Cinco Exposições e um Colectivo
Abstract
Livro/catálogo que reune os resultados do projeto "Algumas razões para uma arte não demissionária", que combina a reflexão teórico-crítica com a produção artística de obras in-situ.
Full text
30 31 1. Michel FOUCAULT – Arqueologia do Saber. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2008, p. 149. 2. Michel FOUCAULT - “Introduction to a non-fascist life” [Preface]. In Gilles Deleuze, Felix Guattari, Anti-Oedipus. Capitalism and Schizophrenia, New York: Viking Press, 1977, pp. XI-XIV. 3. Amarante Abramovici, João Vasco Paiva, Sérgio Leitão, Tânia Dinis, Vera Santos. 4. Gilles DELEUZE – O Mistério de Ariana. Lisboa: Editora Vega, 1996, p. 93. Cinco exposições in situ são apresentadas pelo colectivo DAS PLAST V PJS.3 Nestas propostas, os conceitos de Arte, Energia e Circulação constituem interacções fundamentais por referência às singularidades dos próprios espaços expositivos. Nas particularidades das respectivas localizações geográfi cas e na multiplicidade das suas historicidades, encontramos um intermezzo: a arte é energia, a energia é circulação, seja por terra ou por mar. A partir dos espaços considerados percorrem-se as relações entre o saber e o poder, perverte-se o tempo e o espaço, escava-se no esquecimento da origem. Mais sintomatologia e menos ontologia. Menos fontes e mais descontinuidades. Nem princípio nem fi m. Apenas velocidades. À semelhança da tarefa do genealogista, não se trata de um retorno à origem, explicitar uma análise evolutiva ou mostrar a presença do passado no presente. Procura-se no arquivo, na rede que se tece entre os múltiplos elementos de um conjunto heterogéneo, o dito e o não-dito, a nossa actualidade. Como escreve Deleuze: O corte que afasta as obras da continuidade e da identidade temporal é o mesmo que lhes permite aproximarem-se das modalidades concretas da existência mas também da transposição dos seus limites. Através CINCO EXPOSIÇÕES E UM COLECTIVO Eduarda Neves A Arqueologia descreve os discursos como práticas especifi cas no elemento do arquivo1. O grupo não deve ser o laço orgânico que une os indivíduos hierarquizados, mas um constante gerador de desindividualização2. O novo é o actual. O actual não é o que somos mas aquilo em que nos vamos tornando, aquilo que somos em devir, quer dizer, o Outro, o nosso devir-outro. É necessário distinguir, em todo o dispositivo, o que somos (o que não seremos mais), e aquilo que somos em devir; a parte da história e a parte do actual. A história é o arquivo, é o desenho do que somos e deixamos de ser, enquanto o actual é o esboço daquilo em que nos vamos tornando. A história e o arquivo são o que nos separa ainda de nós próprios, sendo o actual esse Outro com o qual coincidimos desde já.4 ciante (whistleblower), como corporização desta fi gura, ergue-se contra as práticas malignas.12 É como um perito agindo a partir de um ponto de não retorno, alguém que arrisca no momento de derradeira crise. Ao denunciar e disseminar dados patrimoniais ou informações classifi cadas, revela o que foi excluído do debate público. E um tal acto renegado – essencialmente uma violação da prática corrente, regra ou lei – produz uma série de materiais de resolução viável – da visualização, à discriminação, à cognição, à tomada de decisão – para abordar uma situação que o acto, de facto, expôs ou tornou compreensível. Dado o poder dos mercados capitalistas sobre os interesses públicos, os ‘investidores’ não são os únicos afectados. A capitulação, termo expresso na CNBC, aponta para um destino onde a especulação subjuga o poder político. Consequentemente, os bots algorítmicos alimentam-se de miríades de pessoas que estão ‘investidas’ como capital humano num sistema parasitário que é simultaneamente o hospedeiro. Assim, o verdadeiro derivativo – aquele que é dependente de e, ao mesmo tempo, está no centro da produção de risco – é o público como último recurso. Nós somos a cobertura de risco fi nal. Agir em conjunto com aqueles que colocam a sua reputação (e mais) em risco requer o cultivar de uma solidariedade renegada,13 uma política activista que revele e transforme ‘a inteligência, a vigilância e o reconhecimento’ numa resolução esclarecida a bem do interesse comum. A estética da resolução e as suas consequências abrem um campo para práticas multifacetadas, transdisciplinares, comprometidas em desenterrar, narrar e visualizar instabilidades que coagulam dissidência em insurreição. ‘Re-calibrar,’ ‘re-aferir’ e ‘re-avaliar’ operações e eventos materiais concretos, mas opacos – para usar termos que são técnicos e fi nanceiros e denotam frequência, profundidade e consequência de inquérito - pode revelar evidências (ao constituir, ou seja, construir e estabelecer a verdade como um passado para sempre presente no futuro) que, por sua vez, possam reorientar radicalmente o discurso e a acção comum. Ao reforçarmos e agarrarmos a resolução quanto aos signifi cados artísticos, tecnológicos, legais bem como sociais e politicos do termo, tais práticas poderão ‘criar’ arte não apenas pela arte mas por mais do que isso e, assim, oferecer alternativas ao ‘género de dissidência afi rmativa’ que, entre outras coisas, promove mais os interesses do capital do que os artísticos, tal como demonstram as vendas do mercado da arte e os registos dos leilões. 12. Os denunciantes normalmente estão na linha da frente para mudar as regras dentro da sua área – a sua preocupação é dirigirem-se aos colegas, pares, à sua indústria e/ou órgãos reguladores, mais do que ao público em geral enquanto tal. Correm enormes riscos pessoais, dado que falta solidariedade pública organizada. 13. Sem referência directa, a urgência de tal solidariedade contra o complexo Estado-Finança, está implicada no mais recente caso de denúncia fi nanceira. Ver: Matt Taibbi, Th e $9 Billion Witness: Meet JP Morgan Chase’s Worst Nightmare, Th e Rolling Stone Magazine, 6 de Novembro 2014, http:// www.rollingstone.com/ politics/news/the-9-billion- -witness-20141106
32 33 dele se mostra a diferença no que somos e no que fazemos, a nossa razão de ser. Participando na tarefa do impensado e na possibilidade da interpretação de uma narrativa reescrita sempre e já a partir do exterior, estas propostas in situ não constituem qualquer forma de mediação entre História e Verdade. Nestes projectos, enquanto lugares de marcas silenciosas, de processos e caminhos, ou ainda de ecos individuais e colectivos da prática artística, circulam historicidades com ou sem signifi cações específi cas, reagrupamentos que procuram sentido num todo. Assim, estas intervenções constituem reservatórios espacio-temporais, memórias de singularidades, acontecimentos ou lugares, que se afi rmam como possível território de construção crítica. Como bem sublinhou Daniel Buren a propósito da prática in situ, a sua primordial característica é a de que a obra deve nascer e ser apresentada a partir do espaço no qual se inscreve e para o qual foi pensada.5 Neste sentido, a obra transforma ou confere outra dimensão ao lugar.6 Não se pretende reacção mas sim perturbação. Diálogo da obra com um espaço específi co mas também com a história desse lugar, a arquitectura, a paisagem, as pessoas. Cada uma destas exposições confi gura a experiência de um colectivo no qual o processo de despersonalização se constitui como disparidade de fundo. Circulação num espaço-tempo que se expande, um entroncamento, junção e bifurcação de caminhos. Enquanto campo de imanência a ser construído, um colectivo é uma aventura, uma descoberta e, como estas obras, construído in situ. Como todos os encontros. Eis algumas razões para uma arte não demissionária. A construir. 5. A actividade artística de Daniel Buren é defi nida por esta prática desde 1965. Não é por acaso que este artista na sua biografi a ofi cial indica que vive e trabalha in situ. 6. “A noção de site-specifi c caracteriza de maneira muito imperfeita as modalidades de referência, pois na maioria das vezes ela mantém a ideia de que a obra pertence ao lugar e não o contrário.”, in, Jean Marc POINSOT - “L’in-situ et la circonstance de sa mise en vu [au] musée”. Les Cahiers du Musée National d’Art Moderne, Centre Georges Pompidou, n. 28, 1989.