Nota Introdutória
Abstract
O Ciclo DISPOSITIVOS NA PRÁTICA ARTÍSTICA CONTEMPORÂNEA #2, foi co-organizado pelo Grupo de Arte e Estudos Críticos do CEAA, Departamento de Artes Visuais, Licenciaturas de Artes Plásticas - Intermedia, Artes Visuais-Fotografia e Teatro, da ESAP. As comunicações Utopia y Disfuncionalidad, Jardim de Inverno e Meta-escuta - objeto-sonoro espectro, imanência-vibrátil e restocognitivo, então apresentadas e aqui publicadas, pretendem de alguma forma contribuir para repensar a prática artística contemporânea à luz da noção de Dispositivo.
Full text
Desde as últimas décadas do século XX que, no campo da arte, a apropriação da noção de dispositivo adquire um carácter fortemente operativo. Sabemos que esta mesma noção ocupa um lugar central na obra de Michel Foucault, precisamente a partir dos anos setenta. Diz o autor que o dispositivo tem uma função estratégica dominante e não apenas um significado jurídico ou militar, nem se reduz a um apparatus tecnológico pois não estamos apenas a falar de dispôr peças de uma máquina. As linhas infinitas que o formam, conduzem-no e atravessam-no em múltiplas direcções, Como uma rede que se tece entre os diversos elementos de um conjunto heterogéneo, o dispositivo inscreve-se em relações de poder. Esta noção, assim equacionada, é frequentemente reduzida à condição de estrutura ou material semiótico para as práticas artísticas, sendo entendida como display, disposição arquitectónica e design de exposições ou mesmo efeitos cenográficos das instalações. Ora, o dispositivo não se limita ao simples aspecto visual que enforma e transforma a apresentação da obra. Pensamos que a noção de dispositivo se banalizou e empobreceu. Perdeu consistência epistemológica. É claro que somos prisioneiros de múltiplos dispositivos mas para compreender a sua presença no território da arte e fazer aparecer a multiplicidade de enunciados, será necessário compreender a sua história, constituição e articulação como meio e expressão de poder. Como afirma Gilles Deleuze "ao lemos os últimos livros de Foucault, devemos, o melhor que possamos, compreender o programa que ele propõe aos seus leitores. Uma estética intrínseca dos modos de existência como 1 última dimensão dos dispositivos?" Talvez esse programa se encontre ainda por cumprir. É à luz desta configuração conceptual que o Ciclo Dispositivos # 2, com os textos críticos de Maria Covadonga Barreiro, Nuno Rodrigues e Hugo Paquete, se propõe contribuir para iniciar a construção desse programa. Eduarda Neves NOTA INTRODUTÓRIA 1. Gilles DELEUZE - O mistério de Ariana. Lisboa: Vega,1996, p.91.