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Fotomontagens e colagens

PIMENTEL, Jorge Cunha

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65 Arquitectura Moderna no arquivo Teófilo Rego Fotomontagens e Colagens Jorge Cunha Pimentel 66 Quando encontrei negativos de fotomontagens arquitectónicas no Arquivo do fotógrafo Teófilo Rego, a minha única referência deste tipo de trabalho, realizado na primeira metade do século 20 em Portugal, era a de uma fotomontagem do arquitecto Viana de Lima.1 Tratava-se de, através da montagem de um desenho sobre uma fotografia realizado em 1943, apresentar a ideia da volumetria geral em perspectiva do projecto para um immeuble-villas na Rua Sá da Bandeira, no Porto, procurando o máximo de integração visual do projecto no seu contexto cénico e urbano, tal como já tinha podido observar nas fotomontagens de Mies van der Rohe relativas ao projecto de arranha-céus para Friedrichstrasse, Berlim, de 1921. A produção de tal fotomontagem ter-se-á devido, muito provavelmente, à vontade de apresentar o projecto ao cliente, dada a existência de uma espécie de concurso informal. Destinado a habitação, estabelecimentos comerciais e escritórios e “com grande divulgação mediática”, Viana de Lima apresentava o projecto de um “edifício de vanguarda, moderno, aberto ao exterior, de linguagem corbusiana: habitações em duplex com terraço, fenestração, piso térreo recuado, terraçojardim na cobertura, distribuição em galerias, leitura horizontal da fachada, ossatura metálica”, como refere Maria do Carmo Pires na página da Fundação Marques da Silva. Viana de Lima terá mesmo copiado alguns elementos do projecto de immeubles-villas de Le Corbusier, como seja a porta dupla com dossel e o mastro em balanço que enfatiza a composição axial do edifício. Desconheço outros traços tangíveis do projecto que foi preterido pelo cliente ou pela Comissão de Estética da cidade, tendo sido construído o dos arquitectos David Moreira da Silva e Maria José Marques da Silva Martins. Deste trabalho podemos deduzir que Viana de Lima conhecia os desenhos de immeubles-villas produzidos desde 1922 por Le Corbusier e por ele publicados em Vers une architecture ou em Urbanisme, ambos em 1925, ou mesmo em L’Almanach d’architecture moderne, já de 26. Uma estratégia de comunicação desenvolvida por Le Corbusier que ganha a sua autonarrativa com a publicação no livro Oeuvre Compléte 1910/1929 dos capítulos consagrados ao Salon d’automne de 1922 e ao Pavillon de L’Esprit Nouveau de 1925, em que o immeuble-villas se torna “uma espécie de motivo tipológico que permite detalhar um projecto de urbanismo radical e de responder a situações mais contextuais” (Nivet, 2011, p. 126), como na fotomontagem em que o Pavillon 1 Arquitecto da segunda geração modernista portuguesa, a par de Keil do Amaral, Arménio Losa ou Januário Godinho. Estagiou na Direção Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais (DGEMN) sob a orientação do arquiteto Rogério de Azevedo (1938-1941) e, em 1947, foi um dos membros fundadores do grupo ODAM (Organização dos Arquitectos Modernos). 67 Arquitectura Moderna no arquivo Teófilo Rego de L’Esprit Nouveau é incluído como uma célula habitacional num immeuble-villas. Nessa narrativa Le Corbusier nunca chega a definir a relação construtiva da villa com o immeuble que a contem e os elementos de que ela é feita, o que torna ainda mais estranha a proposta de Viana de Lima. A produção de significado visual através da justaposição de elementos “é geralmente associada com as fotomontagens Mies van der Rohe e ocorreu somente após os dadaístas terem desenvolvido a montagem como uma nova gramática visual que radicalmente rompeu com a ideia de espacialidade pré-moderna homogénea” (Stierli, 2012, pp. 35-36). A cultura visual dadaísta e as técnicas de fotomontagem e de manipulação da fotografia das vanguardas2 foram fundamentais para uma nova concepção do espaço, anunciada pelo trabalho de Mies3. Ele utilizou a fotomontagem tanto como um enquadramento para estudo como um meio de representação de uma ideia de arquitectura, partilhando com os dadaístas uma investigação fundamental sobre a metrópole moderna como uma forma simbólica de um novo paradigma cultural, relacionado com uma estética de contrastes, e acreditando profundamente numa alteração através do progresso tecnológico. Deve ter tido consciência do potencial das técnicas de colagem e montagem para o discurso, representação e produção de arquitectura. Estas técnicas serviram-lhe não só para visualizar as suas ideias sobre forma, luz e espaço de um modo mais preciso e próximo das suas ideias conceptuais do que um edifício alguma vez poderia fazer, mas também, para tornar essas ideias disponíveis a uma audiência mais alargada (Stierli, 2012, p. 32). À medida que Mies compreendia a modernidade como a idade dos meios de comunicação de massas, e a arquitectura moderna, por extensão, como uma questão de representação, as suas montagens foram sendo explicitamente produzidas com o propósito de difusão pública (Stierli, 2010, p. 67). Se o fotógrafo pode fotografar uma maqueta dando “a impressão de que o edifício está vivendo, removendo todos os vestígios de ser uma maqueta e dissolvendo 2 Colectivamente desenvolvida pelo grupo dadaísta de Berlim, a fotomontagem é uma variação da colagem em que os elementos utilizados são fotografias e reproduções fotográficas retiradas da imprensa. A apropriação dos meios de comunicação de massas forneceu material sem fim para a crítica dadaísta, e os recortes disjuntivos das fotomontagens efectivamente capturaram as fissuras e os choques da modernidade. Substituindo por tesoura e cola os instrumentos da pintura, e intitulando-se como monteurs (mecânicos) em vez de artistas, os dadaístas de Berlim utilizaram a fotomontagem no seu combate radical à tradição artística. 3 Mies mudou completamente o estilo dos seus projectos, passando do clássico da sua formação tradicional para uma fase experimental, reinventando-se quer como arquitecto quer como uma personalidade com outro paradigma cultural. 68 Monumento ao Infante D. Henrique, Sagres. Arquitecto João Andresen. 1954-1956. 9 x 12 cm, negativo de gelatina e prata em acetato. PT-FML-TR-COM-50-021 69 Arquitectura Moderna no arquivo Teófilo Rego Monumento ao Infante D. Henrique, Sagres. Projecto de Fotomontagem Mar Novo. Perspectiva da maqueta. Arquitecto João Andresen. 1955. 13 x 18 cm, negativo de gelatina e prata em acetato de celulose. PT-FML-TR-COM-50-122 70 cuidadosamente as linhas entre o objeto e seu fundo” (Colomina, 2010, p. 132), Mies fê-lo com as fotos do Glass Skyscraper Project e as fotomontagens do arranha-céus de Friedrichstrasse, procurando criar “uma espécie de ‘efeito de realidade’” (Stierli, 2010, p.65). Esses projetos demonstram “como Mies empregava a técnica não para fabricar uma ilusão de realidade, como a maioria dos arquitetos faria, mas para produzir imagens dramáticas, cada versão tornando-se progressivamente mais expressionista - auxiliado aqui pela grafite para escurecer detalhes fotográficos” (Elwall, 2004, p. 110). Mies produziu uma série de fotomontagens em que sobrepunha o edifício desenhado a uma fotografia da rua com cabos eléctricos e veículos. É importante referir “que essas imagens são grandes, tão grandes que nos encontramos na rua quando se olha para eles, atraídos para a imagem. O espectador da fotomontagem experimenta o espaço da rua e, em seguida, chega ao novo edifício no final” (Colomina, 2010, p. 132). Essas fotomontagens associadas a uma perspectiva ilusionista, não quebram a consistência do espaço na imagem. A sua recusa do uso de outras técnicas, como seja a axonometria – a fotomontagem torna-se uma forma popular de representação arquitectónica ao mesmo tempo que a axonometria4 –, persistindo no uso da perspectiva linear, deve-se ao seu entendimento da arquitectura, antes de mais, como um médium visual percepcionado pelos olhos. Fotografias manipuladas foram “frequentemente utilizadas para ilustrar o impacto de um edifício projectado sobre a paisagem urbana ou paisagem existente, em especial nos casos em que os projectos eram de uma escala monumental” (Stierli, 2012, p. 40) ou afectavam histórica ou artisticamente um lugar. A fotomontagem tornou-se um instrumento na promoção de projectos grandiosos, mesmo utópicos, não apenas nas propostas de artistas de vanguarda. No Arquivo Teófilo Rego encontramos duas espécies de documentos. Por um lado as colagens e fotomontagens realizadas por arquitectos e fotografadas por Teófilo; por outro encontramos colagens e fotomontagens realizadas por Teófilo por encomenda de arquitectos, num trabalho cuja profundidade me parece indiciar a colaboração, senão mesmo a cumplicidade, dos arquitectos e um espírito livre, curioso e imaginativo de procura e aprofundamento das hipóteses formais e expressivas que as encomendas proporcionavam. Entre a primeira categoria de documentos encontramse vários trabalhos que utilizam técnicas diversas. 4 Yve-Alain Bois deixa claro que axonometria e isometria foram ensinadas amplamente nas escolas de engenheiria a partir do final do século 19, de modo a que a «re-invenção» nos círculos de vanguarda por volta de 1920 pode ter de ser visto mais como uma re-interpretação de uma ferramenta criada para fins epistêmicos específicos. Arquivo Geral da Câmara Municipal do Porto, Actas do Conselho de Estética Urbana (9/2/1946 a 9/1/1951), 20/2/1950, ff. 78-79. 71 Arquitectura Moderna no arquivo Teófilo Rego Um dos trabalhos refere-se ao projecto para os motivos escultóricos na Praça D. João I. Com a ideia de criar uma praça rectangular limitada por dois prédios de considerável altura – o Edifício Rialto virado a Norte, de Rogério de Azevedo, o Palácio Atlântico voltado a Sul –, o gabinete A.R.S. Arquitectos propõe a definição da praça, a primeira a ser projectada e edificada de raiz, em pleno Estado Novo, na cidade do Porto. Com a ideia de introduzir monumentalidade e sumptuária, e fazendo jus ao seu nome, consta no projecto a implantação das estátuas de D. João I e de D. Filipa de Lencastre sobre os dois elevados plintos nos flancos da praça (Abreu, 2006, p. 208). Mas o arranjo da praça por parte da iniciativa privada era demasiado liberal, rompia com os procedimentos formais administrativos e colidia com interesses em jogo, sendo delicadamente recusada pelo Conselho de Estética Urbana da cidade5. É então aprovado o arranjo da Praça D. João I, mas sem a inclusão das estátuas, ficando adiado o destino a dar aos dois plintos. Tal decisão procurava uma “maior monumentalidade” e uma solução que melhora-se “o partido estético do conjunto arquitectónico”6. O processo culminará com a abertura de um concurso público num Edital da Câmara Municipal do Porto, de 1954, aberto às Escolas de Belas Artes de Lisboa e do Porto7, no mesmo ano e mês em que era anunciada a abertura do Concurso Internacional para o Monumento ao Infante D. Henrique em Sagres. Com a atribuição do 1º prémio a uma solução com dois grupos escultóricos, apresentando cada um uma figura junto a um cavalo. Substituía-se uma temática nacional-historicista por uma temática simbólica. Ainda pertencentes à primeira categoria de trabalhos encontram-se dois projectos do arquitecto Fortunato Cabral8. Um refere-se ao projecto de renovação do pavilhão da doca no Porto de Leixões, encomendado pela A.P.D.L.. Trata-se de uma vista tirada sob o tabuleiro do viaduto de acesso à ponte levadiça do lado de Leça. No desenho montado sobre fotografia, provavelmente de 1955 – em 1957 o pavilhão já estava construído –, consta a ampliação do pavilhão da divisão de exploração e tesouraria das docas. O segundo piso nunca foi construído9. 5 Boletim da Câmara Municipal do Porto, n.º 730, 8 de Abril de 1950, Despachos da Presidência, pp. 621-622. 6 Boletim da Câmara Municipal do Porto, n.º 954 de 24 de Julho de 1954, p. 556. 7 O arquitecto Fortunato Cabral foi um dos membros fundadores, conjuntamente com os arquitectos Morais Soares e Cunha Leão, do gabinete de arquitectura A.R.S. Arquitectos, formado em 1930. 8 Informação prestada pelo arquitecto Dúlio Silveira que entrou para a A.P.D.L. em 1957. 9 É o caso do projecto para um complexo de edifícios de escritórios e habitação na esquina da rua do Campo Alegre com a rua Gonçalo Sampaio, no Porto, do arquitecto 72 O outro projecto refere-se a um bloco residencial a ser construído em Espinho. Nele há claramente uma fotomontagem realizada com recorte de elementos fotográficos e a colocação intercalar de um desenho entre esses mesmos elementos, apresentando o todo um acabamento rude, opondo-se completamente neste aspecto à fotomontagem anterior. Pelo seu tratamento gráfico, ambos os trabalhos parecem destinados à reprodução ou publicitação. Há ainda as fotografias de duas fotomontagens e de um alçado relativos ao projecto de remodelação dos Pavilhões de Arquitectura e de Exposições da Escola de Belas Artes do Porto. Não me foi possível identificar nem o autor, nem a data – provavelmente dos anos 60 – nem o propósito da existência de tal projecto. Sabe-se que a Escola de Belas Artes ocupou o Palacete Braguinha, na Av. Rodrigues de Freitas, em 1928. Para a remodelação do edifício e construção de outras dependências foi elaborado um projecto sob orientação do arquitecto Manuel Lima Fernandes de Sá que foi rejeitado e, em 1949, Carlos Ramos apresenta o ante-projecto para a construção de pavilhões nos jardins do Palacete e remodelação do mesmo (Moniz, 2011). Em Abril de 1950 inaugura-se o primeiro de quatro novos pavilhões, provisoriamente destinado à Arquitectura, Desenho e Biblioteca. O Pavilhão de Pintura/Escultura, projectado pelo arquitecto Carlos Ramos, ficou pronto em 1951. Três anos depois, seguem-se os Pavilhões de Arquitectura e de Exposições projectados pelo arquitecto Manuel Lima Fernandes de Sá em 1951 (Fernandes, 2007, p. 125). Entre o edifício construído em 1954 e as fotomontagens a diferença está na proposta de elementos verticais adoçados às fachadas principal e lateral como separadores das janelas, e o acrescento de um novo espaço, muro e entrada reformulados. O plano base da fachada do Pavilhão de Arquitectura e suas janelas mantêm-se os mesmos. O projecto parece querer individualizar o edifício de arquitectura e o pavilhão de exposições do resto da escola, criando uma nova entrada distribuidora para os diferentes espaços do complexo escolar, independente ao edifício principal. Ao contrário dos dois projectos anteriormente referidos, aqui é completamente assumida a perspectiva ilusória, conforme à realidade fotografada. Por último, encontramos a fotomontagem, fotografada e retocada por Teófilo, de um projecto de urbanização – ou talvez um pólo universitário - desenhado junto à ponte da Arrábida pelo arquitecto Luís Leitão, provavelmente dos anos 60, hoje um dos pólos da Universidade do Porto. Monumento ao Infante D. Henrique, Sagres. Projecto de fotomontagem do projecto F.E. Arquitecto Manuel da Silva Passos Junior. 1954-1957. 13 x 18 cm, negativo de gelatina e prata em acetato de celulose. PT-FMLTR-COM-524-006 Madureira, provavelmente dos anos 60 e onde hoje se situa o edifício da Companhia de Seguros Axa, projectado pelos arquitectos José Pulido Valente, Nicolau Brandão e Ricardo Figueiredo em 1970. 73 Arquitectura Moderna no arquivo Teófilo Rego 80 Referências Bibliográficas Abreu, José Guilherme Ribeiro Pinto de (2006). Escultura Pública e Monumentalidade em Portugal (1948-1998). Lisboa: FCSH-UNL. Ades, Dawn (1986). Photomontage. Londres: Thames and Hudson. Almeida, Pedro Vieira de (2002). A Arquitectura no Estado Novo, uma leitura crítica. Lisboa: Livros Horizonte. Bois, Yve-Alain (1981). Metamorphosis of Axonometry. Daidalos, 1, 47-50. Colomina, Beatriz (2010). Media as Modern Architecture. Exit, 37, 128-139. Cortez, José (1935). Memória descritiva e justificativa do projecto apresentado pelo arquitecto José Cortez, com a colaboração do escultor Francisco Franco, ao concurso para o monumento a erguer em Sagres ao Infante Dom Henrique. Lisboa: Imprensa Libanio da Silva. Elwall, Robert (2004). Building with Light: the International History of Architectural Photography. London: Merrell. Emerling, Jae (2012). Photography. History and theory. New York: Routledge. Fernandes, Maria Eugénia Matos (coord.) (2007). A Universidade do Porto e a cidade. Edifícios ao longo da História. Porto: UP - Arquivo Central da Reitoria. Moniz, Gonçalo Canto (2011). A Cidade dos equipamentos de ensino, Leituras de Marques da Silva. Reexaminar a modernidade no início do século XXI: arquitectura, cidade, história, sociedade, ciência, cultura. Porto: Fundação Instituto Marques da Silva, 122-131. Nivet, Soline (2011). Le Corbusier et l’immeublevillas. Collines de Wavre: Éditions Mardaga. Pinto, Miguel Moreira et alt. (2012). Fotografia e Arquitectura Moderna: a visão de Teófilo Rego e a Nova Monumentalidade de João Andresen. 2nd Edition of the International Seminar On the Surface: Public Space and Architectural Images in debate. Porto: FAUP. Pires, Maria do Carmo. Palácio do Comércio. http:// fims.up.pt/index.php?cat=15&subcat=17&proj=13 (Consultado em 12-06-2014, 18h00). Stierli, Martino (2010). Mies Montage. AA Files, 61, 54-72. Stierli, Martino (2012). Photomontage in/as Spacial Representation. PhotoResearcher, 18, 32-43.