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Janeiro, 2018 Tese de Doutoramento em Ciências da Comunicação Demasiado velho para o digital? Envelhecimento ativo e os usos das TIC por pessoas mais velhas no Brasil e em Portugal Celiana de F. A. Azevedo Bastos
ii Declaro que esta tese é o resultado da minha investigação pessoal e independente. O seu conteúdo é original e todas as fontes consultadas estão devidamente mencionadas no texto, nas notas e na bibliografia. A candidata, _____________________________ Lisboa, 31 de janeiro de 2018 Declaro que esta tese se encontra em condições de ser apreciada pelo júri a designar. A orientadora, ____________________________ Lisboa, 31 de janeiro de 2018
iii Tese apresentada para cumprimento dos requisitos necessários à obtenção do grau de Doutor em Ciências da Comunicação - Estudo dos Media e do Jornalismo, realizado sob a orientação científica da Professora Doutora Cristina Ponte. Apoio financeiro da CAPES - Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior - Brasil - Bolsa 0534/14-05
iv Para José Pugas
v Agradecimentos Durante esses anos, foram muitas as pessoas que me acompanharam nesta jornada de descobrimentos de uma das coisas mais fascinantes do mundo: o conhecimento acadêmico. Em primeiro lugar, agradeço à minha maravilhosa orientadora Cristina Ponte pela atenção, incentivo, correções e elogios que fizeram com que eu sempre desse o meu melhor. Também agradeço pelas oportunidades que me proporcionou e pela amizade e carinho em grandes e pequenas coisas. Agradeço aos meus pais Lucas e Nilza, ao meu marido Fernando e à minha irmã Eliane pelo incentivo e paciência de me ouvir falar incansavelmente e apaixonadamente sobre os mais pequenos detalhes de minha pesquisa e por terem comemorado cada meta alcançada, cada artigo publicado, cada capítulo finalizado. Agradeço à Universidade Sénior de Setúbal e à Universidade da Maior Idade que aceitaram colaborar com este trabalho e que carinhosamente me acolheram e proporcionaram todos os meios para que fosse realizada a pesquisa de campo. Agradeço aos 36 alunos da UNISETI e da UMA que participaram neste trabalho e que dispuseram de tempo para compartilhar sabedoria e experiência. Na UNISETI, agradeço em especial à Ana Lucinda, Vera Lucas e aos professores Ana Bela Ribeiro, Romilda Aguiar e Fernando Marques. Na UMA, agradeço ao professor Luiz Sinésio, Margarete Souza e Edval Borges. Agradeço também aos amigos brasileiros e portugueses, de agora e de há muitos anos, Ana Jorge, Hayllana Martins, Jair Rattner, Lídia Marôpo, Carla Baptista, Tarcineide Mesquita, Wederson Martins, Ana Paula Santos, Francisca da Silva, Cléa Devlin, Raquel Pacheco, Daniel Meirinho, Juliana Doretto e Jocyelma Santana.
vi RESUMO O envelhecimento da população e a difusão das tecnologias de informação e comunicação - TIC - fazem parte da realidade de diversas regiões do mundo. Brasil e Portugal encontram-se nessa mesma tendência com percentagens cada vez mais elevadas de idosos (IBGE, 2016; INE, 2016), mas cuja apropriação e usos das TIC ainda são baixos (CGI.br, 2016; Obercom, 2016) prevenindo-os de possíveis benefícios que podem advir desse ambiente tecnológico. Nesse sentido, esta pesquisa discute a relação entre idosos e TIC no Brasil e em Portugal tendo como objetivo responder à seguinte pergunta: de que formas os usos e a apropriação das tecnologias de informação e comunicação influenciam no envelhecimento ativo de pessoas com 60 anos ou mais no Brasil e em Portugal? Para isso, levamos em consideração o conceito de envelhecimento ativo, o contexto social em que os idosos estão inseridos, teorias e modelos teóricos relacionados com o processo de envelhecimento e o uso das TIC e as percepções positivas e negativas que esses idosos possuem sobre o uso das TIC e o envolvimento em interações sociais online. Para a recolha de dados, foi utilizada a abordagem metodológica qualitativa através da observação não participante, grupos focais e entrevistas semiestruturadas. A amostragem foi composta por 36 pessoas, brasileiras e portuguesas, com idades entre 60 e 84 anos, que frequentavam aulas de informática em universidades seniores e que tinham acesso a pelo menos uma das seguintes tecnologias digitais: o computador, o celular e o tablet com ligação à internet. Os resultados do estudo apontaram as seguintes conclusões: - Os adultos mais velhos têm uma visão maioritariamente positiva sobre o uso das TIC; - Os usos e a apropriação das TIC influenciam no envelhecimento ativo porque contribuem para uma participação mais consistente e com efeitos globalmente positivos sobre os idosos, mas tal não vem livre de possíveis consequências negativas; - O contexto social e o curso de vida influenciam na forma como lidam com as TIC, podendo suprir a ausência física de pessoas próximas e aumentar a frequência da comunicação dentro e fora do ambiente familiar e entre gerações. PALAVRAS-CHAVE: Tecnologias de informação e comunicação; idoso; envelhecimento ativo; Brasil; Portugal.
vii ABSTRACT The aging of the population and diffusion of information and communication technologies - ICT - are part of the reality of many areas in the world. Brazil and Portugal take part in this same trend with increasing higher percentages of elderly (IBGE, 2016; INE, 2016), but whose ownership and use of ITC are still low (CGI.br, 2016; Obercom, 2016) preventing them from taking advantage of this technological environment. In this sense, this thesis discusses the relationship between elderly and ICT in Brazil and Portugal having the objective of answering the following question: in what ways the uses and the ownership of information and communication technologies influence on active aging of people with 60 years or more in Brazil and in Portugal? For this reason, we take into account the concept of active aging, the social context in which the elderly are inserted, theories and theoretical models related to the aging process and the use of ICT and the positive and negative perceptions that these elderly have about the use of ICT and the involvement in online social interactions. For data collection, we used the qualitative methodological approach through the nonparticipant observation, focus groups and semi-structured interviews. The sample was composed of 36 persons, Brazilian and Portuguese, with ages between 60 and 84 years old, who attended computer classes in senior universities and who had access to at least one of the following digital technologies: computer, cellphone and tablet with internet connection. The results of this study showed the following conclusions: - Older adults have a vision overwhelmingly positive about the use of ICT; - The social context and the course of life influence how they deal with ICT, building up the social interactions and increasing the frequency of communication inside and outside the family environment and between generations; - The uses and the appropriation of ICT have a noticeable influence on the process of active aging because they contribute to a more consistent participation and with generally positive effects on the elderly, but that is not totally free of negative consequences. KEY-WORDS: Information and communication technology; elderly; active ageing; Brazil; Portugal.
viii Índice Introdução ................................................................................................................................ 1 Parte IReferencial teórico e contextualização ........................................................... 9 Capítulo 1 – Teorias ligadas ao processo de envelhecimento e a relação com as TIC……………………………………………………………………………………………………………………….…......….10 Introdução ................................................................................................................................. 10 1.1O curso de vida e o conceito de envelhecimento ativo ................................................... 12 1.2O conceito de geração na perspectiva da gerontecnologia ............................................ 16 1.3Entre a teoria da atividade e a teoria do desengajamento ............................................. 20 1.3.1Envelhecimento ativo, a atividade e a produtividade na terceira idade ......... 23 1.4Selecionar, otimizar e compensar..................................................................................... 28 1.5Teoria da Inovação do envelhecimento bem-sucedido e os desafios para os mais velhos……………………………………………………………………………………………………..….…….. ............... 32 1.5.1Tecnologia positiva: o uso das TIC como uma forma de inovação………..…... .............. 35 Considerações Finais………..…... ................................................................................................ 37 Capítulo 2 – Estudos que articulam temáticas sobre os idosos, o processo de envelhecimento e as TIC .......................................................................................................... 38 Introdução ................................................................................................................................. 38 2.1As tecnologias moldam e são moldadas por sociedades cada vez mais envelhecidas .. 40 2.2Qualidade de vida no processo de envelhecimento e inclusão social através das tecnologias ................................................................................................................................ 44 2.3Relações intergeracionais mediadas pelas tecnologias ................................................... 51 2.4Tecnologias: um domínio complexo a ser adquirido? ..................................................... 58 2.5Digitalização progressiva da geração mais velha e a importância das características sociodemográficas .................................................................................................................... 65 Considerações finais ................................................................................................................. 71
ix Capítulo 3 – Contextos do estudo: as políticas de inclusão digital no Brasil e em Portugal com referência à população idosa ........................................................................... 73 Introdução ................................................................................................................................. 73 3.1A relação entre a exclusão social e digital ........................................................................ 75 3.1.1Inclusão Social .................................................................................................... 75 3.1.2-Inclusão digital .................................................................................................... 79 3.2Políticas de inclusão digital ............................................................................................... 84 3.2.1Políticas de inclusão digital em Portugal: a União Europeia e os idosos ......... 85 3.2.2Inclusão digital no Brasil: telecentro, lanhouse e o celular .............................. 93 3.3Serviços do Governo a partir de plataformas digitais: e-governance e o cidadão idoso ........................................................................................................................................ 101 3.3.1 Governo eletrônico no Brasil e em Portugal……………………………………………….105 Considerações finais ............................................................................................................... 111 Parte II – Orientações metodológicas, análises e resultados ............................ 115 Capítulo 4 - Metodologia para estudo sobre a relação de idosos com as tecnologias no Brasil e em Portugal .......................................................................................................... 115 Introdução ............................................................................................................................... 115 4.1Pergunta de pesquisa ...................................................................................................... 116 4.2Abordagem metodológica qualitativa: iluminar o geral ao focar no particular............ 117 4.3Brasil e Portugal: uma pesquisa, dois campos ............................................................... 121 4.3.1Instituições participantes ................................................................................ 121 4.3.2Preparação para a pesquisa de campo ........................................................... 124 4.4Características da amostragem ....................................................................................... 126 4.5No terreno: observação não participante, entrevistas individuais e grupos de foco ... 129 4.5.1Observação não participante .......................................................................... 130 4.5.2Grupos de Foco ................................................................................................ 139 4.5.3Entrevistas ........................................................................................................ 143 4.6Interpretação dos dados e considerações finais ............................................................ 146
3 Também nas últimas décadas ocorreram desenvolvimentos nas tecnologias de informação e comunicação sem precedentes, fazendo com que se tornassem parte indispensável não só da esfera profissional, mas também da educação, cuidados de saúde, comunicação e entretenimento das pessoas, dos mais novos aos mais velhos. Com a crescente popularização de computadores, celulares, dispositivos – e seus sistemas operacionais, programas e aplicativos cada vez mais complexos –, as TIC estão determinando, crescentemente, as habilidades dos indivíduos, das empresas e dos territórios em permanecerem competitivos e estabelecerem maneiras mais eficazes e eficientes para suas ações. Essas tecnologias consistem, atualmente, na base para crescimento econômico, geração de empregos, melhor qualidade de vida e competência mundial, pois transformam as formas de trabalho, de relacionamento, de lazer, de aprendizado e de difusão do conhecimento (A. Rodrigues e Maculan, 2012, p. 43). Dados recentes sobre Brasil e Portugal indicam que a apropriação e uso das TIC aumentaram em todas as camadas da população, mas ainda existe uma distinção expressiva entre diferentes faixas etárias, especialmente se compararmos os mais novos e os mais velhos. Em Portugal, a taxa de utilização da internet é de 100% entre jovens (15 e 24 anos) e 33% entre idosos (65-74 anos) (INE, 2017); o computador é utilizado por 99,3% de jovens e 28,4% dos idosos (Obercom, 2016); no caso do celular a diferença é menos expressiva, mas ainda assim persistente com 97% entre jovens e 63,7% entre a faixa etária mais velha de utilizadores (Obercom, 2014); por último, 42.9% dos portugueses dizem possuir tablet (Marketest, 2016). Entre os brasileiros (CGI.br, 2016) a tendência é a mesma que em Portugal: 95% dos jovens (16 a 24 anos) acessam a internet e 22% dos mais velhos (60 anos ou mais); 87% dos indivíduos jovens e 20% de idosos usam o computador; os números referentes ao celular chegam a 89% para os jovens e 67% para os mais velhos; os dados do mesmo estudo mostram que 38% dos domicílios brasileiros, em 2015, possuíam tablet. Mesmo que não tenhamos identificado os números relativos à posse de tablets por idosos, em ambos os países existe uma relativa proximidade quando comparamos os índices de utilização de tecnologias digitais como é o caso da internet, aspecto que será mais bem explorado durante o desenvolvimento da pesquisa.
4 Tabela 1: Uso das TIC por idosos brasileiros e portugueses TIC Brasileiros (60 anos ou mais) Portugueses (65-74 anos) Internet 22% 33% Computador 20% 28,4% Celular 67% 63,7% Tablet 42,9%* 38%* Fonte: CGI.br, 2016; INE, 2017; Obercom, 2014; Marketest, 2016 * Referente ao total da população A Organização das Nações Unidas afirmou que as transformações demográficas mundiais têm profundas consequências para cada aspecto da vida individual, da comunidade, tanto nacionalmente como internacionalmente e que “todas as facetas da humanidade estarão envolvidas: social, político, cultural, psicológica e espiritual” (Organização das Nações Unidas, 2002, p. 5). Assim, nos perguntamos como essa “mega tendência de modernidade” (Claßen, Schmidt e Hans-WernerWahl, 2013) pode se beneficiar do uso das tecnologias digitais, visto que o acelerado processo de adoção das TIC pode trazer efeitos multiplicadores de bem-estar e produtividade importantes para a sociedade (Charness e Boot, 2009)? Com base nessas transformações, novas áreas no campo de estudos da gerontologia estão sendo exploradas. A presente pesquisa discute a relação entre idosos e TIC no Brasil e em Portugal tendo como base no conceito de envelhecimento ativo. Assim, introduzimos a pergunta que conduz esta investigação: de que formas os usos e a apropriação das tecnologias de informação e comunicação influenciam no envelhecimento ativo de pessoas com 60 anos ou mais no Brasil e em Portugal? Para responder à pergunta de pesquisa, percorremos as seguintes orientações ao longo de toda esta investigação: 1Analizar se o contexto social em que estão inseridos os idosos que participaram nesta pesquisa influencia na inclusão ou exclusão digital e no processo de envelhecimento ativo no que diz respeito à participação social;
5 2Analizar se os conceitos presentes na teoria da atividade, no modelo otimização seletiva com compensação e na teoria da inovação do envelhecimento bem-sucedido são identificados na relação dos idosos com o uso e apropriação das tecnologias de informação e comunicação (computador, celular e tablet com ligação à internet), como uma forma de enfrentamento para os constrangimentos relacionados ao processo de envelhecimento avançado e promoção de um envelhecimento ativo e socialmente participativo; 3Analizar quais são as percepções pessoais dos idosos que fizeram parte dessa pesquisa sobre as TIC relacionadas as: a. Vantagens; b. Obstáculos; c. Riscos; d. Desvantagens; e. Motivações. 4Analizar em que aspectos os idosos brasileiros e portugueses que participaram nesta pesquisa se aproximam e se afastam nas relações que possuem com as tecnologias de informação e comunicação, nomeadamente, o computador, o celular e o tablet com ligação à internet. Desenvolver um estudo em dois países proporciona uma análise que ultrapassa o contexto nacional colocando-o numa nova perspectiva crucial para a compreensão da natureza dos processos sociais (Ponte, 2012). A pertinência deste estudo está também fundamentada na carência, identificada tanto em Portugal como no Brasil, de pesquisas desenvolvidas com esse enfoque, mas também no entendimento das dinâmicas e das consequências produzidas a partir do uso do computador, do celular e do tablet com ligação à internet por pessoas com 60 anos ou mais e que levem em consideração também o contexto social, familiar e as relações de amizade em que estão inseridas. Optamos por trabalhar com pessoas com 60 anos ou mais para padronizar a pesquisa entre os dois países, pois existe diferença para a identificação formal da categoria de idoso em Portugal e no Brasil, 65 anos e 60 anos de idade, respectivamente.
6 A presente tese está estruturada em cinco capítulos. No primeiro, “Teorias ligadas ao processo de envelhecimento e a relação com as TIC”, apresentamos um conjunto de conceitos que identificamos como essenciais para entendermos melhor a relação entre pessoas idosas e o uso das TIC, pois ajudam-nos a sistematizar, durante todo o desenvolvimento desta pesquisa, as informações que recolhemos e àquelas já conhecidas. Essas teorias servem para refletir a natureza complexa do processo de envelhecimento e também se caracterizam como uma forma de explicar os acontecimentos que rodeiam essa heterogeneidade (Bengtson, Burgess e Parrott, 1997). Essa base teórica é composta pela teoria do curso de vida, a teoria da atividade, a teoria do desengajamento, a teoria da inovação do envelhecimento bem-sucedido, o conceito de envelhecimento ativo, o conceito de geração e o modelo otimização seletiva com compensação. No segundo capítulo intitulado “Estudos que articulam temáticas sobre idosos, processo de envelhecimento e as TIC” apresentamos a revisão de literatura discutindo estudos empíricos que relacionam as temáticas sobre idosos, o processo de envelhecimento e as TIC no Brasil, em Portugal e em outros países. O objetivo é o de entender como essa temática tem sido abordada pelos pesquisadores, quais os pontos que mais frequentemente são objeto de estudo e quais as principais conclusões apontadas. Falamos, principalmente, sobre a qualidade de vida durante o processo de envelhecimento avançado e a inclusão social a partir do uso das TIC; as relações intergeracionais mediadas pelas tecnologias; as principais dificuldades que os idosos encontram no uso e adoção das TIC; e a importância das características sociodemográficas para a apropriação e uso das TIC por idosos. No capítulo seguinte, “Contextos do estudo: as políticas de inclusão digital no Brasil e em Portugal com referência à população idosa”, discutimos a relação entre a exclusão digital e social e abordamos como se deu o processo de inclusão digital no Brasil e em Portugal e como os idosos foram ou não incorporados nesse percurso. Essa análise gira em volta da implementação de políticas públicas e iniciativas privadas. Destacamos as diretrizes estabelecidas pela União Europeia, para Portugal, enquanto, com relação ao Brasil, discutimos sobre a importância das lanhouses, dos telecentros e, mais recentemente, o uso do telefone celular para a inclusão digital de idosos.
7 Falamos sobre os serviços do governo eletrônico em ambos os países, pois ter acesso a esses recursos é entendido como potencializador de vários aspectos que podem contribuir para a inclusão digital e social. Também argumentamos sobre o fato de que os cidadãos idosos ainda continuam, em certa medida, e, principalmente, no Brasil, negligenciados pelo Governo visto que ainda são minoritários os investimentos em iniciativas que incluam essa parcela da população. Durante a revisão de literatura e a escrita dos capítulos teóricos, identificamos que seria mais adequada para responder à pergunta de pesquisa e atingir os demais pontos que objetivamos a abordagem metodológica qualitativa. Optamos pela observação não participante, grupos focais e entrevistas semiestruturadas. Assim, no quarto capítulo “Metodologia para estudo sobre a relação de idosos com as tecnologias no Brasil e em Portugal” procedemos à apresentação das orientações metodológicas utilizadas na tese e à descrição de como decorreu e foi organizada a investigação empírica: como se deu a preparação para a pesquisa de campo e o estabelecimento de contato com as instituições colaboradoras; como os participantes foram selecionados a partir de características sociodemográficas e de uso das TIC; por último, descrevemos como os dados recolhidos foram tratados com base em categorias de codificação e do uso do software Maxqda. É partir das falas dos idosos que participaram neste trabalho, mais precisamente das suas experiências de vida, das formas de pensar, do contexto social em que estão inseridos e das percepções com relação às TIC que o quinto capítulo da tese foi escrito. “Análise de dados: pessoas mais velhas e suas relações com as tecnologias em ambiente familiar e em outros contextos sociais” é o mais extenso de toda a pesquisa e, como o próprio nome diz, é onde é feita a análise dos dados recolhidos que sistematizamos com o que foi abordado nos capítulos anteriores. Para o seu desenvolvimento, concluímos que deveríamos começar por estabelecer as principais tendências sobre posse, uso e as percepções sobre as TIC dos participantes brasileiros e portugueses. Então, apresentamos quadros com essas informações, mas que são discutidas ao longo de todo o capítulo.
8 De forma a atingir os nossos objetivos, organizamos a análise em torno das seguintes temáticas: percepções individuais e posse das TIC; as relações familiares e intergeracionais mediadas pelas TIC durante a velhice e os prejuízos que podem advir do uso das TIC no contexto familiar; as TIC e aspectos geracionais que incluem as relações de amizade e estilos de vida dos idosos; o uso das TIC durante o período da aposentadoria e como uma forma de gerir o tempo livre e o bem-estar; propagação do idadismo com relação ao idoso e à velhice através das TIC; Por último, discutimos como a marginalização e o isolamento social podem ocorrer a partir da viuvez, da depressão e do suicídio e como a tecnologia está envolvida nesse contexto. Para finalizar, apresentamos as conclusões do estudo com os principais achados retirados de todo este percurso relacionando a revisão bibliográfica, referenciais teóricos e os dados empíricos recolhidos, analisados e interpretados. Respondemos objetivamente à pergunta de pesquisa e apontamos as nossas conclusões para os quatro pontos que serviram de orientação para este estudo. Também falamos como os constrangimentos encontrados limitaram nosso trabalho; refletimos sobre como os resultados desta pesquisa podem servir para aprofundar o conhecimento científico na área das Ciências da Comunicação; fizemos recomendações de ações com o objetivo de contribuir para a inclusão digital dos mais velhos; e apresentamos sugestões de pesquisas futuras sobre o bom uso das TIC por idosos.
9 Parte I Referencial teórico e contextualização
10 Capítulo 1 Teorias ligadas ao processo de envelhecimento e a relação com as TIC Introdução Em 1997, Bengtson já notava que a maioria dos estudos que incide sobre idosos é teoricamente pouco focalizada quando afirmou que as pesquisas em gerontologia pareciam ter desconsiderado a teoria: “Em sua busca para examinar os aspectos individuais e sociais do envelhecimento, os pesquisadores têm sido rápidos em fornecer fatos, mas lentos em integrá-los dentro de um enquadramento teórico explicativo, conectando suas conclusões a fenômenos sociais já estabelecidos” (1997, p. 72). No entanto, a partir da virada do século, a gerontologia social passou por um período de maior interesse teórico impulsionada pela publicação do primeiro manual de teorias do envelhecimento, Handbook of Theories of Aging (Bengtson e Schaie, 1999), e o maior interesse que a temática envelhecimento e velhice tem ganhado em diferentes campos de pesquisa. Apesar de todas as dificuldades em estabelecer uma ligação entre os limites disciplinares tradicionais, dos desafios de se trabalhar com diferentes paradigmas em uma pesquisa, tem havido avanços significativos nas explicações do fenômeno do envelhecimento que se aproxima de várias perspectivas disciplinares, misturando-as em uma única teoria (Bengtson et al., 2009b, p. 6). Este capítulo vem no sentido de contribuir para um maior entendimento teórico através da temática que envolve idosos e tecnologias de informação e comunicação porque atualmente ainda se verifica que “pouca atenção tem sido atribuída na discussão teórica da história do envelhecimento e sua interação com a tecnologia, sendo o tratamento dos estudos empíricos mais de natureza prática do que teórica” (Mollenkopf e Fozard, 2004, p. 252). O presente estudo procura examinar como o uso e a apropriação das TIC influenciam no envelhecimento ativo de idosos. O envelhecimento ativo está definido
11 como um processo de otimização de oportunidades na saúde, participação e segurança de forma a potencializar a qualidade de vida das pessoas idosas (Organização Mundial da Saúde, 2002). Essa definição sugere que a qualidade de vida durante o processo de envelhecimento está ligada à participação do indivíduo na sociedade que pode resultar do desenvolvimento de atividades ou pela falta delas num período avançado da vida e entre outras, poderíamos citar o uso das TIC. Este capítulo concentra-se sobre a forma como teorias e modelos teóricos podem ajudar a refletir sobre essa perspectiva gerontecnológica no que concerne às transformações que ocorrem no curso de vida dos indivíduos, bem como às adaptações a transformações do contexto tecnológico e social. O presente capítulo está estruturado da seguinte forma: 1 – Primeiramente, por trabalharmos na presente pesquisa com uma faixa etária específica da população, ou seja, pessoas com 60 anos ou mais e por investigarmos esses indivíduos dentro do contexto social abordando a suas relações com as TIC, discutimos da teoria do curso de vida e do envelhecimento ativo; 2 – Discutimos o conceito de geração na perspectiva da gerontecnologia; 3 – Discutimos a teoria da atividade e a sua relação próxima com o conceito de envelhecimento ativo apontando os constrangimentos da importância dos idosos manterem-se ativos e evitarem o processo de desengajamento social para que tenham maior qualidade de vida; 3.1 – Discutimos o conceito de envelhecimento ativo relacionando a atividade e a produtividade econômica na terceira idade; 4 – Discutimos o modelo otimização seletiva com compensação com o objetivo de entender a importância de adaptar-se às novas realidades durante o envelhecimento avançado; 5 – Discutimos a teoria da inovação do envelhecimento bem-sucedido que preconiza a importância das atividades de lazer como parte significativa para a qualidade do envelhecimento;
12 5.1 – Fazemos uma reflexão sobre do uso das tecnologias digitais como uma forma de inovação; 6 – Por último, concluímos fazendo um apanhado de como esses modelos teóricos contribuem para o desenvolvimento desta pesquisa. 1.1O curso de vida e o conceito de envelhecimento ativo Estudos acadêmicos tendem a promover um enfoque sobre uma única faixa etária ou sobre uma fase da vida (Mortimer e Shanahan, 2003), contudo, a tarefa de investigar os indivíduos a partir do conceito de envelhecimento ativo e, portanto, dentro do contexto social, requer um esforço que leve em consideração o curso de vida como um todo. Assim, sem deixar de considerar as características que são particulares da velhice, deve-se entendê-la como mais um dos períodos da vida, em vez de concentrar-se em um grupo de pessoas com idades específicas. Dessa forma, trazemos como uma das bases para esta pesquisa a teoria conhecida como curso de vida (Elder e Shanahan, 2006; Elder, 1975). Como conceito, curso de vida refere-se à segmentação da idade dentro do contexto social que conecta as diferentes fases da vida tendo como início a infância e seu último estágio a velhice; como paradigma, curso da vida refere-se a um quadro imaginativo composto por um conjunto de pressupostos, conceitos e métodos interligados que são utilizados para estudar fases da vida socialmente incorporadas e conectadas (Mortimer e Shanahan, 2003). A teoria do curso da vida é baseada, em grande medida, nas teorias socioculturais sobre idade e relações sociais, referindo-se a uma sequência de eventos socialmente definidos, classificados por idade e papéis que definem, em grande medida, os contornos da biografia de cada indivíduo. Na perspectiva sociocultural, dá ênfase aos significados sociais da idade com o nascimento, a puberdade e a morte, por exemplo, sendo biológicos, mas seus significados no curso da vida sendo construções sociais (Elder e Shanahan, 2006). As bases dessa teoria são amplamente citadas nos quadros teóricos em gerontologia social desde o início do século 21 (Carr, 2009) e são
19 Contudo, devemos questionar se realmente existe essa diferenciação tão marcada entre a geração que cresceu com TIC e que utilizam esses meios de forma inerente e sem constrangimentos técnicos e, especialmente, se há uma geração de idosos que possui dificuldade em adaptar-se e em manter-se atualizada com o desenvolvimento tecnológico. Isso porque existem críticas que afirmam que não há evidência empírica para apoiar uma divisão tão rígida baseada na faixa etária, pois em cada geração sempre haverá pessoas que têm problemas com as TIC e que nem todos os idosos se tornaram imigrantes digitais (Loos, 2012), visto que a maioria deles, em muitas partes do mundo, ainda se encontra digitalmente excluída como é o caso do Brasil e de Portugal. Pesquisadores como Lenhart e Horrigan (2003) introduziram uma perspectiva diferente que chamaram de digital spectrum. Aqui, as pessoas são classificadas, independentemente da idade, em vários níveis segundo o uso que dão aos meios de comunicação digitais dependendo da idade, mas também de outros fatores como gênero, educação e frequência do uso. Por considerarmos que essa última abordagem dá uma visão mais ampla e completa para entendermos as complexas relações entre idosos e TIC, temos como objetivo, na presente pesquisa, contrariar a tendência para considerar os idosos como um grupo homogêneo e reconhecer as diferenças existentes entre eles, na expressão chamada por Dannefer (1988) de aged heterogeneity. Referências têm sido feitas sobre a categoria conhecida como silver surfers, ou seja, seniores que usam, dominam as tecnologias de informação e comunicação, principalmente a internet (Selwyn, et al., 2003) e, consequentemente, tiram proveito do uso das TIC. Apesar do aumento contínuo do número de pessoas mais velhas que integram essa categoria, existe pouca evidência que sustente a existência de uma geração de silver surfers no Brasil e em Portugal. Isso porque as taxas de utilização da internet são ainda baixas com 22% (60 anos ou mais) (CGI.br, 2016) e 33% (65-74 anos) (INE, 2017), respectivamente. Apesar dessas evidências, a noção de silver surfers reforça a ideia de que essas pessoas se beneficiam das TIC e que as suas habilidades de usar as tecnologias significam a construção de uma “ponte” que diminui as diferenças para com as gerações mais jovens (Ponte, 2011; Selwyn, Gorard e Furlong, 2003).
20 Assim como a teoria do curso de vida, o conceito de geração envolve o contexto social e o fato de que o impacto dos acontecimentos depende de qual fase da vida ocorreram, pois, começar a utilizar uma tecnologia digital durante a velhice é diferente de começar a fazê-lo na infância, por exemplo. Estamos hoje numa nova era das tecnologias pessoais, investidas de um acesso mais individual e móvel. Assim, estudar a relação das pessoas mais velhas e as tecnologias que predominam hoje na nossa sociedade, como é o caso do celular, do computador a da internet e, mais recentemente, do tablet ajuda-nos a entender as consequências e as relações sociais que vieram com os seus usos e apropriações (Azevedo, 2013). A aquisição de competência para lidar com as tecnologias digitais é um importante elemento de apoio ao envelhecimento ativo para a abertura de novas oportunidades de aprendizagem para esta faixa da população, tanto na educação formal ou em contextos informais. A utilização das TIC é também um meio privilegiado de aprendizagem, criando benefícios para diferentes gerações, podendo aproximar os jovens e os idosos e diminuir aquilo que é conhecido como "fosso digital" (European Commission, 2012). 1.3Entre a teoria da atividade e a teoria do desengajamento Na década de 1950, a literatura sociogerontológica foi predominantemente organizada em torno da ideia de que existe uma relação positiva entre manter um estilo de vida ativo numa idade avançada e a satisfação pessoal com a vida (Katz, 2000). Esse ponto de vista, mais tarde, veio a ser chamado de teoria da atividade. Baseada no interacionismo simbólico, a teoria da atividade estabelece uma distinção entre o declínio na função fisiológica e a real capacidade de funcionamento social das pessoas. Assim, embora o indivíduo possa mudar ou alterar o seu nível de atividade ao envelhecer, as ocupações que foram abandonadas devem ser substituídas por outras, de acordo com a sua atual condição de vida. Essa teoria recebeu considerável apoio empírico (Shmanske, 1997; Searle et al., 1995; Riddick e Stewart, 1994; FernandezBallesteros, Zamarron e Ruiz, 2001). Os defensores afirmaram que pessoas ativas são mais felizes e mais bem adaptadas, pois o bem-estar no final vida resulta de um
21 aumento de funções desempenhadas (Havighurst e Albrecht, 1953; Lemon et al., 1972). A teoria da atividade leva em consideração a autoestima de cada indivíduo e, consequentemente, percepção de qualidade de vida. Quanto mais pessoal e frequente é a atividade, mais reforçados e específicos são os papéis que apoia tornando-se uma necessidade para a manutenção de uma visão positiva do idoso de si próprio que, por sua vez, está associada a altos níveis de satisfação com a vida (Hendricks et al., 1981). Resumindo a tese central da teoria da atividade, Blau (1973, p. 125) nota que "quanto maior o número de recursos opcionais com os quais o indivíduo entra na velhice, melhor ele suportará a desmoralização dos efeitos da saída obrigatória de funções que normalmente é prioridade na vida adulta". Em 1961, por usa vez, a teoria do desengajamento (Cumming e Henry, 1961) pressupunha uma concepção da velhice oposta à teoria apontada anteriormente, ao apresentar a controversa ideia de “declínio” ao recém-emergente campo multidisciplinar da gerontologia moderna (Achenbaum e Bengtson, 1994). A teoria do desengajamento afirmou que "o envelhecimento da população é uma realidade inevitável, com afastamento mútuo, resultando em menor interação entre a pessoa envelhecida e outros indivíduos do sistema social a que pertence" (Cumming e Henry, 1961, p. 14). A hipótese do desengajamento proposta por Cumming e Henry postulou, portanto, que em um processo de envelhecimento mais avançado, o indivíduo abandona atividades que são centrais na vida como trabalhar, por exemplo, trazendo uma redução significativa da interação social que resultará em menos atividades diversificadas e, consequente, perda de autoestima (Warren, 1973). Desde a sua apresentação, muitas investigações criticaram e confirmaram partes da teoria do desengajamento, desmontando suas variáveis, sugerindo outras explicações e testando-a em diferentes populações (Russell, 1975). Os críticos e defensores da teoria do desengajamento reconheceram que a sua formulação sobre o afastamento durante o processo de envelhecimento avançado foi uma audaciosa tentativa de definir, talvez pela primeira vez por pesquisadores da área da gerontologia, uma teoria multidisciplinar, não patológica nem ligada à senescência
22 (Achenbaum e Bengtson, 1994). Contudo, a teoria provocou controvérsia porque foi descrita como inata, unidirecional e universal, uma visão simplista (McGuire e Norman, 2005) e que não conseguiu representar toda a complexidade que envolve o processo de envelhecimento e a heterogeneidade dos indivíduos idosos. A teoria da atividade, apesar de ser mais aceita, também é vulnerável a várias críticas. Em primeiro lugar, a teoria pressupõe que todas as pessoas mais velhas precisam e desejam alto níveis de atividade social. Contudo, alguns idosos podem preferir baixos níveis de atividade e interação social e outros podem não desejar assumir novos desafios. Também são ignorados aspectos ligados à saúde, às disparidades econômicas que podem limitar ou diminuir o desejo e as possibilidades de algumas pessoas mais velhas de participar em atividades sociais. Há ainda razão para suspeitar que os efeitos de manter-se ativo não se aplicam em todos os contextos, subgrupos e tipos de atividades. Existem estudos que apontam diferenças de gênero como é o caso do estudo desenvolvido por Iwasaki e Smale (1998) onde as atividades de lazer foram muito valorizadas e entendidas como benéficas por mulheres aposentadas, mas não por homens que se encontravam na mesma condição. Outro estudo (Nimrod, 2007a) demonstrou que apenas certas atividades, como por exemplo, as atividades culturais e atividades com a família, foram associadas com o bem-estar de aposentados, enquanto outras, como assistir televisão e ouvir rádio, foram relacionadas negativamente. Para além disso, também foram identificas atividades neutras, ou seja, sem ligação com o bem-estar das pessoas mais velhas. Outros estudos têm sugerido que o desenvolvimento de algumas atividades durante a velhice pode ser considerado excessivo, irracional e desagregativo (Ekerdt, 1986; Tornstam, 1992). No entanto, a participação ativa é, geralmente, considerada como benéfica e como uma forma útil para lidar com aspectos psicológicos como é o caso do stress e depressão (Rowe e Kahn 1997; Charness e Schaie, 2003; Bowling, 2008). Décadas mais tarde, ambas as teorias continuam a suscitar interesse entre as pesquisas na área da gerontologia, através de releituras dos seus princípios básicos com referência a uma sociedade onde os idosos têm ganhado importância
23 impulsionada por um processo de envelhecimento cada vez mais avançado em grande parte do mundo. Apesar de todas as críticas lançadas contra ambas as teorias, permaneceu o tema subjacente de como adultos mais velhos são retratados no seio da sociedade: a literatura sociogerontológica e o debate social, tradicionalmente, têm destacado as limitações das pessoas idosas (Boudiny e Mortelmans, 2011). 1.3.1 - O envelhecimento ativo, a atividade e a produtividade na terceira idade O curso de vida de uma pessoa é tradicionalmente dividido em três fases sucessivas: a aprendizagem, o trabalho e o repouso, sendo a terceira, tradicionalmente, relacionada ao declínio, à dependência e à perda (Townsend, Godfrey e Denby, 2006). Esse aspecto negativo na representação de adultos mais velhos se encaixa dentro do chamado modelo de défice que serviu para legitimar a tendência para a saída precoce do mercado de trabalho, o que ficou evidente entre os homens mais velhos na maioria dos países desenvolvidos durante o período de pósguerra (Walker 2006; Ribeiro, 2012). Nas décadas de 1970 e 1980, as políticas públicas em muitos países europeus encorajaram a retirada das pessoas mais velhas do mercado de trabalho como forma de ajudar no controle do crescente desemprego nas camadas mais jovens da população (Van den Heuvel et al., 2006). A partir da década de 1990 passou-se a ter uma maior preocupação com as questões relacionadas ao envelhecimento global que resultaria em uma quebra da percepção de que a fase mais tardia do curso da vida, a velhice, estaria ligada à ideia de repouso e não produtividade (Ribeiro, 2012; Boudiny e Mortelmans, 2011). No entanto, ainda hoje, existe o entendimento de que quando uma pessoa passa pelo processo de aposentadoria e deixa o mercado de trabalho acaba por afastar-se das atividades econômicas formais. A aposentadoria, portanto, funcionaria como um afastamento político e social sendo entendida, muitas vezes, como um processo de desengajamento. Essa exclusão contribui para a percepção popular de que o idoso é socialmente inativo, gerando estereótipos discriminatórios classificando-os como passivos, voltados para questões de ordem familiar, limitados ao ambiente doméstico e desinteressados pela participação social e política. Manter-se ativo tem
24 sido uma das bandeiras levantadas pelo discurso político para combater essa visão e no que concerne a iniciativas relacionadas à adaptação às mudanças demográficas. Portanto, essa fase de “repouso” já não seria viável na atual evolução demográfica. Dentro deste contexto, o conceito de envelhecimento ativo emergiu. Enraizada na teoria da atividade, o discurso do envelhecimento ativo se concentra em incentivar a continuação da participação dos idosos na sociedade. A Organização Mundial da Saúde apresentou o conceito de envelhecimento ativo como um processo de otimização de oportunidades de saúde, participação e segurança com o objetivo de melhorar a qualidade de vida das pessoas à medida que envelhecem (Organização Mundial da Saúde, 2002) e de combater a discriminação baseada na idade (Fernandez-Ballesteros et al., 2011). A definição de envelhecimento ativo é ampla e aplica-se a indivíduos e a grupos populacionais. O objetivo é fazer com que as pessoas percebam o seu potencial para o bem-estar físico, social e mental em todas as fases da vida e que participem da sociedade de acordo com suas necessidades, desejos e capacidades, proporcionando proteção, segurança e cuidados adequados, quando são necessários (Organização Mundial da Saúde, 2002). A abordagem do envelhecimento ativo baseia-se no reconhecimento dos direitos humanos das pessoas mais velhas e nos princípios de independência, participação, dignidade, assistência e autorrealização estabelecidos pela Organização das Nações Unidas. Assim, o planejamento estratégico deixa de ter um enfoque baseado nas necessidades (que considera as pessoas mais velhas como alvos passivos) e passa a ter uma abordagem baseada em direitos, o que permite o reconhecimento dos direitos dos mais velhos à igualdade de oportunidades e tratamento em todos os aspectos da vida à medida que envelhecem. Essa abordagem apoia a responsabilidade dos mais velhos no exercício de sua participação nos processos políticos e em outros aspectos da vida em comunidade (Organização Mundial da Saúde, 2005, p. 14). Este conceito da OMS defende a ideia de que a velhice pode ser um período de vivacidade e de boas experiências (Katz, 1996), que pode ser alcançado quando o idoso se esforça para manter as suas atividades e relações sociais (Nimrod e Rotem, 2011) conforme aspectos da sua vida atual. A teoria da atividade fornece uma justificativa conceitual para um pressuposto subjacente a muitos programas e intervenções para os idosos, onde envolver-se socialmente é visto como algo positivo trazendo uma vida mais plena ao idoso. Apesar de existirem críticas à suposição de que as pessoas
25 possam controlar as suas próprias situações sociais (Katz, 1996), a teoria da atividade e o conceito de envelhecimento ativo, por sua vez, defendem que o idoso deve empenhar-se para se manter envolvido socialmente, sendo, portanto, um processo que o próprio indivíduo tem o dever de manipular. O conceito de envelhecimento ativo, desde a sua apresentação na década de 1990 tem feito cada vez mais parte do discurso relacionado à população idosa. A partir de 2012 com o Ano Europeu do Envelhecimento Ativo e Solidariedade entre Gerações (Eurostat, 2012) houve um maior destaque na política europeia com o incentivo de iniciativas locais (União Europeia, 2011) onde se inclui Portugal com a resolução da Assembleia da República nº61/2012 (Governo de Portugal, 2012a) e o plano de ação para o Ano Europeu do Envelhecimento Ativo e da Solidariedade entre Gerações (Governo de Portugal, 2012). No Brasil, uma conotação oficial veio em 2013 com a assinatura do Decreto nº 8.114 quando o Governo determinou um compromisso nacional para o envelhecimento ativo e estabeleceu uma comissão para a sua implementação (Governo Brasileiro, 2013). A palavra “ativo” também se refere a continuação de uma participação social, econômica, cultural, espiritual e cívica para além da proteção do direito das pessoas idosas de continuarem a trabalhar, se assim o desejarem (Organização Mundial da Saúde, 2002). Alguns especialistas têm questionado a ideia de “ser ativo” no que concerne às agendas e iniciativas políticas e sociais, pois nota-se uma tendência para uma prevalência da ideia de “ser produtivo” (Ribeiro, 2012; Walker, 2008; FernandezBallesteros, Zamarron e Ruiz, 2001). Essa ideia de envelhecimento ligada à produção de bens esteve muito arreigada ao objetivo de fazer frente contra a discriminação baseada na idade ao apelar para uma abordagem positiva do envelhecimento (Bass, Caro e Chen, 1993; Walker, 2008). Contudo, sabe-se também que tem como objetivo incentivar as pessoas a permanecerem mais tempo no mercado de trabalho e, consequentemente, postergarem a aposentadoria contribuindo para não sobrecarregar o sistema previdenciário. Isso leva à ideia de envelhecimento produtivo, geralmente, concentrado de forma restritiva sobre a produção de bens e serviços e, por conseguinte, não dispõe de ênfase sobre o curso da vida e o bem-estar que é proposto no paradigma de envelhecimento ativo.
26 Lopes e Gonçalves (2012) analisaram a vida ativa dos idosos portugueses fazendo realce nas relações familiares e concluíram chamando a atenção para o fato de que as pessoas idosas não são valorizadas enquanto recurso para as gerações mais jovens. Essa conclusão se referiu, principalmente, ao contexto de crise econômica mais profunda que a sociedade portuguesa se encontrava quando o estudo foi desenvolvido e que poderia facilmente representar as dificuldades sociais e econômicas que o Brasil se encontra atualmente. Os autores também chamaram a atenção para o desinteresse sobre essa discussão pela comunidade científica e política. Ribeiro (2012), por sua vez, ao fazer uma análise sobre os constrangimentos do significado do conceito de envelhecimento ativo e ao falar de produtividade, chamou de “contributos escondidos” a falta de valorização da atividade do idoso no ambiente doméstico: Assim, e apesar de definições mais abrangentes de “envelhecimento produtivo” chegarem a incluir atividades como o voluntariado, as relações intergeracionais, ou mesmo a participação em organizações políticas e de apoio social (cf. Martin, Guedes, Gonçalves e Cabral-Pinto, 2006), numa abrangência que se reflete, por si só, eficaz na dissipação de uma imagem dos mais velhos como dependentes ou meros recetores de cuidados, a verdade é que esta incorporação parece dar continuidade a uma leitura demasiado economicista do termo (Ribeiro, 2012, p. 42). As tarefas do cotidiano não acabam com a chegada da aposentadoria, como é o caso de atividades domésticas e de apoio familiar. Mesmo assim, essas práticas desempenhadas, principalmente, pelas mulheres mais velhas, são remetidas para uma esfera secundária de importância fazendo com que sejam entendidas como tarefas socialmente pouco valorizadas, prevenindo ganhos para o bem-estar e autoestima desses indivíduos (Rosa, 2015). Para os teóricos que analisam essas perspectivas, o afastamento não seria um processo natural como afirmaram Cumming e Henry, mas sim inerente ao ageism ou idadismo, discriminação baseada na idade, sem contributo para um “envelhecimento de sucesso”. A definição de sucesso é, tipicamente, inerente à atividade física ou social (Phelan e Larson, 2002), ambas ligadas a um conceito mais amplo chamado de envelhecimento bem-sucedido (Rowe e Kahn, 1997) que abordaremos com mais detalhes mais à frente neste capítulo. Contudo, existem estudos que atestam que para um envelhecimento de sucesso não são necessários altos níveis de atividade. Por
27 exemplo, um indivíduo que sofra de severas perdas funcionais talvez não veja o sucesso como engajamento social, mas sim como preservação das habilidades que lhe restam (McGuire e Norman, 2005). Tornstam (1992, p. 223) questiona a atitude dos gerontologistas ao dizer que “nós colocamos nosso ‘chapéu’ teórico na cabeça das pessoas mais velhas sem pensar que os nossos pontos de partidas para avaliação são relativos”. Katz (2000) também discorre sobre a discussão e questiona a atividade como forma de trazer bem-estar na terceira idade: A maioria do discurso político da gerontologia representa a atividade como "positivo" e algo que vai contra as forças "negativas" da dependência, da doença e da solidão. No entanto, a compreensão das expectativas para que as pessoas mais velhas permaneçam ativas representa uma questão mais complexa do que o que é sugerido pelo típico binarismo do positivo e negativo defendido pela literatura e por programas sociais. Especificamente, quando agendas neoliberais anti-bem-estar tentam a reestruturação da dependência através da promoção acrítica da atividade positiva, elas também problematizam os indivíduos mais velhos que vivem como dependentes e "em risco". Não são apenas as imagens médicas e culturais de uma velhice ativa que são predominantes, também toda a população dependente que está fora do mercado de trabalho - desempregados, deficientes, aposentados – torna-se alvo de políticas do Estado para que sejam "capacitados" e "ativados". A velha tensão social entre a produtividade e a improdutividade está sendo substituída por um espectro de valores que abrange atividade e inatividade. Permanecer ativo como um recurso para a mobilidade e a escolha num período mais tardio da vida é, portanto, uma luta em uma sociedade onde a atividade tem tornando-se uma panaceia para as aflições políticas sobre o declínio do bem-estar e a gestão das chamadas populações de risco. (Katz, 2000, p. 13). Apesar da importância desses questionamentos para reflexão sobre a busca incessante da atividade, a verdade é que, em sua maioria, os estudos científicos dão conta de que manter-se ativo numa fase posterior da vida é benéfico para o indivíduo (Páscoa e Gil, 2015; Llorente-Barros, Viñarás-Abad, e Sánchez-Valle, 2015; Colombo, Aroldi e Carlo, 2015; Nimrod, 2007b; Raymundo, 2013; Khullar e Reynolds, 1990; Bowling, 2005a). Segundo Walker (2008), o envelhecimento ativo deve ser uma estratégia abrangente para maximizar a participação e o bem-estar das pessoas mais velhas e tem de operar simultaneamente ao nível individual (estilo de vida), organizacional (gestão), societal (política) e em todas as fases do ciclo de vida. Portanto, a "atividade" também significaria uma contribuição para o bem-estar do indivíduo idoso e da sua
28 família, da comunidade local ou da sociedade em geral e não deveria se centrar apenas no aspecto produtivo através de uma atividade remunerada. Isso também significa que o envelhecimento ativo engloba todas as pessoas mais velhas, mesmo aquelas que são, em qualquer medida, dependentes e frágeis. Isso serviria para evitar o perigo de um foco apenas sobre os idosos com menos idade excluindo aqueles que se encontram em um estágio mais avançado da vida (Organização Mundial da Saúde, 2002). 1.4Selecionar, otimizar e compensar O modelo otimização seletiva com compensação (SOC) foi proposto por Baltes e colegas como um pré-requisito para o "envelhecimento bem-sucedido" (Carr, 2009; McGuire e Norman, 2005). Esse é um paradigma que tem sido gradualmente desenvolvido dando ênfase sobre o positivo, o saudável, o bom, o ativo ou o envelhecimento com sucesso obtido através da adaptação e ajustamento de funções socialmente aceitáveis (Bowling, 2005a). “Com a perspectiva SOC os indivíduos procuram simultaneamente maximizar os ganhos e minimizar as perdas. Portanto, o envelhecimento bem-sucedido prevê a minimização das perdas e maximização dos ganhos” (McGuire e Norman 2005, p. 96), contexto, esse, também facilmente relacionado à teoria da atividade (Carr, 2009). Perspetivas funcionalistas salientam que um envelhecimento bem-sucedido é obtido através da adaptação e ajustamento social. Rowe e Kahn (1997) definiram envelhecimento bem-sucedido como a habilidade de manter comportamentos essenciais relacionados ao baixo risco de doenças, a um alto funcionamento físico e mental e manter-se ativamente engajado com a vida. Contudo, existem inúmeras definições de envelhecimento bem-sucedido: manter-se ativo e produtivo; alcançar o bem-estar físico, psicológico e social; ter a capacidade de adaptar-se para enfrentar desafios que surgem com o avançar da idade; manter um sentido realista de si próprio e do ambiente que o rodeia; empregar estratégias compensatórias para superar novas realidades; manter uma eficiência cognitiva. Há evidências que essas estratégias estão
35 1.5.1Tecnologia positiva: o uso das TIC como uma forma de inovação O conceito de tecnologia positiva (Riva et al., 2014) é uma abordagem científica sobre a utilização da tecnologia como forma de melhorar a qualidade de experiências pessoais. Os autores sugerem que é possível usar a tecnologia para manipular a qualidade da experiência com o objetivo de aumentar o bem-estar gerando pontos fortes de resiliência entre indivíduos, organizações e a sociedade. Riva e colegas (2014) classificam as tecnologias positivas segundo os seus efeitos sobre as seguintes características da experiência pessoal: as tecnologias usadas para induzir experiências positivas e agradáveis; as tecnologias utilizadas para apoiar as pessoas no envolvimento de novas experiências; e por fim, no contexto social e das relações interpessoais, ou seja, as tecnologias utilizadas para dar suporte e melhorar o entrosamento entre os indivíduos, grupos e organizações. A tecnologia positiva está relacionada com o conceito de bem-estar e, no contexto da presente pesquisa, poderíamos apontar como potencial para apoiar as pessoas mais velhas da sociedade em novas experiências. O uso das tecnologias de informação e comunicação pode ser uma forma de lazer. Uma ilustração do seu impacto positivo no processo de envelhecimento é demonstrada por estudos que afirmam que do fato de se aprender como usar um computador e a internet ressalta o sentido de independência (Henke, 1999) e cria um processo de empowerment (Shapira, Barak e Gal, 2007). O uso das TIC também proporcionaria às pessoas mais velhas a possibilidade de fazer novas amizades e de desenvolver novos interesses, tanto online como offline fazendo da velhice um período de descobertas com aumento do bem-estar e da qualidade de vida (Sá e Almeida, 2012; Alves et al., 2012). A inovação proporcionaria mais oportunidades para que as pessoas mais velhas possam estar mais envolvidas e mantendo interações sociais, essenciais para o bem-estar. Assim, o ato de inovar pode desempenhar um papel fundamental na experiência de utilizar uma tecnologia digital e tirar benefícios desse uso que podem contribuir para o processo de envelhecimento ativo. Podemos fazer um paralelo entre o conceito de tecnologia positiva e as redes socais digitais, pois alguns autores (Riva, Waterworth e Murray, 2014; Gorini et al.,
36 2011; Riva et al., 2014) têm sugerido que é possível manipular a experiência tecnológica para reforçar a presença social, ou seja, a sensação de estar com os outros: fazer parte de um grupo virtual, colocar a sua própria vontade (presença) em prática e ser capaz de entender as intenções dos outros membros do grupo (presença social). Isso implica que, para sustentar as experiências que são ideais sociais (fluxo em rede), a tecnologia deve proporcionar ao grupo virtual a possibilidade de expressar-se e de entender o que cada membro está fazendo (Riva, 2005). Além disso, Gaggioli e colegas (2013) falam que o estado ideal do grupo é alcançado quando a equipe desenvolve uma "intenção conjunta" no qual as ações dos indivíduos e do grupo são intercaladas e o grupo atua como uma entidade política autônoma e autoentidade organizadora. Um exemplo dessa abordagem é o uso das TIC para melhorar as relações intergeracionais (Gaggioli et al., 2014). As relações entre diferentes gerações oferecem o potencial para reduzir as barreiras existentes entre elas, transmitindo, por exemplo, a herança de tradições populares e por despertar o interesse dos jovens sobre suas raízes históricas e sociais (Webster e Mccall, 1999). No entanto, a novidade por si só não é uma motivação para a inovação entre os idosos, como ocorre mais frequentemente em outras camadas da população. Iniciar uma nova atividade entre mais velhos é um processo complexo e envolve a formulação de novas orientações para a autopreservação ou uma profunda mudança intrapessoal. Pesquisas sobre consumo, por exemplo, dão conta de que adultos mais velhos são considerandos os últimos a adotarem novos produtos e serviços (Bowe, 1988; Gilly e Zeithaml, 1985; Leventhal, 1997). As conclusões desses estudos estão de acordo com o comportamento dos idosos com relação às TIC em várias partes do mundo que indica que são eles os que mais tardiamente consomem tecnologias digitais. Muitas das vezes, as pessoas mais velhas não adquirem bens simplesmente porque são novidade, mas sim quando sentem que se beneficiarão dessa compra (Schiffman e Sherman, 1991). Portanto, em muitos casos, um dos motivos identificados para que os idosos não usem as tecnologias é a falta de interesse e o fato de não perceberem um sentido prático desses objetos em suas vidas. A presente pesquisa aborda justamente este aspecto ao buscar resposta ao motivo pelo qual idosos usam ou não usam o computador, o tablet e o celular e por quais razões possuem este comportamento.
37 Considerações finais As teorias ligadas ao processo de envelhecimento ajudam-nos a sistematizar o que é conhecido e a explicar “o como” e “o porquê” por detrás dos dados (Bengtson e Schaie, 1999, p. 5). Por isso, neste capítulo, examinamos alguns modelos teóricos que, em conjunto se mostraram essenciais para formar uma base para entendermos melhor a complexa relação entre pessoas idosas e o uso das tecnologias de informação e comunicação. Esses referenciais refletem a natureza multifacetada do processo de envelhecimento e também se caracterizam como uma tentativa de elucidar os acontecimentos que rodeiam essa heterogeneidade (Bengtson, Burgess e Parrott, 1997). Vimos que essas teorias sociais começaram com expectativas relativamente negativas sobre o lado social na velhice. Contudo, com o passar dos anos, essa visão tem sido suavizada com interpretações que levam em consideração aspectos mais complexos da vida dos idosos como o contexto social, cultural e econômico, algo que também reflete a importância que o tema envelhecimento tem ganhado nas últimas décadas. Embora algumas teorias possuam importantes contradições sobre declínio e evolução durante a velhice, assim como as razões para tais mudanças, a maioria vê, no lado social da velhice, a possibilidade de manter-se ativo e com qualidade de vida durante o processo de envelhecimento. A partir desses conhecimentos, podemos concluir que a teoria é útil na medida em que fornece uma compreensão mais profunda de eventos sociais e das suas configurações e a suposição é a de que os indivíduos idosos são agentes ativos e podem alterar a natureza de seus ambientes sociais. Assim, não pode haver teorias gerais do envelhecimento refletindo leis fixas ou naturais da organização social humana (Turner, 2003), mas sim uma evolução teórica na forma de pensar o processo de envelhecimento e as suas interações sociais.
38 Capítulo 2 Estudos que articulam temáticas sobre os idosos, o processo de envelhecimento e as TIC Introdução O presente capítulo apresenta um levantamento de estudos que relacionam as temáticas sobre os idosos, o processo de envelhecimento e as tecnologias de informação e comunicação no Brasil, em Portugal e em outros países com a intenção de entender como essa temática tem sido tratada no mundo acadêmico, quais os pontos abordados, o que ainda não está estudado e quais as principais conclusões apontadas. Com o objetivo de contextualizar a temática discutida, apresentamos os resultados de trabalhos desenvolvidos por pesquisadores e instituições internacionais. Primeiramente, fazemos uma abordagem teórica introdutória de como as tecnologias são entendidas como forças que moldam e são moldadas pelo comportamento humano e de que formas se tornaram aspectos importantes de cidadania nas sociedades marcadas pelo processo de envelhecimento cada vez mais acentuado, características, essas, que também impulsionam a pesquisa científica. A partir daí, apresentamos a revisão de literatura discutindo estudos empíricos organizados da seguinte forma: 1 – A qualidade de vida durante o processo de envelhecimento avançado e a inclusão social a partir do uso das TIC; 2 – As relações intergeracionais mediadas pelas TIC; 3 – As principais dificuldades que os idosos encontram no uso e adoção das TIC;
39 4 – O uso e a apropriação das TIC por idosos com base das características sociodemográficas. Selecionamos os estudos a partir de palavras-chave tais como idoso, terceira idade, envelhecimento, seniores, pessoas mais velhas, tecnologias de informação e comunicação, TIC, internet, celular, telemóvel 2 , computador e tablet, por exemplo, e utilizando as variações da língua inglesa, espanhola e francesa. As palavras idoso, envelhecimento e tecnologias foram aquelas que mais proporcionaram informação. Para esse levantamento, foram feitas pesquisas, principalmente, em sites de referência sobre envelhecimento e que abordaram a temática gerontecnologia incluindo as suas bases de dados e bibliografia (entre outros: The Gerontologist, Research on Aging, Journal of Aging Studies, The International Journal of Aging and Human Development, Ageing & Society, Gerontechnology, Estudos Interdisciplinares sobre o Envelhecimento, Kairós Gerontologia) e sites de projetos de investigação que tratam dessa mesma temática. Como recursos usamos artigos científicos publicados na sua versão digital ou impressa e outras publicações como livros, relatórios e atas de congressos científicos. Para a pesquisa sobre o que está estudado no Brasil e em Portugal recorremos à Biblioteca do Conhecimento Eletrônico b-on 3 , ao levantamento de teses de doutorado e mestrado em repositórios de universidades do Brasil e de Portugal e à pesquisa a partir dos currículos armazenados na Plataforma Lattes 4 e na Plataforma DeGóis 5 . 2 Telemóvel é a palavra utilizada para celular em Portugal. 3 A Biblioteca do Conhecimento Online (b-on) disponibiliza o acesso ilimitado e permanente às instituições de investigação e do ensino superior aos textos integrais de milhares periódicos científicos e e-books online de alguns dos mais importantes fornecedores de conteúdos, através de assinaturas negociadas a nível nacional portuguesa. Http://www.b-on.pt/ 4 A Plataforma Lattes representa a experiência do CNPq na integração de bases de dados de Currículos, de Grupos de pesquisa e de Instituições em um único Sistema de Informações no Brasil. Sua dimensão atual se estende não só às ações de planejamento, gestão e operacionalização do fomento do CNPq, mas também de outras agências de fomento federais e estaduais, das fundações estaduais de apoio à ciência e tecnologia, das instituições de ensino superior e dos institutos de pesquisa. Além disso, se tornou estratégica não só para as atividades de planejamento e gestão, mas também para a formulação das políticas do Ministério de Ciência e Tecnologia e de outros órgãos governamentais da área de ciência, tecnologia e inovação no Brasil. http://lattes.cnpq.br/ 5 A Plataforma de Curricula DeGóis é um instrumento de recolha, disponibilização e análise da produção intelectual, científica e outras informações curriculares dos Investigadores Portugueses. Consiste num portal cujas principais funcionalidades são a gestão individual do curriculum por parte do utilizador, a consulta de indicadores, a visualização de curricula mediante pesquisas baseadas em critérios relacionados com o conteúdo do curriculum e a administração institucional. http://www.degois.pt/globalindex.jsp
40 Apesar de buscarmos respaldo em estudos de caráter teórico para o desenvolvimento deste capítulo, fazemos referência aos resultados de um total de 71 estudos empíricos, cuja lista encontra-se no anexo 4: 13 brasileiros, 12 portugueses e os demais realizados principalmente na Europa (17) e nos Estados Unidos (30), mas também na América do Sul, Ásia e Oceania. Não foi a nossa meta apontar todos os estudos encontrados que tenham alguma relação com os campos de interesse neste capítulo. O que pretendemos é discutir aqueles com maior relevância científica com metodologia, objetivos e abrangência variada para que possamos ter uma visão mais ampla sobre a temática discutida. Assim, a finalidade deste capítulo é fazer uma revisão bibliográfica onde as pesquisas são analisadas de maneira crítica ressaltando os aspectos positivos e negativos e destacando a contribuição que esses trabalhos fazem para um maior entendimento da relação entre idoso e tecnologias de informação e comunicação. 2.1As tecnologias moldam e são moldadas por sociedades cada vez mais envelhecidas Há muito que os antropólogos consideram a capacidade de fabricar ferramentas como um dos eixos do desenvolvimento na evolução humana. Desde a primeira fagulha de criatividade, passou-se a fazer instrumentos simples que avançaram para a fabricação de grandes objetos até se tornarem máquinas complexas. As ferramentas são uma extensão da capacidade humana como uma espécie de fusão entre pessoa e máquina e por esse motivo, muitas vezes, as tecnologias e seus utilizadores não são entendidos como pertencentes a contextos totalmente separáveis. Uma parte importante dos ritos de passagem para a capacidade de executar uma determinada função é a competência de dominar ferramentas. Para exemplificar, poderíamos afirmar que as ferramentas utilizadas em um determinado trabalho são uma parte importante na definição dessa função e do próprio trabalhador. Mais do que uma fonte de orgulho, esse conhecimento é entendido como símbolo de especialidade e de identidade (Charness e Schaie, 2003).
41 A relação entre o autor e o lápis seria uma forma simples de ilustrar essa dialética. Embora esse objeto seja um exemplo de ferramenta simples, ao longo dos séculos, temos mudado da força e do movimento mecânico para tecnologias que eliminam as operações manuais e que melhoram a produtividade. Essas alterações modificaram a habilidade do trabalhador para utilizar essas novas tecnologias, mas mudanças sociais fundamentais como essas não afetam todas as pessoas uniformemente. Ou seja, a relação entre autor e lápis torna-se um processo muito mais complexo uma vez que o lápis se transforma em um computador, por exemplo. A transição para as tecnologias de comunicação e informação deixou em desvantagem os grupos menos instruídos e aqueles com idades mais avançadas (Charness e Schaie, 2003; Olphert, Damodaran e May, 2006; Loges e Jung, 2001; Sourbati, 2004). Os especialistas têm procurado entender o comportamento no atual ambiente social e tecnológico. Alguns teóricos já observavam que as ciências sociais estão interessadas no desenvolvimento de “context-free knowledge”, ao invés de considerarem “stocks of knowledge employed by social actors in social life” exigindo que eles tenham “practical mastery of the demands of everyday activities” (Giddens 1978, p. 246). Assim como Giddens, já antes outros estudiosos como Goffman (1969) defenderam que os atores sociais são conscientes, pelo menos nos níveis mais simples, das consequências das interações sociais com aqueles que estão mais próximos e afirmaram ainda que muitos teóricos "clássicos" não tinham dado a devida atenção a esse aspecto em seus estudos. Giddens (1978) também apontou a importância de levar em consideração os conceitos de “tempo” e “espaço, pontos básicos que foram, muitas vezes, negligenciados, mas que atualmente têm sido modificados com o uso das TIC, tornando-se fatores indispensáveis para compreender o comportamento humano em relação às tecnologias digitais. A base da teoria da estruturação (Giddens, 1984) observa que a vida social é mais do que ações individuais, mas que não é apenas determinada por forças sociais. Giddens (1984) sugere que a atividade dos indivíduos e a estrutura social estão diretamente relacionadas e que é a repetição dos atos desses agentes que reproduz a estrutura social - tradições, instituições, códigos morais e formas de fazer as coisas -, mas isso também significa que pode ser alterada quando as pessoas começam a
42 ignorá-la, a substituí-la ou a reproduzi-la de forma diferente. Esses mesmos padrões podem ser encontrados na relação das pessoas com as tecnologias. Dentro dessa perspectiva, Poole e DeSanctis (1992) propuseram a teoria da estruturação adaptativa para explicar como as pessoas se apropriam dos sistemas de informação e como a tecnologia deve adaptar-se às suas necessidades. Orlikowski (1992) sintetizou bem essa ideia ao argumentar que existe uma dualidade na tecnologia, pois molda e é moldada pela ação do homem. Essas abordagens são uma reação ao próprio determinismo tecnológico. Suas interpelações trouxeram as pessoas para o centro da questão com a necessidade de compreender os efeitos das tecnologias digitais em suas vidas e, por esse motivo, ao trabalharmos com TIC e idosos, consideramos que devemos falar de tecnologia sem ignorar a vontade humana e que ambas devem ter o mesmo grau de importância em nosso estudo. O aumento da importância das TIC nas sociedades contemporâneas não pode ser minimizado. Acadêmicos, políticos e a indústria ligada à produção dessas ferramentas têm afirmado que entramos na era da informação (Selwyn, Gorard e Furlong, 2003). Porém, alguns especialistas têm sido críticos ao afirmarem que os estudos não têm sido bem-sucedidos por conseguirem cobrir somente uma pequena parte de toda a complexidade que é a relação TIC e a sociedade e mesmo na produção de declarações preditivas sobre possíveis efeitos das tecnologias na vida das pessoas (Cummings e Kraut, 2001). McLuhan (1964), há várias décadas, argumentou que as características das tecnologias de comunicação moldaram as condições e organizações sociais. Essa linha de raciocínio foi sucintamente capturada em sua famosa afirmação de que “o meio é a mensagem”. No entanto, o ambiente mediático mudou dramaticamente passando de uma predominante comunicação de massa para um ambiente de redes sociais personalizadas (Campbell e Park, 2008). Castells (2000) caracteriza a sociedade atual como uma nova estrutura social em rede e parafraseia McLuhan ao dizer que “a rede social é a mensagem”. Enquanto McLuhan atribui a mudança social ao desenvolvimento e uso das tecnologias, Castells (2000, p. 164) afirma que “o aumento
43 da comunicação está caracterizado pelo desenvolvimento de novas lógicas organizacionais que estão ligadas à evolução tecnológica, mas que não estão dependentes desse processo”. Apesar das diferentes visões, é possível estabelecer um paralelo entre McLuhan e Castells, pois para ambos as tecnologias de comunicação são usadas como base para entender a sociedade. Isso não quer dizer que as tecnologias “determinem a sociedade”, mas que podem servir como “uma lente para examinar como a ordem social é produzida e reproduzida através dos sistemas de comunicação” (Campbell e Park, 2008, p. 372). O presente trabalho é construído também a partir dessas teses, argumentando que entramos em uma nova era das tecnologias pessoais (Selwyn, 2004). Também levamos em consideração as alterações psicológicas ocasionadas pelo uso das TIC o que Katz chama de “sentido ou textura da vida” (Katz e Aakhus 2002, p. 301). Algumas pesquisas têm discutido o impacto das TIC no controle social e, especialmente, na intimidade das pessoas. As relações interpessoais têm sido alteradas e novos pontos de orientação têm surgido como, por exemplo, a pergunta "onde você está agora?" foi adicionada à interação social mediada pelas tecnologias móveis. Como resultado, as TIC têm sido reinventadas e ajustadas dinamicamente não só para maximizar as necessidades e o conforto de seus utilizadores, mas também para explorar e criar novas necessidades e interesses. Esse processo de inovação tecnológico tem ocorrido ao longo da História sendo, portanto, familiar, “social e sempre dependente da capacidade dos usuários de definirem as suas próprias relações com a nova tecnologia” (Haddon e Silverstone 1996, p. 92). De acordo com Mark Stefik (1996), a atração pela internet pode ser explicada tanto pela habilidade de agregar funções como as de comunicar, comercializar e se aventurar. Pela primeira vez na história dos meios de comunicação um indivíduo pode desempenhar funções distintas através de uma mesma tecnologia: “ele ou ela talvez comunique por e-mail através dos continentes, compre e venda produtos nos
44 mercados online internacionais e procure por experiências excitantes em uma selva em uma ‘www página’” (Savolainen, 2000, p. 186). Tecnologias como o smartphone introduziram uma nova noção de vida em sociedade resultando numa troca quantitativa e qualitativa de informação, conhecimento e recursos de uma maneira nunca antes presenciada (Selwyn, Gorard e Furlong, 2003). De acordo com Fortunati (2007), a telefonia móvel não está somente a mudar a sociedade, está a mudar todo o sistema em que está situada. Segundo a autora, esse modelo compreende o espaço e o tempo responsáveis por integrar, estabilizar e estruturar a realidade. Como resultado, através das TIC, estamos a presenciar uma tendência de conexão de “pessoa para pessoa” ao contrário da ligação baseada na localização geográfica (Campbell e Park, 2008), onde a comunicação imediata era feita com quem estava fisicamente próximo. É dentro dessa nova realidade que as sociedades modernas vivem atualmente e, portanto, estudar a relação das pessoas mais velhas e as tecnologias digitais que predominam hoje na nossa sociedade, como é o caso do celular, do computador e do tablet, ajuda-nos a entender as consequências e relações sociais a partir do seu uso. 2.2Qualidade de vida no processo de envelhecimento e inclusão social através das tecnologias A qualidade de vida está relacionada com aspectos essenciais do bem-estar físico, material, social e emocional (Felce e Perry, 1995) e foi definida pela Organização Mundial da Saúde como “a percepção do indivíduo de sua posição na vida no contexto da cultura e sistema de valores nos quais ele vive e em relação aos seus objetivos, expectativas, padrões e preocupações”(WHOQOL Group, 1997, p. 1). Essa definição também está relacionada com o conceito de envelhecimento ativo (Organização Mundial da Saúde, 2002), cuja uma das propostas apresentadas foi a utilização das tecnologias de informação e comunicação com o objetivo de trazer oportunidades criando mais acessibilidade a essas tecnologias e, consequentemente, suporte para um envelhecimento ativo e saudável (Comissão Europeia, 2012).
51 comunicação e informação. Podemos afirmar também que a maioria dos estudos aponta o potencial das tecnologias de informação e comunicação para trazer qualidade de vida para o cidadão sênior estando de acordo com o conceito de envelhecimento ativo (Ferreira, 2010; Pereira e Neves, 2011; European Commission, 2010; Fokkema e Knipscheer; 2007). Logo, aceder e usar essas tecnologias é cada vez mais importante para ter acesso à informação, serviços, entretenimento e manter relações sociais e evitar o isolamento social fazendo com que o uso das TIC seja considerado um aspecto fundamental de cidadania nas sociedades contemporâneas (Selwyn, 2003). 2.3Relações intergeracionais mediadas pelas tecnologias Ao analisar dados demográficos concluímos que para além de uma menor fecundidade e maior expectativa de vida das pessoas, as famílias passaram por profundas transformações nas últimas décadas. Como consequência, tornaram-se menores e com um maior número de idosos em sua composição (dos Santos, Pavarini e Barham, 2011) fazendo com que as sociedades modernas enfrentem um aumento no número de gerações vivas e uma diminuição no número de familiares dentro dessas gerações. Então, levar em consideração o contexto social em que as pessoas mais velhas estão inseridas é importante, pois falar de envelhecimento não é falar somente de idosos, pois o processo de envelhecimento e a velhice dos cidadãos acontecem sempre num ambiente com pessoas de diferentes idades. Envelhecemos enquanto vivemos e, desde a perspectiva do curso de vida, nosso processo de envelhecimento acontece sempre em um contexto de diferentes coortes de idade. Seja qual seja a perspectiva, tornou-se evidente que os indivíduos e as múltiplas gerações envelhecem ao mesmo tempo em qualquer momento da história. Portanto, o envelhecimento deve ser abordado como um fenômeno multigeracional e não somente como uma questão relativa à população envelhecida. Para além disso, o fato de que várias gerações envelhecem ao mesmo tempo nos faz pensar nas interações intergeracionais como outro ingrediente potencial no momento de analisar os processos de envelhecimento humano. Desde uma perspectiva intergeracional, não somente envelhecemos, mas, de alguma maneira, envelhecemos juntos (Sánchez, Kaplan e Bradley, 2015, p. 96).
52 Os estudos que tratam das relações entre jovens e idosos e o uso das TIC também se interessam em analisar o papel que essas tecnologias possuem em programas e iniciativas que, intencionalmente, conectam diferentes gerações. Essa temática ganhou maior interesse dos especialistas principalmente depois do lançamento do Ano Europeu do Envelhecimento Ativo e da Solidariedade entre Gerações, em 2012, quando a utilização das TIC pelos idosos foi apresentada como novas oportunidades de suporte para um envelhecimento ativo e saudável (Comissão Europeia, 2012a). A promoção do envelhecimento ativo da população é uma das estratégias adotadas pelos diferentes países para que as pessoas mais velhas permaneçam mais tempo no mercado de trabalho, saudáveis e independentes, tanto quanto possível, aspectos que já discutimos no capítulo anterior. Portanto, o envelhecimento ativo exige a participação de adultos mais velhos em uma sociedade contemporânea cada vez mais global, tecnológica e formada por diferentes gerações. Houve um aumento de iniciativas, principalmente na Europa, que tratam das relações intergeracionais e das TIC. A União Europeia, por exemplo, na sua publicação ICT for seniors' and intergenerational learning (2012b) traz 21 exemplos de projetos que tratam das relações intergeracionais, envelhecimento ativo e uso das mídias digitais e as pesquisas científicas refletem esse cenário. Patrício e Osório (2011) procurando compreender a relação entre crianças, adultos mais velhos e o uso das TIC realizaram entrevistas informais e a observação das atividades desenvolvidas em oficinas no projeto de Tecnologia da informação para avós e netos. Os investigadores verificaram que os idosos foram receptivos para atualizar e adquirir novas competências digitais com a ajuda dos mais jovens - de acordo com os seus interesses, necessidades e disponibilidade - e concluíram que os mais velhos se beneficiaram com essa iniciativa indicando a importância da aprendizagem ao longo da vida, das relações e solidariedade intergeracional mediadas pelas tecnologias (Patrício e Osório, 2011). Especialistas (Roberto, Fidalgo e Buckingham, 2014; Sánchez, Kaplan e Bradley, 2015) sugerem que deve-se apostar em estratégias que permitam conciliar o uso das TIC, que os jovens geralmente dominam, com o conhecimentos e experiência de vida dos idosos. Esses autores citam como exemplo a construção de histórias digitais que permitem trocas de experiências, desenvolvimento de competências, reflexão e
53 colaboração entre as diferentes gerações como é o caso das iniciativas que citaremos a seguir (Gaggioli et al., 2014; Carvalho e Sottomayor, 2011). Gaggioli e colaboradores (2014) desenvolveram a seguinte intervenção: idosos compartilharam experiências de vida que achavam mais significativas com um público mais jovem que relatou os conteúdos mais interessantes em um site integrando textos e objetos multimídia. Análises de contexto foram feitas antes e depois das medidas de intervenção e demonstraram que mesmo duas ou três horas de sessões e atividades em grupo tiveram um impacto positivo no bem-estar psicossocial dos idosos com mudanças significativas nos níveis de solidão e um aumento na percepção da qualidade de vida (Gaggioli et al., 2014). Os resultados também indicaram que a atitude dos jovens mudou positivamente em relação aos idosos depois de participarem nas atividades. Uma iniciativa semelhante a essa é desenvolvido em Portugal. O Arquivo de Memória do Vale do Côa (Carvalho e Sottomayor, 2011) é um projeto que visa a relação intergeracional principalmente através da recolha de histórias de vida dos idosos por jovens e crianças. Até o momento da escrita deste trabalho, não havia publicações que dessem conta do impacto científico dos resultados do projeto. Contudo, o objetivo é promover a qualidade de vida das comunidades do Vale do Côa, região no nordeste de Portugal, através do desenvolvimento das práticas intergeracionais e fomentar a investigação e a conservação do patrimônio cultural contribuindo para o aumento da autoestima das comunidades locais e da satisfação de visitantes do Vale do Côa 6 . Embora os estudos de Patrício e Osório (2011) e Gaggioli e colegas (2014) estejam limitados a pequenos grupos de participantes, ajudam-nos a concluir que estas iniciativas fazem aumentar a utilização das TIC pelos idosos e ajudam a promover compartilhamento de experiências entre gerações. Isso proporciona oportunidades em torno do encontro intergeracional e dos meios de comunicação podendo ter como resultado o aumento da qualidade de vida dos idosos, para além da inclusão social e 6 A iniciativa é promovida pela ACÔA - Associação de Amigos do Parque e Museu do Côa e apoiado pelo programa Gulbenkian de Desenvolvimento Humano Entre Gerações. O material do projeto está disponível no endereço http://arquivodememoriadovaledocoa.blogspot.pt/.
54 digital que podem gerar benefícios em termos de capital pessoal e social (Petrella, Pereira e Pinto, 2012). De um modo geral, os estudos dão conta de que a utilização da internet e das tecnologias de informação e comunicação por idosos para fins de comunicação estreita relações familiares, sobretudo intergeracionais (Pereira e Neves, 2011). O estudo de Carleto (2013) falou da percepção dos familiares dos idosos sobre as relações intergeracionais mediadas por dispositivos tecnológicos: 67,5% acreditava que esses recursos auxiliavam a suprir a ausência física de pessoas próximas; 42,5% disseram que os recursos proporcionavam maior independência e autonomia para que os idosos se relacionassem com outras pessoas dentro e fora do ambiente familiar e se mantivessem mais interessados em assuntos do cotidiano; e 25% relatou que os recursos digitais ampliavam a comunicação e melhoravam suas relações familiares. Outro aspecto importante, as pressões sociais, foi tratado na pesquisa exploratória intitulada “O papel da solidariedade intergeracional no âmbito da literacia digital” (Roberto, Fidalgo e Buckingham, 2014). Foi desenvolvida com 135 estudantes universitários e identificou as diferentes motivações que impulsionavam os jovens a se voluntariarem a ajudar idosos a adquirirem competências digitais. Os resultados dão conta que os jovens não perceberam os idosos enquanto grupo homogêneo e que os incentivos para auxiliarem ou não as pessoas mais velhas eram diferentes consoante a proximidade que possuíam com o idoso. No caso de seus avós ou de outras pessoas próximas, essa motivação estava relacionada a uma maior afinidade valorizada devido ao seu papel no núcleo familiar e também devido às pressões sociais e morais. No caso de idosos mais afastados, destacou-se uma maior relevância no valor que os jovens atribuíam à atividade deixando de existir a obrigação moral, mas persistindo as pressões sociais. Essa mesma pesquisa conclui também que a mera construção de atividades intergeracionais, nomeadamente no âmbito das TIC, poderá não ser promotora dos efeitos desejados, à medida em que, por si só, a construção destas atividades não conduzem a uma aproximação geracional. Tal qual os resultados deste trabalho ilustram, as âncoras motivacionais dos mais jovens situamse em pressões sociais e/ou morais que os levam a ponderar a sua ajuda, elementos que não se traduzem no que se espera obter quando se fala em solidariedade ou altruísmo (Roberto, Fidalgo e Buckingham, 2014, p. 13).
55 No trabalho de Lima e Pires (2013) sobre a contribuição de jovens universitários na inserção de seus familiares idosos no mundo digital conclui-se que independentemente da idade desses jovens, bem como dos cursos que frequentavam, a maioria deles (de um total de 79 alunos) já ajudou, 20% disseram que não tiveram oportunidade de ajudar e 8% afirmaram que não têm paciência para auxiliar o idoso em suas dificuldades em relação às TIC. Outro aspecto que os autores destacaram foi o fato de que 58 alunos informaram que nunca se preocuparam em buscar informações sobre questões relacionadas ao idoso, mas que a partir daquele momento 83% deles disseram que se envolveriam mais com essas temáticas (Pires, 2013) com o objetivo de levar conhecimento às pessoas mais velhas. Muitos programas que tratam das relações intergeracionais e TIC aproximam jovens com conhecimentos tecnológicos para apoiar pessoas mais velhas a adquirirem conhecimentos com o objetivo de promover a inclusão digital, ou seja, a transmissão de conhecimento tecnológico unilateral dos mais jovens para os mais velhos. No entanto, alguns pesquisadores já identificaram a necessidade de desconsiderar tais pressupostos, pois segundo Sánchez e colegas (2015) as pessoas mais velhas podem ser mais competentes digitalmente que muitos jovens. Contudo, não identificamos nenhuma pesquisa que tratasse especificamente dessa questão. Várias pesquisas confirmaram que o telefone celular é o recurso tecnológico para fins de comunicação mais usado pelos idosos (Carleto, 2013; Godoi, 2009; Vaz, 2010). A utilização desse aparelho pode estar associada à sua popularização e a uma maior facilidade financeira para adquiri-lo se comparado a outras tecnologias como um computador que geralmente é mais caro e também devido ao fato de que muitos idosos recebem este aparelho de presente de familiares. Vários autores concluíram que o celular foi maioritariamente visto pelos idosos como indispensável para as relações sociais e que entre as finalidades de utilização dessa tecnologia está, principalmente, o estabelecimento da comunicação com familiares (Carleto, 2013; Godoi, 2009; Vaz, 2010; Pires, 2013; Dias 2012; Sales et al., 2014) e uma ajuda no caso de emergência (Dias, 2012; Azevedo, 2013; Kachar, 2010).
56 As redes sociais digitais estão ganhando importância no cotidiano dos idosos (Páscoa e Gil, 2015; Erickson, 2011). Isso ocorre porque os sites de relacionamentos possuem potencial para que os indivíduos se conectem com outras pessoas independentemente de sua localização, criando oportunidades para compartilhar tópicos de interesse, interagir com os outros e fornecer apoio moral e emocional, bem como permanecer em contato com a família e com os amigos (Erickson, 2011). As redes sociais são uma forma importante de comunicação principalmente para as gerações mais jovens, mas também podem ser benéficas para os cidadãos seniores na mesma proporção no sentido de promover uma maior participação social. Esse tipo de pesquisa iniciou-se com o público jovem e apontou conclusões tanto positivas como negativas. Algumas afirmam que utilizar a internet levaria ao aparecimento de um novo círculo social (Turkle, 2011; Cummings e Kraut, 2001), ao desenvolvimento de uma intensa e longa duração de relações sociais online (McKenna, Green e Gleason, 2002) e que aumentaria a participação em comunidades existentes fornecendo novos espaços sociais para comunicação (Wellman et al., 2001). Em contraste, outras análises sugeriram que a internet e o uso frequente das redes sociais digitais seriam associados ao aumento na depressão e isolamento social (Kraut et al., 1998; McKenna, Green e Gleason, 2002); decréscimos no tempo que se passaria com a família e amigos e na participação de outros eventos sociais (Nie, 2001); várias outras têm mencionado que o uso das redes sociais pode contribuir para a gravidade dos sintomas associados ao vício da internet (Wilson, Fornasier e White, 2010; Andreassen et al., 2012; Kittinger, Correia e Irons, 2012). Como já referimos, esses achados foram concluídos a partir de pesquisas com jovens e os resultados não podem ser transferidos para os idosos. Só recentemente há o aparecimento de publicações científicas que analisam quais efeitos a utilização dessas redes sociais teriam sobre os mais velhos (Nef et al., 2013). A principal vantagem que os especialistas identificaram no uso das redes sociais digitais por idosos foi a comunicação com os mais jovens, ou seja, uma aproximação intergeracional com os membros de sua família (filhos e netos) especialmente para os idosos com idades mais avançadas e com mobilidade reduzida (Nef et al., 2013) o que é benéfico e apreciado por ambos os lados (Cornejo, Favela e Tentori, 2010). Para os idosos, os
57 principais pontos positivos identificados ao usarem esse recurso são a troca de comunicação, informação e o compartilhamento de conhecimentos e eventos; enquanto as desvantagens refere-se à falsa noção de “amigos” entendido pelos idosos como algo muito distante da amizade fora do ambiente digital ( Páscoa e Gil, 2015). Os relacionamentos intergeracionais através das redes sociais digitais podem “proporcionar aos idosos o acesso a novas relações, mas também abrem novas possibilidades de inserção na família, fomentando as interações entre gerações, através, por exemplo, de atividades lúdicas, como é o caso dos jogos interativos, ou da comunicação por e-mail e outros serviços” (Páscoa e Gil, 2012, p. 39). Nas conclusões de seu estudo Carleto (2013) afirma que as TIC exercem uma influência positiva nas relações intergeracionais dos idosos e que o domínio destes recursos tecnológicos no cotidiano tende a favorecer o sentimento de autoeficácia dos sujeitos e consequentemente a sua auto-estima, ampliando a participação destes nesta sociedade tecnológica e permitindo novos papéis sociais e a experiência de que continua fazendo parte da sociedade (Carleto, 2013, p. 48). Eggermont e Vandebosch (2006) usaram peças teatrais para facilitar a discussão em grupos focais com 537 pessoas idosas sobre a definição de rede social digital e o papel futuro que gostaria que desempenhasse em suas vidas. As conclusões indicaram que as pessoas idosas gostariam de ver as redes sociais como forma de apoiar as relações sociais e que as ajudasse a superar a solidão. Esse tipo de pesquisa deve ser destacada, pois são poucos os exemplos como esse que estão voltados para a identificação de questões e respostas futuras a partir do que se vive atualmente. Com base no que discutimos até agora, as TIC exercem uma influência positiva nas relações intergeracionais dos idosos e que o domínio desses recursos tecnológicos no cotidiano tende a favorecer o sentimento de autoeficácia e, consequentemente, da sua autoestima, ampliando a participação na sociedade tecnológica e permitindo que exerçam novos papéis sociais (Carleto, 2013). Os resultados desses estudos interessam para a presente pesquisa porque um dos nossos objetivos e analisar como o contexto social em que o idoso está inserido, principalmente o contexto familiar, pode influenciar no conceito de envelhecimento ativo. Portanto, vamos considerar que a interatividade que as TIC podem proporcionar é importante para incentivar o contato
58 social entre pessoas com diferentes idades, mas principalmente no caso de alguns idosos que se encontram ameaçados pelo isolamento social, com dificuldade de mobilidade ou situações de saúde física ou mental comprometida (Erickson, 2011). 2.4Tecnologias: um domínio complexo a ser adquirido? Enquanto algumas investigações apontam quais são as principais barreiras que impedem a pessoa mais velha de aceder e tirar benefícios do uso das tecnologias de informação e comunicação, outras indicam quais os requisitos que essas mesmas tecnologias devem cumprir para facilitar o seu uso pelos idosos. A identificação e a discussão dessas características são importantes, pois enquanto os jovens usam com mais facilidade diferentes tipos de tecnologias digitais através da adoção de dispositivos móveis como computadores portáteis, tablets, smartphones ou aplicativos de redes sociais, os adultos mais velhos permanecem na extremidade oposta do fosso digital (Barnard et al., 2013; Zickuhr e Madden, 2012). Assim, ao mesmo tempo que é positivo que uma grande quantidade de opções seja fornecida em formato digital através da internet e das TIC, as pesquisas apontam para o fato de que muitos adultos mais velhos têm encontrado dificuldades em usar esses produtos (Pires, 2013; Czaja e Lee, 2007; Chisnell e Redish, 2012; Olson et al., 2012). Essa constatação é aceita considerando que a maioria das pessoas com mais 65 anos não teve contato com as tecnologias durante a infância, no período em que frequentaram a escola ou a faculdade (Vroman, Arthanat e Lysack, 2015) ou mesmo quando estavam no mercado de trabalho. Como resultado, essa parcela da população pode acabar frustrada ao usar produtos tecnológicos ou pode usá-los com menor frequência em comparação com a população mais jovem (Olson et al., 2012) ou não usar correndo o risco de se tornarem excluídos digitais (Loos e Bergstrom, 2014). Ou seja, de um modo geral, a internet e as TIC apresentaram-se como um domínio complexo a ser adquirido por aqueles com mais idade. Existe um número cada vez maior de pessoas pertencentes à terceira idade com vigor mental e físico, com poder aquisitivo, interessados em manter-se ativos e
59 em busca de conhecimentos tecnológicos navegando na internet por meio de computadores, tablets e smartphones, entre outros (Rocha, 2013). Todavia, corroborando com a complexidade da aquisição de conhecimento, está a degradação natural da saúde que ocorre com o processo de envelhecimento mais avançado (Loos e Bergstrom, 2014) com o declínio motor, sensorial e das habilidades cognitivas (Sales et al., 2014;Tavares e Sousa, 2012) e que pode limitar a utilização das TIC em até 43% (Luna-García, Mendoza-González e Álvarez-Rodríguez, 2015). Alguns pesquisadores sugerem que as pessoas mais velhas estão física e psicologicamente em desvantagem na adoção e no uso das TIC e que esse processo não é rápido, nem simples, nem universalmente aceito (Sánchez, Kaplan e Bradley, 2015). Fatores como “ter o controle” de uma determinada ferramenta podem ter uma influência significativa no momento de decidirem adotar ou não uma nova tecnologia (Morris e Venkatesh, 2000). Há 20 anos, estudos já destacavam que a falta de familiaridade e incompatibilidade de estilos de vida influenciava diretamente no uso dessas tecnologias (Haddon e Silverstone, 1996). Essa pesquisa indicou que os padrões de utilização e funções que as pessoas dão às tecnologias são determinados por histórias de vida e por particularidades socioeconômicas, circunstâncias que fazem com que uma inovação tecnológica seja vista, ou não, como útil e possível potenciadora de qualidade de vida. Pesquisadores defendem que o principal obstáculo ao uso e apropriação das tecnologias digitais por idosos está relacionado a atitudes negativas decorrentes do medo, ansiedade e uma falta de motivação e interesse (Heinz 2013; Lee, Chen e Hewitt, 2011). É o caso das investigadoras Lima e Pires (2013) que ressaltaram que uma idosa entrevistada em seu trabalho, com nível superior de escolarização, afirmou que sente medo e apreensão em relação à sociedade. A ansiedade associada à aprendizagem de como utilizar uma TIC leva a barreiras autoimpostas e à baixa autoeficácia (Barnard et al., 2013) por se considerar, por exemplo, como ''demasiado difícil” (Vroman, Arthanat e Lysack, 2015). Mitzner e colegas (2010) encontraram que a diferença entre usuários jovens e velhos não está no seu conhecimento sobre uso do
60 computador, mas sim na confiança e na tendência dos adultos mais velhos de subestimar as suas habilidades. A relação dos idosos com a tecnologia é muito mais complexa do que seria sugerido pela ideia de que “os adultos mais velhos simplesmente têm medo ou não querem usar a tecnologia” (Mitzner et al., 2010, p. 11). Vários estudos dão conta de que, principalmente, quando os idosos usam as TIC e adquirem consciência dos benefícios que podem vir desse uso, passam a ter uma visão otimista sobre as tecnologias digitais (Brito, 2012; González, Ramírez e Viadel, 2012; Gagliardi et al., 2007; Claßen et al., 2010; Azevedo, 2013). É o caso da investigação de HernandezEncuentra (2009) onde os idosos afirmam que as TIC lhes facilitavam a vida cotidiana reduzindo os deslocamentos e a burocracia ao aceder a serviços e informações online. No entanto, apesar de alguns autores afirmam que a atitude dos adultos mais velhos em relação à tecnologia é relativamente positiva, o que é apontado em muitas pesquisas científicas é a atitude cética de alguns idosos (Pew Research Center, 2014; Bolin e Westlund, 2009; Bolin e Skogerbø, 2013; Mitzner et al., 2010). Essa percepção é traduzida através do fato de que muitos idosos acreditam que não compreendem a tecnologia, não estão preparados para lidar ou realmente não precisam dela, pois é vista como algo criado e pertencente aos mais jovens. Portanto, a satisfação dos usuários com uma tecnologia digital é influenciada pela facilidade do seu uso (Barnard et al., 2013; Nef et al., 2013; Wagner, Hassanein e Head, 2010) e a sua utilidade também é percebida como importante no momento de decidir adotar ou não uma nova tecnologia (Mitzner et al., 2010; White, 2000), pois, em alguns casos, a tecnologia não continuará a ser usada por adultos mais velhos se não sentirem consequências positivas imediatas com o seu uso. Um estudo sobre adoção de tablets verificou que a percepção de utilidade, prazer no uso e a influência social afetam a intenção de usar essa tecnologia (Hur, Kim e Kim, 2014) e Lehtinen e colegas (2009) observaram que os idosos não usavam das redes sociais digitais por medo relacionado à privacidade e pelo fato de não verem benefício. Outras dificuldades mais “técnicas” também enumeram na lista das barreiras que dificultam as pessoas mais velhas de usarem as TIC como a falta de conexão à
67 À semelhança da pesquisa italiana (Colombo, Aroldi e Carlo, 2014) e americana Pew Research Center (2014) citadas acima, na pesquisa brasileira (Kachar, 2010) as diferenças na frequência de acesso entre idosos e as demais faixas etárias são quase inexistentes quando é levado em consideração somente aqueles que acessam a internet. Desta maneira, pesquisas realizadas em três diferentes países coincidem em seus resultados nas seguintes formas: ser nesta faixa da população (60/65 anos ou mais) que está acontecendo o maior crescimento na utilização da internet e das TIC; existir um fosso digital significante entre as gerações mais velhas e mais jovens; e a diminuição dessas diferenças quando se considera somente os idosos usuários da internet. Portanto, alguns trabalhos apresentam dados que estão próximos das referências feitas sobre a categoria conhecida como silver surfers, (Selwyn, Gorard e Furlong, 2003; Saunders, 2004; Cody et al., 1999). A noção de silver surfers reforça a ideia de que essas pessoas se beneficiam das TIC e que a habilidade de usar as tecnologias significa a construção de uma “ponte” que diminui as diferenças em relação às gerações mais jovens (Selwyn, Gorard e Furlong, 2003). Isso quer dizer que as pessoas mais velhas não são todas vulneráveis e com necessidade de serem ajudadas, o que é especialmente verdade quando consideramos aqueles com idade até 74 anos. A partir dessa revisão bibliográfica sabe-se que o fosso digital é complicado e dinâmico (van Dijk e Hacker, 2003) e, geralmente, se refere a ''uma lacuna entre os que têm e os que não têm acesso às novas formas de tecnologia da informação" (van Dijk 2006, p. 221). Se compararmos os resultados das pesquisas que tratam da questão de gênero, observamos que ainda carece de ser mais bem explorada, pois algumas destacam as desigualdades de acesso e uso das TIC entre homens e mulheres, enquanto outras não encontram diferenças e afirmam que esse fator não é significativo como determinante para o uso e apropriação das tecnologias de informação e comunicação. No entanto, encontramos na pesquisa de Colombo, Aroldi e Carlo (2014), mesmo que de maneira breve, uma pista de que algumas tendências, tais como o predomínio da literacia digital masculina, podem ser desafiadas pela crescente popularidade dos tablets e smartphones entre as mulheres. A pesquisa
68 quantitativa intitulada Too old for technology? How the elderly of Lisbon use and perceive ICT (Neves e Amaro, 2012), realizada com 500 pessoas com idade acima dos 64 anos, aponta que os homens usam mais os celulares, os computadores e a internet, mas esse trabalho conclui que o sexo, por si só, não é significativamente relevante para explicar o uso e o não uso dessas tecnologias. A pesquisa de Isabel Dias (2012) incidiu sobre 91 indivíduos e teve uma abordagem metodológica centrada em dados quantitativos e no descritivo de algumas características sociodemográficas da amostragem com objetivo de analisar a relação dos seniores mais jovens (55-65 anos) e dos mais velhos (com 66 anos ou mais) com o computador, a internet e o celular. Distintamente da pesquisa que referimos anteriormente (Neves e Amaro, 2012), esse estudo (Dias, 2012) ressalta a importância das diferenças entre sexo no uso da tecnologia: “apesar da tendência para um reduzido uso da internet entre os respondentes, ele é diferente em função do gênero e da idade dos seniores. São os idosos mais jovens e do sexo masculino que revelam uma maior utilização da internet que oscila entre muito frequente e pouco frequente” (2012, p. 64). Segundo os resultados, 52,9% das mulheres com mais de 66 anos dizem nunca ter usado a internet, enquanto 11,8 % dos homens na mesma faixa etária encontravam-se nessa categoria. A pesquisadora (Dias, 2012) também ressaltou um outro aspecto muito considerado entre os estudos sobre idosos e TIC: os baixos níveis de escolaridade da população mais velha. Portanto, essa autora também afirma que para além da idade, existe uma relação entre fatores como o sexo e a escolaridade no que diz respeito ao uso de algumas TIC, principalmente o computador e a internet. Inclusivamente, o estudo conclui que “este resultado exige que estejamos atentos ao ‘género’ da inclusão/exclusão digital nesta fase do ciclo da vida humana” (Dias, 2012, p. 74) e que se deve promover a utilização as novas tecnologias entre os seniores, sobretudo entre as mulheres idosas que manifestam níveis mais baixos de interesse. Não é unânime, mas a maioria dos estudos a que tivemos acesso afirma que os níveis de educação estão estreitamente ligados à capacidade de usar a internet: “quanto mais escolaridade o indivíduo possuir, melhor performance operacional,
69 formal, informal e estratégica terá com a internet” (Deursen, 2012, p. 181). Usar as TIC não significa somente ler no ecrã e escrever no teclado, também acarreta capacidade de tomar decisões, interagir com programas e outras pessoas, fazer transações de bens e serviços (Deursen, 2012). Essa ideia está de acordo com Katz e Rice (2002) que argumentam que grupos com baixa escolaridade são incapazes de aceder a conteúdos disponíveis na internet que supram suas necessidades. Então, baixos níveis de escolaridade podem funcionar como uma barreira importante para adotar e usar as TIC. A tecnologia de informação e comunicação mais usada entre os idosos é o celular (Neves e Amaro, 2012; Dias, 2012; Oliveira, 2011; Kachar, 2010b) e as pesquisas empíricas dão conta de que esse equipamento encontra-se fortemente presente nos seniores de ambos os sexos, de diferentes classes sociais e níveis de escolaridade, não havendo, por isso, diferenças significativas por padrões sociodemográficos (Neves e Amaro, 2012; Dias, 2012; Oliveira, 2011). Na pesquisa de Dias (2012), o celular encontrava-se fortemente presente nos seniores de ambos escalões etários (55-65 anos e 66 ou mais anos) e sexo. Observamos a mesma tendência em Neves e Amaro (2012) que concluiu que proporcionalmente à amostra, 71% das mulheres e 74.5% dos homens tinham um celular demonstrando que as diferenças entre os sexos não são significativas, ao contrário dos níveis de escolaridade, pois para os autores “Educação é significantemente relacionada com a posse de celular” (Neves e Amaro 2012, p. 12). Com o advento das tecnologias móveis como os smartphones e tablets surgiram novas formas de aceder à internet e criou-se uma expectativa que essas tecnologias pudessem modificar o acesso do idoso aos conteúdos online. Nesse sentido, trabalhos empíricos que analisem a importância dessas tecnologias móveis para estreitar o fosso digital que separa os cidadãos mais velhos dos mais jovens, indicando que este é um campo de pesquisa que precisa ser mais bem explorado, principalmente no Brasil e em Portugal. Possuir literacia mediática, ou seja, ser capaz de entender e usar as tecnologias de informação e comunicação (Gilster, 1998), pode ser um fator determinante para diferentes gerações e grupos de pessoas lidarem com suas vidas diárias (Roberto,
70 Fidalgo e Buckingham, 2014; Horrigan, 2014; Dias, 2012; Páscoa e Gil, 2015; LlorenteBarros, Viñarás-Abad e Sánchez-Valle, 2015; Horrigan, 2014). Teoricamente, os idosos deveriam acompanhar a evolução das novas tecnologias, pois têm o potencial de abolir diferenças e limites geracionais. Argumenta-se, no espírito pós-moderno, que a idade se tornaria irrelevante no mundo digital e virtual e o “‘novo velho’ terá a oportunidade de escolher entre estilos de vida e identidades ou, ainda mais espetacular, irá emergir através da tecnologia, como uma nova pessoa, um ‘tecno-indivíduo’” (Hagberg, 2012, p. 95). Para alguns especialistas o uso das tecnologias é visto como algo tão poderoso que faz com que o entendimento do conceito de idade possa ser modificado devido ao seu uso. A idade é apenas um indicador de passagem do tempo e o uso do computador pode traduzir-se numa alternativa ao nível dos relacionamentos e do entretenimento, bem como no combate ao isolamento social. Por outro lado, a utilização das TIC oferece ao idoso mais autonomia, maior bem-estar e integração social e, por conseguinte, maior índice de felicidade. Para além disso, ao se tornar num “ser digital”, o idoso, mais do que ter acesso à informação, adquire a possibilidade de atuar e interferir na sociedade, já que o uso do computador potencializa a partilha de conhecimento. Ou seja, a idade não foi justificativa para a exclusão do mundo digital. Pelo contrário, foi e deverá ser considerada uma motivação acrescida, no sentido de se consertar esforços e desenvolver iniciativas para que os idosos possam viver satisfeitos e mais elevados índices de qualidade de vida com o passar do tempo (Pereira e Neves, 2011, p. 25). Essas reflexões a partir dos resultados das pesquisas também nos relembra da importância de considerar que os idosos são heterogêneos e as pesquisas científicas deveriam considerar e incluir esse aspecto em suas abordagens. Existem estudos na literatura gerontológica que fornecem sólidas evidências de que os idosos são atualmente considerados como pertencentes a uma audiência muito diversificada (Dannefer, 1988; Wolfe e Snyder, 2003; Yang e Lee, 2010; Independent Age, 2010) por terem acumulado diferentes experiências de vida ao longo, de pelo menos, seis décadas chamada de aged heterogeneity por Dannefer (1988), algo que levamos em consideração no desenvolvimento da presente pesquisa.
71 Considerações finais Com o levantamento bibliográfico que fizemos, podemos afirmar que os estudos da relação de idosos com as tecnologias de informação e comunicação são uma temática que tem suscitado interesse científico, ainda que esse tópico de estudo ser somente uma parte do conhecimento produzido sobre envelhecimento, onde se destacam as pesquisas ligadas à saúde e ao bem-estar. A principal constatação que a literatura acadêmica aponta é que a idade ainda é o principal fator usado para identificar o fosso digital que separa os que usam dos que não usam as tecnologias de informação e comunicação, mas também a possibilidade que o uso e apropriação das tecnologias poderem ajudar os idosos a melhorar a sua qualidade de vida, para serem mais saudáveis e independentes obtendo melhor assistência em diferentes áreas de interesse. Outro aspecto transversal tanto nos estudos portugueses, brasileiros, como aqueles realizados em outros países é que as TIC e a internet podem diminuir a solidão, aumentar o acesso à informação, assim como a frequência da comunicação com familiares e amigos, resultado numa visão globalmente positiva das tecnologias. Também foi unânime que o celular é a tecnologia mais democrática entre a parcela da população com mais idade e que o seu uso não é determinado por características específicas. Existe uma forte política de investigação e interesse no "fosso digital" e as potenciais implicações da exclusão social para aqueles sem acesso às TIC. No entanto, as definições do fosso digital são muitas vezes simplistas e determinadas entre os que usam e os que não usam e não considerarem as diferentes TIC que existem nem os diferentes níveis de acesso, utilização e envolvimento com as tecnologias digitais. Mesmo assim, para aqueles com mais de 60 anos, os estudos mostram que têm sido amplamente excluídos de possíveis benefícios advindos de recursos ligados às tecnologias. As diferentes pesquisas identificaram uma necessidade da inclusão digital e uma maior demanda por cursos e programas com estratégias específicas para esta população para favorecer a atualização e a inserção social. Isso faz-nos refletir sobre a necessidade de desenvolvimento de uma abordagem aberta para a pesquisa
72 tecnológica e para o desenvolvimento de serviços e aplicações no domínio da saúde e bem-estar, bem como da socialização. Os relatórios estatísticos mostram que os adultos mais velhos são o segmento que mais cresce entre os usuários da internet e das tecnologias de informação e comunicação. Assim, nos próximos anos, um número cada vez maior de idosos se tornarão usuários das TIC e, consequentemente, enfrentarão novos desafios, algo que os trabalhos sobre TIC e idosos, apesar de alguns serem abrangentes, não contemplam. Contudo, em termos de políticas, os referidos resultados das pesquisas, portanto, parecem ser um aviso para desenvolver estratégias de política inclusiva para promover a inserção social através de tecnologias.
73 Capítulo 3 Contextos do estudo: as políticas de inclusão digital no Brasil e em Portugal com referência à população idosa Introdução As tecnologias da informação e comunicação estão presentes em muitos aspectos da vida contemporânea influenciando as maneiras como interagimos com o ambiente ao nosso redor. O volume de informações acessíveis a um clique ou ao toque de um dedo nunca foi tão grande fazendo com que sejamos diariamente confrontados com um grande volume de escolhas sobre questões do nosso dia a dia. Esses aspectos fazem com que seja importante possuir habilidade para gerir e avaliar as várias fontes de informação para, por exemplo, um melhor planejamento da aposentadoria, de cuidados de saúde e outras informações que podem facilitar as atividades do cotidiano. Por esse motivo, a capacidade de usar as tecnologias de informação e da comunicação e, em particular, a internet, pode ser considerada uma habilidade essencial e os adultos mais velhos ficam em desvantagem quando não possuem competências suficientes no gerenciamento de informações em ambientes digitais até porque “renunciar a um mundo cada vez mais tecnológico já não é uma opção viável” (OCDE, 2015, 3). Portanto, saber como acessar essas informações online ou resolver problemas através dessas tecnologias pode marcar a diferença entre estar ou não inseridos na sociedade e qualificados para tirar benefícios dessa utilização (OCDE, 2015). Como já referimos, os estudos que tratam da inclusão digital e que centram-se numa perspectiva entre utilizadores e não utilizadores têm, mais recentemente, ampliado seu campo de investigação por admitirem a complexidade em volta dessa
74 questão (Helsper, 2008). Provas da existência de uma relação direta entre inclusão digital e social, especialmente no que diz respeito à internet, têm sido o foco de estudos realizados por acadêmicos bem como instituições governamentais. Esses trabalhos têm demonstrado, de forma consistente, que os indivíduos que têm acesso às TIC tendem a ter maior escolaridade, maior rendimento e um estatuto profissional mais elevado do que aqueles que não usam as TIC. Também existe um corpo de prova emergentes de que as pessoas mais velhas que sofrem de exclusão social combinam desvantagens como baixas habilidades educacionais, más condições de saúde e de baixa renda e que também são susceptíveis de serem excluídas da sociedade da informação (Horrigan, 2014; Selwyn, Gorard e Furlong 2003, 2003; Gutzmann, 2000; Bower, 1997; Rapagnani, 2002). Esse tipo de constatação faz-nos refletir sobre o quão significativo é a ligação entre o digital e o social e os muitos aspectos que podem influenciar esse vínculo. A resposta a essa reflexão não é simplesmente uma preocupação acadêmica, mas tem implicações políticas e práticas importantes: se o acesso a recursos digitais pode promover a inclusão social, por exemplo, será importante apoiar e desenvolver iniciativas que promovem a inclusão digital das pessoas mais velhas, mesmo que essa não seja uma opção para todas elas. Isso porque, em média, os mais jovens (16-24 anos) e com escolaridade mais elevada têm melhores competências na resolução de problemas em ambientes tecnológicos ao contrário das pessoas idosas que se encontram no extremo oposto dessa classificação (OCDE, 2015) e entre a parcela da população que menos utiliza as TIC. Alcançar a inclusão de todos os cidadãos significa remover todas as barreiras culturais para a assimilação digital, como garantir a produção de conteúdo local, inclusive para populações indígenas e aprimorar o desenho e acessibilidade de serviços digitais ao fazer proveito de plataformas e tecnologias que já são utilizadas por grande parte da população, como celulares e mídias sociais (Ricart e Ubaldi, 2016, p. 39). Neste capítulo abordaremos alguns aspectos relacionados ao processo amplo de inclusão digital no Brasil e em Portugal com ênfase em como esse percurso vem incorporando ou não os idosos. Nossa discussão está estruturada da seguinte forma:
75 1Abordamos como se deu a implementação das políticas públicas voltadas para combater a exclusão digital em Portugal, que se iniciou na década de 1990 destacando a importância das diretrizes estabelecidas pela União Europeia e uma política mais preocupada com a inclusão do idoso. Discutimos esse processo no Brasil que se iniciou na mesma década, principalmente, através das lanhouses, da implementação dos telecentros e, mais recentemente, através do uso do telefone celular; 2A seguir, falamos sobre inclusão digital tendo como base os serviços do governo eletrônico em ambos os países, pois ter acesso a esses recursos é entendido como potencializador de aspectos econômicos, sociais, culturais, tecnológicos e políticos do desenvolvimento passando pela inclusão digital e social. Concluímos fazendo uma reflexão sobre os principais pontos abordados no capítulo, porém, antes de avançarmos para o contexto português e brasileiro, discutiremos alguns particularidades sobre exclusão digital e a sua relação com a exclusão social e que servirá se base para o desenvolvimento do capítulo. 3.1A relação entre a exclusão social e digital 3.1.1Inclusão social A exclusão social pode ser definida como a '"privação de bens, serviços e atividades que a maioria da população define como sendo as necessidades da vida moderna" (Gordon et al., 2000, p. 5). Esse é um conceito multidimensional e que deve incluir vários aspectos da vida podendo ser voluntária ou involuntária, enraizada em categorias sociais amplas e ligadas ou não a vários tipos de desvantagem e discriminação (Helsper, 2012; Chakravarty e Ambrosio, 2006). Assim, um indivíduo é socialmente excluído se não participar em atividades que são, normalmente, desenvolvidas pelos cidadãos da sociedade a que pertence (Burchardt et al., 1999). Um conceito que também ajuda a literatura sociológica sobre
76 desigualdades a determinar o que significa exclusão social foi apontado por Bourdieu (1986) como “capitais” ou “formas de poder" que influenciam a maneira como o indivíduo está presente na sociedade (Sallaz e Zavisca, 2007; Anthias, 2001). De acordo com esse modelo, deve-se reconhecer que a inclusão social é um conceito complexo e que para entendê-lo é necessário interrelacionar vários fatores, pois possuir diferentes recursos ou capitais é fundamental para o bem-estar e a plena participação na sociedade fazendo com que esses mediadores sociais também sejam facilmente indicadores de inclusão digital, como veremos mais à frente. Figura 2: Inclusão social Fonte: Bourdieu, 1997; Bennett et al., 2010 Inclusão social Capital social Capital pessoal Capital econômico Capital cultural Capital político Capital tecnológico
83 Altos níveis de acesso, habilidades e percepções e atitudes positivas não são suficientes para garantir a plena inclusão digital. Existem outras abordagens relacionadas ao uso que as pessoas dão as TIC e que podem ser analisadas através de uma lente qualitativa, enfocando a natureza ou o conteúdo do engajamento digital ou podem ser abordadas quantitativamente através de uma avaliação do número de atividades que as pessoas desenvolvem através das tecnologias (Helsper, 2008). Com exemplo, poderíamos citar as pessoas idosas que utilizam o celular para fazer e receber chamadas e, quando esse dispositivo tem ligação à internet, limitam-se ao uso das redes sociais digitais como o Facebook e o Whatsapp. Esse tipo de comportamento é uma boa forma de ilustrar como as pessoas limitam a potencialidade do uso das tecnologias que vai desde pesquisar ligadas à saúde até ao acesso a informações disponibilizadas nos sites do Governo. Também é importante identificar as diferenças entre os usuários completamente engajados, os flexíveis e aqueles que nunca utilizaram a internet (Dutton e Helsper, 2007), pois essa distinção é relevante para entender os processos que levam à exclusão digital. Além disso, entre os que não utilizam as TIC, deve-se levar em consideração as pessoas que usam esses serviços através de um facilitador, ou seja, alguém que estabelece uma ligação entre a pessoa que não tem acesso, não quer ou não sabe como utilizar uma determinada TIC. O mero acesso significa apenas isso: “aceder”. Não implica que o cidadão saiba como actuar quando acede, como utilizar os dispositivos disponíveis, como compreender os riscos envolvidos nas oportunidades de partilha e criação de conteúdos. E, ao invés do que por vezes se projecta, este saber não se remete ao plano da mera intuição, mas uma vasta área de formação e informação que tem que ser conduzida, pelo Estado e parceiros sociais, em molde de políticas públicas para as literacias mediáticas e digitais. Apenas elas poderão acautelar o seguro e regular funcionamento de uma Sociedade em Rede (Obercom, 2016b, p. 5). A continuidade também pode ser considerada como outra perspectiva de análise para a inclusão digital vinculada ao uso (Almuwil, Weerakkody, e El-Haddadeh, 2011; Helsper, 2012). Esse aspecto está ligado à ideia de que a internet e outras tecnologias da informação e da comunicação são parte da infraestrutura do cotidiano ao ponto de tornarem-se enraizadas na vida do cidadão fazendo com que seja difícil de
84 ver o “mundo digital” separadamente do "mundo real". Anderson (2005) descreve como a inclusão digital, muitas vezes, não consegue incorporar essa ideia de continuidade do uso das TIC especialmente em grupos que são vulneráveis à exclusão social como os idosos. As pessoas tendem a "entrar e sair" de tecnologias como a internet, dependendo das circunstâncias do dia a dia. Isto significa que em determinados pontos de suas vidas estão incluídas digitalmente, mas em outros estão excluídas. 3.2 Políticas de inclusão digital Apesar do aumento contínuo de acesso e utilização das TIC por todo o mundo muitas pessoas ainda estão offline e este grupo é formado principalmente por mulheres, idosos, com escolaridade baixa, baixo rendimento e que vivem na zona rural (ITU, 2016). Portanto, a inclusão digital ainda apresenta-se cheia de irregularidades e suplantar essas diferenças é um desafio mesmo porque a capacidade tecnológica de um país se tornou uma das principais formas de medir o seu desenvolvimento. Os dados mais recentes dão conta do cenário sobre a inclusão digital brasileira e portuguesa e ainda apontam as desigualdades de acesso à internet. Mesmo com um aumento contínuo do uso da internet e a importância de novas formas de acesso, como o telefone celular, 49% dos domicílios brasileiros ainda não têm acesso à internet, 34% da população nunca utilizou a internet e quando falamos exclusivamente da população com 60 anos ou mais esses números atingem os 78% (CGI.br, 2016). Em Portugal, 26% das habitações não possuem internet, 26% da população nunca utilizou a internet e com relação ao idoso (65-74 anos) essa percentagem chega a 77% de não utilizadores (INE, 2017). Se analisarmos com mais detalhe, mesmo entre esses 66% da população brasileira e 74% da população portuguesa que já acessou a internet estão separados por muitas disparidades em relação à variedade dos dispositivos tecnológicos utilizados, o tipo de rede e velocidade de conexão.
85 Essas diferenças são diretamente influênciadas por condições econômicas e educacionais que se tornam ainda mais marcantes quando são feitas comparações entre as diferentes regiões do Brasil (CGI.br, 2016) e de Portugal (Obercom, 2016a). Portanto, teoricamente, se pegarmos uma pessoa idosa portuguesa ou brasileira, que vive na zona rural, pertencente a classe social D ou E, com baixa escolaridade existe uma enorme probabilidade que nunca tenha acessado a internet. Constatações assim tão expressivas justificam, por si só, a implementação de políticas públicas de inclusão digital, que estão diretamente ligados ao direito a outros benefícios como “o direito à informação, direito aos serviços públicos, direito a ser ouvido pelo governo, direito ao próprio tempo, direito à participação na gestão pública e direito ao controle social dos governos. Outros poderiam ser acrescidos, como acesso ao trabalho, ao conhecimento e oportunidades econômicas” (Vaz, 2016, p. 57). 3.2.1 Políticas de inclusão digital em Portugal: a União Europeia e os idosos Os esforços europeus em relação à sociedade da informação iniciaram-se em 1993 com a publicação do White Paper ou “Livro Branco” fazendo referência ao crescimento, competitividade, emprego como pilares para enfrentar os desafios futuros do século 21 (Comissão Europeia, 1993). Este documento dedica toda uma secção à sociedade da informação por reconhecer que as tecnologias de informação e comunicação estão transformando dramaticamente muitos aspectos da vida econômica e social, como métodos de trabalho e relações, a organização das empresas, o foco em treinamento e educação e a maneira como as pessoas se comunicam com os outros. Isso tem resultado em ganhos importantes em produtividade na indústria e na qualidade do desempenho dos serviços. A nova “sociedade da informação” está emergindo de forma que a qualidade e a velocidade da informação são fatores chaves para a competitividade: como uma vantagem para a indústria como um todo e como um serviço fornecido para o consumidor final as tecnologias de informação e comunicação influenciam a economia em todos os estágios (Comissão Europeia, 1993, p. 92). O mesmo documento afirma que os países europeus dispõem do conhecimento e da experiência que são necessários para a implementação de um espaço comum da informação, mas que são fundamentais desenvolver esforços para
86 criar um enquadramento político que ponha em prática, o mais brevemente possível, ações necessárias para desenvolvimento de uma sociedade voltada para as tecnologias de informação e comunicação. A partir daí, formou-se um conselho que elaborou um plano de ação publicado em 1994 com o título de Europe’s Way to the Information Society que recomendou que os países membros deveriam estabelecer diretrizes regulatórias para o desenvolvimento de uma sociedade mais voltada para a tecnologia digital (Comissão Europeia, 1994). Para Portugal, o mais importante ponto de partida ocorreu antes do Brasil, e mesmo antes das diretrizes estabelecidas pela União Europeia, em 1991, com a criação do “Sistema Interdepartamental de Informação ao Cidadão – INFOCID” (OCDE, 2008). Essa iniciativa foi lançada na internet em 1995 e teve como meta tornar a administração pública e os cidadãos mais próximos através da disponibilização de “informação básica de que carece sobre direitos, obrigações e procedimentos nas relações estabelecidas entre estes e a Administração Pública, de forma simples, rápida e fiável” (Governo de Portugal, 1991, p. 2). Uma das ações do INFOCID que contribuiu diretamente para a inclusão digital foi a disponibilização, progressivamente, de quiosques multimídia distribuídos em todo o país. Essa ação foi considerada exemplar pela Organização de Cooperação e Desenvolvimento Econômico (Rodrigues, Simão e Andrade, 2003). Em 1994, Portugal, através do Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT), desenvolveu debates com o objetivo de elaborar estratégias com propostas de curto, médio e longo prazo, a ser apresentadas na Assembleia da República quando “os ministérios começam a tomar medidas globais e setoriais adequadas para a concretização do programa de governo no domínio sociedade da informação” (Rodrigues, Simão e Andrade, 2003, p. 92). Nos anos seguintes, foram lançados a “Iniciativa Nacional para a Sociedade da Informação e o Livro Verde para a Sociedade da Informação em Portugal” (Coelho et al., 1997) como um “orientador para todas as políticas relacionadas com a sociedade da informação e do conhecimento, ao englobar praticamente todas as áreas políticas, econômicas, sociais e educativas” (Gil, 2014, p. 90; OCDE, 2008). Essas orientações fazem alusão a um “Estado Aberto” ao referir-se à
87 relação entre o cidadão e os serviços públicos através do meio digital. O “Livro Verde para a Sociedade da Informação em Portugal” aborda os seguintes tópicos: A democratização para a sociedade da informação incluindo a responsabilidade social e o combate a desigualdades; Melhorar a eficiência da administração pública através de um Estado mais acessível ao cidadão; Disponibilização de conhecimento para o cidadão através da digitalização de conteúdos científicos, culturais e educacionais e da implementação de bibliotecas digitais; Desafios relacionados às escolas conectadas através do meio digital; Medidas voltadas para o setor empresarial, para a criação de empregos e para o mercado e indústria na sociedade da informação; Melhoria da qualidade de vida dos cidadãos e apoio a grupos desfavorecidos social e digitalmente; Implicações jurídicas da sociedade da informação; Melhoramento da infraestrutura nacional de informação; Investimento na investigação e desenvolvimento na sociedade da informação. Em um país que passa por um amplo processo de envelhecimento, o “Livro Verde” português faz nove referências ao cidadão idoso com o objetivo de integrá-lo na sociedade da informação juntamente com as outras camadas da população ao demonstrar preocupações relacionadas à sua inserção no mercado de trabalho, o desenvolvimento de software de fácil utilização, a telesegurança e o acompanhamento de idosos que estivessem limitados ao ambiente doméstico através das tecnologias. A única via para se conseguir o tipo ambicionado de desenvolvimento integral, com respeito pelos valores da democracia e da igualdade de oportunidades, é através do diálogo e da cooperação entre os cidadãos, as empresas e o Estado. Todos os intervenientes devem ser auscultados e devem poder participar na definição do caminho para as novas formas de organização e de vida em sociedade que são impulsionadas pelas profundas transformações em curso. Desse movimento têm de fazer parte as empresas, os seus trabalhadores, os professores, os jovens que estão no sistema de ensino, os idosos, os responsáveis políticos a nível nacional, regional e autárquico, e acima de tudo os próprios cidadãos (Coelho et al., 1997, p. 9).
88 Uma proposta que visa ajudar a concretizar a inclusão digital estabelecida no Livro Verde no que diz respeito ao cidadão português com necessidades especiais e onde se inclui o idoso foi criada em 1999 através da “Iniciativa Nacional para os Cidadãos com Necessidades Especiais na Sociedade da Informação” (Governo de Portugal, 1999). A ação teve o propósito de contribuir para que os cidadãos com necessidades especiais, mais especificamente, pessoas que possuíssem deficiências físicas e mentais, os acamados de longa duração e os idosos, pudessem se beneficiar das oportunidades advindas do uso das tecnologias da informação e da comunicação para uma maior inclusão social e para a melhoria de qualidade de vida. Um importante elemento na inclusão digital de pessoas idosas em Portugal é o telecentro conhecido como “Espaço Internet” onde qualquer pessoa pode aceder, de forma livre, a um computador e à internet, em banda larga, e com o auxílio de um monitor. Esses primeiros telecentros foram criados em 1998 no âmbito do projeto “Cidades Digitais” (Mortari, 2011) e seriam ampliados a partir de 2001 através do “Programa Operacional para a Sociedade de Informação” (2000-06) (Governo de Portugal, 2005). Iniciou-se uma terceira fase de implementação que ocorreu a partir de 2006 pela Agência para a Sociedade do Conhecimento (UMIC) do Ministério da Educação e Ciência. Esses telecentros estavam localizados em Autoridades locais, Concelhos paroquiais, bibliotecas públicas (301 bibliotecas em 308 municípios), instituições sociais, centros de inclusão digital, programas de desenvolvimento local, associações de cultura e lazer, entre outros e todos possuíam o mesmo objetivo de diminuir a exclusão digital em Portugal (FCT, 2013). Em 2010, existiam 1.172 unidades que permitiam o acesso livre aos computadores e à internet com sessões de formação e a presença de monitores (FCT, 2013). Para além da importância dos telecentros para a inclusão digital dos idosos, pode-se incluir as universidades seniores espalhadas por todo o país e que desempenham um papel fundamental no processo de qualificação dos idosos para a utilização das TIC (FCT, 2013). Assim, desde a década de 90, Portugal, tal como outros países da União Europeia, desenvolveu um conjunto de iniciativas para promover a inclusão digital
89 entre seus cidadãos e várias dessas ações incluem o grupo de cidadãos com necessidades especiais de onde também faz parte o cidadão idoso. Um importante marcador foi a Declaração Ministerial de Riga (União Europeia, 2006) aprovada depois da conferência ICT for an inclusive society, em 2006 e tem como base o reconhecimento de que, na época: As TIC eram responsáveis por 25% do PIB e cerca de 50% da produtividade dos países da União Europeia; Que as TIC contribuíam para a qualidade de vida e participação social destacando a importância das pessoas idosas terem acesso às tecnologias; O fato de que 57% dos cidadãos pertencentes a União Europeia não usavam regularmente a internet e somente 10% das pessoas com 65 anos ou mais usavam a internet. Esse documento (União Europeia, 2006) indica que devem ser desenvolvidas iniciativas nacionais, regionais e locais para tornar a inclusão digital mais ampla e proporcionar que os indivíduos tenham acesso a todos os aspectos da sociedade da informação, visando reduzir as lacunas entre os que usam e os que não usam as TIC com o objetivo de promover um melhor desempenho econômico, mais oportunidades de emprego e melhor qualidade de vida, participação e coesão social. Para isso, foi criada a iniciativa i2010 – a European information society for growth and employment (European Commission, 2005) com diretrizes para a inclusão digital na União Europeia até 2010. A ação i2010 esteve direcionada para as políticas eInclusion abordando questões relacionadas diretamente aos idosos ao fazer menção ao envelhecimento ativo, mas também ao fosso digital geográfico, à acessibilidade, à literacia e às competências digitais, à diversidade cultural e ao Governo eletrônico. Países implementarão, até 2008, ações de literacia e competências digitais, particularmente, através de sistemas de ensino formal ou informal recorrendo às iniciativas já existentes. Estas ações serão adaptadas às necessidades de grupos em risco de exclusão devido à sua situação social ou as suas capacidades e necessidades especiais, nomeadamente os desempregados, os imigrantes e as pessoas com baixo nível de escolaridade, pessoas com deficiência e idosos, bem como os jovens marginalizados, contribuindo para a sua empregabilidade e condições de trabalho. As lacunas atuais da literacia digital e competência entre estes grupos e a média da população devem ser reduzidas para metade até 2010. Progressos devem ser medidos
90 com base em indicadores disponíveis e em trabalhos futuros no contexto da i2010 (União Europeia, 2006, p. 4). A União Europeia lançou um plano de ação voltado exclusivamente para as pessoas mais velhas “Envelhecer bem na sociedade da informação - Uma Iniciativa i2010: Plano de Acção no domínio Tecnologias da Informação e das Comunicações e Envelhecimento" onde foram abordadas três áreas de necessidades do cidadão mais velho (Comissão Europeia, 2007, p. 5): Envelhecimento ativo no trabalho: permanecer ativo e produtivo por mais tempo, com melhor qualidade de trabalho e equilíbrio entre o trabalho e a vida privada com a ajuda de TIC de fácil acesso, de práticas inovadoras para locais de trabalho adaptáveis e flexíveis, de aptidões e competências TIC (competências digitais) e de uma aprendizagem assistida pelas TIC (aprendizagem em linha). Envelhecer bem na comunidade: permanecer socialmente ativo e criativo, através de soluções TIC para a criação de redes sociais, bem como do acesso aos serviços públicos e comerciais, melhorando assim a qualidade de vida e reduzindo o isolamento social (um dos principais problemas dos idosos nas zonas rurais, nas zonas com pequena densidade populacional e ainda nas zonas urbanas em que o apoio familiar é limitado). Envelhecer bem em casa: gozar de uma vida mais saudável e de uma qualidade de vida quotidiana mais elevada por mais tempo, assistida pela tecnologia, mantendo simultaneamente um grau elevado de independência, autonomia e dignidade. O fato de Portugal pertencer a um bloco de países com objetivos claros em relação à sociedade da informação e a inclusão digital, fez com que a implementação de suas iniciativas tivesse sido aparentemente consistente ao longo do tempo como podemos observar na seguinte lista cronológica que inclui algumas das iniciativas nacionais: • 1991 – INFOCID;
91 • 1997 - Livro Verde da Sociedade da Informação em Portugal; • 1999 - Iniciativa Nacional para os Cidadãos com Necessidades Especiais na Sociedade da Informação; • 2005 - Plano de Ação Nacional para o Crescimento e Emprego; • (2005-2010) - Ligar Portugal – Plano de Ação Nacional para a Sociedade da Informação 9 ; • (2005) Plano tecnológico; • 2006 - Plano de Ação Nacional para a Inclusão de Cidadãos com Necessidades Especiais. • 2007 - Plano de Ação Nacional para a Acessibilidade. • 2012 - Agenda Portugal Digital 10 • (2015 – 2020) Estratégia Nacional para a Inclusão e Literacia Digitais 11 • 2017 - Iniciativa Nacional Competências Digitais e.2030 12 A última iniciativa apresentada pelo Governo português ocorreu em março de 2017 e foi designada como “Iniciativa Nacional Competências Digitais e.2030 - INCoDe.2030” (Governo de Portugal, 2017). Esse documento apresenta um conjunto de ações estruturado em cinco eixos (inclusão, educação, qualificação, especialização e investigação) que vão orientar as ações em Portugal até 2030 com o objetivo de fazer frente a três desafios: • Garantir a literacia e a inclusão digitais para o exercício pleno da cidadania; • Estimular a especialização em tecnologias e aplicações digitais para a qualificação do emprego e uma economia de maior valor acrescentado; • Produzir novos conhecimentos em cooperação internacional. No eixo relacionado à inclusão digital, o INCoDe.2030 faz referência à necessidade de elevar a posição de Portugal que se encontra na média europeia em matéria de competências digitais e “reforçar as competências básicas em Tecnologias de Informação e Comunicação (TIC), sobretudo em termos do capital humano e dos 9 http://www.ligarportugal.pt/ 10 http://www.portugaldigital.pt/index/ 11 http://www.ticsociedade.pt/categorias-de-artigos/documentos 12 http://incode2030.pt/iniciativa
92 níveis de utilização da Internet, evitando que se cristalizem num limiar preocupante e, mesmo no que toca a especialistas, necessita de ter condições que lhe permitam aproveitar a crescente oferta de emprego digital” (Governo de Portugal, 2017, p. 3). Para isso, as recomendações vão no sentido de: Promover competências digitais dos cidadãos potencializando programas que desenvolvam essas literacias. Nesse item, uma referência é feita sobre ações que abordem as questões de gênero, pessoas portadoras de deficiência ou com necessidades especiais, grupo que, em muitos dos casos, estão incluídos os idosos; O desenvolvimento de sistemas disponíveis online que permitam a qualquer cidadão fazer um autodiagnóstico de suas competências digitais; Implementação de ações de formação destinadas à aquisição de competências necessárias para uma cidadania digital que inclua o acesso aos serviços do governo eletrônico tendo atenção aos grupos de cidadãos vulneráveis e os idosos; Desenvolvimento de uma plataforma agregadora de repositórios de recursos digitais necessários à formação potenciadora da inclusão, da literacia e da cidadania digitais, em língua portuguesa e de acesso aberto. Esta plataforma agregadora de recursos digitais visa responder às necessidades dos diferentes grupos da população e a sua concepção deve ser centrada no utilizador; Concepção e manutenção de um sistema que permita certificar as competências digitais dos cidadãos, de índole não profissional, através da atribuição de diploma de competências básicas, médias e avançadas, passível de reconhecimento também por via da obtenção de outras certificações. Todas as propostas desenvolvidas e implementadas por Portugal desde a década de 1990 têm ajudado a suplantar o fosso digital, contudo, como já referimos anteriormente, 26% da população portuguesa ainda não utiliza a internet (Governo de Portugal, 2017), uma proporção formada, em sua maioria, de pessoas idosas. Assim, como o programa INCoDe.2030 tem como meta chegar a 2030 com uma taxa de utilização da internet de 95% e, mesmo sabendo que a demografia portuguesa está em
99 não contemplarem os idosos, o que impossibilita uma análise de uma possível tendência ao longo do tempo, esses números são bastante inferiores à média das gerações mais jovens e chegam a 2% e 8%, respectivamente. Tabela 2: Uso de centros públicos de acesso pago pela população brasileira Ano Total da População Idosos 2008 48% (IBGE 2013) - 2012 19% (CETIC 2013) - 2013 18% (CGI.br 2014) - 2015 12% (CGI.br 2016a) 2% (CGI.br 2016a) Tabela 3: Uso de centros públicos de acesso livre pela população brasileira Ano Total da População Idosos 2013 5% (CGI.br 2014) - 2014 8% (CGI.br 2016a) - 2015 14% (CGI.br 2016b) 8% (CGI.br 2016b) Apesar de haver um aumento de uso da internet em estabelecimentos de acesso livre, esta tendência não significa, necessariamente, que a utilização da internet nos telecentros tenha aumentado. Isso quer dizer que, mesmo com as políticas públicas em diversos níveis promovendo o acesso gratuito à internet, é possível que esse aumento também ocorra devido a uma maior disponibilidade de pontos de acesso gratuito fornecidas por estabelecimentos como, por exemplo, centros comerciais, em resposta à crescente demanda para a utilização da internet em telefones celulares (CGI.br, 2016a).
100 Isso poderia ocorrer porque uma grande parte da população brasileira tornouse incluída digitalmente através do uso do telefone celular. Esse dispositivo presente em todas as camadas da população tornou-se o principal meio de acesso à internet ultrapassando qualquer tipo de computador, ou seja, entre os brasileiros que usam a internet (10 anos ou mais), 89% o fazem através do celular, um número bastante superior aos 65% que usam um computador de mesa, um computador portátil ou um tablet (CGI.br, 2016a). Portanto, o telefone celular é o dispositivo tecnológico mais utilizado para acessar a internet: 98 milhões de brasileiros com 10 anos ou mais usam a internet através do celular (56% da população). Contudo, as diferenças permanecem com as classes A (90%) e B (78%) com altas percentagens de acesso, enquanto as classes C (55%) e DE (28%) com os níveis mais baixos; as discrepâncias também são encontradas entre a população residente nas cidades com quase o dobro de acesso (60%) daquelas que vivem nas zonas rurais (32%); as faixas etárias também apresentam diferenças importantes no que concerne ao acesso da internet pelo celular, sendo mais comum entre os mais jovens de 16 a 24 anos (84%) e menos frequente entre os idosos com 60 anos ou mais 13% (CGI.br, 2016a). Dentre as pessoas que utilizam o telefone celular para acessar a internet, 35% fizeram-no exclusivamente através desse dispositivo. Se fizermos referência aos idosos, essa característica está mais presente entre as pessoas de menor poder aquisitivo, escolaridade mais baixa e aquelas que vivem na zona rural (CGI.br, 2016a). Isso pode ser um indicativo de que o preço da tecnologia é a falta de literacia seja um fator limitante para uma grande parcela dos brasileiros que, apesar de usarem a internet, ainda o fazem de maneira restrita. As atividades de maior valor agregado são justamente as mais requeridas pela nova economia digital. No entanto, elas pressupõem habilidades digitais mais complexas, que vão além do uso instrumental das aplicações corriqueiras como as de rede social ou de envio de mensagens, demandando uma maior apropriação das novas tecnologias e aplicações. Nesse sentido, o computador desempenha um papel fundamental para apropriação efetiva das tecnologias digitais pelos cidadãos – o que é mais desafiador para aqueles que somente acessam a rede pelo celular. É a partir da combinação do uso de diversos dispositivos e de aplicativos de maior complexidade que se possibilita o desenvolvimento de habilidades digitais mais sofisticadas. A promoção do desenvolvimento de habilidades no uso proficiente das novas
101 tecnologias digitais que garanta a formação de indivíduos capazes de operar em novos paradigmas sociais, culturais, políticos e econômicos permanece um desafio para as políticas educacionais e de formação profissional (CGI.br 2016a, p. 28). O aumento do uso do telefone celular também trouxe consequências como o acesso várias vezes por dia das redes sociais digitais implicando no “aumento da centralidade da rede no cotidiano dos cidadãos e têm como decorrência a emergência de novas configurações sociais, seja em novas formas de sociabilidade, seja em modelos diferentes de trabalho” (CGI.br, 2016a, p. 159). Assim, apesar de podermos afirmar que o telefone celular proporciona uma grande capacidade de inclusão digital, existem limitações advindas dessa realidade quando é o único dispositivo tecnológico de informação e comunicação utilizado, pois a proporção dos que realizam atividades online relativas ao governo eletrônico, por exemplo, é menor do que aqueles usuários que acessam a rede também por computadores (CGI.br, 2016a). 3.3Serviços do Governo a partir de plataformas digitais: e-governance e o cidadão idoso O aumento do uso e da penetração das tecnologias de informação e comunicação tem modificado as expectativas de como a população acessa os serviços disponibilizados pelo Governo. Isso faz com que os vários países venham debatendo formas de utilizar as TIC para melhorar o desempenho da administração de serviços públicos através do chamado e-Government (OCDE, 2009), também conhecido como eGov, governo eletrônico ou governo digital. O conceito de governo eletrônico tem ganhado contornos ao longo do tempo. Foi definido em 2001 como uma ferramenta de fornecimento de informação e prestação de serviços para os cidadãos (UNDESA, 2001) e, mais recentemente, em 2015, pelo Banco Mundial, de forma mais complexa: E-government se refere à utilização, pelas agências governamentais, de tecnologias de informação (tais como as redes sociais alargadas, a Internet e a computação móvel) que tenham a capacidade de transformar as relações com os cidadãos, as empresas e outros segmentos do governo. Essas tecnologias podem servir para diferentes finalidades: um melhor fornecimento de serviços do governo para os cidadãos, melhorar as interações com as empresas e a indústria, o empoderamento do cidadão
102 através do acesso à informação, ou uma gestão de governo mais eficiente. Os benefícios daí resultantes podem ser menos corrupção, maior transparência, maior conveniência, o crescimento da receita e/ou reduções de custo (Banco Mundial, 2015). Essa modificação do conceito e-Gov representa a própria evolução da importância das TIC na sociedade, mas também uma “compreensão multidisciplinar de governação numa visão integradora, holística dos processos administrativos” (Fernandes 2015, p. 14). Isso significa também que, quando as iniciativas para execução do governo eletrônico cumprem o seu papel, podem contribuir para a qualidade de vida dos cidadãos ajudando na criação de sociedades mais igualitárias e dinâmicas, desse modo beneficiando tanto os cidadãos quanto os Governos. As tecnologias digitais podem ser ferramentas poderosas que subsidiam mudanças expressivas nas relações governo-sociedade. Elas podem ajudar a aumentar a transparência e a prestação de contas, melhorar o acesso e a qualidade de serviços públicos, e facilitar processos de tomada de decisão, o que, em última instância, pode levar a uma maior confiança no governo e a resultados mais inclusivos. As tecnologias digitais também podem fomentar o aprimoramento da gestão e do uso de dados no setor público, permitindo, assim, a formulação de políticas públicas melhores e arranjos organizacionais e operacionais mais inteligentes. Isso, por sua vez, pode impactar a produtividade do setor público e criar instituições mais competitivas (Ricart e Ubaldi, 2016, p. 34). Contudo, apesar de ter todo esse potencial, o governo eletrônico também pode ser um meio que ajuda a apontar as desigualdades referentes à exclusão digital e, por vezes, social, em algumas parcelas da população. Uma das dificuldades apontadas para a implementação e desenvolvimento de iniciativas e-Gov é fazer com que chegue a todos, sendo a falta de acesso, uso e proficiência das TIC algumas das principais barreiras (OCDE, 2009). Isso faz com que, em muitos países, os progressos em expandir o governo eletrônico sejam limitados entre algumas parcelas da população (OCDE, 2015), com destaque para os idosos, os mais infoexcluídos e, consequentemente, aqueles que menos tiram proveitos desses serviços. Assim, embora muitas pessoas estejam se beneficiando do uso de serviços disponibilizados pelo governo eletrônico, há também cidadãos que caem através do fosso digital, principalmente, os adultos com 60 anos ou mais. Mesmo assim, são raras as referências, mais notoriamente, no
103 Brasil, de políticas públicas ou privadas que estejam voltadas, mais objetivamente, para essa parcela da população. A cada dois anos a Organização das Nações Unidas divulga índice de desenvolvimento de governo digital (E-Government Development Index - EGDI). O EGDI apresenta o estado de desenvolvimento do e-Gov dos 192 Estados membros das Nações Unidas. Juntamente com uma avaliação do desenvolvimento de padrão dos sites de um país, o EGDI incorpora as características de acesso, tais como a infraestrutura e níveis educacionais, para refletir como um país está utilizando as tecnologias da informação para promover o acesso e a inclusão do seu povo. O EGDI é uma medida composta de três dimensões do governo eletrônico, nomeadamente: prestação de serviços online, conectividade de telecomunicações e a capacidade humana. De acordo com o último índice de desenvolvimento de governo digital apresentado (Organização das Nações Unidas, 2016), Portugal ocupa a 38ª posição e o Brasil a 51ª no ranking mundial. Os cinco primeiros lugares são ocupados pelo Reino Unido, Austrália, República da Corea, Singapura e Finlândia. Para citar alguns bons exemplos dos primeiros colocadas da lista da ONU, o Reino Unido tem sido também líder global na implantação de novas tecnologias web como parte do objetivo de tornar o seu portal nacional GOV.UK "acessível a um público tão vasto quanto possível" (Berriman, 2012). Esse cenário de transformação tecnológica e digital também proporcionou ganhos de eficiência que resultou numa economia de £1.7 bilhões em 2014 (Foreshew-Cain, 2015). O Governo australiano, por sua vez, foi um dos primeiros a adotar e oferecer aos cidadãos um único meio para acesso a vários serviços interativos, tanto na esfera federal como local, que incluem assistência ao cidadão idoso e outros assuntos relacionados a certificados de nascimento, cuidados de saúde, impostos, procura de emprego, apoio à criança, por exemplo (UN, 2016). A Organização das Nações Unidas (2016) inclui as pessoas idosas no grupo de vulneráveis, juntamente com as crianças, pessoas com deficiência, trabalhadores migrantes, grupos minoritários e refugiados. A ONU afirma que menos de um terço dos países que fizeram parte do estudo oferece estratégias para retirar essas parcelas
104 da população da situação de “exclusão e-Gov”. Seguir as recomendações da Organização e Cooperação de Desenvolvimento Econômico (OCDE, 2009) ajudaria a contornar essa realidade. A OCDE sugere que, para incentivar a utilização mais ampla de serviços eGovernment, os serviços disponibilizados devem ser mais centrados no utilizador através da disponibilização de sites com design simples e uniformes em todas as áreas e conteúdos; e devem fornecer assistência às pessoas com menor literacia digital. Esse tipo de modificação nas plataformas e-Gov aumentaria a qualidade do serviço online e potencializaria a inclusão digital através de utilizadores mais plurais, nomeadamente públicos com limitações motoras, visuais, auditivas ou cognitivas onde, com mais facilidade, se incluem os idosos. Os Governos também devem considerar a proficiência da população na resolução de problemas usando as TIC quando eles fornecem acesso a serviços do Governo através da internet. Para contornar essa realidade, a OCDE recomenda que devem existir iniciativas que incentivem os adultos que têm um conhecimento limitado das competências em TIC para participar em programas de educação e formação de adultos que visam ajudá-los a desenvolver essas habilidades, mas também políticas públicas e privadas que ajudem a disponibilizar o acesso à internet. Como temos discutido ao longo deste capítulo, a infoexclusão é um conceito multifacetado e esse cenário torna-se mais complexo quando se refere às pessoas pertencentes à terceira idade, devido à heterogeneidade que lhes é natural (Dannefer, 1988; Loos, 2012). Incentivar as pessoas mais velhas a usar as TIC requer entendimento do comportamento dessa população bem como os fatores que influenciam a aceitação e a utilização das tecnologias digitais (Phang et al., 2006). Existem vários fatores que influenciam na decisão de uma pessoa idosa em usar ou não uma tecnologia digital e, consequentemente, os serviços do governo eletrônico e isso não se diferencia muito do uso da tecnologia em geral onde se inclui a percepção de segurança, utilidade e facilidade de uso das TIC, por exemplo (McKnight, 2001; Kim, Ferrin e Rao, 2008).
105 3.3.1Governo eletrônico no Brasil e em Portugal A implementação de estratégias para o governo eletrônico no Brasil surge nos anos 2000. As primeiras ações vieram com o Decreto Presidencial de 3 de abril de 2000 (Governo Brasileiro, 2001), a partir do qual se criou um grupo de trabalho cujo objetivo era examinar e propor políticas, diretrizes e normas relacionadas às “novas formas eletrônicas de interação”. Esse grupo verificou que o Brasil deveria iniciar a implementação do governo eletrônico a partir de uma realidade bastante negativa. Destacou, principalmente, a exclusão digital no Brasil e a existência de uma infraestrutura deficiente formada por uma malha de múltiplas e diversas redes administradas de forma isolada que não obedeciam a padrões de desempenho e interatividade, com interfaces difíceis de serem utilizadas e uma falta de uniformidade entre os diversos órgãos governamentais na utilização das TIC (Governo Brasileiro, 2000). A segunda fase ocorreu através da criação do Comitê Executivo do Governo Eletrônico, com o objetivo de formular políticas, coordenar e articular as ações de implantação do e-Gov (Governo do Brasil, 2000a). A partir desse cenário pouco favorável, a execução do governo eletrônico vem através de esforços para disponibilizar informações, prestação de serviços para os cidadãos mas, especialmente, através do desenvolvimento de infraestrutura para acesso à internet (Gil-Garcia e Lanza, 2016). Esses esforços, como já discutimos ao longo deste capítulo, ainda estão a decorrer, pois grande parcela da população ainda se encontra infoexcluída. Ao longo dos últimos 15 anos, o Governo brasileiro executou várias ações para contornar essa realidade. Entre outras, pode-se destacar as seguintes (Governo Brasileiro, 2016): 2000 – Grupo de Trabalho em Tecnologia da Informação (GTTI); 2002 – Portal Brasil; 2004 – Departamento de Governo Eletrônico; 2006 – Portal de Inclusão Digital (atualmente fora do ar); 2008 – Padrões Brasil e-GOV e Portal de Convênios; 2010 – e-Nota; 2011 – Portal Brasileiro de Dados Abertos;
106 2013 – Identidade Digital do Governo (IDG); Novo Portal Brasil; 2014 – Participa.br; 2015 – Dialoga Brasil. Apesar do sucesso inicial que levou o Brasil a ocupar a 18ª posição na classificação mundial divulgada pela Organização das Nações Unidas (UN, 2016), o programa do governo eletrônico perdeu prioridade depois de 2003 em consequência de mudanças de Governo, falta de coordenação e de investimento financeiro. Como consequência, o Brasil passou para a 57º posição em 2014 (Gil-Garcia e Lanza, 2016). As últimas metas lançadas pelo Governo brasileiro foram anunciadas em 2016 com o objetivo de serem cumpridas até 2019. O conceito de governo eletrônico é “expandido para o de governança digital, segundo o qual o cidadão deixa de ser passivo e se torna partícipe da construção de políticas públicas que já nascem em plataformas digitais, abrangendo não só a internet, mas também outros canais como a TV Digital” (Governo Brasileiro, 2016, p. 10). Apesar de um novo paradigma, os objetivos são uma continuação de políticas anteriores que não foram cumpridas inteiramente, relacionadas ao acesso à informação por parte dos cidadãos, à prestação de serviços disponibilizadas pela administração pública e uma maior participação social a partir das tecnologias de informação e comunicação. No caso de Portugal, as primeiras iniciativas foram feitas, pelo menos, nove anos antes do Brasil e, desde então, várias ações foram implementadas. Entre as quais, se destacam as seguintes: 1991 – Criação do Secretariado para a Modernização Administrativa; 1992 – Criação do INFOCID; 1994 – Criação do Sistema de Apoio ao Empresário 1995 – Lançamento do site do INFOCID 1997 – Criação do SAC – Serviço de Atendimento ao Cidadão 1999 – Abertura da primeira Loja do Cidadão 2000 – Serviço Público Direto 2001Criação IIAE
107 2002 – Extinção IIAE e criação IGLC 2004 - Criação da UMIC 2006 – Criação do Programa Simplex 2007 - Criação do Cartão do Cidadão 2014 – Programa Simplificar 2015 – Novo Portal do Cidadão Ao contrário do Brasil, a importância da temática tem suscitado conformidade entre as sucessivas forças políticas desde a década de 1990 (Fernandes, 2015) e pode ter sido impulsionada também pelas iniciativas conjuntas da União Europeia o que vem acontecendo em um campo mais amplo da inclusão digital. A primeira delas (Gil, 2014) foi chamada de plano de ação “eEurope 2002 – Uma sociedade da informação para todos” (União Europeia, 2000). Desde então, surgiram outras que vêm servindo de instrumentos políticos para impulsionar a modernização da administração pública dos Estados membros através de ações conjuntas do e-Government (European Commission, 2016). Em 2016, a União Europeia apresentou o mais recente plano de ação - EU eGovernment Action Plan 2016-2020 - Accelerating the Digital Transformation of Government (European Commission, 2016) - com o objetivo de tornar, até 2020, as administrações públicas e as instituições públicas abertas, eficientes e inclusivas, fornecendo serviços personalizados, de fácil uso tornando-os acessíveis a todos os cidadãos e empresas da UE. Dentro do contexto de inclusão e a acessibilidade, o documento faz referência à necessidade das administrações públicas projetarem serviços públicos digitais que atendam as necessidades de idosos e pessoas com deficiência. Um cenário detalhado sobre o e-Gov em Portugal é apresentado pelo Eurostat (2017). Os números apontam que 45% dos cidadãos portugueses interagiram órgãos do Governo através da internet durante o ano 2016; e que a combinação entre possuir idade entre 55 e 74 anos, estar desempregado, inativo ou aposentado e ter baixa educação formal diminui a possibilidade de usar esses serviços, principalmente: obter informações (38%); fazer download de documentos oficiais (27%), e enviar
108 documentos para entidades públicas (30%). Henrique Gil (2014) contribui para a discussão ao falar sobre a exclusão digital do idoso e a sua influência no uso dos serviços do governo eletrônico no contexto português, e esses mesmos argumentos seriam facilmente relacionados à realidade brasileira: No caso dos idosos portugueses, esta problemática parece poder acentuar-se pelo facto de ao longo da sua carreira e/ou percurso profissional não ter havido uma exposição e uma utilização sistemática das TIC pelo que são, em termos gerais, considerados como analfabetos digitais. Esta situação afasta os cidadãos mais idosos das TIC, não somente pela resistência que lhes fazem mas, fundamentalmente, por se sentirem desconfortáveis por não as saberem utilizar. Neste contexto, os objetivos associados ao e-Governo pretendem que as TIC promovam, ao inverso do exposto, oportunidades para que os cidadãos mais idosos possam tornar-se infoincluídos (Gil, 2014, p. 83). Como veremos na tabela abaixo, os números referentes a Portugal encontramse em desvantagem em relação à média da União Europeia, com exceção das pessoas com educação formal média e alta. Isso demonstra que os cidadãos mais velhos e com baixa escolaridade são os que têm mais dificuldades em interagir através do governo eletrônico, necessitando, portanto, de maior atenção das políticas públicas. Devemos destacar também que os dados referentes a Portugal não fazem nenhuma menção aos indivíduos com 75 anos ou mais. Esse fato faz-nos refletir como as pessoas pertencentes à categoria dos chamados velhos-velhos - uma faixa etária que tem crescido a cada ano e, portanto, tem ganhado importância social - são, simplesmente, excluídos das estatísticas europeias, o que faz com que prejudique uma análise mais completa desta parcela da população.
115 Capítulo 4 Metodologia para estudo sobre a relação de idosos com as tecnologias no Brasil e em Portugal Introdução Nos capítulos anteriores, discorremos sobre a importância de incluir e fundamentar a presente pesquisa em modelos e teorias sociais ligadas à gerontologia e a sua relação com o uso das tecnologias de informação e comunicação; fizemos um levantamento e uma discussão de trabalhos desenvolvidos em Portugal, no Brasil e em outros países sobre a relação entre os idosos e o uso e apropriação das TIC; e falamos sobre políticas públicas de inclusão digital nesses dois países. Assim, a tese foi estruturada em torno de uma exploração teórica, mas também propusemos uma investigação empírica qualitativa que trataremos a partir de agora. Para este capítulo, procedemos à apresentação das orientações metodológicas utilizadas na tese e à descrição de como decorreu e foi organizada a investigação empírica. Para isso, estruturamos este capítulo da seguinte forma: 1Apresentamos a pergunta de partida e os pontos específicos que pretendemos alcançar na pesquisa; 2Discorremos sobre a abordagem metodológica qualitativa e a sua adequação para o desenvolvimento deste estudo; 3Falamos como se deu a preparação para a pesquisa de campo e o estabelecimento de contato com as instituições participantes; 4Apresentamos o processo de constituição da amostra e as características sociodemográficas e de usos das TIC dos participantes; 5Apresentamos as estratégias e instrumentos utilizados na recolha de dados que engloba a observação não participante, grupos de foco e entrevistas individuais;
116 6E fazemos uma abordagem de como os dados foram tratados com base em categorias de codificação a partir do uso do software Maxqda; 4.1Pergunta da pesquisa Introduzimos, uma vez mais, a pergunta que conduz esta pesquisa: de que formas os usos e a apropriação das tecnologias de informação e comunicação influenciam no envelhecimento ativo de pessoas com 60 anos ou mais no Brasil e em Portugal? O conceito de envelhecimento ativo é bastante amplo e engloba vários aspectos do processo de envelhecimento, como já foi discutido nos capítulos anteriores, mas concentramos nossa atenção no que concerne à participação social de pessoas idosas. A partir das conclusões do levantamento bibliográfico que realizamos sobre as temáticas abordadas neste trabalho, as teorias que nos servem de base, assim como o objetivo de realizar um trabalho que englobe dois países com contextos próprios no que concerne ao uso de tecnologias de informação e comunicação por pessoas idosas, reapresentamos as seguintes categorias de análise de forma a responder a pergunta que norteia a nossa pesquisa: Analizar se o contexto social em que estão inseridos os idosos que participaram nesta pesquisa influencia na inclusão ou exclusão digital e no processo de envelhecimento ativo no que diz respeito à participação social; Analizar se os conceitos presentes na teoria da atividade, no modelo otimização seletiva com compensação e na teoria da inovação do envelhecimento bem-sucedido são identificados na relação dos idosos com o uso e apropriação das tecnologias de informação e comunicação (computador, celular e tablet com ligação à internet), como uma forma de enfrentamento para os constrangimentos relacionados ao processo de envelhecimento avançado e promoção de um envelhecimento ativo e socialmente participativo; Analizar quais são as percepções pessoais dos idosos que fizeram parte dessa pesquisa sobre as TIC relacionadas a: 1. Vantagens;
117 2. Obstáculos; 3. Riscos; 4. Desvantagens; 5. Motivações. Analizar em que aspectos os idosos brasileiros e portugueses que participaram nesta pesquisa se aproximam e se afastam nas relações que possuem com as tecnologias de informação e comunicação, nomeadamente, o computador, o celular e o tablet com ligação à internet. Procuramos evitar a tendência de ter as mídias no centro da discussão ao perguntar o que fazem com as pessoas e sim, “perguntar às pessoas, com diferentes características sociais e, portanto, com diferentes possibilidades para controle, acesso, participação, experiências e técnicas, diferentes competências e habilidades, o que fazem com os media” (Halloran, 1989, p. 6). Portanto, a presente pesquisa estimula que pensemos as potencialidades e os desafios que se colocam à pesquisa em dois campos, Portugal e Brasil, sobre a relação dos idosos com as tecnologias de informação e comunicação, contrariando uma visão voltada para o nacional e favorecendo a identificação de novas perspectivas a partir do conhecimento que surge com este trabalho. Para responder a pergunta principal e as demais pontos que objetivamos alcançar, usamos a metodologia qualitativa que discorremos a partir de agora. 4.2Abordagem metodológica qualitativa: iluminar o geral ao focar no particular Para a abordagem metodológica, a “ciência social interpretativa” serve como base para a presente investigação. As origens dessa perspectiva foram identificadas com os escritos do sociólogo alemão Max Weber (Cunha, 2004) e é apontada como tendo uma profunda influência sobre como pensar o papel e o impacto das mídias nas sociedades. Esses pressupostos estão de acordo com a orientação desenvolvida pelo ramo da filosofia conhecido como hermenêutica, que defende que a vida humana é
118 baseada na interpretação e que desenvolver e trabalhar com os diversos sistemas interpretativos constitui uma das características do ser humano (Perecman e Curran, 2006). Lawrence Neuman, em seu trabalho sobre metodologias de pesquisa, reforçou essa afirmação quando disse que "a ciência social interpretativa também se relaciona com a hermenêutica, a teoria do significado que teve origem no século XIX, mas é amplamente encontrada em ciências humanas. Destaca-se por uma análise pormenorizada de texto, que pode ser uma conversa transcrita, palavras escritas ou imagens" (Neuman, 1994, p. 61). Essa abordagem metodológica defende a ideia de que as pessoas transmitem experiências subjetivas através de textos e de que uma inspeção minuciosa desses textos pode revelar percepções, sentimentos e motivações diversas. Na visão interpretativa os pesquisadores devem ter em consideração o significado da ação social, ou seja, uma ação para a qual as pessoas atribuem significado subjetivo - a atividade com um propósito ou intenção. Portanto, concentra a atenção nas “forças internas que mobilizam os indivíduos no lugar de se concentrar nos fatores externos e observáveis” (Silvestre, 2011, p. 27). Existem diversas linhas de interpretação em ciências sociais, incluindo a pesquisa social qualitativa que deriva de um critério “semiótico ou pragmático do real, com ênfase no significado das coisas e na interacção entre o sujeito conhecedor e o objecto conhecido – é esta interacção que dita a participação como método de pesquisa” (Silvestre, 2011, p. 170). O estudo qualitativo, por conseguinte, é uma técnica metodológica destinada a discutir e compreender a realidade social e, assim, tem a mesma justificação teórica que outras estratégias, nomeadamente a metodologia quantitativa (Martins, 2006). Nas instâncias críticas, as metodologias qualitativas caracterizam-se pela significância da ordem das coisas e da compreensão coletiva (Silvestre, 2011). Amaro (2006, p. 162), diz que “o uso de métodos e técnicas qualitativas é especialmente útil quando, mais do que medir um fenômeno, se pretende compreendê-lo ou captar dimensões ou atributos que são por vezes bastante importantes, mas que têm pequena expressão numérica”. Portanto, a pesquisa qualitativa incide sobre
119 informações que não podem ser medidas como, por exemplo, palavras, textos, imagens ou gráficos e utiliza uma conduta indutiva e exploratória com o objetivo de desenvolver ideias fundamentando-se nas correntes interpretativas das Ciências Sociais e Humanas. Como nosso objetivo foi o de investigar uma realidade atual dentro de contextos sociais, para a recolha de dados, optamos por uma investigação empírica fundamentada no estudo de caso. Esse método de estudo foi-nos útil na medida em que buscamos oferecer uma melhor compreensão dos usos e da apropriação das tecnologias de informação e comunicação durante o processo de envelhecimento de idosos portugueses e brasileiros com características específicas que serão detalhadas mais à frente. Yin (2015) define estudo de caso em duas partes: “1. O estudo de caso é uma investigação empírica que investiga um fenômeno contemporâneo (o “caso”) em profundidade e em seu contexto de mundo real, especialmente quando os limites entre o fenômeno e o contexto puderem não ser claramente evidentes. 2. A investigação do estudo de caso enfrenta a situação tecnicamente diferenciada em que existirão muito mais variáveis de interesse do que pontos de dados, e, como resultado, conta com múltiplas fontes de evidência, com os dados precisando convergir de maneira triangular, e como outro resultado beneficia-se do desenvolvimento anterior das proposições teóricas para orientar a coleta e a análise de dados” (Yin 2015, 17). Nossa escolha baseia-se no fato de que podem ser descobertos novos cenários a partir de um olhar voltado para um caso específico resultando em implicações mais vastas e, sobretudo, que não teria chegado à luz através do uso de uma estratégia de investigação que tentasse fazer a cobertura de um grande número de instâncias. Consideramos, à vista disso, a abordagem qualitativa desde um estudo de caso apropriada para investigar a relação entre idosos e TIC, pois, ao optarmos por essa estratégia, tomamos a decisão de dedicar esforços de forma a criar uma oportunidade de aprofundar conhecimentos em pormenor. Assim, o objetivo é o de compreender melhor um contexto amplo ao olhar para o particular e focar no detalhe (Denscombe, 2010). Dessa maneira, a recolha de informações, a começar por um estudo de caso, funciona melhor quando o
120 pesquisador deseja investigar uma questão em profundidade e fornecer uma explicação que pode lidar com a complexidade e sutileza de situações da vida real. Contudo, estudar o detalhe não impede de tratarmos o caso como um todo, abordando várias questões e, assim, ter uma chance de ser capaz de descobrir como algumas partes afetam um contexto mais complexo. A esse respeito, tendemos a entender os fenômenos como um todo em vez de lidar com fatores isolados, ou seja, explicar por quais as razões o processo de envelhecimento avançado de dois grupo de idosos no Brasil e em Portugal podem ser influenciados pelo uso e apropriação de TIC, focando nossa atenção nos relacionamentos e processos. Como Yin (2015) salienta, “o caso” é um fenômeno que ocorre naturalmente e existe antes de o projeto de investigação, e espera-se, continue a existir uma vez que a investigação tenha terminado. Por conseguinte, pegamos como objeto de estudo, pessoas com 60 anos ou mais que frequentam cursos de informática em instituições destinadas a pessoas mais velhas, pois, como já referimos, o caso que constitui a base da investigação não é uma situação que é artificialmente gerada especificamente para fins de investigação. Apesar de esta pesquisa ser de caráter qualitativo, não deixamos de considerar o viés quantitativo sobre a população e sociedade no Brasil e em Portugal, principalmente, no que concerne às pessoas com 60 anos ou mais e uso das tecnologias de informação e comunicação. Como já observados, os dados quantitativos da população portuguesa e brasileira foram obtidos, sobretudo, a partir da consulta de informações de sites de instituições brasileiras e portuguêsas (como IBGE, CETIC, INE, Pordata e Obercom). Uma ênfase maior na abordagem qualitativa deve-se ao fato de que, apesar de considerarmos importante a contextualização através da quantificação para entender a evolução da utilização do computador, do celular, do tablet e da internet entre as pessoas idosas, essa abordagem não seria tão eficiente para discorrer sobre “como” e “porque” essas tecnologias digitais afetam o envelhecimento ativo no que concerne à participação social. O método estudo de caso pode ser vulnerável a críticas em relação a generalizações feitas a partir de suas conclusões. Por essa razão, temos o cuidado de
121 deixar claro que este estudo não tem a pretensão de ser representativo das populações idosas no Brasil e em Portugal, mas diz respeito somente ao grupo de pessoas que participaram da pesquisa, mas que, como já discutimos nesse capítulo, instiga uma reflexão ampla. Uma das características do método estudo de caso é que permite e, até mesmo, encoraja o pesquisador na utilização de uma variedade de meios para a recolha de dados, assim como a aplicação de diferentes métodos de investigação como parte da pesquisa (Denscombe, 2010). No nosso caso, usamos observação não participante, grupos de foco e entrevistas individuais que abordaremos a seguir. 4.3Portugal e Brasil: uma pesquisa, dois campos 4.3.1Instituições participantes A investigação empírica em Portugal se deu na Universidade Setubalense da Terceira Idade na cidade de Setúbal (UNISETI) e no Brasil na Universidade da Maturidade (UMA) em Palmas, no Estado do Tocantins (tabela 7). A UMA é um projeto de extensão desenvolvido na Universidade Federal do Tocantins desde 2006 com financiamento público. Segundo a sua proposta, tem como objetivo a valorização da participação do idoso na sociedade através da integração de pessoas com 55 anos ou mais como alunos de graduação visando a melhoria de qualidade de vida. Para isso, conta com um espaço de convivência social e de aquisição de conhecimento voltado para o processo de envelhecimento avançado de qualidade. Assim, realizamos nossa pesquisa com alunos pertencentes às turmas de 2015 e 2016 e que, de acordo dados recolhidos nos arquivos da UMA, totalizavam 74 pessoas, maioritariamente do sexo feminino (84%), principalmente com idades entre 60 e 69 anos (48%), com 41% deles com escolaridade correspondente ao nível médio, 22% viviam só e 47% disseram viver acompanhadas de uma única pessoa. Em Portugal, a recolha de dados foi realizada na Universidade Setubalense da Terceira Idade (UNISETI), uma cooperativa de ensino sem fins lucrativos fundada em 2003. Seu objetivo consiste no desenvolvimento de atividades educativas, culturais e formativas direcionadas para pessoas da terceira idade através da disponibilização de
122 cursos nas áreas de educação, cultura e saúde com o objetivo de promover a melhoria da qualidade de vida dos seniores. De acordo com os dados mais recentes fornecidos pela UNISETI, em 2014, contava com 326 alunos com as seguintes características sociodemográficas: encontravam-se, principalmente, com pessoas com idades entre 60 e 69 anos (60%); a maioria composta por pessoas do sexo feminino (76% mulheres, 34% homens); 42% com escolaridade correspondente ao nível superior ou médio (29% e 13%, respectivamente); e 38% disseram viver só e 51% acompanhados de uma única pessoa. Tabela 6: Dados Sociodemográficos UNISETI* e UMA** UNISETI UMA Mulheres 76% 84% Homens 34% 16% 55-59 anos 10% 24% 60-69 anos 60% 48% 70-79 anos 20% 22% 80 ou mais anos 5% 4% Vive só 38% 22% Vive acompanhado de uma pessoa 51% 47% Vive acompanhado de duas ou mais pessoas 11% 31% Ensino Fundamental (completo/incompleto) 58% 37% Ensino Médio 13% 41% Ensino superior 29% 12% Total de alunos 362 74 Fonte: UMA; UNISETI *2014 **2015/2016
123 Tabela 7: Dados População Setúbal e Palmas – TO Setúbal * Palmas ** População 117.973 286.787 (estimativas 2017) Densidade populacional 512,2 hab/km² 102,9 hab/km² Jovens (menos de 15 anos) 16% 26,63% População em idade ativa 63,6% (15 a 64 anos) 69% Idosos 20,4% (65 ou mais) 4,37% (60 ou mais) Índice de envelhecimento 134,1 (idosos por cada 100 jovens) 10.3% Índice de desenvolvimento humano - IDH 0,891 0,788 * Fonte: PORDATA, 2015; INE, 2013 ** Fonte: IBGE, 2010 Figura 4: Mapa do Estado do Tocantins – Brasil Fonte: Google Maps
124 Figura 5: Mapa do Distrito de Setúbal Fonte: Google Maps 4.3.2Preparação para a pesquisa de campo A pesquisa de campo se deu entre abril e outubro de 2016 e os três meses anteriores a sua realização foram dedicados a prepará-la. Elaboramos os guiões dos grupos de foco e das entrevistas semiestruturadas em profundidade e estabeleceremos contato mais direto com as instituições onde decorreriam as pesquisas para que fossem ajustados pontos específicos sobre a realização da recolha dos dados. Para isso, enviamos à UNISETI e à UMA um plano e cronograma pormenorizados de pesquisa e, em contrapartida, solicitamos uma autorização formal (anexos I,II,III) aceitando receber a investigadora para o desenvolvimento da pesquisa empírica e garantindo as condições necessárias para o bom desenvolvimento desse
131 necessidade de usar meios técnicos especiais (Boni e Quaresma, 2005), recolhemos e registramos acontecimentos ligados à realidade dos idosos no que toca ao aprendizado de conhecimentos informáticos. Essas observações serviram para entendermos melhor como se relacionam com as tecnologias de informação e comunicação, mais especificamente com computador e com a internet. Para o registro, recorremos a um diário de campo onde anotamos o dia a dia das dinâmicas nas salas de aula que incluíram uma descrição detalhada das atividades desenvolvidas durante o curso de informática, assim como falas dos professores, mas, principalmente, dos alunos sobre quaisquer aspectos que estivessem interesse para a pesquisa. Essa fase também foi importante para termos uma maior familiaridade com as pessoas que fizeram parte da pesquisa, essencial para as fases seguintes do processo de recolha dos dados quando necessitaríamos ter um maior envolvimento com os alunos para o desenvolvimento dos grupos de foco e entrevistas individuais. A observação não participante exigiu-nos a capacidade de ver, interpretar, avaliar e anotar informações que fossem relevantes para alcançar os objetivos da pesquisa. Para isso, tentamos ser o mais objetivos possível na recolha de dados e na postura dentro das salas de aulas. Contudo, no início do processo da observação não participante foi especialmente difícil captar um comportamento natural dos participantes, pois percebemos que alteraram os seus comportamentos, tanto alunos como professores, pelo fato de estavam sendo observados pela pesquisadora. Isso deu-se em Portugal, devido ao tamanho reduzido da sala de aula da UNISETI (havia somente uma pequena sala de aula com sete computadores que era utilizada por todas as turmas de alunos, em horários específicos), como pode ser observado na figura 12, o que fez com que a presença da investigadora fosse destacada. Esse aspecto ocorreu mesmo depois da explicação dos objetivos da pesquisa e depois de ter pedido autorização verbal a todos os professores e alunos. Poderíamos também apontar que esse obstáculo inicial deveu-se também por questões culturais, pois é sabido que o cidadão português tem uma postura menos aberta no que diz respeito a interações sociais, se comparado ao brasileiro, e isso verificou-se na pesquisa.
132 Figura 7: Alunos de informática da UNISETI Fonte: Imagem da autora Figura 8: Alunos de informática da UNISETI Fonte: Imagem da autora
133 Figura 9: Alunos de informática da UNISETI Fonte: Imagem da autora Figura 10: Alunos de informática da UNISETI Fonte: Imagem da autora
134 Figura 11: Alunos de informática da UNISETI Fonte: Imagem da autora Figura 12: Alunos de informática da UNISETI Fonte: Imagem da autora
135 Para uma boa aplicação dessa metodologia, portanto, foi essencial a capacidade de distinguir um comportamento normal da mudança de comportamento que pode ocorrer como resultado da presença da investigadora. Assim, nos primeiros dias, a pesquisadora evitou tirar notas durante as aulas, optando por fazê-lo após a sua finalização. Todo esse contexto de “desconfiança” obrigou-nos a prolongar o período que inicialmente tínhamos pensado ser suficiente para recolher informações a partir da observação não participante em Setúbal, de forma que a pesquisadora ganhasse confiança dos investigados e ultrapassasse esse problema. Suplantada essa dificuldade inicial, o fato de terem salas pequenas e com menos alunos resultou benéfico no sentido em que se tornou eficaz para perceber pequenos detalhes como conversas paralelas, pequenas observações sobre o uso das tecnologias ou mesmo a linguagem não verbal. No caso da UMA, onde as salas de aula eram maiores, a presença da investigadora foi suavizada. As aulas eram realizadas em duas salas diferentes: uma para aulas teóricas (figura 15) e outra no laboratório de informática, para as aulas práticas (figura 16). O maior problema associado com a observação não participante no Brasil foi a impossibilidade de perceber detalhes da interação entre os alunos, principalmente na sala onde eram ministrados as aulas teóricas, pois era bastante grande. Um outro aspecto que dificultou foi o número reduzido de aulas, somente três, durante o período de três meses que a investigadora esteve no Brasil. Isso ocorreu, algumas vezes, pela indisponibilidade do professor ou mesmo dos alunos que tinham outras atividades para além das aulas de informática, ou seja, por motivos que estiveram para além do controle da investigadora. Isso fez com que a observação não participante no Brasil fosse menos significativa do que em Portugal, no que concerne ao volume da recolha de informações. Não obstante, para compensar esse aspecto, passamos mais tempo com os alunos assistindo outras aulas que não fossem as de informáticas, acompanhando os alunos em eventos fora da universidade como, por exemplo, o grupo de teatro que fazia apresentações sobre o tema envelhecimento em escolas em Palmas (figura 18).
136 Figuras 13: Alunos de informática da UMA Fonte: Imagem da autora Figuras 14: Alunos de informática da UMA Fonte: Imagem da autora
137 Figuras 15: Alunos de informática da UMA Fonte: Imagem da autora Figuras 16: Alunos de informática da UMA Fonte: Imagem da autora
138 Figura 17: Alunos de informática da UMA Fonte: Imagem da autora Figura 18: Grupo de teatro da UMA Fonte: Imagem da autora
139 A observação não participante foi o único momento em que tivemos a oportunidade de acompanhar como os idosos interagiam com o computador e com a internet para além de revelar-se como metodologia com grande capacidade para captar a interação entre os alunos, seus pares e o professor. Essa circunstância, por sua vez, permitiu que tivéssemos uma melhor compreensão de aspectos da interação do idoso e do uso das tecnologias de informação e comunicação e também serviu para aprimorar a escrita dos guiões dos grupos de foco e das entrevistas que foram os próximo passos da recolha de dados. 4.5.2Grupos de Foco Na segunda fase da recolha de dados, estabelecemos contato mais próximo com os participantes da pesquisa e para isso, utilizamos a metodologia chamada de grupo de foco ou grupo focal. Um grupo de foco visa gerar dados qualitativos a partir da interação que ocorre dentro desse mesmo grupo (Sim e Snell, 1996). A maioria dos autores concorda que a principal vantagem dessa metodologia é a interação dos participantes com o objetivo de gerar informações (Merton, Fiske, e Kendall, 1990; Kitzinger, 1995) e a utilidade para a aferição na medida em que existem opiniões partilhadas entre um grupo de pessoas em relação a um tópico específico. Os grupos de foco consistem de pequenos grupos de pessoas que são reunidos para explorar as atitudes, percepções, sentimentos e ideias sobre um tópico em particular (Denscombe, 2010). Kitzinger (1995) foi precisa ao dizer que a ideia por trás do método de grupo de foco é que os processos de grupo podem ajudar as pessoas a explorar e clarificar os seus pontos de vista de maneiras que seriam menos facilmente acessíveis em uma entrevista. Quando a dinâmica de grupo funciona bem o trabalho dos participantes juntamente com o pesquisador, a investigação pode assumir novas e muitas vezes inesperadas direções (Kitzinger, 1995, p. 299). Essa metodologia ajudou os idosos participantes a explorarem e clarificarem suas opiniões sobre o uso que dão às TIC e ao modo como se relacionam com o computador, o celular, o tablet com ligação à internet através de suas experiências,
140 significados, entendimentos, assim como atitudes, opiniões, conhecimentos e crenças. Isso foi possível, pois essas pessoas refletiram sobre suas realidades sociais e culturais levando também em consideração as características que são próprias do contexto social onde estão inseridos. Fizemos três sessões de grupos de foco em cada país com duração aproximada de 90 minutos compostas por 4 a 8 indivíduos. Esse número de participantes foi grande o suficiente para permitir uma variedade de pontos de vista e opiniões, mas não demasiado grande ao ponto de se tornar difícil a mediação ou manter a discussão centrada nos assuntos de interesse para a pesquisa. Assim, em Portugal, os grupos de foco foram formados por 4, 6 e 7 pessoas, enquanto no Brasil foram 5, 6 e 8 pessoas. Em cada sessão existiu um foco na discussão baseado nas experiências individuais de cada participante, sobre as quais todos tinham algum tipo de conhecimento, ou seja, habilidades, mesmo que em diferentes níveis, no uso do computador, celular tablet e da internet. Antes de cada sessão de grupo de foco, foi feita uma breve descrição sobre os objetivos da pesquisa com o cuidado de não influenciar na discussão e deixar os participantes à vontade sobre como as informações recolhidas seriam utilizadas posteriormente. Também foi pedido que assinassem um consentimento informado dando autorização à investigadora para usar os dados recolhidos em sua tese de doutoramento. Nesta fase introdutória, o observador também está sendo observado e avaliado (Robertson e Hale, 2011). Por esse motivo, nos preocupamos em criar um ambiente que fosse apropriado, amigável e seguro. De acordo com Richie e Lewis (2003, p. 145), "os primeiros minutos durante a reunião podem ser fundamentais para estabelecer a relação entre pesquisador e participante", como um requisito prévio para que seja bem-sucedida. Os grupos de foco foram feitos na UNISETI e na UMA fora das salas de aula com o objetivo de criar um ambiente mais descontraído e para que pudessem contribuir para uma melhor interação entre os participantes. Os áudios foram gravados e posteriormente transcritos para análise (Anexos IX-XIV).
243 As diferenças também se observaram no funcionamento local do espaço onde é feita a aquisição de competências digitais. A universidade sênior portuguesa proporcionava a inclusão digital de seus alunos com, pelo menos, seis aulas diárias de informática para pequenos grupos de idosos divididos em diferentes níveis de conhecimento, ao passo que no Brasil foram apenas ministradas três aulas, em três meses. Outros aspectos estão relacionados a questões sociais específicas – segurança pública – que fizeram com que a portabilidade e o tamanho reduzido das tecnologias fossem entendidos quer como uma vantagem, quer como uma desvantagem pelos brasileiros, pois essas características facilitam a insegurança pelo medo de serem roubados, preocupação que não esteve presente entre os portugueses. Vários outros aspectos aproximam brasileiros e portugueses: ter acesso as TIC em fases anteriores do curso de vida ou quando ainda estavam no mercado de trabalho, assim como ter uma escolaridade elevada foram fatores identificados entre os que possuíam maior literacia digital; todos têm celular que é usado várias vezes durante o dia como auxílio na execução de tarefas do cotidiano de forma a torná-las mais eficazes; experiências vividas durante os anos formativos, como os constrangimentos para estudar e as dificuldades para ter acessos aos meios de comunicação, contribuem para um sentido de pertença geracional, mesmo estando em países diferentes; a aquisição de bens tecnológicos é feita de forma moderada baseada na condição financeira e na necessidade; a importância de frequentar a universidade sênior para os participantes foi unânime não só para adquirir conhecimentos, mas como forma de afastar o isolamento social e preencher o tempo livre de maneira positiva. Respondendo à pergunta de pesquisa O conceito de envelhecimento ativo está definido como um processo de otimização de oportunidades na saúde, participação e segurança de forma a potencializar a qualidade de vida das pessoas idosas (Organização Mundial da Saúde, 2002). Essa definição sugere que para ter uma velhice com qualidade de vida também é necessário que o idoso desenvolva atividades que promovam a participação social;
244 sendo a nossa sociedade altamente tecnológica, manter-se ativo socialmente pode envolver direta ou indiretamente o uso das TIC com a possibilidade de participar na sociedade de acordo com as suas necessidades, desejos e capacidades (Organização Mundial da Saúde, 2002). Assim, considerando os resultados do estudo empreendido nesta tese de doutoramento vários indicativos nos apoiam para afirmar que os usos e a apropriação das tecnologias de informação e comunicação influenciam no envelhecimento ativo de pessoas com 60 anos ou mais em Portugal e no Brasil porque contribuem para uma participação mais ativa e com efeitos globalmente positivos sobre os idosos. O uso das TIC pode fazer parte de um processo de otimização de oportunidades para a participação social do idoso ao proporcionar maior independência, pois esse uso é cada vez mais essencial para fazer frente aos diversos constrangimentos que podem acompanhar o processo de envelhecimento avançado, para obter assistência em diferentes áreas de interesse e necessidade para além de ser fundamental para o trabalho em diversas áreas. Esse uso pode potencializar as interações sociais ao suprir a ausência física de pessoas próximas e aumentar a frequência da comunicação dentro e fora do ambiente familiar e entre gerações. Todos esses aspectos podem resultar em uma estratégia para combater a solidão, o isolamento social e problemas de saúde como a depressão trazendo oportunidades para um envelhecimento saudável e que fomente a inclusão social e digital e, consequentemente, um envelhecimento com maior qualidade de vida. Fazendo referência à pergunta que se encontra no título desta tese: nunca se é demasiado velho para o digital. Essas constatações reforçam ainda mais a necessidade de cumprir, por inteiro, a afirmação defendida na agenda da inclusão digital da Declaração do Milênio das Nações Unidas que propôs “garantir que os benefícios das novas tecnologias, em particular das tecnologias da informação e das comunicações, estejam disponíveis para todos”(Organização das Nações Unidas, 2000, p. 6) e nosso objetivo será contribuir nesse sentido.
245 Limitações do estudo Nosso estudo não vem sem limitações. Neste trabalho qualitativo com uma amostra relativamente pequena e, portanto, com conclusões que não podem ser generalizadas, pois não são representativas da população idosa portuguesa e brasileira. O desenho da pesquisa e o método de recrutamento dos participantes em universidades seniores fizeram com que fossem, principalmente, idosos do gênero feminino, relativamente jovens e que se aproximassem do que se entende como pessoas ativas. Isso deixou de fora a possibilidade de trabalhar com uma amostragem com características sociodemográficas mais diversificadas e, portanto, mais próximas do que se encontra na sociedade brasileira e portuguesa. O fato de terem sido ministradas somente três aulas de informática durante os três meses de pesquisa de campo no Brasil limitou a nossa capacidade de análise da dinâmica dentro das salas de aulas. Em Portugal também tivemos que ultrapassar um período inicial quando alguns alunos e professores sentiram-se incomodados com a presença da pesquisadora dentro da sala de aula nos primeiros dias da observação não participante que tirou a naturalidade da dinâmica dos cursos de informática, mesmo que só inicialmente. É necessário salientar que não surgiu durante os grupos de discussão ou as entrevistas individuais nenhuma referência ao acesso de informações através do chamado governo eletrônico. Como a internet é considerada uma ferramenta para a melhoria dos serviços oferecidos por organizações do setor público e é tida como um aspecto importante das políticas públicas, tanto no Brasil como em Portugal, deveríamos ter acrescentado um tópico sobre o e-Gov no guião dos grupos de foco para que tivéssemos capacidade de analisar esse quesito. Para o desenvolvimento das entrevistas individuais procuramos criar uma empatia com o entrevistado logo nos primeiros minutos da abordagem de forma a deixa-lo à vontade para falar da sua história de vida, um dos nossos objetivos. O caráter intimista e pessoal das entrevistas trouxe alguns constrangimentos, pois surgiram relatos que trataram de diversos tipos de situações incrivelmente interessantes e divertidas de se ouvir e que levou a pesquisadora muitas vezes às
246 gargalhadas durante a transcrição, mas também situações muito delicadas que incluíram fome, alcoolismo, agressões físicas, psicológicas e sexuais durante infância, trabalho infantil, morte e doença. Todos esses relatos foram momentos que passaram a barreira científica e que acabaram por deixar a certeza de que também existe um peso psicológico para o pesquisador. Contribuição científica A pesquisa que apresentamos nesta tese de doutoramento dá o seu contributo científico no campo das Ciências da Comunicação ao abordar idosos e as suas relações sociais e comunicacionais através das tecnologias de informação e comunicação. Podemos afirmar que a nossa maior contribuição para futuros trabalhos é reforçar que o envelhecimento da população e o uso das tecnologias digitais fazem parte de um processo em desenvolvimento e que para tentar compreender a sua natureza complexa as pesquisas devem ser abrangentes tanto quanto possível. Não se pode compreender a relação entre idoso e as TIC separadamente de experiências e processos desenvolvidos ao longo da vida, mas sim como parte uma dimensão da estrutura social e do comportamento da pessoa idosa dentro do ambiente em que vive. Para além disso, esta investigação relevou que deve-se ter em conta as exigências de fatores interligados: o fosso digital em constante transformação no acesso, no uso e na literacia mediática entre os idosos e o resto da população; diferentes sistemas de mídia que mudam rapidamente modificando o comportamento e os hábitos dos usuários; dinâmicas demográficas, tais como a entrada da geração “boomers” na categoria de idoso e os seus efeitos de “coorte" sobre valores e estilo de vida; uma maior longevidade que faz com que três ou mais gerações na família convivam e estabeleçam novos tipos de relações intergeracionais; e ainda políticas públicas e estratégias de marketing dirigidas às pessoas idosas devido à sua crescente capacidade de atração como metas comerciais.
247 Esses fatores relacionados ajudam a contrariar o senso comum que estabelece que, muitas vezes, a população mais velha é vista como homogênea quanto à utilização das TIC, mas apresenta uma diversidade de atividades o que reivindica uma mudança de paradigma para o chamado age heterogenity. Mesmo sabendo que essa tarefa nunca é simples de executar, entender e explicar fazendo com que uma interpretação fácil sobre a relação entre idosos e TIC seja impossível de ser formulada, interrelacionar os aspectos que rejeitam a ideia de homogeneidade é um compromisso teórico que ajuda a explorar a diversidade em que a população mais idosa experiencia ou não o uso das TIC e de que formas é afetada e afeta essa experiência. Assim como nesta pesquisa, não se deve centrar a atenção na tecnologia, por si só, como ocorre em muitos estudos, mas no indivíduo idoso e no espaço que o envolve, nos muitos domínios da vida incluindo as suas relações sociais, a família, seus comportamentos e atitudes perante a vida. Essa é uma maneira eficaz de reforçar a ideia de que a população idosa não é homogênea inclusive no uso e apropriação das TIC e no modo como interpretam os seus benefícios e aspectos negativos em suas vidas e na sociedade. Essa atitude não esgotará essa discussão, mas certamente contribuirá para ela. Recomendações A presente tese de doutoramento identificou a necessidade da inclusão digital e uma maior demanda por cursos e programas com estratégias específicas para a população idosa para favorecer a atualização e a integração à sociedade, principalmente no Brasil. Este trabalho deixa achados para futuras ações que possam contribuir para a qualidade de vida das pessoas idosas. Os adultos mais velhos relataram mais aspectos positivos do que negativos sobre as tecnologias digitais. Isso realça a importância da percepção dos benefícios das TIC para promover a inclusão digital entre idosos. Neste sentido, sugerimos o desenvolvimento de ações onde sejam apresentados benefícios e malefícios que podem advir com o uso das TIC e como
248 podem se “defender” desses aspectos negativos para que, assim, possam escolher se querem ou não utiliza-las. Para aumentar essa possibilidade, parte dessas ações também poderiam ter como objetivo as necessidades particulares de um grupo de idosos, identificando-as, por exemplo, através do preenchimento prévio de um questionário. Através da revisão de literatura, verificamos que são poucos os estudos que abordam aspectos negativos do uso e apropriação das tecnologias digitais sobre os idosos. Como vimos no capítulo de análise de dados, mesmo que em menor frequência, os aspectos negativos existem e são um importante elemento para entender o motivo pelo qual as pessoas mais velhas usam ou não as TIC. Por essa razão, sugerimos que em trabalhos futuros, os investigadores desenvolvam abordagens com o intuito de identificar esses aspectos negativos para fornecer uma maior compreensão da relação entre envelhecimento e TIC. Os computadores foram apontados como dispositivos tecnológicos caros e mais difíceis de dominar impedindo que muitos adultos mais velhos desenvolvessem uma literacia digital mais sofisticada. No entanto, verificamos que a crescente popularidade dos dispositivos móveis como os smartphones e os tablets veio mudar essa realidade alterando as percepções das TIC sobre a utilidade e a facilidade de uso e também por serem mais acessíveis, financeiramente. Isso faz-nos sugerir que haja iniciativas que contemplem aulas de informática voltadas para os dispositivos móveis de forma que os idosos possam tirar mais proveito dessas tecnologias. Através da presente pesquisa, verificamos que há a necessidade de formação para os mediadores/professores que deem aula de informática para pessoas idosas, pois devem possuir uma metodologia apropriada para essa parcela da população na transmissão de conhecimento. As aulas de informática devem ter a frequência mínima semanal, com um idoso por computador e os alunos devem ser agrupados por nível de conhecimento. Sugerimos ainda que voluntários poderiam assumir esse papel de professor e apoiar as pessoas idosas no uso das TIC, pois especialmente no Brasil, faltam pessoas e programas necessários para promover a inclusão digital entre idosos.
249 A maioria das políticas e dos discursos gerontológicos representa a atividade como algo "positivo", mas as ações sociais não devem ter como objetivo a produtividade e a atividade através de políticas que proponham "capacitar" ou "ativar" os idosos. Recomendamos que o ideal seria o estabelecimento de uma educação permanente que incluísse o idoso que necessita de maior cuidado na adaptação da evolução tecnológica e, assim, ajudá-lo a suplantar as dificuldades devido ao processo de envelhecimento avançado e uma possível baixa escolaridade visto que “quanto mais complexa a tarefa ser realizada mais os grupos de menor alfabetismo são excluídos”do contexto digital (CGI.br, 2016, p. 80). Continuidade de investigação Considerando que nas próximas décadas o Brasil terá uma população envelhecida e em sua maioria não incluída digitalmente, passará por problemas similares ao que Portugal tem enfrentado: comparado aos outros países da União Europeia, Portugal dispõe de avançados serviços públicos que dão apoio à sociedade digital, mas ainda é um país com baixos níveis de utilização dessas mesmas infraestruturas, especialmente entre idosos (FCT, 2015; Governo de Portugal, 2017). No caso do Brasil, a situação é mais grave, pois, para além de possuir os mesmos baixos níveis de utilização, ainda precisa proporcionar disponibilização de serviços e infraestruturas digitais (CETIC, 2015). Em futuras investigações, pretendemos contribuir com informações estratégicas para formulação de políticas públicas ou privadas voltadas à inclusão digital de idosos. Assim, sugerimos uma nova investigação científica que trabalhe para a produção de conhecimento a ser desenvolvido a partir de experiências já executadas em Portugal e que possam ser benéficas para ajudar a superar o contexto de exclusão digital no Brasil. Teremos como objetivo identificar, analisar e contextualizar iniciativas exitosas desenvolvidas em Portugal e que relacionem pessoas mais velhas e as TIC que estejam voltadas para a literacia e a inclusão digital. O objetivo será verificar como ações
250 voltadas para a literacia digital de pessoas mais velhas em Portugal podem ser benéficas para ajudar a superar o contexto de exclusão digital, principalmente, entre as pessoas com 60 anos ou mais na região norte do Brasil. Com o resultado dessa análise o objetivo será conceber uma matriz analítica com diretrizes para implementação de ações adaptadas à realidade brasileira.
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291 Anexo II – Declaração de concordância UNISETI UNIVERSIDADE SÉNIOR DE SETÚBAL Sede: Parque do Bonfim – 2900-703 Setúbal Telefone: 265 50 230 / 265 149 196 / 91 21 97 371 [email protected] 02 OD/2016 Dra. Celiana de Fátima Bastos Setúbal, 22 de Fevereiro de 2016 Assunto: Autorização de Realização Estudo na UNISETI Ex. Ma Senhora, Informa-se que foi concedida a autorização para a realização de um estudo de campo na Universidade Sénior de Setúbal, tendo em vista uma pesquisa para a dissertação do seu Doutoramento. Com os Melhores Cumprimentos, O Presidente da Direcção da UNISETI Armando Jorge Sacramento
292 Anexo IIIDeclaração de concordância UMA Palmas, 24 de Março de 2016 Declaração de Concordância Declaramos que nós da Universidade da Maturidade da Universidade Federal do Tocantins estamos de acordo com a execução do projeto de pesquisa sob a responsabilidade da pesquisadora Celiana Azevedo, estudante de doutoramento na Universidade Nova de Lisboa – FCSH, após a sua aprovação no Comitê de Ética em Pesquisa em Seres Humanos. A pesquisa decorrerá entre agosto e outubro de 2016. Luiz Sinésio Silva Neto Vice Coordenador da UMA-UFT
293 Anexo IV: Estudos empíricos que fizeram parte da revisão bibliográfica Publicação Título da pesquisa Local Principais objetivos Alves, R. et al., 2012 O Uso das Tecnologias de Informação e Comunicação Pela Terceira Idade Brasil Analisa a forma como o uso das tecnologias de informação e comunicação está alterando as vidas dos idosos Aparecida et al., 2011 Representação Social Do Idoso Do Distrito Federal E Sua Inserção Social No Mundo Contemporâneo a Partir Da Internet Brasil Discutir e analisar a construção das representações sociais dos idosos residentes no Distrito Federal sobre a internet Azevedo, C., 2013 Tecnologias e pessoas mais velhas: importância do uso e apropriação das novas tecnologias de informação e comunicação para as relações sociais de pessoas mais velhas em Portugal Portugal Entender de que modos as TIC influenciam as relações sociais de pessoas mais velhas Barnard, Y. et al., 2013 Learning to use new technologies by older adults: Perceived difficulties, experimentation behaviour and usability Internacional Examina os fatores de aceitação e rejeição da tecnologia por adultos mais velhos Bradley, Natalie e Poppen, 2003 Assistive Technology, Computers and Internet May Decrease Sense of Isolation for Homebound Elderly and Disabled Persons EUA Verificar se as TIC podem diminuir o isolamento social de idosos Brito, 2012 A Utilização Do Computador E Internet Por Idosos Portugal Verificar por quais motivos os idosos utilizam o computador e da internet e quais as suas opiniões sobre estas tecnologias Chaumon et. Al., 2013 Can ICT Improve the Quality of Life of Elderly Adults Living in Residential Home Care Units? From Actual Impacts to Hidden Artefacts França Examinar até que ponto as novas tecnologias podem trazer qualidade de vida para idosos que vivem em lares de acolhimento Carleto, D., 2013 Relações intergeracionais de idosos mediadas pelas tecnologias de informação e comunicação Brasil Analisar a influência de TIC nas relações intergeracionais de idosos Center for Technology and Aging. 2014 The New Era of Connected Aging: A Framework For Understanding Technologies that Support Older Adults in Aginig in Place EUA Análise quantitativa do usos das TIC com objetivo de entender como podem ajudar os idosos a viverem independentes
294 Chou, W.H., Lai, Y.-T. & Liu, K.-H., 2013. User requirements of social media for the elderly: a case study in Taiwan Taiwan Analisa e propõe alterações na página do Facebook para que o uso por idosos seja mais fácil Chua, S.L., Chen, D. & Wong, A.F.L., 1999 Computer anxiety and its correlates: a meta-analysis Internacional Analisa a relação entre o uso do computador, ansiedade, idade e gênero Claßen, K., Schmidt, L.I. & HansWernerWah l, 2013 Technology and Ageing: Potential for European Societies Internacional Explora as várias funções que a tecnologia pode possuir para trazer qualidade de vida e a autonomia para as pessoas mais velhas na Europa, Ásia e América do Norte Colombo, F., Aroldi, P. & Carlo, S., 2014 “Stay Tuned”: The Role of ICTs in Elderly Life Itália Explora o desempenhado das TIC na construção de um ambiente positivo nas relações sociais e na promoção de um envelhecimento saudável Cornejo, R., Favela, J. & Tentori, M., 2010 Ambient displays for integrating olver adults into social networking sites México Cria e analisa um protótipo de rede social com características que facilitam o uso por idosos Cotten, S.R. et al., 2012 Internet use and depression among older adults Estados Unidos Analisar a relação entre a utilização da internet e de depressão entre aposentados americanos Cotten, S.R., Anderson, W. a. & McCullough , B.M., 2013 Impact of Internet Use on Loneliness and Contact with Others Among Older Adults: Cross-Sectional Analysis Estados Unidos Analisar a forma como a utilização da internet afeta a percepção de solidão e isolamento social de idosos e examina a percepção de como o uso da internet afeta a comunicação e interação social Czaja e Lee, 2007 The Impact of Aging on Access to Technology Estados Unidos Analisa como as mudanças cognitivas relacionadas ao envelhecimento avançado em relação ao design das TIC Dias, I., 2012 O uso das tecnologias digitais entre os seniores: motivações e interesses Portugal Analisar a relação dos seniores mais jovens (55-65 anos) e dos mais velhos (com mais de 66 anos) com as tecnologias digitais. Dickinson, A. & Gregor, P., 2006 Computer use has no demonstrated impact on the well-being of older adults Internacional Faz uma revisão de estudos empíricos que concluem que o computador e a internet têm um efeito positivo sobre o bem-
295 estar das pessoas idosas Eggermont, Vandebosch e Steyaert, 2006 Towards the Desired Future of the Elderly and ICT: Policy Recommendations Based on a Dialogue with Senior Citizens Bélgica Entender o que os idosos desejam que as tecnologias sejam no futuro para formular políticas de recomendação nesse sentido. Erickson, L., 2011 Social media, social capital, and seniors: The impact of Facebook on bonding and bridging social capital of individuals over 65 Estados Unidos Examina o papel que as redes sociais digitais têm na vida de idosos European Commission , 2010 ICT & Ageing: European Study on Users, Markets and Technologies Final Report Internacional Examina e identifica fatores que facilitam e criam obstáculos para as TIC darem suporte para o envelhecimento avançado de cidadãos europeus e de outros países Ferreira, S., 2010 Estudo qualitativo e comparativo do uso das TIC’s pelo cidadão sénior Portugal Discute as contribuições da utilização das TIC nas variáveis auto-conceito e qualidade de vida do cidadão sênior Fokkema, T. & Knipscheer, K., 2007 Escape loneliness by going digital: a quantitative and qualitative evaluation of a Dutch experiment in using ECT to overcome loneliness among older adults Holanda Avalia como a introdução à utilização de mecanismos de comunicação electrônica e a internet diminui a solidão entre doentes e deficientes adultos mais velhos cronicamente Gaggioli, A. et al., 2014 Intergenerational Group Reminiscence: A Potentially Effective Intervention to Enhance Elderly Psychosocial Wellbeing and to Improve Children’s Perception of Aging Itália Explorar a importância das relações intergeracionais e TIC Gagliardi, C. et al., 2007 Designing a Learning Program to Link Old and Disabled People to Computers Itália Analisa e orientada a percepção de alunos idosos e professores sobre aspectos organizacionais e didático em cursos de informática com o objetivo de melhorias de habilidades González, A., Ramírez, M.P. & Viadel, V., 2012 Attitudes of the Elderly Toward Information and Communications Technologies Espanha Compreender as atitudes dos idosos perante as TIC no contexto de um curso de formação sobre a utilização de plataformas digitais Goodman, J. & Syme, A., 2003 Older adults’ use of computers: A survey Reino Unido Analisa a interação de pessoas mais velhas com os computadores com o objetivo
296 de entender as suas dificuldades Heinz, M., 2013 Exploring predictors of technology adoption among older adults Estados Unidos Investigar o leva os idosos a adotarem o uso das TIC Helsper, 2009 The Ageing Internet: Digital Choice and Exclusion among the Elderly Reino Unido Verificar se a exclusão digital de idosos é uma escolha ou a causa de uma exclusão social. Helsper, E.J. & Eynon, R., 2010 Digital natives: where is the evidence? Reino Unido Analisa como a amplitude da utilização, a experiência, o sexo e os níveis de ensino são mais importantes do que a geração a que pertence para explicar o uso e apropriação das TIC HernándezEncuentra, E., Pousada, M. & GómezZúñiga, B., 2009 ICT and Older People: Beyond Usability Espanha Analisa o uso que os usuários mais velhos fazem dos e das TIC na sua vida quotidiana Horrigan, J.B., 2014 Closing Online Access Gaps for Older Adults Estados Unidos Apresenta dados relativos ao uso e adoção das TIC por idosos Hur, W.-M., Kim, H. & Kim, W.-M., 2014 The Moderating Roles of Gender and Age in Tablet Computer Adoption Coreia do Sul Analisa a relação entre a percepção da utilidade, facilidade e prazer no uso de tablets, a influência social e características como o sexo e o gênero na utilização de tais dispositivos Independen t Age, 2010 Older people, technology and community Estados Unidos Entender como as TIC podem ajudar a prevenir o isolamento social e a solidão entre idoso Kachar, V., 2010. Envelhecimento e perspectivas de inclusão digital Brasil Analisar inclusão digital dos idosos brasileiros Lee, B., Chen, Y. & Hewitt, L., 2011. Age differences in constraints encountered by seniors in their use of computers and the internet Estados Unidos Explora as restrições dos usuários de computadores em diferentes fases de idade (présênior, jovem-velho e velhovelho) Lehtinen, V., Nasanen, J. & Sarvas, R., 2009 “A little silly and emptyheaded”: older adults’ understandings of social networking sites Finlândia Explorar a forma como as pessoas idosas compreendem os sites de redes sociais e como essas compreensões se aplicam em certos aspectos de suas vidas LlorenteBarros, C., Mayores e Internet: La Red como fuente de oportunidades Espanha Aborda a ligação entre os idosos e Internet com objetivo de
297 ViñarásAbad, M. & SánchezValle, M., 2015 para un envejecimiento activo descobrir como a internet é útil para este grupo etário e para explicar o potencial deste meio para o envelhecimento ativo Loos, E.F., 2011 Generational use of new media and the (ir) relevance of age Internacional Analisa se as pessoas idosas realmente navegam em sites diferentemente de pessoas mais jovens e verifica se as diferenças de sexo, de escolaridade e de frequência de utilização da internet são encontradas entre os jovens e os mais velhos. LunaGarcía, H., MendozaGonzález, R. & ÁlvarezRodríguez, F., 2015 Patrones de diseño para mejorar la accesibilidad y uso de aplicaciones sociales para adultos mayores México Facilitar a integração da usabilidade nas interfaces de redes sociais para sua aceitação e utilização entre adultos mais velhos Mellor, D., Firth, L. & Moore, K., 2008 Can the Internet Improve the Well-being of the Elderly? Austrália Avaliar o potencial da internet para reduzir o isolamento social entre idosos e melhorar o funcionamento psicossocial Mitzner, T.L. et al., 2010 Older Adults Talk Technology: Technology Usage and Attitudes Estados Unidos Discutir a utilização e as atitudes de idosos sobre a tecnologia no contexto doméstico, de trabalho e da saúde Neves, B. & Amaro, F., 2012 Too old for technology? How the elderly of Lisbon use and perceive ICT Portugal Entender como os idosos lisboetas usam e entendem os celulares, computadores e a internet Nimrod, G., 2014 The benefits of and constraints to participation in seniors’ online communities Internacional Explora a participação de idosos em comunidades online e identificar os efeitos positivos e negativos Oliveira, L., 2011 Os Seniores na Sociedade da Informação e da Comunicação – Inquérito sobre a Utilização da Internet por indivíduos com idade igual ou superior a 55 anos Portugal Compreender o contexto doméstico em que essas pessoas mais velhas estavam inseridas para analisar a influência na utilização da internet. Olphert, C., Damodaran , L. & May, Towards digital inclusion– engaging older people in the “digital world” Reino Unido Faz uma revisão de literatura relativa às pessoas idosas e a utilização das tecnologias
298 A., 2006 digitais e investiga as percepções dos idosos usuários e não usuários de internet como um passo para a compreensão dos fatores que estão por detrás da situação atual Olson, K.E. et al., 2012 Diffusion of Technology: Frequency of Use for Younger and Older Adults Estados Unidos Investiga as diferenças relativas à idade na utilização global de tecnologias por idosos, bem como a frequência do uso da tecnologia (nunca, ocasional ou frequente). Orlandi, B.D.M. & Pedro, W.J.A., 2014 Pessoas idosas e a busca por informações em saúde por meio da internet Brasil analisa como as pessoas idosas, participantes de um programa de inclusão digital, fazem buscas sobre saúde utilizando a internet, e como essas informações relacionam as doenças autorreferidas Páscoa, G. & Gil, H., 2015 O desafio do facebook na promoção do envelhecimento ativo e da solidariedade intergeracional Portugal Verificar como o uso do Facebook por idosos pode influenciar no envelhecimento ativo dessa camada da população Páscoa, G. & Gil, H., 2015 Uma nova forma de comunicação para o cidadão Sénior: Facebook Portugal Compreender o contributo do Facebook na promoção do envelhecimento ativo Patrício, M.R. & Osório, A., 2011 Lifelong learning, intergenerational relationships and ICT: perceptions of children and older adults Portugal Compreender a relação entre crianças, adultos mais velhos e o uso das TIC Pereira, C. & Neves, R., 2011 Os idosos e as TIC – competências de comunicação e qualidade de vida Portugal Comprovar se a relação entre o domínio e o uso das TIC por pessoas idosas permitem aferir a qualidade de vida Petrella, S., Pereira, S. & Pinto, M., 2012 Literacia Mediática e Comunicação Intergeracional. Estudo das Trocas e Partilhas no “Encontro” entre Gerações Distantes Portugal Analisar as trocas e partilhas de conhecimentos geradas no encontro intergeracional em torno dos mídias ambicionando cruzar diferentes problemáticas do ponto de vista teórico e prático Pires, L., 2013 Envelhecimento, tecnologias e juventude: caminhos percorridos por alunos de cursos de informática e seus avós Brasil Debate sobre o papel social da oferta cursos na área de informática e a relação de jovens e seus parentes idosos para a contribuição na inserção
299 de pessoas idosas na sociedade tecnológica Pew Research Center, 2014 Older Adults and Technology Use: adoption is increasing, but many seniors remain isolated from digital life Estados Unidos Apresenta um perfil do usos das tecnologias digitais de idosos americanos Raymundo, T., 2013 Aceitação de tecnologias por idosos Brasil Analisar as variáveis que influenciam o uso e a inserção de tecnologias por parte dos idosos em seus cotidianos Roberto, M.S., Fidalgo, A. & Buckingham , D., 2014 O papel da solidariedade intergeracional no âmbito da literacia digital Portugal conhecer a temática da solidariedade intergeracional no âmbito das TIC, com o objetivo de recolher informações para o desenvolvimento de programas entre gerações que visem ao recurso às TIC Rocha, R.G.O., 2013 Uso de tablets como ferramenta facilitadora em projetos de inclusão digital de idosos Brasil Verificar se o tablet é uma ferramenta que fomenta a inclusão digital de idosos e analisar como esta tecnologia pode ser usada a favor das pessoas nessa fase da vida Rogers, W. a & Fisk, A.D., 2010 Toward a Psychological Science of Advanced Technology Design for Older Adults Internacional Fornecer uma visão geral do que a psicologia tem a oferecer para o design de tecnologias usada por idosos; identifica as preferências dos idosos no design de tecnologias; e define a capacidade e limitações tecnológicas dos idosos e como isso influencia a interação com a tecnologia Sá, M. & Almeida, V., 2012 A inclusão dos idosos no mundo digital através das novas tecnologias de informação e comunicação (NTICs) Brasil Investigar como as TIC interferem na inclusão do idoso no mundo digital e quais são as mudanças que acontecem na sua qualidade de vida Sales, M. et al., 2014 Tecnologias de Informação e Comunicação via Web: Preferências de uso de um grupo de usuários idosos Brasil Verificar a frequência e as preferências de uso de TIC de um grupo de usuários idosos (email, bate-papo, mensagens instantâneas, videofonia e redes sociais) Sales, M.B. et al., 2014 Inclusão digital de pessoas idosas: relato de experiências Brasil Relata as atividades de oficinas de inclusão digital de pessoas
300 de utilização de software educativo idosas, utilizando softwares educacionais para facilitar a aproximação e desmitificar a interação do idoso com o computador, levando em consideração os declínios decorrentes da idade na motricidade e na cognição Saunders, 2004 Maximazing computer use among the elderly in rural senior centers Estados Unidos Entender que tipo de atitude têm os idosos que vivem em aras rurais perante os computadores Sánchez, M., Kaplan, M.S. & Bradley, L., 2015 Usando la tecnología para conectar las generaciones: consideraciones sobre forma y función Internacional Analisa os processos de educação e aprendizagem desenvolvidos dentro de programas intergeracionais mediados pela tecnologia Selwyn, N., Gorard, S. & Furlong, J., 2003 The information aged : Older adults’ use of information and communications technology in everyday life Reino Unido Exame a extensão e a natureza do acesso e utilização das TIC por adultos mais velhos na sua vida cotidiana Silveira, M.M. et al., 2011 Processo de aprendizagem e inclusão digital na terceira idade Brasil Busca conhecer as condições que facilitam e dificultam o aprendizado do uso do computador em alunos de um grupo de terceira idade que fizeram parte de um projeto de inclusão digital Slegers, K., Boxtel, M.P. & Jolles, J., 2008 Effects of computer training and Internet usage on the well-being and quality of life of older adults: a randomized, controlled study Holanda Examinar a relação causal entre a utilização do computador e o bem-estar físico, social, emocional, o desenvolvimento, a atividade e a autonomia em pessoas idosas Tavares, M. & Souza, S., 2012 Os idosos e as barreiras de acesso às novas tecnologias da informação e comunicação Brasil Discutem-se as possíveis limitações que a terceira idade encontra para interagir com as TIC Villarejoramos, B.P.J.A.Á., 2015 De la brecha digital a la brecha psicodigital : Mayores y redes sociales Espanha Analisamos a evolução do conceito de fosso digital para idosos a partir da perspectiva do envelhecimento ativo e no contexto da utilização de redes sociais como um instrumento de comunicação Vroman, K.G., “Who over 65 is online?” Older adults’ dispositions toward Estados Unidos Analisa os padrões de utilização das TIC do idoso e a sua
307 Anexo VII - Entrevista individual Nome: Aspectos sociodemográficos a serem abordados 1. Sexo? 2. Idade? 3. Em que ano nasceu? 2. Onde nasceu? (lugar, concelho/país) Já viveu em outras cidades ou países? 4. Onde reside atualmente? 5. Qual a sua escolaridade? Estudou em instituições públicas ou privadas? 6. Qual o seu estado civil? Tem filhos ou netos? Vivem perto? Com que frequência convive com eles? 7. O que fazia antes de se reformar? Trabalhou em outros lugares? Tem alguma ocupação remunerada, hoje? 8. Tem algum problema de saúde? Gostaria de especificar? Seu estado de saúde limita suas atividades quotidianas? Outros aspectos ligados as TIC 9. Quais destes equipamentos/serviços utiliza para se comunicar? Celular/telemóvel Telefone fixo em casa Telefone público Tablet Computador portátil com internet e câmera Skype Whatzap ou outro aplicativo para troca de mensagem escrita, mensagem de voz ou de voz e imagem Msn E-mail Algum tipo de chat Facebook ou outra rede social Outro
308 10. Poderia dizer-me se: Utilizou a internet para trabalho escolar Visitou rede social Pesquisou informação para satisfazer curiosidade Usou uma webcam Usou aplicativo de conversação Leu/ viu notícias na internet Publicou fotos, vídeos ou música para partilhar com outros Jogou sozinho ou contra o computador Ouviu música Viu vídeo clips Registrou a sua localização geográfica Consultou mapas e horários Viu transmissão televisiva/ filme online Descarregou aplicações gratuitas Publicou mensagem num site ou blogue Leu um e-book 11. Acha que usar as tecnologias faz com que seja mais ativa? Por quê? 12. Ao usar as TIC sente-se mais incluída socialmente? Poderia dar um exemplo? 13. Acha que depois de estar reformada os seus contatos sociais aumentaram, diminuíram ou permaneceram os mesmos? Como explica isso? 14. Depois de se reformar tornou-se mais ou menos socialmente ativa? 15. Qual a tecnologia que mais utiliza para falar com familiares e amigos? Com que frequência? 16. A senhora utiliza as redes sociais online, tais como facebook e twitter ou outras para se relacionar com sua família ou amigos? 17. Diria que as tecnologias ocupam um espaço importante do seu tempo livre? Por quê? (Se sim, quão importante?) 18. Com qual frequência adquire uma nova tecnologia? Já tem planos para adquirir alguma nova TIC? 19. Considera-se uma pessoa que domina o uso das TIC?
309 Anexo VIIIConsentimento informado Declaro ter recebido informação sobre os objetivos e condições de realização do Grupo de Discussão sobre tecnologias de informação e comunicação (celular/telemóvel, computador, tablet e internet) e aceitar de livre vontade participar na sessão. As imagens e os dados recolhidos nesta iniciativa serão utilizados para análise científica no âmbito de uma tese de doutoramento em Ciências da Comunicação - Estudo dos Media e do Jornalismo - da Universidade Nova de Lisboa sob a responsabilidade da pesquisadora Celiana Azevedo. Assinatura: Data:
310 Anexo IX – Transcrição grupo de focal UMA 1 Apresentação da investigadora e informações breves sobre a pesquisa. Explicar como o grupo de foco será conduzido e como as informações recolhidas serão utilizadas. Assinatura do consentimento informado. Moderadora: Gostaria que me dissessem o nome, a idade e o que faziam antes de se aposentarem. Salvador: Sou Salvador, tenho 68 anos, era bancário e agora sou corretor [de imóveis]. Renato: Renato, 69 anos, comerciante e agora trabalho aqui na UMA. Osvaldo: Osvaldo, 64 anos, funcionário público e sou jardineiro. Paula: Paula, 65 anos, era comerciante e agora trabalho aqui na UMA. Tomás: Tomás, 69 anos, fui bancário e empresário e trabalho aqui na UMA como voluntário. Moderadora: Primeiramente, eu gostaria de saber se todos possuem celular? (Todos têm) Salvador: Eu tenho dois e cada um com quatro operadoras, com dois chips. Osvaldo: Chip, eu tenho quatro: Claro, Oi, Tim e Vivo. Renato: Eu tenho celular, mas só uso um [chip]. Paula: Eu também só tenho um de uma operadora. Moderadora: E quem tem internet no celular? (Só Tomás não possui internet no celular) Osvaldo: Eu tenho, mas só uso em casa, porque se não, me atrapalha, pois se não, eu só fico no Whatsapp. Esse [que tem internet] fica em casa, eu só carrego o que não tem internet. Esse [aponta para o celular] dá para falar, gravar, fotografar, mas o outro está lá. Paula: Só quando chega em casa é que você vai ver as notícias. Osvaldo: Na verdade, nem é um celular, é um tablet, mas tem tudo. Moderadora: Então, o Whatsapp fica no tablet? Osvaldo: Sim. Moderadora: E os Outros?
311 Salvador: Eu tenho [internet] em casa e tenho a móvel. Eu utilizo, é aquele negócio… a gente tem que estar em contato o tempo todo. Às vezes, eu estou sem crédito e quando chego em casa é aquele monte de mensagens. Moderadora: E quando adquiriram o celular pela primeira vez? Salvador: Quando surgiu. Paula: O meu primeiro foi em 2006 para 2007, quando a gente veio morar aqui, né? A gente estudava na UMA. Renato: A gente comprou um tijolão. Paula: Não, o meu! Me deram foi em 2006, já tem 10 anos e aí a gente foi evoluindo. Moderadora: E por que adquiriu um celular? Paula: O objetivo era estar comunicando onde se estive porque o telefone fixo era só em casa, aí foi quando eu entrei aqui na UMA e todo mundo começava a falar do celular e para você poder saber das coisas mais fácil. Aí eu ganhei um celular. Moderadora: A senhora ganhou? Paula: Sim, o primeiro, eu ganhei no dia das mães. Renato: Fui eu quem te deu. Paula: Você e a Patrícia. Ah, eu esqueci de te falar: ele [Renato]é meu esposo. Moderadora: Descobri há poucos momentos. Osvaldo: O meu foi em 2007 quando eu vim da fazenda para a cidade porque eu sou lá do mato. Eu sou divorciado e tenho uma filha comigo, aí eu comprei um para mim e outro para ela para a gente se comunicar de onde a gente estava. A gente não tinha telefone fixo, aí o celular… eu comprei logo depois, de onde eu estava, sabia dela. Foi para comunicar e para economizar, pois em vez de comprar um telefone fixo, comprei os celulares. Ela ia para a casa da tia, para a escola... Renato: É uma facilidade, pois onde você vai, você leva junto. Osvaldo: Aí depois o tablet. Eu resolvi acompanhar os jovens nesse negócio de Whatsapp, esse negócio estava me dando curiosidade, aí comprei logo o tablet que para os velhos é melhor porque o celular tem as letras pequenas. Eu comprei um que tem tudo que você imaginar, é um destempero! Eu trabalho até meio-dia e de meiodia à tarde eu estou no tablet ali descobrindo coisas. Tem dia que eu esqueço e quando eu vou dar fé é 11 horas da noite “mas moço, não é hora de velho estar no celular!”. Já estou começando a ficar malandro! Moderadora: E o senhor Renato?
312 Renato: O primeiro foi aquele, lembra? Aqueles grandões, aí depois que a gente veio morar aqui é que nós passamos a usar realmente o celular, foi em 2007. O primeiro foi em 2005, 2004. Aquele telefone grandão. Paula: A gente tinha até medo de usar. Osvaldo: Eu não comprei antes porque eu morava nas fazendas, não pegava, não é? Hoje, quase todo lugar do Brasil já pega porque tem energia para todo lado, aí o povo coloca as antenas, mas como não tinha, a gente usava era o orelhão na cidade ou a central telefônica. A menina era de menor, era adolescente, era para rastrear ela. Moderadora: E teve alguma razão pelo qual o senhor adquiriu um celular? Renato: A razão é que a gente é do Rio, aí para comunicar com a filha que mora lá tem que ter um aparelho, aí esse era o meio mais fácil da gente ficar se comunicando, pelo celular. Moderadora: E o senhor Salvador? Salvador: O celular surgiu… você lembra quando foi? Em 2000 ou 2001? Renato: 2000 e qualquer coisa… Osvaldo: O celular começou nos anos 80, já tinha. Paula: Mas era um sonho para poucos. Salvador: Mas eu adquiri o meu em 2002, 2003, por aí assim. Eu comprei pelo seguinte: questão de comunicação mesmo. Hoje não, o celular é a minha ferramenta de trabalho no caso, mas antes, pela comunicação mesmo porque antes a comunicação era feita por aqueles telefones fixos de posto telefônico nas cidades, né? Quando eu vim para essa região em 1972, em Pedro Afonso. Primeiro, não tinha energia na cidade, o progresso era o mínimo. Aí desenvolveu e veio o telefone, mas só tinha um telefone na cidade, um posto telefônico. Para você fazer uma ligação você tinha que ir lá no posto e esperar uma hora, duas horas para você poder falar. Eu sou de Minas, 2000 km. Deixei minha família toda: pais, irmãos. Quando eu vim, foi quase uma aventura, aí eu tinha que comunicar através de cartas, aí depois surgiu o telefone, mas era uma dificuldade toda, tinha dia que não conseguia falar, a gente ligava e tinha que ir um mensageiro falar. Depois começaram a surgir os telefones fixos nas casas e eu comprei um telefone, mas aí veio mais essa evolução do celular. Eu estou aqui, antes eu tinha que ir lá em casa para fazer uma ligação. Por que o celular é bom? O nome já diz, é móvel, não é? Eu vou lá numa fazenda, no Rio Sono, eu tenho um cunhado lá, e de lá estou conversando com todo mundo tanto no Brasil como no Japão, por exemplo. Não tem comparação entre aquele tempo e hoje. Moderadora: Qual é a importância do celular para as vossas vidas? É importante ou não é importante? Paula: É importante.
313 Salvador: É importante. Eu acho assim: é importante, só que está sendo utilizado de uma maneira que, às vezes, causa até problema. Está sendo um veículo de perdição. É o mal uso desse veículo de comunicação, né? Então, as vantagens são maiores que as desvantagens, mas tem desvantagens. As pessoas não têm controle. Osvaldo: Eu saio com esse celular que não tem internet e Whatsapp porque aquilo é uma ferramenta de trabalho. Eu tenho um emprego fixo que eu trabalho de manhã para meio-dia, mas eu faço uns bicos. Tem vez que eu estou lá no meu serviço e já pego outro serviço. Então, hoje é obrigatório. Esse celularzinho velho tem seis anos que eu tenho ele e é 24 horas no ar comigo, eu moro sozinho e não tenho ninguém nem para dar um recado. Então, o celular é extremamente importante. Agora o tablet que eu já comprei não tem ainda muita serventia não, para comunicar ele quase não serve, a gente passa um Whatsapp para a pessoa ele pode não estar online, quando a pessoa vê, a gente já resolveu o problema. Ele é mais para entreter. Renato: A hora que eu estava ali fora, eu estava conversando com a minha filha. Eu estou alugando uma casa lá no Rio de Janeiro e ela me passando as informações e eu passando para ela o que eu quiser. Olha só a facilidade da comunicação, é muito importante! Osvaldo: Hoje, uma das coisas mais importantes é o celular. Salvador: Por exemplo: eu no início, tive resistência a esse negócio do Whatsapp porque ele está separando as pessoas. Se você vai fazer uma reunião em casa com dez pessoas, ninguém conversa, o diálogo já não existe, cada um com o seu celular. É por isso eu não queria. Aí o meu filho disse que eu tinha que usar o Whatsapp, que isso era coisa de primeiro mundo, mas eu não queria mexer com isso porque ninguém conversa mais, não tem mais diálogo, eu fui resistente. Mas eu trabalho como corretor como um complemento para a minha aposentadoria, aí eu faço os meus negócios e preciso muito do celular… Paula: É bom para tirar fotos. Salvador: Eu participo também da igreja, em outro grupo da velhice e do grupo do teatro. Então, eu tenho vários grupos e todos eles têm um grupo de Whatsapp que é para facilitar a comunicação, as datas das reuniões, as coisas que a gente vai fazer juntos. E eu não tinha essas facilidades. Aí minha filha me deu um celularzinho de aniversário e foi passando e eu me atualizei e comprei esse com internet, tem Facebook e Whatsapp. Então, hoje eu só lembro do meu filho que falava para eu utilizar o Whatsapp e eu ficava gozando as pessoas, enchendo o saco e hoje eu aderi e digo que é um instrumento de primeiro mundo. Moderadora: E a dona Paula, o que pensa? Paula: Eu acho que é mesmo de primeiro mundo e é um instrumento importante. Celular com Whatsapp virou um instrumento de trabalho e sim, de comunicação também, mas é como o senhor Salvador disse, as pessoas não estão sabendo utilizar. Nos grupos eles ficam colocando coisas que não tem nada a ver porque num grupo… porque aqui eu tenho muitos grupos, tudo aqui da UMA eu tenho um grupo: grupo da
314 velhice, grupo de dança, grupo amarelo. Mas as pessoas não sabem usar, como o senhor Salvador falou, vão para uma reunião, ou em casa mesmo, está todo mundo ligado. Então, acho que o celular tem dois pesos: o que veio para unir e facilitar e o que veio para desunir nessa parte dos que não sabem usar. Tem uns grupos aí do meu sobrinho que eles saem aos sábados, aí é assim: todo mundo chega na mesa e coloca o celular em cima, ninguém usa, o primeiro que pegar no celular paga toda a conta. Osvaldo: As minhas meninas, às vezes, vão lá em casa nos finais de semanas. Chegando lá, elas não têm vez não, ficam no Whatsapp, os netos pulam para aqui pulam para ali e eu falo e elas nem sabem o que eu estou falando. Quando estou falando eu digo: “desliga isso aí ou então vocês vão para suas casas”, separa muito. Elas já sabem… se for para ficar falando no Whatsapp é melhor elas falarem comigo pelo Whatsapp. Renato: Eu um dia fiquei observando um rapaz com um celular e uma menina do lado dele, ela cansou dele, levantou e saiu e foi embora, depois de um tempo ele olhou e ela tinha sumido, a garota foi embora e ele ficou com o celular. Osvaldo: Mas para usar do jeito certo, na hora certa é a melhor coisa. Paula: Tem uma aluna aqui, uma senhora que é ela, a filha, o genro e o neto, aí ela me disse que estava se sentindo dentro de casa perdida “estou me sentindo igual a um bichinho, eu sou invisível, eles ficam na sala para ver televisão aí cada um conversando no celular”. Aí ela disse que vai para a cama dormir no silêncio porque ela não tem e não procurou evoluir, ela também não procurou colocar um Whatsapp, aprender uma informática, então, você se sente excluída. Moderadora: Para além de fazer e receber chamadas, o que fazem como o celular? Osvaldo: Tem o Whatsapp para a comunicação, o Facebook, tem o e-mail. Paula: Sim, onde você está você está sabendo se recebeu um e-mail. Osvaldo: Tem o Twitter. Paula: Twitter, eu nem sei mexer. Eu tenho o YouTube. Salvador: O YouTube é para tudo: ver música. Esses dias eu estava ouvindo música de 1925. (todos falam ao mesmo tempo) Paula: A gente vê novelas antigas. Osvaldo: Tem o Google que a gente pesquisa tudo. Renato: Converso com a minha filha através do Skype com o celular. Moderadora: E se eu fizesse a seguinte pergunta: Como seria a vossa vida sem o celular?
315 Paula: Seria muito ruim. Salvador: Eu teria que voltar para trás porque nas fazendas já é difícil. Você monta num cavalo e chega aqui na cidade ligeiro, mas aqui na cidade é difícil, hoje já não dá para ficar na cidade sem celular. Paula: Ai… eu não sei se não tivesse mais celular não… não sei como eu iria fazer não, eu faço tudo com o celular. Renato: Ela dorme com o celular. Osvaldo: Para negócio, hoje, não tem melhor que o celular. Paula: A maior parte do que eu faço de trabalho é com o celular, se você for ali no meu celular, tenho mais de 300 contatos, tudo da UMA. Família, eu tenho pouco, só o meu filho e a minha filha e, às vezes, passo uma semana sem entrar no Zap para falar com a minha filha por falta de tempo, às vezes, eu mando um coraçãozinho, um beijinho e pronto. Mas é mais pelo trabalho que iria se tornar muito difícil porque hoje, por exemplo, a UMA já está na sétima turma, vamos dizer aí uns 60 alunos, dá uns 500 alunos que dependendo do evento a gente tem que ir lá e ligar um por um, você passa dois ou três dias ligando e é coisa de um minuto aqui eu ponho no grupo do Whatsapp todo mundo recebe, todo mundo vê, mas eu ainda não tenho todos 400 ou 500 aqui, né? Mas estes mais chegados e mesmo os que já se formaram estão sempre voltando, a gente vai colocando para que eles fiquem inteirados no assunto. Se acabasse seria muito triste. Tem dia que a doutora [coordenadora da UMA] fala que não quer coisa pelo Whatsapp porque velho não lê direito, esquece de abrir, tem que ligar, mas é complicado, se eu ficasse sem Whatsapp, principalmente para mim, a questão do trabalho dificultaria muito. Salvador: Celular, eu acho que ele surgiu na década de 90, eu acho que não foi em 80 não. Então, voltando à década de 90, se subtrair 26 anos da minha idade não tem problema acabar o celular, mas se tirar o celular e não subtrair a minha idade, aí é um desastre, mas se tirar 26 anos da minha idade aí é nota 10! Eu trocaria esses 26 anos pelo celular, andar no mato, escrever cartas novamente, numa época que quase não tinha telefone para ligar, mas caso contrário, não pode deixar de existir não! Osvaldo: Tem uma vantagem que não precisa ninguém ficar batendo cabeça um com o outro não, com essas histórias do passado. Agora é só ir no celular e pesquisar que você acha tudo: aconteceu isso dia tal do mês tal. Tudo isso… eu já encontrei parente que tinha mais de 30 anos que eu não tinha notícia, há pouco tempo. Então, o celular serve para afastar, mas serve para aproximar também. Eu digitei o nome completo dele lá, mas apareceu tanta gente com esse nome… Renato: Os prós são muito mais que os contra. Salvador: Gostei dessa ideia da punição: quem pegar primeiro no celular recebe uma punição. Renato: Se o celular desaparecesse para mim seria difícil, eu teria que ir lá, dificultaria.
316 Osvaldo: Imagina como seria difícil o senhor ir ao Rio de Janeiro para falar com a sua filha. Renato: Ela vai me perguntando e eu vou falando como ela deve fazer, uma comunicação instantânea. Paula: Às vezes, eu quero comprar uma blusa para a minha filha, quero levar daqui porque é diferente de lá. A gente vai lá, tira foto e mostra para ela e pergunto qual ela gostou aí ela já escolhe. O problema é que ela acaba escolhendo todas. Osvaldo: Nós temos que ser uns velhos modernos, temos que usar o celular! Moderadora: E o computador, alguém tem computador? Osvaldo: Eu ainda não tenho, mas eu faço tudo pelo celular. Ele só não faz imprimir. Eu não tenho computador porque não preciso, já tenho o tablet e tudo que eu acho no computador eu acho nele, quando eu vou imprimir alguma coisa eu vou lá na lanhouse e imprimo. Moderadora: E os senhores têm computador? Salvador: Eu já tive, mas estava defasado e comprei outro só que lá em casa, me pediram emprestado e nunca devolveram… (o telefone toca e ele atende e fala com um cliente) Paula: Vai pagar multa! Osvaldo: Eu até desliguei para não pagar multa. Salvador: Pois é, estou sem computador porque o cara levou [ladrão]! Aí eu estou sem. Moderadora: Aí o senhor vai querer adquirir outro ou não? Salvador: Esse computador é interessante porque o meu neto sempre fica muito comigo aí ele disse… ele tem um computador em casa, o pai a mãe mexem com computador, só que ele estava lá em casa e começou a fazer o trabalho e disse “vô, eu vou levar esse computador para casa para eu terminar o meu trabalho, mas devolvo”. Ele levou o computador de tarde e quando foi de manhã o ladrão foi lá e o meu estava lá. O ladrão levou quatro computadores, duas televisões, eles encostaram um carro lá e levaram, devem ter levado uns 10.000 [reais]. Aí minha filha disse que iria me dar um outro computador, se ela comprar eu aceito de boa! Eu vou comprar um, tenho que ter, tenho a linha em casa. Paula: Nós temos um computador mesmo, temos um notebook, um computador desse aqui mesmo [aponta para o desktop que está na sala] eu não tenho usado. Paula: O computador já não tem tento uso. É assim, para quem estuda e para o trabalho o computador é muito importante, mas para a gente em casa agora a gente resolve tudo no celular.
323 eu chego lá “tio, o senhor não tem Facebook?” “eu vi fulano de tal” “Facebook é bom demais”. Então, se eu passo uma mensagem, todo mundo está vendo aquilo ali. Osvaldo: Mas ele tem privado que só você e a pessoa com quem você está falando vê. Salvador: Mas a gente abre lá e aparece todo mundo, as fotos. As pessoas se expõem muito, demais. Renato: Pode-se falar no Facebook no particular também. Salvador: Mas como? Então, eu preciso aprender a usar! Moderadora: Qual é a visão geral que possuem do Facebook? (Falam ao mesmo tempo) Osvaldo: Quando começou o Facebook, a turma ficava dando notícias de tudo que eu falava até que eu falei com a minha menina que aquilo não valia nada, a gente não fala nada escondido aí ela me disse “não é assim, pai”. Os mais novos não ensinam nada para a gente, mas ela me disse que ia arrumar uma senha que só entrava ali quem soubesse a senha, aí ela arrumou lá para mim, não sei colocar, mas ela colocou. As minhas meninas não mexem em nada meu, quando eu comprei o primeiro celular para mim eu comprei para elas também, tem 9 anos que eu comprei celular e elas não mexem, o telefone toca e elas só mexem se eu falar para elas atenderem. Moderadora: Digam-me uma coisa, o que pensam das redes sociais? Acham que é um recurso positivo ou negativo? Tomás: Eu acho que é extremamente importante e positivo, porém existe exceções. Existe muito medo das pessoas começarem a participar dessa ligação porque tira a privacidade, você passa a não ser uma pessoa individual, passa a ser coletiva. Onde você, por exemplo, cai uma notícia na internet, a primeira coisa que você quer fazer é conversar com alguém “você viu a notícia tal?”. Quer dizer, há um interesse muito grande das pessoas suplantarem essa quantidade de informações que existe e eu acho que é desgastante porque ninguém dá conta de consumir essa informação, ela é estressante e massacrante, a quantidade de informação que existe, ela tira da pessoa todo o tempo, ela passa a não ter mais tempo e quanto mais informação se vê mais aparece. Moderadora: Portanto, isso é, para o senhor, um aspecto negativo. Tomás: Negativo, pois ela consome muito. Se alguém for querer dominar isso aí para si e para mostrar para os outros que está conectado, ele vai ter que ter outro relógio. A quantidade de filmes que é colocado no YouTube por segundo é uma coisa absurda. As informações interessantes são um absurdo. Moderadora: Quais são os outros aspectos que os senhores querem destacar aqui sobre as redes sociais? Paula: A questão de expor as coisas, não precisa, você pode colocar umas coisas
324 particulares porque se aparece é porque você quis. Não sei se… só vai se você quiser, aí você coloca, mas se quiser só para a pessoa que você quer mandar também dá. Osvaldo: Mas a pessoa que está recebendo, quem está recebendo, se ela quiser transmitir para os outros ela pode. Se a questão da privacidade não se consegue nem com os íntimos, com a mulher e com os filhos, imagine com essa rede aberta. Então, colocando isso aí é um risco, você está se expondo de maneira escancarada porque você não sabe onde isso vai parar. É aquela expressão “caiu na rede”. (Todos falam ao mesmo tempo) Osvaldo: Tem que ser muito pensado. Tomás: Tem a tal nuvem que você pode cair no espaço. Mas a internet é a comunicação no espaço. Até, por sinal, hoje é o aniversário da internet, a internet tem apenas 25 anos e imagine a evolução nesses 25 anos, imaginem como vai ser esse negócio daqui para a frente porque essa comunicação com um astronauta, cientista que inventou a internet 25 anos atrás, exatamente hoje, 23 de agosto é o aniversário da internet. Renato: Hoje, tudo é a internet. Tomás: Agora, que vai atrapalhar a pessoa que quer usar o seu tempo para estudar. Precisa ter tempo para fazer outras coisas, outras tarefas, pois quanto mais você conhece a internet e visita a internet mais ânsia você tem para descobrir mais coisas para ver mais novidades. Onde vamos chegar? Não tem fim. Salvador: Para criar família hoje, a tecnologia tem influencia porque você vê crianças hoje com 5 anos que dominam a internet. A maioria dos pais e das mães está ocupada com o trabalho e os filhos são criados pelos avós. Quando eles estão em casa não tem ninguém para vigiar aí eles vão para o quarto, pode ser trabalho, mas pode ser também sacanagem, perdição. Quantos se perdem através da internet? Tem pornografia, quer dizer, a gente diz que é coisa errada, mas também tem coisas certas… Tomás: Violência, pornografia, influência negativa. Salvador: Maconha, sexualmente, tem muita coisa. Então, tem muita coisa ruim que os pais não querem para os filhos. Antes, o pai falava, mostrava. O pai ia para o trabalho, como era o meu caso, e a mãe era do lar, cuidava da casa e do marido. Antes a gente pensava que se o filho estivesse dentro do quarto estava seguro e hoje a gente já não sabe se está seguro lá dentro. Eles são mais sabidos do que no meu tempo quando eu tinha 15 anos, eles sabem tudo da internet, quando a gente vê qualquer coisa, eles vão lá e deletam e colocam uma figurinha. Então, está sendo instrumento de deturpar famílias, tudo quanto é de coisa errada, vem da internet, a internet ensina muita coisa para se fazer certo, mas também errado. Então, para mim é um ponto negativo. Os pais não dominam a internet. Tomás: Não tem como dominar a internet.
325 Moderadora: Agora com o processo de envelhecimento mais avançado a vida pode se modificar de várias formas. Como é que acham que a tecnologia pode influenciar, se é que influencia, esse processo de envelhecimento? Tomás: Sim, pode influenciar sim. Por exemplo, existem muitas modalidades de ensinamento tanto técnico quanto científico sobre a qualidade de vida na internet. O que se deve fazer sobre atividade física, reeducação alimentar, sobre doenças. Você fica doente e vai na internet para ver se descobre o que tem. Também tem a convivência, convivência familiar, pois hoje as famílias estão muito grandes, antes era o pai e os filhos, mas hoje já são até quatro gerações, pois com o aumento da expectativa de vida várias gerações estão convivendo. Moderadora: E a tecnologia está relacionada? Tomás: Sim, porque qualquer das fases da vida tem como tirar ensinamentos, coisas boas, informações sobre doenças, nutrição, alimentação. Comprar coisas pela internet e mandar entregar em casa também para ganhar tempo. Osvaldo: Hoje, a gente tem que comprar as coisas pela internet, um exemplo é o meu tablet. Minha filha que é craque no computador não sabia e eu falei para ela que eu precisava de um tablet. Eu fui no supermercado Extra e vi um que eu gostei e estava 1400 reais e eu disse que não dava, só de 400 reais para trás. No mesmo Extra.com vende um igual por 300 reais e 10 de entrega. Moderadora: O mesmo? Osvaldo: O mesmo! Chegou com 6 dias e era 1400 reais. Meu genro montou uma oficina porque ele é eletrotécnico e disse que não sabia como comprava umas peças e eu disse para ele “use a internet, meu amigo, para quê você quer isso aí, só para joguinho?”. Veio as coisas dos Estados Unidos por 1300 reais coisa que aqui era 5000 reais. Então, a internet ajuda, mas se ele for para o lado errado… tem muita coisa errada, tem que saber usar. Só que a juventude não está sabendo usar. Tomás: Veja aqui esta foto com quatro gerações [mostra um panfleto da UMA com quatro mulheres de diferentes gerações e pertencentes a uma mesma família]. Foi uma iniciativa aqui na UMA. O Brasil está se modificando rápido, o número de idosos está aumentado muito. Renato: Eu acho que falta muita assistência para o idoso. O Governo está se preocupando muito com os mais novos, como formas de ganhar dinheiro e na hora de liberar dinheiro para o velho, não tem. Essa UMA é um exemplo assim de dedicação ao velho, mas para conseguir uma UMA dessa fui com muita luta e dificuldade. Tomás: O número de velhos no Brasil era pequeno. Salvador: Não tem divulgação, o Governo não interessa em investir no velho, só se interessa pelo novo. Osvaldo: Agora já está começando aqui, com lugares de convivência.
326 (Falam ao mesmo tempo) Moderadora: Algumas vezes, quando estamos aposentados, temos mais tempo livre. Como foi esse período de transição nas vossas vidas? Salvador: Eu aposentei em 2005. No meu caso, eu era bancário. Eu digo que no Brasil tem dois tipos: o aposentado e o a-po-sen-ta-do. É uma questão de dinheiro e de tempo. Se ele tem dinheiro à vontade, ele pode ficar de boa. O outro deixou de ter vantagens da empresa, o dinheiro diminui. Por incrível que pareça, o presidente Fernando Henrique chamou o aposentado de vagabundo. Ele tirou os aumentos de salário, pois quem ganha até um salário mínimo tem 7% de aumento e quem ganha mais de dois, que é o meu caso, é 3 ou 4%. Isso é uma discriminação. A maioria das pessoas aposentadas com um salário mínimo não contribuiu nem um centavo para a previdência e não tem direito a essa aposentadoria. Eu contribuí 36 anos e tem cidadão que não contribuiu nem um centavo. Isso é uma discriminação. A gente aposenta não pode ficar parado, não tem tempo livre, aí é que tem que trabalhar, correr atrás, pois as despesas continuam. Moderadora: Então, a sua vida não mudou muito, o senhor continua trabalhando. Salvador: Eu não quero ficar ocioso, então eu trabalho e para ter um pouco mais de dinheiro. A expectativa de vida também aumentou. Tomás: Depois que a pessoa aposenta, ela e um peso para a sociedade. Salvador: Não, ela contribuiu para isso. Tomás: Com o aumento da expectativa de vida, esse peso vai aumentar não só no Brasil, mas em outros países também. Quando eu aposentei eu trabalhei em uma prefeitura e trabalhei no setor previdenciário. Fizemos um treinamento e no banco também e as empresas maiores fazem um passo a passo da aposentadoria, antes da pessoa aposentar faz um preparo, um programa para a aposentadoria, um treinamento. Eu trabalhei em um banco do Estado de Goiás, isso já tem um tempo, nos anos 90. Após a aposentadoria, individualmente, cada um tem um planejamento, um plano para realizar. Dependendo da individualidade de cada um. No meu caso, eu fiquei muito satisfeito quando eu aposentei, pois eu pude continuar trabalhando e estudando. Eu continuei trabalhando, mas foi num serviço menos complexo, menos sério. Eu passei a ter mais tempo para estudar. Eu nunca deixei que a minha vida ficasse com lacunas, até mesmo quando eu estava no banco eu fiz trabalhos paralelos, continuei estudando porque achava que era importante para preencher o tempo. Moderadora: Agora o senhor já não trabalha, não é? Tomás: Eu trabalho, ultimamente não é remunerado, eu fui demitido, é um trabalho voluntário, eu continuo fazendo a mesma coisa sem receber, enquanto eu não arrumo outro emprego. Eu estou procurando emprego ou este onde eu estava ou outro. A ideia das famílias de uma pessoa aposentada e da comunidade, é que ele não faz nada e às vezes, não é bem assim. É ele quem vai levar filho ou neto na escola, bisneto, levar o doente no médico, fazer mandado, se for mulher são os trabalhos domésticos. Ele é
327 o motorista, sabe? “ele não está fazendo anda, manda ele fazer isso, buscar isso”. Termina ele fazendo mais do que os outros que estão trabalhando porque ele não faz nada. Essa é uma faceta cruel para determinadas pessoas. Moderadora: Se eu falar assim: quanto mais velhos ficamos mais afastados nos tornamos da sociedade. Concordam ou discordam desta frase? Osvaldo: Isso tem muito de verdade porque tem muito velho que quer que o sistema seja como quando ele era jovem, não se preparou para ser velho, diferente de mim que já estou aqui na UMA há dois anos, estou me preparando. Tem gente que não prepara, aí quando está velho ele vê um jovem fazendo uma coisa e ele quer que seja como no tempo que ele era jovem, mas está tudo diferente, as coisas mudam, tudo que os outros fazem, ele dá má resposta, aí a turma larga ele para um canto. Seja aquele velho feliz como o meu pai, ele foi um velho que não tinha leitura, a única coisa que ele sabia mexer muito era com gado, veterinário sofria na mão dele também e ele foi peão de rodeio, eu fui peão de rodeio e peão de boiadeiro, aprendi com ele, hoje eu já estou velho para o serviço. Moderadora: Hoje, o senhor tem essa preocupação de se manter atualizado, de acompanhar a evolução das coisas? Osvaldo: De ser um velho feliz! Meu pai morreu doente no HGP [Hospital], mas ele dizia que teve momentos felizes na vida quando olhava para trás. Eu sou desses, eu preparo para a vida, viver de bem com a vida. Moderadora: E o senhor Tomás, o que pensa sobre o fato de ficarmos velhos e nos afastarmos socialmente. Tomás: Na grande maioria… Osvaldo: Da sociedade, geralmente, é. Para o mercado de trabalho, entendeu? Eu vou no mercado do trabalho e chego lá com essa cara e pensam que eu tenho 40 e poucos anos porque a minha cor tem me ajudado, eu preencho todos os papéis e ele diz para eu esperar em casa pelo telefonema, nunca mais! Aí eu vejo um jovem de 25 ou 30 anos e que, às vezes, nem tem competência e eu pergunto e ele diz que começou a trabalhar no outro dia. Então, eu estou velho. O homem é discriminado, dizem que o homem morre mais porque não cuida da saúde. A gente vai no posto e tem o dia de atender só mulher e não tem o dia do homem não. Eu vou para o mercado de trabalho e não tem. Tomás: Com o chegar dos anos a grande maioria sofre as consequências da idade, há uma rejeição da pessoa de idade. Os novos, por exemplo, fazem de tudo para não conviver com esse pessoal porque o avô é velho, é feio, é fedorento, se você vai deixar o neto na escola quando chega mais perto ele diz “não vô, daqui eu vou sozinho, o senhor pode voltar”. Ele não quer que os amigos vejam o avô dele que está velho e desgastado. Nós mesmos nos rejeitamos ao olharmos no espelho, a gente vê os cabelos brancos e não gosta. A gente até faz piada com isso. Osvaldo: Feio demais, mas faz parte, mas aceitar também não é fácil.
328 Tomás: …A gente se lembra da juventude quando você era playboy, tinha o cabelo grande e não era careca. Essas coisas trazem o sentimento de ficar atrás da moita, escondido. Esse processo de isolamento social é também natural. Não são todas as pessoas, mas a maioria passa por isso. A gente vê que existe realmente. O casal casou e eram bonitos, ele jovem com um carrão, a mulher também. Depois ficam com a perna torta, sinais de envelhecimento e isso gera qualquer coisa ligada ao isolamento social porque a pessoa se isola. O acúmulo de problemas que recai sobre a pessoa de idade, por exemplo, se você é jovem e deita para dormir as preocupações são limitadas, é pouca coisa. Nós velhos, já vivemos muito, já carregamos muita coisa, um já está velho, está doente, o outro está com uma doença complicada, se preocupa com o jovem, seu filho, neto, parente que está dando trabalho, problemas sérios de drogas, por exemplo. O seu pensamento está todinho envolvido com problemas. Você vai no cemitério, num sepultamento, por exemplo, e você vê muitas placas de pessoas mais novas do que você que morreram e você está vivo ainda. Isso quer dizer que se eu morrer não vou fazer falta para ninguém, eu sou um velho. Moderadora: Todas essas reflexões que o senhor está fazendo agora, o senhor também vê refletidas na sua vida? Tomás: Sim. Os colegas que você vai relembrando, dos seus parentes. Quantos já morreram? Famílias que você tinha 10 irmãos e só tem dois vivos. Moderadora: E se eu falasse assim: manter-se ativo é importante para ter uma boa velhice. O que pensam sobre essa afirmação? Paula: Eu concordo, plenamente. Na velhice, estar ativo faz viver mais, pois se você ficar sentado o dia todinho dentro de casa e fazendo as refeições vendo televisão no sofá, lendo jornal e não se exercitar fisicamente e mentalmente vai adoecer, o organismo vai ficar debilitado. A pessoa que faz exercício e que trabalha com a força, trabalho braçal, que trabalha na roça, ele vive mais do que quem vive na cidade. Moderadora: E acham que as tecnologias podem contribuir para a pessoa manter-se ativa? Tomás: Com certeza. Renato: Mentalmente, sim, mas fisicamente não. Osvaldo: Fisicamente não porque o cabra incute com ele ali e é só aquilo e não faz nenhuma atividade, nenhuma caminhada. A pessoa quando perde o preparo físico, até os ossos dele quebram mais fácil. O cabra da roça não fica quebrando perna não, mas o serviço da roça é bruto. E a tecnologia pode contribuir, ele, ali dentro, procura maneira, só que a maior parte dos que incute só aprende na teoria e não coloca em prática. Tem que buscar o conhecimento lá dentro e colocar em prática. Tomás: Mas eu faço. Desde que eu mudei para cá há 7 anos, eu participo de um grupo, uma associação chamada Associação Amigos do Bem. Nós buscamos qualidade de vida. Nós fazemos um trabalho sobre conscientização da importância da atividade física, o cálculo do IMC, a questão do peso, sedentarismo, busca de bem-estar.
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