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Perspectivas sobre inclusão no Centro Paula Souza: caminhos da arte para a educação básica e educação profissional tecnológica

GUERRA, Lucília

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95 1. Educação Pública do Centro Paula Souza – Diálogos com a Arte O Centro Paula Souza é uma autarquia do Governo do Estado de São Paulo, com mais de 50 anos, que oferece Educação Básica de Nível Médio, Educação Profissional de Nivel Médio e de Nível Superior Tecnológico. Está presente em 322 municípios do Estado de São Paulo, atende a mais de 300 mil estudantes e oferece ainda cursos de pós-graduação, atualização tecnológica e extensão. Mesmo que sua oferta educacional esteja distribuída por todo o Estado de São Paulo, em 223 escolas técnicas próprias e 74 faculdades de tecnologia, muitas pessoas ainda não conseguem uma oportunidade para estudar nessas escolas. O Centro Paula Souza, então, em convênio com as prefeituras de muitos municípios, que não dispunham de unidades de educação profissional, possibilitou a inclusão de estudantes das escolas locais para ampliar as possibilidades de formação profissional destes. Ainda que, por meio destas estratégias se tenha conseguido aumentar o atendimento aos estudantes, ainda há muito a fazer, muito a ampliar. A preocupação em ter uma educação de qualidade, acessível aos diversos perfis presentes na sociedade do Estado de São Paulo, quer do ponto de vista socioeconômico, quer do ponto de vista das pretensões profissionais, fez com PERSPECTIVAS SOBRE INCLUSÃO NO CENTRO PAULA SOUZA: CAMINHOS DA ARTE PARA A EDUCAÇÃO BÁSICA E EDUCAÇÃO PROFISSIONAL TECNOLÓGICA LUCILIA GUERRA 96 que, ao longo do tempo, a Instituição conseguisse realizar a oferta de mais de 150 cursos técnicos de nível médio e 80 cursos de nível superior tecnológico. Esta abrangência é para que se atenda aos arranjos produtivos locais de forma adequada, preparando as pessoas para o trabalho, com qualidade e em atendimento aos anseios dos estudantes. Para garantir que a excelência esteja presente nas salas de aulas de todas as unidades escolares, alguns preceitos são seguidos de forma objetiva e rigorosa, em especial quanto à formação do corpo docente. Especificamente na área de Artes, a instituição já tem um diferencial bastante importante, que é a exigência de formação adequada para que as aulas de Arte sejam ministradas aos estudantes da Educação Básica, ou seja, 100% dos docentes deste componente curricular tem formação em Arte, no Centro Paula Souza, o que difere do índice de 7,7% que corresponde aos docentes que lecionam arte e que possuem formação específica no Brasil1. Este cenário absoluto em relação à preparação do corpo docente, também se confirma nos cursos da formação profissional. Na Instituição é exigida habilitação dos docentes nas áreas relacionadas aos cursos oferecidos. Esta questão é de grande relevância, pois insere, na ponta, um profissional preparado para realizar o acolhimento dos estudantes e proporcionar uma digna experiência educacional a eles, em todas as dimensões da construção do conhecimento. A Educação Básica de nível médio, bem como a formação profissional tecnológica oferecida pelo Centro Paula Souza tem como premissa a visão abrangente em relação aos estudantes que atende. Observa-se esta atenção já no acesso aos cursos, que prevê uma pontuação acrescida aos egressos das escolas públicas e afrodescendentes, para garantir maior igualdade em oportunidades entre todos que buscam a continuidade dos estudos na instituição. 1 Dados do Censo Escolar 2013 que foram compilados pela ONG Todos Pela Educação. LUCILIA GUERRA 97 Para além do ingresso, o estudante precisa ser visto em toda a sua complexidade e necessidades, tanto de formação escolar como para a vida de forma cidadã e propositiva, para que, na sociedade, seja um agente de transformação. Desde os currículos, metodologias e demais ações didático-pedagógicas, o estudante é amplamente atendido por equipes multidisciplinares e docentes, com projetos desafiadores para que o estudante se desenvolva da melhor maneira possível e, assim, possa descobrir suas potencialidades e amplie suas possibilidades profissionais. Neste cenário, de gestão preocupada com o desenvolvimento dos estudantes de forma global, o Centro Paula Souza se estabelece com um perfil bastante eclético na oferta de cursos e, na área de Artes, constitui-se como a maior oferta pública do Brasil. Oferecendo cursos técnicos em Canto, Comunicação Visual, Dança, Design de Interiores, Design de Móveis, Fabricação de Instrumentos Musicais, Instrumento Musical, Modelagem do Vestuário, Multimídia, Museologia, Paisagismo, Processos Fotográficos, Produção de Áudio e Vídeo, Regência e Teatro, tem o objetivo de qualificar profissionais para atuar na área de Artes com as competências e habilidades necessárias para que prossigam suas trilhas profissionais com maior erudição e partindo de experiências estéticas importantes para seus repertórios. Diante desta oferta abrangente de cursos, é significativo observar a influência da Instituição na formação de profissionais para as carreiras artísticas, pois os cursos são amplamente procurados. 2. Etec de Artes – Espaço de Desenvolvimento Profissional para as Artes A necessidade de se ter um espaço de desenvolvimento profissional artístico se impôs ao longo da trajetória da Instituição e, em 2008, o Centro Paula Souza inaugurou a Etec de Artes, escola técnica localizada em uma estrutura remanescente do antigo Complexo Penitenciário do Carandiru. PERSPECTIVAS SOBRE INCLUSÃO NO CENTRO PAULA SOUZA 98 Esse lugar emblemático, conhecido por violência e morte, deu, por fim, espaço para o desenvolvimento de pessoas, em várias dimensões e, em especial no campo artístico em diferentes expressões e linguagens. A dor de tantas vidas perdidas para a criminalidade, em um local que não suavizou o sofrimento, hoje, pela música, dança, design, fotografia e teatro exorciza pensamentos e sentimentos, de outrora, pensados e sentidos. Muitos estudantes encontraram mais do que uma trilha profissional, encontraram um sentido, uma forma de se expressar e de se comunicar com a vida. A proposta pedagógica da Etec de Artes é diferenciada pois não exige prérequisitos comuns a muitas escolas de artes. Conhecimento prévio em leitura musical, para os cursos de Música, vivências e preparo corporal para os cursos das áreas de Dança e de Teatro são normalmente pedidos ao ingressar em cursos dessas modalidades. Entretanto, na Etec de Artes, os testes de aptidão aplicados são para apoiar a Figura 1. Prédio da Escola Técnica de Artes, Carandiru, São Paulo, SP, Brasil http://www.portal.cps.sp.gov.br LUCILIA GUERRA 99 seleção de pessoas que possuem musicalidade, mínima consciência corporal e para, de fato, descobrirem, neste momento, se querem realizar uma imersão nos conhecimentos artísticos nos quais serão desafiados, sem que considerem esta trajetória complicada ou inadequada para seus perfis de personalidade e pretensões. É mais um momento de autoconhecimento e em nada excludente. Este diferencial da escola é de suma importância, pois não impede o acesso àqueles que não tiveram como estudar música, dança, teatro e outras linguagens em tenra infância, mas recepciona os que querem encontrar, nessas áreas, oportunidades para se expressarem, investigarem e se profissionalizarem. É aberto a todos que queiram. Muitos ingressantes sequer conhecem as notas musicais, nos cursos de música, nunca foram envolvidos em cursos de instrumento musical, mas em exíguo período de tempo conseguem ser introduzidos neste universo com nível elementar de erudição, mas que os prepararam para uma jornada de descobertas no campo da música, inclusive para sentirem-se confiantes para a continuidade dos estudos em nível superior. O mesmo ocorre com os egressos dos cursos de Dança, Teatro, Fotografia e Design. Um espaço de experiências e educação em Artes tem que manter os acessos abertos, pois a formação em Arte é urgente e necessária e todos devem ser bem recepcionados e terem a garantia da livre expressão, formação digna e com nível de propriedade que os prepare para percorrer novos caminhos, buscar processos criativos que os mobilizem a solucionar problemas com uso de sensibilidade, empatia e criatividade. Para citar um caso em especial, que demonstra a grande transformação que a educação pela arte pode trazer para a vida de um indivíduo, apresenta-se a trajetória de um ex-presidiário do Complexo do Carandiru, que havia cumprido pena no prédio onde hoje é a Etec de Artes e que conseguiu ingressar no curso Técnico em Design de Interiores. Foi para ele muito significativo retornar ao espaço físico num outro contexto, PERSPECTIVAS SOBRE INCLUSÃO NO CENTRO PAULA SOUZA 100 em redenção com a sociedade e buscando mobilidade profissional e social. Em muitas aulas dentro do espaço, que mesmo ressignificado, foi sua antiga cela, ao contrário do primeiro momento, era sim um sinal de liberdade, de independência. Terminou o curso e trouxe seu pai, que também tinha sido presidiário no Complexo, para ver seu trabalho final. A redenção foi para toda a família. O olhar de gratidão pela oportunidade, por ter sido tratado com equidade e acolhimento. Educação transformadora, arte como transformação e vidas que recebem esta influência positiva. A aparente vulnerabilidade presente neste caso pode ser considerada sim um ponto de força. O estudante, a partir das referências que tinha, sentiu-se encorajado a abraçar suas chances e a abandonar as marcas do sofrimento. Estas alternativas que a educação traz e impulsiona são essenciais para a mudança positiva e qualificada da sociedade. A formação profissionalizante no Brasil é muito pouco explorada, até mesmo porque se compreende que este tipo de oferta é para indivíduos que não conseguem cursar o ensino superior, em especial por fatores socioeconômicos. Este tipo de reflexão causa um enorme prejuízo ao desenvolvimento econômico do país e reduz as oportunidades de formação de jovens e adultos em áreas específicas para o mundo do trabalho. Menos pessoas tornam-se preparadas para executar funções no mercado, começam a ter oportunidades de se desenvolverem em áreas diferentes e exercer funções que, inclusive, podem provocar mobilidade social para suas vidas e de suas famílias. Mesmo que houvesse uma séria proposta de formação de pessoas para outras atividades, o que já seria um ganho estratégico para o país, ainda faltaria a preparação para as atividades artístico-culturais, pois configura-se outro passivo no Brasil. Em muitos casos, são observados discursos sobre a real necessidade de formar para as carreiras artísticas, sob o mito de que o talento é inato e nada há para ser aprendido na educação formal. LUCILIA GUERRA 101 Este é um grande engano, pois, para além das técnicas que podem ser ensinadas, as imersões estéticas, as experiências individuais e coletivas em cursos de artes, configuram-se elementos-chave para a educação da sensibilidade, tão essencial para a preparação de pessoas em todas as dimensões de suas vidas. Em muitos casos, os estudantes esperam que a escola só permita que se conectem com sua criatividade, emoções e capacidade de expressão. Uma escola inclusiva é aquela que é sensível às necessidades e aspirações dos estudantes, respeitando toda a sua complexidade e diversidade. Além da formação, a escola deve assumir seu papel de agente desafiador e provocador, com metodologias que privilegiem o florescer dos talentos a serviço do potencial criativo e da expressão artística. Educar a sensibilidade como estratégia que favorece o desenvolvimento do apreço pelo conhecimento é fundamental para a sociedade, pois indivíduos que são estimulados em sua capacidade de pesquisa, em sua curiosidade e vontade de aprender se tornam atentos à realidade onde vivem e estabelecem uma relação de responsabilidade para contribuir de forma propositiva. 3. A experiência estética é para todos? Para Deleuze (2010), “alguém só se torna marceneiro tornando-se sensível aos signos da madeira e médico tornando-se sensível aos signos da doença.” Nestas analogias propostas por Deleuze, se pode refletir o quanto é indispensável que os indivíduos criem intimidade com a Arte para conhecer seus signos e fazer relações, contextualizações e leituras. As escolas e os espaços culturais precisam estar preparados para criar oportunidades de imersão artística de modo que os indivíduos possam descobrir suas potencialidades e construam significados a partir de seus percursos. As linguagens artísticas se abrem à exploração de possibilidades e cada um tem o privilégio de torná-las únicas, a partir de seu repertório individual em interfaces totalmente novas a cada pessoa. Grande parte do problema é a falta de acesso elementar às linguagens artísticas e PERSPECTIVAS SOBRE INCLUSÃO NO CENTRO PAULA SOUZA 102 à ausência de políticas públicas de cultura para todos e todas. Muitas vezes, a visão marginal da arte tem seu princípio na educação que não reconhece o valor da experiência estética e despreza a potência da educação da sensibilidade para que, todos que incorporem seus aprendizados, evoluam no sentido da construção de pontes para o conhecimento. A escola que deveria tornar seus processos pedagógicos significativos, ignora possibilidades de grande relevância. Por outro lado, os espaços de fruição cultural preparam-se para formar público, trazer as linguagens artísticas para o convívio da sociedade e apresentar oportunidades para diálogos fluídos, mas encontram barreiras na falta de repertório e importância de muitos, que sequer se expõem aos processos criativos, por não compreender o benefício e o prazer que pode ser oferecido. Estes desencontros precisam ser solucionados e o papel da educação se estabelece como decisivo. Conforme Vigotski (2010), (...) a educação nunca começa no vazio, não se forjam reações inteiramente novas nem se concretiza o primeiro impulso.... Nesse sentido, toda educação é a reeducação do já realizado. Desta forma, a Arte dialoga com o que os indivíduos trazem. O conhecimento se constrói a partir do indivíduo e para o outro. Os pontos de conexão se organizam pela sensibilidade e as linguagens artísticas trazem estímulos diferentes para os indivíduos, respeitando seus repertórios individuais. Se considerar que a “A Arte deve ser a base da Educação”, como traz Platão, citado por Read (2001), para que se possa defender esse princípio, para além dos elementos característicos da Arte, deve-se entender o impacto desta nas provocações que realiza, estranhamentos e reconhecimentos que cada um particulariza em seus processos de experimentação. LUCILIA GUERRA 103 Segundo Egleton (2011), (...) se a criatividade agora podia ser encontrada na arte, era porque não podia ser encontrada em nenhum outro lugar? Tão logo cultura venha a significar erudição e as artes, atividades restritas a uma pequena porção de homens e mulheres, a ideia é ao mesmo tempo intensificada e empobrecida. Nesta reflexão pode-se perceber que esta dualidade de forças se mantém e, embora subjugada na educação à uma área de menor interesse para investigação e apropriação, também se coloca sobre os ombros da Arte um status de relevância e exclusivismo. Como trazer planejamento consciente para a sala de aula? Qual a abordagem adequada para a formação de pessoas, diante disso? Deixando de lado apreensões elitistas e distantes, percebe-se que o prazer da trilha e as possibilidades que a Arte pode trazer para as pessoas, se sobrepõe aos julgamentos daqueles que não a consideram importante, pois os efeitos das experiências estéticas na educação formal e não formal são de grande destaque. Estas reflexões são muito importantes para que sejam definidas políticas de acesso que garantam que a escola acredite na capacidade transformadora da Educação pela Arte e como ela pode ser identificada no cotidiano das pessoas em múltiplas formas de apresentação e com grande organicidade em relação a vida de cada uma. Por que ser elitista e inacessível se a Arte está na vida? Se está na vida, por que não está na escola? A arte não se restringe aos objetos museológicos e de elevada erudição. Os bens culturais que compõe o universo das pessoas, devem ser trazidos e interpretados na sala de aula. Os estudantes por sua vez se reconhecerão circundados por eles, poderão assim fazer comparações com outras culturas, outros momentos cronológicos e o pensamento articulado se fará, de modo individual. Neste percurso, a erudição, em primeiro momento distante, se estabelecerá naturalmente. De acordo com as palavras do crítico de arte inglês John Ruskin (1819-1900), PERSPECTIVAS SOBRE INCLUSÃO NO CENTRO PAULA SOUZA