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i ASSOCIAÇÃO ENTRE ALTERAÇÕES DA COMPOSIÇÃO CORPORAL E O PERFIL CARDIOMETABÓLICO APÓS CIRURGIA METABÓLICA E BARIÁTRICA MAFALDA RIBEIRO DE SOUSA LICKFOLD Dissertação para obtenção do grau de Mestre em Nutrição Humana e Metabolismo na Faculdade de Ciências Médicas | NOVA Medical School da Universidade NOVA de Lisboa Setembro, 2022
ii ASSOCIAÇÃO ENTRE ALTERAÇÕES DA COMPOSIÇÃO CORPORAL E O PERFIL CARDIOMETABÓLICO APÓS CIRURGIA METABÓLICA E BARIÁTRICA Mafalda Ribeiro de Sousa Lickfold Orientadora: Catarina Roquette Durão, Professora Auxiliar Convidada da Faculdade de Ciências Médicas | NOVA Medical School da Universidade NOVA de Lisboa Dissertação para obtenção do grau de Mestre em Nutrição Humana e Metabolismo Setembro, 2022
iii AGRADECIMENTOS A minha profunda gratitude, À minha orientadora, Prof. Doutora Catarina Roquette Durão, pela transmissão e partilha de conhecimentos, por toda a boa disposição e alegria que me transmite e por toda a disponibilidade e dedicação. Agradeço profundamente a oportunidade que tive em conhecê-la e em poder trabalhar consigo. A todo corpo docente da NOVA Medical School / Universidade NOVA de Lisboa, pela disponibilidade em ajudar sempre que necessário. À minha família, em especial à minha mãe, por me terem ensinado a nunca desistir e a lutar para conseguir alcançar os meus objetivos. A ti, Rafael, por me fazeres esquecer os problemas nos momentos mais difíceis e por acreditares sempre em mim desde o primeiro dia. O teu incentivo diário deu-me forças para chegar até aqui.
iv ABREVIATURAS CMB BGYR GS DCV DMT2 IMC MG MME CT LDL HDL VLDL TG GJ HbA1c IC Cirurgia Metabólica Bariátrica Bypass Gástrico em Y de Roux Gastrectomia em Sleeve Doença Cardiovascular Diabetes Mellitus Tipo 2 Índice de Massa Corporal Massa Gorda Massa Muscular Esquelética Colesterol Total Lipoproteína de Baixa Densidade Lipoproteína de Elevada Densidade Lipoproteína de Muito Baixa Densidade Triacilgliceróis Glicose em Jejum Hemoglobina Glicada A1c Intervalo de Confiança
v ABSTRACT Background: Some evidence suggests that different changes in body composition after Metabolic and Bariatric Surgery (MBS) may be distinctly associated with specific cardiometabolic outcomes. However, evidence is scarce and longitudinal studies describing body composition changes and their association with cardiometabolic markers are warranted. Objective: To evaluate the association of weight and body composition changes with the cardiometabolic profile, after MBS, considering a possible heterogeneity between Roux-en-Y Gastric Bypass (Bypass) and Sleeve Gastrectomy (Sleeve). Methodology: Longitudinal retrospective study in patients undergoing MBS at CUF Tejo Hospital, between September 2018 and March 2021.Anthropometric and body composition assessment data [weight, BMI, Fat Mass (FM) and Skeletal Muscle Mass (SMM)],as well as cardiometabolic markers [Total Cholesterol (TC), LDL, HDL and VLDL, Triacylglycerols, Fasting Glucose (FG) and Glycated Haemoglobin A1c], were collected in the electronic medical record from the preoperative evaluation until the follow-up of 6 months post-surgery, at four time points (presurgery, 1, 3, and 6 months after surgery). Associations of anthropometric and body composition changes with cardiometabolic outcomes were estimated by regression coefficients (ẞ) and respective 95% confidence intervals (95%CI) by separate linear regression models for each marker. Results: No significant heterogeneity was observed between Bypass and Sleeve on the association with cardiometabolic markers. One month after surgery, we observed that decreased weight and BMI were significantly associated with lower HDL cholesterol levels at 3 months (ß=- 2,118 mg/dL; 95%CI: -2,970; -1,267; ß=-7,192 mg/dL; 95%CI: -9,485 ; -4,900, respectively).A decreased in SMM at 3 months after MBS, was associated with lower HDL cholesterol and TC at 6 months (ß=-9,612 mg/dL; 95%CI: -13,583; -5,640; ß=-16;296 mg/dL; 95%CI: -29,243; -3,349, respectively). After adjustment for sociodemographic characteristics, no significant associations were observed with the remaining cardiometabolic markers. Conclusion: Weight loss and the corresponding decrease in BMI are associated with a decrease in HDL cholesterol at 3 and 6 months of follow-up, with loss of SMM being the factor most strongly associated with this decrease. Keywords: Metabolic and Bariatric Surgery, Sleeve Gastrectomy, Roux-en-Y Bypass, Cardiometabolic Markers, Body Composition.
vi RESUMO Introdução: Alguma evidência sugere que diferentes alterações na composição corporal após Cirurgia Metabólica e Bariátrica (CMB) se associem distintamente a outcomes cardiometabólicos específicos. Contudo, a evidência é escassa e estudos longitudinais que descrevam alterações da composição corporal e sua associação com perfil cardiometabólico são necessários. Objetivo: Avaliar a associação de alterações ponderais e de composição corporal com o perfil cardiometabólico, após CMB, tendo em conta uma possível heterogeneidade entre Bypass em Y de Roux (Bypass) e Gastrectomia Vertical em Sleeve (Sleeve). Metodologia: Estudo longitudinal retrospetivo em doentes submetidos a CMB no Hospital CUF Tejo entre setembro de 2018 e março de 2021. Dados de avaliação antropométrica e de composição corporal [peso, IMC, Massa Gorda (MG) e Massa Muscular Esquelética (MME)], bem como marcadores cardiometabólicos [colesterol Total (CT), LDL, HDL e VLDL, triacilgliceróis, Glicémia em Jejum (GJ) e Hemoglobina Glicada A1c], foram recolhidos nos registos clínicos eletrónicos, desde a avaliação pré-operatória até aos 6 meses de seguimento, em quatro momentos (pré-cirurgia, 1, 3 e 6 meses após cirurgia). As associações das alterações antropométricas e de composição corporal com outcomes cardiometabólicos foram estimadas por coeficientes de regressão (ẞ) e respetivos intervalos de confiança a 95% (IC 95%) através de modelos de regressão linear ajustados, em separado, para cada marcador. Resultados: Não se observou heterogeneidade significativa entre Bypass e Sleeve na associação com marcadores cardiometabólicos. Um mês após cirurgia, observou-se que a diminuição de peso e IMC se associaram significativamente a menores níveis de colesterol HDL aos 3 meses (ß=- 2,118 mg/dL; IC95%: -2,970; -1,267; ß=-7,192 mg/dL; IC95%: -9,485; -4,900, respetivamente). A diminuição de MME nos 3 meses após CMB associou-se à diminuição do colesterol HDL e do CT aos 6 meses (ß=-9,612 mg/dL; IC95%: -13,583; -5,640; ß=-16;296 mg/dL; IC95%: -29,243; -3,349, respetivamente). Após ajuste para características sociodemográficas, não se observaram associações significativas com os restantes marcadores cardiometabólicos. Conclusão: A perda de peso e correspondente diminuição do IMC estão associadas à diminuição do colesterol HDL aos 3 e 6 meses de seguimento, sendo a perda de MME o fator mais fortemente associado com esta diminuição. Palavras-chave: Cirurgia Metabólica e Bariátrica, Gastrectomia em Sleeve, Bypass em Y de Roux, Marcadores Cardiometabólicos, Composição Corporal.
vii ÍNDICE AGRADECIMENTOS ………..…………………………………….........................................................................................................................iii ABREVIATURAS.........................................................................................................................................................................................iv ABSTRACT.......................................................................................................................................................................................................v RESUMO ........................................................................................................................................................................................................vi ÍNDICE ........................................................................................................................................................................................................... vii ÍNDICE DE TABELAS ............................................................................................................................................................................viii ÍNDICE DE FIGURAS………………........……………………………………………………………………………………………………………………………….ix INTRODUÇÃO .......................................................................................................................................................................................... 10 OBJECTIVOS .............................................................................................................................................................................................. 13 MÉTODOS.................................................................................................................................................................................................... 14 RESULTADOS .......................................................................................................................................................................................... 20 DISCUSSÃO................................................................................................................................................................................................ 27 CONCLUSÃO............................................................................................................................................................................................. 32 REFERÊNCIAS ......................................................................................................................................................................................... 33
viii ÍNDICE DE TABELAS Tabela 1. Características pré-cirúrgicas dos participantes, de acordo com tipologia cirúrgica. Tabela 2. Antropometria e composição corporal após cirurgia, de acordo com tipologia cirúrgica. Tabela 3. Alterações ponderais e de composição corporal após cirurgia, de acordo com tipologia cirúrgica. Tabela 4. Associações entre as alterações ponderais e de composição corporal dos 0 ao 1 mês e parâmetros cardiometabólicos aos 3 meses após cirurgia. Tabela 5. Associações entre as alterações ponderais e de composição corporal dos 1 aos 3 meses e parâmetros cardiometabólicos aos 6 meses após cirurgia.
ix ÍNDICE DE FIGURAS Figura 1. Exposição, outcome e momentos de avaliação considerados para análise. Figura 2. Participantes, exclusões e subamostra. Figura 3. Períodos de seguimento para avaliação das alterações ponderais e de composição corporal em estudo.
16 Este estudo foi aprovado pelas Comissões de Ética em Investigação da NOVA Medical School e da CUF Tejo. Todos os procedimentos do estudo foram realizados segundo os requisitos descritos para estudos com participantes humanos publicados na declaração de Helsínquia de 1964 com as suas posteriores alterações, bem como, com as normas estabelecidas pela Autoridade Portuguesa de Proteção de Dados. Um consentimento informado online, foi recolhido de cada participante. Recolha de informação Todos os dados usados no presente estudo foram coligidos retrospetivamente através da consulta do registo clínico eletrónico de cada doente. Dados antropométricos e de composição corporal Os parâmetros de avaliação antropométrica e de composição corporal [Peso (kg), MG em kg e %, e MME em kg], foram recolhidos através de consulta do registo clínico referente à avaliação antropométrica e de composição corporal realizada nas consultas de nutrição, no pré-operatório e aos 1, 3 e 6 meses após cirurgia. A estatura foi medida, por nutricionista treinado, ao milímetro mais próximo através de estadiómetro de parede (Seca®, Hamburgo, Alemanha), segundo procedimentos padronizados [25,26]. O peso foi medido com a precisão de 0.1 kg, por nutricionista treinado, segundo procedimentos padronizados [25,26], nomeadamente em roupa interior, após esvaziar bexiga e usando a InBody 770 (InBody® Co. Ltd., Seoul, Korea). A avaliação da composição corporal foi realizada segundo o protocolo da UCOM, que obedece a procedimentos padronizados [27]. Para realizar bioimpedância, o doente teria de estar em jejum por pelo menos 3 horas, não ter realizado exercício físico nas 24 horas anteriores e não ter ingerido bebidas com cafeína ou etanol nas 24 h precedentes ao exame. A composição corporal foi medida através de Bioimpedância Segmentar Direta Multi-frequência DSM-BI, tetrapolar com 8 elétrodos InBody 770 (InBody® Co. Ltd., Seoul, Korea). Marcadores cardiometabólicos Os marcadores cardiometabólicos de interesse, foram avaliados antes da cirurgia, bem como aos 3 e 6 meses após intervenção cirúrgica. Na UCOM, os doentes são aconselhados a realizar a colheita de sangue para análise de parâmetros bioquímicos no Hospital CUF Tejo, em jejum, e obedecendo a procedimentos padronizados. A maior parte dos doentes realiza todos os exames e análises no hospital, através do centro de medicina laboratorial Germano de Sousa [28] que presta este serviço no Hospital. Neste Centro [28] o colesterol total é medido através do método do colesterol oxidase-esterase, sendo o colesterol HDL analisado por ensaio enzimático
17 colorimétrico homogéneo direto. Os triacilgliceróis são avaliados pelo método do glicerol fosfato oxidase peroxidase e os níveis de VLDL são calculados pela equação de Friedwald [29]. A glicémia em jejum é medida pela metodologia da hexoquinase-glicose-6-fosfato desidrogenase e a HbA1c é medida por cromatografia líquida de alta-definição. Alguns doentes realizaram colheita de sangue e análises noutro centro de análises – o Laboratório Joaquim Chaves [30]. Neste Centro [30] são utilizados os seguintes métodos de avaliação: colesterol total medido por ensaio enzimático colorimétrico colesterol esterase/oxidase (PAP); triacilgliceróis e VLDL medidos por ensaio colorimétrico enzimático GPO/Trinder; colesterol HDL e LDL medidos por ensaio colorimétrico enzimático homogéneo direto de 3ª geração; glicémia em jejum medida através da hexoquinase, Glucose-6-Fosfato Desidrogenase e a HbA1c medida por imunoturbidimetria. Para o presente estudo, consultaram-se os processos eletrónicos dos participantes recolhendo informação relativa aos seguintes marcadores: colesterol total (mg/dL); colesterol HDL (mg/dL); colesterol LDL (mg/dL); VLDL (mg/dL); triacilgliceróis (mg/dl); glicémia em jejum (mg/dL) e HbA1c (%). Os resultados das análises realizadas no centro de medicina laboratorial Germano de Sousa, são automaticamente carregados no sistema de registo clínico eletrónico. Os resultados de análises realizadas noutros centros são trazidos pelos doentes e verificados em consulta com registo dos parâmetros alterados. Neste último caso, as análises completas não ficam automaticamente em sistema, de modo que os participantes com valores em falta foram contactados neste estudo, de forma a completar os dados. Dados sociodemográficos Foi desenvolvido um questionário para recolha de dados cujo link foi enviado para o email pessoal de todos os participantes. O questionário visava recolher informação sociodemográfica como: nível de escolaridade; rendimento do agregado familiar; número de membros do agregado; estado civil atual; data de nascimento e sexo dos participantes. Potenciais Fatores de Confundimento Potenciais fatores de confundimento derivaram da revisão da literatura, tendo sido considerados os seguintes em todas as análises; nível de escolaridade (número de anos completos de escolaridade); idade exata dos participantes (calculada em anos completos através da data de nascimento); rendimento per capita mensal (calculado em euros através do rendimento mensal e número de elementos do agregado familiar); o sexo, a estatura dos pacientes e a prática de exercício físico (aos 3 e 6 meses após cirurgia).
18 Análise estatística Para variáveis contínuas, após verificada uma distribuição simétrica dos dados, optou-se por expressar os resultados como médias e respetivos desvios padrão (DP). Para variáveis categóricas, os resultados são expressos em número absoluto e respetivas percentagens. Diferenças entre proporções, foram testadas com o teste Qui-Quadrado. A comparação de médias entre as duas tipologias cirúrgicas foi realizada pelo teste T-student para amostras independentes. Dois períodos de seguimento foram considerados para alterações ponderais e da composição corporal, nomeadamente alteração entre a avaliação pré-cirúrgica e o 1º mês de seguimento (0-1 m) e da pré-cirurgia aos 3 meses de seguimento (0-3 m). As alterações de Peso, IMC, MG e MME foram calculadas mediante subtração (Figura 3). Figura 3. Períodos de seguimento para avaliação das alterações ponderais e de composição corporal em estudo Para avaliar a associação entre a exposição de interesse (alterações ponderais e da composição corporal) e os outcomes (marcadores cardiometabólicos) foram estimados coeficientes de regressão (ß) e respetivos intervalos de confiança a 95% (IC 95%) por modelos de regressão linear, brutos e ajustados, individualmente para cada medida de outcome (CT, LDL e HDL; VLDL, Triacilgliceróis; Glicémia e HbA1c). Os potenciais fatores de confundimento foram, um-a-um, testados em cada modelo e aqueles que não alteravam as associações de interesse, não foram incluídos na análise final [estatura, rendimento e prática de exercício físico]. Assim, os modelos finais foram ajustados para sexo (feminino vs masculino como categoria de referência), idade (em anos, como variável contínua), escolaridade (anos completos, como variável contínua). 1º momento Alteração entre a avaliação pré cirúrgica e o 1º mês de seguimento; Alteração entre a avaliação pré cirúrgica e os 3 meses de seguimento; 2º momento •[ (Peso(kg) pré cirurgia –Peso(kg) 1mês após) ] •[ (IMC kg/m2pré cirurgia –IMC kg/m21mês após) ] •[(MG (kg) pré cirurgia –MG (kg)1mês após) ] •[(MME(kg) pré cirurgia-MME(kg) 1mês após) ] •[ (Peso(kg) pré cirurgia –Peso(kg) 3meses após) ] •[ (IMC kg/m2pré cirurgia –IMC kg/m23meses após) ] •[(MG (kg) pré cirurgia –MG (kg) 3meses após) ] •[(MME(kg) pré cirurgia-MME(kg) 3meses após) ]
19 Para testar estatisticamente a hipótese de heterogeneidade entre tipologias cirúrgicas (Bypass vs. Sleeve) na associação das alterações (ponderais e de composição corporal) com os marcadores cardiometabólicos, testou-se a interação entre alteração (ponderal ou de composição corporal) e tipologia cirúrgica mediante adição de termos multiplicativos (alteração x tipologia) nos modelos ajustados. A análise estatística foi realizada com o Software de estatística SPSS, versão 25 (IBM SPSS Statistics corporation, Chicago, IL, USA) e um nível de significância de 5% foi adotado.
20 RESULTADOS Na Tabela 1 podem observar-se as características iniciais (sociodemográficas, ponderais, de composição corporal e cardiometabólicas) dos doentes, por tipologia cirúrgica. Os doentes submetidos a Bypass apresentavam valores significativamente superiores aos de Sleeve na percentagem de peso em excesso (Média=71,0, DP=25,79 vs. Média=54,2, DP=23,12 kg; P=0,038) e no IMC (Média=42,6, DP=6,42 vs. Média=38,4, DP=5,76 kg/m2, P=0,038). Não se observaram diferenças estatisticamente significativas para as restantes características pré-cirurgia. DP, Desvio Padrão; IMC, Índice de Massa Corporal; MG, Massa Gorda; MME, Massa Muscular Esquelética; LDL, Low-Density Lipoprotein; HDL, High-Density Lipoprotein; VLDL, Very-Low-Density Lipoprotein; HbA1c Hemoglobina glicada A1C. a As proporções foram comparadas com o Teste qui-quadrado; As médias foram comparadas com o Teste T-student para amostras independentes Tabela 1. Características pré-cirúrgicas dos participantes, de acordo com tipologia cirúrgica Bypass em Y de Roux (n=36, 72%) Gastrectomia em Sleeve (n=14,28%) valor-P a Média DP n % Média DP n % Características sociodemográficas Sexo Feminino 25 69,4 8 57,1 0511 Idade, anos 48,4 9,92 46,1 11,92 0,492 Escolaridade, anos 14,5 2,58 14,9 3,52 0,924 Rendimento, € per capita 994,4 594,98 777,4 519,29 0,246 Estado civil Em coabitação 23 76,7 8 57,1 0,288 Características ponderais e de composição corporal Peso, Kg 115,9 21,22 109,7 25,70 0,388 Peso em excesso, % 71,0 25,79 54,2 23,12 0,038 IMC, Kg/m2 42,6 6,42 38,4 5,76 0,038 Perímetro da cintura, cm 127,7 12,39 126,1 12,85 0,786 MG, kg 53,8 11,15 49,5 9,96 0,235 MG, % 47,1 6,25 44,8 4,67 0,231 MME, Kg 33,6 6,97 33,0 8,20 0,799 Características cardiometabólicas Colesterol Total, mg/dL 209,1 37,30 196,1 24,46 0,275 Colesterol LDL, mg/dL 131,4 40,31 123,2 18,15 0,504 Colesterol HDL, mg/dL 49,0 13,32 49,1 11,40 0,991 VLDL, mg/dL 27,1 11,37 24,6 7,54 0,520 Triacilgliceróis, mg/dL 129,8 60,10 118,8 38,91 0,565 Glicose em jejum, mg/dL 99,3 20,97 95,8 5,33 0,415 HbA1C, % 5,8 0,86 6,2 1,58 0,304
21 Após cirurgia (Tabela 2), observa-se descida substancial das medidas antropométricas e de composição corporal nos doentes submetidos a ambas as tipologias cirúrgicas. O IMC médio desce cerca de 12 kg/m2 no Bypass [de 42,6 kg/m2 na avaliação pré-cirúrgica (Tabela 1), para 30,8 kg/m2 aos 6 meses (Tabela 2)] e cerca de 10 kg/m2 no Sleeve [de 38,4 kg/m2 na avaliação précirúrgica (Tabela 1) para 28,0 kg/m2 aos 6 meses (Tabela 2)]. Um mês após cirurgia ainda se observam diferenças estatisticamente significativas entre Bypass e Sleeve na percentagem de peso em excesso (Média=54,3, DP=24,23 vs. Média=38,7, DP=20,79; P=0,039) e no IMC (Média=38,4, DP=6,03 vs. Média=34,5, DP=5,18 kg/m2; P=0,039), que deixam de ser significativas aos 3 e 6 meses de seguimento. DP, Desvio Padrão; IMC, Índice de Massa Corporal; MG, Massa Gorda; MME, Massa Muscular Esquelética; LDL, Low-Density Lipoprotein; HDL, High-Density Lipoprotein; VLDL, Very-Low-Density Lipoprotein; HbA1c Hemoglobina glicada A1C. a As médias foram comparadas com o Teste T-student para amostras independentes Tabela 2. Antropometria e composição corporal após cirurgia, de acordo com tipologia cirúrgica Bypass em Y de Roux (n=36, 72%) Gastrectomia em Sleeve (n=14, 28%) Média DP Média DP valor-P a 1 mês após cirurgia Peso, Kg 104,4 18,95 98,7 23,01 0,388 Peso em Excesso, % 54,3 24,23 38,7 20,79 0,039 IMC, Kg/m2 38,4 6,03 34,5 5,18 0,039 MG, kg 47,7 12,08 41,9 9,87 0,178 MG, % 46,1 7,18 43,1 2,91 0,065 MME, Kg 30,4 6,21 30,4 7,82 0,981 3 meses após cirurgia Peso, Kg 93,8 17,50 91,0 23,10 0,666 Peso em excesso, % 39,3 23,47 28,2 22,06 0,156 IMC, Kg/m2 34,7 5,84 31,9 5,49 0,156 MG, kg 41,1 12,68 35,2 9,69 0,220 MG, % 43,0 8,36 37,3 5,40 0,071 MME, Kg 29,6 5,85 31,5 7,82 0,452 6 meses após cirurgia Peso, Kg 84,6 14,63 77,6 19,44 0,219 Peso em excesso, % 23,5 18,78 12,3 21,04 0,107 IMC, Kg/m2 30,8 4,68 28,0 5,24 0,107 MG, kg 30,6 10,23 25,2 6,33 0,133 MG, % 36,0 9,24 32,3 6,28 0,248 MME, Kg 29,9 6,13 28,7 5,88 0,585
22 Até aos 6 meses, em números absolutos, os doentes submetidos a Bypass perdem mais peso (33,0 kg), mais massa gorda (24,9 kg), e mais massa muscular esquelética (4,3 kg) do que os doentes submetidos a Sleeve (27,7 kg; 23,1 kg; 2,8 kg, respetivamente), mas nenhuma destas diferenças é estatisticamente significativa. Nos primeiros 6 meses, a perda total de MG é de 77,8% do peso perdido no Bypass e de 76,5% do peso perdido no Sleeve. Já a perda de MME perfaz, aos 6 meses, 12,8% e 10,7% do peso perdido, no Bypass e Sleeve respetivamente. Em ambas as tipologias cirúrgicas, a perda relativa de MME é muito mais substancial durante o primeiro mês após cirurgia, diminuindo a partir daí, enquanto aumenta a perda relativa de massa gorda. DP desvio padrão a As médias foram comparadas com o Teste T-Student para amostras independentes Tabela 3. Alterações ponderais e de composição corporal após cirurgia, de acordo com tipologia cirúrgica Bypass em Y de Roux (n=36, 72%) Gastrectomia em Sleeve (n=14, 28%) Média DP Média DP valor-P a Peso 0 - 1 mês, kg 11,4 4,01 11,0 3,26 0,729 1 - 3 meses, kg 10,5 3,97 8,2 3,40 0,074 3 - 6 meses, kg 10,6 4,63 10,0 5,24 0,718 Perda total (0 - 6 m), kg 33,0 9,29 27,7 8,60 0,105 Massa Gorda 0 - 1 mês, kg 7,3 2,71 7,5 2,49 0,820 0 - 1 mês, % peso perdido 63,9 10,28 67,7 16,27 0,520 1 - 3 meses, kg 8,8 3,72 7,7 3,36 0,523 1 - 3 meses, % peso perdido 84,6 15,87 92,5 11,35 0,244 3 - 6 meses, kg 9,1 3,10 9,1 4,73 0,981 3 - 6 meses, % peso perdido 87,7 11,58 87,9 17,61 0,974 Perda total (0 - 6 m), kg 24,9 6,36 23,1 6,51 0,464 Perda total (0 - 6 m), % peso perdido 77,8 12,00 76,5 6,10 0,762 Massa Muscular Esquelética 0 - 1 mês, kg 2,9 1,01 3,0 1,03 0,800 0 - 1 mês, % peso perdido 26,6 8,57 29,2 8,74 0,414 1 - 3 meses, kg 0,8 0,94 0,7 1,02 0,779 1 - 3 meses, % peso perdido 9,4 8,50 7,5 6,72 0,896 3 - 6 meses, kg 0,4 1,09 0,3 0,78 0,755 3 - 6 meses, % peso perdido 5,4 6,29 7,1 12,29 0,634 Perda total (0 - 6 m), kg 4,3 2,59 2,8 3,38 0,146 Perda total (0 - 6 m), % peso perdido 12,8 6,29 10,7 10,65 0,456
23 As estimativas da associação entre alterações ponderais e de composição corporal com os marcadores cardiometabólicos não são apresentadas estratificadas por tipologia cirúrgica, uma vez que nenhum dos termos de interação testados foi estatisticamente significativo, não mostrando heterogeneidade entre Bypass e Sleeve na associação das alterações ponderais ou da composição corporal com os diferentes marcadores cardiometabólicos. Assim, não havendo justificação estatística que suporte uma diferença de associação consoante tipologia cirúrgica, os resultados são apresentados em conjunto (Tabelas 4 e 5). Conforme se pode observar na Tabela 4, as alterações ponderais e de composição corporal durante o primeiro mês após cirurgia estão significativamente associadas à diminuição do colesterol HDL aos 3 meses tanto no modelo bruto (Modelo 1) como no modelo ajustado para sexo, escolaridade e idade (Modelo 2). No primeiro mês após cirurgia, a alteração de medidas antropométricas ou de composição corporal não se mostrou associada aos níveis de colesterol total,LDL,VLDL, triacilgliceróis ou HbA1c aos 3 meses de seguimento. Pelo contrário, estas alterações mostraram-se associadas à diminuição do colesterol HDL aos 3 meses, tanto nos modelos brutos como nos ajustados. Após ajuste para características sociodemográficas, por cada kg de peso perdido no primeiro mês de pós-operatório, o colesterol HDL aos 3 meses diminui em 2,118 mg/dL (IC95%: -2,970; -1,267). No primeiro mês de pós-operatório, por cada kg/m2 perdido no IMC a diminuição de colesterol HDL aos 3 meses é de 7,192 mg/dL (IC95%: -9,485; -4,900). Esta diminuição de colesterol HDL deve-se substancialmente à diminuição da massa muscular esquelética (ẞ=-6,491; IC95%: -9,962; -3,020) e menos à diminuição de massa gorda (ẞ=-1,694; IC95%: -3,376; -0,012). Por cada diminuição de 1 kg no primeiro mês após cirurgia, sobe significativamente a glicémia em jejum aos 3 meses (ẞ=0,880; IC95%: 0,198; 1,561), embora, após ajuste para características sociodemográficas, a associação tenha perdido significância estatística (ẞ=0,785; IC95%: -0,011; - 1,581). Do mesmo modo, por cada diminuição de 1 kg/m2 no IMC durante o primeiro mês de pósoperatório observa-se um aumento de 2,764 mg/dL da glicémia em jejum (IC95%: 0,363; 5,164) que perde significância após ajuste para características sociodemográficas (ẞ=2,162; IC95%: -0,291; 4,615). A alteração de MG no primeiro mês não se mostrou significativamente associada à glicémia em jejum aos 3 meses. Para o mesmo período, a diminuição de MME mostrou-se positivamente associada à glicémia, embora a associação não atinja significância estatística. Resultados semelhantes foram observados relativamente a alterações antropométricas e de composição corporal entre o 1 e os 3 meses de seguimento e sua associação com colesterol HDL aos 6 meses. Nos modelos ajustados (Modelo 2), as alterações antropométricas e de composição corporal observadas no segundo e terceiro meses após cirurgia associaram-se significativamente à diminuição do colesterol HDL, no que respeita à perda de peso (ẞ=-1,206; IC95%: -1,847; -0,566), à diminuição de IMC (ẞ=-3,961; IC95%: -5,831; -2,091) e à diminuição de massa muscular esquelética
24 (ẞ=-9,612; IC95%: -13,583; -5,640). Adicionalmente, uma associação no limiar da significância estatística é observada entre a diminuição de IMC entre o 1 e os 3 meses com o colesterol total aos 6 meses (ẞ=-6,065; IC95%: -12,131; 0,000), estando a perda de massa muscular esquelética significativamente associada a este marcador (ẞ=-16,296; IC95%: -29,243; -3,349).
25 CT colesterol total; LDL, Low-Density Lipoprotein; HDL, High-Density Lipoprotein; VLDL, Very-Low-Density Lipoprotein; TG triacilgliceróis; GJ glicose em jejum; HbA1c Hemoglobina glicada A1C.; ß coeficiente de regressão; IC intervalo de confiança; IMC índice de massa corporal; MG massa gorda; MME massa muscular esquelética a Bruto; b Ajustado para sexo, idade e educação Tabela 4 Associações entre as alterações ponderais e de composição corporal dos 0 ao 1 mês e parâmetros cardiometabólicos aos 3 meses após cirurgia, n=29 CT, mg/dL LDL, mg/dL HDL, mg/dL VLDL, mg/dL TG, mg/dL GJ, mg/dL HbA1c, % β (IC 95%) β (IC 95%) β (IC 95%) β (IC 95%) β (IC 95%) β (IC 95%) β (IC 95%) Peso, kg Modelo 1 a -2,210(-5,159;0,740) -0,465(-3,407;2,478) -1,927(-2,610; -1,244) 0,278(-0,423;0,979) 0,061(-2,815;2,937) 0,880(0,198;1,561) 0,020(-0,015;0,054) Modelo 2 b -1,574(-4,528;1,380) -0,049(-3,084;2,986) -2,118(-2,970; -1,267) 0,432(-0,430;1,294) 0,245(-3,202;3,692) 0,785(-0,011;1,581) 0,007(-0,035;0,048) IMC, kg/m2 Modelo 1 a -4,458(-14,919;6,004) 2,029(-8,153;12,210) -7,172(-9,336; -5,008) 0,686(-1,747;3,118) 0,302(-9,658;10,262) 2,764(0,363;5,164) 0,054(-0,066;0,175) Modelo 2 b -3,859(-12,866;5,147) 1,867(-7,303;11,036) -7,192(-9,485; -4,900) 0,927(-1,706;3,560) 0,034(-10,413;10,481) 2,162(-0,291;4,615) 0,008(-0,118;0,134) MG, kg Modelo 1 a -2,503(-8,012;3,006) -0,809(-6,216;4,599) -1,904(-3,300; -0,508) 0,348(-1,004;1,700) -0,766(-6,176;4,644) 0,822(-0,433;2,078) 0,043(-0,016;0,102) Modelo 2 b -0,098(-5,139;4,944) 0,944(-4,236;6,124) -1,694(-3,376; -0,012) 0,459(-1,147;2,064) 0,678(-5,727;7,084) 0,656(-0,785;2,096) 0,044(-0,019;0,108) MME, kg Modelo 1 a -6,400(-19,334;6,533) -0,521(-13,138;12,096) -6,306(-9,372; -3,241) 1,561(-1,371;4,494) -1,197(-13,134;10,739) 2,081(-0,689;4,850) -0,012(-0,146;0,123) Modelo 2 b 0,740(-10,656;12,136) 6,013(-5,339;17,365) -6,491(-9,962; -3,020) 2,008(-1,357;5,373) 2,687(-11,070;16,445) 2,017(-1,157;5,191) -0,045(-0,190;0,100)
32 CONCLUSÃO Este estudo mostra que a perda de peso e consequente diminuição do IMC, estão associados à diminuição do colesterol HDL aos 3 e 6 meses, sendo a perda de MME, o fator que parece estar mais significativa e fortemente associado a esta diminuição. Conclui-se que, para além do peso, os diferentes componentes da composição corporal, em particular a perda de MME, podem ter influência nos marcadores cardiometabólicos lipídicos e glicémicos, com o aumento da glicémia em jejum, principalmente nos 3 meses após a cirurgia. É de extrema relevância incluir a avaliação da composição corporal, desde a avaliação pré cirúrgica e nos diferentes períodos de seguimento, no acompanhamento de doentes submetidos a CMB. No entanto, são necessários mais estudos longitudinais, com tempos de seguimento superiores, com um tamanho amostral maior, que permitam estimar e compreender melhor a associação entre os diferentes compartimentos da composição corporal e as alterações lipídicas e glicémicas e que tenham poder estatístico suficiente para estudar potenciais diferenças entre tipologias cirúrgicas.
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