Nota Introdutória
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9 Em outubro de 2019 o CEAA realizou o colóquio Luso Brasileiro Arte Inclusiva? Quem inclui quem? Este colóquio ocorreu em duas fases, a primeira no Porto (Portugal) e a segunda em S. Paulo (Brasil), no âmbito da colaboração entre o Centro de Estudos Arnaldo Araújo da ESAP e a SP Escola de Teatro de São Paulo. Estes encontros tiveram por principal objetivo promover a reflexão sobre o papel da arte nos processos participativos e de inclusão social, e centrou-se na apresentação, debate e divulgação dos resultados de práticas artísticas que conjugam a criação com investigação e preocupações ético-sociais. Nos dois colóquios, primeiramente no Porto (Portugal) e posteriormente em São Paulo (Brasil) foram debatidas questões habitualmente pouco abordadas mas que constituem uma vertente importante da produção artística contemporânea, entre as quais: como é que a arte é ou pode ser inclusiva? quais as formas que assume? quem a concretiza? quem são os agentes sociais presentes nos projetos? qual o seu real impacto artístico e social? Passados dois anos, vem o CEAA publicar este livro que traduz o resultado de algumas comunicações apresentadas no colóquio cujo debates a que foram submetidas permitem aqui uma reflexão mais alargada sobre o tema, procurando NOTA INTRODUTÓRIA LUÍSA PINTO, JORGE PALINHOS E IVAM CABRAL
10 assim, chamar a atenção da comunidade artística e científica para este campo de intervenção. Abrimos aqui com Elen de Fatima Londero cuja reflexão concerne ao potencial formativo, crítico e emancipador do ensino/aprendizagem das artes e educação centrada no exemplo do sistema pedagógico da SP Escola de Teatro, que foi criada através dos paradigmas “artistas que formam artistas” e “aprende-se ao fazer”, e que se apresenta como uma alternativa metodológica a partir de uma formação descolonizada, inclusiva e igualitária promovendo o pensamento crítico e transformador dos “aprendizes”. Ao longo do seu artigo são ainda abordadas experiências artísticas participativas e de inclusão que integraram a programação da SP Escola de Teatro com resultados emancipatórios. Voltam a este assunto Elisabeth Silva Lopes, Ivam Cabral e Joaquim Gama que nos falam sobre a experiência da SP Escola de Teatro – Centro de Formação das Artes do Palco, expondo o modelo pedagógico ousado da referida escola, como um espaço democrático que privilegia a formação artística tendo em conta as questões de classe, género e raça presentes na vida quotidiana brasileira. Ao longo da reflexão são abordados os conceitos de arte e educação enquanto espaços relevantes para o indivíduo interrogar a sua condição e questionar as suas relações com os outros, tornando-se num lugar de diálogo e de inquietação. A necessidade de emancipação das artes levou os artistas a abandonarem os lugares convencionais destinados à criação artística e a ocuparem as ruas e espaços alternativos; passaram a reivindicar uma perceção do mundo diferente, abrindo caminho para outras possibilidades de criação dentro dos vários elementos constituintes das artes. Jorge Palinhos apresenta-nos o projeto internacional “Reclaim the Future”, um projeto de intervenção comunitária que levantou várias questões sobre a relação entre a instrumentalização da arte para a comunidade e a instrumentalização da arte para outros fins que não os da própria arte, assim como quais os caminhos a percorrer no futuro dentro deste contexto. Por outro lado, José Soeiro fala-nos do Teatro como política centrado no Teatro LUÍSA PINTO, JORGE PALINHOS e IVAM CABRAL
11 Legislativo e da Estética do Oprimido, na tentativa de integrar processos artísticos num quadro mais amplo de intervenção política. Centra-se na importância do Teatro Legislativo como meio de libertação e comunicação direta entre todos refletindo sobre as inquietações, necessidades, urgências e problemáticas sentidas pelos participantes, sendo os grupos que definem os temas a serem apresentados e abertos à discussão, emancipação e à afirmação do oprimido. Já a reflexão de Lucília Guerra contextualiza a importância de uma educação inclusiva, de uma educação pela arte e a importância que tem uma experiência estética no desenvolvimento integral do ser humano. A título de exemplo, apresenta-nos o projeto da Escola Técnica de Artes, Carandiru, São Paulo, Brasil, inaugurada pelo Centro Paulo Sousa. “Trata-se de uma estrutura remanescente do complexo Penitenciário do Carandiru”, que oferece agora novas perspetivas em relação à habitabilidade do referido espaço, contribuindo para a inclusão social de comunidades com dificuldades de acesso à educação e à prática artística. Luisa Pinto centra-se na análise reflexiva e crítica sobre a Arte em contexto prisional e como possibilidade de reinserção social de reclusos/as, a partir de experiências próprias realizadas, neste contexto. Todas feitas por reclusos e reclusas, que se juntaram a músicos, atores e atrizes profissionais, com apresentações públicas fora da prisão e destinadas a um público geral, promovendo laços socializadores com o exterior, projetando-o em situações futuras. Ao longo da reflexão descrevemse pontos-chave da metodologia utilizada no projeto “O Filho Pródigo - Filme concerto” que vão desde a ideia inicial à conclusão do produto final. Sanna Ryynänen expõe a importância de se promover uma educação em que a arte é convocada enquanto meio privilegiado de intervenção pedagógica, garantindo o acesso às artes em todas as fases da vida, como afirma a autora. São abordados conceitos de democracia/cultura como fator crucial para o desenvolvimento de competências individuais, aquisição de autoestima, relações interpessoais e consequentemente o desenvolvimento das comunidades ressignificando o “lugar”. Vicente Concílio volta ao assunto Teatro e Prisão e da importância de integração NOTA INTRODUTÓRIA
12 da prática teatral nas atividades curriculares ou extra curriculares dos programas educacionais das prisões, assim como a necessidade de desenvolvimento de políticas governamentais que proporcionem ao indivíduo que se encontra privado de liberdade pontualmente, contactar regularmente com expressões diferentes da sua vivência quotidiana, promovendo autonomia e autoestima. Ainda neste artigo o autor falo-nos de experiências teatrais e respetivos processos criativos realizados na prisão feminina Florianópolis. Por último, queremos agradecer a todos os que aceitaram debater e partilhar connosco o seu trabalho, assim contribuindo para o arranque de uma nova vertente de investigação do eixo Arquiteturas Dramáticas do CEAA, esperando que este livro constitua um contributo útil para o conhecimento e reflexão sobre práticas artísticas participativas e de inclusão. Luísa Pinto, Jorge Palinhos e Ivam Cabral LUÍSA PINTO, JORGE PALINHOS e IVAM CABRAL