional dos Industriais de Fotografia, a qual emitia a carteira profissional e licença fotográfica. No ano de 1947 inaugura o Estúdio Foto-Comercial na Rua da Alegria nº 482, no Porto, onde desenvolveu o seu trabalho até 1956, quando muda o estúdio para a Rua Santa Catarina nº 1583. Após a sua morte em 1993, o negócio continua com a sua filha e neta até o ano de 2001. No domínio do fotojornalismo fez trabalhos de reportagem para o Diário do Norte, assim como reportagens encomendadas pelo Secretariado Nacional da 10 informação, Cultura Popular e Turismo (SNI) como a visita do General Franco ao Porto e Bussaco, de Oliveira Salazar a Braga, ou da visita da 11 Rainha de Inglaterra Isabel II à Feitoria Inglesa no Porto . Também fotografou para edição de coleções de postais como, por exemplo, as encomendas para a Nossa Senhora do Perpétuo Socorro (Porto). Teófilo Rego participou em diversas publicações na sua maioria relacionadas com estudos de história da arte e arquitetura, seguindo a linha das Oficinas Marques de Abreu, onde iniciou a sua carreira. Marques de Abreu destacouse principalmente na edição fotográfica no âmbito do património nacional e no estudo da história da arte, como o demonstram as publicações A ilustração moderna (1898-1903), a revista Arte: Archivo de obras de arte (1905-1912), 12 e especialmente A ilustração moderna (1926-1932) . Teófilo realizou trabalhos de fotografia ilustrativa para várias monografias como A talha no 13 concelho de Vila do Conde da Câmara Municipal de Vila do Conde , Capela 14 das Almas. Uma jóia da azulejaria portuguesa de Alexandrino Brochado , ou em obras de Domingos de Pinho Brandão (Bispo Auxiliar da Diocese do Porto) como, por exemplo, Algumas das mais preciosas e belas imagens de 15 Nossa Senhora existentes na Diocese do Porto. Consagrando-se como fotógrafo comercial, entre os seus clientes contavamse diversas entidades como câmaras municipais, institutos, empresas, artistas e arquitetos. Destes destacam-se, pela assiduidade com que recorreram ao 16 Estúdio Foto-Comercial: Marques da Silva , João Andresen, Januário Godinho, José Carlos Loureiro, Rogério de Azevedo, Ricca Gonçalves, entre outros. 21 9. Porto, memoria fotográfica: Teófilo Rego. Porto: Arquivo Histórico Municipal / Casa do Infante, 1990, p. 4. 10. O Secretariado de Propaganda Nacional (SPN), foi criado em 1933, alterando a sua designação em 1944 para Secretariado Nacional da informação, Cultura Popular e Turismo (SNI). O SNI foi extinto em 1968, tendo os respectivos serviços transitado para a Secretaria de Estado de Informação, Cultura Popular e Turismo, da Presidência do Conselho de Ministros. 11. Porto, memoria fotográfica…, p. 4. 12. José Pedro Aboim Borges - Marques de Abreu: A fotografia e a edição fotográfica na defesa do património cultural (Tese de Doutoramento). Lisboa: FCSH-Universidade Nova de Lisboa, 2013, p. 21. 13. Porto: Livraria Telos Editora, 1985. 14. Catálogo de Exposição de Fotografia, Vila do Conde: CMVC, 1978. 15. Porto: Diocese do Porto, 1988. Com estudo gráfico do arquiteto Fernando Lanhas. 16. Instituto Marques da Silva / Instituto de Recursos e Iniciativas Comuns da Universidade do Porto (ed.), Marques da Silva e a fotografia: Imagens de uma época, Porto: Universidade, 2005. A única exposição individual de Teófilo Rego foi em 1990, apresentada na Casa do Infante (Porto), com 80 fotografias a preto/branco sobre o tema da 17 cidade do Porto, a convite da Câmara Municipal . Teófilo Rego – o fundo fotográfico O fundo fotográfico foi adquirido em 1998 pelo Padre Manuel Leão à família do fotógrafo Teófilo Rego e, mais tarde, foi doado à Fundação Manuel Leão, encontrando-se atualmente em depósito no Museu Casa da Imagem (Vila Nova de Gaia), acondicionado em cerca de 3550 unidades de instalação, caixas e envelopes, na sua maioria de origem. Para além do fundo fotográfico Teófilo Rego - denominado de fundo por ser 18 constituído por documentação de uma mesma proveniência - também foi 19 adquirido um espólio , pertencente ao fotógrafo, constituído por máquinas fotográficas antigas que colecionava, material fotográfico do Estúdio FotoComercial, entre outros. Este fundo está dividido originalmente em três atividades distintas: duas dentro do funcionamento do estúdio, a comercial e a de retrato; e outra atividade dedicada às imagens que realizou num contexto pessoal, ou seja, imagens não encomendadas, e captadas consoante a sua estética e interesses como fotógrafo. Precisamente por incluir fotografias de caráter comercial e de caráter pessoal este conjunto é denominado de fundo Teófilo Rego e não somente de fundo Foto-Comercial. É constituido por cerca de 600.000 documentos fotográficos, maioritariamente por negativos de formato 9x12 cm de gelatina e sais de prata em acetato de celulose, algumas unidades de tamanho 13x18 cm, e alguns vidros das mesmas dimensões, provas em papel em 9x12 cm e fotolitos. A nível de conservação muitos dos negativos em acetato de celulose apresentam algum estado de deterioração avançado. A série de retratos consta de cerca de 730 unidades de instalação de pequena dimensão, identificadas pela data da captura: mês/ano. A maior parte dos registos fotográficos de Teófilo Rego correspondem a trabalhos comerciais, ao contrário do que se passava nos estúdios no início do século XX em que o retrato predominava, é o caso por exemplo do Estúdio Foto Beleza no qual 20 mais de 98% do seu fundo corresponde a fotografia de retrato . A série comercial, que se pretende focar maioritariamente neste artigo, é a que se destaca neste fundo pela sua dimensão e diversidade, cerca de 80% do total de imagens que o constituem, o que demonstra claramente a principal atividade e reconhecimento de Teófilo Rego enquanto fotógrafo profissional. Esta série está, à semelhança de outros estúdios da época como, por exemplo, 21 o Estúdio Mário Novais, organizada por clientes , cada caixa corresponde a um cliente e encontra-se sequenciada por ordem alfabética. A série pessoal encontra-se acondicionada em caixas, aparentando estar organizada por alguma proximidade temporal e temática, contudo, não se 22 17. Porto, memoria fotográfica…, p. 4. 18. Definição distinta de “coleção”, a qual constitui um conjunto de documentos com características comuns reunidos artificialmente. Conf. ICA - International Council on Archives. Multilingual Archival Terminology. <http://www.ciscra.org/mat/> (9 de Outubro de 2014). 19. Denominação que inclui documentos ou objetos de diversa natureza segundo a NP 4041 – Informação e documentação, 2005. 20. Fernando de Sousa - "Introdução” in Espólio…, p. 20. 21. Fundação Calouste Gulbenkian - Mário Novais. Exposição do Mundo Português 1940. Lisboa: FCG, 1998, p. 35. conhecendo a sua ordem original. Relativamente aos temas, Teófilo Rego explora na fotografia pessoal os seus interesses particulares enquanto artista, retratando a parte mais antiga e pitoresca da cidade, como as ruas antigas do Porto, a Ribeira e seus habitantes, os barcos no Douro e os pescadores, ou as vendedoras de castanhas. Fotografou igualmente a parte mais moderna da cidade como a Avenida dos Aliados ou a Praça D. João I, para além de ter feito experiências diversas de fotografia urbana noturna. Maria do Carmo Serén engloba Teófilo Rego no período do Estado Novo dentro do grupo dos salonistas do Porto, cujas imagens realizadas não diferiam muito dos seus congéneres estrangeiros, predominando as paisagens 22 pictóricas e motivos humanistas . Serén salienta ainda a semelhança da fotografia de Rego com a do fotógrafo Tavares da Fonseca (1908-90's), fundador da empresa publicitária Belarte em 1939, e dos Estúdios Tavares da Fonseca Lda. em 1955. Afirma ainda que esta semelhança se verifica na dedicação que coloca a fotografar a cidade do Porto “mantendo a diretriz 23 salonista da perfeição técnica e dos efeitos formais da temática.” Ao contrário de alguns estúdios fotográficos, como o caso do Estúdio Foto Beleza, o fundo fotográfico Teófilo Rego possui muito pouca documentação textual de suporte às imagens, como registos de encomendas ou listagens de clientes. Também são poucos os casos em que se encontra registada a data de captura da imagem, ou a identificação de local ou objeto fotografado. A digitalização e o acesso online. O procedimento no fundo fotográfico Teófilo Rego Atualmente a digitalização de fundos e coleções fotográficas providencia o acesso a milhares de imagens em qualquer formato, suporte nado digital ou 23 22. Maria do Carmo Serén – “A fotografia salonista” in O Porto e os seus fotógrafos. Coordenação de Teresa Siza. Porto: Porto Editora, 2001, p. 237. 23. Maria do Carmo Serén – “A fotografia… p. 250. Quadro 1 Unidades de instalação que compõem o fundo. por reprodução de fotografia analógica. A fotografia não conseguiu inicialmente alcançar o estatuto de documento, mas a sua reprodução e difusão a nível institucional, obrigou de certa maneira ao seu reconhecimento. A sua rápida difusão e consequente procura por parte de utilizadores, levou a que se focasse a atenção na digitalização e na recuperação da informação dos seus conteúdos através de termos descritores, originando pontos de acesso para a pesquisa. A digitalização tem a dupla função de preservar e difundir a documentação. A preservação do original que ao ser digitalizado ficará salvaguardado de constante e indevido manuseamento, principalmente no caso de documentos em mau estado de conservação. Mesmo no caso de ser necessário uma imagem para reproduzir em grande formato pode-se sempre recorrer à imagem digitalizada se esta estiver com boa resolução, inclusive nestes casos podemos ampliar e detetar pormenores que não são visíveis muitas vezes no tamanho original. Em caso de perda, furto ou dano por acidente, uma fotografia digitalizada com boa resolução poderá substituir o original na sua função informativa. Relativamente à função da difusão, a digitalização de uma fotografia potencia o seu uso em número de utilizadores, estas podem ser acedidas de qualquer local, a qualquer hora e por mais do que um utilizador em simultâneo. Facilita a pesquisa sobre um determinado tema, nome ou local através da indexação; e também facilita a reprodução de imagens, já que em formato digital a sua multiplicação é mais rápida e eficiente. Por outro lado, temos também inerente a questão dos direitos de autor sobre as imagens. Por exemplo, o projeto Estúdio Mário Novais propôs-se a 24 Figura 1. Praça D. João I, Porto, s.d. Fundo Fotográfico Teófilo Rego, Museu Casa da Imagem – Fundação Manuel Leão. PT-FML-TR-PES-16-037. difundir parte do fundo correspondente às fotografias que não se encontram protegidas por direitos de autor ou direitos conexos, assim como o projeto Espólio Fotográfico Português que igualmente difunde e comercializa as fotografias que não têm direitos inerentes. Em alguns arquivos fotográficos desconhece-se qual a sua forma de aquisição e as condições em que foram adquiridos, o que implica que por falta de informação pode ser restringido o acesso às fotografias ou à sua reprodução para que não haja infração ao 24 código dos direitos de autor e direitos conexos. O projeto FAMEP tem uma seleção de imagens de base temática, neste caso a arquitetura moderna no Porto e norte de Portugal, selecionando as imagens de entre as atividades comercial e pessoal deste fundo, contudo respeitando a ordem do arquivo físico. A opção de construir a estrutura do arquivo online por séries e unidades de instalação segue a linha de visão arquivística de Centro Português de Fotografia, que descreve os seus fundos de fotografia utilizando um sistema hierarquizado. A estruturação da base de dados do fundo fotográfico Teófilo Rego tem, por um lado, como objetivo respeitar e refletir a ordem original do arquivo físico e, por outro lado, salvaguardar os direitos de autor inerentes à parte pessoal e comercial. Ao incidir na seleção sobre duas séries distintas obter-se-á uma maior abrangência de temas e perspetivas da fotografia de Teófilo Rego, tanto de âmbito mais documental, como de âmbito mais artístico. A fotografia como documento não exclui automaticamente a fotografia artística, ou vice-versa, também dependente da visão do recetor. Rosa Olivares refere a este propósito que o termo documento pode-se referir a qualquer fotografia, já que a arte é 25 um documento de uma época e de uma forma de ver e analizar . Para a seleção das fotografias do fundo fotográfico Teófilo Rego, o projeto FAMEP seguiu os seguintes procedimentos: inventário preliminar de todas as unidades de instalação do fundo; seleção das imagens a integrar na base de 26 dados atribuindo-lhe um código de referência segundo as normas ISAD-G ; colocação de um “fantasma” na unidade de instalação de onde o negativo foi retirado; envio dos negativos em mau estado de conservação para restauro; descrição da imagem e acondicionamento em envelope de 4 abas acid-free e em unidade de instalação nova, referindo a respetiva cota topográfica. O processo de digitalização será efectuado com uma resolução de 600 dpi e saída a 400%, sendo a matriz guardada em formato tiff, seguindo-se uma cópia jpeg para difusão online. As imagens não serão submetidas por norma a tratamento digital, a não ser em casos excecionais, para salvaguardar a sua integridade. A fase de descrição de uma imagem tem em conta as diversas fontes onde se pode ir buscar informação, por um lado, a análise conotativa da imagem, ou interpretação dos elementos, por outro, a análise sociológica ou interpretação 27 crítica da imagem , ou seja, o contexto que envolve a produção da imagem, 24. Silvestre Lacerda e Natália Gravato – Guia de..., p. 17. 25. Rosa Olivares - “Cuadros de una exposición. Fragmentos de una colección” in Fondos de la colección de fotografía de la Comunidad de Madrid. Madrid: Consejería de las Artes, 2003. 26. Norma Geral Internacional de Descrição Arquivística: adoptada pelo Comité de Normas de Descrição, Estocolmo: Suécia, 19-22 de Setembro de 1999 / Conselho Internacional de Arquivos; trad. Grupo de Trabalho para a Normalização da Descrição em Arquivo.- 2ª ed. Lisboa: Instituto dos Arquivos Nacionais / Torre do Tombo, 2002. 27. Joan Boadas, Lluís Esteve Casellas, M. Angels Suquet – Manual para la gestión de fondos y colecciones fotográficas. Girona: CCG Ediciones, 2001, p. 191, citando Jacques Chaumier. 25 como documentação textual associada (livros de registos, índices, etc.) ou, inclusive, informação recolhida da própria fotografia como carimbos, assinaturas ou datas. No caso do fundo fotográfico Teófilo Rego a informação relativa a cada imagem e a documentação textual associada é escassa. A descrição tem como objetivo sistematizar a informação mais pertinente relativa a cada imagem, e juntamente com a indexação facilitar a pesquisa por parte dos utilizadores. Optou-se por dar títulos auto-explicativos e objetivos, e o uso de linguagem controlada nos descritores relativos a pontos temáticos, 28 geográficos ou nominativos, este último seguindo a norma ISAAR(CPF) . No processo que leva à digitalização e difusão de milhares de imagens, é inevitável a necessidade da conservação e tratamento destes novos documentos digitais. A preservação digital consiste em garantir que a informação digital permanece acessível e com a qualidade de autenticidade para ser interpretada futuramente, recorrendo a uma plataforma tecnológica 29 diferente da utilizada no momento da sua criação . No presente caso as imagens estão a ser guardadas em formato Tiff, como já foi mencionado. 30 Segundo Iglésias Franch este formato será o mais indicado em termos de preservação digital, comparando com o Jfif, Jpeg2000 e Png. As imagens Tiff estão gravadas num disco externo, do qual é efetuada sempre uma cópia de segurança num segundo disco, a guardar em local fisicamente distinto do primeiro. Pode-se mencionar ainda que, pelo facto de não se ter digitalizado e difundido o arquivo completo, não se consegue consultando a base de dados ter uma noção real da sua dimensão, organização e diversidade. Contudo, uma vez que a base de dados reflete a organização do arquivo físico pode ser sempre 28. Norma internacional para os registos de autoridade arquivística relativos a instituições, pessoas singulares e famílias. Paris: França, 15-20 Novembro 1995 Conselho Internacional de Arquivos. Trad. IAN/TT - Instituto dos Arquivos Nacionais/Torre do Tombo e BAD - Associação Portuguesa de Bibliotecários, Arquivistas e Documentalistas. Lisboa, 1998. 29. M. Ferreira - Introdução à preservação digital: conceitos, estratégias e actuais consensos. Guimarães: Escola de Engenharia da Universidade do Minho, 2006, p. 20. 30. Iglésias Franch - Fotografía digital en los archivos. Gijón: Trea. (Archivos siglo XXI, 8), 2008, p. 129. 26 Figura 2 e 3. Unidade de instalação original, e após o novo acondicionamento das fotografias selecionadas. Fundo fotográfico Teófilo Rego (Imagem do autor). ampliada acrescentando-se novas unidades de instalação em projetos futuros, complementando o trabalho agora apresentado. A finalidade da digitalização de fotografias, cumpre neste projeto a sua função em pleno, por um lado, preservando os originais, já de si bastante danificados por condições de acondicionamento e variações de temperatura e humidade relativa; e por outro lado, otimizando a recuperação da informação relativa a imagens de arquitetura, através da descrição e criação de pontos de acesso, potencializando o estudo da arquitetura moderna e da sua relação com a fotografia no contexto português. 27