scieee AI-readable full text Open interactive document viewer

Avaliação da ingestão energética e em macronutrientes da população adulta portuguesa

Pinhão, Sílvia,Poínhos, Rui,Franchini, Bela,Afonso, Cláudia,Teixeira, Vitor Hugo,Moreira, Pedro,Mendes, Bruno Miguel Paz,Almeida, Maria Daniel Vaz de,Correia, Flora

Abstract

RESUMO - É fundamental conhecer hábitos alimentares e nutricionais de uma população, para poder intervir na promoção da saúde da mesma. Com este estudo epidemiológico transversal representativo da população portuguesa adulta (dados da SPCNA), pretendeu-se conhecer o padrão nutricional de ingestão quer energética quer em macronutrientes. Por entrevista individualizada (domicílio), registaram-se dados sociodemográficos e avaliou-se a ingestão alimentar, por questionário, das 24 h anteriores. Assim, os portugueses ingerem em média: 2.056 kcal/dia, 19,1% de proteínas, 31,3% de gordura, 45,8% de hidratos de carbono e 3,8% de etanol. Estes dados serão válidos para intervenções adequadas na saúde pública portuguesa.

Full text

r e v p o r t s a ú d e p ú b l i c a . 2 0 1 6;3 4(3):220–235 www.elsevier.pt/rpsp Artigo original Avaliac¸ão da ingestão energética e em macronutrientes da populac¸ão adulta portuguesa Sílvia Pinhãoa,b,∗, Rui Poínhosa, Bela Franchinia,c, Cláudia Afonsoa,c, Vitor Hugo Teixeiraa,c, Pedro Moreiraa,c, Bruno Miguel Paz Mendes Oliveiraa,d, Maria Daniel Vaz de Almeidaa,ce Flora Correiaa,b,c,e aFaculdade de Ciências da Nutric¸ão e Alimentac¸ão, Universidade do Porto, Porto, Portugal bUnidade de Nutric¸ão e Dietética, Centro Hospitalar São João, EPE, Porto, Portugal cDirec¸ão da Sociedade Portuguesa de Ciências da Nutric¸ão e Alimentac¸ão, Porto, Portugal dLaboratory of Artificial Intelligence and Decision Support (LIAAD), Instituto de Engenharia de Sistemas e Computadores, Tecnologia e Ciência (INESC TEC), Porto, Portugal eUnidade de I&D de Nefrologia, Instituto Nacional de Engenharia Biomédica (INEB), Porto, Portugal informação sobre o artigo Historial do artigo: Recebido a 4 de novembro de 2015 Aceite a 16 de junho de 2016 On-line a 29 de julho de 2016 Palavras-chave: Portugueses Ingestão Nutrientes Energia r e s u m o É fundamental conhecer hábitos alimentares e nutricionais de uma populac¸ão, para poder intervir na promoc¸ão da saúde da mesma. Com este estudo epidemiológico transversal representativo da populac¸ão portuguesa adulta (dados da SPCNA), pretendeu-se conhecer o padrão nutricional de ingestão quer energética quer em macronutrientes. Por entrevista individualizada (domicílio), registaram-se dados sociodemográficos e avaliou-se a ingestão alimentar, por questionário, das 24 h anteriores. Assim, os portugueses ingerem em média: 2.056 kcal/dia, 19,1% de proteínas, 31,3% de gordura, 45,8% de hidratos de carbono e 3,8% de etanol. Estes dados serão válidos para intervenc¸ões adequadas na saúde pública portuguesa. © 2016 Os Autores. Publicado por Elsevier Espa˜ na, S.L.U. em nome de Escola Nacional de Sa´ ude P´ ublica. Este ´ e um artigo Open Access sob uma licenc¸a CC BY-NC-ND (http:// creativecommons.org/licenses/by-nc-nd/4.0/). Evaluation of energetic and macronutrients intake in the adult Portuguese population Keywords: Portuguese Intake Nutritients Energy a b s t r a c t Gathering knowledge about food and nutritional habits of a population is of the utmost importance since dietary intervention positively impacts health outcomes across the life span. With this transversal epidemiologic study representative of the adult Portuguese population (data from SPCNA), we tried to know the nutritional intake pattern (energy and macronutrients) of the Portuguese population. In an domiciliary individualized ∗Autor para correspondência. Correio eletrónico: [email protected].pt (S. Pinhão). http://dx.doi.org/10.1016/j.rpsp.2016.06.004 0870-9025/© 2016 Os Autores. Publicado por Elsevier Espa˜ na, S.L.U. em nome de Escola Nacional de Sa´ ude P´ ublica. Este ´ e um artigo Open Access sob uma licenc¸a CC BY-NC-ND (http://creativecommons.org/licenses/by-nc-nd/4.0/). r e v p o r t s a ú d e p ú b l i c a . 2 0 1 6;3 4(3):220–235 221 interview sociodemographic data were registered and food intake was evaluated by the 24-hour recall method. Portuguese energy intake, is on average, 2056 kcal/day, distributed by 19.1% of protein, 45.8% of carbohydrates and 31.3% of total fat, and 3.8% of ethanol. These data will be important to Portuguese public health interventions. © 2016 The Authors. Published by Elsevier Espa˜ na, S.L.U. on behalf of Escola Nacional de Sa´ ude P´ ublica. This is an open access article under the CC BY-NC-ND license (http:// creativecommons.org/licenses/by-nc-nd/4.0/). Introduc¸ão A alimentac¸ão é um ato cultural. A necessidade biológica alia- -se a significados, usos e costumes, comportamentos, etnias, religiões, aversões que transformam a alimentac¸ão numa forma de comunicac¸ão que permite a partilha de diversas experiências entre grupos de pessoas1. Conhecer os hábitos alimentares e nutricionais de uma populac¸ão é fundamental para que o trabalho de um nutricionista seja exercido corretamente, quer na prevenc¸ão de doenc¸as relacionadas com a alimentac¸ão quer no sentido de delinear estratégias políticas, ou para poder intervir, adequando os tratamentos possíveis à diversidade de situac¸ões, de forma a que sejam mais adaptados e permitam atingir os objetivos propostos2. No comportamento alimentar, estão em discussão várias áreas disciplinares que vão ser capazes de identificar e destacar determinantes alimentares: fisiológicos, culturais, demográficos, económicos, sociológicos, psicológicos, de marketing, entre outros3. Avaliar a ingestão alimentar de uma populac¸ão não é fácil e, apesar de existirem várias ferramentas para estimar a ingestão de alimentos, a European Food Safety Authority (EFSA) defende que os inquéritos alimentares devem ser realizados utilizando o método da recordac¸ão das 24 horas anteriores, incluindo 2 dias não consecutivos4. A ingestão nutricional das populac¸ões é avaliada por ingestão média, deve contribuir para a boa saúde da populac¸ão e deve verificar-se se está a ser ou não adequada. As recomendac¸ões de referência da populac¸ão norte-americana (dietary reference intakes [DRI]) podem ser usadas como meio de avaliac¸ão de adequac¸ão de ingestão5. A JOINT WHO/FAO Expert Consultation 2004 desenvolveu metas populacionais, correpondentes a consumos médios da populac¸ão, consideradas como objetivos de manutenc¸ão da saúde, direcionadas para a prevenc¸ão de doenc¸as crónicas relacionadas com a alimentac¸ão6. Estes objetivos nutricionais podem ser usados no desenvolvimento de escolhas alimentares mais saudáveis6,7. O primeiro e único questionário para avaliar a ingestão alimentar dos portugueses, de forma significativa e representativa, foi realizado em 19808,9. Em 2009, período de elevadas disponibilidades alimentares que antecedeu o período da crise económica, a Sociedade Portuguesa de Ciências da Nutric¸ão e Alimentac¸ão (SPCNA) com o apoio da Nestlé, no âmbito de um protocolo de mecenato científico entre as 2 instituic¸ões, desenvolveu um projeto denominado Alimentac¸ão e Estilos de vida da Populac¸ão Portuguesa, do qual fez parte um questionário alimentar e cujos dados foram usados neste trabalho. Objetivos Foi objetivo deste trabalho conhecer o padrão nutricional de ingestão da populac¸ão portuguesa, sob o ponto de vista energético, de macronutrientes, cafeína, etanol e água, por sexo, faixa etária, região de residência, estado civil, nível de escolaridade e situac¸ão profissional. Materiais e métodos Os dados deste trabalho são decorrentes do projeto Alimentac¸ão e Estilos de Vida da Populac¸ão Portuguesa, recolhidos entre fevereiro e abril de 2009. Trata-se de um estudo epidemiológico transversal, realizado numa amostra representativa da populac¸ão portuguesa adulta (> 18 anos). Aplicou-se um questionário a nível nacional, onde se incluíram todas as regiões de Portugal (Continente, Ac¸ores e Madeira), para avaliar a ingestão alimentar da populac¸ão adulta portuguesa. As entrevistas para a recolha de dados foram realizadas no domicílio dos inquiridos, cuja selec¸ão foi pela metodologia random route. Consideraram-se 7 regiões de Portugal, de acordo com o NUT II, considerando um universo global de 8.303.248 indivíduos com idade igual ou superior a 18 anos e a sua subdivisão por sexo, grupo etário e região de residência (Instituto Nacional Estatística [INE], Censos 2001)10. Assumiu-se um nível de significância de 95%. Os dados foram obtidos através de entrevistas realizadas individualmente, com inquiridores treinados por uma equipa de nutricionistas da SPCNA. Efetuaram-se 12.643 contactos, 3.519 recusaram-se a participar e 5.595 eram impossíveis de aplicar. Conseguiu-se, assim, uma amostra representativa da populac¸ão adulta portuguesa, com exclusão de mulheres gestantes ou lactantes, composta por 3.529 indivíduos, dos quais 3.047 (1.590 mulheres e 1.457 homens) consideraram que as 24 horas anteriores tinham sido dias «habituais», sendo por essa razão a amostra usada para a realizac¸ão deste trabalho. Para a caraterizac¸ão sociodemográfica, foram registados: o sexo, a idade, o número de anos de escolaridade, a situac¸ão profissional, o estado civil e a região de residência no momento da entrevista. A ingestão alimentar foi avaliada através de um único inquérito às 24 horas anteriores, doravante designado 24 horas, sendo registados todos os alimentos e bebidas ingeridos. De forma a manter a representatividade do padrão alimentar, as entrevistas foram efetuadas entre terc¸a-feira e sábado, correspondendo, desta forma, as 24 horas anteriores a dias úteis11,12. Foram ainda registados os horários e designac¸ões de todas as refeic¸ões. Além da designac¸ão dos 222 r e v p o r t s a ú d e p ú b l i c a . 2 0 1 6;3 4(3):220–235 alimentos e bebidas, foram inquiridas as quantidades e, sempre que aplicável, marcas comerciais e modos de confec¸ão. A quantificac¸ão foi efetuada com recurso ao Manual de Quantificac¸ão de Alimentos13, sendo também utilizadas medidas caseiras14 e, no caso dos alimentos e bebidas vendidos em embalagens individuais, registou-se a quantidade correspondente. Todos os alimentos foram codificados tendo como base o Manual de Codificac¸ão Do Servic¸o de Epidemiologia da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto (SE-FMUP). A conversão dos alimentos em nutrientes foi efetuada usando como base o Food Processor Plus®(ESHA Research, Salem, Oregon, Estados Unidos da América [EUA]), adaptado pelo SE- -FMUP com informac¸ão nutricional proveniente de tabelas de composic¸ão de alimentos do departamento de Agricultura dos EUA e da Tabela de Composic¸ão de Alimentos Portugueses15. Para alguns pratos ou sobremesas, não foi possível obter informac¸ão nutricional dos produtos já confecionados e, por isso, recorreu-se a informac¸ão da composic¸ão dos ingredientes que constituíam a receita culinária. A análise foi efetuada sob o ponto de vista energético, de macronutrientes (proteínas, lípidos, hidratos de carbono [HC]), etanol, cafeína e água, em quantidade e/ou em percentagem do valor energético total (VET). Para calcular a contribuic¸ão dos macronutrientes e do etanol para o VET, multiplicou-se a quantidade de cada macronutriente pelo correspondente coeficiente de Atwater, arredondado à unidade16. Para avaliar a adequac¸ão de ingestão de macronutrientes, os valores foram comparados com as DRI: intervalo aceitável de distribuic¸ão dos macronutrientes (proteínas [10-35%]; gordura total 20-35%; ómega-3 [0,6-1,2%]; ómega-6 [5-10%] e HC [45-65%])17 e com os objetivos nutricionais para a prevenc¸ão de doenc¸as crónicas relacionadas com a alimentac¸ão6,18. Considerou-se ingestão adequada quando os valores reportados se encontravam dentro dos intervalos de referência. Valores abaixo ou acima do intervalo de referência foram classificados como inadequados. Análise estatística O tratamento estatístico foi realizado no programa IBM SPSS Statistics IBM versão 22 para MAC (Statistical Package for the Social Sciences, SPSS Inc, Chicago, EUA). Os dados foram ponderados de acordo com o Censos 2001, de forma a serem representativos da populac¸ão portuguesa (INE, Censos 2001)10. De forma a aplicar os testes estatísticos mais adequados, foi avaliada a normalidade da distribuic¸ão das variáveis contínuas em estudo. A normalidade das variáveis foi avaliada pelo método do coeficiente de simetria e de achatamento. A estatística descritiva consistiu no cálculo da média e desvio-padrão (dp) no caso das variáveis cardinais, e no cálculo de frequências no caso das ordinais e nominais. Para a comparac¸ão de amostras independentes, foi usado o teste t de Student e a ANOVA para verificar a existência de diferenc¸as entre as médias, ou o teste de Mann-Whitney e o Kruskal-Wallis para comparar ordens médias de variáveis ordinais. Utilizou-se o teste do qui-quadrado para determinar a dependência entre pares de variáveis nominais. Foi realizada uma análise de variância multivariada, usando um modelo linear geral para medir o efeito sobre a energia, macronutrientes causado por cada uma das variáveis independentes (sexo, idade, estado civil, grau de escolaridade e região de residência), ajustado para todos os outros. Considerando a classificac¸ão de Cohen (1988), os tamanhos do efeito foram classificados como pequenos (␩2 < 0,035), médios (␩2 ∈ [0,035; 0,100]) ou grandes (␩2 ≥ 0,100). Considerou-se um nível de significância de 0,05. Rejeitou-se a hipótese nula quando o seu nível de significância crítico (p) fosse inferior a 0,05. Resultados A análise geral das características desta amostra representativa da populac¸ão portuguesa permite constatar que mais de metade são mulheres, que a idade média dos portugueses é de 45,2 ± 18,5 anos, sendo de salientar que mais de metade tem 45 ou mais anos de idade (tabela 1). Um em cada Tabela 1 – Características sociodemográficas da populac¸ão portuguesa Populac¸ão portuguesa n = 3.047 n % Sexo Masculino 1.457 47,8 Feminino 1.590 52,2 Idade (anos) 18-29 802 26,3 30-44 688 22,6 45-64 927 30,4 65 ou mais 630 20,7 Região de residência Norte 1.126 36,9 Centro 527 17,3 Lisboa e Vale do Tejo 992 32,5 Alentejo 165 5,4 Algarve 111 3,6 Ac¸ores 61 2,0 Madeira 67 2,2 Estado civil Solteiro 909 30 Casado/união de facto 1.482 48,9 Separado/divorciado 262 8,6 Viúvo 380 12,5 Nível de escolaridade < 4.◦ano 211 7,1 4.◦ano 499 16,7 6.◦ano 256 8,6 9.◦ano 617 20,7 12.◦ano 784 26,3 Superior (bacharelato ou superior) 617 20,7 Situac¸ão profissional Ativo 1.550 51,3 Estudante 432 14,3 Desempregado 202 6,7 Doméstica 183 6,1 Reformado 653 21,6 r e v p o r t s a ú d e p ú b l i c a . 2 0 1 6;3 4(3):220–235 223 Tabela 2 – Ingestão energética e de nutrientes, bem como de cafeína, etanol e água – amostra total e por sexo Portugueses Homens Mulheres sig n = 3.047 n = 1.457 n = 1.590 Média dp Média dp Média dp Proteínas (g) 94 45 104 47 85 41 < 0,001 Gordura total (g) 71 38 81 42 62 32 < 0,001 HC (g) 221 91 234 99 209 81 < 0,001 Etanol (g) 12 25 21 32 4 11 < 0,001 VET (kcal) 2.056 818 2.310 887 1.825 670 Gordura total (%VET) 31,3 8,3 31,8 8,4 30,8 8,2 0,001 AGM (%VET) 12,3 4,4 12,4 4,2 12,1 4,6 0,070 AGP (%VET) 2,3 1,5 2,1 1,5 2,4 1,5 < 0,001 Ómega-6 (AGP) (%VET) 3,6 2,2 3,7 2,4 3,5 2,1 0,025 Ómega-3 (AGP) (%VET) 0,3 0,4 0,3 0,4 0,3 0,4 0,122 AG-trans (%VET) 0,4 0,9 0,5 1,0 0,3 0,8 < 0,001 AGS (%VET) 8,3 4,0 8,7 3,9 7,9 4,1 < 0,001 HC (%VET) 45,8 11,1 42,8 10,5 48,6 10,9 < 0,001 Ac¸úcares simples (%VET) 14,8 8,5 12,6 7,4 16,8 9,0 < 0,001 Proteína (%VET) 19,1 5,9 18,8 5,7 19,4 6,0 0,005 Colesterol (mg/dia) 349 277 389 318 314 228 < 0,001* Sódio (mg/dia) 2.180 1.399 2.556 1.630 1.837 1.036 < 0,001* Fibra (g/dia) 12,7 7,5 13,0 7,9 12,5 7,2 0,161* Etanol (%VET) 3,8 7,6 6,6 9,5 1,2 3,8 < 0,001 Cafeína (mg) 161 184 177 180 146 186 < 0,001* Água (mL) 1.993 797 2.022 796 1.967 798 0,058 T de student e*Mann Whitney. 3 portugueses vive em Lisboa e Vale do Tejo (LVT), e a região do país onde habitam maior número de portugueses é o Norte. Quase metade são casados ou vivem em união de facto e os separados/divorciados são os menos frequentes (tabela 1). Concluem em média 9,3 ± 3,7 anos de escolaridade, e metade tem uma escolaridade igual ou superior ao 12.◦ano. A maioria são ativos, mais de um quinto são reformados (tabela 1). Nas tabelas 2 a 7 encontra-se descrita a quantidade média (g) de macronutrientes e etanol ingeridos pelos portugueses, bem como a média do VET. Podemos também observar o contributo percentual de cada macronutriente (proteínas, gordura total, HC) e etanol, bem como a quantidade/percentagem de alguns nutrientes, cafeína e água. Foram escolhidos os nutrientes que a Organizac¸ão Mundial de Saúde (OMS) identifica como os mais importantes na prevenc¸ão de doenc¸as crónicas não transmissíveis ([DCNT] OMS, 2003) por sexo, idade, região de residência, estado civil, nível de escolaridade e situac¸ão profissional. A média do VET ingerido diariamente pelos portugueses ronda as 2.000 kcal. A ingestão energética é significativamente superior nos homens. O contributo percentual da gordura total e dos ácidos gordos (AG) para o VET nas mulheres é sempre inferior à dos homens, não sendo a diferenc¸a significativa para AG monoinsaturados (AGM), nem para AG ómega-3. O contributo dos HC para o VET é significativamente superior nas mulheres e dos ac¸úcares simples também. O contributo da proteína é significativamente superior nas mulheres. Os homens ingerem uma quantidade de sódio e de colesterol significativamente superior às mulheres. O contributo do etanol e a quantidade de cafeína ingerida são significativamente superiores nos homens (tabela 2). Os mais novos têm uma ingestão energética superior, o contributo da gordura é também superior neste grupo de idade, assim como a percentagem de ácidos gordos saturados (AGS), AG-trans, ac¸úcares simples e quantidade de sódio. São os mais velhos os que têm um contributo percentual energético de HC superior. O maior contributo proteico regista-se nos que têm entre 45-64 anos, sendo neste intervalo de idade que se regista o maior contributo do etanol. Os portugueses entre os 30-44 anos são os que ingerem maior quantidade de colesterol e cafeína (tabela 3). É no Norte que se regista a maior ingestão energética, a maior percentagem de gordura total, e de AGM, de colesterol e de sódio. São ainda os portugueses que habitam no Norte que apresentam o maior contributo do etanol para o VET, e a maior ingestão de cafeína e de água. No Centro regista-se o maior contributo de proteína. O contributo dos ac¸úcares simples é semelhante para os que habitam nos Ac¸ores e no Centro. Na Madeira encontra-se o maior contributo de AG polinsaturados (AGP) e ómega-6. O contributo de ómega-3 é idêntico em todas as regiões, os AG-trans são mais elevados no Alentejo e Algarve, e os AGS nos Ac¸ores. No Alentejo regista-se a maior ingestão de fibra e o contributo dos HC para o VET é mais elevado no Algarve (tabela 4). É nos solteiros que se encontra a ingestão energética mais elevada e o maior contributo da gordura total, dos AGM, dos ómega-6, AG-trans e dos AGS para o VET. É no grupo dos solteiros que os ac¸úcares simples têm maior peso no VET e onde se regista maior ingestão de colesterol e sódio. Nos casados, o contributo dos AGM é semelhante ao dos solteiros, o contributo da proteína é o mais elevado, assim como a quantidade 224 r e v p o r t s a ú d e p ú b l i c a . 2 0 1 6;3 4(3):220–235 Tabela 3 – Ingestão energética e de nutrientes, bem como de cafeína, etanol e água – por grupo de idade Idade (anos) 18-29 30-44 45-64 65 ou mais sig n = 802 n = 688 n = 927 n = 630 Média dp Média dp Média dp Média dp Proteínas (g) 101 43 100 45 94 45 78 43 < 0,001* Gordura total (g) 79 36 77 37 70 41 55 32 < 0,001* HC (g) 248 94 233 87 211 92 186 76 < 0,001* Etanol (g) 5 17 11 21 18 29 12 27 < 0,001* VET (kcal) 2.215 766 2.186 798 2.054 870 1.714 720 < 0,001 Gordura total (%VET) 32,5 7,3 32,3 7,8 30,9 8,7 29,1 9,0 < 0,001 AGM (%VET) 12,2 4,2 12,7 4,3 12,2 4,5 11,9 4,8 0,008 AGP (%VET) 2,1 1,2 2,2 1,7 2,4 1,5 2,5 1,7 < 0,001 Ómega-6 (AGP) (%VET) 3,7 2,0 3,8 2,1 3,6 2,5 3,0 2,2 < 0,001 Ómega-3 (AGP) (%VET) 0,3 0,3 0,3 0,3 0,3 0,5 0,3 0,4 0,072 AG-trans (%VET) 0,6 1,0 0,4 0,9 0,3 0,9 0,2 0,7 < 0,001 AGS (%VET) 9,3 3,9 8,8 3,8 7,8 3,9 7,0 4,1 < 0,001 HC (%VET) 46,9 9,8 45,2 10,1 44,1 11,9 47,6 12,0 < 0,001 Ac¸úcares simples (%VET) 16,5 7,8 14,6 8,5 13,6 8,4 14,4 9,3 < 0,001 Proteína (%VET) 19,1 5,4 19,1 5,4 19,3 6,3 18,9 6,4 0,642 Colesterol (mg/dia) 375 235 401 382 348 245 262 206 < 0,001* Sódio (mg/dia) 2.395 1.427 2.330 1.381 2.180 1.466 1.744 1.173 < 0,001* Fibra (g/dia) 12,9 7,4 13,2 6,5 12,9 7,9 11,7 8,2 0,003* Etanol (%VET) 1,5 4,6 3,4 6,0 5,6 9,4 4,5 8,6 < 0,001 Cafeína (mg) 148 153 220 208 175 187 91 159 < 0,001* Água (mL) 2.055 803 2.064 786 1.996 833 1.834 724 < 0,001 ANOVA; *Kruskal-Wallis. de fibra e a água. Nos separados/divorciados, encontra-se o maior contributo dos AGP e ómega-6 e a maior ingestão de cafeína. Os viúvos são os que têm o maior contributo dos HC e do etanol para o VET (tabela 5). É nos portugueses com o 6.◦ano de escolaridade que se encontra a maior ingestão energética, o maior contributo dos AG-trans e a maior ingestão de fibra. Nos portugueses que têm o 9.◦ano, o contributo percentual energético da gordura total e Tabela 4 – Ingestão energética e de nutrientes, bem como de cafeína, etanol e água – por região de residência Região de residência Norte Centro LVT Alentejo Algarve Ac¸ores Madeira sig n = 1.126 n = 527 n = 992 n = 165 n = 111 n = 61 n = 67 Média dp Média dp Média dp Média dp Média dp Média dp Média dp Proteínas (g) 111 43 81 35 83 46 95 49 92 42 91 43 89 44 < 0,001 Gordura total (g) 86 37 59 30 61 37 68 43 65 35 69 39 71 41 < 0,001 HC (g) 250 80 193 81 202 97 212 98 230 88 238 102 222 92 < 0,001 Etanol (g) 17 31 9 19 9 20 6 16 11 21 11 25 8 25 < 0,001 VET (kcal) 2.441 732 1.761 652 1.806 817 1.943 888 2.006 722 2.064 860 1.983 819 < 0,001 Gordura total (%) 32,7 7,2 30,6 8,1 30,3 9,0 31,5 9,3 29,0 8,4 30,2 8,3 31,6 9,6 < 0,001 AGM(%) 12,8 3,9 12,3 4,8 11,9 4,6 12,2 5,0 11,1 4,6 11,3 4,1 12,1 5,1 < 0,001 AGP (%) 2,0 1,2 2,5 1,7 2,4 1,7 2,4 1,7 2,1 1,2 2,2 1,6 2,7 2,0 < 0,001 Ómega-6 (AGP) (%) 3,9 2,4 3,5 2,0 3,3 2,2 3,3 2,1 3,1 1,8 3,3 2,1 4,1 2,8 < 0,001 Ómega-3 (AGP) (%) 0,3 0,4 0,3 0,5 0,3 0,3 0,3 0,3 0,3 0,3 0,3 0,4 0,3 0,4 0,014 AG-trans (%) 0,4 1,0 0,3 0,8 0,4 0,9 0,5 1,0 0,5 0,9 0,3 0,8 0,3 0,7 0,001 AGS (%) 8,6 3,6 7,6 4,3 8,3 4,2 8,6 4,4 7,9 3,9 8,8 4,2 8,7 4,6 0,021 HC (%) 43,7 9,7 46,3 11,2 47,3 12,0 46,0 11,6 48,6 12,0 48,2 10,1 47,5 11,8 < 0,001 Ac¸úcares simples (%) 13,4 7,7 16,0 8,7 15,7 9,0 13,6 8,6 15,6 9,7 16,0 8,2 15,3 8,2 < 0,001 Proteína (%) 19,1 5,4 19,6 6,1 18,7 6,4 20,5 5,9 18,8 5,4 18,4 5,1 18,5 5,8 0,003 Colesterol (mg/dia) 437 326 273 178 303 240 348 308 299 199 294 198 312 245 < 0,001 Sódio (mg/dia) 2.672 1.423 1.754 1.209 1.844 1.288 2.243 1.514 2.293 1.391 2.144 1.254 1.946 1320 < 0,001 Fibra (g/dia) 13,4 6,4 11,6 6,8 11,7 7,8 15,6 10,2 13,8 9,8 14,9 9,6 14,3 9,3 < 0,001 Etanol (%) 4,5 7,4 3,5 6,5 3,7 8,8 2,0 4,7 3,5 6,9 3,3 6,7 2,4 6,1 < 0,001 Cafeína (mg) 229 214 137 159 103 135 145 175 148 140 160 190 130 151 < 0,001 Água (mL) 2.469 752 1.806 665 1.663 670 1.726 898 1.760 571 1.772 567 1.598 581 0,002 ANOVA; * Kruskall-Wallis. r e v p o r t s a ú d e p ú b l i c a . 2 0 1 6;3 4(3):220–235 225 Tabela 5 – Ingestão energética e de nutrientes, bem como de cafeína, etanol e água – por estado civil Estado civil Solteiro Casado/união de facto Separado/divorciado Viúvo n = 909 n = 1.482 n = 262 n = 380 Média dp Média dp Média dp Média dp Proteínas (g) 100 46 96 43 90 48 75 40 < 0,001 Gordura total (g) 79 38 71 36 71 49 51 30 < 0,001 HC (g) 241 98 221 89 203 78 184 76 < 0,001 Etanol (g) 6 18 15 27 14 26 12 27 < 0,001 VET (kcal) 2.188 815 2.090 803 1.984 889 1.664 693 < 0,001 Gordura total (%VET) 32,6 7,7 31,2 8,4 31,5 8,8 28,2 8,4 < 0,001 AGM (%VET) 12,4 4,5 12,4 4,5 12,2 3,9 11,4 4,5 0,001 AGP (%VET) 2,2 1,4 2,3 1,6 2,4 1,6 2,4 1,6 0,008 Ómega-6 (AGP) (%VET) 3,7 2,1 3,6 2,1 3,7 3,3 2,9 2,0 < 0,001 Ómega-3 (AGP) (%VET) 0,3 0,3 0,3 0,4 0,3 0,6 0,3 0,4 0,135 AG-trans (%VET) 0,5 1,0 0,3 0,8 0,4 1,2 0,3 0,8 < 0,001 AGS (%VET) 9,3 4,0 8,0 3,9 8,4 4,2 6,7 3,9 < 0,001 HC (%VET) 46,5 10,6 45,0 11,0 44,8 11,9 48,3 11,7 < 0,001 Ac¸úcares simples (%VET) 16,3 8,1 14,1 8,3 14,2 9,7 14,1 9,0 < 0,001 Proteína (%VET) 19,1 5,7 19,2 5,8 19,1 6,5 18,7 6,3 0,559 Colesterol (mg/dia) 391 340 346 243 358 273 246 182 < 0,001* Sódio (mg/dia) 2.375 1.471 2.145 1.259 2.308 1.893 1.776 1.255 < 0,001* Fibra (g/dia) 12,7 7,2 13,4 7,7 10,9 6,5 11,4 8,1 < 0,001* Etanol (%VET) 1,8 5,4 4,7 7,6 4,6 9,3 4,9 9,8 < 0,001 Cafeína (mg) 146 157 182 203 196 184 91 140 < 0,001* Água (mL) 2.028 792 2.032 825 1.904 719 1.827 732 < 0,001 ANOVA; *Kruskal-Wallis. dos AGM e AGS é mais elevado, é neste grupo que se encontra o maior contributo das proteínas, e a maior ingestão de colesterol e sódio. Nos indivíduos menos escolarizados (< 4.◦ano) encontra-se o maior contributo dos HC para o VET, e nos mais escolarizados a maior percentagem de ac¸úcares simples, bem como a ingestão mais elevada de cafeína e água (tabela 6). Na tabela 7 podemos verificar que são os estudantes que têm maior ingestão energética, o contributo percentual energético de gordura, de AG ómega-6, AG-trans, AGS e ac¸úcares simples é superior, bem como a quantidade de colesterol e sódio. Os portugueses que trabalham (ativo) têm maior contributo percentual de AGM, maior quantidade de fibra, cafeína e água. As domésticas têm maior contributo percentual dos AGP e de proteína, e os reformados são os que registam maior contributo percentual dos HC e etanol. Realizamos uma análise multivariada para estudar o efeito de cada uma das variáveis sexo, idade, região de residência, estado civil e nível de escolaridade (ajustado para as restantes) no VET, nos macronutrientes e no etanol; os dados encontrados estão registados na tabela 8. Na populac¸ão estudada, o efeito do sexo no VET e no contributo percentual dos macronutrientes e etanol é grande, mas o efeito da idade, região de residência, estado civil e nível de escolaridade é pequeno (tabela 8). Para o VET, o tamanho do efeito do sexo é grande e da região de residência é médio, enquanto que o efeito da idade e do estado civil é pequeno. O efeito de todas as variáveis é pequeno para o contributo percentual proteico e de gordura total. Para o contributo percentual dos HC, o efeito do sexo é médio, e da região de residência, estado civil, grupo de idade e nível de educac¸ão é pequeno. O efeito do sexo é grande para o contributo percentual do etanol, mas pequeno para todas as outras variáveis (tabela 8). Para verificar a adequac¸ão de ingestão de macronutrientes, fomos comparar a ingestão com as DRI. Os resultados encontram-se descritos na tabela 9. Usando as DRI como forma de avaliar a adequac¸ão da ingestão dos macronutrientes, AG ómega-3 e ómega-6 (tabela 9), verificamos que para a maioria da populac¸ão portuguesa o contributo percentual proteico está dentro do recomendado, em cerca de um terc¸o dos portugueses, a percentagem de gordura total está acima do desejável e que a maioria dos portugueses não atinge as recomendac¸ões de ómega-3, nem de ómega-6. Quanto aos HC, verificamos que apenas cerca de metade da populac¸ão tem um contributo adequado deste macronutriente, sendo de salientar a elevada percentagem que está abaixo do recomendado. A adequac¸ão de ingestão pelas variáveis estudadas é, em geral, semelhante à dos portugueses, sendo de salientar que nos homens, nos portugueses entre os 44-64 anos, no Norte e no Alentejo, no grupo dos desempregados, ativos e reformados, o contributo percentual energético de HC é inadequado para a maioria. Fomos também comparar o contributo percentual de cada macronutriente para o VET com os objetivos delineados pela OMS para prevenir as DCNT (tabela 10). Conforme podemos observar na tabela 10, a maioria dos portugueses refere uma ingestão proteica e de gordura total acima das recomendac¸ões para prevenir DCNT e de HC abaixo das mesmas. A adequac¸ão de ingestão segue a mesma tendência em todas as variáveis estudadas, sendo de salientar que mais de metade dos mais velhos (65 ou mais anos), dos 226 r e v p o r t s a ú d e p ú b l i c a . 2 0 1 6;3 4(3):220–235 Tabela 6 – Ingestão energética e de nutrientes, bem como de cafeína, etanol e água – por nível de escolaridade Nível de escolaridade < 4.◦ano 4.◦ano 6.◦ano 9.◦ano 12.◦ano > 12.◦(bacharel/superior) sig n = 211 n = 499 n = 256 n = 617 n = 784 n = 617 Média dp Média dp Média dp Média dp Média dp Média dp Proteínas (g) 72 37 87 46 105 48 104 43 95 46 93 41 < 0,001 Gordura total (g) 47 26 61 37 78 41 78 38 75 38 72 36 < 0,001 HC (g) 177 79 203 92 231 87 226 90 232 92 227 88 < 0,001 Etanol (g) 8 18 18 30 20 32 14 26 8 21 8 19 < 0,001 VET (kcal) 1.551 644 1.920 876 2.282 891 2.204 802 2.106 770 2.051 754 < 0,001 Gordura total (%VET) 28,4 7,8 28,9 9,0 31,2 7,5 32,4 8,1 32,3 7,9 31,7 8,1 < 0,001 AGM (%VET) 11,6 5,1 11,4 4,8 12,3 3,8 12,6 4,2 12,5 4,3 12,5 4,4 < 0,001 AGP (%VET) 2,5 1,5 2,4 1,7 2,1 1,3 2,2 1,3 2,4 1,6 2,2 1,4 0,002 Ómega-6 (AGP) (%VET) 2,9 2,0 3,0 2,0 3,6 2,0 3,7 2,0 3,9 2,6 3,5 2,0 < 0,001 Ómega-3 (AGP) (%VET) 0,3 0,5 0,3 0,4 0,3 0,5 0,3 0,3 0,3 0,4 0,3 0,3 0,047 AG-trans (%VET) 0,1 0,5 0,3 0,9 0,5 1,3 0,4 0,9 0,5 1,0 0,3 0,8 < 0,001 AGS (%VET) 6,5 4,1 7,3 4,2 8,1 3,7 8,8 4,0 8,8 3,9 8,6 3,8 < 0,001 HC (%VET) 49,1 10,5 45,9 11,6 43,8 10,7 43,5 10,7 46,3 10,2 47,0 11,6 < 0,001 Ac¸úcares simples (%VET) 15,1 9,2 13,5 8,7 12,1 7,1 13,8 7,8 15,3 8,0 16,9 9,3 < 0,001 Proteína (%VET) 19,3 6,2 18,9 6,2 19,5 5,8 19,9 5,7 18,9 6,1 18,7 5,5 0,005 Colesterol (mg/dia) 234 175 287 213 378 245 396 250 378 347 350 272 < 0,001* Sódio (mg/dia) 1.579 1.184 1.967 1.333 2.324 1.385 2.499 1.669 2.245 1.328 2.140 1.235 < 0,001* Fibra (g/dia) 11,5 9,2 12,7 7,8 13,8 7,2 12,9 7,3 12,3 6,8 13,1 7,7 < 0,001* Etanol (%VET) 3,2 6,2 6,3 10,0 5,5 8,0 4,2 7,7 2,6 6,4 2,6 6,4 < 0,001 Cafeína (mg) 69 109 150 201 173 205 172 210 152 149 201 181 < 0,001* Água (mL) 1.643 612 1.917 766 2.046 773 2.070 781 1.985 806 2.109 845 < 0,001 ANOVA; *Kruskal-Wallis. Tabela 7 – Ingestão energética e de nutrientes, bem como de cafeína, etanol e água – por situac¸ão profissional Situac¸ão profissional Estudante Desempregado Ativo Doméstica Reformado sig n = 432 n = 202 n = 1.550 n = 183 n = 653 Média dp Média dp Média dp Média dp Média dp Proteínas (g) 100 46 96 43 90 48 75 40 100 46 < 0,001 Gordura total (g) 79 38 71 36 71 49 51 30 79 38 < 0,001 HC (g) 241 97 221 89 203 78 184 76 241 97 < 0,001 Etanol (g) 6 18 15 27 14 26 12 27 6 18 < 0,001 VET (kcal) 2.268 745 2.023 977 2.169 807 1.798 637 1.736 772 < 0,001 Gordura total (%VET) 33,2 7,0 32,0 8,5 31,8 7,8 30,7 9,4 28,7 9,2 < 0,001 AGM (%VET) 12,3 4,0 12,5 4,8 12,4 4,2 12,1 5,6 11,8 4,6 0,018 AGP (%VET) 2,1 1,2 2,2 2,0 2,2 1,4 2,6 1,7 2,5 1,8 < 0,001 Ómega-6 (AGP) (%VET) 4,0 2,1 3,5 2,3 3,7 2,0 3,4 2,2 3,1 2,8 < 0,001 Ómega-3 (AGP) (%VET) 0,3 0,3 0,3 0,4 0,3 0,3 0,3 0,5 0,3 0,5 0,041 AG-trans (%VET) 0,6 1,0 0,4 0,9 0,4 1,0 0,2 0,6 0,2 0,7 < 0,001 AGS (%VET) 9,6 3,9 8,8 4,0 8,5 3,9 7,7 4,2 6,8 3,9 < 0,001 HC (%VET) 46,8 8,9 43,3 10,8 45,1 11,1 48,1 11,4 46,9 12,1 < 0,001 Ac¸úcares simples (%VET) 16,3 7,0 13,7 9,0 14,8 8,7 15,0 8,7 14,1 8,7 < 0,001 Proteína (%VET) 19,3 5,4 19,7 6,7 19,0 5,4 19,4 5,5 18,9 6,9 0,437 Colesterol (mg/dia) 394 234 393 537 371 262 327 247 261 198 < 0,001 Sódio (mg/dia) 2.460 1.417 2.180 1.871 2.336 1.394 1.812 1.039 1.751 1.211 < 0,001 Fibra (g/dia) 12,2 6,5 11,7 7,8 13,4 7,4 11,7 7,0 12,1 8,5 < 0,001 Etanol (%VET) 0,7 2,6 5,0 9,1 4,1 7,3 1,8 6,3 5,5 9,5 < 0,001 Cafeína (mg) 116 125 151 172 206 196 162 239 91 137 < 0,001 Água (mL) 2.080 816 1.894 803 2.063 814 2.031 756 1.807 727 < 0,001 ANOVA; *Kruskal-Wallis. r e v p o r t s a ú d e p ú b l i c a . 2 0 1 6;3 4(3):220–235 227 Tabela 8 – Efeito das variáveis independentes no VET: macronutrientes e etanol Efeito global VET (kcal) Proteínas %VET Gordura total %VET HC %VET Etanol %VET ␩2p ␩2pp ␩2pp ␩2pp ␩2pp ␩2p Sexo 0,210 < 0,001 0,109 0,019 0,002 0,304 0,006 < 0,001 0,068 < 0,001 0,135 Idade (anos) 0,030 < 0,001 0,021 0,116 0,001 p < 0,001 0,007 0,070 0,001 p < 0,001 0,006 Região de residência 0,030 < 0,001 0,079 < 0,001 0,013 < 0,001 0,020 < 0,001 0,023 < 0,001 0,021 Estado civil 0,010 < 0,001 0,007 0,019 0,003 0,304 0,001 p < 0,001 0,013 < 0,001 0,011 Nível de escolaridade 0,004 0,054 0,000 0,008 0,002 0,229 0,001 0,026 0,000 0,258 0,000 Tabela 9 – Comparac¸ão do contributo percentual de cada macronutriente, ómega-3 e 6 para o VET com as DRI DRI Proteínas (%VET) Gordura total (%VET) Ómega-3 (%VET) Ómega-6 (%VET) HC (%VET) 10-30 20-35 0,6-1,2 5-10 45-65 < adeq > < adeq > < adeq > < adeq > < adeq > % PortuguêsP24 3,5 92,3 4,2 9,9 59,2 30,8 90,2 6,2 3,6 78,4 20,5 1,1 42,8 51,9 5,3 Sexo Masculino 3,5 92,7 3,8 8,3 57,1 34,6 90,1 6,3 3,6 77,7 21,2 1,0 53,4 44,0 2,7 Feminino 3,6 91,9 4,6 11,5 61,3 27,2 90,4 6,1 3,5 79 19,8 1,2 32,7 59,4 7,8 Idade (anos) 18-29 3,1 94,4 2,4 5,4 58,3 36,2 89,3 7,7 3,0 77,1 22,1 0,8 34,7 61,5 3,8 30-44 2,5 94 3,5 8,3 58,5 33,3 89,8 7,6 2,7 75,9 23,1 1 46,4 50,1 3,5 45-64 3,3 91,3 5,3 10,7 60,6 28,7 90,5 5,2 4,2 78,3 20,6 1,1 47,9 46,9 5,2 65 ou mais 5,4 89,2 5,4 15,9 59,3 24,8 91,3 4,3 4,3 82,8 15,6 1,5 40,9 50 9,1 Região de residência Norte 1,9 94,1 4,0 4,4 58,5 37,1 87,5 7,8 4,7 74,8 23,9 1,3 53,8 45,3 0,8 Centro 1,9 93 5,1 9,5 64,3 26,2 89,1 6,3 4,6 78,9 21,1 −− 43,9 51,5 4,6 LVT 7 89,3 3,6 10,9 58,2 30,9 91,8 6,1 2 78,9 20,5 0,7 39,5 54,1 6,4 Alentejo 2,8 90,5 6,7 11,8 51 37,2 93,1 4,4 2,5 80,1 18,7 1,2 49 45,3 5,8 Algarve 3,3 93,8 3,0 11,8 66 22,3 93,3 4,5 2,3 84,5 15,5 −− 38 53 9 Ac¸ores 2,7 94,1 3,2 10,3 62,5 27,2 89,5 6,6 3,9 81,9 17,2 0,9 34,3 61,1 4,6 Madeira 5,2 91 3,7 11,7 54,7 33,6 87,6 7,5 5 69,9 26,4 3,7 39,6 53,7 6,7 Estado civil Solteiro 3,7 93,1 3,2 6,2 58 35,8 84,6 15,4 −− 76 23,2 0,8 36,4 59,2 4,4 Casado/união de facto 2,4 92,9 4,7 10,4 59 30,6 89,5 7,3 3,2 78,3 20,4 1,3 47,2 48,2 4,6 Separado/divorciado 4,9 91,4 3,7 9,4 61,2 29,4 90,2 5,9 3,9 80 19,2 0,8 46,9 48,2 4,9 Viúvo 7,0 88,1 4,9 17,1 62,1 20,9 91 5,3 3,7 82,9 16 1,1 36,6 52,8 10,6 Nível de escolaridade < 4.◦ano 6,2 89,6 4,1 13,7 66 20,3 89,2 5,4 5,4 73,3 23,3 3,3 34,9 56,8 8,3 4.◦ano 2,9 92,6 4,5 15,2 60,6 24,2 91,3 4,0 4,7 83 14,1 2,9 44,5 49,2 6,3 6.◦ano 3,0 90,7 6,3 10,2 57,2 32,6 89,8 5,7 4,5 79 19,8 1,2 47,6 48,8 3,6 9.◦ano 2,6 92,8 4,6 8,4 56,5 35,1 92,3 6,2 1,5 76,1 23,4 0,5 47,3 48,1 4,6 12.◦ano 3,4 92,8 3,8 6,3 60,7 33,1 86,9 8,8 4,3 73,6 25,3 1,1 40,5 55,9 3,5 Superior (bacharelato ou superior) 4,1 93,5 2,4 9,1 57,2 33,7 91,3 6,5 2,2 80,7 18,5 0,7 40 53,9 6,1 Estado profissional Ativo 3,9 92,5 3,6 6,5 60,1 33,3 90,4 7,0 2,5 77,7 21,8 0,6 48,6 48,2 3,2 Desempregado 6,5 87,4 6,1 10 51,8 38,3 90,7 4,4 4,9 70,8 27,9 1,3 49,7 45,1 5,2 Doméstica 1,7 94,6 3,7 12,9 56,1 31 88,5 6,0 5,4 79 19,3 1,7 31,2 63,4 5,4 Estudante 1,4 94,4 4,2 2,2 57,2 40,6 85,4 4,4 4,9 72,7 27,2 0,1 40,4 58,1 1,5 Reformado 8,3 85,6 6,1 18,1 58,2 23,7 91,6 3,6 4,9 83,1 15,7 1,2 45,8 45,5 8,7 < abaixo do recomendado; adeq – de acordo com o recomendado; > acima do recomendado. 228 r e v p o r t s a ú d e p ú b l i c a . 2 0 1 6;3 4(3):220–235 Tabela 10 – Comparac¸ão do contributo percentual de cada macronutriente para o VET com os objetivos da OMS Objetivos para prevenir DCNT18 Proteínas (%VET) Gordura total (%VET) Hidratos de carbono (%VET) 10-15 15-30 55-75 Abaixo De acordo Acima Abaixo De acordo Acima Abaixo De acordo Acima % % % Portugueses 3,8 19,5 76,7 3,0 40,1 56,9 80,4 19,1 0,5 Sexo Masculino 4,0 20,7 75,3 3,3 36,4 60,3 89,1 10,7 0,2 Feminino 3,5 18,4 78,0 2,7 43,5 53,8 72,4 26,8 0,8 Idade (anos) 18-29 2,1 19,9 78,0 0,9 37,2 61,9 79,4 20,6 0,0 30-44 2,8 19,7 77,4 1,6 34,0 64,4 86,6 12,7 0,7 45-64 4,8 16,6 78,6 3,9 39,7 56,3 82,4 17,1 0,5 65 ou mais 5,4 23,1 71,5 5,8 51,1 43,1 72,1 27,0 0,9 Região de residência Norte 1,9 19,9 78,2 1,3 33,7 65,0 89,0 10,8 0,2 Centro 1,9 19,2 78,9 1,9 45,4 52,7 79,1 20,9 0,0 Lisboa e Vale do Tejo 7,0 19,5 73,4 5,2 43,0 51,8 73,9 25,0 1,1 Alentejo 2,8 13,2 84,1 3,0 40,6 56,4 76,0 23,8 0,2 Algarve 3,3 22,0 74,7 3,8 53,2 43,0 69,5 29,8 0,8 Ac¸ores 2,7 23,6 73,7 3,2 45,8 51,0 76,4 23,1 0,5 Madeira 5,2 22,1 72,6 5,0 37,3 57,7 76,4 22,6 1,0 Estado civil Solteiro 3,4 20,5 76,2 0,9 36,7 62,4 79,7 20,3 0,0 Casado/união de facto 2,8 18,6 78,6 3,0 40,4 56,6 82,9 16,8 0,4 Separado/divorciado 5,9 19,8 74,3 3,4 37,5 59,1 83,1 15,0 1,9 Viúvo 7,2 20,8 72,0 7,7 48,5 43,8 70,7 27,9 1,4 Nível de escolaridade < 4.◦ano 4,5 23,9 71,6 3,7 57,7 38,6 66,7 33,1 0,2 4.◦ano 4,4 18,7 76,9 7,8 47,6 44,7 78,8 20,6 0,6 6.◦ano 3,6 18,2 78,2 1,8 40,8 57,4 86,5 12,5 1,0 9.◦ano 2,2 14,4 83,4 1,3 34,7 64,1 85,8 14,1 0,1 12.◦ano 3,3 23,6 73,0 1,4 36,9 61,7 81,2 18,8 0,0 Superior (bacharelato ou superior) 4,6 17,7 77,7 2,8 37,1 60,1 78,1 20,8 1,1 Estado profissional Ativo 3,0 18,8 78,2 1,7 38,0 60,3 82,0 17,5 0,5 Desempregado 6,5 15,8 77,6 4,0 35,4 60,6 87,7 12,3 0,0 Doméstica 1,8 19,4 78,8 4,2 40,8 55,0 76,8 23,2 0,0 Estudante 0,7 22,0 77,4 0,6 31,4 68,0 82,2 17,8 0,0 Reformado 7,5 20,4 72,1 6,7 52,7 40,6 74,8 24,0 1,2 Abaixo: abaixo do recomendado; De acordo: de acordo com o recomendado; Acima: acima do recomendado. que habitam no Algarve, dos menos escolarizados (< 4.◦ano) e dos reformados, tem o contributo percentual energético da gordura total de acordo com as recomendac¸ões. Comparac¸ão com padrões alimentares Na tabela 11, encontra-se a comparac¸ão dos resultados por nós encontrados com padrões alimentares (nomeadamente o saudável, o mediterrâneo e o Ocidental)19, no que diz respeito ao contributo percentual médio dos macronutrientes e etanol. Conforme podemos ver pela tabela apresentada, o padrão alimentar dos portugueses aproxima-se mais do ocidental, estando ligeiramente acima no que diz respeito ao contributo proteico e ligeiramente abaixo no contributo da gordura e do etanol para o VET. Relativamente ao dito padrão saudável, afasta-se bastante, principalmente pelo excesso de proteína (+ 6-9%) e pela escassez de HC (-9 a -19%). Discussão Na segunda metade do século XX, desenvolvimentos políticos e económicos na Europa resultaram numa maior oferta alimentar e mais segura do que nunca, e consequentemente aumentou a esperanc¸a média de vida, no entanto, simultaneamente, observou-se um aumento de várias doenc¸as crónicas associadas a fatores alimentares e de estilo de vida7. Os dados usados para a realizac¸ão deste trabalho correspondem a uma amostra representativa da populac¸ão portuguesa (Continente, Madeira e Ac¸ores). Sendo uma amostra representativa encontramos que mais de metade da r e v p o r t s a ú d e p ú b l i c a . 2 0 1 6;3 4(3):220–235 235 noticias/?imc=1n&fmo=ln&day=11&month=02&year=2011 ¬icia=637&first=1 56. Cust AE, Skilton MR, van Bakel MM, Halkjaer J, Olsen A, Agnoli C, et al. Total dietary carbohydrate, sugar, starch and fibre intakes in the European Prospective Investigation into Cancer and Nutrition. Eur J Clin Nutr. 2009;63 Suppl 4:S37–60. 57. Yang Q, Zhang Z, Gregg EW, Flanders WD, Merritt R, Hu FB. Added sugar intake and cardiovascular diseases mortality among US adults. JAMA Intern Med. 2014;174:516–24. 58. Bibbins-Domingo K, Chertow GM, Coxson PG, Moran A, Lightwood JM, Pletcher MJ, et al. Projected effect of dietary salt reductions on future cardiovascular disease. N Engl J Med. 2010;362:590–9. 59. Grac¸a P. Relatório estratégia para a reduc¸ão do consumo de sal na alimentac¸ão em Portugal: programa nacional: promoc¸ão alimentac¸ão saudável. Lisboa: Direc¸ão Geral de Saúde; 2013. 60. Carrageta M, Negrão L, Pádua F. Community-based stroke prevention: A Portuguese challenge. Health Rep. 1994;6:189–95. 61. WHO. Guideline 1: Sodium intake for adults and children. Geneva: World Health Organization; 2012. 62. Polonia J, Martins L, Pinto F, Nazare J. Prevalence, awareness, treatment and control of hypertension and salt intake in Portugal: Changes over a decade. The PHYSA study. J Hypertens. 2014;32:1211–21. 63. Blackwell DL, Lucas JW, Clarke TC. Summary health statistics for U.S. adults: National Health Interview Survey, 2012. Vital Health Stat. 2014;260:1–161. 64. Anderson P, Møller L, Galea G. Alcohol in the European Union: Consumption, harm and policy approaches. Geneva: WHO Regional Office for Europe; 2012. ISBN 978 92 890 0264 6. 65. INSA. INE. Quarto Inquérito Nacional de Saúde (2005/2006)Lisboa: Instituto Nacional de Saúde. Instituto Nacional de Estatística; 2009. ISBN 978-972-673-845-8. 66. US Departmnet of Health & Human Services. Centers for Disease Control and Prevention. Alcohol and public health. Atlanta, GA: Centers for Disease Control and Prevention; 2011 [consultado 28 Set 2015]. Disponível em http://www. cdc.gov/alcohol/faqs.htm#standDrink 67. Geleijnse JM. Habitual coffee consumption and blood pressure: An epidemiological perspective. Vasc Health Risk Manag. 2008;4:963–70. 68. Oliveira T, Dias R. Perspectivas e tendências sociais no consumo de café em Portugal para 2021. In: ESADR, Universidade de Évora, Colégio Espírito Santo, 15 a 18 de outubro 2013. Évora: Associac¸ão Portuguesa de Economia Agrária. Sociedade Portuguesa de Estudos Rurais. Universidade de Évora; 2013. 69. Fundac¸ão Calouste Gulbenkian. Ciclo de conferências: O futuro da alimentac¸ão, ambiente, saúde e economia. Lisboa: Fundac¸ão Calouste Gulbenkian; 2012. [Consultado 29 Abr 2014]. Disponível em: http://www.gulbenkian.pt/images/ mediaRep/institucional/fundacao/programas/PG%20 Desenvolvimento%20Humano/pdf/ResumoFuturo Alimentacao2012.pdf.