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Mediação parental do uso de tecnologias digitais por crianças com menos de dois anos em diversos contextos culturais Elena Postolache Dissertação de Mestrado em Ciências da Comunicação, Área de Especialização em Estudos dos Media e de Jornalismo Junho de 2018
Dissertação apresentada para cumprimento dos requisitos necessários à obtenção do grau de Mestre em Ciências da Comunicação, área de especialização em Estudos dos Media e de Jornalismo, realizada sob a orientação científica da Professora Doutora Professora Doutora Maria Cristina Mendes da Ponte
Dedico esta dissertação à minha filha Micaela
AGRADECIMENTOS A presente dissertação de mestrado não poderia ser realizada sem o precioso apoio de várias pessoas. Em primeiro lugar, queria agradecer à minha orientadora, Professora Doutora Maria Cristina Mendes da Ponte, por toda a paciência, empenho e sentido prático com que sempre me orientou neste trabalho e em todos aqueles que realizei durante os seminários do mestrado. Muito obrigada por me ter corrigido quando necessário sem nunca me desmotivar. Desejo igualmente agradecer à minha família por estar sempre calorosamente ao meu lado.
Resumo Mediação parental do uso de tecnologias digitais por crianças com menos de dois anos em diversos contextos culturais Elena Postolache Palavras-chave: meios digitais, mediação parental, desenvolvimento infantil, cultura familiar Na sociedade atual, desde que nascem as crianças são inseridas num mundo dominado por meios digitais. Crescem em ambientes ricos em média e apropriam-se das novas tecnologias ainda nos primeiros anos de vida. Televisão, smartphones, tablets, consolas de jogos, computadores são alguns dos recursos digitais que permeiam o seu quotidiano. Os pais são vistos como os principais mediadores relativamente ao contacto das crianças destas idades com meios digitais, tendo também um papel relevante no seu desenvolvimento e bem-estar. No entanto, pouco se sabe sobre o desenvolvimento de hábitos digitais pelas crianças muito novas e como é que os pais e o ambiente familiar influenciam esse processo. O presente estudo faz uma tentativa de preencher essa lacuna realizando uma pesquisa empírica com quatro famílias de crianças até dois anos de idade, distintas nos seus aspetos culturais (naturalidade, religião, classe social, educação e profissão) e com residência em Portugal. O objetivo é analisar se e como a interação das crianças com tecnologias digitais nos primeiros dois anos de vida é moldada pelos modos como os pais geram acesso aos meios digitais e pelos diferentes contextos culturais dessas famílias. As conclusões do estudo indicam que o uso dos média digitais se tornou um comportamento normativo entre crianças muito pequenas, e enfatizam o quanto as novas tecnologias estão integradas nas práticas parentais e modos como estão condicionadas pelo ambiente cultural das famílias.
Abstract Keywords: digital media, parental mediation, child development, family culture In today's society, children are born into a world dominated by digital media. They are growing up in media rich environments and appropriating new technologies even in their early years of life. Television, smartphones, tablets, game consoles, computers are some of the digital resources that permeate their everyday life. In this context, parents are seen as main mediators regarding children’s contact with digital media, having a relevant role in their development and well-being. However, little is known about the development of digital habits by very young children and how parents and the family environment influence this process. The present study makes an attempt to fill this gap by conducting an empirical research with four families of children up to two years of age. The four families, all living in Portugal, are different in their sociocultural aspects: place where they were born, religion, social class, education and occupation. The aim of the study is to analyze whether and how the interaction of children with digital technologies in the first two years of life is shaped by the ways parents provide their access to digital media and by the different cultural contexts of these families. The findings indicate that the use of digital media has become a normative behavior among very young children, and emphasize how new technologies are integrated into parental practices and conditioned by the cultural environment of families.
Índice INTRODUÇÃO .......................................................................................................... 1 Parte I: ENQUADRAMENTO TEÓRICO Capítulo 1: Perspetivas sobre desenvolvimento infantil da criança entre 0 e 2 anos : Piaget, Vigotsky, Wallon. .......................................................................... 4 Capítolo 2: Características culturais da parentalidade ......................................... 15 Capítulo 3: Mediação parental relacionada com o uso de tecnologias digitais por crianças pequenas ................................................................................................ 25 Parte II: QUESTÕES METODOLÓGICAS E ESTUDO EMPÍRICO Capítulo 4: Metodologia de pesquisa ................................................................. 37 4.1 Metodologia de estudo ...................................................................... 37 4.2 Caracterização da amostra ................................................................. 39 4.3 Técnicas de recolha de dados ............................................................. 42 4.4 Método utilizado para a análise dos dados ........................................ 44 Capítulo 5: Apresentação e análise dos dados ..................................................... 46 5.1 Apropriação das tecnologias digitais pelas crianças com menos de dois anos em diferentes ambientes familiares. ........................................ 46 5.2 As percepções dos pais sobre as tecnologias digitais em famílias com uma origem cultural diferente do contexto cultural da sociedade onde vivem ........................................................................................................ 57 5.3 Análise dos modos como os pais de diversas culturas geram o uso de tecnologias digitais dos filhos mais novos ............................................... 61 5.4 A visão dos pais sobre a importância das tecnologias digitais para a família e primeira infância ............................................................................................. 65 CAPÍTULO 6: DISCUSSÃO DOS RESULTADOS E CONCLUSÃO .......................................... 69 Bibliografa ..................................................................................................................... 72 Anexos ............................................................................................................................ 82
1 Introdução A introdução do iPhone em 2007 marcou o nascimento dos digitods - uma nova geração de crianças nascidas com acesso imediato a uma vasta gama de dispositivos touchscreen (TSDs) (Holloway, 2015). Segundo o estudo europeu EU Kids Online (Holloway et al, 2013), a maioria dos bebés com menos de 2 anos, nos países desenvolvidos, tem já presença online. Um estudo recente, realizado no Reino Unido em 2015, mostra que 75% das crianças com idade entre seis meses e três anos fazem uso diariamente de tecnologias com ecrãs sensíveis ao toque, registando um aumento de uso de 51% aos 6-11 meses para 92% aos 25-36 meses (Bedford e tal., 2017). Parece que as crianças muito novas estão ansiosas para apropriar-se das novas tecnologias digitais e, ao mesmo tempo, também há algumas evidências que comprovam a aquisição de várias habilidades técnicas para manuseá-las ainda nos primeiros dois anos de vida (Bedford e tal., 2016). Estes resultados refletem uma tendência mundial, ou seja, crianças cada vez mais jovens têm acesso a dispositivos digitais, especialmente nos países mais desenvolvidos. Apesar disso, pouco se sabe sobre a dinâmica dos hábitos digitais das crianças na primeira infância e como è que os pais e o ambiente familiar medeiam esse processo. O presente estudo procura analisar como è que os usos digitais das crianças pequenas são moldados pelas percepções dos pais e pelos vários aspetos relacionados à família que determinam esse processo. De acordo com a abordagem teórica da aprendizagem e desenvolvimento psicológico de Piaget, a aprendizagem nas crianças pequenas é sempre provocada por situações externas ao sujeito e resulta do comportamento de observação e imitação daqueles que o cercam (Piaget, 1997). Assim, as crianças muito pequenas podem observar e imitar os usos dos media dos seus pais e irmãos mais velhos (Lauricella, Wartella, & Rideout, 2015).. Por exemplo, as crianças com menos de dois anos são mais predispostas a ver televisão se os pais costumam utilizá-la com frequência, ou seja, os pais facilitam o tempo de acesso dos filhos à televisão por meio do próprio hábito de uso, possivelmente fornecendo um modelo implícito de consumo associado à utilização da televisão (Anderson & Hanson, 2010). Além disso, de acordo com a teoria de que os sistemas de crenças parentais ou etnoteorias (Harkness e Super, 1992) formam um quadro de referência subentendido que sustenta o comportamento dos pais dentro de uma determinada cultura, compreende-se que os valores, atitudes, crenças, tradições e praticas dos pais moldam as experiências de mediação das crianças desde o seu nascimento (Gomes, 2005). Nesta perspectiva, é fundamental considerar as crenças parentais para compreender as estratégias que os pais (ou cuidadores) usam para mediar
2 o uso das tecnologias pelas crianças desde o seu nascimento. Um exemplo, nesse contexto, são os estudos sobre o tempo de uso dos média pelas crianças que mostram que os pais que acreditam que os média tem um impacto positivo no desenvolvimento infantil permitem que os seus filhos assistam a mais conteúdos media (Lauricella et al, 2015). Os pais podem ainda utilizar as tecnologias como forma de recompensa e gratificação (Katz, Blumler & Gurevitch, 1974) para ocupar a criança enquanto precisam de efetuar tarefas domésticas ou controlar o seu comportamento durante situações desafiadoras, como à hora de refeição ou antes de dormir (Elias & Sulkin, 2017). As crenças parentais são também um importante aspecto do nicho de desenvolvimento da criança (Harknesse&Super, 1992). Nesse sentido, a família é considerada como o principal mediador da organização do espaço e disponibilização dos recursos de desenvolvimento e aprendizagem da criança. O modelo desenvolvido por Harkness e Super (1992, 1996) sustenta que a partir da análise dos elementos que compõem o nicho de desenvolvimento da criança é possível compreender tanto o que pode ser observado como o comportamento dos pais, as práticas de cuidado e o desenvolvimento da criança, quanto o que é menos aparente como as idéias, crenças e valores dos pais que orientam as ações. Diante disso, as tecnologias digitais nesta pesquisa são vistas como componentes do nicho de desenvolvimento infantil, no ambiente familiar, procurando investigar a relação entre o contexto digital, a criança em desenvolvimento e as características psicológicas de seus cuidadores. Assim sendo, partindo da conceptualização teorica do desenvolvimento sócio-cognitivo na primeira infância e das etnoteoriasparentais inseridas no nicho de desenvolvimento da criança, este estudo predende analizar como é que os modos como os pais geram acesso aos meios digitais marcam a interação das crianças com esses meios nos primeiros dois anos de vida, tendo em conta as características de desenvolvimento na primeira infância e influência de vários aspetos proporcionados pelo contexto cultural das famílias. Para a recolha de dados foi realizada uma pesquisa empírica com quatro famílias de crianças até dois anos de idade, distintas nos seus aspetos culturais (naturalidade, religião, classe social, educação e formação) e com residência em Portugal. Neste contexto, o objetivo deste estudo centrou-se na análise das práticas de mediação parental dos usos digitais e do processo de apropriação das novas tecnologias pelas crianças com idades até dois anos atravessando a relação entre o perfil de desenvolvimento infantil e os fatores culturais do ambiente familiar. Face ao exposto, a presente dissertação encontra-se organizada em seis capítulos. Nos primeiros três capítulos é apresentado o enquadramento teórico do trabalho. O capítulo 1
9 desenvolvimento não se dá linearmente, por ampliação, tal como na teoria do Piaget, mas pela reformulação do nível de desenvolvimento. Os estágios do desenvolvimento propostos por Wallon são os seguintes: 1) estágio impulsivo-emocional, compreendido entre 0 e 3 meses de idade; 2) estágio expressivoemocional, entre 3 meses e 1 ano de idade; 3) estágio sensório-motor e projetivo, compreendido entre 1 e 3 anos; 4) período do personalismo dos 3 aos 6 anos de idade; estágio categorial, dos 7 aos 11 anos; e 5) estágio da adolescência, dos 11 aos 12 anos de idade da criança. Cada estágio é determinado pelas atividades que correspondem aos recursos que a criança dispõe naquele momento para interagir com o ambiente (Galvão, 2000). Tendo em conta que se trata de um estudo com crianças com faixa etária entre 0 e 2 anos de idade, o presente trabalho analisa apenas as características comuns do primeiro estágio descrito pelo Piaget e dos primeiros dois estágios identificados por Wallon. O foco principal é entender e descrever o comportamento das crianças desde o nascimento até 2 anos de idade. O primeiro estágio citado por Piaget é chamado de sensório-motor e envolve as evoluções da criança entre o nascimento e os dois anos de vida. É denominado assim porque a inteligência nessa etapa se desenvolve a partir de experiências sensoriais e evolução dos movimentos. Piaget considera que este período, em que ocorre um extraordinário desenvolvimento intelectual, é decisivo para todo o seguimento da evolução psíquica. Segundo Piaget, o primeiro ano de vida da criança é o período da infância em que o desenvolvimento é muito acelerado. (Pasqualotti et al, 2008). Para Piaget este estágio é composto de seis sub-estágios. O autor explica que nos primeiros cinco subestágios os bebês aprendem a coordenar as informações do sentido e organizar suas atividades em relação ao seu ambiente – sensação e percepção. O contacto com o meio é direto e imediato, sem representação ou pensamento. Já no sexto sub-estágio, a criança vive o início do simbolismo, que ocorre com o início da premeditação de suas ações, utilização de símbolos e conceitos para resolver problemas simples e desenvolvimento da ideia de objeto permanente. É importante observar que para Piaget o conhecimento se dá por descobertas que a própria criança faz. O começo do conhecimento se constrói a partir dum processo de adaptação do sujeito ao objeto de conhecimento. O processo de conecimento possibilita situações novas, desafiadoras para o indivíduo e causa-lhe desequilíbrios que são necessários para o avanço do seu desenvolvimento. Também Wallon propõe estágios de desenvolvimento da criança, mas não especifica idades limite, pois acreditava num desenvolvimento dialético e interacionista.
10 O estágio impulsivo-emocional, que vai do nascimento até aproximadamente ao primeiro ano de vida, é um estágio predominantemente afetivo. Marcado pela preponderância da afetividade e das emoções, conduz as primeiras reações do bebê em relação às pessoas à sua volta, mediando sua relação com o meio físico. A criança é o centro da atenção, necessitando constantemente do auxílio de pessoas para o progresso do seu desenvolvimento. A importância dessa atenção refere-se ao desenvolvimento psíquico e físico. Os primeiros gestos são manifestados a partir da emoção. A simbiose fisiológica dá lugar à simbiose emocional a partir da significação que o social dá ao ato motor da criança, que se expressa no sorriso e nos sinais de contentamento (Wallon, 1981). No estágio impulsivo-emocional, que acontece no primeiro ano de vida, há predominância da afetividade e das emoções, conduzindo as primeiras reações do bebê em relação às pessoas à sua volta, mediando sua relação com o meio físico, a criança é o centro da atenção, necessitando constantemente do auxílio de pessoas para o progresso do seu desenvolvimento. Dos três meses de idade até aproximadamente o terceiro ano de vida, a criança passa pelo estágio sensório-motor e projetivo. Para Wallon esta etapa é marcada pelo predomínio da interação entre criança e meio. É uma fase onde a inteligência predomina e o mundo externo prevalece nos fenómenos cognitivos. A criança já começa a atuar concretamente sobre o seu mundo e gradativamente torna-se capaz de se diferenciar dos outros. Nesse estágio, os pensamentos se projetam em atos motores. Wallon atribui muitas características ao ato motor que além de seu papel na relação com o mundo físico, tem uma função fundamental na afetividade e também na cognição (GALVÃO, 1995). Antes de agir diretamente sobre o meio físico, o movimento atua sobre o meio humano, mobilizando as pessoas pelas emoções. Para esse autor, o movimento da criança é um elemento que consegue traduzir a vida psíquica, pelo menos até o momento em que aparece a palavra. Sob outra perspectiva, Vigotsky aponta para o facto de que não se pode falar de um conceito único de desenvolvimento humano, mas de diferentes tipos de desenvolvimento. Assim sendo, ele enfatiza a diferença entre o desenvolvimento que está sujeito às regras biológicas da maturação e o desenvolvimento mental, que tem como base exatamente a aprendizagem que a criança realiza no contexto social em que está inserida. Com relação a este tipo específico de desenvolvimento, pode-se dizer que Vigotsky defende que o desenvolvimento depende da aprendizagem. A partir dessa visão, fica clara a importância que Vigotsky dá aos mediadores do conhecimento, sejam eles pessoas adultas ou indivíduos da mesma idade. Para Vigotsky, a constituição social da condição humana pressupõe a mediação de um outro e essa é uma ideia
11 central para a compreensão das suas concepções sobre o desenvolvimento humano como processo sócio-histórico. Na teoria histórico-cultural de Vigotsky (1991) o desenvolvimento humano ocorre por meio do processo em que o mundo passa a ter significado para criança, que se vai tornando um ser cultural, a partir das interações estabelecidas com o outro. Para ele, o sujeito não é apenas ativo (como em Piaget), mas também é interativo, porque forma conhecimentos e se constitui a partir de relações intra e interpessoais. A relação do indivíduo como o mundo não é direta, mas essencialmente mediada, necessitando da presença de um elemento mediador. A mediação na teoria Vigotskyana é considerada como “o processo de intervenção de um elemento intermediário numa relação; a relação deixa, então, de ser direta e passa a ser mediada por esse elemento” (Oliveira, 1997, p. 26). Oliveira (1997) destaca que, na perspectiva Vigotskyana, o elemento mediador que intervém na relação da criança com o meio é o outro sujeito mais experiente. A apropriação do mundo cultural só pode acontecer pela participação do outro através de gestos, palavras e ações com significação para o outro e que, posteriormente, vão adquirir significação para a própria criança. Vigotsky observa que a criança apresenta em seu processo de desenvolvimento um nível que ele chamou de real e outro potencial. (Vigotsky, 2007). O nível de desenvolvimento real refere-se a etapas já alcançadas pela criança, isto é, as coisas que ela já consegue fazer sozinha, sem a ajuda de outras pessoas. Já o nível de desenvolvimento potencial diz respeito à capacidade de desempenhar tarefas com a ajuda de outros. Há atividades que a criança não é capaz de realizar sozinha, mas poderá conseguir caso alguém lhe dê explicações, demonstrando como fazer. Essa possibilidade de alteração no desempenho de uma pessoa pela interferência da outra é fundamental em Vigotsky. Para este autor, a aprendizagem é o produto da ação de mediação dos adultos no processo de aprendizagem das crianças. Esse processo de mediação, onde o adulto usa ferramentas culturais tais como a linguagem e outros meios, é um processo de internalização, no qual a criança domina e se apropria dos instrumentos culturais como os conceitos, as idéias, a linguagem, as competências e todas as outras possíveis aprendizagens. Para ele, portanto, o desenvolvimento dos processos cognitivos superiores, é resultado de uma atividade mediada. Mediador é aquele que ajuda a criança a alcançar um desenvolvimento que ela ainda não atinge sozinha. Já para Piaget, a criança é o autor do seu conhecimento e ninguém poderá fazer isto por ela, mas ainda, segundo ele, é a aprendizagem que depende do desenvolvimento, ou seja, ela vai depender do nível de desenvolvimento em que a criança se encontra. É certo que Piaget coloca uma grande ênfase na atividade do sujeito, mas, segundo ele, é a partir dos mecanismos epistêmicos de como se pensa que a criança pode formular e reformular as idéias que o mundo
12 adulto lhe oferece ou seja a presença de algumas características é fundamental para que se realiza a mediação. A seguir, apresenta-se uma síntese comparativa (Tabela 1) entre as três teorias analisadas neste estudo para facilitar uma melhor compreensão das principais abordagens feitas ao fenómeno de aprendizagem e desenvolvimento humano, segundo os seus autores. Tabela 1. Quadro comparativo das concepções de aprendizagem entre os teóricos Piaget, Vigotsky e Wallon Autor Piaget Vigotsky Wallon Perspetivas teóricas Interacionismo construtivista Sócio-interacionismo Sócio-interacionismo construtivista Abordagem do desenvolvimento humano O conhecimento se constrói através da interação com o meio físico. Aprendizagem = Sujeito → meio O desenvolvimento cognitivo resulta das relações sociais entre os membros do mesmo grupo cultural através do processo de interação e mediação O desenvolvimento e a aprendizagem são determminados pela integração entre afetividade inteligencia e maturação biológica. Aprendizagem = meio → sujeito Enfoque da teoria Maturação biológica Interação social no ambiente históricocultural A afetividade como elemento mediador das relações sociais no processo de aprendizagem. Estágios de desenvolvimento Estágios de desenvolvimento sequenciais e universais Não aceita visão universal do desenvolvimento Desenvolvimento é um processo contínuo, mas não uniforme. Relação entre desenvolvimento físico e cognitivo do sujeito A aprendizagem depende do desenvolvimento biológico A aprendizagem precede o desenvolvimento A aprendizagem e o desenvolvimento são processos complementares Relação do sujeito com o mundo O conhecimento é construído do sujeito para o social. O sujeito é autónomo na construção do seu conhecimento De social para o individual. A aquisição de aprendizagem é sempre mediada pelos outros sujeitos mais experientes De social para o individual. O processo de aquisição do conhecimento é mediado pela afetividade Relação linguagem - pensamento O pensamento è anterior a linguagem A linguagem estrutura o pensamento
13 Finalizando este capítulo, vimos que Piaget, Vigotsky e Wallon desenvolveram estudos de fundamental contribuição para a compreensão do desenvolvimento e reconhecimento da importância das interações sociais no processo de elaboração do conhecimento. Os três autores tentaram mostrar que a capacidade de conhecer e aprender se constrói a partir das trocas estabelecidas entre o sujeito e o meio. Tanto Vigotsky como Wallon concordam que o ser humano se constrói na relação com o outro, nas suas interações com o meio social e através de mediações, transformar a natureza e ser transformado por ela. Para Visgotski o elemento mediador dessa relação é a cultura e a linguagem, para Wallon é a emoção. Piaget, embora não negue o papel do meio social no processo de desenvolvimento e aprendizagem da criança, busca focar os seus estudos na cognição. Para Vigotsky, a criança nasce inserida num meio social, que é a família, e é nela que estabelece as primeiras relações com a linguagem na interação com os outros. Vygotsky entendia que as crianças, desde o nascimento, estão em constante interação com os adultos, que ativamente procuram incorporá-las na sua cultura. No início as respostas das crianças são dominadas por processos naturais, biológicos, mas é através da mediação dos adultos que seus processos psicológicos mais complexos ganham forma. Partindo da ideia da teoria histórico-cultural de Vigotsky, de que a aprendizagem ocorre principalmente em processos mediados de relações sociais, pode-se afirmar que o meio familiar se apresenta como privilegiado para que aconteça esta apropriação e os pais são vistos como os primeiros agentes mediador deste processo de apropriação socio-cultural. Em síntese, na primeira infância, o desenvolvimento e a aprendizagem ocorrem, fundamentalmente, através das interações com adultos significativos, da construção de laços de vinculação, da observação, de jogos sociais, das ações com objetos, da exploração sensóriomotora do espaço e de materiais, da repetição, do envolvimento da criança em contextos de aprendizagem significativos. A descrição dos estágios de desenvolvimento propostos por Piaget e Wallon verifica que a criança até aos 2 anos mostra capacidade para pensar sobre o mundo e sobre si mesma na interação que estabelece com as pessoas e os objetos. O que importa destacar é que a interação da criança com o mundo e com as ferramentas próprias deste mundo não se refere simplesmente aos objetos que constituem o universo infantil próximo, ou seja, aqueles objetos com os quais a criança opera. Ao contrário, a criança procura se relacionar com objetos com os quais os adultos operam, mas que ela ainda não é capaz de os operar de modo autonomo. A contradição entre o desejo da criança de agir sobre as coisas e a
14 impossibilidade de fazê-lo exatamente por ainda não dominar as operações exigidas pelas condições objetivas reais da ação dada só pode ser solucionada pela atividade lúdica. De acordo com Vigotsky (Leontiev, 2001), essa atividade lúdica não é uma atividade produtiva, o seu objetivo não é um determinado resultado, mas sim a ação em si mesma. È uma atividade objetivamente determinada pela percepção que a criança possui do mundo e pelo seu desejo de apropriar-se dele. Conforme salienta Leontiev (2001): durante o desenvolvimento da consciência do mundo objetivo, a criança tenta compreender e apreender não apenas coisas que lhe são diretamente acessíveis, mas também aquilo que tem relação com o mundo mais amplo. Isto é, “a criança se esforça para atuar como um adulto” (Leontiev, 2001, p.120). Em conclusão, sintetizando os principais aspetos das teorias de desenvolvimento dos mais importantes representantes do interacionismo: Piaget, Wallon e Vygotsky, observa-se que o processo de desenvolvimento e aprendisagem infantil é determinado por vários fatores, entre os quais se destacam a relação entre a capacidade de interação da criança com o seu ambinte e a apropriação deste ambiente por meio da mediação. Desta forma, pode-se concluir que os pais, como principais cuidadores, influenciam o desenvolvimento da criança, organizando espaços e tempos, estabelecendo relações e propondo experiências envolventes do repertório cultural das famílias e da sociedade onde vivem, proporcionando às crianças apropriação de objetos da cultura presente no dia a dia da família, tais como os meios digitais.
15 Capítulo 2 Características culturais da parentalidade Esse capítulo apresenta alguns conceitos principais relacionados com a cultura e a parentalidade. O seu objetivo é ver atráves da revisão de literatura como os fatores culturais se relacionam com as crenças e as práticas parentais e quais são os efeitos de diferentes práticas educativas dos pais no desenvolvimento dos seus filhos. Desde o nascimento os pais são das pessoas mais importantes na vida de uma criança. As crianças aprendem e dependem dos seus pais que são responsáveis por supervisionar, educar e crescer os seus filhos num ambinete seguro. Cole (1998) entende a natureza humana como o produto biossocial e cultural de um longo processo evolucionário. Segundo esse autor, os bebés já nascem como seres culturais que interagem e comunicam como as pessoas ao seu redor. Mesmo antes do nascimento, os bebés já se encontram inseridos num meio cultural. No ambiente familiar em que iniciam a vida, interagem com os pais, portadores de valores, crenças e atividades mediadas pelos instrumentos desta cultura. Os estudos mostram que o percurso do desenvolvimento motor, cognitivo, emocional e social nos primeiros anos de vida da crinaça pode ser influênciado por diversos fatores relacionados com as interações e o ambiente familiar (Minuchin, Colapinto & Minuchin, 1999). Dessa forma, Sigolo (2004, p.189)) descreve a família como um "espaço de socialização infantil" com função de "mediadora na relação entre a criança e a sociedade". Essa visão permite perceber que nas interações familiares são transmitidos "padrões de comportamentos, hábitos, atitudes e linguagens, usos, valores e costumes " e são desenvolvidas "as bases da personalidade e da identidade " da criança (ibidem, p.189) De acordo com Szymanski (2004, apud Silva Nancy, 2008), a criança, ao nascer encontra um mundo organizado pela sociedade e assimilado pela família, que, por sua vez, também carrega uma "cultura própria". Essa cultura familiar específica apresenta-se "impregnada de valores, hábitos, mitos, pressupostos, formas de sentir e de interpretar o mundo", que definem diferentes maneiras de mediação no contexto familiar. Assim, observa-se que os pais procuram agir de forma que os seus filhos adquiram os valores familiares, mesmo que não o façam de forma consciente. Há muitos estudos que exploram o que os pais pensam sobre seus filhos, quais são as suas expectativas, o seu desenvolvimento, os valores que pretendem passar, as suas atitudes em relação à maternidade e à criança (Melchiori et al., 2007, p.245-246) e que salientam que a
16 maneira de agir dos pais decorre do seu sistema de valores a respeito do que é melhor para o filho. Estes estudos vão assim além da “definição” ou “representação” do que a criança é, como se desenvolve e de que maneiras e em que extensão eles podem ser ajudados a alcançar novos objetivos. Essas definições, semelhantes a outros processos cognitivos complexos, têm uma base cultural histórica e podem variar conforme as condições de vida e com o acesso do indivíduo ao conhecimento (Melchiori et al., 2007, p.246). Todas as sociedades prescrevem certas características que se esperam que as pessoas adquirem, tais como valores parentais, comportamentos e modelos de relação pai-filho e proscrevem certas tendências e comportamentos que devem ser evitados pelos seus membros para ter uma boa convivência na sociedade. Algumas dessas prescrições e proscrições podem ser universais em todas as culturas, como por exemplo, o dever dos pais de alimentar e proteger as crianças. Nessa ordem de ideias, Keller (2007) defendeu a existência de um padrão universal de comportamentos parentais. Para esse autor (Keller, 2002, 2007), as interações do bebé com seus cuidadores nos primeiros dois anos de vida são organizadas de acordo com a predominância de sistemas parentais universais que resultam das capacidades de cuidar da espécie humana. No modelo mencionado, são descritos seis sistemas parentais. O sistema de cuidados, considerado o mais antigo em termos de filogênese, envolve um conjunto de atividades para atender às necessidades do bebê (banho, alimentação etc.) O segundo sistema é o de contato corporal que consiste em favorecer posições em que o contato corporal é predominante. O sistema de estimulação corporal também é baseado na comunicação através do corpo e envolve a estimulação motora do bebe. A estimulação por objetos tem por objetivo apresentar à criança o mundo dos objetos e o ambiente físico em geral e está relacionada a atividades exploratórias. O sistema do contacto visual caracteriza-se, basicamente, pelo contato mútuo através do olhar e o sexto sistema, o envelope narrativo que consiste na mediação simbólica em que o bebé é envolvido através da fala da mãe. Segundo evidências de estudos realizados por Keller, esse padrão comportamental está presente em todas as culturas, ou seja, todas as mães, independentemente de sua cultura de origem, adotam comportamentos de diferentes sistemas. Esses resultados apoiam a versão de universalidade de Keller. Esse padrão comportamental tem a função universal de garantir a sobrevivência do bebe e também ajudar a construir a imagem de si e dos outros. No entanto, Keller afirma que a cultura determina as combinações entre os sistemas e a proporção em que eles são adotados. O tema da cultura e da perentalidade sempre ocupou um lugar central nos estudos de antropologia, e mais recentemente tornou-se termo de pesquisa na área da psicológia do
17 pensamento (Harkness & Super, 2002). De ponto de vista antropológico e psicológico, a cultura dos pais, no que se refere ás suas crenças e práticas de educação dos seus filhos, é formada por uma história sociocultural, em que as crenças culturais presentes no cotidiano das famílias formam o comportamento da família em relação ao bebê e é determinada por crenças culturalmente compartilhadas (Super & Harkness, 2009). Muitos estudos e pesquisas em psicologia tentaram compreender o papel mediador dos pais e diferenciar vários estilos educativos parentais e os seus efeitos no desenvolvimento infantil. De acordo com Darling e Steinberg (1993) o estilo parental define-se como sendo a forma como os pais se relacionam com os filhos. Os estilos parentais dizem respeito “a um conjunto de atitudes dos pais que cria um clima emocional em que se expressam os comportamentos dos pais, os quais incluem as práticas parentais e outros aspectos da interação pais-filhos” (Darling & Steingber, 1993, p. 488). Estas atitudes incluem comportamentos específicos, que são orientados por objetivos através dos quais os pais exercem as suas funções parentais e comportamentos parentais, tais como gestos, mudança no tom de voz ou na expressão espontânea da emoção (Darling & Steinberg, 1993). "Exprime-se também por um conjunto de estratégias que os pais utilizam no seu quotidiano com os filhos e que visa instruílos em aptidões em diferentes domínios (académico, social, afectivo) e em determinados contextos" (Muro e Silva, 2018, p.55). Ou seja, é uma forma de controlo em que se usam explicações, punições e recompensas numa supervisão e disciplina consistentes. No entanto, é necessário saber distinguir os conceitos: estilos parentais e práticas parentais. Darling e Steinberg (1993) afirmam que os estilos parentais dizem respeito a um contexto onde os pais educam os seus filhos de acordo com as suas práticas parentais, ou seja, têm em conta os seus valores e as suas crenças. Assim, segundo estes autores, as práticas referem-se a comportamentos interativos entre os pais e a criança, de forma a repreender ou a incentivar determinados comportamentos nos filhos. Esse modelo evidencia que os estilos parentais estão sempre presentes nas atitudes dos pais, influenciando todo o processo de desenvolvimento da criança, enquanto as práticas parentais podem variar de situação para situação. Baumrind (1971), por exemplo, propôs a existência de três estilos parentais distintos: o estilo autoritário, o estilo autoritativo e o estilo indulgente. No estilo autoritário, os pais tentam controlar e modelar o comportamento da criança segundo normas pré-estabelecidas e rígidas que normalmente não são explicadas ou discutidas. A obediência por parte da criança é um aspecto ao qual os pais conferem bastante importância. Quando existem comportamentos desadequados ou situações de conflito, os pais preferencialmente utilizam castigos e punições. São pouco frequentes as atitudes relacionadas com o fornecimento de apoio emocional e afecto, por parte dos pais autoritários. No estilo autoritativo, os pais aplicam as regras e as normas de forma racional, explicando à criança os motivos de tais manifestações. Incentivam o diálogo e
18 reconhecem os interesses da criança, mas também exercem controlo e autoridade quando existem situações de conflito ou de comportamento desadequado. No estilo indulgente, os pais agem de forma não-punitiva, sendo normalmente bastante receptivos aos desejos dos filhos e pouco exigentes na aplicação de normas ou regras. No estilo negligente, os pais são pouco disponíveis para responder aos pedidos dos filhos e pouco autoritários na aplicação de regras e normas. Na maioria das vezes, preocupam-se apenas em atender às solicitações dos filhos, de forma a cessar as mesmas no imediato. Ao avaliar a eficácia de cada estilo parental, verificou-se que os resultados mais positivos foram encontrados em crianças educadas segundo o estilo autoritativo, nomeadamente no que diz respeito a níveis mais elevados de maturidade, assertividade, autonomia e responsabilidade social (Tineco et al., 2011). Contudo, estudos de vários países da Europa constatam claramente que houve uma forte tendência de mudança em que as práticas democráticas substituem as práticas autoritárias. (Montandon & Longchamp, 2003). Os principais e mais importantes fatores que determinaram essa tendência são o aumento geral do nível de educação, a emancipação das mulheres ou ainda a democratização das relações de gênero do casal (complementaridade de papeis, procura de igualdade. Várias pesquisas tentaram separar os fatores que influenciam os estilos de práticas e atitudes educativas dos pais e o efeito destas sobre as crianças. (Montandon, 2005). Um primeiro conjunto de pesquisas tentou explicar as práticas dos pais pelas estruturas familiais, procurando mostrar que existe uma relação entre a composição das famílias (número de filhos na família e gênero) e outras características (separações, divórcio, recomposição familiar), e as práticas educativas dos pais (Baumrind, 1980). Assim, os mesmos autores acharam que o sexo da criança influencia os modos de educação, como por exemplo, os pais serem mais exigentes com as suas filhas do que com os seus filhos ou que o divórcio dos pais tem efeitos negativos sobre suas práticas educativas. Um segundo conjunto de trabalhos tentou explicar as práticas educativas dos pais em relação à classe social da família. Segundo eles, os pais de classe média tendem manifestar mais autocontrole nas interações com a criança, estabelecem regras para organizar disciplinas, negociam e recorrem a punições e recompensas com o objetivo de incentivar a criança ao longo do seu desenvolvimento. Em contraste, os pais das classes baixas são menos motivados a elaborar um projeto educativo para seus filhos e a dedicar tempo para explicar os motivos das suas exigências. Eles tendem aplicar punisões e recompensas sem se preocupar com os efeitos dos mêsmos comportamentos na sua educação (Gecas, 1979). Por outro lado, essa abordagem não permite considerar particularidades e nuances de atitudes e práticas dentro dos meios sociais. Além do pertencimento a uma classe social as práticas educativas dependem de muitos outro fatores que se devem levar em conta (Clark, 1983; Lahire, 1995), como por exemplo, a
25 Capítulo 3 Mediação parental relacionada com o uso de tecnologias digitais por crianças pequenas Este terceiro capítulo apresenta investigação focada na mediação parental do uso que as crianças menores de dois anos fazem das tecnologias digitais. O objetivo é identificar como a mediação dos pais e as suas percepções sobre o impacto dos média digitais na vida das crianças pequeenas são relacionadas com as características familiares e a idade da criança. O desenvolvimento dos media e das novas tecnologias é um fenómeno que influenciou diretamente o espaço familiar, nomeadamente, no que se refere à organização do seu tempo e das práticas em torno das tecnologias digitais (Carvalho, Francisco e Relvas, 2015). Assim, o processo de “domesticação” das tecnologias no contexto familiar explora a forma como os dispositivos e equipamentos eletrónicos se tornam parte integrante do quotidiano dos indivíduos e a sua incorporação dentro do seio familiar (Silverstone e Haddon, 1992). Nesse contexto, a domesticação das TIC tem uma dupla interação que se reflete na forma como a família altera o significado das tecnologias e na forma como a cultura e as interações familiares são modificadas pelas tecnologias (Reis, 2016). A apropriação das tecnologias integradas num determinado contexto social, o privado, foi tema de estudo desenvolvido por Roger Silverstone (1992, 1996, 1999) que introduz o conceito de "economia moral" da família. De acordo com os autores Silverstone & Haddon (1996), as famílias e os seus membros têm formas específicas de consumo que dependem de regras implícitas que organizam a vida familiar e cultura que predomina no agregado. Desta forma a conversão da família às novas tecnologias digitais é traduzida pelas suas atitudes de utilização. A importância dos pais no uso dos média pelas crianças, como auxiliares no processo de aprendizagem e desenvolvimento social, foi abordada em vários estudos sobre o papel dos pais na educação digital dos filhos. Esses estudos apontam para diversas estratégias parentais relacionadas com os média e aplicadas através de um processo de "mediação parental" que Warren (2001, p. 212) definiu como "qualquer estratégia que os pais usam para supervisionar ou controlar os conteúdos dos media para crianças". Neste contexto, de acordo com a teoria de Vygotsky (1986) sobre o desenvolvimento infantil, a mediação parental é vista como uma estratégia-chave no desenvolvimento de habilidades das crianças para o uso seguro dos media, com o objetivo de promover os aspetos positivos e prevenir os efeitos negativos dos mesmos
26 sobre as crianças. Por exemplo, as experiências físicas e emocionais relacionadas com a partilha das atividades digitais em família fornecem uma base para o desenvolvimento infantil, especialmente quando ocorrem dentro da “zona de desenvolvimento proximal da criança” (Vygotsky, 1978, p.86). No que diz respeito ao uso dos média pelas crianças pequenas, isso significa que, quando a criança está envolvida em atividades relacionadas ao uso de recursos digitais, os pais devem aplicar uma forma de mediação que seja adequada ao seu nível de desenvolvimento (Clark, 2011). É cada vez mais comum observar crianças que ainda nos seus primeiros meses de vida, de alguma forma, já usam aparelhos tecnológicos, em especial aqueles com a tecnologia touch screen, tais como os tablets e smartphones. Essa geração que nasce conectada com o mundo tecnológico faz parte dos chamados “nativos digitais”, conceito dado por Marc Prensky (2001) para identificar aqueles que nasceram e cresceram com as tecnologias digitais já presentes na sua vida. Os primeiros nasceram entre a década de 1980 e 1990 e essa geração é caracterizada por interagir uma grande parte do tempo com dispositivos tecnológicos, tais como computadores, telemóveis, máquinas fotográficas e de vídeo digitais, smartphones, tablets, assim como sites, blogs, redes sociais e outros recursos emergidos deste contexto. Prensky propõe que o funcionamento cognitivo dos nativos é diferente das gerações que nasceram antes da nova cultura digital. As gerações anteriores são chamadas de “imigrantes digitais” que tentam acompanhar o avanço tecnológico para não ficarem descontextualizados nesses novos tempos. (Silva, 2014). Atualmente, os primeiros "nativos digitais" tornaram-se pais que são utilizadores experientes de tecnologias, habitam lares digitais onde as suas crianças crescem, sendo expostas aos media digitais desde o nascimento (Chaudron et al., 2015). Segundo Holloway et al. (2013), a maioria dos bebés com menos de dois anos nos países desenvolvidos tem já presença online. Na Holanda 78% de crianças de um a seis anos de idade já acederam à web, assim como 5% de bebés com menos de um ano de idade (Brouwer et al., 2011). Os resultados das pesquisas na área dos usos digitais indicam que em média as crianças começam a ver televisão entre seis e nove meses de idade e que os bebés com menos de dois anos chegam a assistir programas de televisão de uma a duas horas por dia. Aos três anos, quase um terço das crianças norte-americanas têm uma televisão no seu quarto (Rideout, 2013). Esses dados não correspondem com as recomendações da Academia Americana de Pediatria, que, até 2017, aconselhava os pais a não exporem os seus filhos menores de dois anos a equipamentos eletrónicos de qualquer género e desaconselhava totalmente a televisão no
27 quarto (American Academy of Pediatrics, 2011) Várias entidades internacionais de saúde e de proteção da criança (The American Academy of Pediatrics 2009, 2010, 2011; Institute of Medicine of the National Academies 2011; National Association for the Education of Young Children, 2009; Fred Rogers Center Advisory Council, 2012) avisam sobre numerosos riscos e efeitos negativos a curto e longo prazo causados pelo uso inapropriado das tecnologias pelas crianças pequenas. A exposição excessiva a tecnologias tem sido associada a problemas de saúde física e psicológica, nomeadamente obesidade, alterações da visão, perturbações do sono, atrasos da linguagem, problemas de comportamento. A evidência científica mais recente tem mostrado que o uso das novas tecnologias implica radiação e exposição a campos eletromagnéticos (EMR Policy Institute 2011), riscos de intoxicação com tintas à base de chumbo e de asfixia e sufocação por engolir elementos pequenos dos equipamentos tecnológicos (National Association for the Education of Young Children, 2009). A literatura aponta para a necessidade de os pais se conscientizarem e compreenderem a importância das implicações que surgem da associação entre o uso dos recursos digitais na primeira infância e o potencial desenvolvimento de hábitos de consumo dos média digitais ao longo da vida. (Schlembach et al. 2014). Nesse contexto, é imperativo observar a responsabilidade dos pais de mediar o acesso precoce dos dispositivos digitais pelas crianças pequenas que ainda não são autónomas e estão completamente dependentes dos seus cuidadores familiares. Os pais não determinam apenas as suas práticas digitais, mas também o seu acesso aos dispositivos digitais. Além disso, geralmente são os pais que iniciam o uso das tecnologias digitais às crianças, moldando o seu envolvimento com as tecnologias através da sua ajuda e apoio, já que para as crianças os pais servem de modelos, tentando imitar suas práticas e preferências (Kucirnova e Sakr 2015; Plowman et al. 2008). Lauricella et al. (2015) referem-se a um efeito de “espelho” entre as práticas digitais dos pais e as adotadas pelas crianças, destacando o facto de que quanto mais jovens são as crianças, mais elas tendem a reproduzir as práticas de seus pais com os dispositivos digitais. Os estudos afirmam que não é importante apenas o conteúdo dos programas que as crianças assistem, conforme demonstrado numa pesquisa realizada por Anderson et al. (2001). Também é importante o contexto da experiência de visualização, ou seja, quando os pais assistem aos media com seus filhos, a atividade pode tornar-se interativa ao discutirem o conteúdo do programa. (Warren, 2003). As pesquisam indicam que a atividade de assistir vídeos, DVDs e programas de televisão pode começar quando as crianças têm apenas seis meses de idade (Rideout & Hamel, 2006). Os hábitos de consumo dos média digitais formam-se na primeira infância, momento em que os pais têm um papel fundamental nas práticas de educação digital dos filhos. Assim, desde
28 cedo as estratégias de mediação adotadas pelos pais relativamente às atividades digitais dos filhos exercem influência sobre os resultados de aprendizagem e o desenvolvimento físico das crianças (Anderson et al., 2001). A primeira infância é considerada uma fase determinante para aquisição de hábitos e estilos de vida saudáveis. Neste sentido, é também o período indicado para que os pais adotem uma estratégia de mediação do uso dos media digitais pelas crianças de forma a maximizar as vantagens e potencialidades e reduzir os riscos associados à atividade digital. Quando os pais veem televisão junto com os filhos e aproveitam para explicar e analisar programas que privilegiem conteúdos educativos, culturais, informativos ou mesmo recreativo eles colocam-se numa posição que oferece a oportunidade de melhorar a aprendizagem da criança. Ao mediarem as experiências de programas educacionais destinadas às crianças, os pais podem estimular o vocabulário e as habilidades sociais dos bebês e crianças pequenas, bem como aumentar sua capacidade de refletir e pensar criticamente sobre as mensagens que recebem através dos meios de comunicação digital (Schlembach et al. 2014). Ao longo do tempo e à medida que as crianças crescem e se desenvolvem, esse tipo de estratégia de mediação pode oferecer aos pais possibilidades adicionais para fortalecer as capacidades cognitivas das crianças, estimulando a sua capacidade de compreender mais facilmente os conteúdos complexos dos media. A literatura faz menção a diferentes estratégias de mediação que são adotadas pelos pais para potenciar os benefícios e atenuar os riscos envolvidos no uso das TIC pelas crianças na era digital. O conceito de mediação parental pode ser entendido como uma palavra-chave que engloba as técnicas que os pais usam para ajudarem os filhos a lidarem com os media, em particular com a televisão (Potter, 2004, p. 232). Assim, os pais se colocam na posição de mediadores quando intervêm na relação que os filhos estabelecem com a televisão e outros meios de comunicação, ajudando-os a compreender e a interpretar os seus conteúdos e a desenvolver competências críticas de utilização das TIC. Geralmente, dá-se uma adaptação de regras já definidas relativas à mediação no uso da televisão para os outros meios digitais. Por exemplo, Valkenburg et al. (1999) sugeriram que os estilos de mediação parental em relação à exposição das crianças à televisão podem ser aplicados também aos media digitais e resumiram-nos em três categorias (Valkenburg et al., 2009): 1. Restritivo - quando os pais com atitudes altamente controladoras relativamente ao uso de meios digitais estabelecem regras de utilização dos media, monitorizando e limitando este uso;
29 2) Instrutivo - quando os pais conversam com os filhos sobre os conteúdos exibidos nos média e controlam o uso digital preocupando-se em ensinar e aconselhar; 3) Co-utilização - quando os pais utilizam tecnologias digitais junto com os filhos, baseando-se na negociação, diálogo e busca de consenso entre pais e filhos sobre a utilização das tecnologias. Assim, com base nos traços que são comuns, vários modelos de mediação parental foram propostos. Por exemplo, Livingstone e Bober (2004) distinguiram as dimensões “material” e “simbólica” da mediação parental. A primeira refere-se à medida como os pais usam tecnologias e promovem o acesso a dispositivos digitais no lar, e a segunda diz respeito à aquisição e apoio das competências e práticas digitais e à definição e negociação de regras e práticas relacionadas com a utilização de tecnologias Um outro modelo prevalente atualmente é a matriz proposta por Valcke et al. (2010), que relaciona a mediação parental das tecnologias digitais com os estilos parentais gerais com base no trabalho de Baumrind e outros (1991). Os autores definiram dois tipos de atitudes de mediação parental do uso da internet no lar: controlo e permissividade dos pais - posicionamentos que marcam quatro estilos de mediação do uso de meios digitais: a) Autoritativo - os pais estabelecem regras claras e explicam-nas às crianças para promover o seu comportamento responsável e auto-regulado; a regra mais comum é definir um intervalo de tempo específico para o uso dos media digitais. b) Autoritário - os pais estabelecem regras sem dar explicações e esperam obediência, não são abertos ao diálogo e impõem suas próprias percepções e opiniões sobre os media digitais. c) Permissivo - os pais estabelecem muito poucas limitações, a monitorização do uso digital acontece só ocasionalmente e raramente implica orientações educativas. d) Laissez-faire – os pais não controlam e não se envolvam nas práticas digitais dos seus filhos, há ausência de limites e de regras. Mais recentemente, Livingstone e Helsper (2008) acrescentaram dois novos estilos de mediação específicos para tecnologias digitais: e) Monitorização – os pais supervisionam as crianças quando elas estão a usar um dispositivo digital e monitorizam as atividades on-line das crianças depois de uso, verificando o histórico ou os registros do navegador dos media digitais.
30 f) Helpdesk - os pais usam aplicações destinadas para regular ou bloquear conteúdo impróprios para crianças. A maioria dos fatores que influenciam a mediação dos pais estão relacionados com o uso excessivo de tecnologias pelas crianças, obrigando os pais a exigirem regras. Na maioria dos casos, quando as crianças começam a usar os media digitais, os pais adotam no inicio um estilo parental permissivo, que pode evoluir para um estilo autoritário, muitas vezes devido a uma situação problemática de uso crescente das tecnologias pelas crianças (Dias et al. 2017). Como nos últimos anos houve um aumento substancial no uso dos media digitais pelas crianças pequenas, a Academia Americana de Pediatria aconselha os pais a considerar o valor dos média sobre o desenvolvimento dos seus filhos e a orientar sua mediação a favor desse valor. (American Academy of Pediatrics 2011) As pesquisas sobre a mediação parental demonstraram de forma semelhante que os pais moldam as suas estratégias de mediação de acordo com suas opiniões sobre os vários efeitos do conteúdo mediático em crianças (Ponte et al., 2018). Os pais que estão mais preocupados com os riscos tentam frequentemente proteger seus filhos supervisionando, aplicando restrições ao uso dos média e conversando de forma critica e construtiva com a criança sobre o potencial negativo do conteúdo dos média, enquanto os pais que acham que os média representam uma fonte tendencialmente ilimitada de conhecimento, educação e divertimento aplicam mais frequentemente a estratégia de co-utilização dos meios digitais e manifestam-se ativos a analisar o conteúdo escolhido através do dialogo interativo com seus filhos (Nikken et al. 2015). Segundo Valcke et al. (2010), o estilo de mediação parental autoritativo é o mais frequente quando se refere aos média digitais, combinando uma relação afetiva e de alto controle parental. No entanto, um significativo número de pesquisas tem demonstrado que os pais tendem a ser geralmente permissivos relativamente ao uso de dispositivos digitais em casa (Pereira et al. 2016). Isso pode acontecer porque os pais desta geração são “nativos digitais” (Prensky, 2001) e a sua maioria são competentes nesta utilização. Deste modo, as crianças observam como os seus pais se envolvem com os meios digitais disponíveis em casa e imitam depois as suas práticas. Outra razão importante é que os tablets são "amas" eficazes que mantêm as crianças entretidas enquanto os pais estão ocupados com tarefas domésticas ou trabalho (Dias et al., 2016). Outra razão importante para esse tipo de mediação é o facto de os tablets serem vistos como “babysitters” eficazes, mantendo as crianças entretidas enquanto os pais estão ocupados com tarefas de casa ou do trabalho (Ponte e tal., 2018). As pesquisas mostram que 28% dos pais de crianças entre os seis meses e quatro anos usam o tablet como uma alternativa de substituir a
31 interação direta na hora de deitar (Kabali et al. 2015). Além disso, os pais gostam de partilhar o uso ocasional dos seus dispositivos com os seus filhos, como o smartphone, o computador, tablets e consolas (Dias et al. 2007). O uso de smartphones e tablets por parte de crianças com menos de 5 anos frequentemente necessita de orientação e ajuda. Quando elas têm dificuldades, primeiro tentam resolvê-las de modo autónomo, normalmente através da estratégia de tentativa e erro; se não conseguirem resolver o problema sozinhas, recorrem à ajuda dos irmãos mais velhos (caso os tenham) e só depois aos pais (Dias et al. 2017) Os pais desempenham um papel fundamental no envolvimento e a possibilidade de acesso das crianças a tecnologias digitais, sendo com eles que elas têm as suas primeiras experiências de utilização. Referindo-se a esse processo de mediação no contexto dos meios digitais, Livingstone (2007) sugeriu o conceito de “regulação parental” para referir que “os pais muitas vezes recorrem a papéis familiares, em especial à sua autoridade, para negociar regras e práticas relacionadas com a utilização de tecnologias” (Dias et al., 2017, p.75). Estudos recentes demonstram que a forma como os pais orientam a mediação do uso das tecnologias digitais pelas crianças é moldada pelas variáveis contextuais relacionadas com múltiplos fatores sociodemográficos: a idade e género dos pais e das crianças, variáveis do contexto familiar (como rendimento familiar e tamanho da família, estado civil) e o número de tecnologias digitais presentes no lar. Também são importantes a formação educacional dos pais, o seu nível de utilização da internet, a sua experiência online e as suas atitudes em relação aos media digitais (Nikken et al., 2015). Carvalho, Francisco e Relvas (2015) fornecem uma revisão sistemática da literatura sobre o uso de Tecnologias de Informação e Comunicação (TIC) pelas famílias e sintetizam os fatores que influenciam a adoção dos média digitais pelas famílias: condição socioeconómica, distância geográfica de outros membros da família, estratégias de comunicação comuns na família, diferenças culturais, satisfação das necessidades relacionadas com o ciclo de consumo e estágio do ciclo de vida familiar (Brito, 2017). Esses fatores definem o contexto para o envolvimento dos pais na educação e dedicação de tempo e esforço para a mediação do uso dos media pelos seus filhos. Diferenças de género moldam diferenças de comportamento. Por exemplo, as mães tendem a adotar um estilo autoritativo de mediação (nível alto de controle e afetividade) e a estarem geralmente mais envolvidas na educação e mediação infantil (Nikken et al. 2015), enquanto os pais tendem a adotar um estilo de mediação autoritário. Os pais tendem a ser mais permissivos com os rapazes e mais restritivos com as meninas (Valkenburg 2002). Os pais mais velhos são mais
32 controladores, enquanto os mais jovens tendem a ser mais permissivos (Wang et al. al. 2005). Além disso, quanto maior é a idade da criança, mais restritivos os pais tendem a ser, até que isso comece a ser uma fonte de conflito durante a adolescência, o que pode mudar a atitude dos pais a serem mais permissivos (Dias et al, 2017). Os diferentes níveis socioeconómicos das famílias e as habilitações literárias dos pais marcam as diferenças de mediação entre várias famílias. Pauwels et al. (2008 apud Brito et al. 2017) observaram que os pais com formação superior têm uma atitude mais crítica sobre tecnologias e exercem mais controle sobre as práticas digitais de seus filhos, embora de forma afetiva. Eles estão mais conscientes dos riscos e tendem a ser mais interativos nas atividades digitais dos filhos. Também, os pais com maior nível de educação e com maior rendimento parecem favorizar o ambiente digital das crianças em casa como um investimento para o desenvolvimento intelectual dos seus filhos, usando mais frequentemente as mais novas formas de tecnologia em comparação com os pais com baixo nível educacional e aqueles com rendimento inferior (Ito et al. 2010). Como os dispositivos digitais ainda são bastante caros, os pais com nível socioeconômico mais baixo têm menos possibilidades de adquirir os mais recentes produtos digitais e, consequentemente, seus filhos também têm menos oportunidades de adquirir as habilidades para usar esses media. Ainda, os pais com menos conhecimentos e habilidades digitais podem achar mais difícil a instalação do controle parental nos dispositivos eletrónicos ou conversar sobre os riscos dos conteúdos digitais com seus filhos, em comparação com os pais que têm melhores competências digitais (Austin, 1993). Portanto, eles têm dificuldades em acompanhar o ritmo tecnológico e em explicar aos seus filhos como funcionam os média e assim são incapazes de proteger os filhos dos potenciais riscos que os media pressupõem. As regras são definidas de forma inconsistente, resultando numa orientação limitada e sem interação parental. Essa falta de conhecimentos pode levar as crianças de famílias de baixa renda a aproveitar a ausência dos pais e fazerem uso de qualquer tipo de média quando e onde quiserem (Paus-Hasebrink et al., 2014, p). Crianças que vivem em famílias com menor rendimento usam menos dispositivos digitais com a tecnologia touch screen, tais como tablets, smartphones e notebook (Brito, 2017) As pesquisas mostram também que as crianças cujos pais têm baixo nível de formação têm mais dispositivos à disposição no quarto e passam mais tempo a ver televisão e a usar computador. Também em famílias numerosas, os pais podem ter menos tempo para mediar o uso dos media pelos seus filhos (Nikken et al., 2015) e tendem a ser menos restritivos, pois os pais não são capazes de supervisionar todas as crianças no mesmo tempo (Duimel e de Haan, 2007).
33 Outro fator que influência a mediação dos pais é a experiência com os filhos mais velhos que geralmente torna os pais mais restritivos com os filhos mais novos (Nikken e Jansz, 2014). Os estudos sobre à influência das práticas e atitudes dos pais em relação aos media digitais concordam que os pais com conhecimentos e experiência digital tendem ter atitudes mais positivas em relação ao uso de tecnologias digitais e estão mais conscientes dos riscos que a utilização dos media implica e mostram-se mais envolvidos nas práticas digitais dos filhos (Barron et al., 2009; Hollingsworth et al., 2011, Nikken e Jansz 2014, Pauwels et al. Walrave et al., 2008). Eles também acreditam que é muito importante mediar apoiando, orientando e ensinando as crianças nas suas práticas digitais (Walrave et al., 2008). No mesmo tempo, os pais com menos habilidades e experiências digitais tendem a ser mais permissivos e menos participativos (Barron et al., 2009, Hollingsworth et al., 2011). No entanto, os pais têm mais percepções positivas do que negativas no que se refere ao uso das TIC, atitude que motiva o acesso diário às tecnologias digitais pelas crianças. Os pais consideram que as TIC fazem parte da vida das crianças como elementos omnipresentes do mundo que as rodeia e até mesmo contribuem para passar tempo de qualidade em família, como ver filmes ou jogar. As tecnologias digitais também servem de babysitter e o tablet é o aparelho tecnológico mais utilizado pelas crianças. A televisão deu lugar ao tablet e este assume o papel de babysitter enquanto os pais estão ocupados em casa a preparar as coisas para o dia seguinte, a tratar algum assunto importante ou fora de casa a entreter as crianças no restaurante ou durante as viagens (Ponte et al., 2018). As tecnologias são também vistas como um auxílio no processo educativo. A visão que sustenta a ideia de que as tecnologias são efetivamente uma poderosa ferramenta de apoio na aprendizagem e no desenvolvimento intelectual da criança sugere fortemente que o conteúdo é o fator mediador mais importante nessa relação (Johnson, 2010; Judge, Puckett, & Bell, 2006; Marsh, 2010, apud Brito, 2017). Até aos anos 1990, as pesquisas na área dos usos dos media quase não abrangiam estudos sobre os seus efeitos em bebés e crianças pequenas. Esses estudos relatavam que as crianças com menos de dois anos de idade prestavam pouca atenção à televisão, talvez devido à pouca oferta de programas TV dedicados a eles (Huston et al.,1983; apud Kirkoria et al., 2008). No entanto, a partir dos anos 90, houve uma explosão de ofertas crescentes de programas de TV para crianças. Hoje, lgumas pesquisas sugerem que as crianças de idade pré-escolar prestam muita atenção aos conteúdos televisivos desde a mais tenra idade. Embora a conclusão se refira à televisão, é provável que seja verídica também para outros tipos de media.
34 A televisão tem sido criticada desde há muito tempo pelo seu potencial impacto nas crianças de todas as idades (Smith, Anderson e Fischer,1985, apud Kirkoria et al., 2008). Um aspeto preocupante é como a exposição precoce das crianças a certos conteúdos influencia o desenvolvimento cognitivo e mais tarde, o desempenho académico no contexto escolar. Estudos mostram que a exposição das crianças maiores de dois anos a conteúdos apropriados para a educação infantil está associada ao desenvolvimento académico e cognitivo, enquanto a exposição ao puro entretenimento e especialmente ao conteúdo violento está associada a um desenvolvimento cognitivo mais fraco e a um menor desempenho académico (Anderson e Pempek, 2005, apud Kirkoria et al., 2008) É interessante observar que pesquisas efetuadas sobre o tempo de atenção demonstraram que as crianças de hoje podem estar a brincar com um brinquedo ao mesmo tempo que vêm um programa de televisão. Elas prestam a atenção necessária que lhes permita não perder a sequência do programa televisivo, nos momentos que lhes parecerem mais importantes, para perceber a história, e isto, sem deixar de brincar com o seu brinquedo. Esta estratégia desenvolvida pelos “nativos digitais” é uma das muitas que lhes permitem estar a desenvolver duas atividades completamente distintas ao mesmo tempo, distribuindo a sua atenção entre as diferentes tarefas (Prensky, 2001, apud Schiavon, 2012). Embora as pesquisas demonstram claramente que os programas educativos de televisão adequados à faixa etária podem ser benéficos para crianças em idade pré-escolar, os estudos sobre crianças com menos de dois anos sugerem que essas crianças pequenas aprendem melhor com experiências relacionais com os cuidadores nas atividades em família do que através das experiências virtuais (Krcmar, Grela, e Lin., 2007, apud Kirkoria et al., 2008). Ainda, algumas pesquisas sugerem que as crianças não compreendem a natureza simbólica da televisão até atingirem a idade pré-escolar e que a exposição à televisão durante os primeiros anos de vida pode estar associada a um pior desenvolvimento cognitivo, a atraso da linguagem e a problemas de interação social (Subrahmanyam et al.,1996; Obel et al, 2006; apud Heather Kirkoria et al., 2008). As pesquisas apresentaram diferenças entre as formas pelas quais os bebés e crianças maiores assistem aos vídeos digitais (Kirkorian, 2007; Barre, 2007). Os resultados sugerem que crianças com menos de dezoito meses podem não entender o conteúdo dos vídeos, e assim, não aprendem da televisão da mesma maneira que as crianças mais velhas (Barre at al. 2008; apud Kirkoria et al., 2008). Em particular, elas podem não compreender o diálogo, limitando-se a observar a sucessão de imagens. Por outro lado, para evitar o contacto excessivo das crianças com as novas tecnologias, os pais exigem que os seus filhos pratiquem atividades não digitais. Muitos pais apontam que
41 Os pais de cada família foram também caracterizados relativamente ao seu nível digital, para tal sendo especificado o número de dispositivos digitais utilizados par cada um e a frequência do seu uso. A Tabela 2, na página seguinte, sintetiza a informação biográfica de todas as famílias participantes no estudo, incluindo a apresentação das principais características do seu contexto cultural e elementos de descrição do ambiente digital das famílias. Todas residem na margem sul do Tejo, na provìncia de Setúbal, tendo sido anonimizada a localidade para preservação da sua identidade.
42 Tabela 2. Informações biográficas das famílias que participaram no estudo Técnicas de recolha de dados A principal técnica escolhida para a recolha de dados neste estudo foi a aplicação da entrevista semiestruturada de natureza exploratória. A entrevista semiestruturada, enquanto técnica de recolha de dados nesta pesquisa pretende obter principalmente informações sobre as opinião, atitudes, expectativas e perceções dos entrevistados de modo a ter uma perspetiva mais aprofundada sobre as ideias que os pais referem em relação às tecnologias digitais e os seus efeitos para a família e para a primeira infância. Código étnico da família Nº de Membro em família Estado civil dos pais/ avós Denominação do relacionamen to famíliar Idade Nível sócioeconomic o familiar Nível de estudos dos pais ou avós Profissão Religião Nível digital dos pais (Nr.de dispositivos digitais utilizados diariamente/ ocasional) Dispositivos digitais presentes no lar Família portugue sa branca 3 Casa dos Mãe 29 anos Médio Licenciatura Educadora de infancia Catolica 2 diariamente/ 2 ocasional 2 televisões, 2 smartphones 2 portáteis, 1 tablet, 1 DVD Pai 30 anos 9º ano Motorista de pesados 1 diariamente/ 3 ocasional Filho 14 meses Família portugue sa cigana 7 Uniã o de facto Avó 47 anos Baixo 4º ano Dona de casa Evangéli ca 2 diariamente /1 ocasional 3 televisões, 5 telemóveis, 1 portatil Avô 58 anos 4º ano Comercian te 2 diariamente Filha (mãe) 21 anos Genro (pai) Filho (Tio) 24 anos Netas gémeas (filhas) 20 meses Família russa 4 Casa dos Mãe 31 anos Baixo 9º ano Dona de casa Ortodoxa 3 diariamente 2 televisões, 1 computador, 2 telemóveis, 2 tabletes, 1 amplificador de som com rádio Pai 32 anos 9º ano Camionist a de longo curso 1 diariamente/ 2 ocasional Filha 4 anos Filho 10 meses Família ucraniana &romena 5 Uniã o de facto Mãe 41 anos Baixo 9º ano Trabalhad orno campo Pentecost e&Ortod oxa 1 diariamente/ 2 ocasional 3 televisões, 1 portátil, 3 smartpones, 1 telemóvel sem acesso à Internet Pai 52 anos 12º ano 1 diariamente/ 2 ocasional Filo 14 anos Filho 10 anos Filho 24 meses
43 Em três casos a entrevista foi realizada só com as mães, devido à dificuldade de entrevistar também os pais, que por motivos profissionais estão poucos presentes na vida da família. O único caso com um cuidador que assume qualidade de parentalidade diferente foi a entrevista com a avó das crianças ciganas que se apresentou como principal encarregado de educação em família. Foi elaborado um guião de entrevista que objetivou, principalmente, obter a visão dos entrevistados sobre cinco aspetos: 1. Origem e caracterização familiar; 2. Descrição do ambiente digital em família; 3. História pessoal dos pais com os media; 4. Usos e competências digitais da criança menor de dois anos; 5. Considerações e mediação parental. Desde o início do processo de recrutamento das famílias que iriam ser entrevistadas, foi combinado que a entrevista fosse feita no ambiente de lar da família, sendo esse considerado como principal espaço de desenvolvimento das crianças em estudo. Também foi nessa etapa de preparação de realização das entrevistas que se pediu autorização para a gravação áudio e que foi referida a possibilidade de tirar fotos às crianças mais novas em contextos significativos para o pressente estudo. Estas foram úteis no sentido em que permitiam auxílio em recordar acontecimentos relevantes. Ao iniciar as entrevistas, a investigadora expunha aos entrevistados o objetivo da entrevista, criando um ambiente mais favorável para o diálogo. Juntamente com a entrevista foi utilizada pela entrevistadora a técnica de observação direta naturalista do comportamento das crianças alvo do estudo no seu contexto familiar habitual. Cada entrevista realizada teve uma duração de mais ou menos uma hora, tempo que foi aproveitado para observação direta e não participativa da interação com os meios digitais das crianças pequenas, que estavam sempre por perto da mãe ou avó. Através dessa técnica foi possível observar situações comportamentais reais das crianças sem existir qualquer interferência do investigador. Foram também observadas as interações entre os membros das famílias, as atividades que os membros da família realizavam com os dispositivos eletrónicos, a
44 localização destes dispositivos e a disposição física da habitação. Foi dada especial atenção ao manuseio de meios digitais por crianças com menos de dois anos. Todas as entrevistas foram transcritas e as transcrições foram o texto base para a análise aprofundada dos dados. Método utilizado para a análise dos dados Após a realização das entrevistas, estas foram transcritas e seguiu-se para a análise de conteúdo dessas entrevistas com o objetivo de realizar uma análise comparativa entre as famílias participantes no estudo. A partir dos dados recolhidos, procurou-se identificar quais são os usos digitais das crianças muito novas e como é que os fatores culturais das suas famílias influenciam a mediação parental e moldam atitudes relacionadas com o impacto das tecnologias digitais na vida da família e na primeira infância. Ao longo deste trabalho não serão referidos nomes dos participantes do estudo, tendo sido codificados todos os nomes dos membros das famílias de modo a garantir a sua confidencialidade e anonimato. A codificação das famílias começa com a denominação da sua naturalidade ou etnia, neste caso Portuguesa, Portuguesa/Cigana, Russa e Ucraniana&Romena. Assim, os membros das famílias foram nomeados pela sua origem, o seu relacionamento familiar (mãe, pai, filho, irmãos), genro e idade. Em todos os casos, a entrevista foi realizada em português. Contudo, os discursos dos pais de origem estrangeira entrevistados formaram, por vezes, intervalos quando o entrevistado iniciava o discurso em português e subitamente começava a falar com o investigador na sua língua materna (russo, romeno). De facto, o recurso às suas próprias línguas maternas permitialhes desenvolver intuitivamente ideias sobre como interpretam aspetos relativos ao fenómeno estudado (Bogdan & Biklen, 1994, p.134). Dessa forma, as falas transcritas em português dos entrevistados cuja língua materna não é portuguesa (e por isso as suas palavras em português resultam, de alguma forma, duma tradução expressa das línguas maternas) foram por vezes reinterpretados pela investigadora (e para quem o português não é a sua língua nativa). Contudo, a investigadora garante o esforço para a reinterpretação integral e fiel das informações, sendo esse aspeto apenas uma menção ao reconhecimento das limitações com quais o investigador se confrontou. A apresentação dos resultados obtidos neste estudo será organizada tendo em conta os cinco aspetos que foram investigados através da entrevista com o intuito de responder às questões de investigação que resultaram do objetivo principal do presente estudo:
45 1. Apropriação das tecnologias digitais pelas crianças com menos de dois anos em diferentes ambientes familiares; 2. Percepções dos pais sobre as tecnologias digitais em famílias com uma origem cultural diferente do contexto cultural da sociedade onde vivem; 3. Análise dos modos como os pais de diversas culturas geram o uso de tecnologias digitais dos filhos mais novos 4. A visão dos pais sobre a importância das tecnologias digitais para a família e primeira infância. Deste modo, o presente estudo pretende analisar como é que os modos como os pais geram acesso aos meios digitais marcam a interação das crianças com esses meios nos primeiros dois anos de vida, tendo em conta as características de desenvolvimento na primeira infância e influência de vários aspetos proporcionados pelo contexto cultural das famílias. O próximo capítulo será dedicado à apresentação dos resultados deste estudo e à respetiva análise.
46 Capítulo 5 Apresentação e análise dos resultados 1. Apropriação das tecnologias digitais pelas crianças com menos de dois anos em diferentes ambientes familiares Os primeiros resultados da pesquisa apontam para o facto de que os primeiros dois anos de vida da criança constituem um período relevante para a observação dos modos como estas iniciam o seu relacionamento com os dispositivos digitais. De acordo com Piaget (1994), essa etapa é denominada como estágio sensório-motor, sendo marcada pelas grandes transições de desenvolvimento do bebé, mês a mês, durante os primeiros dois anos de vida. È nesse período que as crianças iniciam o seu processo de exploração do mundo físico que as rodeiam, encontrando-se, no mesmo tempo, totalmente dependentes dos adultos que cuidam e fazem as escolhas por elas da maneira que acham melhor. Sendo assim, neste estudo observa-se que os pais têm um poder de mediação decisivo no que diz respeito aos usos digitais das crianças. A apropriação das tecnólogas pelos bebés inicia-se sempre de forma mediada pelos familiares (pais, irmãos mais velhos, avós) capazes de manusear o acesso físico e cognitivo aos dispositivos digitais. Ou seja, as crianças nessa idade só têm acesso aos meios digitais que os cuidadores disponibilizam e consideram como adequadas para a idade delas. Contudo, os pais tendem considerar as preferências dos bebés, que costumam mostrar um maior interesse pelos certos conteúdos dos media através do seu comportamento, caso estes estejam de acordo com os limites éticos e morais dos seus valores e percepções sobre infância. Toda as crianças alvo desta pesquisa vivem desde que nasceram em lares digitais, têm pais com competências digitais e veem televisão todos os dias. Como se tinha encontrado no estudo nacional para crianças entre os três e oito anos (PONTE et al., 2017), a televisão é a tecnologia mais utilizada pelas crianças do estudo. Todos os pais referem a televisão como o principal meio digital que faz parte da rotina das crianças pequenas em família. A televisão é vista pelos pais como "um dispositivo adequado” para as crianças nessa idade. Os testemunhos – neste caso, três mães e uma avó - indicam que os bebés passam expostos à televisão, em média, de três a cinco horas por dia e fazem uso desse dispositivo, com ou sem a tutela dos pais e irmãos mais velhos. Já ao fim de semana o uso do ecrã televisivo aumenta tanto para os bebés como para outros membros familiares devido ao tempo livre em família. Apesar de referirem um período de tempo limitado de exposição à televisão, estas figuras femininas reconhecem que o dispositivo está sempre ligado quando os bebés ficam em casa. Essa prática está atrelada a uma forte crença
47 parental de que os bebés não assistem de forma contínua à televisão. Na visão delas o aparelho só funciona como um “pano de fundo”, uma companhia, coexistindo frequentemente com várias outras actividades. Como se pode observar através das entrevistas, essa crença parece não estar relacionada com o contexto cultural das famílias, dado que todas as mães expressaram a mesma percepção sobre a utilização da televisão pelos bebés. Mãe da família portuguesa (X, menino de 14 meses): 3, 4, 5 horas por dia, mas não é seguidas, não é sempre a ver porque ele vai ter comigo. Ao fim de semana ele vê mais tempo do que durante a semana. Avó da família cigana/portuguesa (Y e W, meninas gémeas de 20 meses): A televisão está sempre ligada em casa, mas elas nem sempre estão a ver, só se gostarem dos bonecos. Mãe da família russa (Z, menino de 10 meses): Umas três horas todos os dias, só quando estamos a sair no fim de semana, pode ser que vê menos. Mas ele não vê televisão todo este tempo, só que a televisão está ligada. Mãe da família ucraniana/romena (Q, menino de 24 meses): Ele fica com os manos em casa muitas vezes. Mas é o que eu estou a dizer, a televisão pode estar ligada todo o dia, mas isso não significa que ele senta lá e está a ver, não. Ele gosta de ir na varanda, falar com os pombos, com os animas que vê na rua. Só quando estão os desenhos animados preferidos é que ele está a ver. Observa-se que nas famílias com mais de uma criança, o uso da televisão pelo bebé acontece de uma forma diferente. Assim, por exemplo, nas famílias onde há só crianças até dois anos de idade, como é o caso da família portuguesa e família portuguesa/cigana, as crianças têm a televisão ligada na sala durante o dia exclusivamente para elas, enquanto nas famílias com crianças de várias idades, como é o caso das famílias russa e ucraniana/romena os bebés ficam muitas vezes a assistir conteúdos escolhidos pelos irmãos mais velhos, perdendo o direito exclusivo de “controlar” a televisão. Apesar disso, parece que as crianças mais pequenas não se importam de partilhar a televisão, para elas sendo muito mais importante a presença dos membros familiares do que a visualização de conteúdos TV. Pelo contrario, manifestam interesse e vontade de estar acompanhados e acompanhar os familiares indiferentemente do tipo de programação assistida porque, muitas vezes, o foco deles não e a própria televisão, mas a interação que têm com os pares pelos quais estão acompanhados no “momento da televisão”. Nesse contexto, serve como exemplo o caso da família russa com uma menina de 4 anos e um
48 bebé de 10 meses de idade, que como foi possível observar durante a entrevista, ainda não anda, mas já consegue gatinhar e movimentar-se pela casa com a ajuda do andador. De acordo com a mãe, mesmo que o bebé não liga muito aos conteúdos, ele procura a companhia da irmã cada vez que ela vê televisão em casa, gerando as vezes situação de conflito entre irmãos. Mãe da família russa (Z, menino de 10 meses): (…) Quando o menino volta do infantário e quer ver televisão, se for na sala eles ficam a ver juntos, mas se for no quarto dela, ela não permite muito. Quando o Z vai para o quarto dela, ela não gosta. Diz que é dela e não quer que o Z vá para aí. Quando ela volta mais cansada do infantário, ela precisa de descansar e não quer que o Z faça barulho. (…) Segundo as entrevistadas, as crianças foram expostas desde que nasceram a todo o tipo de dispositivos digitais presentes no lar. Dessa forma, entende-se que aceitam o uso das novas tecnologias pelas crianças, inclusivamente pelas crianças pequenas, acreditando que o uso da tecnologia é algo que acontece de uma forma inevitável. È importante salientar que apesar de as crianças estarem expostos desde o seu nascimento a diversos aparelhos tecnológicos, todas referiram a televisão como o primeiro dispositivo digital a qual a criança teve acesso pela primeira vez na vida. Outro momento importante para o presente estudo foi observar com que idade as crianças pequenas começaram a assistir televisão. Curiosamente, de acordo com as observações das entrevistadas, os bebés começaram a prestar mais atenção à televisão com 6-8 meses de idade. Essa idade corresponde ao terceiro subestágio (4 a 8 meses) do período sensório-motor considerado pelo Piaget (1994) e se evidencia pela iniciação da exploração de objetos e reconhecimento de vozes e sons. Portanto, as crianças nessa fase adoram objetos falantes e coloridos que emitem sons e que estimulem a curiosidade, tais como os dispositivos digitais e a televisão. Esta pode ser encarada como um brinquedo que, graças às suas propriedades, desperta o interesse e atenção das crianças nesta idade. Assim, o comportamento dos bebés e as suas primeiras formas de reagir aos estímulos visuais e auditivos da televisão descritas pelas mães entrevistadas possibilitaram compreender que os bebés iniciam a interação com a televisão Z (9 meses) da família russa na sala com a televisão ligada
49 sendo atraídas não só por alguns conteúdos, mas principalmente pelos sons da televisão. Mãe da família portuguesa (X, menino de 14 meses): Desde muito pequenino, mas quando ele começou a dar mais noção foi aos 6/7 meses, talvez. (…) Foi só a ligar e ele a observar. Ele foi a procura do som. Avó da família cigana/portuguesa (Y e W, meninas gémeas de 20 meses): Acho que foi com oito meses que começamos a dizer-lhes “Olha ali!”, como as vezes tínhamos que nos despachar, eu e a mãe delas, ligávamos a televisão para elas verem. Elas sempre gostaram de música e mesmo quando eram mais pequeninas quando havia uma música na televisão, elas ficavam quietas a ouvir. Mãe da família russa (Z, menino de 10 meses): Começou a prestar mais atenção à televisão aos sete meses, mais ou menos. Ligava só ao som. (…) Ele como ainda era pequenino, lembro-me que ficou surpreendido e feliz, abria os olhos e a boca grande. Mãe da família ucraniana/romena (Q, menino de 24 meses): Sim, foi antes de fazer um ano, acho que foi com seis meses. Ele gostava muito da publicidade e eu o deixava deitado entre almofadas, ele olhava para a televisão e ficava muito quieto. Quando acabava o intervalo de publicidade ele logo começava a chorar e gritar e era só com a publicidade que ele parava. E depois quando não estava à frente da televisão, quando ouvia aquele som da publicidade, ele reconhecia o e queria ver. De acordo com as entrevistadas, nota-se que com o avanço da idade as crianças manifestam cada vez mais interesse pelos conteúdos audiovisuais, expressam interação e mostram preferências. Elas afirmam que os desenhos animados são o principal conteúdo ao qual as crianças têm acesso nessa idade. Os desenhos animados costumam ser vistos a partir do ecrã da televisão, outros dispositivos digitais utilizados pelas crianças nesta idade como computador, tabletes os smartphone sendo menos referidos. Diante deste contexto, entende-se que as entrevistadas prefiram a televisão em vez de aparelhos digitais que são considerados demasiado complexos para ser utilizados ainda nos primeiros dois anos de idade e que requerem mais cuidado e mediação por parte dos pais. O ecrã grande da televisão e a sua presença em áreas comuns fáceis de monitorizar pelos pais torna esta tecnologia na visão dos pais a mais adequada para as crianças pequenas.
50 Em relação aos programas de televisão e vídeos que as crianças até dois anos assistem, os desenhos animados e música são os conteúdos mais citados, seguidos pelos programas sobre a vida dos animais e as vezes programas para adultos. A apropriação da televisão pelos bebés parece ter um caráter muito seletivo, uma vez que as crianças manifestam interesse apenas por certos conteúdos e programas de televisão. Ao analisar as entrevistas realizadas, constata-se que as preferências dos bebés por alguns conteúdos digitais são significativamente influenciadas pela mediação cultural dos pais. Neste contexto, nota-se que as mães das famílias estrangeiras providenciaram às crianças acesso a conteúdos infantis realizados nos seus países de origem. Por exemplo, a mãe da família russa referiu a série de desenho animado russo Masha e Urso como o primeiro e único conteúdo digital ao qual a criança tem acesso. Ao mesmo tempo, a mãe da família ucraniana/romena mencionou dois desenhos animados russos: Masha e Urso e Nu pogadi! como os preferidos da criança pequena em casa. È interessante observar que o Nu pagadi! foi um dos mais populares desenhos animados nos tempos da União Soviética que marcou a infância das gerações nascidas no espaço soviético depois dos anos 60 do século passado. Um outro facto curioso é que essas duas famílias estrangeiras já assistiam ao desenho animado Masha e Urso na sua versão original antes de ser emitido pelo canal Panda e de ficar conhecido em Portugal. De acordo com as mães, os bebés adoram assistir estes desenhos animados em várias línguas, justificando que as crianças costumam ligar apenas às imagens e música dos vídeos. Assim, no caso da família russa, o Masha e Urso é assistido em russo através da televisão com acesso à internet e em português através do canal Panda. Já no caso da família ucraniana/romena o mesmo desenho animado é assistido na televisão só em português e em várias outras línguas através do Youtube, enquanto o Nu pagadi! é assistido exclusivamente em russo e acessado só pela internet, sendo um desenho animado menos conhecido a nível internacional e com poucas traduções. Dessa forma, neste caso observa-se uma prática de mediação parental simbólica dos primeiros usos digitais das crianças pequenas através da qual os pais escolhem conteúdos que refletem a sua própria identidade e escala de valores. Neste contexto, segundo a teoria das crenças parentais (etnoteorias) de Harkness e Super (2002), confirma-se a ideia de que o processo de transmissão das crenças parentais de geração em geração depende do grupo cultural ao qual os indivíduos pertencem. Na mesma ordem de ideias, de acordo com os resultados da pesquisa realizada de forma online pela Ipsos Public Affairs em nome da Netflix em 2015 com o objetivo de identificar quantos pais querem compartilhar com os filhos os desenhos que viam quando eram crianças, verificou-se que 85% dos pais partilham com os seus filhos os desenhos animados que marcaram a sua infância. Os dados do estudo indicam que entre os principais
57 imitação das personagens e dos modelos de comportamentos representados pelos meios digitais. Nesse sentido, as teorias sobre o desenvolvimento cognitivo infantil sustentam a ideia de que a imitação faz parte importante do processo de desenvolvimento cognitivo e da aquisição da linguagem pela criança (Moura, 2002). Para Piaget, Vigotsky e Wallon a imitação faz parte da aprendizagem simbólica, onde a criança é vista como um elemento ativo a interagir com o seu meio de desenvolvimento (La Taille, 1992). De acordo com os pais entrevistados, quatro das cinco crianças do estudo manifestam comportamentos imitativos ao assistir conteúdos digitais. E neste contexto é importante salientar que os pais mostram-se muitas vezes surpreendidos pelos comportamentos de imitação das crianças. Observa-se que os bebés tendem imitar as personagens dos média de uma maneira extrema sem diferenciar a realidade de ficção. Mãe da família russa (Z, menino de 10 meses): Ele está a imitar a Masha. Se a Masha chora, ele faz outra cara. Se a Masha está a rir, ele também fica todo feliz. Se ele vê que a Masha está a chorar, ele começa a chorar também. A mãe da família portuguesa foi a única que mencionou ainda não ter notado no bebé nenhum comportamento de imitação. Dessa forma, conclui-se que a apropriação das tecnologias digitais pelas crianças com menos de dois anos de idade è fortemente relacionada com as características de desenvolvimento infantil que determinam as habilidades das crianças de interagir com os dispositivos media. No mesmo tempo observa-se que a iniciação do processo de apropriação dos bebés é influenciada pelas variáveis culturais das famílias como a naturalidade e níveis de educação dos pais, línguas faladas e número de membros em família, contexto digital nos lares. 5.2 Percepções dos pais sobre as tecnologias digitais em famílias com uma origem cultural diferente do contexto cultural da sociedade onde vivem Como se pode verificar através dos dados do presente estudo, para as duas famílias de imigrantes que fazem parte da amostra, as novas tecnologias digitais são importantes por possibilitarem o contacto frequente com os seus familiares dos países de origem. As duas famílias são emigrantes do Leste Europeu e afirmam que os motivos económicos representam a principal razão de imigração para Portugal. Tendo em consideração o contexto histórico-socio-cultural dos países de Leste Europeu e as declarações das mães entrevistadas, entende-se que para a geração destes pais o rádio e a televisão foram os únicos
58 dispositivos de média aos quais tiveram acesso nos países de origem durante a infância e mesmo no inicio da vida adulta. Nota-se que depois de deixarem de viver nos países de origem e de terem imigrado para Portugal a interação destes pais com os media digitais evoluiu significativamente. Devido à influência do ambiente digital do país de acolhimento, com o tempo, as famílias registaram um maior acesso a meios digitais, surgiram novos usos e formas de apropriação digital, novas práticas socioculturais de acomodação ao contexto cultural da sociedade onde vivem. Verifica-se que as mães entrevistadas tiveram muito pouco acesso à televisão durante a infância. Elas começaram a assistir televisão só com 7/8 anos no caso da mãe da família russa e 13/14 meses no caso da família ucraniana/romena. Diante deste contexto, observa-se que os pais que nasceram no Leste da Europa foram menos privilegiados pelo contexto destes países a terem acesso a meios digitais, em comparação com as famílias de origem portuguesa que tiveram acesso em família, pelo menos a dois dispositivos digitais desde que se lembram. O acesso limitado das mães imigrantes às tecnologias digitais na infância retrata-se nas suas percepções sobre os usos digitais dos seus filhos que são considerados excessivos. Neste sentido, a mãe de nacionalidade ucraniana não concorda com o modo como os seus filhos se apropriam das tecnologias digitais, argumentando com exemplos de comportamento da sua infância. Mãe da família ucraniana/romena (Q, menino de 24 meses): Olha, eu cresci quase sem televisão e não foi nada mau. E se por exemplo será possível que elas (as novas tecnologias) desaparecerem, eu acho que será muito melhor (sorriso). Pelo menos os meus filhos iam brincar mais na rua com outras crianças do que ficarem em casa a ver todos os dias só coisas más. Talvez há crianças que aprendem alguma coisa boa com isso, agora os meus não. Eu quando andei na escola, não precisava de internet para fazer os meus trabalhos de casa e passei a tudo. E as pessoas eram muito mais inteligentes porque agora não sabem duas vezes dois, podem ser no 5º ou no 6º ano e não sabem. De acordo com as informações partilhadas pelas mães durante as entrevistas sobre a história pessoal com os media, observa-se uma influência intergeracional nas percepções sobre a mediação parental. Assim, a mediação parental dos usos digitais nestas famílias inclui regras que seguem modelos de crenças parentais transmitidos e compartilhados pelas gerações anteriores, tais como por exemplo deixar as crianças assistir a mais conteúdos audiovisuais no fim de semana, terem uma percepção negativa sobre o uso dos media pelas crianças à noite ou acreditar que a televisão continua ainda inofensiva para crianças.
59 No caso da família portuguesa de origem cigana, a avó menciona que o valor do amor é mais importante do que os bens materiais para o desenvolvimento harmonioso das crianças em família. Entende-se que para essa família a aquisição de dispositivos digitais não representa uma prioridade, sendo mais valorizada a relação afetiva em família. Avó da família cigana/portuguesa (Y e W, meninas gémeas de 20 meses): Mostrar-lhe o que é o amor porque há muita criança a sofrer, não é? A gente tenta, já que não lhe podemos dar tudo… Eu dou mais valor ao amor do que aos bens materiais. Em casa foi sempre assim, primeiro eles e depois nós. Ainda a avó desta família confessa que tem uma percepção de grande perigo associado à exposição de fotografias de crianças na internet. Ela não concorda com esta pratica que é muito desenvolvida no meio das gerações de pais mais novos e diz que o seu maior receio relacionado com as novas tecnologias è o risco de pedofilia. Avó da família cigana/portuguesa (Y e W, meninas gémeas de 20 meses): Para já, hoje em dia há muita maldade no ser humano. E sabe que o medo que sempre tive, mesmo quando a minha filha era jovem é da pedofilia. Tenho muito receio. Hoje em dia estou farta de dizer à minha filha para não tirar certas fotos às meninas e mostrar porque tudo tem acesso à tecnologia, não é? Então acho que há limites. Pedofilia eu acho que houve sempre, só que agora por causa das tecnologias fala-se mais. Diante deste contexto, percebe-se que nesta família as fotografias das meninas têm um valor extremamente pessoal. Este estudo carece de fotografias que apresentassem as meninas em contexto digital desta família por não ter a autorização da avó para tirar fotografias das bebés gémeas, atitude determinada pelas suas percepções sobre os riscos que implica o facto de compartilhar fotografias com partes terceiras. Esta crença está enraizada nos valores religiosos da família que são percebidos, de acordo com avó da família portuguesa /cigana, como muito importantes para a maneira de interpretar o mundo. Apesar de os pais das famílias imigrantes terem um nível baixo de estudos (o 9ºano) e profissões não qualificadas, observa-se que os lares são ricos em dispositivos digitais. Assim, verifica-se que nestes agregados familiares as tecnologias são percebidas como importantes para vida da família e os principais destinatários e razões de aquisição de meios digitais são as crianças. Parece que os pais são envolvidos num conflito próprio de crenças parentais que, por um lado, querem oferecem aos filhos tudo aquilo que eles não tiveram na infância, e por outro
60 lado, mostram-se preocupados e ansiosos com os efeitos das novas tecnologias sobre a infância e qualidade do relacionamento em família. Um outro aspeto relevante que precisa de ser analisado, no contexto das percepções sobre as tecnologias digitais em famílias com uma origem cultural diferente do contexto cultural da sociedade onde vivem é a importância que estas famílias atribuem às tecnologias digitais para comunicar e manter uma ligação afetiva com os familiares dos países de origem. Neste sentido, as tecnologias são percebidas de forma positiva pelas famílias imigrantes, uma vez que possibilitam manter a ligação com a comunidade de origem. Mãe da família ucraniana/romena (Q, menino de 24 meses): Sem telemóvel e internet agora é difícil porque eu estou num país longe e a minha família está lá, eu preciso de falar com ela, isso acho que é bom, sim. Observa-se que as novas tecnologias permitem às famílias emigrantes do estudo uma troca regular de informações e notícias do seu país de origem, tornando possível superar as distâncias geográficas, mantendo a memória colectiva, os laços afectivos e a identidade das famílias. De acordo com as mães das famílias russa e ucraniana/romeno a manutenção da continuidade de contacto com a família e cultura de origem é muito importante para elas e para os seus filhos. Mãe da família ucraniana/romena (Q, menino de 24 meses): Eu acho que é muito importante porque temos uma família muito grande e é importante para os meninos saberem a sua língua e conhecerem o seu país. Têm muitos primos, muitas tias, tem que continuar a manter a ligação. Mãe da família russa (Z, menino de 10 meses): Eu gostaria que as minhas crianças conhecessem as tradições do nosso país e a religião também. Sim, isso é importante para mim. Para comunicar com os familiares que se encontram longe do país onde vivem, as famílias emigrantes usam programas de conversação via Internet, tais como Skype e Viber. Além disso, foi possível observar que os pais dessas famílias apropriam-se dos meios digitais utilizando os próprios instrumentos culturais. Eles utilizam preferencialmente a língua nativa para procurar informações na Internet, gostam de ouvir músicas e ver conteúdos digitais provenientes da sua cultura de origem. As práticas parentais de apropriação digital através dos
61 próprios recursos culturais costumam ser transmitidas para as crianças nestas famílias. Assim, verifica-se que as novas tecnologias digitais são percebidas pelas famílias imigrantes do estudo como um “espaço de expressão” e como “fonte de conteúdos” que se moldam às características e necessidades culturais das famílias. Além disso, o acesso às tecnologias digitais e a possibilidade de utilizá-las para comunicar com as suas famílias de origem podem ser consideradas como uma rede social de apoio, proporcionando assim às famílias uma integração no contexto social do país onde vivem. 5.3 Modos como os pais de diversas culturas gerem o uso de tecnologias digitais dos filhos mais novos Neste estudo os pais são vistos como os principais mediadores dos usos digitais das crianças pequenas. As circunstâncias em que os pais recorrem à mediação da utilização das tecnologias pelos filhos dependem fortemente do valor que os pais atribuem aos media digitais. Constata-se através da observação e da análise dos dados da entrevista que as tecnologias digitais costumam auxiliar os pais no processo diário de cuidar das crianças. Indiferentemente das características culturais dos pais, as tecnologias digitais são percebidas em família como positivas, mas ao mesmo tempo desafiadoras por necessitarem de mediação e controlo parental. Assim, por um lado, os pais tiram proveito das vantagens que as tecnologias digitais proporcionam no ambiente familiar e, por outro lado, o uso digital dos media pelas crianças é percebido como algo problemático, que precisa de ser cuidadosamente gerido e controlado pelos pais desde a mais tenra idade. Todas as entrevistadas das famílias do estudo quando foram questionadas sobre as tecnologias digitais existentes no lar, destacaram logo a televisão como a única que o filho mais novo utiliza. Depois com o decorrer da entrevista percebeu-se que estas crianças se apropriam de outros dispositivos digitais, tais como smartphones e computadores. Nesta ordem de ideias è importante remarcar que uma das características registadas nos países da Europa é o facto dos questionários feitos no âmbito do EU Kids Online demonstrarem que os pais têm pouca percepção dos usos que os filhos fazem dos novos media (Ponte et. al, 2012). O tipo de mediação mais encontrado em relação à televisão é filtrar os conteúdos que as crianças veem, pois algumas entrevistadas referem que os conteúdos por vezes são inapropriados para elas ou simplesmente não lhe despertam o interesse. Todas as entrevistadas referiram imagens televisivas inapropriadas a que as crianças pequenas têm acesso. Nota-se, contudo, alguma contradição quando acreditam que, como as crianças ainda são muito
62 pequenas, não ligam muito aos conteúdos visualizados e não estão expostos a riscos relacionadas com o uso dos media nesta idade. Neste sentido, todas mencionaram que gostam de ver séries e filmes em família e a presença das crianças pequenas nestes momentos não é considerada: os bebés na maioria das vezes, brincam ao pé dos pais sem ver o que os pais assistem na televisão. Os pais acreditam na ideia de que as crianças são ainda demasiado pequenas e inocentes para serem expostas a algum tipo risco relacionado com estes conteúdos media. Através da análise das informações partilhadas sobre o comportamento dos bebés, constata-se precisamente o contrário – as crianças desde a mais tenra estão facilmente expostas a conteúdos inapropriados pelos quais podem sentir-se atraídos e mostrar comportamentos de reprodução imitativa. As crianças do estudo estão autorizadas a mexer nos dispositivos dos pais e dos irmãos mais velhos. A avó da família portuguesa/cigana mencionou que as meninas gémeas já lhe partiram o telemóvel, sendo que as crianças gostavam de mexer e discutiam sempre por causa dele. Depois de ter acontecido este incidente, a avó adaptou outra forma de mediação do acesso das bebés ao smartphone, sendo ela a segurar o dispositivo enquanto as meninas estão a apropriar-se dele. O menino de 24 meses da família ucraniana/romena tem acesso aos três smartphones da família: quando está com a mãe utiliza o telemóvel dela e quando a mãe trabalha e o bebé fica em casa com os irmãos mais velhos, estes costumam partilhar os seus smartphones com ele. Observa-se que nestas famílias os irmãos mais velhos desempenham um papel importante, já que muitas vezes apresentam ao irmão mais novo vídeos e atividades. Observa-se que nem todas as famílias do estudo recorrem à mesma dose de mediação, no que concerne à utilização dos media digitais por crianças de tenra idade. De todas as famílias, a mãe da família portuguesa parece ser a mais preocupada com os usos digitais do filho, autorizando só o acesso a conteúdos televisivos infantis. Neste caso o bebé manifesta o seu interesse exclusivamente pelo canal BabyTV, como referimos, e a mãe mostra-se muito satisfeita com a preferência do seu filho. Mais tarde, a mesma mãe indica que usa o seu smartphone como “SOS”, sobretudo em momentos de espera fora de casa quando costuma mostrar-lhe fotografias para o entreter. De outro lado, no caso da família ucraniana/romena a criança tem acesso livre a todos os conteúdos pelos quais está interessada. De acordo com a mãe, entre as preferências do filho, além de desenhos animados, também figuram vídeos com músicas para adultos, filmes com armas e de terror. Ao ser perguntada se o que o bebé assiste está de acordo com os valores da
63 família, ela respondeu que não concorda, mas como os filhos mais velhos e o marido gostam destes conteúdos, prefere que ele continua a ver do que começar a fazer birras por ser interdito de continuar a assistir. Ainda, neste caso nota-se por parte da mãe uma preocupação em relação aos conteúdos que o seu filho assiste, mas não intervêm para resolver o problema, sentindo-se provavelmente pouco apoiada pelos outros membros da família. Outro fator situacional importante que parece influenciar o envolvimento dos pais na utilização dos media digitais pelas crianças de tenra idade é o número e a idade dos outros filhos. Assim, no caso da família ucraniana/romena que tem três filhos com diferenças significativas de idade, o cuidado da criança passa muitas vezes para a responsabilidade dos irmãos mais velhos. Nesta família parece que a prática de cuidar dos irmãos mais novos tem origens nas experiências vivenciadas pela mãe na infância, sendo que ela tinha seis irmão mais novos de quais era responsável. Além disso, numa família numerosa as tarefas domésticas podem ser mais exigentes, deixando menos tempo para os pais se envolverem na utilização dos media digitais pelos filhos. As vertentes socioculturais das famílias portuguesa e ucraniana/romena são muito diferentes: a primeira família tem um filho único, um nível socioeconómico médio e a mãe tem um nível alto de estudos e uma profissão relacionada com a mediação das crianças pequenas (Educadora de Infância); a segunda família é uma família numerosa e de baixo nível socioeconómico, com pais de diferentes nacionalidades e níveis baixos de estudo sem qualificação profissional. Estas variáveis socioculturais das famílias influenciam o modo como os pais de diferentes culturas geram o acesso e o uso das tecnologias digitais dos seus filhos. As circunstâncias em que os pais recorrem às estratégias de gestão da utilização dos equipamentos pelos filhos mais novos dependem fortemente do valor que os pais atribuem aos media digitais. A investigação revelou que os mais importantes valores atribuídos pelas entrevistadas ao uso dos media pelas crianças pequenas são os de divertimento e educação. Assim as opiniões positivas das cuidadoras se relacionam com os efeitos educativos que os media digitais trazem para as crianças pequenas, mas também com efeitos práticos, como por exemplo o facto de a criança permanecer sossegada e os pais terem tempo para realizar as tarefas domésticas. È importante mencionar neste contexto que o valor educativo foi indicado apenas pelas famílias portugueses, enquanto as famílias estrangeiram referiram só a função de entretenimento do uso dos média pelos bebés. Na mesma ordem de ideias, observa-se que as opiniões negativas das entrevistadas implicam não só ideias acerca dos filhos adotarem com facilidade hábitos digitais e ficarem viciados nas tecnologias digitais, mas também a ideia de que os brinquedos e as brincadeiras
64 tradicionais são melhores para o entretenimento do que os equipamentos com ecrãs. Contudo, as cuidadoras parecem desorientadas e pouco motivadas para interferir de algum modo e mudar os hábitos diários de uso digital das crianças pequenas com o objetivo de orientar as atividades dos bebés mais para a interação em família. Neste sentido, a mãe da família portuguesa foi única a declarar que se sente obrigada a tomar atitudes e começar a acompanhar mais o seu filho nas suas brincadeiras de modo a incentivá-lo a valorizar a brincadeira em vez de tecnologias. Mãe da família portuguesa (X, menino de 14 meses): O que è que eu vou tentar fazer? Vou tentar sair para brincar com ele mais tempo quando ele for mais velho. Agora se calhar ainda não, mas afastá-lo o mais possível. Sentar-me mais a brincar com ele, a fazer construções, por exemplo, para ele se distrair das novas tecnologias. A mãe referiu, também, que no seu trabalho observa como é que as crianças são afetadas pelo excesso de tecnologias e enfatiza a importância do tempo aproveitado em família e das brincadeiras mediadas pelos pais nesta idade. Outro aspecto importante na mediação parental é a falta de regras que controlam o uso dos media digitais pelas crianças pequenas em família. Todas as entrevistadas afirmaram não ter determinado ainda regras de uso devido à idade ainda muito nova das crianças. Parece que elas acham que é preciso poder conversar com os filhos para impor regras. Assim, enquanto as crianças não conseguem se exprimir de forma verbal as regras são deixadas para mais tarde, quando elas forem mais crescidas. È interessante observar que por vezes quem estabelece regaras de uso são as crianças pequenas que conseguem manipular através do seu comportamento os pais. A mãe da família ucraniana/romena afirma que os usos digitais do filho mais novo não podem ser controlados sempre, uma vez que a criança consegue manipulá-la com a sua maneira muito insistente de pedir. Mãe da família ucraniana/romena (Q, menino de 24 meses): Com o Q é diferente, pois ele ainda não percebe muito. Ele quando começa a gritar não há nada a fazer, tenho que lhe dar o que ele quer, nem que seja um bocadinho. Neste contexto verifica-se que as crenças parentais relativamente às tecnologias e às regras aplicadas não estão sempre interligadas, uma vez que as cuidadoras que referem ter receio de que os seus filhos fiquem dependentes das tecnologias não têm regras relativas ao tempo de utilização e a conteúdos visualizados por meio dos media digitais pelos filhos.
65 A visão geral sobre os estilos de mediação parental neste estudo segue o modelo de Valkenburg et al. (1999) num modelo de estilos tendo em conta o grau de controlo e envolvimento. Mediação restritiva é o tipo de intervenção mais frequente encontrado no caso de três famílias do estudo, onde os pais costumam controlar o que os filhos mais pequenos fazem com os media digitais, proibindo determinados programas ou vídeos, estabelecendo tempos de utilização e circunstâncias em que podem utilizar os equipamentos digitais. O único caso diferente de mediação parental foi identificado na família ucraniana/romena que retrata o estilo de mediação parental laissez - faire, caracterizado pelo não controlo e envolvimento nas práticas digitais das crianças. De acordo com as entrevistadas, em todos os casos estudados os pais, tanto a mãe como o pai, recorrem também às tecnologias, utilizando pelo menos um dispositivo digital diariamente. Observa-se que as mães costumam utilizar com frequência um número maior de tecnologias do que os pais. Verifica-se que em todas as famílias do estudo a co-utilização dos meios digitais acontece da mesma forma. Os momentos de assistir em conjunto a conteúdos digitais são caracterizados pelo estilo de mediação parental permissivo, onde as crianças não têm uma utilização muito controlada pelas cuidadoras, no entanto reagem a solicitações das crianças, comunicando e fazendo co-utilização. Contudo, as quatro famílias observadas relatam um baixo envolvimento nas atividades digitais dos seus filhos mais pequenos. Os pais justificam o seu baixo envolvimento com a idade muito nova das crianças que ainda não precisam muito de ser mediadas nos seus usos digitais e com a necessidade de manter as crianças acompanhadas enquanto eles realizam tarefas domésticas ou trabalham, indicando que a televisão é a maneira mais eficaz de as manter entretidas. 5.4 A visão dos pais sobre a importância das tecnologias digitais para a família e primeira infância 5.5 A primeira avaliação que as entrevistadas fizeram sobre as novas tecnologias foi evidenciar os seus lados positivos e negativos. Constata-se que a importância dos media digitais depende das percepções que elas têm sobre a criança e vida de família. Os valores familiares
66 com raízes religiosos exercem também influência nas percepções que os cuidadores atribuíam ao papel das tecnologias para a família. As entrevistadas referem que as tecnologias são importantes para a família e para a criança, desde que sejam utilizadas corretamente. Isto è respeitar tempos e adequar conteúdos a contextos de visualização. Assim no campo de aprendizagem da criança as tecnologias costumam ser vistas por elas como ferramentas valorosas, proporcionando aprendizagem de línguas estrangeiras, cores, números, formas etc. De acordo com as declarações das entrevistadas, os meios digitais permanecem indispensáveis para adultos, enquanto para as crianças pequenas não são tão importantes. A mãe da família ucraniana/romena assenta mais as suas percepções nos efeitos negativos dos usos digitais pelas crianças. Ela não acredita no valor educativo das tecnologias para crianças e exprime o seu desgosto com os resultados que estas implicam no seu relacionamento com os filhos e na maneira como as crianças passam a infância. Ela também refere que os seus filhos mais velhos mudaram muito desde que têm o seu próprio smartphone, deixando de acompanhar a mãe e dispensando todo o tempo livre para jogar no telemóvel e computador. A atitude de indiferença por parte dos seus filhos causa-lhe angústia e motivam esta a mãe a interpretar as tecnologias como um “vilão” contra a sua família e a aprendizagem dos seus filhos. Ela refere que preferia que os filhos brincassem mais ao ar livre, socializando com outras crianças e neste contexto, a mãe recorda nostalgicamente a sua infância, passada a brincar ao ar livre com os amigos e quase ausenta de atividades relacionadas com os media. A mesma mãe salienta que o único aspeto positivo que as tecnologias proporcionam está relacionado com a vantagem de poder comunicar e manter vivo o contato com a família que está distante. A mãe da família russa também menciona a possibilidade de comunicar através das novas tecnologias como os familiares da terra de origem e com o marido que na maioria do tempo encontra-se fora do país devido à sua profissão. Mãe da família ucraniana/romena (Q, menino de 24 meses): Sem telemóvel e internet agora é difícil porque eu estou num país longe e a minha família está lá, eu preciso de falar com ela, isso acho que é bom, sim. Mãe da família russa (Z, menino de 10 meses): Sim, falo pelo Skype e Viber com a minha família de lá e com o marido quando está a trabalhar.
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82 Anexos Guião de entrevista A. Origem e caracterização familiar Vamos começar por umas perguntas sobre si e a sua família 1.Podia indicar-me qual é a sua idade, estado civil, profissão, estudos que tem e em que país nasceu? 2.E poderia indicar também a idade do seu cônjuge, profissão, estudos que tem e em que país nasceu? APENAS No caso de não terem nascido em Portugal: 2a.Há quanto tempo vive/vivem em Portugal? 2b.O que a/o fez mudar de pais? (Se for caso) 2c. Até que ponto é importante para si a preservação na família da sua identidade cultural de origem? (por exemplo língua, religião, tradições, festas locais, sentimento de pertencimento ao lugar de origem, etc.) 3. Quantos filhos tem? Que idade têm? Onde nasceram os seus filhos? 4. Quem diria que é o principal encarregado de educação da criança/ crianças em família? 5. Quais são as atividades de lazer favoritas da sua família? (registar resposta tal como for dada, não forçar a relação com os média) 6. Qual é a língua/quais são as línguas falada/faladas em casa? 7. A sua família tem alguma afiliação religiosa? Qual é a importância dos valores religiosos na sua família? (é importante, pouco importante, não importa…) No caso de ter dito que a religião era IMPORTANTE, perguntar: 7a. Pensa que as suas crenças religiosas influenciam as práticas educativas e