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Setembro,2017 DissertaçãodeMestradoemHistóriaContemporânea ComooAvante!tratouosseus entre1941e1974 Aconstruçãodeumaidentidadecomunista AnaPaulaMarquesCorreia
Dissertaçãoapresentadaparacumprimentodosrequisitosnecessáriosàobtenção dograudeMestreemHistóriaContemporânea,realizadasobaorientação científicadoProfessorDoutorJoséManuelViegasNeves Aosqueresistiram
AGRADECIMENTOS OacompanhamentodoprofessorJoséNevesfoideterminanteparaquetenha sido possível transformar um projeto vago numa dissertação, num processo de avanços e recuos e muitas hesitações só possíveis de ultrapassar graças às suas observaçõeseindicaçõesdeleituras. Para o enriquecimento do trabalho contribuíram decisivamente os três militantescomunistasqueaceitaramfalardassuasexperiênciasemanifestarassuas opiniões. Aqui fica, pois, o agradecimento a Margarida Tengarrinha, Domingos AbranteseJoséPedroSoares. Noplanopessoal,estetrabalhoteriasidoapenasumaideiasemoincentivoda LeonoresemoapoioeaconfiançaincondicionaisdaIsabel.
ComooAvante!tratouosseus entre1941e1974 Aconstruçãodeumaidentidadecomunista Resumo Palavras-chave:Avante!,clandestinidade,militância,leitores,identidade “ComooAvante!tratouosseus?”,apartirdeumaanálisedeconteúdodaVI sériedojornalprocura-seumarespostaaestapergunta,contribuindoparaoestudo da militância comunista e da forma como ela foi construída e exposta na mais relevantepublicaçãoperiódicadoPartidoComunistaPortuguês. Entrea“reorganização”dopartido,iniciadaem1941,eofimdaditadura,em25de Abrilde1974,forampublicadas,comregularidade,464ediçõesquedeterminarama identidadecomunista,falandodeeparaosmilitantes.Deediçãoemedição,aolongo doperíodoclandestino,arededeinfluênciadoAvante!vai,noentanto,extravasando opartido,alargando-seaumacomunidadeimaginadadeleitoresidentificadacomo universodosopositoresaoregime. Abstract Keywords:Avante!,clandestinity,militancy,readers,identity “HowdidAvante!treattheirones?”fromacontentanalysisofthenewspaper's VI series, an answer is sought to this question, in a contribution to the study of communistmilitancyandthewayitwasconstructedandexposedinthemostrelevant periodicalpublicationofthePortugueseCommunistParty. Between 1941 and 1974, since the "reorganization" of the party, begun in 1941,andtheendofthedictatorshiponApril25,1974,464editionswerepublished regularlythatdeterminedthecreationofcommunistidentity,speakingofandforthe militants. Gradually, from editing in edition, throughout the clandestine period, Avante's network of influence! however, goes beyond the party to an imagined communityofreadersidentifiedwiththeuniverseofopponentsoftheregime.
Índice Introdução.....................................................................................................1 ParteI—OAvante!criaasuacomunidade....................................................6 1.Aautoidentificação.....................................................................................................................6 1.1A“polissemia”Avante!........................................................................................................6 1.2Internacionalistaenacional.............................................................................................7 1.3“...detodososhomensquenãosejamcobardes”......................................................9 2.Cumplicidadeeresponsabilidade.......................................................................................13 2.1“Deverdetodoocomunista”........................................................................................13 2.2“NuncainutilizesoAvante!”...........................................................................................15 2.3“Indestrutível”......................................................................................................................17 3.Obrigaçõesediretivas.............................................................................................................19 3.1Esforçoesacrifício............................................................................................................19 3.2Dedicaçãoexemplar..........................................................................................................21 3.3Exemplarvendidoduasvezes......................................................................................21 4.Leitor/correspondente...........................................................................................................24 4.1”Manda-nosnoticias”.........................................................................................................24 4.2”EsteAvante!éprecioso”.................................................................................................25 5.Críticasecorreções...................................................................................................................27 5.1”Desleixo”................................................................................................................................27 5.2Autocrítica............................................................................................................................28 PARTEII—Ajustesdecontas.......................................................................31 1.AreorganizaçãoeosdoisAvante!......................................................................................31 1.1Críticaaos“confucionistas”............................................................................................31 1.2“Irradiação”dos“provocadores”................................................................................36 1.3Contra“ogrupelhoprovocatório”...............................................................................38 1.4Oesquerdismo,oscorvoseasmoscas.....................................................................44 2.Emtempodeguerra.................................................................................................................49 2.1Os“quinta-colunistas”´.....................................................................................................49 3.”Seforespreso,camarada”.....................................................................................................51 3.1“NaPolícianãosefala”....................................................................................................51 3.2“Máconduta”........................................................................................................................54 3.3“Indignidade,cobardiaetraição”................................................................................55
3.4“Cuidadocomeles”............................................................................................................60 3.5“Provocadoresetraidores”.............................................................................................62 3.6“Miseráveis”..........................................................................................................................67 4.Heróis..............................................................................................................................................73 4.1”Liberdadeparaospresos!”.............................................................................................73 4.2“Inclinamosasnossasbandeiras”.................................................................................81 4.3”Umhomementreasestrelas”.......................................................................................84 PARTEIII—Asuperioridade(banal)doscomunistas....................................88 1.Alinguagembanal.....................................................................................................................88 1.1Oexemplomoral................................................................................................................88 1.2Ódiopeloinimigo...............................................................................................................92 1.3Avingançaserve-sefria..................................................................................................93 2.Obanaldeliberado....................................................................................................................95 2.1Sentimentoeemoção.......................................................................................................95 2.2.Aheroicidade......................................................................................................................97 2.3.Sercomunistaé...............................................................................................................100 2.4A“superioridadecomunista”......................................................................................103 Conclusão...................................................................................................113 Bibliografia.................................................................................................118
1 Introdução “AresistênciafoiadignidadedePortugal”.AfraseédeJorgeSampaio1epode sintetizar o significado político-histórico que teve a atividade de quem resistiu ativamenteàditaduradeSalazareCaetano.Semumfortesentidodemilitânciaede empenhamento numa causa superior ao acomodamento pessoal não teria sido possívelresistiràrepressãodapolíciapolíticaeàslimitaçõesàliberdadedeexpressão edeassociaçãoimpostaspeloregime. Este trabalho versa um aspeto particular dessa resistência, a dos militantes comunistas, vista através dos textos publicados nas edições clandestinas do jornal Avante! e procurando a resposta à seguinte pergunta: “Como o Avante! tratou os seus?”. Entre 1941 e 1974, o órgão central do PCP publicou, regularmente, 464 edições,produzidasemcondiçõesmuitodifíceiscomrecursoatipografiasclandestinas edistribuídoatravésdeumacomplexarede,paraqueojornalchegassenãosóacada umdosmilitantes,mastambématodososqueseopunhamàditadura.Operiódico assumiu grande protagonismo como veículo de criação da identidade comunista, sendoummeiodecomunicaçãoentreosmilitantes,falandodeleseparaeles,mas integrando-os sempre numa comunidade mais alargada de opositores ao regime. O objectodeestudodestetrabalhoéoconteúdodoAvante!clandestinonaformacomo ojornal“falou”deecomessacomunidadedeleitores,desdea“reorganização”do partido,iniciadaem1941,eofimdaditadura,em25deAbrilde1974.Emborao1º númerodoórgãocentraldoPCPtenhasidoeditadoa15eFevereirode1931,sóa partirdeAgostode1941,comapublicaçãodonº1daVISérie,queviriaamanter-se atéAbrilde1974,équeaediçãodojornalsetornouregular,publicando-sequinzenal oumensalmente.Porestarazão,tornou-seóbvioqueteriadesertodaaVIsériea fonteprincipaldestetrabalho. 1Proferidaa19deJaneirode2017,noMuseudoAljube,naapresentaçãodolivro“CadeiadoFortede Peniche,comofoivivida”,deCarlosBrito.
2 O Avante! clandestino, tanto quanto foi possível perceber, tem sido estudado não comoobjetoprimário,mas,tãosó,integradocomofontecomplementaremtrabalhos emtornodahistóriadoPartidoComunistaPortuguêsedosseusprotagonistas.Nestas investigações,entreasquaissedestacamasobrasdoshistoriadoresJoãoMadeira2e JoséPachecoPereira3ouaindadeDawnLindaRaby4edaantropólogaPaulaGodinho5, oAvante!surgeemdoisplanos:comoumdoselementosimportantesnavidadoPCP duranteaclandestinidade;oucomofonteauxiliarnadefiniçãodatrajetóriapolíticae estratégica do partido e dos seus dirigentes. A verificação de que o conteúdo do Avante! não estará estudado como objecto principal constitui, assim, uma das motivaçõesparaaescolhadotema. A opção metodológica seguida foi a de eleger as edições do Avante! clandestinocomofontesprimáriasparadesenvolverumacríticadeconteúdopolítico, enquadradoemcadamomentodocontextohistórico.Ostextosnãosãoanalisadosdo ponto de vista linguístico, e, embora não se ignore, como alerta a linguista Marina Yaguello,que“apalavranãoéapenasuminstrumento,étambémumexutório,uma formadeagir,ummeiodeafirmaçãocomosersocial,umlugardeprazeroudedor”6, o estudo enquadra-se conceptualmente nas propostas de autores como Quentin Skinner, no que este historiador reflete sobre o significado de um texto, tendo em contaocontextopolíticoparadescortinaraintençãooumotivaçãodoautoraousar determinada linguagem. Em Skinner, que parte de O Príncipe, de Maquiavel, e da citação“énecessárioqueopríncipeaprendaanãoserbom”,essencialéaleiturapara alémdotexto.“(...)nãoépossívelchegaràconclusãodequeoPríncipefoiemparte concebido como um ataque à natureza moralista dos manuais humanistas para príncipesapenasatravésdoestudodotextodeMaquiavel,jáqueessefactonãoestá 2JoãoManuelMartinsMadeira,‘OPartidoComunistaPortuguêsEaGuerraFria:“sectarismo”,“desvio de Direita”, “Rumo À Vitória” (1949-1965)’, 2011; João Madeira, História Do PCP(Tinta da China, 2013). 3JoséPachecoPereira,ÁlvaroCunhal,UmaBiografiaPolítica(TemaseDebates),4vols. 4Dawn Linda Raby, Portugal, A Resistência Antifascista Em Comunistas, Democratas E Militares Em OposiçãooaSalazar,1941-1974(EdiçõesSalamandra,1988). 5PaulaCristinaAntunesGodinho,‘MemóriasDaResistênciaRuralNoSul’,1998. 6MarinaYaguello,AliceNoPaísDaLinguagem(EditorialEstampa,1991),p.21.
3 contempladonotexto.(…)assim,parece-meindispensávelparaasuacompreensão umaoutraformadeanálisequeváparaalémdelerostextos«umaeoutravez». Parece-se-metambémqueessaanálisedeveráconterumestudodasconvençõesedas pressuposiçõesestabelecidasparaogénero,apartirdoqualasintençõesequalquer autor em concreto possam — por uma combinação de dedução e conhecimento académico”—serdescodificados.”7 TambémnaanálisedasediçõesdoAvante!clandestinoassume-seointeresse porumainterpretaçãoparticulardotexto,focadanoqueeleremeteparaarelação comoleitor/militante,contextualizadacomoconhecimentoadquiridosobreoPCPeo movimentocomunista,emgeral,tentandodescodificaraintençãodosautores,que nãoestãoidentificados.Essadescodificaçãoéumpassopararesponderàtalpergunta inicial:comooAvante!tratouosseus? Dividindo o trabalho em três partes, a metodologia seguida passou por identificarosdiversospapéisassumidospeloAvante!duranteoperíodoemestudo. Na I Parte — O Avante! cria a sua comunidade — identificam-se os sinais da construção da comunidade de leitores a par da criação da sua própria identidade, comosujeitonumarelaçãobiunívocacomosmilitantes,tendocomosustentáculoo conceitode“comunidadesimaginadas”, deBenedict Anderson,transpondo oque o autoraplicaàidentidadenacionalparaopartido.Aocriarcumplicidades,afinidadesou contrapontos,oAvante!,comosinónimodoPartido,criaumsentimentodepertençaa umuniverso,ondecabemosmilitantes,ostrabalhadoreshomensouosdemocratas, alémdospatriotas,extravasando,noentanto,asfronteirasfísicasdopaís.PodefazerseumaanalogiacomoexemplodadoporAnderson:“Umamericanonuncaconhecerá ousaberásequeronomedemaisdeumamão-cheiadentreosseus240milhõesde concidadãosamericanoscomoele.Nãofazideiadoqueosocupanumdadomomento. Mas confia plenamente na sua actividade continuada, anónima, simultânea” 8. TambémoleitordoAvante!nãoconhecetodososoutrosleitores,masé-lheincutida, 7Skinner,p.199. 8BenedictAnderson,ComunidadesImaginadas(edições70,2017),pp.47-48.
10 representaçãoculturalalimentadapelacomunicação,quepermiteumaidentificação decadaumcomogruponoqualseimaginainserido.Essegruponãoéquantificável, mascadaumdosseusmembrosimagina-onasuadimensãoeimportânciasocialde acordocomasuapercepçãodarealidadetransmitida,porexemplo,pelaimprensa. NocasodasediçõesclandestinasdojornalAvante!,essapercepçãoéreforçada pelascondiçõesemqueoperiódicoéescrito,impresso,distribuído,lidoedivulgado. Todaessacadeia,quecomeçanosdirigentesdopartidoeacabanossimpatizantesou nos“trabalhadoreshonestos”,cimentaumacomunidadepolítica,àqualcadaumdos militantes, individualmente, seorgulha de pertencer. A adjetivaçãode “honestos”é recorrentementeusadanaspáginasdoAvante!paradesignarosnãomilitantesque não eram hostis ao partido. Como analisa o historiador José Pacheco Pereira, “o adjectivo‘honesto’tinhaumafunçãoclassificadoracentral,quecorrespondiaàideia rousseaunianadequeos‘homenshonestos’nãopoderiamserinimigosdopartido.Por isso o “legionário honesto’ e o democrata ‘honesto’ eram tidos como ‘honestos’ porque,nãosendocomunistas,nãoeramanti-comunistas”16. É com a VI série, iniciada em Agosto de 1941 pelos obreiros da chamada “reorganização”dopartido,queoórgãocentraldoPCPpassaaserverdadeiramente periódico,com edições regulares, embora a ediçãoclandestinanão tenha sido uma experiêncianovaparaos“reorganizadores”,umavezqueoAvante!,enquantoórgão centraldoPCP,jáexistiadesde1931comapublicação,emduassériesde93números. Como acentua João Madeira17, segue-se um período da vida do jornal que reflete, comonãopoderiadeixardeser,aconvulsãointernadopartido:“Entre1941e1945,a existênciadedoisPartidosComunistasemPortugal,fazcomqueumdeles,oquese representavaacontinuidadeorganizativa,masqueviriaaserdesignadode“grupelho provocatório”pelogrupodosreorganizadores,editasseduasnovassériescomumtotal de20números.Nesteperíodoeditaram-sedoisjornaiscomomesmotítulo–Avante!– aindaquecomnovanumeraçãodesérie,cabeçalhos,tipodepapelesuportesgráficos relativamentediferentes,poispelomenos,em1944-45,jánumafasededefinhamento e desagregação do “grupelho provocatório”, o seu Avante! era copiografado, 16JoséPachecoPereira,ASombra.EstudoSobreaClandestinidadeComunista(Gradiva,1993),p.91. 17JoãoManuelMartinsMadeira.p.665.
11 enquantoqueodosreorganizadoresseriainvariavelmenteimpressoemprelo”. A formação dessa comunidade como objectivo está patente nas páginas do própriojornal.Logonoprimeironº1daVIsérie,deAgostode1941,lê-se,numlongo textoquepreencheaquasetotalidadedasquatropáginasdojornal,intitulado“OQUE QUEREMOS!”:“OAvantefazasuaapariçãocomoavozdopovoportuguês,comoa vozdePortugal”. No mesmo nº1, na página 4, num outro texto intitulado “PREVENÇÃO”, caracteriza-se o aparecimento do Avante! como: “O toque a unir de todos os antifascistasedetodososhomensquenãosejamcobardes”. O reconhecimento da relevância do jornal para a consolidação de um sentimentodepertençacúmpliceaumgruporevela-senaformacomooAvante!se identifica e se assume, referindo-se a si próprio como um corpo vivo, quase humanizado e integrante dessa comunidade imaginada, cujo universo não se circunscreveaoscomunistasmilitantesdopartido,masalarga-seatodos“oshomens quenãosejamcobardes”.Ojornalfaladesi,comomembrodogrupo,eparacadaum dosoutroselementosdessamesmacomunidade. AopiniãodeDomingosAbrantes18,que,naqualidadededirigentedopartido, exerceu funções na redação do Avante!, é condicente com a ideia da comunidade alargadadojornaleconfirmacomoesseobjetivoeraassumidopelaprópriadireçãodo PCP:“OAvante!eraoelodeligaçãoentreosmembrosdopartido.Eraumorganizador, mascriouumacomunidademuitomaiordoqueadopartido”.Enessacomunidade,os militantes comunistas têmorgulho, o orgulho pelofacto de o jornaldo seu partido chegar mais longe do que a estrutura partidária, mas, sobretudo, por ter resistido, como enfatiza Domingos Abrantes: “Foi um grande feito termos mantido editado o Avante! durante tanto tempo, entre 1941 e 1974, ininterruptamente naquelas condições.Nãohámuitoscasosdestesnomundo,apesardequasetodosospartidos comunistas terem a sua imprensa clandestina, e há um diferença, o nosso sempre, sempre impresso no país. Não há um único exemplar que tivesse sido feito no estrangeiro.Éobra,porqueeradeumagrandecomplexidade.Umdostipógrafosmais 18EntrevistaaDomingosAbrantesrealizadaa21deMarçode2017,nasedenacionaldoPCP,emLisboa. Salvooutraanotação,todasascitaçõesatribuídasaDomingosAbrantesresultamdestaentrevista.
12 extraordinários que conheci, o mais rápido, era um miúdo de seis anos. Foi numa tipografiaemLinda-a-Pastora.EletinhavindocomospaisdeFafe,nãosabialer,mas conheciaasletrasecompunhacomumadestrezaerapidezextraordinária.Depoiso paifoipreso,eufuipresoenãoseioquefoifeitodele”. AmesmaconsciênciadaimportânciadoAvante!,inspiradanosensinamentos leninistassobreaorganizaçãodopartidoeda sualigaçãoaosexterioraplicadosao contexto político português, em que não existia Imprensa livre, é expressa por MargaridaTengarrinha:“OAvante!teveumaimportânciaenormepeloconhecimento queproporcionavasobreoqueseestavaapassarnopaísenomundo.Enquadrava-se, eenquadra-se,nosmoldesexatosdoqueLenineestabeleceudoquedeveriaoórgão centralinformativodoPartido.Tinhaqueser,simultaneamente,umorganizador,um informadoreummobilizador.Nessesentido,comoorganizador,oAvante!éumelode ligaçãoentreosmilitantes.Eratambémoúnicoórgãodeinformaçãoquediziatodaa verdade,proibidapelacensuranosoutrosjornais”. Estes testemunhos são reveladores do que significa para os comunistas a continuidade regular do Avante! durante a ditadura, tendo em conta todas as dificuldades que envolviam a sua produção, desde a redação dos textos que, em muitos casos chegavam de vários pontos do país, até à impressão em tipografias clandestinas, que a todo o momento podiam cair nas mãos da polícia política, passandopeladistribuição,camufladae,emgeral,debicicleta,omeiodetransporte por excelência dos militantes clandestinos. Aliás, a bicicleta tornou-se também um símbolodaresistência,àsemelhançadoqueaconteceuduranteaocupaçãonazi,em França,duranteaIIGuerraMundial.ComolembraaantropólogaPaulaGodinhona suatesesobre aresistência rural,abicicletafoitransformadaemícone naobra de ficçãodeÁlvaroCunhal,assinadacomopseudónimodeManuelTiago,numelogioao esforçoeàcapacidadedeentregadosmilitantes.“ApersonagemVaz,doromanceAté amanhã,camaradas,deManuelTiago-obraestruturantedaculturaderesistência- um militante generoso até ao limite do humano, faz-se sempre transportar numa
13 bicicleta, que se torna uma materialização da pobreza e do esforço contínuo do trabalhoclandestino.”19 2.Cumplicidadeeresponsabilidade 2.1“Deverdetodoocomunista” Acriaçãodecumplicidadeedecorresponsabilidadedosleitoresemrelaçãoao jornalestásemprepresenteemapelosconstantesparaumacolaboraçãomaisestreita eemorientaçõesarespeitarnãoapenaspelosmilitantes.Se“LeredifundiroAvante! éodeverdetodoocomunista”,umadiretiva,publicadaemDezembrode1941,na qual fica patente a importância do periódico no quadro da militância comunista, também “Auxiliar a publicação do Avante! é a obrigação de todos os militantes revolucionários”,comoselênaediçãoseguinte,deOutubrodomesmoano.Jáantes, emSetembro,nonº2,oapeloeraoseguinte:“Camaradas!NãobastaleroAvante!é precisoquenelecolaboremtambém”. Háexemplosdetextosquesedirigemdiretamenteaumgrupomaisalargado doqueodosmilitantes.ÉocasodoapelopublicadoemSetembrode1955: ”Trabalhadores! Democratas! Lendo e dando a ler o Avante! a todas as pessoas honradas vossas conhecidas levarás (...) a voz da verdade a um númerocadavezmaiordeportugueses”. Estesapelos,oudiretivas,vãorepetir-seaolongodasediçõesdetodaaVIsérie doAvante,oqueacentuaacontribuiçãodojornalparaacriaçãodeumaespíritode grupo.Nofundo,oAvante!éumpatrimóniovivodalutaantifascista,quecabeatodos os comunistas e “homens honestos” salvaguardar. Daí que na 1ª quinzena de Dezembrode1942,seleia: “Difunde o nosso jornal, camarada. Depois de leres o Avante! não o inutilizes.Dá-oaumamigodeconfiança,envia-opelocorreioaumantifascistaousimpatizante,mete-opordebaixodaportadumacasaoperária, 19PaulaCristinaAntunesGodinho,‘MemóriasDaResistênciaRuralNoSul’,1998,pp.210-1211.
14 deixa-onumlugarondepossaserapanhadoporumtrabalhador.Depoisde leresoAvante!,contribuiparaadifusãodoAvante!”. Oapeloàdifusão,noentanto,eradealcancelimitadoporquepassarojornal para mãos inimigas constituía um perigo e poderia significar a prisão. Francisco MartinsRodrigueslembraotempo,noiníciodosanos50,emqueeradifícilconquistar a confiança dos camaradas. “Nesse tempo, para ler um Avante! era o cabo dos trabalhos.Euaindanãoderaprovassuficientes(duaspequenasprisões,semestátua nemnada,erapouco)etodossefaziamdesentendidos:‘Nãotenho,hámuitotempo quenãorecebo’.OprimeiroquemelembrodemeemprestarumfoioViegas,barbeiro, deCastroVerde,quejápassarapelacadeia”20. Talcontradiçãoentreosapelosàdifusão,quesequeriaomaisamplapossível, eanecessáriacautelaparagarantirasegurançadamáquinapartidáriaeraassumidae tinhadeserresolvidarecorrendoaumapercepçãoinstintiva.Essemétodonãoera isento de perigo, como testemunha Domingos Abrantes: “Havia um risco, que era assumido,maserapossívelalgumaintuição.Adistribuiçãoeracomplexa,funcionava em rede. Ia um pacote para determinado local, onde era repartido para ser levado paraoutroslocais.Eraumelomuitolongoeintrincado,deformaaqueapolíciapodia chegaraumdistribuidormasnãoconseguiaquebraracadeia”. Merecer ter direito a que lhe seja passado o Avante! era uma conquista inesquecível para militantes comunistas. Carlos Brito 21 conta como se sentiu “orgulhosocomaprovadeconfiança”quandoteveacessoaojornalprimeiravez,no iníciodosanos50.“’Tomalá,masnãofumesaqui’,foiassimoavisobrincalhãode umacompanheirodeestudos,maisvelho,aopassar-seumlivrodemortalhasZig-Zag, umatarde,emplenoCafédoChiado.Tinha-meprevenidoqueládentro,dissimulado entreasfiníssimasfolhasdepapeldefumar,estavaumAvante!,ojornaldoPartido Comunista,tambémempapelmuitofino.EraomeuprimeiroAvante!,aindanãotinha dezoitoanos.” 20FranciscoMartinsRodrigues,OsAnosDoSilêncio(Dinossauro/AbrenteEditora,2008)pp28-29. 21CarlosBrito,TempodeSubversãoPáginasVividasDaResistência(NelsondeMatos,2011),p.131.
15 ReceberpelaprimeiravezumexemplardoAvante!significavatambémumdos meios da iniciação, de entrada para as fileiras do partido, ou melhor, para uma comunidade conspirativa e clandestina. Para José Pacheco Pereira, que estudou os mecanismosderecrutamentodoPCP,“recrutarnãoerasomenteperigosoparaquem erarecrutado,era-oigualmenteparaorecrutador.(...)Porisso,adecisãoderecrutar circulavaverticalmentenahierarquiadopartido,porrazõesdeconfiançapolíticaede segurança,e era semprecontrolada de cima”22.Arepressão da políciapolítica,que usavaoincentivoàdelaçãocomoarmaparainstalaremanterumasociedadeomais possível acobardada pelo medo, tornava heroica a resistência. “Entrar no PCP, principalmente nas décadas de 40 e 50, era entrar para um mundo de referências afectivas,culturaisepolíticasqueconstituíamumacontrassociedade,incrustadanum paísque,deummodogeral,desconheciaouignorava.”23 Passar a porta para esse mundo de contra-sociedade implicava o acesso à imprensaclandestina,cujaleituraconstituíaumsinaldistintivodequemtinhapassado de simpatizante a militante.“A partir da fase de simpatizante, com a recepção do Avante! (ainda que eventualmente não saiba ler) e a contribuição com fundos destinadosàmanutençãodoaparelhoclandestinoeaoauxílioaospresospolíticose suasfamílias,oenquadramentocomomilitantepoderiaocorrer.(...)ArecepçãodeO Militante,conjuntamentecomoAvante!eoCamponêsdavacontadessamudançade estatuto:orecrutadoacedia,peloritodeentrada,ainformaçãoacrescida,epenetrava numdomínioaque,naanteriorcondição,nãoconseguiriaaceder.Nosinterrogatórios após a prisão, a polícia política estava particularmente atenta a estas leituras, indiciadorasdemaioroumenorenvolvimento.”24 2.2“NuncainutilizesoAvante!” 22Pereira,p.88. 23Pereira,p.89 24Godinho,p.193.
16 A preservação do Avante! como património da casa comum da resistência à ditadura é permanente e insistentemente realçada nas páginas do jornal. Na 2ª quinzenadeJulhode1942,apreocupaçãoésublinhadanosseguintestermos: “Leitor. Nunca inutilizes o Avante! porque a sua publicação custa uma imensidadedesacrifícios”.(...)Éoporta-vozdosanti-fascistaseoprimidos dePortugal,porissodeveserlidoportodoseles”. A “imensidade de sacrifícios” é bem caracterizada pelo historiador João Madeira, ao relatar as condições em que era redigido e impresso o Avante! clandestino. “O sistema utilizado na impressão do órgão central do PCP fora implementadoem1933porJosédeSousaeporBentoGonçalves.Opreloeascaixas com as letras em chumbo para a composição constituíam a oficina de impressão e cabiam perfeitamente dentro duma casa comum. As pequenas dimensões do prelo adaptavam-sejustamenteaespaçosrelativamentelimitados.Eracolocadasobreuma mesa sólida, cujos pés dispunham de calços de borracha, necessitando apenas de espaçosuficienteparaque,deumlado,secolocasseopapele,dooutro,atinta.Com recurso às letras de chumbo num tabuleiro ou rama montado, nivelado e apertado entrecalhas,formandoumquadrosobreabasedoprelo,compunha-semanualmente, letraaletraelinhaalinha,apáginaaimprimir.Atintaeraaplicadasobreoquadro porintermédiodeumpequenorolo.Opapeleraentãocolocado,folhaafolhaporcima fazendofinalmentecorrerentreduasguiasum rolo de ferro, relativamentepesado, com duas pegas e revestido a borracha, cuja pressão sobre o papel permitia a impressão.”25 Ascondiçõesdeproduçãodojornalinerentesàclandestinidade,comrepressão policial por meio de assaltos a tipografias, são ingredientes para “personificar” o próprioAvante!,exaltadocomoumheróidopartido,nasprópriaspáginas.Aediçãonº 300,emaiode1961,éexemplardessacriaçãoheroicadoórgãocentraldopartidoe dequemoproduz.Sobotítulo“OAvante!aoserviçodalutapopular”,lê-se: “OAvante!temconseguidovencersemprearepressãoferozqueogoverno deSalazarlhemove;mesmodepoisdosassaltosàstipografiasdoAvante!, 25JoãoManuelMartinsMadeira.,p.265
17 em 1945 e em 1949, o fascismo não conseguiu calar a sua voz, pois, passado um mês, o Avante! reaparece nas fábricas, campos, escolas e ruas”. Numoutrotítulo(“DoisobreirosdoAvante!”)deauto-comemoraçãodos300 númerosdaVIsérie,oAvante!glorificaosmártiresquecaíramemsuadefesa,“dois camaradasqueridos(...)cujoexemplodehonestidade,delealdadeedecoragemserá sempreactual.SãoelesJoséMoreira,que,“presoemJaneirode1950,preferiudara vida nas mãos dos carrascos da PIDE do que denunciar a tipografia do Avante!”, e MariaMachado,que,“presanumatipografiadeAvante!enfrentoucorajosamentea PIDEeaGNRqueacercavamefalouaopovoquepresenciavaasuaprisão,sobreo Avante!ealutadoPartido”. Num relato na primeira pessoa, Domingos Abrantes fala da proliferação de tipografias, o que permitiu manter a edição do jornal, apesar da repressão policial: ”Nosanos30,sóhaviaumatipografia,masdepoisinstalámosumarede,quepermitiu que a publicação não voltasse a ser interrompida. Numa determinada fase, só na margem sul, tínhamos três, para o Avante! e para todo o resto de material. Essa descentralizaçãopermitiatambémfacilitaradistribuiçãoeofornecimentodepapel, aliás,repara-sequeemdeterminadasediçõesopapelnãoeratodoigual.Alémdisso, sóosmembrosdosecretariadoéquesabiamalocalizaçãodetodasastipografias,por isso,sealguémfosseapanhadopelapolícianumadastipografias,nãopodiarevelar ondeestavamasoutrasporquenãosabia”. JáMargaridaTengarrinharecordaque,quandovoltouatrabalharnaredação doAvante!,noPorto,jánofinaldosanos60,eraprecisoduplicarotrabalhoparaque ojornalfosseimpressoemduastipografiasemsimultâneo.“Poressaaltura,eporque erapontodehonradadireçãodopartidoqueoAvante!nãopodiaparar,passoua haver duas tipografias uma Lisboa e outra no Porto para o caso de uma ser desmanteladapelaPIDE.Eraeuquemlevavaostextoseasmaquetes(duasmaquetes exatamenteiguaisqueeufazia)àstipografias.Faziam-setrêscópiasdecadatexto, umaficavanaredação,paracontroloeparaserarquivado,easoutrasduasseguiam paracadaumadastipografias”. 2.3“Indestrutível”
18 OengrandecimentodosexemplosdeJoséMoreiraeMariaMachadotemainda maior expressão na primeira quinzena de Agosto de 1961, que assinala o 30º aniversáriodoAvante!,classificadocomo“indestrutível”eo“únicojornallivreeoguia do povo português”, num texto ilustrado com gravuras das fotos dos dois militantes/heróis.Numaediçãoemqueépublicadanaprimeirapáginaumagravura querepresentaumatipografiaclandestina,estáescrito: “O nosso jornal é o resultado da vontade heroica de milhares de comunistasetrabalhadoresquenelecolaboram,queoimprimem,queo distribuemdefábricaemfábrica,dealdeiaemaldeia,portodoopaís,que recolhemdinheiroparaosustentar.OAvante!éavozardentedaclasse operáriaportuguesaeporissoeleéindestrutível”. Já nos anos 60, o Avante!, ao celebrar 34 anos, volta a classificar-se como “invencíveljornaldostrabalhadores”eainda,sempre,oaviso: “Estejornalrepresentamuitosesforçoseperigos.Nãoodestruas!Passa-o aumapessoadatuaconfiançaoularga-oondepossaserapanhadopor algumtrabalhador”.Porque,comoestáimpressononº358,deAgostode 1965,“oqueaImprensaamordaçadapelacensuranãodizencontraopovo noAvante!”. Ao ser um símbolo invencível da pertença a uma comunidade, o Avante! clandestinovalecomoumobjectoderesistênciaenãoapenaspeloconteúdodosseus textos, doutrinários ou informativos. Numa sociedade com uma elevada taxa de analfabetismo (na década de 50, de 50% nas mulheres e de 30% nos homens26), a leituradoAvante!eraprivilégiodealguns,emparticularnosmeiosrurais,ondemuitos ouviamepoucosliamoqueestavaescritonaspáginasdojornal. “Osecretismodapassagemdostextos,queabrangiamesmoosiletrados,bem comoaassociaçãodaadesãoaumideáriocomasolidariedadeemrelaçãoàqueles queestavamasofrernacadeia,calavafundonorecrutamento:“Umhomenzitoque andavaaí,andávamosemVerdugosatirarcortiça;ohomemaparecia-melácomos 26SegundodadosdoINE(InstitutoNacionaldeEstatística)consultadosemwww.ine.pt
19 Avante!’spequeninos.Eunãosabialer.Eletambémnãotinhaandadoàescola,mas depoiscomeçou-meadizer:«Ehpá,tunãotensdisto?Elescáaparecem,tunãotens precisãodesaberqueméqueostraz.Todosos15diasvemeagentedá5escudos paraajudadospresosqueestãonascadeias,paraotabaco,paraaalimentação».Eu disselogo:«Quero,pois,quero».(JoãoPedroMarrafa)”27.NatesedePaulaGodinho sobrearesistênciacomunista,noCouço,jáaquicitada,JoãoPedroMarrafaéumdos militantescomunistasentrevistados,quedáoseutestemunhodastarefasquotidianas damilitânciaclandestina. 3.Obrigaçõesediretivas 3.1Esforçoesacrifício As dificuldades e o sacrifício de produzir quinzenalmente o Avante! são tambémdeordemmonetáriaeissomesmoérealçadocominsistêncianaspáginasdo jornal.Oleitorévistonãoapenascomoleitormascomopartedacomunidade,paraa qualéchamadoacontribuiremtodosossentidos,nosplanosideológico,disciplinare material. Logoa partir donº2, de Setembrode 1942, aVIsérie do Avante!começaa publicação regular de apelos ao apoio material à Imprensa do Partido, que se estenderia ao próprio partido. Frases como “o Partido só poderá viver mediante o auxílio constante de todos os trabalhadores” passam a ser publicadas regularmente em paralelo com diretivas concretas sobre a forma como devem ser angariados e canalizados,comapelosàcriaçãode“gruposdeauxílioaopartido”.Maisumavez,é estimulado o conceito de pertença, mais do que a um grupo territorialmente delimitado,aumuniversosemfronteirasfísicas,mascomumaidentidadeforjadana resistênciaàditadura.Quemcontribuivêoseuesforçoagradecidopublicamente.Sob o título “Quantias recebidas dos amigos do partido”, o Avante! passa a publicar regularmentelistascomosnomescodificados(individuaisoudegruposconstituídos paraoefeito)dequemcontribuiecomquanto. 27Godinho,p.187.
26 amadopelasmassastrabalhadorasepelopovoemgeral,porqueeleéo seuguia,porqueeleéasuaprópriavoz.(...) Numregistoquevoltaaresvalarparaaliteratura,aediçãonº121,deAgostode 1948,quandoseassinalamosseteanosdepublicaçãocontínuadoAvante!,oexemplo voltaaserusadoparaexaltaroórgãocentraldopartido,notextointitulado,“QUEM VIVEESENTECONSEGUE”: “Umcasaldevelhinhos.Ele,com80anos,vêmal.Acompanheira,com70 anos, copia à mão o Avante! Para o companheiro poder ler. Mas como tambémjánãovêmuitobem,pedeaumcamaradaquelheexpliquecertas passagensdosartigos,paraelapoderfazeracópia.Semcomentários.” SenaspáginasdojornalaexaltaçãodaimportânciadoAvante!éfrequente, sobdiversasformas,naliteraturaestevetambémpresente,nomeadamentenaobra de Soeiro Pereira Gomes, como ilustra a passagem conto “Refúgio Perdido”31de Novembrode1948)dedicado“AocamaradaJoão(pseudónimodeDiasLourenço)que inspirouesteconto”:“Jáosuorlheescorriapelasfaces;ossapatosapertavam-lheos pés,comotenazes;eumadoragudafixara-se-lhenosquadris:mascerravaosdentes, numadeterminaçãodetodooseuser.‘Nãolargareiamala!Hei-deentregarosjornais queoscompanheirosmeconfiaram!’”(...)“Aconchegouaopescoçoagoladocasaco;a malaserviu-lhedetravesseiro.‘Ora,quelheimportavaafome?Entregariaosjornais nahorado recurso;levava aofimasuatarefa. Eum dia...umacertamanhãdesol radioso...sim,desol...Ah!” Além de correspondente e colaborador, o leitor do Avante! tem também a responsabilidade de divulgar, não apenas o objecto jornal, mas o seu conteúdo, a mensagemcomunista.NasegundaquinzenadeJaneirode1944,estábemexplicitaa intençãodoAvante!depromoveraagitaçãodemassas: “Camarada: Este Avante! que te foi parar às mãos é precioso. Não o destruas. Fá-lo chegar pelo processo melhor a outro trabalhador honesto ou manda-lhepelocorreio.Oteudeveréfazerestudoparaajudaresamissãodo 31SoeiroPereiraGomes,ContosVermelhosEOutrosEscritos(EdiçõesAvante!,1979).
27 nossoAvante!queéoúnicojornallivreeoguiadopovoportuguêsnasualuta pelo Pão, pela Liberdade e pela Independência. Camarada: O Avante! não é paralerumasóvez.Procurafixarosseusensinamentosefaladelesaosteus amigos e conhecidos, embora sem dizer onde os foste encontrar. Procura, assim,tornar-teumintermediárioactivoentreoAvante!easmassas,entreo Avante!EoPovo.Nãopoderástu,noteusectordotrabalhoounatuaterra, levarasmassasamovimentosdereivindicação?” 5.Críticasecorreções 5.1”Desleixo” Aofalardiretamentecomosleitores,oAvante!torna-setambémumveículo deadvertênciaedecríticaaosmilitantes.Apardeumacampanhaparaaperiocidade dapublicaçãopassardemensalparaquinzenal,aquecorrespondeumaumentodo preçodecapa,bemcomoalteraçõesgráficasnosentidodareduçãodocabeçalho,o que permite uma valorização do espaço útil no corpo do jornal para notícias, é publicada,naediçãodeAbrilde1942,umaresoluçãodadireçãodopartidocriticando “odesleixodosencarregadosdadifusão”doAvante!. Posteriormente, as críticas passaram a ser mais políticas e integraram-se na reorientaçãodorumodopartido.Falamosdoiniciodosanos60,quandoCunhal,já depois da fuga do forte de Peniche, se torna formalmente secretário-geral e empreendealutacontra“odesviodedireita”,afastandoosdirigentese“corrigindo”a linhapolíticaprotagonizadaporJúlioFogaça,baseadanateoriada“transiçãopacífica”. LogonoiníciodainvestidadeCunhal,oAvante!foiprotagonista,aotersidoalvode ataque por não ter noticiado com o devido destaque a aparatosa fuga de Peniche. ComorelataJoséPachecoPereira,aediçãodatadadeDezembro1959noticiavaafuga de3deJaneironaprimeirapáginacomotítulo“Trezepresospolíticosreconquistama liberdade”,semdestacaraimportânciadessespresosnoaparelhodopartido.Aedição foi suspensa e acabaria por sair uma outra já datada de janeiro de 1960, na qual, citandoumcomunicadodoSecretariadodeComitéCentral,seindividualiza,emtítulo,
28 o nome de cada um dos treze fugitivos32. Esse número, do Avante!, datado de dezembro de 1959, não existe digitalizado na página electrónica do PCP, onde está disponívelacoleçãocompletadoAvante!clandestino. 5.2Autocrítica AcorreçãodalinhaeditorialdoAvante!acompanhouocaminhopercorridona orientaçãodopartido.Masnotava-sealgumaresistênciaaosnovostempos.Sinaldisso estánaediçãodeJulhode1961,comapublicaçãonaprimeirapáginadeumanotada ComissãoPolíticasobreasopçõeseditoraisexpressasnojornal:“AComissãoPolítica doComité CentralVerificaque oAvante!não temtraduzidocom suficienterigoras decisõesdosórgãoscentraisdoPartido(...)”. A crítica incidia sobre a forma como haviam sido noticiadas as duas últimas reuniõesdoCC,deDezembrode1960eMarçode1961,nasquaisforacontestadaa tendência interna reputada de “anarco-liberal” e lançada a estratégia do “levantamentonacional”comvistaaoderrubedofascismo.Anotaconclui: “Estas e outras deficiências do Avante! resultam em certa medida da desatenção de camaradas do corpo redactorial pelas directrizes e recomendações do próprio Comité Central, da Comissão Política e do Secretariado.ParaqueoAvante!possacumprirasuamissãoénecessário que seja assegurada a direcção política do Avante! de forma a que corresponde às directrizes do CC, da sua Comissão Política e do seu Secretariado.Oestímuloaumamaioriniciativadocorporedactorialdeve ser acompanhado de uma maior centralização da direcção política. Para assegurarqueissoseja feito,aComissãoPolíticaeoSecretariado doCC tomaráasnecessáriasmedidaspraticasdeorganizaçãoedequadros”. Jáem1964,oAvante!voltaapublicarcríticasaosseustextos.Sobotítulo“Um errodeorientação”,épublicadonaediçãoespecialsobreo1ºdeMaio,umtextono 32JoséPachecoPereira,ÁlvaroCunhal,UmaBiografiaPolítica,OSecretário-Geral(1960-1968)(Temase Debates/CirculodeLeitores,2015)pp30-33.
29 qualseassumeteremsidocometidos“algunserrosdeorientaçãoesquerdistas”,que tiveram “expressão mais saliente nalguns documentos publicados, manifestos e tarjetas”.Otexto,quesereportaaousodeexplosivosnasmanifestações do1ºde Maio,terminacomaauto-críticadojornal:”Estedesvioapareceumesmoreflectidono Avante!,noartigodeMarçosobreo1ºdeMaio”. Oepisódiorevelaaexistênciadadiscussãointernasobreaopçãodaviolência como auto-defesa perante as cargas policiais. Citando o nº127 da III série d’ O Militante,noqualseescreveque,“nafaseactualdaRevolução,asmanifestaçõesde massas continuarão a caracterizar-se como manifestações essencialmente pacíficas, tirando daí toda sua força face ao regime salazarista”, João Madeira interpreta a autocrítica incluída nas páginas do Avante! como uma tentativa dos dirigentes do partidode“reporaquestãodaviolêncianoseudevidolugar”. Mas,emMaiode1965,ojornalvoltaaserobrigadoapublicarumtexto,desta vezmuitocríticoaoseuprópriotrabalho: “O Avante desde há muito não corresponde à responsabilidade do seu papel. O Avante não traduz com correcção a linha política e táctica do Partido, acusa frequentes vacilações políticas e desvios dessa linha, não abordamuitosdosmaisimportantesproblemaspolíticosnacionais,faltalhecontinuidadedumpensamentopolítico,deixaescaparounãodestaca muitosacontecimentosdamaiorimportância,nãovalorizadevidamenteas lutasdemassas,nãoasintegranaperspectivarevolucionárianemtiraas suas experiências fundamentais. Esta constatação feita em Janeiro de 1965, na reunião do Comité Central, no seguimento de outras feitas nas anterioresreuniõesdoCC,levamoComitéCentraladeclararserurgente fazerumarectificaçãoque,apesarealgunspassossignificativosjádados, estálongedeseralcançada.(...)”. AcríticasurgenasequênciadapreparaçãodoVICongresso,queserealizaria emSetembronaUniãoSoviética,queaprovao“RumoàVitória”,orelatóriodeÁlvaro Cunhal, no qual se aprofunda e consolida a estratégia de combate ao “desvio de direita”.
30 Com os exemplos acima citados, fica claro que o órgão oficial do PCP está obrigado à sua autocrítica, à semelhança do que é exigido aos militantes. Afinal, o Avante!vê-seasiprópriocomomembrodeumcolectivo,queédopartido. Da análise da forma como olha para a sua função no quadro da militância antifascista e como fala de si próprio e das condições em que é produzido, pode sintetizar-se, como já foi referido anteriormente, que o Avante! se identifica e se assumecomoumcorpovivo,quasehumanizado,fazendoparteintegrantedessatal comunidade imaginada e sendo, simultaneamente, o elemento aglutinador que transmiteaideiadepertençaaogrupoetornapossívelaprópriacomunidade.
31 PARTEII—Ajustesdecontas 1.AreorganizaçãoeosdoisAvante! 1.1Críticaaos“confucionistas” OAvante!estánocernedagrandemudançaorganizativadaestruturadoPCP, comachamadareorganizaçãode1941,queseriaabasedopartidoqueviriaatornarsehegemóniconoconjuntodosmovimentosderesistênciaedeoposiçãoàditadura. O órgão oficial do partido passa a ter publicação regular e é, como veremos neste capítulo,simultaneamente,uminstrumentoestratégicodeconsolidaçãodanovafase davidadopartidoeumapeçaessencialnasdepuraçõesideológicasqueirãosendo executadasatéaofinaldaditadura,em1974.Aolongodesses33anos,sãováriose diversamentedirecionadososajustesdecontas,internoseexternos,identificadosnos textosanalisados. Comareorganização,comoDawnLindaRabyacentua,amudançanopartidoé profundaeevidenciaapreocupaçãoemcriarumaverdadeiraredeclandestina:“Nos anos30ascélulasdoPartidoeramfrequentementeorganizadasporruasoubairrose as reuniões realizavam-se igualmente em ruas ou praças; a partir de 1941 constituíram-se células de fábrica ou de empresa as reuniões eram limitadas ao mínimo, preferindo-se os contactos individuais, que despertavam menos suspeitas. Generalizou-seousodepseudónimoseosmembrosdascélulasnãopodiamsabero verdadeiros nome, profissão ou morada do seu 'controleiro'. Os novos contactos faziam-sesempreatravésdesanto-e-senhaeafaltadequalquercontactoprevistoera imediatamente comunicada às hierarquias partidárias. A maioria dos documentos eramemcódigoeosficheiros,comexcepçãodoComitéCentral,reduzidosomínimo; aos funcionários era expressamente proibido frequentar cinemas, restaurante ou outroslocaisdediversãoemuitasvezesviviamemcondiçõesdegrandeisolamento, exceptonosmomentosemqueseencontravamenvolvidosemaçõesdemassas”.33 33Dawn Linda Raby, A Resistência Antifascista Em Portugal: Comunistas, Democratas E Militares Em OposiçãoaSalazar,1941-1974(Salamandra,1990),p.60.
32 Anovaestruturaviriaadarfrutosrapidamenteequatroanosdepoisopartido erajáumaforçaincontornávelnaOposição.“Porvoltade1945,oPCPsurgiacomo uma autêntica alternativa revolucionária, dominando o movimento de massas e constituindoumasériaameaçaàsobrevivênciadofascismo:gozavaderespeitoentre largoscírculosintelectuaisedasclassesmédias,sendoaomesmotempoclaramente dominante no movimento operário. Conservou a sua hegemonia até à revolução de Abrilde1974,muitoemborativessepassadoporváriascrisesorgânicasem1949-51, 1958-60e1962-65,easuaposiçãocomolíderdoprocessorevolucionáriotivessesido postaemcausasobretudoapartirde1958.”34 Houve, no entanto, resistência à mudança e a consequente luta pela hegemoniaporpartedosnovosdirigentes.Nosprimeirosanosdapublicaçãoregular doAvante!,osefeitosdareorganizaçãoestãobempatentesnaspáginasdojornal,com ogrupovitoriosoacriticaro“grupelho”emviasdeservencido. É,assim,numclimadeajustedecontasqueélançadaaVIsériedoAvante!,em Agostode1941.Logonoprimeironúmero,épublicadoumcomunicadodoComité Centralapôrospontosnosiis: “Prevenção.AoteremconhecimentosdasaídadoAvante!,umgrupelhode intelectuais corrompidos que foram escorraçados da direcção do P. por seremosprincipaisresponsáveisdodescalabroaquetinhachegadoantes da sua reorganização, resolveram enveredar pela provocação aberta e clara fazendo sair alguns dias antes do órgão central do nosso Partido, umasfolhascopiografadasaquederamotítulode‘Avante!’Quantomais nãofosse,bastavaestaatitudeparaosdenunciarperanteostrabalhadores portugueses como elementos confucionistas e saboteadores do trabalho partidário. Por saberem que ‘Em Frente’ já não merecia a confiança dos trabalhadores,equeo Avante! era ansiosamente esperado por todos os anti-fascistas, este grupelho de provocadores resolveu estabelecer a confusão no meio revolucionário para assim mais facilmente ‘pescar nas águasturvas’.(...)AindanãonoschegouàsmãosessefalsoAvantemas 34Raby,p.51.
33 consta-nos que nele se fazem afirmações destituídas de todo e qualquer fundamento.Porexemplo:diz-sequeosactuaisdirigentesdoPartidonão foramaceitespelopseudopartidodosprovocadores.ÉABSOLUTAMENTE FALSO!OS ACTUAIS DIRIGENTES E REORGANIZADORES DO P. NUNCA QUISERAMNADACOMESSESELEMENTOS!SÓLHEFIZERAMSABERQUEOS CONSIDERAVAM AFASTADOS DO P. E QUE OS TORNAVAM INDIVIDULAMENTE RESPONSÁVEIS POR TODA E QUALQUER ACTIVIDADE PROVOCATÓRIA DENTRO DO PARTIDO. Tiveram a ousadia de invocar o nomededoisdosmaisprestigiososelementosdoPartido,BentoGonçalves eJosédeSousa,paraseinculcaremcomomerecedoresdaconfiançadestes elementos, que, estando presos, não podem publicamente denuncia-los como provocadores e marcar-lhes o correctivo merecido. No próximo número do Avante! desmascararemos mais detalhadamente a acção provocatóriadesteselementoseassuasligaçõescomagentesaoserviço dapolícia.Poragoraqueremossomentepreveniraclasseoperáriaetodos os revolucionários conscientes , contra os manejos confucionistas deste grupelho, e dos perigos que poderão trazer para a liberdade dos que o seguirem.” Éreconhecidocomoessencialparaaafirmaçãodosreorganizadoresdopartido aseparaçãodaságuasparalimitarosdanosnamilitânciacomunistadosdoisAvante!. Comoselênonº2,deSetembrode1941: “Do confuncionismo à provocação clara. (...)Um grupelho de pseudointelectuaisescorraçadosdaorganização,pretendefazer-sepassarpeloP. e publica umas folhas copiografadas a que deu o título do nosso órgão central”. ComoenquadraohistoriadorJoãoMadeira,“entre1941e1945,aexistênciade doisPartidosComunistasemPortugal,fazcomqueumdeles,oqueserepresentavaa continuidadeorganizativa,masqueviriaaserdesignadode“grupelhoprovocatório” pelo grupo dos reorganizadores, editasse duas novas séries com um total de 20
34 números.”35 É ainda Madeira quem cita António Dias Lourenço, para contar que “os reorganizadores sabiam que os do velho partido ‘tinham escondido a aparelhagem técnica numa casa e o partido organizou o assalto a essa casa e levou-se a aparelhagem toda. Levou-se os tipos e os prelos, num táxi do Pires Jorge’. O que permitiria assegurar a partir de Agosto de 1941 a publicação de uma VI série do Avante!”36. TambémohistoriadorJoséPachecoPereirasublinhaautilizaçãodotítulocomo armadeambososladosdacontendainternanopartido,aolembrarque“aretomada dapublicaçãopelaDirecçãodoAvante!emAgostode1941formalizouadivisão.Os ‘reorganizadores’ tinham usado a questão do jornal do partido como instrumentos paraisolar(Vascode)Carvalho,associando-ocomoEmFrente!.OAvante!,duramente atingidopelasquedasdastipografiasde1938-39,nãosepublicavajáhámaisdeum ano,eoseusubstitutoEmFrente!nuncaseimplantounoimagináriocomunista,pelo carácter precário da sua redacção e periocidade irregular. Os ‘reorganizadores’ tomavamoabandonodotítuloAvante!comoumsintomademissionáriodaDirecção. (...)ADirecção,conscientedequeojornalerafontedecontrovérsiaesabendopelo anúnciodoMilitantequeos‘reorganizadores’sepreparavamparaeditaroAvante!, resolveantecipar-seepublicardenovoumjornalcomessetítulo.Assim,em1941,são publicadosdoisAvante!distintoseumórgãoteóricodos‘reorganizadores’comonome de Militante. A decisão de publicar ou republicar o Avante! não teve outro motivo próximo que não fosse o combate pela legitimidade partidária. Não havia inclusivamente,porpartedaDirecçãoumadecisãodeterminaroemFrente!edofazer substituirpeloAvante!”. Entre as críticas ao abandono do título Avante!, houve um assunto nunca abordadonanovasérie,quefoiocomprometimentodeÁlvaroCunhalnolançamento do“EmFrente”.OtemaétratadopeloshistoriadoresFernandoRosas,JoãoMadeira eJoséPachecoPereira,aosalientaremaadesãotardiadeCunhalàlinhavencedora 35JoãoManuelMartinsMadeira.,p.664. 36Madeira,p.665.
35 que,naprática,irialiderar.Rosassustentaque“Cunhaléinicialmentemarginalizado nesteprocesso(atépelasligaçõesquetiveraàdirecçãosobataque)eéchamadoao Secretariado do PCP em 1942, altura em que Fogaça volta a ser preso e é preciso encontraraalguémcomarcaboiçointelectualeteóricoparaosubstituirnastarefasde direcção ideológica que desempenhava”. Essa chegada extemporânea não invalida, comoacentuaRosas,queCunhalsetorne“rapidamenteoindiscutíveldirigentefáctico doPCP”37. Numaprimeira fase,como refere Madeira,Cunhal, ao aderirsó em 1941ao “novopartido”,terágerado“algumadesconfiançaemrelaçãoasi,dapartedosque saíamdasprisões,poisCunhalpertenceraaumdosúltimossecretariadosdopartidoe foraumdosmentoreseprincipaisredactoresdoEmFrente!.”38 JáPachecoPereiraaprofundaaligaçãodeCunhalàdireçãodoantigopartidoe aonovojornaleescreverqueumadasprimeirasdecisõesdoSecretariadodoPCP”foi asubstituiçãoprovisóriadoAvante!porumnovojornal,oEmFrente!.Foiemgrande parte por iniciativa de sugestão de Álvaro Cunhal que este foi fundado. Cunhal entendiaque,nãohavendocondiçõesparamontarumatipografia‘digna’paratiraro Avante!,oórgãodopartidodeveriateroutronome.Havia,aliás,umprecedenteno ano anterior, quando as dificuldades de fazer sair o Avante! levaram à edição do NotíciasVermelhas.”39 EstacitaçãodePachecoPereirarevela,nãosóoenvolvimentodeCunhalna publicaçãoquesubstituiuoAvante!,mas,acimadetudo,aconsciênciadodirigenteda importânciadotítulo,quedeveriamanter-sesemamáculadasdivisõesinternasedas fragilidadesorganizativaspelasquaisopartidopassava.Maisdoqueumórgãocentral dopartido,oAvante!carregaumacargasimbólica,queviriaareforçar-seaolongode todooperíododaclandestinidade. Com a consolidação da linha da reorganização é reforçada a consciência da 37JoséNeves(coord.),ÁlvaroCunhal-Política,HistóriaEEstética(TintadaChina),p.45. 38JoãoManuelMartinsMadeira,p.89. 39JoséPachecoPereira,ÁlvaroCunhal,UmaBiografiaPolítica,«Daniel»,OJovemRevolucionário(19131941)(CírculodosLeitores,1999),p.435.
42 tomem uma atitude de passividade em relação à luta contra o fascismo (...)” Na 2ª quinzena de Fevereiro de 1945, sob o mesmo título, “Polícias e provocadores”, são denunciados agentes e informadores da PIDE, a par de antigos militantes: “Mário,barbeiro,forte,deóculos.Temduasbarbearias,umadasquaisna RochadeCondedeÓbidos,nº102.Éumexploradordosseusempregados, despedindoosmeios-oficiaisquandoteriaqueossubirdecategoria.Este indivíduodizaosoperáriosdosEstaleirosquenãodevemfazergreves,que estassóservemparafazeradesgraçadostrabalhadoreseincita-oscontra ‘aquelesquequeremrevolucionaropessoaldaempresa’.Esteprovocador temíntimasligaçõescomomédicoVelezGrilo,doGrupelhoProvocatório”. Outrodosalvosdos‘reorganizadores’foiJosédeSousa,antigodirigente,que, preso no Tarrafal entrou em rota de divergência com Bento Gonçalves, também encarceradonocampo.Sousa,queviriaaresistirà“reorganização”,aoladodeVelez Grilo, acabaria por ser expulso do partido em 1942, tendo sido a crítica ao pacto germano-soviético a causa próxima para o seu afastamento. João Madeira, cita a circular do Secretariado do PCP, de Novembro de 1942, na qual é comunicada a expulsão com o argumento de que José de Sousa, “fora do Partido, acusou os dirigentes soviéticos de traição à classe operária por conduzirem uma política fascista”45. Quatroanosmaistarde,JosédeSousaadereaoPartidoSocialistaPortuguês,e oAvante!,na2ªquinzenadeAbrilde1946,aproveitaaocasiãoparalançarcríticas públicasaoex-militantecomunista: “Chegaaonossoconhecimentoqueosr.JosédeSousa,queháumanosfoi dadirecçãodonossoPartido,acabadepedirasuaadmissãoaoPartido Socialista Português. (...) O sr. J.S. foi expulso do Partido Comunista Portuguêsem1942,quandoseencontravanoCampodoTarrafal,poeaí 45Madeira,p.123.
43 levaracaboumalutadesagregadoraedivisionistaeterformadoumgrupo dissidentecontraoPartido”. O texto termina com uma frase irónica: “Aos nossos amigos socialistas, (...), desejamosqueconquistemumcompanheirofiel”. O mês de Agosto de 1947 é o momento escolhido para o Avante! voltar a criticaro“grupelho”.Fá-losobotítulo,“Agostode41-Agostode47”,celebrandoa entradanosétimoanodepublicaçãoregulardojornal. (...)“6anospassaramsobreareorganização,aomesmotempoquevemos ocaminhoandandopelonossopartidoepeloseujornal,interessatambém vero caminhoandado por aquelesque, enquantono partido, foramuns sabotadores e comodistas, que em 1940-41 tanto se opuseram à reorganizaçãoeque,depois,nãosecansaramdecaluniarparajustificarem a sua expulsão das fileiras do partido. Que é feito desses escorraçados? José de Sousa, Grilo, Vasco de Carvalho, Ariosto Mesquita, Cansado Gonçalves, etc, agindo sob a proteção da PIDE e aligados a agentes do imperialismo estrangeiro na formação de uma ‘Partido Socialista legal’ (ondeinfelizmenteseencontramalgunsanti-fascistashonradoseiludidos) que outra coisa não é senão a oposição inofensiva que o Governo de Salazarseesforçaporcriar,comopassoparaadivisãodosdemocratase aniquilamentoviolentodetodaaoposição.Hoje,comohá6anos,háque continuar a dar combate aos derrotistas e divisionistas, agentes do fascismonocampoanti-fascista”. Embora já tivesse sido referenciado na edição de Abril-Maio de 1954, num textocentradoemFernandoPiteiraSantos46,jáexpulsodopartidonasequênciada 46“Adepuraçãoocorridaem1950-1951abrangianãosóaquelesquetinhamsidoacusadosdetraição, como Manuel Domingues, mas também vários intelectuais que se dizia terem manifestado tendências“sociais-democratas”ou“titistas”.EnteestesestavamincluídosMárioSoareseFernando PiteiraSantos.(…)ocasodePiteiraSantosémaisinteressante.ColegadeestudodeÁlvaroCunhal, entrouparaoPCPnoprincipiodadécadade40eem1943passouafazerpartedoComitéCentral. Entreoutrasfunçõesfoiencarregadodaorganizaçãodopartidonosmeiosmilitares(juntamentecom JoséMagro).(...)quandofoipresoemJulhode1945,PiteiraSantosteráaparentementefornecido abundantes informações à PIDE. Em todo o caso já tinha sido demitido do CC por indisciplina , embora se tivesse mantido no partido até 1950, ano em que foi expulso por novos actos de indisciplinanãoespecificados(...)”Raby,p.129.
44 depuração dos anos 1950-51, “o provocador Dário Bastos” volta a ser alvo de um “Alerta”,comomembrodo“grupelho”,emJaneirode1955: “Todos os comunistas, simpatizantes e demais democratas e patriotas devem estar em guarda contra a acção provocadora de Dário Bastos, viajante de artigos de ferragens do Porto. (...) A verdade é que este indivíduo foi escorraçado do Partido Comunista há longos anos como provocador. Em 1940 esteve ligado ao grupelho provocatório do Norte.(...)devemos estar alerta com este provocador escorraçando-o ali ondeeleaparecer”. 1.4Oesquerdismo,oscorvoseasmoscas Com os anos 60, o início da guerra colonial, os movimentos estudantis autónomosdoPCPeoconflitosino-soviético,ascisõessãomarcadamenteideológicas eirãodarorigemaumadivisãoprofundaàEsquerda.Porumlado,ogrupodeArgel, noqualsurgiráoembriãodoPartidoSocialista,fundadoem1973,poroutrolado,a correntedeextrema-esquerdaqueirádesaguaremdiversospartidosemovimentos que se manterão ativos após o fim da ditadura. Internamente, no PCP, essas duas linhassãotambémoquemarcaráoconflitocomoqualadireçãodeCunhaliráterde seconfrontar,àluzdorumodomovimentocomunistainternacional,repartidoentre Moscovo e Pequim. Como sublinha o historiador José Pacheco Pereira, “o PCP foi apanhadopeloconflitosino-soviéticonumamomentocríticodasuahistória:quando, após a fuja de Peniche Álvaro Cunhal, este está a conduzir um processo ”de rectificaçãopolíticacontraadirecçãodeJúlioFogaça.NodebateinternonoPCP,em plenarevisãodalinhado‘desviodedireita’,querepresentavasobmuitosaspectosa linha de Krutchev após o XX Congresso aplicada a Portugal, a substância essa rectificaçãocolocava,emteoria,oPCPeCunhalmaispróximosdasteseschinesasdo quedasoviéticas.Cunhaltinhaassimque,aomesmotempoquecombatiaessalinha emPortugalcomo‘desviodedireita’,aprová-lacomolinhadomovimentocomunista
45 internacional”47. Ou seja, o novo rumo do partido passa por estabelecer uma linha central de combate à direita e à esquerda. Como defende Miguel Cardina “Álvaro Cunhalpreocupou-senãosóemoperarachamada«correcçãododesviodedireita» como em neutralizar os «desvios de esquerda», que propunham acções armadas contraoregime”48.Essealinhamentoaocentroédebatidonoâmbitodapreparação doVCongresso,aolongodaqual,segundoJoãoMadeira,“hánalgumasintervenções comoqueumapreocupaçãocentrista,queserevelarádominante,segundoaqualo desvio dedireita identificado deviaser combatido, mastambém qualquer desviode esquerda que se quisesse instalar no seu lugar, pois o sectarismo continuava vivo dentrodopartido.”49 Nofinaldosanos60,anovaclarificaçãointernanoPCPestáconcluída,como estátambémconsumadaaexpulsãodoprincipalrostodo“esquerdismo”,Francisco Martins Rodrigues, que, curiosamente, tinha contribuído de forma determinante na aniquilaçãodo“desviodedireita”,protagonizadoporJúlioFogaça, Comosíntese,Cardinaescreveque“FranciscoMartinsRodriguesfoiocondutor fundamental dessa demarcação, centrada no papel da violência na transformação social, nos contornos de uma política de alianças para o derrube do regime e no alinhamentocomaChinanoconflitoqueentãoaopunhaàURSS.”50 OcasodeMartinsRodrigueséexemplardoheróiquepassaavilão.Nanotícia da fuga de Peniche, é publicado, na primeira quinzena Janeiro de 1960, um comunicado do Secretariadodo Comité Central,na qual éexaltada “acorageme a abnegação” dos “valorosos combatentes de vanguarda”. Entre eles está Francisco MartinsRodrigues.Naediçãoseguinte,que“rectifica”otomdanotícia,destacando ÁlvaroCunhalnotítulo,“OnossopovosaúdaalibertaçãodeÁlvaroCunhaledosseus companheiros”,sãorelegadosparasegundoplanoosrestantesfugitivos,nãodeixando margemparadúvidassobrequeméoheróimaior. 47JoséPachecoPereira,OUmDividiu-SeEmDois,ed.byAletheia,2008pp.127-128. 48MiguelCardina,‘MargemdeCertaManeira-OMaoísmoEmPortugal:1964-1974’(Universidadede Coimbra,2010)p.48. 49Madeirap.284. 50Cardina,p.6.
46 Maistarde,onomedeFranciscoMartinsRodriguesseria“apagado”ouincluído no grupo dos provocadores. Domingos Abrantes assume que os dissidentes “eram provocadores”eque“algunsdeles,tinhamumaproblemaacrescido,équecomose tinham portado mal na PIDE, arranjavam justificações, em vez de assumirem o seu mau comportamento. A pessoa que está a ser interrogada, falo por experiência própria,nuncaperdeanoçãodeondeestá,podeestarmaiscansado,massabeque estáemfrenteàpolícia.” A opinião manifestada por Domingos Abrantes direciona-se para Martins Rodrigues,queem1966,vítimadatorturadosono,cedeunosinterrogatóriospoliciais. (A questão de ‘falar na policia’ será desenvolvida no capítulo 3 da II parte deste trabalho). “Não me lembro de pensar que estava a trair nem de esboçar qualquer resistência.Respondiaàmedidaqueelemeperguntavaeadormeciacadainstante(...) Nosquatrodiasseguintes,dormi16horaspordia;acordavaparacomer,passeavaum poucopelogabineteevoltavaaadormecer.Estavaestupidificado,nãomelembrode pensarnada, tinha só reacções animais; comer e dormir. Pelo quinto dia comecei a tomarconsciênciadoquefizeraedorompimentototalcomaminhavidaanterior,mas não o sentia como uma acto cometido por minha vontade, mas como uma coisa horrorosaquemeacontecera.”51 EmconcretosobreFranciscoMartinsRodrigues,DominguesAbrantesfalade um homem e militante queconheceu muito bem, que “tinhauma inteligência rara com um grau de cultura acima da média pra a origem dele, uma capacidade de trabalhoexcepcional,mastinhaalgunsdesequilíbriospsíquicos.Ele,aliás,foivítimado seuprópriocaminho,foipresoporquetinhadeitadoamãoaumprovocadore,depois, tornou-se ele próprio um provocador. Foi seduzido pelo maoismo e pela ideia da revoluçãojá.” Adepuração ideológicapassava pelaspáginasdo Avante!,nãosó atravésda publicaçãodetextosqueemanavamdosórgãosdirigentesdopartido,mastambém atravésdecurtoscomentáriosdirigidostantoàdireitacomoàesquerda,decríticaa posiçõesdeoutrasforçaspolíticasdaOposição.Exemplodessaexpressãoeditorialera 51FranciscoMartinsRodrigues,OsAnosDoSilêncio(Dinossauro/AbrenteEditora,2008)pp.72-73.
47 uma coluna intitulada “Pontos Cardeais”, na qual surgiam críticas e comentários a determinadasatitudesetomadasdeposiçãorelacionadascomooPCP.Eratambémo tempo das “acções especiais”, às quais o PCP se tinha ”rendido” após anos de discussãointernaedepoisdejáestaremematividadegruposradicaisqueapelavamà lutaarmada.“Orecursoàlutaarmada,mesmocomamplitudeeformasrestritas,era nosanossessentaumaquestãomuitopolémicanoPCP.”52.AafirmaçãodeRaimundo Narciso, antigo militante comunista e um dos elementos da A.R.A. (Acção RevolucionáriaArmada)fundamentaessedebatenocontextodaguerrafria,noqual Moscovodesaconselhavaoenvolvimentodospartidoscomunistaseuropeusemlutas armadas. Daí que Narciso considere que Cunhal “tratava a matéria de modo cauteloso”e,emboraadecisãodasuacriaçãotenhasidotomadaem1964,aA.R.A. inicia a sua fase operacional em 1970, “controlada politicamente pelo PCP”, mas “autónomadopontoevistaorgânicoetantoquantopossívelestanquedaorganização dopartido,paraevitarqueasprisõesnesteatingissemaquela”.53 Nessecontextoarubrica“PontosCardeais”funcionacomoumbarómetrodo debatesobreasdistintastácticasdelutacontraaditaduraentreasdiversasforçasda Oposição. Na edição de Maio de 1972, pode ler-se um texto, intitulado “Um comentário”,decríticaaoscríticosdeumaaçãodaA.R.A. “A acção da ARA contra o quartel general da Iberland teve importante significado político e grande repercussão internacional.(...) Houve porém quemcomentasseofactodemaneiradiferente.’Osestragosinsignificantes (diz esse comentário) foram imediatamente reparados (...) De quem é o comentário? Da ‘Época fascista, dirão os leitores. Não acertaram. O comentáriofoifeitonumboletimdosgolpistasdeArgel.(...)” Otomusadonestecomentárioédecríticadiretaaosqueapoucaramaaçãoda A.R.A.,masnamesmarubricadessaediçãoépublicadoumtextocujosdestinatários são,tudoindica‘inimigosinternos’,“OsCorvos”: 52Narciso.p.18. 53Narciso,p.19.
48 “Ocorvo é umanimalcobarde. Foge dosvivos e procuraapossar-sedos mortos.Sãomuitososcorvos.Corvosdemilitantesdesaparecidos,quenão podem levantar-se das campas para os castigar! Corvos dos trabalhos e sacrifíciosdaquelesqueodeiam!Éumanimalcobarde,ocorvo.” Aindaem1972,masemJulho,alémdenovacríticaaquemcontestouaARA, neste caso a RPAC (Resistência Popular Anti-Colonial), apelidada de (Rapazes PortuguesesAnti-Comunistas),oalvoéo‘esquerdismo’. “ALógica.Oaventureirismoesquerdistaestámostrandonomundoaoque conduzasualógica,quandopassadoverbalismoàacção.Nunscasos(e são os melhores), atentados terroristas que conduzem os seus autores à rápidaderrotaeliquidaçãofísica.Noutroscasos,ousoderefénseasua execução provocam a condenação e a repulsa das mais amplas massas. Noutrosainda,confundindo-secombanditismoeloucura,execuçõessem sentido,comonorecentecasoregistadonoJapão.Aquelesqueassimagem declararamser‘revolucionários’.Desacreditam,nofimdecontas,acausa porquedizembater-se.EmPortugal,atéagora,oesquerdismopoucovai além de palavras exaltadas e campanhas de calúnias contras as forças revolucionarias. Mas as concepções contêm o gérmen dessas tristes históriasquecorremmundo.Combatemosoverbalismo.E,sealógicalevar umdiasàpráticadeactosterroristas,queapenaspodemservirofascismo, édesaberdeantemãoquetambémoscondenaremos”. AsbateriasverbaisdoAvante!apontamtambémparaosopositoresdedireita, para os que dentro do regime ditatorial defendem uma transição pacífica para a democracia. Na edição de Setembro de 1973, lê-se um ataque à ala liberal do marcelismo. “Por quem? Os liberalizantes vêm do ventre fascista. Seria louvável que, rompendo com o regime, contassem o que lá se passa. Afinal preferem chamara à colaboração maoístas e desagregadores para que deem em público versões caluniosas e pidescas do que se passa... na Oposição. Afinal,senhores,porquemsoisecontraquemsois?”
49 Massemprea condenaçãoà linhamaoísta docomunismoestápresentenas páginas do jornal, com alertas para a profusão de siglas que podem confundir os cidadãos com fraca formação política. Em Novembro de 1973, o seguinte texto é ilustrativodessapreocupação,queviriaaaumentarnosprimeirosanosdademocracia. OPCPdeixavadeseraúnicareferênciadocomunismointernacional: “Siglas.Osgruposcomunistassãocomoasmoscas.Numerosasquandohá lixo,dequesealimentam.Devidatãoefémeraqueumdiacompridode verãochegaparaquenasçamemorrem”.(segueenumeraçãodassiglas porordemalfabética)(...)Felizmenteoalfabetotemletrasbastantespara satisfazeraimaginaçãocriadoradesiglasdosrevolucionáriosdeopereta.” 2.Emtempodeguerra 2.1Os“quinta-colunistas”´ Em plena II Guerra Mundial, nas páginas do Avante! há uma denúncia sistemática dos “inimigos do povo” (designação que, como veremos, é utilizada em todos os casos de dissidência, de delação, de traição e de informadores da polícia) com a publicação em quase todas as edições de uma rubrica intitulada “Quintacolunistas”.Emparalelo,háexposiçãopúblicadoscolaboracionistas.Na2ªquinzena deJaneirode1943,lê-seumapeloconcretoàdenúncia: “É necessário desmascarar todos os quinta-colunistas que produzem paraoEixoeexportamparaoEixo.EnviaiosseusnomesaoAvante!,órgãode combate pela liberdade independência. Envia notícias da actividade dos 5ª colunistas”. Em1944,na2ªquinzenadeJaneiro,surge,sobumtítuloatodaalargurada pág.2:”OAvante!desmascaraOSINIMIGOSDOPOVO”,umtextoquealargaouniverso doepíteto: “Quinta-colunistasqueroubamosgénerosaopovoparaosenviaremaos bandidosfascistasalemães;fascistasqueperseguemossimpatizantescom a causa das Nações Unidas; espiões ao serviço da Alemanha hitleriana; denunciantes dos trabalhadores nas fábricas e empresas; — estes são
50 INIMIGOS DO POVO que o povo deve conhecer. É necessário em toda a partedesmascará-los,dificultarosseusmanejos,tornar-lhesportodosos meiosavidainsuportável.OAvante!continuaecontinuaráadesmascarar peranteasmassaspopularestodososseusinimigos.Osseusnomesdevem serfixadosparaahoradoajustedecontas”. Na1ªquinzenadejunhode1944,emrodapé,lê-se:“Aproximam-seashorasos combates decisivos. Neste momento, todo o alheamento é crime, toda a inércia é cobardia.Todoocompromissocomofascismoétraição”. Nestescasos,nosquaisadenúncianãosereportaaosmilitantescomunistas, massimaoscolaboracionistascomaAlemanhanazi,oAvante!revela-senasuamissão de órgão de informação mais amplo e não apenas de órgão central do PCP, ao desmascarar, também, a política de “neutralidade” de Salazar, expondo os graves problemaseconómicoseinstigandoouapoiandoaçõesderevoltacontraacarênciade génerosalimentares.ComoescreveohistoriadorFernandoRosasparacaracterizaro ambientesocialquesevivenosanosdeguerra:“Ossintomasdedescontentamentoe reacção contra a falta de géneros, o desemprego e os salários baixos nas zonas de predomínio dos assalariados rurais começam a verificar-se desde inícios de 1941, crescendo de intensidade ao longo do ano. O mesmo se poderá dizer quanto aos motins e aos ‘tumultos’ que, no Norte e no centro, se levantam para impedir a requisiçãodegénerosouasapreensõesdeminério”.54 Embora seja impossível aplicar ao Avante! clandestino os parâmetros de mediçãodeaudiênciasquehojesãousados,otipodenotíciasrelacionadascomas guerras,tantoadeEspanhacomoaIIGuerraMundial,transmitemapercepçãodeque ainfluênciadojornalextravasavaouniversodosmilitantes.Naanálisedastiragensda imprensaclandestinadopartido,bemcomodaregularidadedasediçõeséprecisoter emcontaascondiçõesdaorganizaçãoclandestinaemcadamomento.Comoenfatiza João Madeira55, a periocidade quinzenal é um dos sinais, não só de consciência da 54JoséMattoso(Dir.),HistóriadePortugal,7oVolume,OEstadoNovo(1926-1974)(CírculodeLeitores, 1994)p.363. 55JoãoManuelMartinsMadeira,p.675.
51 potencialinfluênciadojornal,mastambémdaconjunturapolíticainternaeexterna. AfunçãodojornalnomomentohistóricodaIIGuerraMundialetambémda Guerra Civil de Espanha é realçada por Domingos Abrantes, quando defende que, devidoàcensurapréviaqueaditaduraimpunhaàimprensa,“háumapartedanossa história que só se encontra no Avante! O tempo da guerra é um período muito importante”. Tal como o do período da guerra de Espanha, quando “houve um processonoPorto,noqualforampresas400etalpessoas,emgrandeparteerasó porqueliamoAvante!eaexplicaçãoeraporquequeriamlernotíciassobreaguerra”. Ascríticasaoscolaboracionistaseadenúnciadaatividadedeaçambarcadores são“ferramentas”queopartidousa,atravésdoseuórgãocentral,paramuniciaros militanteseatodososquetêmacessoaoAvante!paraalutacontraaosquenãoestão doladocertodaguerra. 3.”Seforespreso,camarada” 3.1“NaPolícianãosefala” Num estudo sobre as organizações clandestinas comunistas, José Pacheco Pereira cita Erving Goffman e o seu conceito dos manicómios como “instituições totais” para identificar no partido clandestino “muitos traços” dessa organização, como“ocontroloadministrativosobreosseusmembros”56. Em ambiente de clandestinidade, se o ideal ou a fé do militante tem de permanecerfortepararesistiraosataquesrepressivosdopoderinstituído,nãoserá menosnecessáriaaconsciênciadequesócomasobrevivênciadaestruturapartidária serápossívellutarevencer.ParadigmáticodesteduploconceitoéotextodeÁlvaro Cunhal,nasuaprimeiraversãode1947,“Seforespreso,camarada”,cairásobretiuma granderesponsabilidadededefenderoteuPartido,osteuscamaradas,oteuideal”57. Como um manual de comportamento dos militantes nos interrogatórios policiais, o opúsculo de Cunhal, que pormenoriza algumas das torturas a que os presos são 56JoséPachecoPereira,ASombra.EstudoSobreaClandestinidadeComunista(Gradiva,1993)p.66. 57ÁlvaroCunhal,SeForesPresoCamarada(EditorialAvante,1947).
58 JoséPedroSoares,presocommaiscercadeumacentenadecamaradasdevido àtraiçãodeAugustoLindolfo,queteráfornecidoinformaçãopormenorizadaàPIDE emtrocadaliberdade,realça,noentanto,adiferençaentresertraidorefraquejarnos interrogatórios.“Umacoisaéfraquejareoutraétrair.Seidepessoasquefraquejaram equeficarammarcadasparaorestodavida.Masaessesopartidonãotratoucomo traidores.OstraidorescolaboraramcomaPIDEdeformacontinuadaeemtrocade favores,entregandopartesimportantesdaorganização,destruindoligações.Segundo julgo saber, o Lindolfo, depois de ser libertado voltou a dar novas informações à polícia”. AugustoLindolfoviriaaseralvodeumatentadoaquesobreviveu,emJaneiro de1973.Aaçãonãofoireivindicada,masdeacordocomohistoriadorJoãoMadeira “foiatribuídoàARA”72.JoséPedroSoaresadmitequepossatersidoobradealguém vítimadatraição,mas,pessoalmente,dizquenadasabesobreoassuntonemsobreo percursoposteriordotraidor.“Nãofiznadaparaoprocurar,ouvidizerquetinhaido paraAngola.Admitoqueseotivesseencontradologoaseguiratersaídodaprisão tinha-lhe batido...muito. A traição é imperdoável. Já a fraqueza é compreensível e muitos camaradas sofrem ainda hoje por não terem resistido às torturas e involuntariamente terem confirmado nomes ou revelado um ou outro pormenor da organizaçãoemqueestavaminseridos,semnuncaseterembandeadoparaoladoda polícia.Istonadatemavercomtraição.” NaspáginasdoAvante!,noentanto,tudoeramaissimples:quemse“portava mal”naprisão,mesmoqueosdanosnopartidonãofossemdemonta,nãoescapava desertratadocomo“traidor”,“provocador”ou“bufo”e,alémdaexpulsão,eracertaa denúnciapública. Masnemsempreessalinearidadeeraobservada.Na análiseemcursoneste trabalhoénotórioquenosanos70ejánofinaldadécadaanterior,aspreocupações reveladas nos textos publicados no Avante! centram-se menos na denúncia de traidoresoudaexaltaçãodeheróisdoqueacontecianosanos40e50.Nofinaldo regime, dado o contexto internacional hostil à ditadura em particular devido à 72JoãoMadeira,HistóriaDoPCP(TintadaChina,2013)p.578.
59 manutençãodaguerracolonialenarecusadeSalazar/Caetanoemabrirmãodoque restava do império, o Avante! volta-se mais para fora, noticiando os ecos do isolamento internacional do regime, as atrocidades cometidas pelas tropas portuguesas nas colónias, bem como os avanços dos movimentos de libertação. O noticiáriosobreavidainternadopaísedepartidorefletiaaestratégiadedenunciaro logrodachamada“primaveramarcelista”queremtermoseconómicosquerpolíticos, revelando exemplos dos problemas financeiros nacionais, do endurecimento da censurasobreaImprensaeavagarepressivasobreosoposicionistas.Nessaestratégia étambémclaroocrescenteempenhoempublicarsinaisdacontestaçãointernanas Forças Armadas à guerra nas colónias. Exemplar dessa linha político-editorial é a ediçãonº449 doAvante!, queexibe atodaalargurada primeirapágina oseguinte título:“Urgepôrfimàguerracolonial”.Nabasedapágina,atodaalargura,vêem-se duasfotografiasdesoldadosportuguesesenvolvidosnummassacreaumangolano. ÉnestequadroqueocasodatraiçãodeAugustoLindolfonãoédenunciado publicamentedoAvante!,depoisdetersidonoticiadocomdestaquena1ªpáginada ediçãodeJulhode1971,asuaprisãonosseguintestermos,citandoumacomunicado dacomissãoexecutivodoComitéCentral: “A PIDE-DGS prendeu em fins de Maio o destacado militante comunista AugustoLindolfo.Libertadoem1968,depoisdemaisdeseisanosdeduro cativeiro nas cadeias fascistas, Augusto Lindolfo, tendo embora a saúde bastante debilitada, retomou o seu posto de combate nas fileiras do partidodaclasseoperáriaenoseuquadroclandestino.AugustoLindolfo estásertorturado.APIDE-DGSestáadescarregarsobreeleoseuódioao partido Comunista, à classe operária, ao povo português. Ódio acrescido pelosrecentesemagníficossucessosdalutapopular.OPartidoComunista tem fortes razões para recear pela vida de Augusto Lindolfo. O Partido Comunista Português chama a classe operária a agir prontamente em defesadavidadeAugustoLindolfoeapelaparaasolidariedadeactivade todososdemocrataseantifascistas”. Nonúmeroseguinte,aindaLindolfoeraumherói.
60 “SalvemosAugustoLindolfo!OcamaradaAugustoLindolfocontinuaaser torturado nos antros da PIDE-DGS. Sua mulher foi também presa, nos princípiosdeJunho,comumafilhinha,decercadedoisanos,queàdatada nossaúltimainformaçãopermanecianacadeiadeCaxiasjuntamentecom amãe.UrgeredobraraacçãoemdefesadocamaradaAugustoLindolfoe dasuamulherefilha”. A seguir, o seu nome desapareceu das edições do órgão central do PCP. A campanha, nacional e internacional, pela denúncia dos métodos da polícia e pela amnistiadospresospolíticos,apardacontestaçãoàguerracolonialedoapoioaos movimentosdelibertaçãodascolónias,passou,comojáreferimos,aocuparapartede leãodasediçõesdosúltimosanosdoAvante!clandestino. 3.4“Cuidadocomeles” A denúncia pública de quem é suspeito de se ter portado mal nos interrogatóriospoliciaisoudeterpassadoaserinformadordapolíciapolíticasurge publicadanoAvante!emtomdeaviso.Érecorrenteaexistênciadetítulosgenéricos como“Cuidadocomeles”paradenunciarquemsefazpassarpeloquenãoé. EmAgostode1948épublicadaumadenúnciaqueilustrabemanecessidade deexporumcomportamentomoralmentecondenáveldeumantigomilitante. “António Baptista, ex-prisioneiro do Tarrafal, não gostando muito de trabalhar, arvorando-se de mártir, dizendo-se comunista, a extorquir dinheiroaosdemocratasporváriasterrasdopaís,principalmenteLisboa, PortoeBarreiro”. Oexemploseguinte,datadeJulhode1949e,emboraotipodelinguagemseja idêntico e o título continue a ser “Cuidado com eles”, configura uma situação mais gravequesereveloudanosaparaaestruturaclandestinadopartido: “Os democratas portugueses não devem esquecer o nome do administradordeÁgueda,JoséSoaresFeio,queassaltouacasadonosso camaradaMilitãoeaíprendeuLuísaRodriguesedenunciouàPIDEacasa
61 doLuso,oquemotivouaprisãodosnossoscamaradasCunhal,Militãoe SofiaFerreira”. Noanoseguinte,emJulhode1950,éreveladaaindaoutrotipodesituação, envolvendodestavezumagenteinfiltrado,masotítulovoltaser“Cuidadocomele”: “Há alguns anos veio de Lourenço Marques para o Continente o agente provocadorCarlosAlbertoPais,quesehaviaintroduzidonoMUDJuvenil onde provocou a prisão de dezenas de democratas. Como este individuo tentapassar-seporboapessoadizendoquefoiexpulsodacolóniapelasua actividadeanti-fascistaeassimiludirosdemocratas(...).” Os avisos/denúncia surgem com uma ambivalência que permite revelar ao conjunto dos leitores do Avante! os diversos tipos e mau comportamento dos militantes e, simultaneamente, alertar para o perigo que determinados indivíduos representamparaamanutençãodoaparelhopartidário.EmOutubrode1950,podem ler-se dois textos elucidativos desta diversidade de objectivos. Um emana de um “esclarecimento”dosecretariadodoComitéCentraldopartidoeestáredigidosnos seguintestermos: “Tendo chegado ao conhecimento da Direcção do Partido que algumas pessoasaindaolhavamossenhoresMiguelRussel,SebastiãoViola,Silvino Leitão e Edmundo Pedro como membros do Partido Comunista, vem esclarecerquenadatêmdecomumcomopartidodoProletariado.” O outro texto da mesma edição, intitulado “Desmascaremos um traidor”, é maispormenorizadoeconstituiumbomexemplodaconfluênciadeobjetivosquese pretendeatingir-explicarqualfoiocrimeesuaconsequênciaemostrarajustezado castigoaplicado: “OPartidoComunistaPortuguêsexpulsoudassuasfileirasJoaquimdaSilva Couceiro, ex-operário vidreiro, e ainda hoje presidente do Sindicato dos VidreirosdaMarinhaGrande,pelas seguintes razões: Em primeiro lugar, tendosidopreso,JoaquimdaSilvaCouceirodenunciouàpolíciaoutrosantifascistas,entreosquaisAntónioLopesdeAlmeida,assassinadopelaPIDE em1949.Emsegundolugar,Couceirosaiuemliberdadedevido:a)tersido
62 napolíciaumdenunciante;b)àinterferênciadofascistaCastroFernandes, à data subsecretário das Corporações; e c)depois de ter assumido compromissoscomaPIDE.EsteindivíduoquetraiuoPartidoeaclassea quepertenceuequeneleconfiounãomerece,portanto,aconfiançados trabalhadoresedosportugueseshonrados.Umadastarefasfundamentais dostrabalhadoresvidreirosdaMarinhaGrandeéexpulsarJoaquimdaSilva Couceirodadirecçãodoseusindicato,comodevemserexpulsosdoseioda classeoperária,todosostraidoreseagentesdoinimigo”. Ocuidadoeratambémnecessáriocomosexemplosquevinhamdefora,atéde Hollywood.CuriosaéanotíciadetectadanaediçãodeAgostode1948sobreoactor norte-americanoGaryCooper,cujonomepassaráconstardo“índex”doAvante!. “Há tempos apareceu em Portugal uma reprodução de um discurso pretensamente comunista deste artista de cinema. Avisamos os nossos leitores que esse pretenso discurso foi fabricado pelos fomentadores de guerraamericanosparadesorientaremasmassasecriaremsimpatiaspelo fascistaactivoqueéGaryCooper.Depondoultimamenteperanteacélebre Comissão de Actividades Anti-Americanas, revelou-se um bufo da pior espécie, denunciando miseravelmente como comunistas os seus rivais no ecran.MaisavisamosquenãoserãopublicadasnoAvante!rubricascomo nomedessefascistaebufo.” 3.5“Provocadoresetraidores” Amiúde no mesmo texto são denunciados militantes que traem os companheiroseoutrospessoassobreasquaishásuspeitasdesereminformadoresou mesmomembrosdaspolícias.Éumaamálgamapropiciadoradeumaconfusãoentre quemfalavanaprisão,osinformadoresdapolíciaeosagentesdaPIDE.Aoabranger sobomesmotítulocasosdiferentes,estasrubricasregularesnoAvante!colocamao mesmo nível a polícia, quem colabora com ela e os que fraquejaram nos interrogatóriossem que,no entanto,setenham passadoparao outroladoou cuja fraquezanãosignificouumatraição.
63 A questão da diferença entre trair e fraquejar, à qual já nos referimos ao citarmos José Pedro Soares, atravessa todo o debate em torno do mau comportamentonaprisão.Numdepoimentoprestadonaqualidadedeantigopreso político,ohistoriadorFernandoRosasestabelececlaramenteadistinçãoentrequem traiuequemfraquejou.“Honraparaosqueresistiramegranderespeitoparaosque nãoresistiram.Sãopessoasque,apesardetudo,nãodesistiramdassuasconvicções, nãodesistiramdassuasescolhasearriscaram.Equemerecemonossorespeito.Sónão merecerespeitoquemsebandeouparaoladodelá,quemtraiu,noverdadeirosentido dotermo,quemsebandeouparaoinimigo,sedispôsvoluntariamenteapassarparao outroladoparatrairasuagente.Essesnãomerecemrespeitonenhum.Aquelesque lutaram e não se aguentaram, que lutaram e não conseguiram, merecem todo o respeito”73. Essa diferença existia ao nível interno, mas publicamente, nas páginas do Avante!,comojásublinhámos,elanãoeraclaraeéreconhecidohojequehouvecasos de injustiça na denúncia pública. Domingos Abrantes assume: “Houve casos de injustiça,masonúmerodebufoseraenorme.Chegavaainformaçãodedeterminada fábrica em que o porteiro era bufo, era dado como certo e em muitos casos eram mesmo(...)operigodepôremcausaaorganizaçãodopartidoeraenorme.Porisso, valiamaisagenteassumirqueé[bufo]doquepensarquenãoé,porqueasegurança eratudo(...)Acimadetudoestavaasegurança.Épreferívelcometerumainjustiçado que se pôr a segurança em perigo. É verdade que se pode arriscar pôr em causa a honestidadeeobomnomedeumapessoa,mas,noutroscasos,pode-sepôremriscoa própriavida,aorganização,tudo”. AdenúncianoAvante!caracteriza-seporumalinguagemparticularmentedura queMargaridaTengarrinhajustifica:”Algunscamaradasforammiseráveiseofactode sedenunciarqueeratraidoreraimportanteecontinuoaacharisso.Numavidacomoa quenóstínhamos,naclandestinidade,eravitalqueastraiçõesfossempublicamente denunciadas”. A militante comunista reconhece que houve casos em que a polícia políticaengrandeciaasuaatuaçãopropagandeandoterconseguidovergarprisioneiros 73AranhaandAdemar,p.120.
64 nosinterrogatórios,masassume:“MaisdoqueapropagandadaPIDE,osfactoséque demonstraramas traições. Porque seumtraidor conhece determinadas célulasese essascélulascaemnamãodaPIDE,nãoéaPIDEqueestáadisfarçar,foiotraidorque denunciou. O traidor é descoberto pela sua própria traição.(...) E se não for denunciado, o traidor pode continuar a fazer um péssimo trabalho junto dos camaradasquenãosabemqueeleumtraidor.Quandootraidorpassaaserconhecido, háumcorte,aPIDEdeixadeandaratrásdeleediminuioriscodeoutroscamaradas serempresos.(...)quemassumiu,porseuhonra,aresponsabilidadedenãotrair,essa pessoadevesofrercomotraidoroquejásabiaqueiriasofrerporisso”. Umexemplodeexposiçãopúblicadeelementosdapolíciapolíticainfiltrados podeler-senaprimeira quinzenade Dezembrode 1942,numtextoqueadverte os leitoresparaos“PoliciaseProvocadores”: “Participamos a todos os anti-fascistas e especialmente aos das Construções Navais de que Carlos Paiva Mendes, serralheiro civil, que trabalha nessa empresa, é uma agente policial e de distingue particularmente na denuncia de operários, quando dos últimos acontecimentos. Previnem-se igualmente os operários da Fábrica de Cimentos Tejo que, segundo nos informam, o engenheiro Sousa Lobo é polícia da P.V.D.E. O nº da sua ficha é o 81. Em Coruche, existe um indivíduo, negociante de cortiça conhecido por sr. Silva, que é de Lamas (Feira)efazmuitasviagensaLisboa.Esse‘cavalheiro’estáaoserviçoda políciadeinformações”. Deoutrotipodetexto,comomesmopropósitodedenunciaragentespoliciais ou informadores, é exemplo o publicado na segunda quinzena de Julho de 1942, intitulado,“Aviso”: “Prevenimos todos os anti-fascistas que o automóvel da marca Willis, preto, com friso vermelho, que tem a matrícula LB-10-12, tripulado pelo motoristaCasimiroRoqueequefazpraçaemS.SebastiãodaPedreira,é suspeito,poisomotoristaéumpolíciaeandaarmado”. Sãousadosalgunselementosidentificadoresacessóriosdapessoaadenunciar,
65 bemcomohábitosouproximidadesdeamizadeefamiliares.Éoquesepodelerna1ª quinzenadeJulho,naqualháumtextodedenúnciadedois“esbirrosdofascismo”e depessoasquelhessãopróximas: “Francisco Rebelo Mesquita, director do ‘Notícias de Famalicão” e sóciogerente da Tipografia Aliança, também de Famalicão, é da polícia de Informações.Suamulher,queételefonista,namesmavila,fazserviçode denúncias. João Arnaldo Rodrigues da Fonseca Maia, que vive no Porto, desenvolve uma imensa actividade policial. Está para casar com uma raparigachamadaHelenaGonçalves,quehápoucoeraaindaempregada dacasaBial,comquemtambéménecessárioterprudência.” Namesmaedição,umtextointitulado“Traidoresàclasseoperária”,érevelada aatitudedeumantigoanarquista: Quando das greves operárias de outubro-novembro (...) o antigo anarquista Domingos Miguel, aproveitando a influência que exercia em Almada,sabotouomovimentodasuafábrica,aconselhandoporinstigação dopatronato,osseuscompanheirosdefábricaaretomaremotrabalho.(...) Aoreferirmosestefactonãoofazemosparaferirosanarquistassinceros, que lutam com as massas como dignos filhos da classe operária. Desmascaramos este traidor este traidor à classe operária como temos sempredesmascaradoostraidoresquepertencemaonossopartido.(...)”. Maisdois“provocadores”sãoreveladospublicamentenaediçãoseguinte: “Manuel Tavares, de 18 anos, baixo, de cabelo louro, encaracolado, é políciadeinformaçõesefaztodososdiasopercursoPinheirodaBempostaPorto.AlfredoDiasdeCarvalho,chefedabrigadadebalanceiros,Alhandra, entregoudoisoperáriosàpolícia”. Adescriçãofísicadossuspeitosdeseremagentesouinformadoresdaspolícias é recorrente nos avisos publicados no Avante!. Numa notícia inserta no nº42, da segunda quinzena de Outubro de 1943, são enumerados os “sinais” de alguns dos “políciaseprovocadores”. Umoutroavisocuriosoéoquese pode ler na 1ª quinzena e Novembro de
66 1943: “JoséGonçalvesdaLeonor,queemtemposfoimilitanteoperário,dedica-se afazerviagenspelaprovíncia,dirigindo-seaanti-fascistas,burlando-osem quantiamaisoumenoselevadas,oqueconsegueumasvezesdizendo-se perseguido político, outras vezes pedindo dinheiro para fins revolucionários, outras vezes, ainda, afirmando ser membro do P.C., etc. etc.” NaprimeiraquinzenadeJulhode1944,vemosmaisumexemplodopormenor aquechegaàdiscriçãofísicadeumindivíduoedasuavestimenta,chamadoGabriel Gonçalves,acusadodeseragentedaP.V.D.E.: (...)“Ébaixo,magro,aparentando20a25anos.Pelobranca,cabelolouro muito claro, colarinhos engomados, com fato cinzento às riscas algumas vezes, outras vezes de fato preto, sempre bem vestido. Fala muito bem inglês. Faz serviço principalmente entre Espinho e Porto, e no Porto, sobretudo no Café Imperial e na zona compreendida entre a Praça da Liberdade e a do Marquês de Pombal. Mora na Pensão Minho, rua FernandesTomaz.” O mesmo tipo de linguagem é usado para expor publicamente os que fraquejaramnaprisão.Eessadenúnciatantovaliaparaquemtinharesponsabilidades no aparelho clandestino e, por consequência, as suas revelações à polícia política representavam realmente um perigo para a segurança do partido e dos militantes, comoparaquemselimitaaconfirmarnomesqueapolíciaatiravaparainterrogatório enadasabiasobreonívelsuperiordaorganização. Nonúmeroseguinte,deOutubrode1952,éreveladoraanotíciadoAvante!, intitulada “Alerta contra os traidores e provocadores” na qual, em termos quase idênticossedenunciatraidoresedissidentes. “Joaquim Ventura, de Monchique e o dr. António de Sousa, ambos residentes actualmente em Lisboa, são dois traidores da pior espécie. JoaquimVentura,quedesertoudalutaepassouaterumavidasuspeita, facilitou a sua prisão pela PIDE e entrou abertamente no caminho da
67 traição.PostorapidamenteemliberdadepelaPIDE,passouaservi-lacomo agente provocador. António de Sousa, que muita gente julga ser um intelectual progressivo, é um reles burlão que se apoderou de bastante dinheiro que se destinava à luta democrática. (...) Gabriel Pedro, Carlos CarvalhoeAialasãotrêscaluniadoreseintriguistasdapiorespécie.Aialae Gabriel Pedro acobertaram e defenderam até ao fim o miserável Mário MesquitaeentraramnocaminhodaintrigaecalúniacontraaDirecçãodo Partidoeo saudoso secretário-geral Bento Gonçalves, não obstante este tersidoassassinadohájá10anos.CarlosCarvalhoparaacobertarasua cobardia ante o agudizar da luta, escolheu o caminho da intriga e da calúniaàDirecçãodoPartidoedeoutroscamaradas. Toda esta gente acobertada por uma pseudo discordância com a orientação do Partido, fazem um trabalho de desagregação e de provocação,usandoparataldaarmatorpedaintrigaedacalúnia.Esta acção provocadora prejudica fundamentalmente a unidade dos democratas,patriotaseamigosdapaznasualutapelaDemocracia,pela IndependênciaNacionalepelaPaz.TodososmembrosdoPartidodevem escorraçar estes provocadores do seu convívio e desmascará-los implacavelmente.AconselhamososdemocratassemPartidoaseguiresta mesmaorientação. Osquesentiremreceiodetomarumaposiçãofirmedevemrepararqueé justamentenocontactocomespiõeseprovocadoresqueseenxovalhame searriscamaoperigodeseveremenvolvidosemprovocaçõespreparadas poreles. Escorraçar do nosso convívio e desmascarar sem vacilações os traidores, provocadoreseespiões,esteéocaminhojustoaseguir.” 3.6“Miseráveis” Já sublinhámos que o substantivo “miserável” é uma das designações mais usadas pelo Avante! para se referir a traidores, que nalguns casos são também
74 impacteaevasãonosmeiosoposicionistas,bemcomooalcancedoAvante!alémdos militantes: “Ao alcançarmos a liberdade e ao retomarmos o posto de combate, suadamosantesdomaisonossoPartidoeoPovoPortuguês,afirmandoa nossadeterminaçãodeosservircomoatéhojenalutapelainstauraçãoem Portugal de um regime de liberdade e legalidade. Saudamos todos os portugueses honrados, qualquer que seja a sua ideológica e crença religiosa; saudamos todas as forças e correntes anti-salazaristas, salientando a importância e a urgência da Unidade como condição fundamental para a solução do problema político português. (...)Muitos dedicados filhos do povo português continuam nas prisões fascistas, sofrendo torturas e longos anos de prisão. A acção dos patriotas portugueses apoiada pelos trabalhadores e democratas do mundo conseguirálibertá-lostambém.” Como já fizemos referência neste trabalho, é possível percepcionar que em determinadosmomentospolíticos,oAvante!teráumamaiornotoriedade,atéporque aimprensalegalestavasujeitaaoregimedecensuraprévia.Tantoojulgamentode Cunhal,comoafugadePenichesãodoisdoscasosparadigmáticosdessesmomentos susceptíveisdealargaraaudiênciadojornal. Enquanto esteve preso, Cunhal nunca deixou de estar presente no órgão centraldoPCP,oracomnotíciassobreasmedidasdeexceçãoaqueestavasujeito, como na edição de Setembro de 1953, na qual surge uma fotografia (a única) a acompanharotextona1ªpágina,oraemcampanhaspermanentesaexigiremasua libertação. O julgamento de Álvaro Cunhal no tribunal plenário da Boa Hora, em Lisboa, que decorreu entre 2 e 9 de Maio de 1950, foi notícia em duas edições consecutivas,emJunhoeJulho.Noprimeironúmero,o148,érealçadona1ªpáginao atoheroicodeCunhal: “Depoisde15mesesdeprisão,praticamenteincomunicável,semquaisquer meiosparaprepararasuadefesa,ÁlvaroCunhal,dirigentequeridodoPCP, levado ilegalmente ao tribunal, fez deste uma tribuna, onde expôs e defendeu publicamente com vigor a linha política e os objectivos do seu
75 partido. Ao fazê-lo, ele sabia que, pra além do tribunal, o escutavam atentamente todos os militantes do PCP, a classe operária, todos os trabalhadores,todoopovolaboriosoeoprimidodePortugal.(...)Escrevei por toda a parte, nos muros, nas estradas, nos comboios, em todos os lugarespúblicosLIBERDADEPARAÁLVAROCUNHAL”. Naediçãoseguinte,épublicadograndepartedotextodadefesaeCunhalvolta aseroassuntoprincipalatodaalargurada1ªpágina: “Enfrentando firme, corajosa e serenamente tribunal fascista onde o seu ‘julgamento’iaterlugar,ÁlvaroCunhal,dirigentequeridodoPCP,ergueu ali a tribuna onde o acusado passou a acusador (...) E Álvaro Cunhal termina:’...quesesentemosfascistasnobancodosréus,quesesentemo bancodosréusosactuaisgovernantesdaNaçãoeoseuchefeSalazar’.” E, tal como é prática habitual para os históricos dirigentes comunistas internacionais,sãoassinaladosnoAvante!osaniversáriosdeCunhal.EmNovembrode 1953 pode ler-se na 1ª página: “Saudemos o 40º aniversário de Álvaro Cunhal intensificandoalutapeladefesadasuavidaepelasualibertação.(...)Salvemosavida preciosadeÁlvaroCunhal.” Anotícia écompletada comapublicaçãonaíntegrada saudaçãoenviadaaCunhalporJacquesDuclos,emnomedocomitécentraldoPartido Comunista Francês, na época, o secretário-geral interino, devido a ausência por doençadeMauriceThorez. É sabida a preocupação posterior de Cunhal em combater o culto da personalidade,masénotórioqueapartirdosanos40oseunomepassaaseruma referênciaparaosmilitantescomunistase,gradualmente,alargaasuainfluênciano quadrointernacional.ComoohistoriadorJoséNevesescreveu,“àmedidaqueassumiu papeldedestaque noseio doPCP,Cunhalfoiobjecto deatenção ecuidadosempre especiais. Entre os militantes anónimos, houve quem lhe dedicasse versos de homenagemequemaosdescendentesdesseoseuprimeironome.”79Oautoracentua tambémcomofoioregimedeSalazar/Caetanoqueomantevepresodurantequinze anos,acontribuirparatornarafiguradoantigosecretário-geraldoPCPumexemplo, 79Neves(coord.),p.11.
76 “ao tomarem-no como encarnação do Mal, igualmente o investiram de um enorme poder simbólico, que outros acabaram por reconduzir à figura de Cunhal enquanto singularexemplo,senãosimplesmentedoBem,deumanoçãodeÉticaoudeMoral sempreescritacommaiúscula.”80 Nodiscursodosmilitantes,revela-seumatentativadecontrariaratendência para heroicizar a figura de Cunhal, ao arrepio do que se verificou no Avante! clandestino,queocolocounopedestaldosheróis.Exemplaresdessatendênciasãoas palavras de José Pedro Soares, que, admitindo ter sido pessoalmente com o seu percursopolíticodecomportamentonaprisão,“umexemploparamuitos”,dizquede ÁlvaroCunhal“sósabiaqueeraumartistaeescreviamuitobem”.Osseusheróiseram DiasLourenço,José Magro,OctávioPato,SeverianoFalcão, militantesexemplarese maispróximosdasuaexperiênciapessoal. JáparaMargaridaTengarrinha,queem1962,emMoscovo,foiumaespéciede secretáriadeCunhal,quandoesteestava aprepararotextoprogramático“Rumoà Vitória”, “a exaltação de alguns heróis é compreensível porque eles servem-nos de exemploefazempartedaeducaçãodosmaisnovos.Usarmosoexemplodavidadessa genteparadefinirmosonossoprópriocaminho.” NoAvante!,Cunhal,defacto,nãoestásozinho.Apardasfigurasincontestadas dopartido,comoBentoGonçalves,cujoaniversáriodasuamorteésempreassinalado, deJoséGregório,deMilitãoRibeirooueFranciscoMiguel,sóparacitaralgunsdos maispresentes,aspáginasdojornalestãorecheadasdehistóriasexemplares. EmJaneirode1963,“Umexemplo”énofemininoevemdoCouço.Depoisde relatar com pormenores as torturas a que foi sujeita e indicando os nomes dos agentesdapolíciapolíticaqueainterrogaram,otextosobreMariaCustódiaChibante, doCouçoterminaassim:“(...)estevepresacincomesesemeiosemvisitasdafamília, semlivrosnemjornais.Foirecebidanaterrapor400pessoasquealevaramacasa.(...) Elavinhaalegreeconfiantedasuahonradezefirmeza”. 80Neves(coord.),p.12.
77 Osexemplossãotambémrealçadospeladimensãodasuarepercussãoentreos militantes.EmAbrilde1969,oAvante!publicaumacartadirigidaaCanaisRocha,que seencontravapreso,assinadapormilitantesportuguesesebelgas,expressandoapoio eadmiraçãoaosindicalistacomunista.Estetextoésingularporqueretrataaatenção dadaao posicionamentodos militantes portuguesesna emigração, umavez queno finaldadécadade60osemigrantesrepresentamumalfobreconsideráveldeoposição àditadura.Nofinaldareproduçãodoconteúdodacarta,lê-se: “Estacartatestemunhaoamploecodacondutafirmedoscomunistasante o inimigo. Embora presos e torturados, os nossos heroicos camaradas continuam,comoseuexemplo,adarcontribuiçãoefectivaàlutadopovo português”. CanaisRocha,falecidoem2014,marceneiroqueviriamaistardeasermestre emHistória Contemporânea, foi elevadoàcategoria de herói, mas acabariaporter umaquedaabruptadessepedestal.LogoaseguiràRevoluçãode1974,osindicalista comunistafoi eleito,a27deAbril,emplenário desindicatos, oprimeiro secretário geraldaCGTP-IN.Poucotempodepois,emAgostodessemesmoano,foisubstituídoe expulsodoPCP,porterfraquejadoquandoestevepresopelasegundavezem1968.A estruturadiretivadopartidosóterátidoconhecimentodafraquezadeCanaisRocha peranteapolícia,depoisdo25deAbril.Foiessefacto,aliás,queagravouasanção, porque os militantes que eram presos tinham obrigatoriamente que relatar as condiçõesdaprisãoeconteúdodosinterrogatórios.ComoDomingosAbrantesconta, “aprimeiracoisaquesefaziaquandosechegavaàcadeia,depoisdosinterrogatórios, erarelatarcomoéquefomospreso,comonosportámos,oqueapoliciasabiaenão sabia,setinhahavidotortura,quetortura”.EmrelaçãoaocasoparticulardeCanais Rocha,JoséPedroSoaresconsideraqueoantigooperárioesindicalistasóterásido expulsodopartido“porqueomitiuterfraquejadoperanteapolícia,nãoporcausada traição.” A exaltação dos heróis é também feita através de textos não atribuídos especificamenteaumdeterminadomilitantepreso.Temparalelismocomasimbologia do “soldado desconhecido”, o que se pode ler em Setembro de 1959, sob o título
78 “Mensagem de um Herói”, como se tratasse de um texto ficcionado destinado a transmitirexemplosaseguirporquem(ainda)nãofoipreso: “Dentre as centenas de patriotas caídos nas garras do inimigos, surgem exemplos de luminoso heroísmo, enormes na sua simplicidade, que são espelhodalutapatrióticadonossopovocontrasosopressoressalazaristas. Publicamos a seguir o fragmento duma mensagem dum desses simples heróisquesouberamdignificarasagradacausadopovo:‘Fuipresoelogo no2ºdiafuichamadoàPIDEepuseram-me6diase6noitesseguidasde estátua e sem me deixarem dormir, depois mandaram-se para um cela ondemedeixaram10dias.Saidaestátuatodoinchadodosjoelhosatéaos pésemaisalgumacoisa.Depoisde10diasdecelafuinovamenteparaa estátua onde estive mais 3 dias e 3 noites. Querem que reconheça fotografias. Mantenho-me firme e manter-me-ei sempre firme. Se algum doscamaradasdaorganizaçãoforpreso,asalvaçãoseránãodizernada, negartudo,nãosedeixemlevar.Elesdizemquesabemedãodadoscertos comoprovasenãonosdeixamdormirdediaedenoite;chegamosaver bichos,ochãoaandarparacimaeparabaixo,acabeçaocaegelada,mas é uma grande alegria passar tudo isto e olhar para o futuro sem corar. Neguemtudomesmocomprovas”. Ainformaçãoqueoscomunistaspresospassavamparaoexterior,alémdeser material de prova da conduta assumida perante a política e durante o tempo de prisão,constituíaumelementorelevanteparaopartidoconstruirodiscursopolítico deoposiçãoàditadura.EoAvante!clandestino,cujaredededistribuiçãoextravasaa dos militantes, é o canal de divulgação mais eficaz, num quadro de censura prévia sobre os órgãos de informação. O jornal torna-se essencial para manter os presos comunistas informados sobre a vida interna do partido, do país e do mundo e, simultaneamente, transmitir para o exterior informações sobre os maus tratos infligidospelapolíciapolítica.Opequenoepoucoespessojornaleraintroduzidonas cadeiase,talcomocáfora,circulavademãoemmão.
79 Paraqueainformaçãocirculassededentroparaforaedeforaparadentrodas cadeias,hárelatosdeformasmuitoimaginativasusadaspelospresoseporquemos visitava. No forte de Peniche, por exemplo, Carlos Brito conta que “no suporte de madeiradeumchuveiro,mãoshabilidosas,pacientesepersistentestinhamescavado uma bonita caixinha, com tampa e tudo, onde cabia um Avante! Clandestino, bem dobradinho”81. Semquererpormenorizarosprocedimentosseguidosnointeriordascadeiase não aceitando esclarecer como chegava o Avante! às mãos do presos, porque “por principionãodevemosdivulgarporquepodeviraserprecisonovamente”,Domingos Abrantesadmiteque“os‘avantes’(eosinformes,comoo‘RumoàVitória’)entraram sempre e às vezes, como costumo dizer, à tonelada, passavam pelas mãos dos carcereiros, escondidos em coisas que eles levavam para fora sem saberem o que estavamafazer”.OAvante!entravanascadeiascomregularidadeesaíaainformação sobre o que se passava lá dentro. Precisávamos de todas essa informação era importanteparanosmanteremosapardoquesepassavanopaisenomundo”. UmexemplodesseexpedienteestáexpostonoMuseudoAljube,comolembra Abrantes.“É umacamisado JaimeSerra, ondeeleescreveu informaçõesque foram levadasparafora.Atravésdasvisitaseraimpossívelporquenãohaviacontactodireto, masfabricavam-seobjetossóparasepassarinformaçãoeos‘avantes’.Eraprecisos sermosmuitoengenhososporqueserapanhadonacadeiacompropagandadavaum processodeatividadessubversivasnacadeia”. DomingosAbrantesnãoesqueceacontarumepisódiodoperigoquecorreuna cadeiadePenicheporcausadoAvante!:“Umdiaapanheiumsusto.Estavanorecreio etinhaummolho,umrolo,de‘avantes’nobolso,queeraparadeixaremdeterminado sítioparaseremlevadosparaoutropavilhão.Adeterminadaaltura,oguardachamoumeparamelevaraodiretorenãomedissequeeraparaumavisita.Quandoíamosà visita,emboranãofossepossívelocontactofísico,osguardastinhamohábitodenos revistarem.Sónocaminhoparaogabinetedodiretoréqueoguardamedissequeia 81CarlosBrito,CadeiaDoFortedePeniche,ComoFoiVivida(AletheiaEditores,2016)p.84.
80 terumavisitadecincominutoscomaConceição[Matos,comquemviriaacasar-sena prisão], que eu já não via há anos. Eu não tinha sido revistado à ida, mas seria certamenteàsaídaefiqueitão preocupadoqueainda hojenemme lembrodoque dissemosumaooutronavisita.Fuielaborandoumaestratégiaeporsorte,oguarda quemelevavaeraumtipogordocomumcorpodescomunal,quetinhadificuldadeem andar, e eu era jovem. Logo que acabou a visita, arranquei a esticar o passo em direçãoaopavilhãoeoguardasódizia,‘sr.Abrantesmaisdevagar!.´Tiveasortedea portaestarabertaeeuatireioroloparaumpavilhãoqueestavadesativado.Depois, foiprecisoarranjarumestratagemapararecuperaros‘avantes’.Entãonós,quenão trabalhávamos na cadeia, fomo-nos oferecer aos carcereiros para limpar aquele pavilhão com o argumento de que estava muito sujo e que cheirava mal. Eles nem queriam acreditar na oferta e aceitaram. Lá fomos nós, uma vez sem exemplo, munidosdevassouras,baldeseesfregonas,recuperaros‘avantes’. Todoessefluxodeinformaçãodeforaparadentroededentroparaforados estabelecimentosprisionaiseraorganizadoatravésdoaparelhodopartidonoexterior eaorganizaçãointernadoscomunistasnacadeia.ComorelataAbrantes,“haviaum aparelho da direção do partido, secreto, com pessoas de alta confiança que faziam chegar o material e fizemos sair informação, por exemplo, de angolanos, que não tinhamorganizaçãoexteriorparaosapoiar.Porexemplo,fizemossairinformaçãopara oVaticanosobreoJoaquimPintodeAndrade”. Comunistas que nunca estiveram presos também tiveram conhecimento do tráfegodeinformaçãoentreointerioreoexteriordascadeias.ÉocasodeMargarida Tengarrinha, cuja primeira tarefa como militante do partido, em 1952, foi a de integrar uma comissão de apoio aos presos políticos, dirigida por Maria Machado. “ÍamosaCaxias,falávamoscomasfamíliasàportadasprisõesparasaberdoscastigos edos problemas que pediam para ser resolvidos. Também passávamosinformações clandestinamente. Por exemplo, como eu era do Algarve, lembrei-me de usar uma caixadesapatoscomestrelasdefigo,comumfundofalso,ondesemetiaoAvante!.As informações saíam, por exemplo, nas roupas enviadas para lavar, através das famílias”.
81 Também José Pedro Soares recorda como fez chegar ao exterior da prisão informações que viriam a chegar à Amnistia Internacional, por exemplo: “Consegui passaraoMDM(MovimentoDemocráticodasMulheres)umainformaçãoescritaem mortalhasdecigarrosquepasseiduranteumavisita”. Sócomaexistênciadessefluxonoticiosopendularentreointerioreoexterior das cadeias é que se justifica publicação no Avante! de mensagem dirigidas diretamenteaospresospolíticos.Expressãomáximadessacomunicaçãodeforapara dentro das cadeias está publicada em Março de 1961, uma edição integralmente dedicadaao40ºaniversáriodoPCP.Naúltimapáginadojornallê-se: “Saudaçãoaospesospolíticos”(...)souberamerguerbemaltoabandeira do partido (...)Em especial para vocês, queridos camaradas que vos entregasteiscompletamenteàviaeàactividadedopartidoesobrequemo inimigodescarregaoseuódiomaisferoz”. Depois de enumerar mais de duas dezenas de nomes de presos e de omitir outras identificações “por motivos da sua própria defesa”, termina com uma promessa: “Vós sois, camaradas, o orgulho do nosso Partido, que não esquecerá o vossobeloexemplodededicaçãoefirmeza.OPartidonãopouparáesforçosparavos arrancardasgarrasdoinimigo”. Anãopublicaçãodenomesdealgunsdoscomunistaspresostem,defacto,a vercomquestõesdesegurançaparaodetidoeparaopartido.ErapráticadoAvante! nãopublicarnomesdedetidosqueaindaestivessemsujeitosainterrogatórios.Aregra é confirmada por José Pedro Soares: “Antes de sermos julgados não eram publicamenteidentificadoscomomilitantesdopartidoeerabemfeitoporquemuitos denósnegávamosqueéramosdopartidoealgunsnãorevelávamosonossonomeà polícia.Noquedizíamos,oumelhornoquenãodizíamos,procurávamosretirartodaa cargainformativaqueaPIDEtinhaeaquerqueria”. 4.2“Inclinamosasnossasbandeiras” Naconstelaçãodosheróis,osmártirestêmumbrilhoespecialnoimaginário comunista,queestábemvivonaspáginasdoAvante!.
82 Voltandoadarcomoexemploaediçãonº298,ado40ºaniversáriodoPCP,um dostextosqueojornalpublicachamaaatençãoparaosquemorreramnaresistência àditaduranosseguintestermos: “Em40 anosdeluta implacável,muitos comunistas jáderam a suavida pelalibertaçãodoPovo.Passandoaosmilharespelasprisões,suportando os maiores sofrimentos, dando o melhor do seu esforço á luta, os comunistasportuguesestêmsidoaguardaavançadadocombatecontrao fascismo.Aopassaro40ºaniversáriodoPartido,recordemososnomesdos camaradascaídosnaluta,orgulhodonossoPartidoedonossoPovo”. ÀcabeçadalistadosmártiresestáBentoGonçalves,mortonoTarrafal,citado noutrotextonamesmaedição,comoo“obreirodoPartido”,cujo“exemplocontinuaa continuará sempre vivo no coração de todos os comunistas portugueses”. O texto terminacomafrase:“Glóriaaosnossomártireseheróis!”.Curiosamente,ausenteda históriadoPCPnoassinalardo40ºaniversárioestáonomedeJoséCarlosRates,o primeirosecretário-geral,queviriaaafastar-sedoideáriocomunista,aproximando-se dabaseteóricadoEstadoNovo. Poucotempodepoisdetersidoassinaladaessaefeméride,uma“mortesaiuà rua”,comoadesignouJoséAfonsoaocelebrá-lanacanção,adoartistaplásticoJosé Dias Coelho, assassinado na rua dos Lusíadas, em Lisboa, quando vivia na clandestinidade. Um mártir que o Avante! homenageou num texto que viria a ser redigido por Margarida Tengarrinha, a sua companheira, também a viver na clandestinidadeequeterminacomaspalavrasdopróprioDiasCoelhoescritaspara homenagearMariaHelenaMagro,falecidanaclandestinidade. “Não te dizemos adeus, camarada! As tuas mãos cerradas vão com as nossasmãoscerradas.Atuavozvaicomasnossasvozescantarmaisaltoa liberdadedonossoPovoe,sobaabandeiraonossoPartido,osteusolhos hão-deolharcomosnossosolhosoPortugalfelizquenãoreviveste.” OrelatodeMargaridaTengarrinhadomomentoemquesoubedamortedo seu companheiro revela como as regras do partido na clandestinidade eram humanamente frias, numa aparente contradição com a heroicidade e humanidade
83 exaltadasnostextospublicadosnoAvante!sobreavidaealutadoscomunistas,nos quaissesugereumrelacionamentofraterno. “Só soube que o Zé [Dias Coelho] tinha morrido, já ele estava enterrado. Vivíamosnumacasaclandestina,comaminhafilhamaisnovaecomoutracamarada. Ele fazia ligações internacionais do partido na área da cultura e no dia 19 de Dezembro,tinhasaídodecasaparaumareunião.Comonãovoltou,nemninguémme fezchegarqualquerinformação,partidoprincípiodequetinhasidopreso.Nodia22 deDezembro,prepareiumsacocomroupadeleparaquelhefosseentreguenaprisão e saí de casa para o encontro que estava marcado com o camarada que era responsávelporfazeraligaçãoentremimeosecretariadodopartidoporcausada redaçãodoAvante!.OencontroeranumaruanazonadeBelém.Quandoocamarada apareceu,jáumpoucoatrasadoemrelaçãoàhoraprevista,disse-lhequeoZéestava desaparecido e que suspeitava que tinha sido preso. Ele respondeu-me com estas palavras: “Não foi preso, foi assassinado. Desmontas a casa e sais”. Antes de se ir emboramarcouadatadareuniãoseguinte.Fiqueialicomosacodaroupanamão. Andeiàsvoltaspelasruas,semsaberbemondeestava,meti-menumtáxiparavoltar para casa, mas não consegui dizer a morada para onde queria ir. Era a zona do Restelo,easmoradiastinhamiluminaçõesdeNatalesóvialuzinhasapiscar.Ainda hoje,nãosuportoiluminaçõesdeNatal.” OcamaradaquelhedeuanotíciafoiFranciscoMartinsRodrigues,queerao membrodadireçãodopartido nacomissão deredação doAvante!eeraelequem faziaocontactocomMargaridaTengarrinha,enquantoredatoradojornal.Margarida descreve-ocomoum“umbomcamarada,masumapessoamuitorígida,muitodura, quenãorevelavagrandehumanidade”.Dizaindatercompreendidoaatitudedelepor “medoepelanecessidadedeteralgunscuidadosporoZé[DiasCoelho]tersidomorto. Nem fiquei magoada porque aquilo foi tão duro e todos vivíamos momentos muito difíceis.Houvemuitasprisõesnaquelaépoca,emDezembrode1961.Ostirosdapolícia corresponderam ao estado de desespero que foi transmitido aos pides por Salazar. Maistardefiqueirevoltada.NareuniãoseguintedacomissãoderedaçãodoAvante!, emJaneiro,eudisse‘quemfazanotíciasoueu’,etodaagenteaceitou.Oretratoem linóleo,feitoapartirdefotografia,quesaiuna1ªpágina,équeeunãoconsegui.
90 comportamentosmoralmentedignosdeseremseguidosportodososquedeletomem conhecimento. Otítulousado nessespequenostextos é,emregra,bemexplícito doquese pretende.Éocasodanotíciapublicadanaediçãonº283,deNovembrode1959,na qual se relata a iniciativa de pôr a circular um texto abaixo-assinado de apoio a JoaquimJoséDias,presopelapolíciapolítica:“Eisumexemploquedeveserseguido pelosamigosecompanheirosdetrabalhodetodososhomenshonradosquejazemnas prisõesdaPIDE,noAljube,emCaxiasouemPeniche.(...)” ÉrecorrentequeotítulodoopúsculodeCunhal“Seforespresocamarada”seja transcrito para encabeçar textos sobre exemplos de bom porte na cadeia. É o que acontecenaediçãonº368,deJulhode1966:“Seforespreso...tenhamospresenteo exemplodosnossoscamaradasqueseportaramcorajosamenteenadadeclararamà policia.” Os trabalhadores “honrados”, não necessariamente militantes, que são transformados em exemplos, constituem, simultaneamente, o universo ao qual se destinam os textos de exaltação de comportamento a seguir em caso de serem apanhadosnasmalhasdapolícia.Osconstantesavisosparaquehaja“bom-porte”nos interrogatóriosenascadeiasconfiguram,nãoapenasumaatitudepreventivaparaos que,estandonaresistênciaàditadura,arriscamaprisão,mastambémummanualde algumasdasregrascomqueseforjamosexemplosmorais.Vejamosumexemplode texto,comotítulo“NaPIDEnãosefala”,publicadoemNovembrode1966:“NaPIDE resiste-se corajosamente às torturas e suplícios, mas não se denunciam camaradas, irmãos de luta. Esse é o exemplo de quantos em Portugal e no mundo servem os interessedaclasseoperária”. Oleitor/militanteaquemsedirigeestetextoédesafiado,comoseuexemplo, a integrar-se num grupo com características especiais, ao nível mundial, digno de serviredefenderosinteressesdopovoedostrabalhadores. Oexemplomoralgeratambémumacumplicidadeemtornodosqueresistem, dos que estão do lado certo da barricada política. De um lado está a polícia e os tribunaisfascistasedooutroestãoosresistentese,emparticular,oscomunistas.Essa
91 dicotomia, que é permanente no discurso político e nos textos informativos do Avante!,estábemexpressanaprimeiraquinzenadeFevereirode1961,numacoluna dapág.2,sobumtítuloqueenuncia,desdelogo,umadiretiva:“Oscomunistasperante ostribunaisplenários”. “(...)VárioscomunistastêmsabidodefendercorajosamenteoseuPartido, desmascarar com vigor a política repressiva e anti-nacional de Salazar , denunciar o carácter arbitrário dos tribunais plenários, as torturas e os maustratosdaPIDE.(...)MandadocalareexpulsodoTribunal,CarlosAboim Inglês gritou para os seus verdugos: ’Não admito lições de moral deste tribunal!Nãoreceboliçõesdemoraldumfascista!(...)Anteapolíciacomo anteosjuízesvendidosdostribunaisfascistasoscomunistasmostramasua heroicidadeevalentiaemdefesadoseuPartidoedacausajustaporque lutam.” Umavezmais,aquestãodoexemplomoralestápresentenamensagemqueé transmitida a cada um dos leitores. Essa transmissão é susceptível de criar um sentimentodepertençaaumacomunidade.Éatravésdalinguagembanal,repetida uma e outra vez, como acentua Billig, que “estes episódios retóricos recordam-nos continuamente que nós somos ‘nós’ e, ao fazê-lo, permitem-nos esquecer que nos estãorecordandoissomesmo”86.Oautorrefere-seàinteriorizaçãodonacionalismo, masomesmoprocessoanalíticosepodeaplicaràidentidademoraldoscomunistas.É possívelseguirumcertoexercíciodetransportedeestruturadonacionalismoparao militante. Embora no objecto desta dissertação os elementos linguísticos não se possamincluirnosdeíticosqueBilligrefere,hátambémnoAvante!apráticaqueo autor identifica como utilização rotineira desses vocábulos “que aponta continuamenteparaapátrianacionalcomoolugardosleitores”87,setranspusermoso conceito de pátria sem fronteiras físicas para uma “comunidade imaginada” (de comunistas), como Benedict Anderson 88 a concebeu. “Imaginada porque até os 86MichaelBillig,NacionalismoBanal(CapitánSwing),p.191. 87Billig,p.29. 88Anderson.
92 membrosdamaispequenanaçãonuncaencontrarãoenuncaouvirãofalardamaioria dos outros membros dessa mesma nação, mas, ainda assim, na mente de cada um existe a imagem da sua comunhão.”89 No caso do Avante!, essa identidade de comunidadeécriadaatravésdatransmissãodeconceitosmorais,sempreaplicadosa casos concretos e exemplares. A mensagem é passada, não apenas por textos de elaboraçãoteórica,mastambématravésderelatospessoais,revelandoeexaltando uma determinada conduta exemplar para que seja replicada por cada um dos que pertencemouquerempertenceràcomunidade. Cita-seaindaBilligaoanalisaropensamentodeAnderson,quandoesteautor sugere que “o sentimento nacional é gerado pelo conhecimento de que, em toda a nação,aspessoascumpremoritualdiáriodeleromesmoperiódico”.90 A analogia pode aplicar-se diretamente ao sentimento de pertença gerado entre a comunidade de leitores do Avante! clandestino. Como já aprofundámos na primeira parte desta dissertação, o jornal, além de potenciar essa ligação entre os leitores,assume-secomoparteintegrantedessatalcomunidadeimaginada. 1.2Ódiopeloinimigo O sentimento é aliado à razão quando se trata responder ao “inimigo”, a ditadura de Salazar/Caetano, personificado na polícia política. Basta ler um texto publicado na 1ª quinzena de Fevereiro de 1959 para se perceber o peso da carga impostapelaspalavras. “(...)OscrimesdeSalazardevemencontrarrepulsadetodososquetêmno peitoumcoraçãosensívelehumano.(...)OAvante!denunciaasatrocidades daPIDEepassaráapublicarosnomesdostorturadoreseassassinosqueas praticamparaqueonossopovoosnãoesqueça(...).” Otextoacimacitado,alémdeserumbomexemplodotomusadoparainstigar oódio,enquadra-senareferidadicotomiabem/mal,quedistingue“fascistaseanti- 89Anderson,p.25. 90Billig,p.211.
93 fascistas”, ou os “torturadores e assassinos”, dos que têm “coração sensível e humano”.Nestecasoos“bons”nãosãoapenasoscomunistas,mastodososquenão aceitamequenãoesquecerãoasatrocidades. OódioquetransparecenalgunstextosdoAvante!clandestinoestende-seaum universo mais largo do que o inimigo político, abrangendo os concorrentes no combate à ditadura, os dissidentes e os “miseráveis” traidores que tiveram “mau comportamento” na polícia. Em relação a todos estes alvos, que são concretos e identificados, a linguagem utilizada, ao fazer uma denúncia pública de atitudes consideradasodiosas,transmiteaobrigaçãodeosostracizarerepelir. Tambémnestecaso,umtextoéexemplificativodalinguagemusadaaolongo detodaaVIsériedoórgãocentraldoPCP.Naediçãonº333,deSetembrode1963, doisantigosmilitantesdopartidosãoexpostos“àexecraçãopública”como“cobardes traidores”, que “não souberam enfrentar dignamente o inimigo fascistas, ao serem presospelaPIDE,traindo,assimtodososseuscompromissos”. Textos carregados com uma terminologia susceptível de instigar ódio sobre pessoasconcretassurgemacadaediçãodoAvante!comajustificaçãode,comoselê em Outubro de 1971, “Apontar os miseráveis pelos seus nomes (...) julgamos ser absolutamentenecessário”. VoltandoaBilligeaofortalecimentodoconceitodenaçãoedonacionalismo atravésdautilizaçãobanaldevocábuloscomo“nós”emoposiçãoa“eles”,paraocaso emestudodestetrabalhoserápertinenteacentuarqueostextosdoAvante!,quando se centram nos exemplos de homens honrados com corações sensíveis e atitude abnegada,transmitemtambémarepulsapelosoutros,peloinimigooupelosqueo servem,pelasuapráticadetraiçãooudecolaboração. 1.3Avingançaserve-sefria Se o ódio é instilado, palavra a palavra, quando o tema é o inimigo ou os traidores,avingançaéservidafrianasentrelinhasdotexto.Sãoemgrandenúmeroos artigospublicadosnoAvante!clandestinonosquaissevaticinaeaconselhaocastigo futurodecarrascosedetraidores.
94 Em Dezembro de 1963, dois anos depois de José Dias Coelho ter sido assassinado, surge um dos textos emblemáticos desse apelo ao ajuste de contas futuro: “Com a sua morte perdeu o Partido um destacado militantes e o nosso povoumartistaprometedor.Seráessemesmopovoqueosaberávingarno dia da liberdade. Os criminosos não escaparão ao ódio do povo, à sua justiça”. Não há uma teorização sobre a estratégia do partido para o futuro no que respeita à responsabilização política ou criminal dos dirigentes da ditadura ou da políciapolítica,masotextocitadodeixaclaroqueajustiçaseráfeitapelasmãosdo povo.“QuandoemPortugalhouverliberdade,esteeoutroscrimesdofascismoserão julgadoseseráfeitajustiça”.Frasescomoesta,publicadanaediçãonº202deJulhode 1955, recorrentes no Avante! clandestino estão carregadas de uma aparente intencionalidadequeultrapassaoqueestáimpresso,remetendoparaoconceitode QuentinSkinner91dequeotextotemdeserestudadoparaalémdotexto. Nocasodanotíciacitada,queserefereaosassassinatosdeAlfredoDiniz(Alex) edeFerreiraSoaresumadécadaantes,paraládaspalavrasusadasestáocontexto que de alguma forma determina a intencionalidade. Além da garantia de que os criminosos não ficarão impunes, o texto transmite a certeza a quem o lê de que a liberdadenãoéumamiragem,masumacerteza. Podecitar-seaindaoutrotexto,publicadoemSetembrode1962.Depoisdeter sidodenunciadoonomede“umprovocador”,anotíciaéconcluídacomumalertaem formadeameaçaparaofuturo: “Éprecisoqueesteeoutroscanalhassintamopesodoódiopopularpela sua infame colaboração com a PIDE. Que os seus nomes não sejam esquecidosparaqueamanhãsoframojustocastigo”. Aqui, o apelo à justiça surge com laivos de ameaça de vingança para o “amanhã”quandoaliberdadeforconquistada. 91Skinner.
95 2.Obanaldeliberado 2.1Sentimentoeemoção Em1985,nolivroOPartidocomParedesdeVidro,ÁlvaroCunhalteorizasobre acondiçãodesercomunista,alargando-aaosentimento:“Sercomunistanãoéapenas umaformadeagirpoliticamente.Éumaformadepensar,desentiredeviver”92.Nas páginas Avante! clandestino é claro que à razão se alia a emoção. Há textos exemplares, nos quais a exaltação do comportamento heroico de militantes é lexicalmenteelaboradadeformaatransmitirumaenvolvênciaemocional. AmortedeJoséGregóriofoinoticiadanaediçãodeJulhode1961,aoaltoda 1ª página, com fotografia, num texto onde as expressões usadas conduzem a uma quase osmose de significados, que vão da exaltação da heroicidade e abnegação à emoçãodosofrimento,passandopeloelogioàsolidariedadecomunistainternacional eàcertezadequeaditaduraseráderrubada. “NaChecoslováquiasocialistamorreuocamaradaJoséGregório(Alberto). Deixou de pulsar o coração de um amado filho da classe operária portuguesa,dumdosmaisabnegadoslutadorespelacausadosexplorados e oprimidos, duma dos mais destacados obreiros do nosso Partido, dum valorosocombatentepelacausadaindependêncianacional,dademocracia edosocialismo.(...)Nuncapodefrequentaraescolaeaindanãotinha 8 anos quando iniciou a sua vida de operário vidreiro.(...)por se recusar firmemente a dar quaisquer informações à polícia, foi barbaramente espancadoduranteváriashorasconsecutivasporváriosfacínorasdaPIDE até perder os sentidos. Homem de carácter íntegro e dotado de uma extraordináriaforçadevontade,JoséGregórioéumexemploparatodosos militantesdoPartido.ComojustamentedeclarouÁlvaroCunhal,SecretárioGeraldonossoPartido,peranteotribunalqueocondenou,JoséGregório pertenceuaonúmerosdoshomensquepossuemasupremavirtudequeé 92Cunhal,p.195.
96 dedicaçãoilimitadaaonossopovoeànossaPátriaque‘sãooorgulhodo Partido e do Povo’.(...) Numa elevada demonstração de fraterna solidariedadeproletária,oPartidoComunistadaChecoslováquia,opovoe osmédicosrodearam-nodetodoocarinhoetudofizeramparasalvarou prolongarasuavida.(...)OnossopovoprestaráumdiaaJoséGregórioa merecidahomenagem.(...)” Aprosacitadafazumasíntesedodiscursopolíticoracionalcomoemocional, referindo-seaummilitanteedirigenteconsideradoexemplar,masomesmotipode linguagemdeafetoséusadaparacontarumahistóriasobrequemnãotem‘nome’no partido.TemaestruturadeumafábulaoqueselênaediçãodeAbrilde1951,sobrea recolhadeassinaturaspelapazepelodesarmamento,encimadocomotítulo“Uma mulherdeLisboa”: “Quando à porta de uma fábrica do Porto, duas operárias da fábrica procuravam recolher assinaturas, as operárias da fábrica mostravam-se receosas.Entãoumaoperáriadeavançadaidadegritou:Nãotenhammedo deassinar!Éumacausajusta!Ponhamláomeunomeeodosmeusfilhos. Eu tenho 2 netos e não os quero ver mortos. Logo em seguida foram recolhidas41assinaturas”. Entreosmuitostextosqueapelamàemoção,podecitar-seaindaumquefoi publicadona2ªquinzenadeAbrilde1958.Paradenunciar“ummiserável”patrãoe informadordaPIDE,usa-seumformatodehistóriainfantilcommoralnofim. “DenunciadaporumtalHonrado,proprietáriodeumafábricadeconservas de peixe em Olhão, onde trabalhava, foi presa no dia 12 de Março a operária Olívia Lebre, mulher do operário corticeiro José Carlos que se encontrahámesespresonasmasmorrasdaPIDE.AoperáriaOlíviaLebre eraoamparodeduasfilhinhasdetenraidadequeobandodaPIDEque prendeu a sua mãe deixou abandonadas em Olhão. Povo de Olhão! AmparaiasfilhasdaoperáriaOlíviaLebreedenunciaiportodooAlgarveo miserávelqueadenunciou–oindustrialdeconservasHonrado.
97 Destes exemplos pode partir-se para uma reflexão sobre a relação entre o emocionaleoracionalnodiscursopolíticodoscomunistas.Énestecontextoqueo militanteexemplar,obommilitante,sóoénamedidaemquenasuapráticarevela preocupaçãocomooutro,namedidaquenãopõeemperigoavidadeumcamarada oudopartidoelutapelobem-estardopovo. Essa relação com o outro, que é política, torna-se emocional quando é adjetivadasegundopadrõeséticose/oumorais,transformandoomilitanteem“bom” ou“mau”consoante,porexemplo,oseuporteperanteapolíciapolítica. Ao analisar o pensamento de Espinosa, o neurocientista António Damásio escreveexatamentesobrearelaçãodasemoçõescomaética,argumentandoquehá umarelaçãoestreitaentreapráticadaaçãoindividualeasconsequênciasdesta.Em síntese, a boa ação merece esse qualificativo se não provocar danos negativos a outros.DaíqueDamásioconclua:“Espinosaquerdizerqueosistemaconstróiemcada pessoaimperativoséticoscombasenapresençademecanismosdeautopreservação, desdequeessapessoatenhaemmentearealidadesocialecultural.Paraalémdecada si individual há os outros, como indivíduos ou como entidades sociais, e a autopreservaçãodessesoutros,atravésdosseusprópriosapetiteseemoções,deveser tomadaemconsideração”93. A dimensão ética do comportamento emocional individual do militante comunista está presente numa banalização moralizadora nos textos publicados no Avante!, embora reflita a intencionalidade da teorização encontrada em mais uma passagemdotexto“Asuperioridademoraldoscomunistas”,quandoCunhaldefineo internacionalismoproletário “fontecriadorade conceitos,sentimentos eatitudes de generosidade de colectivismo, de fraternidade entre os trabalhadores e os comunistas(...)”. 2.2.Aheroicidade 93AntónioDamásio,AoEncontrodeEspinosa-AsEmoçõesSociaisEasNeurologiaDoSentir(Círculode Leitores,2003),pp.151-152.
98 A exaltação dos atos heroicos dos comunistas é permanente, quer sejam os militantesportugueses,cujocomportamentonaprisãoenosinterrogatóriospoliciais é considerado “exemplar”, ou os membros de partidos-irmãos (em particular o francês,noquadrodaIIGuerraMundial)ouaindaosprotagonistasdaconstruçãoda URSS, além dos “pais” do socialismo e obreiros da Revolução de Outubro. São realçados os “heróis” da conquista do espaço e podem incluir-se no conceito de heroicidadeosresultadoseconómicosesociaisdasociedadesoviética,profusamente divulgadosnaspáginasdoAvante!.OhistoriadorJoãoMadeirafaladeuma“espéciede fé” para designar a forma como é encarado o regime de Moscovo, nascido da Revolução de Outubro de 1917: “Os militantes eram assim educados na exaltação reverencialdaURSS,cujoprocessodeassimilaçãotendia,nadificuldadedeinculcaro detalhe das conquistas concretas da União Soviética, em fazer passar os princípios propagandísticos da “pátria do socialismo” e da “superioridade do socialismo soviético” uma espécie de paraíso na Terra, que tinha nos militantes defensores incondicionaiseindefectíveis.Estadevoçãotornava-seaindaumaespéciedeamparo internacional em relação aos combates perseguidos nas condições difíceis e asperamente vividas na base do partido. A fé na caminhada, da URSS como das “democracias populares”, para o socialismo e para o comunismo era um estímulo poderoso para reforçar convicções e entregas, tornando-se numa espécie de fé revolucionária, de que os militantes comunistas portugueses se alimentavam e acalentavam”94. No plano interno, como sublinha Madeira, “os heróis e mártires comunistas eram bandeiras de exemplo desfraldadas, encorpavam um imaginário colectivo de coragem com que se argamassava a resistência e o combate quotidiano contra o regime, feito de exemplos sempre presentes de um risco assumido, para que cada militantepodiaserconvocadoemcadamomento,mobilizandoacoragemevencendo omedo”95. 94JoãoManuelMartinsMadeira,p.760. 95Madeira,p.768.
99 Masaglorificaçãodosheróisnãopodeenãodeveserconfundidacomoculto dapersonalidade,queCunhalseesforçou,empalavras,porcondenar,emparticular, apósoestalinismo,numquadroemqueopróprioPCUStambémofez.Aliás,naedição nº212,deAbrilde1956,o Avante!reproduzpartedeumasíntesedeumartigodo Pravda,oórgãocentraldoPCUS(PartidoComunistadaUniãoSoviética)apropósitoXX congresso,noqualselê: “Nãopossuindomodéstiapessoal,Stalinenãosónãocortavaoslouvorese elogiosquelhefaziam,comoosapoiavaeestimulavaportodososmeios. Comotempo,estecultodapersonalidadefoitomandoaspectoscadavez maisdeformadosecausousériosdanos.Compreende-sequesemelhantes páticasdeStalinesignificavamumainfracçãodosprincípiosleninistasde direcçãoecontradiziamoespíritodomarxismo-leninismo”. Mas, se no plano teórico a diretiva era atacar o culto da personalidade, na práticapolíticaedaescritacorrente/banaldostextospublicadosnoAvante!eramuito ténueafronteiraentreessecultoeaglorificaçãodosheróisvivosdopartido,entreos quaisCunhalsobressaía.Sãoconstantesapelosàlibertaçãododirigentedopartido, cujo nome “está dentro do coração de todos os trabalhadores portugueses e é respeitadopelosdemocrataspelosdemocrataseanti-fascistasdonossopaís”,lê-sena edição de Janeiro de 1956. Ainda na mesma edição, surge o apelo para que sejam feitasinscriçõesnasparedes,exigindoalibertaçãodeCunhal. O fruto desse apelo surge de imediato, na edição de Fevereiro-Março desse mesmoano,numanotíciaintitulada“Reforcemosmaisemaisalutapelalibertaçãode ÁlvaroCunhal”,naqualsedácontadareceptividadeaosmanifestosdivulgadoseàs inscriçõesfeitasemnumerosospontosdopaís: “(...)Os manifestos foram por quase toda a parte lidos colectivamente, comentados e aprovados calorosamente. Uma jovem católica algarvia afirmou que não havia direito de se praticarem tais atrocidades. Nas aldeiasalentejanas,oentusiasmofoienorme.Oscamponesesreuniram-se paraouvirlerosmanifestosrepetidasvezes.Umavelhinhadizia.‘Eujáouvi leràminhafilha,maselanãoasexplicabemeeutenhodeouviroutravez’. Numrancho,oscamponesesqueestavamalerummanifesto,explicaram
106 Não é raro depararmos com expressões como, “Álvaro Cunhal faz falta ao nossopovo”,insertanaediçãodeFevereiro-Marçode1956,numtextopublicadona 1ªpáginadeapeloàlutapelalibertaçãodeCunhal,entãopresonaPenitenciáriade Lisboa. O sublinhado do dirigente que “faz falta” ao povo imprime uma carga conceptualnãolongeaimprescindibilidade.Poroutraspalavras,oscomunistase,em particular,osdirigentesdopartidopertencemaumgrupoprotetordopovo. Nesse mesmo número do órgão central do PCP, escreve-se sobre a fuga de JaimeSerradacadeiadoFortedeCaxiasemtermosqueconfiguramumaheroicidade foradocomum,superior. “Numa fuga audaciosa, perseguido a pouca distância pelos tiros dos sentinelas,JaimeSerraconseguiupelasegundavezconquistaraliberdade, paravirocuparoseupostodevanguardanalutacontraoinimigodonosso povo–ofascismosalazarista.Asuacoragem,asuadedicaçãoàcausado povo,comprovadasjáváriasvezes,permitirammaisestavitóriadonosso partido sobre os carrascos salazaristas, vitória que enche de alegria o Partido,aclasseoperária,osdemocratasetodoopovo.” Estanotíciapodeserlidacomoumasíntesedospontosqueexplanamosneste capítulo.Afulanizaçãodoconteúdopermiteaoleitorinteriorizarqueafugarelatada nãoéumafugaqualquer,nãoéumaaçãofácil,éumatoheroicocometidocontrao inimigodopovoporumhomemforadocomum,umverdadeirocomunista. Atendamosaosqualificativosqueperpassampelotextoeaoqueelescontêm decargaemotivaparaoleitor:Afugaé“audaciosa”;JaimeSerra,“perseguido”pelos tiros,revela“coragem”,“dedicação”;conquistaaliberdadepelasegundaveznãoem proveitopróprio,masparalutarcontrao“inimigo”,quetambémnãoépessoal,mas simo do “nosso povo”; a sua vitória éa“vitóriado Partido sobre os carrascos”; e, cerejanotopodobolo,“enchedealegriaoPartido,aclasseoperária,osdemocratase todoopovo”. Esta linguagem heroica e moralizadora enquadra-se no programa político e estratégico que viria a ser explanado, mais tarde, por Cunhal em “A superioridade moraldoscomunistas”.
107 Naediçãoseguinte,tambémnaprimeirapágina,éaindaCunhaleaexigência da sua libertação que motiva a publicação da seguinte frase, no final do texto: “Salvemos a vida preciosa de Álvaro Cunhal, a vida de um dos mais dignos e destacadosfilhosdonossopovo!”. Apardaexaltaçãodasqualidadesdealgunsmilitantes,queinduzaideiada construçãodeumasuperioridade,évincadapublicamentealigaçãoentreopartidoe os seus dirigentes ao povo português, o que é uma das constantes nas edições do Avante! clandestino. Há, como se pode perceber em praticamente todos os textos publicadosqueremetemparaalutacontraaditadura,asimbiosedosdoisconceitos,o daheroicidadenadefesadopartidoedosprincípiosideológicoseodopatriotismo, pela defesa do povo, em nome do qual se desenvolve a luta dos comunistas. Sem quererlevarestareflexãoparaocampodoconceitodenacionalismoqueenformao pensamentoepráticadoscomunistasportugueses,évisívelnostextosdoAvante!que opartidosetornasinónimodepovo,nãoapenascomo“classesocial”,mastambém como nação. Oherói é ao mesmotempo superior nasqualidades e filho do povo, entendidocomoumaentidademítica. LidosalgunsexemplospublicadosnoAvante!clandestino,torna-seclaroquea linguagem corrente utilizada não é inócua e a teorização posterior dos conceitos transmitidos ‘banalmente’ vem comprovar que essa escrita está carregada de conceitosteóricos.NoNacionalismoBanal,Billigdiscorresobreessepostuladoquando cita Hannah Arendt ao afirmar que também na imprensa britânica que analisou “a banalidadenãoésinónimodeinocuidade”101.Emboranãoexistaumaintencionalidade conceptualoumesmoconsciente,nocasoemestudonestetrabalho,écumpridoo objectivofinaldecriarumasuperioridademoral. Mas, quando citamos Arendt para explorarmos a ideia de “banalidade” a propósitodopresenteobjectodeestudo,talvezsejarelevanteatendermosaoquea filósofaescrevenopós-escritoincluídonaediçãorevistaeaumentada(de1964)do seulivroEichmannemJerusalém,explorandooconceitodequeháumaausênciade reflexãoideológicanapráticadomal.Arendtescreveque“oquefezdele[Eichmann] 101Billig,p.22.
108 umdosmaiorescriminososdasuaépocafoiaausênciadopensamento–oquenãoé, ealgumaforma,amesmacoisaqueestupidez”102. Semconfundira“banalidadedomal”deArendtcomo“nacionalismobanal”de Billig e, muito menos, estabelecer qualquer paralelismo na análise dos textos publicados no Avante! clandestino, é possível refletir, com base no pensamento de Arendt, na utilização pela imprensa comunista de uma linguagem corrente/banal aparentementedesligadado sustentáculo teórico que a enforma. A base ideológica estálá,emcadapalavra,masoleitor/militantenãoprecisaterumaformaçãoteórica, ou“pensamento”,paraseguirnoseuquotidianodemilitanteasorientaçõesqueessas tais palavras carregam. Do militante espera-se o cumprimento das tarefas estabelecidaspelosdirigentesdopartido,seguindoumalinhadecondutaintrínsecaa umaleituraaparentementedesprovidadepropósitoestratégico.Acresce,nocasoem estudo,quealeituradoAvante!foibasilar,tantonotempodaditaduracomojáem democracia,naformaçãodosmilitantesdebase,muitosdosquaisanalfabetos,que tomavam conhecimentos dos textos em leituras colectivas clandestinas. Como exemplificouohistoriadorJoséNeves,aotomarcomoestudodecasoaexperiênciade trêsirmãosmilitantesdoPCP,“aspráticasdeleituranãopassamtantopeloconsumo dos clássicos, isto é pela doutrinação política, mas mais por processos variados e dispersosdeleituradoromanceaojornal”103.Nomesmotrabalho,Nevessublinha,no entanto, que se os canais que se poderiam designar por banais serão centrais na alfabetização comunista dos militantes de base, o mesmo não se passa com os dirigentes.“Aleituraéumindispensávellubrificanterevolucionárioqueoperaemdois níveis. Num primeiro nível, os quadros do partido necessitam ler os clássicos para encontraremformasdedirecçãopolíticaquesejamadequadas.Numsegundonível,a literaturadopartido,sobaformadediferentessuportestextuais,emregraproduzida por aqueles quadros, deve ser lida por uma comunidade de trabalhadores pensada comoumcomunidadedeleitores.104” 102HannahArendt,EichmannEmJerusalém,UmaReportagemSobreaBanalidadeDoMal(Itaca),p.428. 103DiogoRamadaCurto(dir)eJoséNeves,EstudosdeSociologiaDaLeitura-AlfabetizaçãoLeninista(O CasoDosIrmãosFigueiredo)(FundaçãoCalousteGulbenkian,2006)p.702. 104CurtoeNeves,p.678.
109 Instadaafazerumareflexãosobresefoicultivada,nomeadamenteatravésdo Avante!,aideiadasuperioridademoraldoscomunistas,MargaridaTengarrinha,que viveunaclandestinidadeenuncaestevepresa,recusaaideiade existiranoção de supremacia,masadmite:“Háumasuperioridademoraldoscomunistas.Aexaltaçãode algunsheróisécompreensívelporqueelesservem-nosdeexemploefazemparteda educação dos mais novos. Devemos usar o exemplo da vida dessa gente para definirmosonossoprópriocaminho”. Entre os que pertencem ao grupo dos quadros/heróis, é significativo que a heroicidadesejasinónimodedever,comosepodeatestarpelaopiniãomanifestada porDomingosAbrantes,centradanoconceitodasuperioridade:“Nãoéheroísmo,é umaquestãodedever.Hápessoasqueforamtorturadas,assassinadas,porquê?Por princípios,porquetinhamvalores,porqueconsideravamquenãotinhamodireitode salvarapeleafavordavidadeoutros.Háumconjuntodeprincípioséticosepolíticos quesepõeacimadetudo.Háumasuperioridadedesdelogoporteroptadoporessa vida.Outrosnãoofizeram,quemofezforamoscomunistas.Háumamoralsuperior doscomunistas,fomososúnicosduranteofascismocomaparelhoclandestino”. O discurso de Domingos Abrantes remete novamente para Billig e para a referidadicotomiadasupremaciaentre“nós”eos“outros”,quepodeseraplicadaà teorizaçãoexpressanoopúsculoCunhal. “A força do exemplo, pelo seu extraordinário poder de convencimento e de atracção junto das massas, é um dos grandes trunfos da acção dos comunistas. O militantesérioemodestoque,nasmaisdiversascondições,defendeinfatigavelmente os interesses dos trabalhadores, o clandestino que suporta sem abrir boca cruéis torturas,ocomunistasoldadoouguerrilheiroquedáavidaemdefesadoseupovo,o herói do trabalho socialista, iluminam com os seus exemplos o caminho da luta, alargamereforçamoprestígioeinfluênciadoPartido,atraemàssuasfileirasmuitos novoscombatentes.”105 NesteexcertodateorizaçãodeCunhal,queterásidolidoporumaminoriade militantes,estácontidatodaaprodução“banal”impressanaspáginasdoAvante!e 105ÁlvaroCunhal,ASuperioridadeMoralDosComunistas(EditorialAvante,1974),p.5.
110 que chegou a uma comunidade muito alargada de militantes e de resistentes à ditadura,em geral. Noutras passagensdotexto é bem notória aimportância que é dadaaocomportamentomoral,reforçandosempreaforçaessencialdoexemplo:“As massas não só aferem, pela sua experiência, a justeza da orientação política e das palavras de ordem do Partido como estão particularmente atentas e são particularmente sensíveis ao exemplo moral dado pelos seus membros. Exemplo de dedicação. Exemplo de combatividade e firmeza. E também exemplo de comportamento pessoal num sentido mais largo: exemplo de dignidade e da intransigência para com as concepções da moral burguesa e as práticas dela decorrentes.Seavanguardaajuízadasinfluênciasdamoralburguesasobreasmassas, asmassasjulgamporsuavezocomportamentomoraldavanguarda.Oscomunistas têmdeagirdeformaapassarcomhonraumtaljulgamento.106 Ainda analisando as palavras do dirigente comunista à luz do que foi sendo escrito no Avante! é visível, uma vez mais, uma consonância conceptual entre o teórico e o banal. Depois de termos evidenciado notícias nas quais se dá conta de “falhas”decondutadealgunsmilitantes,Cunhalsintetizaoconceitododeverpara comopartido,realçaaimportânciadadisciplinaedaauto-crítica,marcandodistância da noção da infabilidade: ”Seria utopia pretender que os comunistas fossem seres ‘puros’e isentos defaltas.(...)A revolução não sefazcom seres ideais. Faz-se com homens que sofrem influências morais negativas do capitalismo e dos variados e omnipresentesmeioseacçãoespiritualdeixadospormiléniosdesociedadesdivididas em classes antagónicas, nas quais a moral dominante era a moral das classes dominantes,istoé,dasclassesexploradoras.Estasituaçãoincontroversanãolevaà renúnciadotrabalhoeducativodoPartido,antesaumentaasuaresponsabilidade.O Partido chama a si os melhores, os mais conscientes, os mais dedicados ao bem comum.MastambémvêmaoPartido,quaisquersejamascondiçõesemqueactuam (no poder, legal, clandestino), homens com falhas mais ou menos graves na sua formaçãoenasua conduta.Utilizandoa armadacríticaedaautocrítica,o Partido ajuda os seus membros a superar debilidades e faltas e forja nas próprias fileiras 106Cunhal,ASuperioridadeMoralDosComunistas,p.6.
111 lutadores infatigáveis, generosos, dedicados, pessoalmente isentos, corajosos, leais, despretensiososesimples–homensemulherescapazesdeinspirar,peloseuexemplo, os‘milagres’dequefalavaLenine.”107 Os comunistas são homens e não seres sobre-humanos, mas “não se distinguem apenas pelos seus elevados objectivos e pela sua acção revolucionária. Distinguem-se também pelos seus elevados princípios morais. (...) A moral dos comunistasécontráriaesuperioràmoralburguesa”108. Anosmaistarde,jáemdemocraciaenumcontextodedivergênciasinternas quanto ao rumo do partido, em Agosto de 1985, Cunhal edita em livro um longo ensaio“PartidocomParedesdeVidro”,noqualpretendeu,segundoassuaspróprias palavras insertas no início do prefácio da 6ª edição, de Janeiro de 2002, “dar a conhecer como nós, os comunistas portugueses, concebíamos, explicávamos, e desejávamosonossopartido”. Nesteensaio,Cunhaldeixaimplícitosconceitosquecolocamoscomunistas,em particularosdirigentes,numpatamarsuperioraosdarestantepopulação,aoassumir que “o reconhecimento da superioridade moral do partido é um dos mais sólidos critériosdoêxitodasuaacçãocomovanguarda.Atransformaçãodadeterminaçãoe doheroísmodevanguardanumfenómenodemassas,comoseverificounarevolução portuguesa,éumdosmaissólidoscritériosetodasverdadeirasrevoluçõesedopapel queneladesempenhaoPartido”.109 Cunhalafirma,porexemplo,serimportantenumcomunista,“foraasuaacção revolucionária,sentir-seegostardesentir-secomoum‘homemcomum’,comouma ‘mulhercomum’”110.Note-sequeodirigentedoPCPcolocaoscomunistasnumplano distintodooutroscidadãos,aonãoafirmarqueumcomunistaéum“homemcomum”, massimquedevesentir-seum“homemcomum”. 107Cunhal,ASuperioridadeMoralDosComunistas,p.6. 108Cunhal,ASuperioridadeMoralDosComunistas,p.1. 109Cunhal,OPartidoComParedesdeVidro,p.197. 110Cunhal,OPartidoComParedesdeVidro,p.204.
112 Mesmonaclandestinidade,ouatéporcausadela,omilitanteeraimpelidoa agiresentirnorelacionamentocomosoutroscidadãos,como“homemcomum”,é sempre a expressão usada por Cunhal ao estabelecer regras para os militantes e dirigentesdo partido. “Há camaradas que,namedida em que desenvolvemosseus conhecimentosetêmmaisresponsabilidades,sefatigamaoouvirhomensemulheres compreparaçãomuitoelementar,porvezescomgrandeatrasonaconsciênciapolítica. Algumacoisafaltaadirigentesdeumpartidooperárioquandonãosabemapreciaro convívio com as pessoas mais simples, mesmo as mais atrasadas, e não sabem descobrirouencontrarnariquezadequalquersermotivobastanteparaaalegriado convíviohumano”.111 Há, nestas passagens da orientação dada por Cunhal aos militantes, um manifestosentidodesuperioridadedocomunistaemrelaçãoaos“maissimples”,ao “homem comum”, numa teorização do conceito que está presente nos textos publicadosnasediçõesdoAvante!clandestino.Peladescriçãodeatitudesexemplares, quersejanocomportamentonaprisãoounavidaquotidianadelutacontraaditadura em defesa dos trabalhadores, o órgão central do PCP foi forjando um pensamento ético/moralquesóviriaasersintetizadoteoricamentemaistarde,jáemdemocracia. Pode anotar-se que, no caso da transposição dos conceitos implícitos nos textos publicados no Avante! para a teorização elaborada por Cunhal, há uma correspondênciacomoqueBilligassinala,aoreferir-seaoprocessode“incrustaçãoda nossaidentidadeatravésdasrotinasenavidasocial”.112Noentanto,aprecedênciado banaléapenasaparente,umavezqueháumesteioideológicoquepossibilitaessatal banalidade,quese vai entranhando nos membrosdatal comunidade imaginada de Anderson. É o que, de alguma forma, sintetiza Cunhal na sua teorização sobre a superioridademoraldoscomunistas,datadadeJaneirode1974,“osideaispolíticos influemnasrepresentaçõeseatitudespsicológicasetransplantam-separaosconceitos moraisedestesparaasatitudesehábitosdeprocedimento”113. 111Cunhal,OPartidoComParedesdeVidro,p.204. 112Billig,p.291. 113Cunhal,ASuperioridadeMoralDosComunistas,p.2.
113 Conclusão Chegou-seà parteconclusivadeste trabalhocommais doqueuma resposta paraaperguntainicial:“ComooAvante!tratouosseus?”oucomocontribuiuparaa construção de uma identidade comunista. Partiu-se de uma questão que veio a revelar-selimitadora aolongoda investigação. Éque nem o Avante!clandestino se podeconfinaraoestatutodeórgãocentraldoPartidoComunistaPortuguêsnemos “seus”sãoapenasosmilitantescomunistas. A análise das edições regulares do Avante! clandestino, entre 1941 e 1974, revelaaexistênciaderegistoslinguísticosdiferentesparaosdiversostiposdeleitores imaginados por quem escreve os textos publicados. São distintos os termos usados paraentidadesdiferenciadas,asquais,noentanto,serevelamsemelhantesnamedida emquepertencemàcomunidadeimaginadadosleitoresdoAvante!.Oórgãocentral doPCPsuplantouamissãoaqueestavaobrigadopeladefiniçãodeLenine,queeraa deser,simultaneamente,umorganizador,uminformadoreummobilizador,etornouse,comorefereMargaridaTengarrinha(jácitadaanteriormente),“oúnicoórgãode informaçãoquediziatodaaverdade,proibidapelacensuranosoutrosjornais”.Uma frase que remete para o lema “A verdade a que temos direito” do jornal o diário, editado entre Janeiro de 1976 e Junho de 1990, propriedade da editorial Caminho, ligadoaoPCP.Nocasodeodiário,averdadejánãoécondicionadapelacensura,mas, na óptica dos comunistas, pelo noticiário que é ignorado pelos outros jornais, em tempo de refluxo revolucionário e da consequente perda de influência do PCP na Imprensa. Comoficoureferenciadoaolongodestetrabalho,nasediçõesclandestinasdo órgão central o PCP publicam-se textos diretamente dirigidos aos militantes comunistas nos quais o pendor ideológico é mais claro, com uma linguagem de proximidadeeempática,quersejaparalouvarcomportamentos,condenartraiçõese fraquezas ou para orientar no caminho a seguir. É exaltada a heroicidade dos “melhoresfilhosdoPovo”edenegridaaimagemdos“miseráveistraidores”,que,em muitoscasos,nãosedistinguemdo“inimigo”.Oscomportamentosindividuaiseram indicados como exemplares, tanto no bom como no mau sentido, sinalizando com
114 sentidoobrigatórioocaminhoaseguir. Aconstruçãodestestextosésusceptíveldecriarsentimentosdecomoçãoou de ódio associados a comportamentos éticos, quer sejam militantes ou inimigos políticos.O usodo “nós” em oposiçãoao “outro”, de quefala Michel Billigpara o nacionalismo,transporta-separaomilitanteeparaasuarelaçãocomosdefora,os não militantes, edificando paulatinamente o conceito da superioridade moral dos comunistas,teorizadoporÁlvaroCunhal. Mas entre esse “nós” e os “outros” há, no Avante! e no partido, uma zona cinzenta onde cabem os “homens honestos”. A adjetivação, de “honestos” é recorrentemente usada nas páginas do Avante! para designar os não militantes, os anti-fascistasnãohostisaopartido. O militante integra uma comunidade imaginada de leitores que constitui o universoalargadodedestinatáriosdamensagemescrita.Estáexpressonoconteúdoe naformadostextosqueoAvante!“fala”tambémparaosantifascistascomoumtodo, quando apela à unidade das forças democráticas contra o salazarismo ou ainda quando relata atrocidades da guerra colonial ou da violência da polícia política nos interrogatórios e nas cadeias. São textos que induzem a construção de um projeto político agregador de oposição à ditadura, mas que entram em contradição com expressõesusadasbastasvezesdecondenaçãoaestratégiasdeoposiçãodiversasàs seguidaspelopartido.Aprofusãodeartigosdotipoagregadordashostesantifascistas é mais acentuada durante o período da II Guerra Mundial, seguindo a influência estratégicadeFrentePopularfrancesa,nopodernofinaldosanos30,enacampanha eleitoralparaaPresidênciadaRepública,em1958,noquadrodomovimentogerado pelacandidaturadeHumbertoDelgado. UmtipodeleitoressemprepresentecomodestinatáriodoAvante!clandestino são os trabalhadores. As suas lutas são eleitas como motor da ação política dos comunistasesãoprofusamentenoticiadasnaspáginasdojornal.Emboranãotenha sidoobjectodeestudopreferencialnestetrabalho,acontestaçãodostrabalhadores estáemprimeiroplanononoticiárioeéenquadradanacríticaàsopçõeseconómicas do regime, às quais é proposta uma linha de rumo alternativa. A par das lutas operáriasenoscampos,que sãocentrais nasedições dosanos 40e 50,na década
115 seguintecomeçamasurgirnotíciasdefocosdecontestaçãoentreosestudantes,onde oPCPperdeinfluênciaparaosnovosgrupospolíticosmaoístas,eemsectoresmenos tradicionais,numsinaldenovostemposqueseadivinham,comoprincípiodeuma certa “democratização” no acesso ao ensino, decorrente de uma classe média ascendenteecomoreforçodosectorterciáriodaeconomia.AspáginasdoAvante! espelham a resposta que o partido vai ter que dar a esses novos desafios na construçãodeumapolíticaeconómicaalternativaaocapitalismoe,emparticular,ao rumoseguidopeladitadura.Éocasodaslutasdosbancários,enfermeirosemédicos quevãoassumiralgumaexpressãonoAvante!clandestino.EnquantooPCPalargaa intervençãosocial,oseuórgãocentraltentaalcançarnovosleitoresimaginados. Seacomunidadeimaginadadeleitorestemcomonúcleoosmilitantes,opovo portuguêséouniversomaisalargadodedestinatáriosdamensagem,aoexprimir-se em nome desse mesmo povo, exaltando os valores patrióticos, na denúncia da carestia,emparticular,umavezmaisduranteaIIGuerraMundialou,jánoperíodo marcelista,aocontestarideiadeumapossíveltransiçãodemocráticaoregime.Porser clandestino,oAvante!,comoéassumidoporDomingosAbrantes,escapavaàcensura préviaobrigatóriaparatodaaImprensaoquelhepermitianoticiartornar-seummeio deinformaçãonãocondicionadopelaslimitaçõesàliberdadedeexpressão. O Avante! clandestino, redigido, composto e impresso em condições muito difíceis, perigosas para os militantes envolvidos e arriscadas para a máquina partidária,foidistribuídoportodoopaísatravésdarededemilitantes,chegandopelo correioamuitos“democratas”“honestos”eintroduzidonasprisõesdeformamassiva. Tambémaí,ojornaleraumelementocentralnaligaçãoentreospresoseoexterior. Para dentro passavam mensagem de solidariedade e de apoio à resistência, para foram eram enviadas denúncias das condições nas cadeias e das torturas nos interrogatóriospoliciais.Esemprequeerainterceptadopelapolíciapolítica,oAvante!, alémdeserumfocodepreocupaçãopeloquerepresentavadeveículodedenúncia dosprocessosutilizadosnascadeiasenosinterrogatóriosedeexaltaçãodaresistência ospresos,tornava-setambémfontedeinformaçõesparaosagentes.Daíquetenha surgidocomorelevantesaberseasnotíciaseramredigidasapensartambémnesse grupodeleitoresespeciais.Sechegouahaverpublicaçãodenotíciasfictíciasoucom