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A Ribeira Grande de Cabo Verde - uma cidade cosmopolita do século XVI

Bloch, Agata Natalia

Abstract

A cidade da Ribeira Grande, localizada no coração do Império português, passou por um processo de internacionalização no século XVI. Este pequeno porto cabo-verdiano estava localizado no cruzamento das mais importantes rotas marítimas e comerciais e, por consequência, tornou-se num ponto de abastecimento para as tripulações estrangeiras e num ponto de passagem para várias pessoas e mercadorias. Por um século, a cidade da Ribeira Grande foi habitada e visitada por pessoas vindas de vários continentes. Os próprios moradores deste porto cabo-verdiano experimentaram os sabores do mundo e adaptaram várias práticas e conhecimentos. Esta dissertação analisa tanto as circunstancias internacionais como o aspecto cosmopolita da Ribeira Grande Quinhentista.

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A Ribeira Grande de Cabo Verde – uma cidade cosmopolita do século XVI Agata Natalia Błoch Abril de 2016 Dissertação de Mestrado em História do Império Português 1 Dissertação apresentada para cumprimento dos requisitos necessários à obtenção do grau de Mestre em História, com a especialização de História do Império Português, realizada sob a orientação científica de Professor Doutor João Paulo Oliveira e Costa 2 Dla moich Rodziców i Babci 3 AGRADECIMENTOS A realização desta dissertação de mestrado foi possível graças ao apoio e ao contributo, tanto de forma direta como indireta, de várias pessoas, às quais eu gostaria de agradecer. Em primeiro lugar, ao Professor Doutor João Paulo Oliveira e Costa pelo acompanhamento e pela disponibilidade para orientar o desenvolvimento da minha investigação científica. À dr.ª Teresa Lacerda agradeço a sua incansável orientação científica; a sua dedicação, paciência, compreensão e amizade; o tempo precioso que dedicou para as nossas muitas reuniões presenciais e por skype, a disponibilidade que sempre manifestou para me ajudar a melhorar a minha escrita acadêmica em Português; todos os seus ensinamentos, incentivos e conselhos, particularmente sobre a história do Império português. A palavra orientador significa literalmente "aconselhar o pensamento". Assim, muito obrigada por ter aconselhado o meu pensamento no decorrer da realização desta investigação. Este trabalho, em grande medida, também é mérito seu. Agradeço também aos meus professores do mestrado de História do Império Português: Paulo Teodoro de Matos, Toby Green, Maria Manuel Torrão, Arlindo Caldeira, Maria João Ferreira, João Teles e Cunha, pelo interesse demonstrado e pelas orientações que me deram no decorrer do curso. Aos funcionários do Centro de História d’Aquém e d’Além-Mar da Universidade Nova de Lisboa pela disponibilidade e pelo suporte acadêmico. Aos funcionários das bibliotecas do I&D da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas e da Biblioteca Nacional de Portugal, pela disponibilização da bibliografia e a consulta de importantes obras para o tema em causa. Aos meus amigos cabo-verdianos pela inspiração, que me levou a eleger Cabo Verde como objeto para a minha dissertação, assim como pelo tempo que dedicaram a ensinarme o Crioulo cabo-verdiano: Claudio Monteiro, Kevin Mota e Nelo Canuto; Aos meus amigos, pelo apoio, colaboração e suporte: Marjolaine Carles, Janina Petelczyc e Luiz Carvalho. À minha família pelo apoio emocional. 4 RESUMO A RIBEIRA GRANDE DE CABO VERDE – UMA CIDADE COSMOPOLITA DO SÉCULO XVI AGATA NATALIA BŁOCH A cidade da Ribeira Grande, localizada no coração do Império português, passou por um processo de internacionalização no século XVI. Este pequeno porto cabo-verdiano estava localizado no cruzamento das mais importantes rotas marítimas e comerciais e, por consequência, tornou-se num ponto de abastecimento para as tripulações estrangeiras e num ponto de passagem para várias pessoas e mercadorias. Por um século, a cidade da Ribeira Grande foi habitada e visitada por pessoas vindas de vários continentes. Os próprios moradores deste porto cabo-verdiano experimentaram os sabores do mundo e adaptaram várias práticas e conhecimentos. Esta dissertação analisa tanto as circunstancias internacionais como o aspecto cosmopolita da Ribeira Grande Quinhentista. PALAVRAS-CHAVE: Cabo Verde, Ribeira Grande, Internacionalização, Cosmopolitismo, século XVI 5 ABSTRACT RIBEIRA GRANDE OF THE CAPE VERDE – THE COSMOPOLITAN CITY OF THE 16th CENTURY AGATA NATALIA BŁOCH The city of Ribeira Grande, located in the heart of the Portuguese Empire, passed through the process of the internationalization in the sixteenth century. This small Cape Verdean port was located at the crossroads of the most important maritime and trade routes and consequently became the supply point for the foreign crews and the transit point for various people and goods. For one century, the city of Ribeira Grande was inhabited and visited by people coming from various continents. The residents of this Cape Verdean port experienced the flavors of the world and adapted various practices and knowledges. This thesis analyzes both the international circumstances and the cosmopolitan aspect of the city of Ribeira Grande in the 16th century. KEYWORDS: Cape Verde, Ribeira Grande, Internationaliztion, Cosmopolitanism, 16th century 6 ÍNDICE Introdução ........................................................................................................... 9 Capítulo I: A Internacionalização do Arquipélago Cabo-Verdiano ............. 14 I. 1. A dimensão internacional de Cabo Verde e a sua articulação com as dimensões régia e regional ......................................................... 14 I.1.1. A dimensão regional de Cabo Verde ..................................... 16 I. 1.2. A dimensão régia de Cabo Verde .......................................... 19 I. 1.3. Reconhecimento internacional ............................................. 20 I. 2. Ascensão e declínio de Cabo Verde no século XVI .......................... 23 I. 2.1. Cabo Verde uma região próspera. As viagens de Luís de Cadamosto ....................................................................................... 25 I. 2.2. Cabo Verde como ponto de escala para São Tomé. O relato do piloto anônimo ............................................................. 27 I. 2.3. Cabo Verde como ponto de escala para as Índias .............. 29 I. 2.4. Cabo Verde como coração das rotas negreiras. O relato de Francisco Carletti .......................................................... 32 I. 2.5. Cabo Verde em decadência. O relato de William Dampier. 35 I. 3. Cabo Verde e o Atlântico .................................................................. 39 I. 3.1. Cabo Verde e o Atlântico Sul ................................................. 39 I. 3.2 Cabo Verde e o tráfico de escravos na costa ocidental africana ............................................................................................ 41 I. 3.3 Cabo Verde e o tráfico de escravos transatlântico ............... 42 Capítulo II: A cidade da Ribeira Grande na época do nascimento do Mundo Global ......................................................................... 45 II. 1. O desenvolvimento efémero da Ribeira Grande. Ascensão e declínio ....................................................................... 45 7 II. 2. As influências da cidade da Ribeira Grande. ................................... 49 II. 3. O processo gradativo da internacionalização da cidade da Ribeira Grande ............................................................................ 52 II. 4 A internacionalização da cidade da Ribeira Grande ..................... 59 II.4.3 A circulação de bens ..................................................... 61 II. 4.3 A circulação do conhecimento científico e técnico ................................................................................ 70 II.4.3 A circulação da população na cidade .......................... 77 II.4.4. A circulação do capital escravo .................................. 81 III. 4.5 A prestação de serviços .............................................. 83 Conclusão .......................................................................................................... 86 Anexo ............................................................................................................... 92 Bibliografia ....................................................................................................... 94 8 LISTA DE ABREVIATURAS AHU Arquivo Histórico Ultramarino de Lisboa HGCV-I História Geral de Cabo Verde, vol. I HCCV-II História Geral de Cabo Verde, vol. II HGCV-CD-I História Geral de Cabo Verde – Corpo Documental, vol. I HGCV-CD-II História Geral de Cabo Verde – Corpo Documental, vol. II IAN/TT Arquivo Nacional da Torre do Tombo de Lisboa MMA Monumenta Missionária Africana 15 costa da Guiné proporcionou uma reconversão da economia cabo-verdiana que marcou de modo indelével a história do arquipélago. Nas próximas páginas procurar-se-á demonstrar como se construiu a dimensão internacional de Cabo Verde, que desempenhou também papéis importantes no contexto regional, nomeadamente através da sua relação com o continente fronteiro, assim como mereceu o interesse do rei de Portugal, visível nos inúmeros diplomas régios que tiveram Cabo Verde por objeto. A internacionalização de Cabo Verde pode ser percepcionada pelos investigadores através de diferentes tipos de documentação, nomeadamente régia e em relatos de viagens, alguns dos quais escritos por não-portugueses. Sobretudo, este último tipo de fontes permitiu que Cabo Verde fosse ganhando visibilidade entre o público letrado europeu. A posição estratégica do arquipélago variou ao longo do tempo, passando por fases em que foi apenas visto como parte integrante da Guiné de Cabo Verde, noutras entendido como uma região de transição, até ao seu reconhecimento como uma zona independente. Deve também salientar-se que a internacionalização deste arquipélago foi um processo gradual e demorado e que, para atingir o estado de abertura para o mundo, o porto da cidade de Ribeira Grande teve que se desenvolver em termos políticos, administrativos e sociais. O arquipélago cabo-verdiano destacou-se primeiro graças à sua forte ligação com a costa da Guiné, cuja importância foi logo percepcionada por comerciantes e aventureiros. Sendo uma região estratégica também para o rei de Portugal, Cabo Verde foi mencionado várias vezes na documentação régia. Isto prova que o rei tinha planos concretos para a sua colonização. Porém, ainda no século XVI, Cabo Verde deixou de ser uma região apenas interessante para a Coroa portuguesa, ganhando cada vez mais o interesse de outras potências europeias que compreenderam o papel que o arquipélago desempenhava nas rotas que passavam pelo Atlântico. Importa salientar que o processo de internacionalização de Cabo Verde só foi possível graças às dimensões régia e regional que este desempenhava. Cada uma destas dimensões permitiu o desenvolvimento das seguintes, isto é, o reconhecimento régio 16 não seria possível sem a importância regional e a sua preponderância internacional foi promovida pela ação régia. I.1.1. A dimensão regional de Cabo Verde Embora o arquipélago cabo-verdiano fosse associado a uma região denominada de “Guiné de Cabo Verde”, esta identificação permaneceu até aos dias de hoje. A Guiné de Cabo Verde correspondia à região da costa ocidental africana entre os rios de Gâmbia e Nunes. Durante vários séculos, a região da Guiné e as ilhas de Cabo Verde funcionaram como um todo, sendo que a sua sede administrativa localizava-se na ilha de Santiago. Convém observar que a expressão “Guiné de Cabo Verde” nasceu e foi utilizada informalmente pelos comerciantes e viajantes, prevalecendo a forma oral transplantada depois para a forma escrita. Neste quadro, o Tradado breve dos rios da Guiné de Cabo Verde, do mulato, nascido em Santiago, André Álvares de Almada, foi muito importante para o conhecimento desta região, pois passou a integrar a escrita e levandoa ao público português. André Álvares de Almada definiu a ilha de Santiago como a fronteira da região da Guiné de Cabo Verde, conforme se observa no Tratado: “quiz escrever algumas cousas dos Rios de Guiné do Cabo Verde, começando do Rio do Sanagá, até a Serra Leôa, que he o limite da Ilha de Santiago”.2 Neste contexto, vale a pena referir o trabalho de José da Silva Horta que declarou que as ilhas de Cabo Verde ganharam seu nome graças à proximidade com o cabo de Cabo Verde localizado na parte mais ocidental do Senegal3. O autor notou que: “entre o rio Senegal e a fresca e desejada Serra Leoa, projetando-se em limites incertos no sertão percorrido rios acima se situava a Guiné de Cabo Verde. Guiné do cabo, Guiné das ilhas do mesmo nome, Cabo Verde servia em simultâneo para indicar a 2 André Álvares de ALMADA, Tratado breve dos Rios de Guine do Cabo Verde de 1594, publicado por Diogo Köple, Porto, Typographia Commercial Portuense, 1841, p. 1. 3 José Horta de SILVA, “Evidence for a Luso-African identity in Portuguese accounts on Guinea of Cape Verde (Sixteenth – Seventeenth Centuries)”, em History in Africa. A Journal of Method, [New Jersey], vol.27, 2000, p. 99. 17 cabeça delas todas, a ilha de Santiago e a costa fronteira, ou melhor, se dirá os Rios de Guiné do Cabo Verde”. 4 Deste modo, convém integrar a análise de Cabo Verde no âmbito mais vasto da Costa da Guiné. Com a dobragem do Cabo Bojador, em 1434, esta Costa tornou-se uma região de fluxo de muitas pessoas e um espaço de intercâmbio cultural. Os Europeus, entre eles os Portugueses de origem judaica, chegaram em número considerável a Guiné de Cabo Verde e, depois do seu descobrimento, passaram a habitar o arquipélago. As ilhas tornaram-se numa zona de passagem, “intermediária entre o já conhecido Norte africano e a desconhecida África Centro-ocidental e Austral”. 5 Neste contexto de interdependência, surgiu o “trato da Guiné” que tinha como objetivo proteger os interesses económicos dos moradores da ilha de Santiago. A sobrevivência económica de Cabo Verde estava dependente do comércio com a Guiné. Mais para o final do século XVI, esta relação foi ameaçada pela deterioração da economia causada pela depreciação da moeda e a chegada dos concorrentes europeus.6 Deve salientar-se que foi o declínio económico do arquipélago que levou André Álvares de Almada, a escrever o seu Tratado, procurando assim voltar a evidenciar a região aos olhos da Coroa portuguesa e perscrutando um novo rumo para os moradores de Cabo Verde, apelando para a colonização da Serra Leoa. Este relato foi dedicado aos leitores Europeus e, por conseguinte, era abundante nas descrições exóticas sobre um outro mundo, utilizando a denominada “poética de exotismo”. O autor, ciente das relações interdependentes de Cabo Verde com a Guiné e na tentativa de melhorar a situação económica das ilhas, apresentou algumas propostas. Esta obra serviu como argumento para o André Álvares convencer o Rei, que a povoação da costa ocidental 4 José da Silva HORTA, “Ser português em terras de africanos. Vicissitudes da construção indenitária na Guiné do Cabo Verde (sécs. XVI-XVII)”, in Nação e Identidades. Portugal, os Portugueses e os Outros, Lisboa, Caleidoscópio, 2009, p. 261. 5 Beatriz Carvalho dos SANTOS, “Por uma história da Guiné de Cabo Verde: das perspectivas às possibilidades de um estudo cultural (séc. XV ao XVII)”, in XVIII Encontro Regional (ANPUH - MG), 24-27 de Julho de 2012, Mariana, p. 2. Em linha, 14/04/2015, http://www.encontro2012.mg.anpuh.org/resources/ anais/24/1340668694_ARQUIVO_ArtigoBeatrizCarvalhodosSantos.pdf. 6 Rogério Miguel PUGA, “O Discurso (Etnográfico) da Alteridade no Tratado Breve dos Rios de Guiné do Cabo-Verde (1594) do Capitão André Álvares de Almada”, in O Espaço Atlântico de Antigo Regime: poderes e sociedades, (Actas do Congresso Internacional. Instituto de Investigação Científica Tropical e Centro de História de Além-Mar, 2009), pp.1-3. Em linha, 20-03-2015, http://cvc.institutocamoes.pt/eaar/coloquio/comunicacoes/rogerio_miguel_puga.pdf. 18 africana era crucial tanto para os cofres portugueses, como para a sobrevivência de próprio Cabo Verde. Conforme notou Rogério Miguel Puga: “Almada, ao descodificar a realidade do Outro recorre a artifícios narrativos [...], pois o seu objetivo é dar a conhecer à Corte uma zona geográfica que urge povoar que muita riqueza trará aos cofres de Lisboa, sendo o comércio com portos da costa da Guiné também do interesse de Cabo-Verde”.7 Segundo o Tratado de Almada, a costa ocidental africana prometia muito mais do que o Brasil, onde havia apenas a indústria açucareira e o pau-brasil. A costa da Guiné oferecia maior variedade de produtos, como o marfim, a cera, o ouro, o âmbar e a malagueta. “Povoando-se viria a ser de maior trato que o Brazil, porque no Brazil nao ha mais que açúcar e o pão, e algodão; nesta terra ha algodão e o pão que ha no Brazil, e marfim, cera, ouro, amber, malagueta, e podem-se fazer mitos engenhos d'açúcar, ha ferro, muita madeira para os engenhos e escravos para elles”8 A obra de Almada é, assim, prova contundente da interdependência das ilhas de Cabo Verde em relação à Costa da Guiné. Convém ainda notar que o papel regional de Cabo Verde, foi o que conseguir perdurar no tempo. Esta dimensão sobreviveu à dimensão régia e internacional, porque apesar do enfraquecer do comércio dos moradores de Santiago na Costa da Guiné, a proximidade geográfica continuou forte. Nos meados do século XX, a identidade da região da Guiné de Cabo Verde foi notada pelo próprio Partido Africano para a Independência da Guiné e de Cabo Verde. Este movimento de libertação nacional, apercebendo-se da cultura partilhada pelas duas zonas, decidiu avançar com uma luta anti-colonial conjunta. Esta unidade era fruto de uma história secular, onde as duas regiões estiveram unidas por uma política administrativa comum e por interesses mútuos no comércio, sobretudo de escravos.9 7 Ibidem, p. 4. 8 Ibidem, p. 93. 9 Carlos LOPES, Construção de Identidade nos Rios de Guiné do Cabo Verde, [Porto], Africana Studia, n.6, Edição da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, p. 45. 19 I. 1.2. A dimensão régia de Cabo Verde O reconhecimento do arquipélago de Cabo Verde por parte do centro metropolitano pode ser avaliado através de vários documentos produzidos no decorrer do século XV. O nome de Cabo Verde apareceu em vasta documentação real, principalmente nas cartas régias, cartas de privilégios, cartas de perdão ou cartas de mercê. Através destes instrumentos legais, o arquipélago foi sendo reconhecido como uma região independente e de relevância. Cabo Verde apareceu referido pela primeira vez, em 1460, na carta através da qual o D. Afonso V doou ao infante D. Henrique as ilhas de Cabo Verde e dos Açores, entregando a orientação espiritual à Ordem de Cristo 10, e dois anos depois, em 1462, numa carta de doação de D. Afonso V ao infante D. Fernando.11 Desde o seu descobrimento que Cabo Verde mereceu a atenção da Coroa portuguesa, desenvolvendo-se planos para a sua exploração. Estes planos passaram pelo povoamento e colonização efetiva do arquipélago que foi possível através de uma política de concessão de incentivos. Deste modo, o Rei outorgou aos moradores de Santiago o privilégio de puderem comerciar na costa da Guiné, com exceção da região de Arguim. 12 O carácter lucrativo das transações comerciais praticadas nesta região tinham sido notadas pela Coroa portuguesa, mas também por mercadores estrangeiros, nomeadamente Castelhanos, que vão afluir a Santiago para participarem nesse rendoso comércio. O rei de Portugal permitiu que aí fossem, entre outras razões, para se estabelecer o trato de urzela entre Cabo Verde e Sevilha. Neste comércio participaram os mercadores castelhanos Joham de Lugo e Pero de Lugo. 13 Em 1472, o rei limitou os privilégios concedidos aos moradores de Cabo Verde, permitindo apenas que vendessem na Costa da Guiné as mercadorias produzidas nas ilhas e transportadas pelos seus navios. Esta medida foi essencial para o 10 “Carta do Infante D. Henrique doando a D. Afonso V a temporalidade das Ilhas de Cabo Verde e dos Açores, e à Ordem de Cristo a sua espiritualidade”, 18/09/1460 in ANTT, Ordem de Cristo, códices n.235, fl.11, n.233, fl.1623 em HGCV-CD, p. 13. 11 “Doação ao Infante D. Fernando das ilhas de Cabo Verde”, 19/09/1462 in ANTT, Chancelaria de D. Afonso V, L.1, fl.61, Místicos, L.2, fl.152-152 v. em HGCV-CD, pp. 17-18. 12“Carta régia concedendo aos moradores da ilha de Santiago de Cabo Verde autorização para comerciarem na costa da Guiné, com excepção da zona de Arguim”, 12 /06/1466 in ANTT, Chancelaria de D. Afonso V, L.4, fl.104, Livro das Ilhas, fl.10 em HGCV-CD, pp. 19-22. 13 “Carta de privilégio a Joham de Lugo e Pero de Lugo, castelhanos mercadores, que haviam feito trato de urzela nas ilhas de cabo Verde”, 30/09/1469 in IAN/TT, Chancelaria de D. Afonso V, liv. 31, fl.118 v. doc. 2, publ. em HGCV-CD, pp. 23-24. 20 desenvolvimento económico do arquipélago, pois desenvolveu a agricultura pecuária e até alguns sectores da pequena indústria, nomeadamente dos panos de algodão.14 Cabo Verde ganhou maior notoriedade na esfera régia, quando o seu donatário, o duque de Beja, D. Manuel, se tornou rei de Portugal. Enquanto Duque, o senhorio de Cabo Verde constava do seu título oficial: “Eu Dom Manuel, regador e governador da Ordem e Cavalaria do Nosso Senhor Jesus Cristo, duque de Beja, senhor das ilhas da Madeira e de Cabo Verde e dos Açores (...)”.15 Com a subida ao trono de D. Manuel I, em 1495, o senhorio de Cabo Verde e da Madeira extinguiu-se. De fato, D. Manuel foi o primeiro senhor das ilhas de Cabo Verde que se tornou rei de Portugal. Porém, o arquipélago não constou na titulação régia, que era “Rei de Portugal e dos Algarves, d'Aquém e d'Além-Mar em África, Senhor do Comércio, da Conquista e da Navegação da Arábia, Pérsia e Índia”. I. 1.3. A dimensão internacional de Cabo Verde Em 1494, com o Tratado de Tordesilhas16, Cabo Verde ganhou notoriedade internacional, tornando-se um lugar importante, a partir da qual se contavam as 370 léguas da linha de meridiano que divida o mundo entre Portugal e Castela. “Los cuales dichos navíos, todos juntamente continúen su camino a las dichas islas de Cabo Verde, y de ahítomarán su rota derecha al poniente hasta las dichas trescientas setenta leguas, medidas como las dichas personas acordaren que se deben medir, sin perjuicio de las dichas partes, y allídonde se acabare, 14 “Declaraçao e limitação da carta de privilegio concedida aos moradores da ilha de Santaigo em 12 de Junho de 1466”, 8/02/1472 in ANTT, Livro das Ilhas, fl.2 v-4, Brássio 2ª série, vol. I, pp.446-450, Dias Dinis, pp.47-50, publ. em HGCV-CD, pp. 25-28. 15 “Carta de D. Manuel, duque de Beja e senhor de Cabo Verde, fazendo mercê a Rodrigo Afonso, capitão de metade da ilha de Santiago, da sabedoria da dita ilha”, 14/01/1485 in IAN/TT, Chancelaria de D. Manuel I, liv. 29, fl.5 v., doc. 3, publ. em HGCV-CD, pp. 49-50. 16 Tratado de Tordesilhas foi um tratado assinado entre o Reino de Portugal e o Reino da Espanha, na cidade espanhola de Tordesilhas, em 1494. O objetivo deste acordo foi resolver conflitos territoriais relacionados com as novas conquistas ibéricas. 21 se haga el punto y señal que convenga por grados de sur o de norte, o por singladuras de leguas, o como mejor se pudiere concordar […].”17 A crescente importância de Cabo Verde foi cedo notada pelos corsários franceses e ingleses. Os piratas (assim foram chamados os corsários pelos Portugueses e Espanhóis), sem dúvida, simbolizaram a grandeza do arquipélago, pois, os estes escolhiam lugares comercialmente atrativos para as suas ações de pilhagem. Cabo Verde chamou a atenção de piratas, tais como, os Ingleses Francis Drake, James Lovell e John Hawkins, o Francês Jean Fleury e o Português Emanuel Serradas. Os piratas reconheciam Cabo Verde como um lugar estratégico nas rotas comerciais transoceânicas, lugar de entreposto e também uma fonte de riqueza. As ilhas de Maio e de São Vicente também serviram frequentemente como base de apoio e lugar de abastecimento para os corsários. A abundância de sal nas águas que cercavam as ilhas, essencial na conservação da comida mantida a bordo, era um dos principais focos de atração. O arquipélago era um importante entreposto no comércio de escravos, o que era muito tentador para os piratas, que viam no roubo de escravos uma atividade muito lucrativa. Deve notar-se que Cabo Verde foi alvo de ações de pilhagem no período em que já se encontrava em franca decadência económica, o que demonstra que, apesar de terem deixado de ser um centro comercial, as ilhas continuavam a desempenhar um papel estratégico na navegação do Atlântico. Oliveira Marques observou que este fator que, em determinado momento, permitiu a sua prosperidade e, mais tarde, a sua sobrevivência, foi também uma das razões para a atração de muitas catástrofes. Os corsários Ingleses, Franceses e Holandeses fizeram de Cabo Vede uma escala no seu caminho para às colônias portuguesas e castelhanas e, por vezes, incendiaram, destruíram, roubaram pessoas, gados e outros mantimentos nas vilas e cidades de Cabo Verde. Os primeiros a atacarem as ilhas foram os Franceses, em 1542, seguiram-se os Ingleses, em 1578, 1582, 1585 e 1598. A partir de 1598, apareceram os Holandeses que fizeram da ilha de Maio o seu ponto de escala nas viagens para o Brasil. 18 17 Tratado de Tordesillas, Reproducción facsímil y transcripción de la capitulación entre los Reyes Católicos y el Rey Juan II de Portugal para la partición del mar Océano (1494), Madrid, Ministerio de Educación, Cultura y Deporte, Área de Educación, Centro de Publicaciones, 1973. 18 António Henrique de Oliveira MARQUES, “História...”, op.cit., p. 263. 22 Em 1585, a cidade de Ribeira Grande foi arrasada pelo célebre corsário Francis Drake. Este assalto foi já consequência da União Ibérica. Durante este período, os Portugueses ganharam como inimigos todos os antipatizantes da Espanha, ou seja, Ingleses, Holandeses e Franceses. Devido a esta nova ameaça, em 1587, foi construída a primeira fortaleza na margem esquerda da ribeira, na cidade da Ribeira Grande, na ilha de Santiago. As fortificações de algumas ilhas do arquipélago contiveram um pouco os atos de pirataria que se transferiram para a costa da Guiné. As sucessivas invasões e pilhagens dos corsários contribuíram para o declínio da Ribeira Grande. Em consequência, em 1614, esta cidade deixou de ser a capital de Cabo Verde que foi transferida para a vila da Praia, localizada também na ilha de Santiago, que passou a sede dos governadores e dos bispos, pois a sua posição geográfica era muito mais favorável. A cidade tinha melhores condições de saúde para os Europeus e um clima mais sadio. Em 1652, a cidade de Praia converteu-se oficialmente na capital de Cabo Verde, resultando daí o completo declínio da Ribeira Grande. A situação econômica de Cabo Verde agravou-se bastante durante a União Ibérica, porque os Castelhanos não respeitaram as leis existentes, não respeitando a obrigação dos comerciantes passassem por Santiago, quando iam negociar na Guiné. Cabo Verde, por estratégico em várias rotas marítimas, tornou-se num lugar por onde passavam várias esquadras inimigas que rumavam para a Mina, para o Brasil e para o Oriente. Conforme observou Manuel Múrias, “naturalmente, Santiago era de todas as ilhas a mais direta e rudemente visada e a Ribeira Grande correu, por mais de uma vez risco de ser novamente saqueada”.19 Apenas em meados do século XVII, durante o reinado de D. João IV, foram fortificadas as cidades da Ribeira Grande e da Praia na ilha de Santiago, e também a cidade de S. Filipe na ilha de Fogo. Contudo, estas medidas foram tomadas tarde demais.20 Desde então, o caos imperou nas ilhas de Cabo Verde. Portugal passou por problemas internos, procurando lutar pela sua recuperação política e econômica na época da Restauração. A partir da segunda metade do século XVII, a situação econômica em Cabo Verde piorou ainda mais. A somar aos problemas externos, os governadores eram acusados de prepotência, tiranias e desvios na Fazenda Real. Os responsáveis pela pobreza de Santiago eram os governadores corruptos, os oficiais da 19 Manuel MÚRIAS, Cabo Verde..., p. 37. 20 Ibidem, pp. 35-38. 23 alfândega e da Fazenda, “os descaminhadores das receitas da Coroa”, os próprios moradores e até o clero.21 Conforme observou Daniel A. Pereira: “vivendo todos ao deus-dará, todos procuravam roubar e desviar o máximo que pudessem, em detrimento dos cofres da Fazenda Real. Era a lei da sobrevivência, do salve-se quem puder e quem souber”22. No próximo subcapítulo tratar-se-á, com maior profundidade, dos processos que conduziram à ascensão e ao declínio de Cabo Verde em apenas um século. I. 2. Ascensão e declínio de Cabo Verde no século XVI Através da análise da história da ilha de Cabo Verde, pode afirmar-se que o arquipélago de Cabo Verde conheceu uma dinâmica que a integrava na escala mundial. O seu processo de abertura e fechamento para o mundo ocorreu em apenas um século, com consequências na sociedade, cultura e comércio. A navegação foi consideravelmente acrescentada através de três grandes acontecimentos, que mudaram a história mundial, a saber: o descobrimento da América (1492), do caminho marítimo para Índia (1498) e o “achamento” do Brasil (1500). A partir deste momento, o tráfico de bens e de pessoas aumentou exponencialmente, e no trânsito mundial, que passava pelo Atlântico, a ilha de Santiago teve papel central. Ao analisar este processo, importa estudar as cinco fases principais da crescente importância de Cabo Verde na história do mundo. Inicialmente, Cabo Verde foi apenas um pequeno território que ligava Portugal e a Península Ibérica ao litoral africano. Mais tarde, tornou-se também numa escala da Carreia da Índia. Em seguida, converteu-se num ponto que juntava a América Central, a América do Sul, a África e os dois impérios ibéricos. Na quarta fase, serviu de ponto de escala e de abastecimento para os Ingleses, Franceses e Holandeses no comércio internacional. Finalmente, na última fase, Cabo Verde acabou por ser um lugar abandonado e esquecido.23 Deste modo, prefiguraram-se duas linhas nas rotas marítimas que passavam por Cabo Verde. A primeira era determinada pela navegação vertical, que se baseava nos contatos comerciais estabelecidos entre Portugal e a costa africana e que, posteriormente, contribuiu para o avanço para o Atlântico Sul. A segunda tinha um 21 Daniel A. PEREIRA, Estudos da História de Cabo Verde, Praia, Instituto Cabo-verdiano do Livro, 1986, pp. 26-28. 22 Ibidem, p. 28. 23 Iva CABRAL, Maria Emília Madeira SANTOS, Maria Jõao SOARES, Maria Manuel Ferraz TORRÃO, Cabo Verde: uma experiência colonial acelerada (séculos XVI-XVII), [Lisboa], Ministério da Ciência, Inovação e Ensino Superior, Secretaria de Estado da Ciência e Inovação, Instituto de Investigação Científica Tropical, 2004, p. 1. 24 caráter horizontal, unindo os interesses que os comerciantes europeus tinham na costa ocidental africana e os mercados americanos. Importa sublinhar que, a partir de 1520, Cabo Verde tornou-se o maior fornecedor de escravos para o Caribe. Consequentemente, surgiram três grandes circuitos que envolviam Cabo Verde: o circuito euro-africano, entre Cabo Verde e a Península Ibérica; o africano, entre Cabo Verde e a Costa da Guiné; e o afro-americano, entre a Costa da Guiné, Cabo Verde e América Espanhola.24 Assim, este pequeno arquipélago atlântico constituiu, um ponto central no cruzamento das rotas transcontinentais, um lugar de passagem e de abastecimento obrigatório, uma base para vários tipos de embarcações.25 Através da análise dos relatos de viagens, que se fará em seguida, procurar-se-á entender de que modo o arquipélago despertou os interesses de mercadores estrangeiros. Interessa também apurar se existiam vestígios de cosmopolitismo, tanto na cultura material, como nos hábitos, costumes e na vida financeira do arquipélago. Embora a literatura de viagem possa ser uma excelente fonte historiográfica, deve atender-se como as verdadeiras intenções dos seus autores podiam influenciar os relatos. Muitos destes indivíduos procuravam fama e sucesso, fazendo uso da sua fantasia para seduzir os leitores com descrições sobre mundos desconhecidos. Por exemplo, Luís de Cadamosto confessou, que ia: “(...) movido do desejo de achar este ouro e também de ver várias coisas (...)”, indo “(...) a descobrir países novos, e experimentar a minha sorte (...)”.26 Pensamentos desta natureza são perceptíveis noutros relatos de viagem, pois o homem da época das navegações e descobrimentos era aventureiro, curioso, atento às terras desconhecidas, procurando novas impressões. Não é, pois, de admirar que estes diários de viagens se apresentem, por vezes, abundantes em histórias pouco credíveis. Cientes do contexto em que os textos foram produzidos, nas próximas páginas, procurar-se-á averiguar como Cabo Verde foi percepcionado por indivíduos que estiveram no arquipélago integrados em viagens de maior escala, que podiam abranger 24 Iva CABRAL, Maria Emília Madeira SANTOS, Um laboratório expedito para uma sociedade crioula (Cabo Verde - séculos XVI-XVII), pp. 1-2. Em linha, 29/03/2015, http://www.portaldoconhecimento.gov.cv/handle/10961/344. 25 José SILVA, “Cabo Verde, Pousada nos Caminhos do Atlântico. Interinfluências culturais num arquipélago miscigenado”, Vegueta. Anuário de la Facultad de Geografía e História, [Las Palmas], (n.º 14, 2014), p. 102. 26 Arlindo CORREIA, As navegações de Cadamosto, Madeira e Cabo Verde, Primeira Navegação, capítulo XXX. Em linha, 10/05/2015, http://arlindo-correia.com/220507.html. 31 "Em huma sexta feira no primeiro de Abril de mil quinhentos e dois (...) partimos da Cidade de Lisboa. (...) no dia quinze passamos pegados com as [ilhas] de Cabo Verde, de modo que fomos vistos da terra."41 A importância de Cabo Verde na navegação também pode ser aferida nas “Cartas Américo Vespúcio a Pedro Soderini Gonfaloneiro Perpetuo, da República de Florença sobre duas viagens feitas por ordem do Sereníssimo Rei de Portugal”, datadas de 1503. Convém explicar que, depois da descoberta do Brasil, o rei português D. Manuel I quis averiguar a veracidade dos relatos de Pêro Vaz de Caminha sobre as riquezas existentes nas terras de Vera Cruz. Apreciando a experiência marítima do mercador e navegador florentino Américo Vespúcio, o rei resolveu convidá-lo para participar das novas expedições oceânicas, desta vez ao serviço de Portugal. Desta forma, Américo Vespúcio realizou duas viagens para as recém-descobertas terras brasileiras. As ilhas de Cabo Verde apareceram nestas cartas como um entreposto no caminho para o Brasil, mas também como um lugar idílico para descansar. "Partimos no dia dez de maio de mil quinhentos e três, e fomos em direito á Ilhas de Cabo verde, aonde sahimos em terra, e tomámos toda a casta de refrescos depois de nos termos demorado treze dias, seguimos a nossa viagem (...)".42 Cabo Verde como ponto de abastecimento foi também mencionado no Livro da Marinharia de Bernard Fernandes. A viagem realizada, em 1537, por André Vaz para Moçambique fornecia informações sobre a importância do porto da cidade de Ribeira Grande, onde o navegador fez uma escala para reparar avarias no navio. Cabo Verde apareceu também no Livro da Marinharia de Pêro Vaz Fragoso, navegador ou piloto natural de Viana do Castelo, que rumou para a Índia e cuja compilação foi datada de ano não anterior a 1566. Este arquipélago atlântico é aí referido como ponto de passagem na viagem para o Oriente. 41 Ibidem, p. 159. 42 “Cartas de Américo Vespúcio a Pedro Soderini Gonfaloneiro Perpetu da República de Florença sobre duas viagens feitas por ordem do Sereníssimo Rei de Portugal” in Notícias para a História e Geografia das Nações Ultramarinas que vivem nos dominios portuguezes ou lhes são visinhas, Lisboa, Academia Real das Ciências, vol. II, nº. I-II, 1812, pp. 150-151. 32 "[...] e dahu devyde a espera allta da vayxa em duas partes yguaes e pasa amtre as ylhas de quabo verde e por cyma da ylha de sam vycente ao cabo verde e ao [cabo] ffryo e ao cabo de boa esperamca[...]".43 Cabo Verde foi uma das paragens mais frequentes em duas das principais navegações que saíam da Europa em direção à Índia e para a América. Pelo arquipélago, passaram os navios que realizaram viajam históricas como a de Américo Vespúcio, Vasco da Gama e Pedro Álvares Cabral. O pequeno arquipélago eram uma espécie de bússola natura, um instrumento de navegação e orientação. I. 2.4. Cabo Verde como coração das rotas negreiras. O relato de Francisco Carletti Cabo Verde, no seu período mais florescente, foi descrito pelo mercador florentino Francisco Carletti44, que, entre 1594-1602, fez uma viagem de circumnavegação do globo. Nos apontamentos que deixou sobre a sua aventura, descreveu Cabo Verde, notando como o arquipélago fazia parte das rotas comerciais atlânticas. Ainda convém lembrar que, antes de começar a analisar o arquipélago de Cabo Verde através do olhar do jovem mercador florentino, é essencial entender o caráter de Francisco Carletti e o processo editorial desta obra. Francisco Carletti, acompanhado do pai, iniciou uma viagem mercantil ao redor do mundo, dirigindo-se primeiro a Cabo Verde, o maior entreposto de venda de escravos naquela época. A partir daqui, nasceu uma grande aventura marítima dos dois Carletti. Importante registrar que os dois perderam uma grande fortuna, o pai morreu na Ásia e o jovem Francisco voltou sozinho e pobre à sua terra natal. As suas experiências e os conhecimentos adquiridos nas viagens chamaram a atenção de Fernando I, grãoduque da Toscânia, que lhe ofereceu cargos palatinos e, no futuro, também cargos diplomáticos. A pessoa de Fernando I é importante, pois foi ele quem convenceu Francisco de Carletti a publicar as suas notas de viagens. Não é possível determinar com exatidão a data da primeira publicação. 43 Luís de ALBUQUERQUE, O Livro de Marinharia de Pero Vaz Fragoso, Centro de Estudos de Cartografia Antiga, Junta de Investigações Científicas do Ultramar, 1997, p. 286. Separata de Memórias da Academia das Ciências de Lisboa, Classe de Ciências, Lisboa, vol. XX, 1997. 44 Francisco de Carletti foi um comerciante, viajante e cronista. Nasceu em 1575, em Florença, numa família de comerciantes ligados ao comércio na Península Ibérica. Aos 18 anos da idade, o jovem Francisco foi enviado à cidade espanhola de Sevilha que, na época, era um dos mais importantes portos comerciais ibero-atlântico, para aprender a profissão de mercador. Francisco CARLETTI, My voyage around the world, London, Methuen & Co, 1965, p. xiii. 33 Quando se lê o “Relato de viagem ao redor do mundo” é necessário prestar atenção às circunstâncias de publicação deste livro. Carletti perdeu todas as suas notas originais, que foram confiscadas pelos corsários holandeses na ilha de Santa Helena. Em consequência disto, foi obrigado a recorrer à memória, com fim de reproduzir todos os acontecimentos. Assim, os relatos não são escritos espontaneamente. A obra tem um caráter principalmente comercial, influenciado pela sua condição de mercador, mas também porque o grão-duque Fernando I estava interessado, sobretudo, nos aspectos comerciais da viagem de Carletti. É indiscutível que o grande foco da obra são as realidades económicas que Carletti foi encontrando. Enquanto escrevia as suas memórias, o autor consultou vários outros relatos já existentes na época que influenciaram o produto final.45 Não obstante, é perceptível nos seus escritos o pensamento aventureiro de Carletti, a sua paixão pelo exótico e as suas observações precisas do novo mundo. Não se pode deixar de referir que o seu enfoque, além do comércio, foram também os costumes das gentes nativas e a tentativa de entender as diferentes culturas. Na sua narrativa está patente o lado aventureiro de Francisco, mas também uma atitude muito humana. Francisco Carletti não negou que o principal objetivo do pai era aumentar a riqueza familiar. Porém, os objetivos do próprio Francisco não eram apenas materiais. O jovem Carletti manifestou compaixão pelos escravos: “I remember having done under orders from superiors, causes me some sadness and confusion because truly Most Serene Lord it seems to me an inhuman traffic unworthy of a professed and piour (…) but be it known to everyone (…) that this business never pleases me.” 46 Na sua descrição de Cabo Verde, que consta do primeiro capítulo da obra, as ilhas eram comparadas com o Jardim das Hespérides, as guardiãs da ordem natural da mitologia grega47. Duas possibilidades podem explicar esta comparação. As Hespérides eram as ninfas do poente, residentes nas margens do oceano, no extremo ocidental, na fronteira de três mundos diferentes: a terra, o paraíso e o inferno. Cabo Verde estava 45 André TEIXEIRA, Maria Manuel Ferraz TORRÃO, Negócios de escravos de um florentino em Cabo Verde: descrições e reflexões sobre a sociedade e o tráfico em finais do século XVI, pp. 1-3. Em linha, 04/04/2015, http://cvc.instituto-camoes.pt/eaar/coloquio/comunicacoes/mmtorrao_ateixeira.pdf. 46 Francisco CARLETTI, My voyage around the world, London, Methuen & Co, 1965, p. 13. 47Jan PARANDOWSKI, Mitologia, p.127, Em linha, 31/01/2016, http://biblioteka.kijowski.pl/parandowski%20jan/jan-parandowski-mitologia.pdf. 34 também situado nos cruzamentos de três mundos, pois era o ponto de onde partiam as rotas para a África, a Ásia e a América. As Hespérides eram também senhoras de um jardim com muitas árvores, que davam frutos em ouro. Cabo Verde era visto como um lugar fértil naturalmente e rico, em termos comerciais, sobretudo graças à sua condição enquanto entreposto no comércio de escravos. O tráfico negreiro tinha sido a causa que levara os Carletti a rumar para o arquipélago. Nos seus escritos é possível encontrar algumas discrepâncias, o que prova que não fora testemunha ocular de tudo o que relatara. Por exemplo, referiu a incidência elevada de doenças tropicais no período das chuvas, apesar de ter estado em Santiago na época seca. A descrição topográfica da cidade de Ribeira Grande não é coincidente com a realidade, tendo mais semelhanças com Macau, que Francisco Carletti visitou posteriormente.48 No entanto, o mais importante, para o estudo da presente dissertação, são os aspectos cosmopolitas que o mercador florentino atribuiu à Ribeira Grande, no final do século XVI. Através da narrativa de Carletti fica claro que havia na cidade uma abundante população flutuante, composta por mercadores oriundos de Portugal, da Madeira e das Canárias. Muitos mercadores da Península Ibérica e das ilhas atlânticas levavam para Cabo Verde vários bens alimentares como farinha, vinhos, frutos secos e legumes, que trocavam por carne caprina. A carne caprina e o algodão eram produtos essenciais nas trocas diretas de bens entre Cabo Verde, a costa ocidental africana e a Europa. Estes produtos cabo-verdianos, inicialmente consumidos apenas neste arquipélago, ganharam importância e alteraram o estilo consumista de outros povos. Assim, os Europeus saboreavam a salgada carne caprina, enquanto os tecidos de algodão conquistavam os novos mercados africanos, que em troca vendiam escravos. Francisco Carletti também tomou nota da constituição social da Ribeira Grande, composta por Europeus, tais como sacerdotes e outros membros da estrutura eclesiástica, autoridades locais, nomeadamente o governador; por Africanos escravizados, alguns dos quais permaneciam nas plantações, enquanto que outros estavam de passagem, com destino aos portos negreiros de Cartagena. Os processos de mestiçagem não escaparam à sua observação. Os casamentos e quaisquer tipos de 48 André TEIXEIRA, Maria Manuel Ferraz TORRÃO, Negócios..., op.cit, pp. 4-6. 35 relacionamentos entre os homens brancos e as mulheres negras, que Carletti apelidou de “mouras”, foram cuidadosamente descritos pelo jovem mercador florentino. “It has its Bishop and inhabitants numbering about fifty houses of married Portuguese men, some with white women from Portugal, some with black women from Africa, and others with mulatto women born there of white men and Moorish (or black, as we should say) women”.49 Carletti afirmou que Cabo Verde era um lugar muito importante para a Coroa portuguesa e para a Coroa espanhola, na época da União Ibérica, porque com o tráfico negreiro estes dois reinos obtinham grandes riquezas. Por este motivo, existia uma burocracia rigorosa, relativa ao trato negreiro, que exigia muitas licenças e autorizações para se introduzir os escravos no mercado americano. Deste modo, pode afirmar-se que, para o jovem mercador florentino, apesar da importância económica de Cabo Verde, este também era uma espécie de paraíso, uma terra exótica. Se por um lado, o arquipélago era um éden, por outro era o maior fornecedor de mão-de-obra escravizada para as Américas. Convém lembrar que foi por este segundo motivo que o jovem Francisco rumou para Cabo Verde. I. 2.5. Cabo Verde em decadência. O relato de William Dampier A obra de William Dampier, A new Voyage round the world, publicada em 1697, comprova que a vertente internacional de Cabo Verde foi um fenômeno exclusivo do século XVI e que no século seguinte já se encontrava em decadência. Como é bem sabido, as mudanças necessitam de tempo e a decadência foi lentamente tornando-se visível aos olhos dos moradores e dos visitantes de Cabo Verde. A conjuntura política e económica cabo-verdianas dos finais do século XVI provocaram uma crise já totalmente cristalizada nos finais de seiscentos, quando escreveu Dampier. Contudo, o primeiro que alertou para a situação difícil de Cabo Verde foi André Álvares de Almada no seu Tratado breve da Guiné de Cabo Verde, em 1594. O autor do Tratados chamou a atenção para a condição debilitada dos moradores da ilha de Santiago: 49 Francisco CARLETTI, My voyage… op. cit., p. 6. 36 “Porque me lembra ouvir muitas vezes dizeram homens muitos velhos na Ilha de S. Tiago, onde sou morador e eles o erão e tinhão nella molheres e filhos que para nehnuma parte se irião salvo se mandasse S. Magestade povoar a Serra Leoa, que para ella se irião de boa mente e deixarião tudo quanto na ilha tinhão, a qual segundo esta cançada de trabalhos que ha padecido depressa deixarão”.50 André Álvares de Almada observou o perigo relativo aos corsários franceses e ingleses e as ameaças que estes constituíam para Cabo Verde. “Porque pela continuação dos Francezes e Inglezes, da Ilha não armão navios para ella, o segundo tudo vai afracando cada vêz será peior. (...) Abrindo estas portas a seus vassalos, se fecharão aos estrangeiros, os quaes enriquecem as suas terras com o que destas partes levão; e della podem correr para a Costa da Malagueta com o mesmo trato, e cessarão os Francezes e Ingleses”51 Antes de se passar ao escrutínio da narrativa de Dampier, interessa fazer uma breve apresentação do autor. Dampier (1652-1715) foi um botânico britânico, ocasionalmente também bucaneiro52, descobridor da Austrália Ocidental (Nova Holanda), historiador natural e a primeira pessoa que circum-navegou o mundo três vezes, em 1697, 1701 e 1708. Assim, pode afirmar-se que atravessou frequentemente o mundo exótico, geográfica e etnograficamente. É indiscutível que foi um dos pioneiros das explorações científicas. A sua obra, comparável à de Francisco Carletti, também foi publicada depois de se ter realizado a sua primeira viagem.53 New voyage round the world foi dedicada ao presidente da Sociedade Real, Charles Montagu Earl of Halifax. Os finais do século XVII e o início do século XVIII foi uma época em que a ciência começava a estar no centro de interesse das viagens marítimas, desempenhando um papel inquestionável no envolvimento do Império britânico nas colônias americanas. As viagens científicas desempenhavam, assim, um papel no avanço da colonização, conforme observaram Sebastian Jobs e Gesa Mackenthun: “the turn to the eighteenth century also marked the turn from an earlier naive empiricism to an extreme scepticism 50 André Álvares de ALMADA, Tratado breve..., op.cit., p. 93. 51 Ibidem, pp. 93-94. 52 Bucaneiro era um pirata que atacava os navios espanhóis no Caribe. 53 Adrian Mitchell Geraldine BARNES, “Measuring the Marvellous: Science and the Exotic in William Dampier” in Eighteenth-Century Life, [Williamsburg], vol. 26, n.º 3, The College of William& Mary, 2002, pp. 45-57. 37 - hence the great cultural investment in modern sciences as the building of an empire of truth and epistemic mercantilism.”54 Desta forma, ao falar da experiência bucaneira de Willam Dampier, deve entender-se que no âmbito das suas atividades de pilhagem, também executou tarefas ligadas à sua curiosidade científica. Por exemplo, da sua exploração científica do Pacífico resultou num tratado de ventos e o surgimento da própria climatologia55. A obra de William Dampier tinha um carácter bem diferentes dos textos analisados para o século XVI, pois estes foram escritos com o objetivo de atrair e seduzir os leitores europeus para um mundo desconhecido e, assim, nem sempre apresentavam um relato preciso. As descrições de Dampier, representante do espírito científico de uma nova época, podem ser, portanto, consideradas mais fiáveis. A descrição sobre Cabo Verde de William Dampier é abundante em apontamentos sobre a sua geografia. Ao contrário dos outros relatos de viagem, na obra de Dampier já não existe uma Ribeira Grande rica e cosmopolita. Pelo contrário, segundo as observações do navegador britânico as trocas comerciais estavam organizadas de modo incipiente e realizavam-se apenas com o propósito de preencher algumas das mais elementares necessidades dos moradores do arquipélago, bem longe das trocas comerciais do século XVI, que envolviam produtos de elevado valor e mesmo alguns de luxo. “Travelers must have a care of these People, for they are very thievish; if they see an opportunity will snatch anything from you, and run away with it. We did not touch at this Island in this Voyage, but I was there before this year in the year 1670(...).”56 William Dampier usou frequentemente a palavra “pobre”, para descrever a situação econômica geral da ilha de Sal, mas também a dos moradores e, até mesmo, do governador e dos seus oficiais. O antigo escambo de produtos de luxo e exóticos fora substituído por trocas de produtos alimentícios e vestuário. Por exemplo, na ilha de Sal, 54 Sebastian JOBS, Gesa MACKENTHUN, Agents of Transculturation, Munster, Verlag GmbH, vol.6, 2013, p. 131. 55 Encyclopaedia Britannica. Em linha, 25/06/2015, http://www.britannica.com/biography/WilliamDampier. 56 William DAMPIER, New Voyage round the world, vol. I. Printed for James Knapton, London, 1697, p. 76. 38 que Dampier afirmou ser extremamente pobre, quase desabitada, e onde os navios estrangeiros não iam já há alguns anos, a tripulação britânica trocou com o governador, por piedade, as suas velhas roupas por carne caprina. Os poucos moradores portugueses que aí habitavam, também negociaram com os britânicos pedaços de âmbar em troca de roupa. 57 Os britânicos visitaram ainda as ilhas de S. Nicolau e de Maio, cujas situação econômica era um pouco melhor do que na ilha de Sal. Na ilha de S. Nicolau, rica em fauna e flora, havia uma atividade pecuária caprina bem desenvolvida, o que contribuía para algum bem-estar dos seus moradores. Não escapou à sua observação que o governador se encontrava bem vestido, o que contrastava com a aparência pobre dos seus funcionários. Dampier observou também o cultivo de plantas de origem americana, o milho e a batata, um importante legado do comércio atlântico que, durante o século XVI, fizera a riqueza de Cabo Verde.58 William Dampier forneceu uma descrição detalhada da ilha de Santiago. Segundo seus relatos, nesta ilha havia duas grandes cidades, a Ribeira Grande e a Praia, mas também umas vilas menores. Notou que o governador desta ilha ainda exercia o poder em todo o arquipélago de Cabo Verde. Contudo, a rica cidade de Ribeira Grande do século XVI, tinha mudado drasticamente. Embora, o porto continuasse atraente para as tripulações estrangerias, já não era um porto fervilhante de vida comercial. Primeiro, porque a situação econômica das ilhas piorara, e, por consequência, degradara-se também a qualidade de vida dos moradores da Ribeira Grande. Segundo, porque o comércio ganhou um caráter muito mais primitivo, no qual os moradores de Santiago ofereciam aos estrangeiros produtos elementares como novilhos, porcos, cabras, aves e ovos, em troca de produtos manufaturados como roupas, camisas e lençóis. 59 Face ao exposto, pode concluir-se que, na viragem do século XVII para o XVIII, a Ribeira Grande perdera o seu caráter cosmopolita, o seu valor econômico, político e estratégico. Estas caraterísticas foram exclusivas do século XVI. No entanto, deve 57 William DAMPIER, New Voyage round the world, vol. I. Printed for James Knapton, London, 1697, pp. 72-73. 58 Ibidem, pp.74-76. 59 William DAMPIER, New Voyage round the world, vol. I. Printed for James Knapton, London, 1697, pp. 67-77. 39 notar-se que a partir da fase de decadência, Cabo Verde começou a escrever a sua própria história, baseada sobretudo na população nascida endogenamente. I.3 Cabo Verde e o Atlântico I. 3.1. Cabo Verde e o Atlântico Sul Ao analisar a história de Cabo Verde é essencial entender o contributo do oceano Atlântico para o desenvolvimento das várias formas de convivência social entre os indivíduos que aí viviam, assim como para o tipo de economia desenvolvida. É importante notar que houve uma forte ligação entre o Atlântico e Cabo Verde em construção, o que determinou a sua história e geopolítica. Não há dúvida de que a geopolítica, ou seja, a posição de Cabo Verde dentro das rotas comerciais do Atlântico, determinou o sucesso e o fracasso do arquipélago, o seu desenvolvimento e o seu declínio. Conforme observou Antônio Leão de Aguiar Cardoso Correia e Silva, “o Atlântico constitui, enquanto sistema socioeconômico, um campo estruturado de relações, quando os povos das suas várias margens estabelecem contatos seguros e estáveis, abrindo, assim, caminhos para a formação de redes de interdependências. ”60 A África atlântica permaneceu afastada, por muitos séculos, das outras costas deste oceano. Os povos viviam isolados. As relações sociais e comerciais mantinham-se muito limitadas e as únicas rotas que ligavam o sul com o norte da África era a rota transsaariana. Na época moderna, os avanços tecnológicos e marítimos, a curiosidade e o espírito humanista permitiram a “abertura do Atlântico. Este processo de abertura do espaço atlântico, que começou no século XV, com a exploração da costa ocidental africana e o descobrimento do Brasil, incentivou as interações multiculturais, sociais e comerciais entre as regiões banhadas pelo oceano Atlântico. O “mundo atlântico” fez-se sentir nas várias regiões costeiras de ambos os lados do oceano, mas também em regiões mais longínquas como, por exemplo, na costa oriental africana, na Índia e na ilha de Madagáscar. Este espaço amplo mantinha-se bastante vivo, movimentado e sobretudo dinâmico. Pode observar-se a emergência de uma nova sociedade, a sociedade atlântica, cujos indivíduos passaram a partilhar produtos, valores e costumes. Os agentes foram conectados pelo oceano e interligados 60 Antônio Leão de Aguiar Cardoso Correia e SILVA, A influência do Atlântico na formação de Portos em Cabo Verde, Lisboa, Centro de Estudos de História e de Cartografia Antiga, Instituto de Investigação Cientifica Tropical, 1990, p. 4. 40 pelas rotas marítimas. A sociedade atlântica, embora não muito homogênea do ponto de vista territorial, passou a ser integrada cultural e comercialmente. Os portos atlânticos tornaram-se os centros difusores de novidades, ideias e estilos de vida.61 Assim, durante os descobrimentos portugueses e espanhóis, o mundo atlântico criou-se e recriou-se constantemente, à medida que foi absorvendo novos espaços. Através deste oceano, nasceram os primeiros contatos estáveis transatlânticos entre os diferentes povos da Europa, da Ásia, da América e da África. Perante a crescente necessidade de circulação de capital, nasceram vários núcleos importantes do ponto de vista da geopolítica, com a finalidade de facilitar a comunicação, convivência e troca. Entre estes, encontrava-se Cabo Verde. Deste modo, Cabo Verde nasceu no período de construção de um Atlântico intercomunicante, o que determinou o seu caráter portuário, urbano e mercantil. Cabo Verde funcionou durante muito tempo como uma cidade-porto e não como uma região virada para o interior. Os portos atlânticos tiveram um caráter fortemente urbano, que requeria uma administração bem estruturada. Além disso, os povoados nestas cidades, por seu caráter flutuante, aumentavam devido à alta taxa de imigração e não de nascimento.62 A cidade-porto de Cabo Verde foi a Ribeira Grande, que assumiu as funções de ponto de escala, entreposto e o lugar de controlo e apoio ao trafego internacional de escravos. Todas as outras atividades, nomeadamente agrícolas, começaram por ser secundárias e de apoio ao comércio. Contudo, no século XVII a realidade económica era já diferente, havendo uma nova ordem hierárquica entre os sectores, com a agricultura e a indústria, mais concretamente a panaria, a assumirem papéis mais importantes. A região litorânea, onde se concentravam as atividades do comércio internacional, perdeu importância, dando lugar ao interior da economia agrária. As atividades económicas com dimensão internacional e transatlântica entraram em decadência, surgindo uma economia local e interior.63 A economia cabo-verdiana 61 Estevam C. THOMSON, “O Atlântico Sul para além da miragem de um espaço homogêneo (séculos XV-XIX)” em Temporalidades Revista Discente do Programa de Pós-Graduação em História da UFMG, [Belo Horizonte], vol. 4, n.º 2, Ago/Dez 2012, pp. 80-85. 62 Antônio Leão de Aguiar Cardoso Correia e SILVA, A influência... op.cit., pp. 3-7. 63 Ibidem, p. 12. 47 negreiros deixaram de passar pela ilha de Santiago, o que agravou ainda mais a sua situação econômica75. O descontentamento foi visível entre os funcionários régios e entre os indivíduos de maior prestígio, isto é, os proprietários de terra e os mercadores atuantes no comércio africano. Estes indivíduos tinham assento na Câmara da cidade da Ribeira Grande, a qual enviou uma carta ao rei D. Filipe II, fazendo queixa da sua difícil situação. Esta conduziu à miséria dos moradores da ilha de Santiago e da Fazenda Real, devido à falta de rendimento da feitoria, o que resultou na escassez de dinheiro para os pagamentos do clero e dos oficiais.76 Independentemente da deterioração da situação social e econômica da Ribeira Grande, a cidade continuava a ser o principal centro de interesse de mercadores e oficiais régios. A análise do inventário do Arquivo Histórico Ultramarino permite também observar que a cidade continuava a desempenhar um papel administrativo importante ainda no século XVII. Até aos meados desta centúria, a correspondência administrativa foi sendo mantida entre Lisboa, Madrid e a Ribeira Grande e, apenas a partir da década de cinquenta, começaram a ser enviadas cartas de outros lugares do arquipélago, nomeadamente, da ilha do Fogo. Contudo, até ao final do século XVII, da Ribeira Grande foram enviadas as missivas dos governadores de Cabo Verde, dos provedores e dos membros da Mesa da Santa Casa da Misericórdia. Os primeiros planos para mudar a capital da Ribeira Grande para a vila da Praia são datados da década de oitenta do século XVI. Numa carta de 24 de janeiro de 1582 enviada por um militar espanhol, Diego Florez de Valdez, ao rei D. Filipe I, apareceram as primeiras sugestões de mudança do trato para a cidade da Praia. “A donde yo soy de parecer que vuestra Majestad debria de pasar el trato deste puerto de Santiago al de la Playa, por ser mejor puerto, y grande, y cerrado de todo temporal, y lugar a donde, si el enemigo se apoderase, seria señor de la isla, 75 “Carta do Nicolau de Castilho ao rei”, 30/06/1616, Santiago in AHU, Catálogo Parcial do Fundo do Conselho Ultramarino da série de Cabo Verde, 2014, Cx.1, D.51. 76 Carta dos oficias da câmara da cidade da Ribeira Grande ao rei, 27/05/1617, in AHU, Catálogo Parcial do Fundo do Conselho Ultramarino da série de Cabo Verde, 2014, cx.1, doc.58. 48 y puede hacerse fuerte con mucha facilidade, y a poca costa, y es lugar más sano [...]”.77 Outra proposta de mudança da capital da Ribeira Grande para a Praia surgiu pela pena do cardeal Alberto ao Rei, em 12 de julho de 1586. Devido aos problemas de fortificação da ilha de Santiago, acreditava que a capital do arquipélago deveria ser mudada. “E cada um deles me deu apontamentos assim sobre esta fortificação, como sobre se mudar aquela cidade para a vila da Praia, neste tempo, em que he mister tanto para se reedificar. Os quais que vi em conselhos. [...] E quer o capitão Gaspar Luís de Mello vise os que deu João Nunez, por estarem deferentes na mudança da cidade para a vila da Praia [...] E me parece que asi na fortificação daquela cidade como na mudança dela, será serviço da vossa majestade seguir a ordem que aponta Joao Nunez [...].78”. Para além dos problemas defensivos, a Ribeira Grande também era pouco sadia, ao contrário da Praia, que era vista como tendo um clima menos maléfico para os Europeus. “Há na mesma ilha outra povoação que se chama a Villa da Praia, a qual tem bom porto e é lugar mais sadio que a cidade, porque está em um sitio alto [...]. E por estas razões se tratou algumas vezes de mudar a cidade para este sitio e fortificá-lo, o que se fizesse redundara em grande agmento a terra”.79 A mudança da capital da Ribeira Grande para a vila da Praia foi decretada em 14 de agosto de 1652, mas somente foi realizada em 1769.80 Embora o papel político e econômico da Ribeira Grande tenha diminuído significativamente na viragem do século XVI para o XVII, a cidade continuava a desempenhar um papel importante nas missões religiosas, pois ligava Cabo Verde com a África. Em meados do século XVII, a Ribeira 77 “Carta de Diego Florez de Valdez ao rei D. Filipe I”, 21/01/1582 in Colección de Documentos Ineditos para la historia de España por el Marqués de la Fuentesantana del Valle, D. José Sancho Rayon y D. Francisco de Zabálburu, Madrid, 1889, tom. XCIV, pp. 540-544, publ. em MMA, S. II, vol. 3, doc. 41, p. 93. 78 “Carta do Cardeal Alberto ao rei”, 12/07/1586 in AGS-Secretarias Provinciales (Portugal), liv. 1550, fl.357, publ. em MMA, s. II, vol. III, doc. 51. pp.140-141. 79 “Relação da Costa da Guiné”, c.1606 in BAL – Cód. 51-VIII-25, fls.119-122 v., BNL – Cx. 207, doc. 88, publ. em MMA, s. II, vol. IV, doc. 56, p. 209. 80 Ibidem. 49 Grande chamava a atenção de vários missionários que tencionavam fundar aí os seus conventos.81 Não há dúvida de que a nível comercial, a antiga capital de Cabo Verde perdeu importância no final do século XVI, mas apesar disto, no contexto religioso permaneceu um lugar importante. II.2. As influências da cidade da Ribeira Grande A cidade da Ribeira Grande foi reconhecida por vários historiadores, tanto lusófonos como internacionais, como um lugar cosmopolita no século XVI e um campo de experimentação em vários campos. Iva Cabral descreveu-a “como ponto estratégico cuja importância para o Atlântico oscilou ao sabor de muitos interesses, por aqui passaram notícias, ambições, riquezas, ruina, morte, destruição, mas também aqui surgiu capacidade de recuperação endógena e da iniciativa do isolamento”. A historiadora cabo-verdiana também afirmou que aqui surgiu a primeira sociedade escravocrata colonial e uma das primeiras elites coloniais. A Ribeira Grande foi assim um “laboratório onde se experimentou novas formas de colonização, novas relações sociais, novas vivências culturais”, tornando-se o primeiro “centro urbano colonial nos trópicos” onde “nasceu o encontro de dois mundos o Europeu e o Africano”.82 A ilha de Santiago foi também centro de troca de conhecimento onde foram desenvolvidos processos de dimensão global, por exemplo, “formas de escravatura e plantações de açúcar nos trópicos foram transferidas em larga escala para a América Portuguesa”. A migração e circulação das pessoas ajudaram as ilhas atlânticas portuguesas a criarem “um vetor luso-tropical para a expansão e adaptação dos Portugueses na América”.83 António Leão de Aguiar Cardoso Correia e Silva reconheceu a especificidade da cidade da Ribeira Grande por ser um porto com um caráter urbano e transoceânico, que logrou concentrar uma população internacional, atrair funcionários régios e estabelecer 81 “Fundação do Convento da Soledade na cidade da Ribeira Grande”, 20/09/1657 in CMP – Fundo Azevedo, n.1Ç, Crônica da Província da Soledade, cit., tom. II, p. 904, publ. em MMA, s. II, vol. VI, doc. 62, pp. 121-122. 82 Iva CABRAL, Maria Emília Madeira SANTOS, Maria João SOARES, Maria Manuel Ferraz Torrão, “Cabo Verde, uma experiência colonial acelerada (séculos XVI-XVII)”, p. 3. Em linda, 12/06/2015, http://www.portaldoconhecimento.gov.cv/bitstream/10961/358/1/Cabo%20Verde%20Uma%20Experi%C 3%AAncia%20Colonial%20Acelerada%20(Sec.XVI-XVII).pdf. 83 F. BETHENCOURT, D.R CURTO, A expansão marítima portuguesa, 1400-1800, Lisboa, Edições 70, 2010 p. 117. 50 uma máquina burocrática. Conforme observou, “a prosperidade comercial, o crescimento da estrutura administrativa do estado e o alargamento da rede urbana, fazem-nos acreditar numa tendência democrática expansiva para todo o século XVI”.84 O historiador comparou a cidade-porto com um microcosmos social “que alberga no seu seio uma grande heterogeneidade social”.85 Assim, a internacionalização do porto da Ribeira Grande pode ser avaliada através das pessoas que aí moravam e pelas atividades comerciais por estas realizadas. No primeiro caso, convém destacar as diferentes origens dos viajantes, os seus modos de vidas distintos e as suas diversas ocupações profissionais. Portugueses, Castelhanos, Judeus, Ingleses, Franceses, Holandeses ou Africanos iam para a Ribeira Grande como funcionários régios, mercadores, contrabandistas, piratas, marinheiros, aventureiros, escravos. No caso das atividades comerciais, destaque-se a comercialização dos produtos através de importações, exportações, depósitos ou sistema de impostos, bem como a prestação de serviços, como o abastecimento, a reparação de navios, o fornecimento de alimentação ou de combustível e a troca de informações náuticas e meteorológicas. Em virtude dos fatos mencionados, observa-se que a Ribeira Grande foi um caso excecional no Império português da época moderna, sendo um centro privilegiado de troca de conhecimento e de informações, um lugar onde se cruzavam as mais importantes rotas marítimas do mundo de então. O presente trabalho tem o objetivo estudar os vários processos que levaram à criação de dinâmicas internacionais no porto da primeira cidade lusófona nos trópicos – a Ribeira Grande. A internacionalização do porto cabo-verdiano ocorreu essencialmente por duas vias, através das políticas planeadas pela Coroa portuguesa e por ações que se podem classificar como espontâneas. A partir do momento do seu achamento, Cabo Verde entrou para as preocupações coloniais da Coroa portuguesa, que procurou aí criar infraestruturas políticas, administrativas e comerciais. Os moradores de Cabo Verde compartilhavam o sentimento de necessidade de criação de instituições semelhantes às da sua terra de 84 António Leão de Aguiar Cardoso Correia e SILVA, A influência do Atlântico na formação de portos em Cabo Verde, Centro de Estudos da História e de Cartografia Antiga, Lisboa, Instituto de Investigação Científica Tropical, 1990, p. 6. 85 Ibidem, p. 7. 51 origem. Em consequência disto, levaram consigo os padrões europeus, espalharam a doutrina cristã e estabeleceram as instituições políticas, públicas e religiosas já existentes em Portugal. Convém lembrar que a cidade da Ribeira Grande, mesmo tendo nascido num lugar antes desconhecido e deserto, foi construída por Portugueses e de acordo com as suas matrizes culturais. Pela observação dos aspetos analisados, entende-se que Cabo Verde era uma colônia planeada e controlada, onde havia um projeto político. Isto ocorreu de acordo com os princípios do vigente sistema colonial que pretendia a ocupação efetiva de espaços ultramarinos estratégicos. Assim, havia um esforço para manter o domínio real sobre o arquipélago e de encontrar soluções para uma possível perda de controlo. Numa primeira fase, a ilha de Santiago foi sujeita ao sistema de capitanias hereditárias. Contudo, como os donatários acumulavam riqueza e tornavam-se cada vez mais influentes, poderosos e, em consequência, independentes, dividiu-se o arquipélago em mais capitanias hereditárias com objetivo de limitar o poder local, e criar novos órgãos administrativos que o controlavam, evitando desta maneira a concentração de poder numa só mão. Através da hierarquização da sociedade cabo-verdiana, a Coroa portuguesa logrou manter a ordem. Isto mostra que os instrumentos políticos usados por Portugal serviram para manter o domínio real sobre Cabo Verde. Os privilégios outorgados pelo rei, o sistema de tributação e os impostos, a consequente política de mare clausum, o investimento nas plantações e o desenvolvimento do sistema escravocrata provam que a cidade da Ribeira Grande foi controlada pela Coroa portuguesa.86 A partir de 1466, a presença portuguesa na ilha de Santiago e, nomeadamente, na cidade da Ribeira Grande ganhou um caráter contínuo, tornando-se a colonização mais sistemática. Não há dúvida de que o comércio e a perspectiva de lucro impulsionaram as ações régias, seguindo-se o princípio de que “onde há comércio, há poder”. Conforme observou Ângela Domingues, o poder local "visava controlar, desde a sua formação, o tráfico comercial que se desenvolveria entre Santiago e os rios da Guiné. Todo o aparelho real, ou seja, fiscal, montado em Cabo Verde até finais do 86 Amarílis Barbosa MARTINS, Relações entre Portugal e Cabo Verde antes e depois da independência, Dissertação apresentada para obtenção do Grau de Mestre, Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Lusófona e Humanidades e Tecnologias, Lisboa, 2009, pp. 22-23. 52 século XV vive de necessidade de fiscalização tributária decorrentes do comércio com a costa africana".87 Por outro lado, convém lembrar que, devido à distância geográfica muitos acontecimentos não podiam ser controlados pelo centro. O fator principal que determinou as ações espontâneas, isto é, não programadas, era o fato de originalmente Cabo Verde ser deserto, com um clima muito hostil, por onde proliferavam as doenças tropicais que punham em risco a saúde dos viajantes. Para as ações não planeadas pela Coroa também contribuíram a falta de mão-de-obra e a migração predominantemente masculina. A falta de recursos humanos e a pouca vontade dos Europeus se fixarem na cidade da Ribeira Grande proporcionaram fenómenos que fugiram totalmente ao controlo real. Seguindo-se este raciocínio, entende-se que algumas atividades comerciais aconteceram fora do âmbito legal. A ocupação por parte de Africanos de cargos políticos e eclesiásticos, também pode ser considerada como uma ação espontânea, uma vez que foi desencadeada pelo pouco interesse dos Europeus se fixarem em Cabo Verde. II.3. O processo gradativo da internacionalização da cidade da Ribeira Grande A internacionalização do maior porto cabo-verdiano do tempo na ilha de Santiago foi muito complexa, envolvendo várias etapas. Com a vinda dos primeiros Portugueses e dos escravos africanos, iniciou-se um processo de aportuguesamento e africanização da nascente vida pública e social do arquipélago. Estes dois processos, acrescentados pela europeização, construíram uma base para a gradual internacionalização da Ribeira Grande. Por esta razão, entende-se que o estudo das influências portuguesa, africana e europeia são essenciais para se entender o desenvolvimento gradativo da cidade da Ribeira Grande enquanto centro cosmopolita. O grau de internacionalização de Cabo Verde pode ser apreciado através da circulação de bens, produtos, mercadorias e pessoas. Por outro lado, esta característica também pode ser avaliada através da experimentação e trocas culturais entre europeus e africanos. No arquipélago surgiram formas de vivência inéditas, nascidas deste contato, assim como um novo modelo econômico, que tinha por base o sistema escravocrata. 87 Ângela DOMINGUES, “Administração e instituições: Transplante, adaptação, funcionamento”, publ. em HGCV-I, p. 69. 53 O processo de aportuguesamento começou na própria construção da cidade da Ribeira Grande, expresso tanto nos edifícios físicos, como nas instituições sociais e políticas, que mimetizavam as existentes em Portugal. Pode supor-se que, apesar do seu caráter cosmopolita e, assim, das suas múltiplas influências, a cidade era na sua génese uma cópia do mundo português. Simultaneamente, o arquipélago cabo-verdiano estava também a ser africanizado, com a ida de escravos provenientes da costa ocidental africana, que levavam os seus próprias hábitos e padrões socioculturais. Convém lembrar que, do ponto de vista político e administrativo, Cabo Verde mantinha as tradições portuguesas e seguia as mesmas regras que existiam em Portugal. A Ribeira Grande, além de ser o primeiro aglomerado populacional deste arquipélago, era também a primeira cidade fundada por europeus a sul do trópico de Câncer. A cidade foi construída, literal e metaforicamente, pelos portugueses e, por isso, a capital cabo-verdiana devia a sua feição à “metrópole”. A maior parte dos materiais que edificaram muitas das construções da Ribeira Grande foram trazidos de Portugal. Mas se neste caso a influência portuguesa foi meramente simbólica, o mesmo não se pode afirmar sobre as estruturas políticas e administrativas da Ribeira Grande, que eram réplicas das existentes nas cidades portuguesas do Reino e nos outros arquipélagos atlânticos. Apesar da base portuguesa, o modelo urbano da Ribeira Grande foi ajustado ao clima tropical africano. No final do século XV e no início do século XVI, a Ribeira Grande era dominada pela pequena nobreza portuguesa, que ia para Cabo Verde à procura de recompensas pelos serviços militares e administrativos prestados ao rei. Consigo levavam as instituições e cargos administrativos que deviam facilitar a sua vida e também aprimorar a organização interna de Cabo Verde. A Câmara era o órgão político local de maior relevância e era constituída por juízes, tesoureiros, um escrivão, um procurador e vereadores. Os ofícios mais influentes estavam nas mãos dos juízes, que eram responsáveis pela ordem pública e o cumprimento das leis régias. As competências dos vereadores centravam-se na gestão dos bens do concelho, nomeadamente, cobravam impostos, zelavam pela propriedade comum, como poços ou caminhos, fixavam os salários e fiscalizavam os preços dos produtos.88 O escrivão controlava as entradas e as saídas das rendas da Câmara e registava os atos eleitorais 88 Ângela DOMIGUES, “Administração...”, op. cit, p. 67. 54 dos vereadores. Os corregedores e os feitores eram responsáveis pelo comércio. O almoxarife, coadjuvado por um escrivão, controlava o comércio com a costa da Guiné.89 Nota-se que na cidade da Ribeira Grande existiam indivíduos com os seguintes títulos de nobreza, fidalgos, cavaleiros, escudeiros e os seguintes ofícios, juízes e vereadores. O cargo de almotacé, que em Portugal era um funcionário de confiança, ligado à gestão financeira municipal, foi também mencionado em várias cartas. O ofício existia em Cabo Verde e a pessoa que o ocupava, sendo eleita pela Câmara, era responsável pela inspeção dos pesos, medidas, preços de géneros e pela limpeza da cidade90. O almoxarife era outro cargo de grande relevância que, tanto em Portugal como na Ribeira Grande, era responsável pela cobrança e arrecadação de impostos. Inicialmente, a sua área de atuação era limitada e as suas responsabilidades básicas estavam expressas na carta de privilégio de 1466. Com o crescente interesse dos Portugueses por Cabo Verde, as suas tarefas foram ampliadas sendo responsável pela cobrança de impostos sobre os movimentos comerciais e pelo controlo do tráfico.91 Na Ribeira Grande existia também um cargo de corregedor, que em Portugal representava a Coroa em todas as comarcas, exercendo o poder judicial. As mesmas funções foram-lhe atribuídas na capital cabo-verdiana. Além da estrutura administrativa, os Portugueses levaram consigo também as instituições e profissões que lhes facilitavam a vida em Cabo Verde. O fato de se estabelecer um hospital na Ribeira Grande e de se contratarem médicos prova que os Portugueses iam para Cabo Verde com o objetivo de se fixarem, e não apenas de explorarem superficialmente a região. Pelo que atrás foi exposto, pode concluir-se que Portugal exerceu forte influência na cidade cabo-verdiana, o que se observa na continuação dos títulos de nobreza, ofícios régios e estruturas administrativas. Convém assinalar que este processo ocorreu no século XVI, quando Cabo Verde ainda desempenhava um papel muito importante no circuito internacional. Enquanto os reinóis tiveram oportunidade para lucrarem com o trato da Guiné continuaram a ir à ilha de Santiago. As ligações entre estes e Portugal mantiveram-se muito fortes. Quando Cabo Verde perdeu a sua posição privilegiada, a nobreza portuguesa deixou de comerciar com África através da Ribeira 89 Amarílis Barbosa MARTINS, Relações entre Portugal..., op. cit., pp. 23-25. 90 Paulo da Costa FERREIRA, “Do ofício de almotacé na idade de Lisboa (século XVIII)”, Cadernos do Arquivo Municipal, Lisboa, 2ª série, nº. 1, (janeiro-junho 2014). 91 Ângela Domingues, “Administração...”, op. cit., p. 69. 55 Grande. A partir de então, ou seja, do final do século XVI, a sociedade cabo-verdiana mudou o seu rumo, porque o grupo social baseado nos portugueses do Reino não se renovou, o que deu espaço para o surgimento dos denominados “brancos da terra”. Embora não haja documentos que refiram abundantemente o processo de africanização de Cabo Verde, este legado foi muito forte, sendo indiscutivelmente uma marca na genética e na cultura do arquipélago. As relações entre Africanos e Portugueses foram recíprocas. A cultura e a língua portuguesas passaram a fazer parte da vida dos Africanos, chegados a Cabo Verde, como deu testemunho André Álvares de Almada no Tratado Breve dos Rios de Guiné do Cabo Verde: “Entre estes negros andam muitos que sabem falar a nossa língua portuguesa e andam vestidos ao nosso modo, E assim muitas ladinas chamadas tangomãos porque servem aos lançados. E estas negras e negros vão com eles de uns Rios para os outros e à ilha de Santiago”.92 Nova formas culturais nasceram fruto de um processo de crioulização, de transformação e simbioses das heranças portuguesa e africana. Um dos mais destacados investigadores da língua crioula, Adolfo Coelho, defendeu que a “comunidade subordinada” não aceitava a língua dos “dominadores”, o que terá contribuído para o nascimento de um novo dialeto. Os “dominadores” foram assim obrigados ao uso de um novo idioma. Percebe-se que esta situação teve lugar em Cabo Verde e a língua portuguesa foi afastada da comunicação informal. A teoria de Adolfo Coelho demonstra como a “sociedade dominada” desempenhou um papel determinante no processo de crioulização.93 Manuel Veiga, por sua vez, chamou atenção para o fato da minoria branca dominar diferentes dialetos da língua portuguesa, da mesma forma que os africanos falavam várias línguas africanas.94 António Carreira, Nélson Eurico Cabral e Lopes da Silva acreditam que a língua crioula nasceu em Cabo Verde e de lá foi levada para o continente africano, através de uma intensa atividade econômica.95 92 André Álvares de ALMADA, Tratado Breve dos Rios de Guiné do Cabo Verde, 1594, publ. em MMA, s. II, vol. III, doc. 92, pp. 325-326. 93 Barbara HLIBOWICKA-WĘGLARZ, Portugalskie języki kreolskie w Afryce, Lublin, Wydawnictwo Uniwersytetu Marii Curie-Skłodowskiej, 2013, pp. 82-83. 94 Ibidem, p. 102. 95 Ibidem, pp. 117-118. 56 Convém lembrar que foram enviados à ilha de Santiago escravos provenientes de muitas tribos e etnias diferentes da região da Guiné. Desta forma, pode afirmar-se que o próprio processo de africanização foi muito variado e complexo. Os escravos de várias origens tinham que se integrar entre si, partilhando o mesmo espaço de habitação e o espaço de trabalho, as plantações. Depois tinham também que se integrar na sociedade dos colonizadores europeus. A europeização entende-se como o ato de europeizar algo, ou seja, um processo de formação da visão do mundo de acordo com os padrões europeus, seguindo um estilo de vida semelhante ao europeu. No caso de Cabo Verde, estes estão bem patentes na religião, através da evangelização dos africanos, que aparentemente eram forçados a abandonar as suas crenças, embora estas e os ritos africanos se tenham integrado no Cristianismo. Aline Dias de Silveira propôs uma definição de europeização, notando que “frequentemente, é utilizado o termo europeização como sinônimo de modernização ou ocidentalização. Com isso, europeização designa, muitas vezes, a expansão europeia [...] mas também, em consequência desta expansão, o processo de europeização do mundo. Esta categorização serve, na maioria das vezes, para a exaltação da superioridade cultural de um centro e dos processos sofridos pelas regiões ditas periféricas”.96 Desde sempre, que os Portugueses fizeram um esforço para manter Cabo Verde totalmente sobre domínio do Cristianismo. Entre os vários esforços, destaque-se a ordem de Sebastião que, seguindo as diretrizes do Concílio de Trento, mandou fundar um seminário na cidade da Ribeira Grande. Os alunos eram obrigados a frequentar aulas de gramática da língua latina e aulas de canto, apenas alguns dos exemplos dos mecanismos de europeização dos pupilos. Além disto, fixou-se uma renda anual de duzentos mil reais para sustento desta instituição. “E cada um ano duzentos mil reais, com que no dito Seminário se doutrinem alguns moços e bons costumes e doutrina, nos quais duzentos mil reais entrarão 96 Aline Dias da SILVEIRA, “Europeização e/ou Africanização da Espanha Medieval: Diversidade e unidade cultural europeia em debate”, História, São Paulo, 28 (2), 2009. Em linha, 15/06/2015, http://www.scielo.br/pdf/his/v28n2/22.pdf, pp. 651-652. 63 maçãs, as peras e os mamões.115 Algumas destas plantas tinham origem em África e na Ásia. O capitão André Álvares de Almada fez observações semelhantes observando que a terra “é tão abundante de tudo que nada lhe falta, abastada de muitos mantimentos, muita fresca de ribeiras de água, laranjeiras, cidreiras, limoeiro, canas-deaçúcar, muitos palmares, muita madeira excelente".116 Note-se que estas plantas, tendo circulado por vários continentes, foram cultivadas em Cabo Verde, passando pelo porto principal da Ribeira Grande. Das Américas foram trazidas para Cabo Verde o carrapato, a mandioca, o milho e a purgueira. O carrapato, com origem na América tropical, foi introduzido nas ilhas, não se sabendo quando, contudo, tornou-se num produto fundamental na indústria de grog, um dos dois principais produtos de exportação de Cabo Verde.117 A mandioca foi trazida da América do Sul.118 O milho teve uma passagem rápida da América para a África, cujo cultivo foi difundido por todas as terras tropicais. As fontes históricas apontam para a importação de milho de Cabo Verde entre 1514 e 1516.119 A purgueira foi introduzida em Cabo Verde ou pelos portugueses do Brasil, ou pelos espanhóis das Antilhas. As plantas que foram trazidas para Cabo Verde do Oriente foram o arroz, a bananeira, os citrinos e o coqueiro. O arroz foi introduzido pelos portugueses muito cedo. Contudo, não se sabe se o arroz foi levado do Reino, onde já era muito bem conhecido, ou se foi trazido diretamente do Oriente. A bananeira foi descrita por Gaspar Frutuoso que a observou na ilha de Santiago, nos finais do século XVI.120 Os citrinos, que provinham do sudeste asiático, foram provavelmente trazidos de lá pelos portugueses. O piloto de Vila do Conde já tinha feito referência à existência de laranjeiras na ilha de Santiago, em meados do século XVI.121 Nesta ilha os coqueiros eram de grande relevância. O piloto de Vila de Conde observou a presença de coqueiro, 115 Ibidem, pp. 67-69. 116 Maria Emília Madeira SANTOS, “As estratégicas Ilhas de Cabo Verde ou a fresca Serra Leoa, uma escolha para a política de expansão portuguesa no Atlântico”, Coimbra, 1998, (vol. XXXIV), p. 488. Separata da Revista da Universidade de Coimbra. 117 Jose E. Mendes FERRÃO, “A Aventura...”, op.cit., p. 115. 118 Ibidem, pp. 128-131. 119 Ibidem, p. 143. 120 Ibidem, p. 184. 121 Ibidem, p. 206. 64 chamados de noz de Índia, nas proximidades da Ribeira Grande, por volta de 1545. Nos anos de 1582 e 1591, a presença destas plantas na ilha de Santiago foi notada por Gaspar Frutuoso, que observou que muitas palmeiras destas plantas davam cocos. O historiador britânico, H.C. Harries, num artigo "The Cape Verde region (1499-1549) - the key to coconout in the Western Hemisphere" supôs que as ilhas de Cabo Verde desempenharam um papel fundamental na distribuição do coqueiro no mundo ocidental e que, provavelmente, o coqueiro foi levado de Cabo Verde para a América Central e do Sul.122 Convém também lembrar as tentativas de cultivo de cana-de-açúcar em Cabo Verde. As primeiras plantações surgiram logo após a descoberta deste arquipélago, tendo sido enviada da ilha de Madeira. Porém, a produção foi muito pequena e nunca chegou a competir com as plantações daquele arquipélago. O padre Baltazar Barreira, numa carta escrita ao padre João Álvares, em 1 de agosto de 1606, observou que " há também canaviais de açúcar, mas o faze-lo aonde não há engenhos de agua, custa muito trabalho, porque toda a cana se pisa em pilões". Duas décadas depois, em 1622, André Faro escreveu que na ilha de Santiago havia açúcar de boa qualidade, mas não era tão bom como o do Brasil. Em 1721, os negociantes de Lisboa continuavam a enviar um navio para Cabo Verde com fim de comprar o açúcar. Contudo, em 1797, João da Silva Feijó observou que o açúcar cabo-verdiano servia principalmente para a produção de aguardente.123 A reexportação observa-se também no caso dos escravos, originários do litoral africano, que foram comercializados a partir da Ribeira Grande. Ressalta-se que este porto era ao mesmo tempo importador, exportador e um entreposto comercial de escravos, trazidos da costa ocidental africana. 124 A Ribeira Grande tornou-se no principal porto de reexportação de escravos a partir de 1492, quando os espanhóis e portugueses, perante a exploração do novo continente e a falta de recursos demográficos decidiram investir na mão-de-obra escrava. Não há dúvidas de que o escravo, enquanto produto comercial, serviu como móbil de ligação entre este porto cabo-verdiano e dos portos do continente americano. A 122 Ibidem, pp. 227-231. 123 Ibidem, p. 32. 124 Maria Manuel TORRÃO, “Atividade comercial externa de Cabo verde, organização, funcionamento, evolução”, publ. em HGCV-I, pp. 293. 65 partir da primeira década do século XVI, existem numerosos registos de cobrança, que constituem prova do grande movimento de navios de escravos que passavam pela Ribeira Grande. Os navios negreiros pagavam aí os quartos e vintenas pelos escravos resgatados na costa da Guiné. Em 1514, foram cobrados os impostos sobre o navio de Santa Catarina, pertencente ao armador João Vaz, no porto da Ribeira. Neste registo verifica-se que o escravo era tratado exatamente do mesmo modo que as outras mercadorias, como o marfim e o arroz. A partir desta data observa-se que os impostos cobrados sobre os escravos estavam equiparados às plantas, especiarias ou animais125. Os registos de cobrança, incluídos no Corpo Documental da História Geral de Cabo Verde, proporcionam informações sobre os outros gêneros de produtos que partiam, com os escravos, do porto cabo-verdiano, como o marfim, o arroz, o milho, as gamelas, os balaios, a cera, os couros vacuns e a manteiga. Estes registos permitem chegar a importantes conclusões. Do porto da Ribeira Grande partiam navios carregados de produtos não manufaturados, principalmente plantas e especiarias. Graças aos títulos de saídas e entradas dos navios pertencentes a Castela e às outras regiões europeias, sabe-se que à cidade da Ribeira Grande chegavam barcos carregados de produtos manufaturados e de luxo, que, provavelmente, não eram reexportados, mas seriam consumidos pelos moradores da cidade. Na lista de mercadorias que aportavam à Ribeira Grande encontravam-se produtos como: facas, sombreiros, camisas de pano da terra, figos, jarretas de barro, vinho, biscoito, talhadores de málega branca, tigelas de málega, vassouras, pano francês, queijos, amêndoas, sabões, cordas, pregos, presilhas, canhamaço, jarras de azeite, panelas vidradas, toalhas de mesa, trigo, pano verde, pano vermelho, pano de Londres roxo, damasco preto, passas de uvas, salseirinhas de mostarda, caldeirinhas de cobre, almaraias de água rosada, mel de abelha, estopa, nozes. Nos registos de saída dos mesmos navios constavam principalmente escravos, marfim e algodão126. O gênero de produtos que chegavam à Ribeira Grande refletia a situação socioeconômica dos moradores daquela cidade. Tratavam-se de indivíduos com algum 125 A lista das mercadorias publicada em HGCV-CD-II, p. 72. 126 Ibidem, p. 233-250. 66 poder de compra, capazes de importar produtos que não eram produzidos no arquipélago, nem na costa fronteira, e que não eram de primeira necessidade. As mercadorias que passavam pelo porto da Ribeira Grande permitem fazer as seguintes afirmações. A esta cidade chegavam produtos vindos de todas as partes do mundo, de África, da Europa, da América e do Oriente, o que comprova o caráter internacional deste importante porto atlântico. Os habitantes da cidade, tanto os moradores brancos, como os escravos africanos, tinham acesso a produtos oriundos de várias partes do globo, nomeadamente, às frutas exóticas. Porém, convém explicar, que os produtos de luxo eram acessíveis exclusivamente para os moradores brancos. A chegada de mercadorias de luxo demonstra não apenas o cosmopolitismo caboverdiano, mas também explica melhor as circunstâncias que permitiram a internacionalização deste arquipélago. A intensiva troca de produtos ocorreu no momento em que a ilha de Santiago era dominada por uma elite que atingiu o seu ponto mais elevado em termos de influência, de poder, e de capacidade económica. A ligação com África Pela ilha de Santiago cruzavam-se dois grandes circuitos comerciais, nomeadamente, o circuito africano e o circuito euro-africano. Para o primeiro, a ilha de Santiago foi tanto o ponto de partida como o de chegada e o destino final era a costa ocidental africana. Porém, estima-se que, através dos cálculos incluídos no “Livro da Receita da Renda das Ilhas de Cabo Verde”, a média anual de navios que circulavam entre Cabo Verde e a costa da Guiné era de 14 a 15 navios. O segundo circuito, o euroafricano, dividia-se em dois centros motores, Portugal e Castela. Estes dois pontos regionais tinham a ilha de Santiago como ponto de escala, que se tornou numa placa giratória no contexto destes eixos comerciais importantes. A capital cabo-verdiana era o porto de chegada de produtos oriundos da Europa e o porto de partida com destino à costa da Guiné, e ainda o porto por onde passavam as mercadorias africanas que iam para a Europa.127 Os produtos comerciais endógenos com maior sucesso no arquipélago serviram como forma de pagamento nas transações na costa africana. O algodão é disso exemplo. Este produto começou por ser comprado apenas pela Fazenda Real que, posteriormente, o distribuía aos contratadores ligados ao comércio negreiro. A 127 Maria Manuel Ferra TORRÃO, “Atividade...”, op. cit., pp. 258-266. 67 importância do algodão fez com que muitos proprietários rurais investissem na manufatura de panos que depois eram trocados por produtos africanos.128 Assim, o algodão tornou-se o produto endógeno de Cabo Verde com maior sucesso nas exportações. A importância do algodão é atestada pela política que a Coroa portuguesa teve sobre este produto. A partir de 1472, o algodão cultivado neste arquipélago passou a ser comercializado inicialmente apenas com a região da Guiné e depois com Lisboa e a Flandres. A partir de 1480, o algodão entrou na lista de mercadorias defendidas pela Coroa portuguesa, que não permitia a exportação das fibras brancas. Porém, após obter a licença régia, o comércio deste produto foi permitido em França, na Inglaterra e na Flandres.129 A noz de cola foi outro fruto que desempenhou um importante papel como forma de pagamento no comércio interafricano, mais concretamente na costa africana entre o Senegal e Angola. No início do século XVI, tornou-se num produto fundamental nas rotas comerciais. A importância desta planta foi reconhecida pela maioria dos reis africanos. Supõe-se que a noz de cola era tão valiosa como o ouro ou os tecidos de algodão.130 Esta fruta, além de ser apenas uma substância estimulante, desempenhava vários papéis na medicina, sendo também uma fruta simbólica, utilizada nos rituais religiosos africanos. Sobre o grande valor da cola no comércio interafricano escreveu André Álvares de Almada, na sua obra intitulada Tratado Breve dos Rios de Guiné de Cabo Verde, através do qual sabe-se que esta planta era comercializada nas redes inter-regionais da costa africana. “Entre todas a mais estimada é a cola, fruto que se dá na Serra Leoa e seus limites; e vale tanto neste Rio, que dão tudo a troco dela, assim mantimentos como roupa, escravos e ouro. E é tão estimada que a levam até ao Reino do Gran-Fulo, donde vale muito, e assim nos mais Rios do nosso Guiné”.131 128 António CARREIRA, Migrações nas ilhas de Cabo Verde, Mira Sintra, Instituto Caboverdiano do Livro, 1983, pp. 30-31. 129 Bertelina Maria do Rosário de BRITO, Comércio de algodões e cavalos em Cabo Verde (1460-1535): Consequências económicas, sociais e institucionais, Lisboa, Universidade Nova de Lisboa, 2013, pp. 8689. 130 Site de Buala. Em linha, 19/06/2015, http://www.buala.org/pt/a-ler/a-noz-de-cola-um-fruto-simbolico. 131 André Álvares de ALMADA, Tratado Breve dos Rios de Guiné de Cabo Verde, Lisboa, Editorial L.I.A.M, 1964, p. 48. 68 “A cola, de que já tratámos, vale em todo Guiné, mas neste Rio é mais estimada que em todos os outros; usam estes negros dela como na nossa Índia do betele, porque com a cola, que é como uma castanha, caminha um negro todo o dia, comendo nela e bebendo da água, e tem-na por medicinal para o fígado e o urinar132 “E a principal mercadoria que aqui corre são colas, nomeadas já algumas vezes, fruto que vem da Serra Leoa ao Rio Grande, e dele o trazem a este. Levam a este trato tudo o que levam a Gâmbia”. 133 “Colas, que é o principal resgate para o Rio de Gâmbia e os mais Rios de Guiné, a qual se dá em árvores como castanhas, em ouriços sem espinhos. 134 A primeira referência da existência da cola em Cabo Verde foi feita por Francisco de Andrade, nos seus relatos sobre as ilhas de Cabo Verde, apontando como estes produtos era essencial nas trocas comerciais na Senegâmbia. "uma fruta à maneira de castanha, que chamam cola, de que trazem navios carregados, que vale por toda a Guiné, principalmente no rio de Gâmbia, que é o principal resgate que com ela se faz"135 Maria do Rosário Pimentel observou que "apesar do consumo de nozes de cola ser prática corrente entre muitos dos portugueses que frequentavam o litoral africano, ou que habitavam nos arquipélagos de Cabo Verde e de São Tomé e Príncipe, o hábito nunca penetrou na Europa, a não ser pontualmente e, sobretudo, com indicações de caráter terapêutico".136 A ligação com o Brasil Em 1587, Gabriel Soares de Sousa, um português e colono agrícola residente na região da Bahia, publicou uma obra enciclopédica, intitulada Tratado Descritivo do Brasil, que tentava descrever a riqueza da terra brasileira. Nesta obra ressalta-se a importância das ilhas de Cabo Verde, como o principal exportador de plantas e animais 132 Ibidem, pp. 55-56. 133 Ibidem, p. 81 134 Ibidem, p. 126. 135 Site de Buala. Em linha, 19/06/2015, http://www.buala.org/pt/a-ler/a-noz-de-cola-um-fruto-simbolico. 136 Ibidem. 69 para o Brasil. Segundo o autor, as vacas, os cavalos, as cabras e as ovelhas que chegaram pela primeira vez ao Brasil eram oriundas de Cabo Verde. “As primeiras vacas que foram à Bahia levaram-nas de Cabo Verde e depois de Pernambuco, as quais se dão de feição que parem cada ano e não deixam nunca de parir por velhas”.137 “As éguas foram à Bahia de Cabo Verde, das quais se inçou a terra, de modo que, custando em princípio a sessenta mil-réis e mais, pelo que levaram lá muitas todos os anos e cavalos, multiplicaram de uma tal maneira, que valem agora a dez e a doze mil-réis; e há homens que têm em suas granjearias quarenta e cinquenta, as quais parem cada ano; e esperam o cavalo poldras de um ano, como as vacas, e algumas vezes parem duas crianças juntas”.138 “As ovelhas e as cabras foram de Portugal e de Cabo Verde, as quais se dão muito bem, umas e outras parem, tirada a primeira paridura, duas crianças e muitas vezes três, as quais emprenham como são de quatro meses e parem cada ano pelo menos duas vezes, cuja carne é sempre muito gorda, mui sadia e saborosa”.139 Mas também produtos agrícolas foram transplantados de Cabo Verde para o Brasil, nomeadamente a cana-de-açúcar que teve um papel fundamental na economia brasileira, constituindo o seu primeiro ciclo económico e um dos mais duradoiros. Para além da cana sacarina, também foram de Cabo Verde o arroz, o coco e o inhame. “E comecemos nas canas-de-açúcar, cuja planta levaram à capitania dos Ilhéus das ilhas da Madeira e de Cabo Verde”.140 “Levaram a semente do arroz ao Brasil de Cabo Verde, cuja palha se a comem os cavalos lhes faz muito mormo, e, se comem muito dela, morrem disso”.141 137 Gabriel Soares de SOUSA, Tratado Descritivo do Brasil em 1587. Em linha, 19/06/2015, http://www.novomilenio.inf.br/santos/lendas/h0300a2.pdf, p. 163. 138 Ibidem, p. 164. 139 Ibidem, p. 164. 140 Ibidem, p. 165. 141 Ibidem, p. 169. 70 “Foram os primeiros cocos à Bahia de Cabo Verde, de onde se enche a terra, e houvera infinidade deles se não se secaram, como são de oito e dez anos para cima; dizem que lhes nasce um bicho no olho que os faz secar”.142 “Da ilha de Cabo Verde e da de São Tomé foram à Bahia inhames que se plantaram na terra logo, onde se deram de maneira que pasmam os negros de Guiné, que são os que usam mais dele”.143 As relações entre Cabo Verde e o Brasil foram estreitas desde o início, uma vez que durante a sua viagem de descobrimento em 1500, Pedro Álvares Cabral fez uma escala na cidade da Ribeira Grande, onde alguns anos atrás ancorou também o navio de Vasco da Gama na sua viagem para a Índia. Após o descobrimento do Brasil, observa-se o estabelecimento de uma intensiva troca comercial que abrangia plantas, animais e seres humanos. Contudo, convém lembrar que do Brasil vieram as plantas que revolucionaram a vida dos moradores de Cabo Verde e que se tornaram a base alimentar desta sociedade, ou seja, milho maíz, milho grosso, feijões e mandioca. Vitor Paim Gobato, o antigo Embaixador do Brasil em Cabo Verde escreveu "(..) contrariar o poeta e trovador cabo-verdiano B. Leza quanto cantava ser Cabo Verde um pedacinho do Brasil. Sinto que, na verdade, o Brasil é bem antes um pedação de Cabo Verde".144 II. 4.2. A circulação do conhecimento científico e técnico na Ribeira Grande Os objetos da transação podem ser também bens e serviços, assim como bens industriais intangíveis, tais como o know-how, ou seja, o conhecimento da técnica, tecnologia ou da organização relacionada com o processo de produção de um determinado produto.145 Maria Manuel Ferraz Torrão denominou a área do oceano Atlântico por “Atlântico Revolucionário”, reconhecendo a sua importância [...] enquanto espaço da circulação de ideias e de informações, muitas delas fundamentais na modificação da 142 Ibidem, p. 168. 143 Ibidem, p. 169. 144 Ibidem, pp. 23-24. 145 J. RYMARCZYK, Handel zagraniczny, organizacja i technika, Warszawa, Polskie Wydawnictwo Ekonomiczne, 2002, pp. 24-25 71 erudição europeia da época, a expressão revolucionária assume, igualmente, uma relevância digna de registo no campo da evolução dos conhecimentos a nível da cultura material e da história das mentalidades”.146 O conhecimento científico e técnico circulava pelo império português, atingindo também a Ribeira Grande. Neste campo, destaquem-se, entre outros, a produção cavalar, a indústria têxtil, as letras de câmbio, sendo estas formas de pagamento nas transações internacionais, o conhecimento médico e as aprendizagens vivenciais. Cavalos e algodão Cabo Verde foi um lugar de transplantação de várias espécies vegetais e animais que, embora terra hostil ao ser humano, oferecia condições climáticas favoráveis a um determinado setor agropecuário. Convém lembrar, que as duas mercadorias, o algodão e os cavalos, foram produzidas neste arquipélago devido ao seu grande valor económico e social, reconhecido entre os povos africanos. A criação de cavalos e o cultivo de algodão foram as duas atividades produtivas que deram maior contributo para o comércio negreiro, sendo estes produtos os mais procurados na costa africana entre os chefes locais que tentavam elevar o seu estatuto social. O cavalo tornou-se num dos meios de pagamento nos contratos de arrendamento entre a ilha de Santiago e a costa da Guiné. Os cavalos eram animais muito procurados entre os africanos, devido à impossibilidade climática de desenvolver a sua criação no continente africano. A posição geoestratégica e as boas condições naturais propícias à produção cavalar, fizeram da ilha de Santiago um lugar destacado na criação destes animais.147 "E neste rio de Casamansa [povo Mandinga] vale muito o ferro, e aqui há resgate de escravos por cavalos e por lenços e por pano vermelho".148 146 Maria Manuel Ferraz TORRÃO, “Circulação de conhecimentos científicos no Atlântico. De Cabo Verde para Lisboa, Memórias Escritas, Solos e Mineiras, Plantas e animais. Os envios científicos de João da Silva Feijó, José Damião Rodrigues”, O Atlântico Revolucionário, circulação de ideias e de elites no final do Antigo Regime, Ponta Delgada, Centro de História de Além-Mar, Universidade Nova de Lisboa, Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, Universidade de Açores 2012, p. 137. 147 António Correia e Silva, “Espaço, Ecologia e Economia Interna”, publ. em HGCV-I, pp. 187-188. 148 “Do caminho, rotas e conhecensas do Rio de Gâmbia pera o Cabo Roxo e Rio Grande”, Duarte Pacheco Pereira, op. cit., liv.1, cap. 30, publ. em MMA, s. II, vol. I, doc. 106, p. 645. 72 “E a gente que nesta terra habita são Gogolis e Beafares, e são sujeitos a el-rei do Mandingas. E estes são muito negros de color, e muitos deles andam nus e outros vestidos de panos de algodão. Aqui se resgatam escravos, seis e sete por um cavalo [...]”.149 O algodão foi outro produto excecional na história do arquipélago caboverdiano, sendo prova das trocas de conhecimento a nível mundial, onde foram envolvidas três culturas diferentes, a europeia, a africana e a asiática. As fibras brancas já eram conhecidas na costa ocidental africana, mas faltava a tecnologia têxtil e de tingimento de algodão. Convém lembrar que a indústria têxtil já existia na África, mas baseava-se principalmente na transformação de couro e de tecidos feitos de tronco de algodão. André Álvares de Almada, no Tratado Breve dos Rios de Guiné de Cabo Verde, observou o costume de usar panos de algodão entre os Jalofos da costa ocidental africana. “[...] trazem as pernas nuas, e nos pés uns alpercatas de couro cru; e nas cabeças umas carapuças do mesmo pano de algodão”.150 “[...] em toda esta costa, terra dos Jalofos até os Mandingas, há muito boa roupa de algodão, panos pretos e brancos, e de outras muitas maneiras de preço, e os tintos são tão finos que cegam aos que os veem, os quais se tiram para os outros Rios aonde os não há.”151 Como os tecidos coloridos, de origem asiática, foram de grande importância para os europeus, os moradores de Cabo-Verde resolveram estabelecer também a sua própria produção nas ilhas. Este tipo de algodão passou a ser denominado como produto-rei.152 No início do século XVI, os portugueses, no arquipélago cabo-verdiano, começaram a praticar a manufatura de tecidos de algodão, aproveitando a mão-de-obra escrava. Os primeiros “panos da terra” foram tingidos de azul, com o extrato de noz de cola, um produto que, como se viu, era oriundo da Senegâmbia e levado para Cabo 149 Ibidem, p. 648. 150 André Álvares de ALMADA, Tratado Breve dos Rios de Guiné de Cabo Verde, Lisboa, Editorial L.I.A.M, 1964, p. 12. 151 Ibidem, p. 19. 152António Correia e Silva, “Espaço...”, op. cit., pp. 183-184. 79 em dominação territorial”.167 Deste modo, contribuíram para o desenvolvimento do comércio na região da costa ocidental africana e Cabo Verde, tornando-se intermediários entre as populações locais e os exploradores europeus e contribuíram para o estabelecimento de uma língua franca na região – o crioulo.168 Sobre estes, escreveu André Álvares de Almada: “E se não foram estes Portugueses lançados, não tiveram estas duas nações tanto trato em Guiné, nem comércio como tem hoje [...]. Hoje atravessam estes Portugueses lançados todos os Rios e terras dos negros, adquirindo tudo o que acham nelas”. 169 “Este lançado Português se foi ao Reino do Gran-Fulo por ordem do duque de Casão, que é um negro poderoso que habita neste porto [...] e na corte do GranFulo se casou com uma filha sua, da qual teve uma filha, e querendo-se tornar para os portos do mar, lhe deu o sogro licença que a trouxesse consigo. E chamase João Ferreira natural do Crato, da nação e chamado pelos negros o Ganagoa, quer dizer na língua dos Beafares, homem que fala todas as línguas”.170 “[...] correndo beira-mar a costa até o porto de Joala, que é onde residem hoje os lançados, em uma aldeia que ali está, povoada de negros, na qual residem também os nossos debaixo da proteção e guarda do alcaide que o Rei ali tem posto [...] onde recolhem algumas vezes os lançados as suas embarcações de lanchas que tem para o seu trato, por temor das nossas galeotas quando lá andam, ou de alguns vizinhos da Ilha [de Santiago].171” Entre os moradores de Cabo Verde encontravam-se também estrangeiros que iam para Cabo Verde à procura das suas riquezas endógenas, por exemplo, os genoveses procuravam algodão e os castelhanos de Sevilha a urzela.172 Os primeiros estrangeiros a chegarem à ilha de Santiago foram os Genoveses, membros da tripulação ou da família de António de Noli. Porém, estes nunca desempenharam um papel de grande relevância 167 Carlo LOPES, “Construção de identidade nos rios de Guiné do Cabo Verde”. Em linha, 29/06/2015, http://www.africanos.eu/ceaup/uploads/AS06_045.pdf, p. 57. 168 Ibidem, pp. 57-58. 169 André Álvares de ALMADA, Tratado Breve dos Rios de Guiné do Cabo Verde, 1594, publ. em MMA, s. II, vol. III, doc. 92, p. 252. 170 Ibidem, pp. 252-253. 171 Ibidem, p. 256. 172 Joaquim Veríssimo SERRÃO, História de Portugal, vol. II, Lisboa, Palas Editora, 1984, p. 172. 80 no comércio ou na política do arquipélago. Os mais relevantes e ativos estrangeiros que atuaram em Cabo Verde foram os Castelhanos, tanto como moradores, quanto como mercadores. Vários relatos de viagens, inclusivo o do Piloto Anônimo, fizeram referência à presença de espanhóis na Ribeira Grande. “ Esta cidade [da Ribeira Grande] está virada a Sul, tem boas casas de pedra e cal, e habitada por numerosos cavaleiros portugueses e castelhanos e conta mais de 500 fogos”. 173 Este relato proporciona também informações interessantes sobre o papel dos castelhanos enquanto intermediários, ou seja, agentes que forneciam plantas, sementes, e mercadorias aos moradores de Cabo Verde. Em 1469, detecta-se já a presença de Castelhanos, pois os mercadores Joham de Lugo e Pero de Lugo conseguiram uma carta de privilégios para fazer o trato de urzela, nas ilhas de Cabo Verde. “[...] trato de urzela das suas ilhas do Cabo Verde com Joham de Lugo e Pero de Lugo castelhanos mercadores, moradores em a cidade de Sevilha com condição que eles tragam a dita urzela em navios de Castela ou quaisquer que lhes prover a nossos reinos [...] e realmente seguramos o dito Joham de Lugo e Pero de Lugo e todas suas mercadorias navios e companhia que andarem e forem no dito trato”.174 Como atrás foi exposto, o estudo dos títulos das mercadorias que entravam e saíam do porto da Ribeira Grande fornece informações sobre os produtos que iam a bordo dos navios castelhanos para a ilha de Santiago, o que constitui prova da importância que estes mercadores tiveram na ligação de Cabo Verde à Europa. A sua presença neste arquipélago foi fundamental, se levarmos em conta dois pontos: primeiro, porque eram estes que forneciam grande parte dos mantimentos aos moradores de Santiago; segundo, porque participaram ativamente no tráfico de escravos, sendo simultaneamente compradores de escravos na Ribeira Grande e os fornecedores desta mercadoria na América Espanhola. 173 Viagens de um piloto português do século XVI a costa de África e a São Tome, op. cit., pp. 89-90. 174 "Carta de privilégio a Joham de Lugo e Pero de Lugo, castelhanos mercadores que haviam feito trato de urzela nas ilhas de Cabo Verde", 30/09/1499 in ANTT, Chancelaria de D. Afonso V, L.21, fl.118, v.D.2, publ. em HGCV-CD, pp. 23-24. 81 A cidade da Ribeira Grande era um lugar principalmente de passagem. A sua população foi composta, em grande maioria, pelas pessoas de curta estadia. Este caráter flutuante foi percebido também por Luís de Camões que, na sua epopeia Os Lusíadas, também esteve na ilha de Santiago, porém, do mesmo modo, apenas de passagem: “àquela ilha aportamos que tomou o nome de guerreiro Santiago. Tornámos a cortar o imenso lago do salgado Oceano, e assi deixámos a terra onde refresco doce achamos”. II. 4.4. A circulação do capital escravo na Ribeira Grande A circulação de capital entende-se como o processo de movimento de capital, que passa pelas fases de circulação e produção, estando os dois processos interligados. Este movimento é uma repetição ininterrupta de constante rotação. Na ilha de Santiago, o capital estava maioritariamente nas mãos dos “moradoresarmadores”, que detinham o direito de trato com a região da Guiné. Conforme observou Maria Emília Madeira Santos, "os privilégios, que o estatuto de morador-vizinho proporcionava, eram indispensáveis para o trato com a costa africana. A sua ausência impossibilitava a armação legal de navios, que representava, na época, a empresa mais lucrativa da ilha". Convém assinalar que, para ter acesso a este negócio, “o moradorarmador” era obrigado a investir o seu próprio capital, pois tinha que alugar um navio, comprar as mercadorias e alimentar sua tripulação. Os financiamentos das primeiras armações foram realizados com capital português, trazido pelos mercadores do Reino. Embora não haja forma de determinar o momento em que este tipo de atividade se tornou autofinanciada, acredita-se que, independentemente dos custos da armação, as mercadorias eram de tão grande valor, que cedo justificaram as quantias gastas, tornando-se assim numa atividade lucrativa.175 As principais atividades comerciais realizadas na Ribeira Grande foram desenvolvidas do grupo social dos “mercadoresarmadores”, pois eram estes que armavam os navios, que adquiriam as mercadorias que, posteriormente, era trocadas por escravos africanos. Nos primórdios da existência de Cabo Verde, a propriedade fundiária não era considerada lucrativa e, portanto, não houve grande investimento. Porém, a situação mudou após a publicação da carta régia de 1472, pois esta limito as atividades económicas dos moradores de Santiago, obrigando-os à utilização apenas de produtos 175 Maria Emília Madeira SANTOS, Iva CABRAL, “O nascer de uma sociedade através do MoradorArmador”, publ. em HGCV-I, pp. 373-376. 82 com origem no arquipélago. A partir desta data, os moradores passaram a dedicar-se à pecuária e à agricultura e, por consequência, a terra tornou-se numa fonte de capital. Não obstante, o maior e mais importante capital de Cabo Verde foi o capital escravo. Thomas Piketty, o economista francês observou que “[...] nas sociedades em que os escravos representavam uma parte importante da população, o valor de mercado do capital escravo podia, naturalmente, alcançar níveis bastante altos [...]”.176O autor fez uma análise de um caso extremo, onde quase toda a população era propriedade de uma minoria. Este tipo de análise pode também aplicar-se ao estudo da sociedade da Ribeira Grande, uma vez que esta era dominada por uma elite europeia que, de fato, constituía uma minoria. O autor comparou o valor do capital nacional e da renda nacional ao capital escravo, concluindo que “se os escravos representam 60% da renda nacional e se a taxa de retorno anual de todas as formas de capital for de 5%, o valor de mercado de estoque total de escravos é igual a doze anos de renda nacional [...] - isto é 50% maior do que o capital nacional simplesmente porque os escravos rendem 50% a mais do que o capital. Se somarmos o valor dos escravos ao valor do capital, obtemos vinte anos de renda nacional, já que a totalidade dos fluxos anuais de renda e produção é capitalizada à taxa de 5%".177 Convém assinalar que na época moderna, o escravo representava o maior capital, acumulação e fonte da riqueza e era a mercadoria mais procurada. Importava-se o escravo para a América para que este produzisse produtos de exportação. Maciel Morais Santos observou que "os escravos eram mercadorias e que faziam parte do capital produtivo americano178". Percebe-se a dupla natureza do escravo africano no comércio negreiro. Nos mercados americanos, onde era vendido, representava uma mercadoria que era consumida produtivamente. Contudo, nos mercados africanos, ganhava a forma da mercadoria de exportação.179 Note-se um acontecimento excepcional neste porto cabo-verdiano, onde o capital escravo era transferido. De fato, este foi a única mercadoria que fazia dupla parte do processo produtivo. Nas relações comerciais entre a África e Cabo Verde foi 176 T. PIKETTY, O capital no século XXI, capítulo IV: Capital escravo e capital humano Intrínseca, Rio de Janeiro, Edição digital, 2014. 177 Ibidem. 178 Maciel Morais SANTOS, “O preço dos escravos no tráfico atlântico - hipótese de explicação”, Africana Studia, n.7, 2004, Porto, Edição da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, p. 164. 179 Ibidem, p. 178. 83 considerado exclusivamente uma mercadoria de exportação, sendo apenas passivo. No Brasil, porém, participava ativamente no processo produtivo, sendo responsável pela produção das mercadorias de exportação. Desta forma, entende-se que a transformação do capital escravo ocorria no porto da Ribeira Grande, onde chegava como mercadoria e de onde partia para participar da produção americana. O pequeno porto da Ribeira Grande foi responsável pela transformação do escravo em capital escravo, o que lhe permitiu, como notou Iva Cabral, tornar-se “centro de um comércio florescente de produtos africanos”.180 II. 4.5. A prestação de serviços na Ribeira Grande Desde o início do século XVI, no porto da Ribeira Grande costumavam ancorar navios em busca de alimentação e abastecimento. As tripulações faziam aí escala com fim de reparar os navios. Cabo Verde foi reconhecido por este tipo de serviço, conforme pode observar-se na carta da Câmara da Ribeira Grande ao secretário António Carneiro: “E é grande escala para os naus e navios de sua alteza, e assim para os navios de São Tomé e ilha de Príncipe e para os navios que vão do Brasil e da Mina e todas partes da Guiné, que quando aqui chegam perdido e sem mantimento e gente aqui sem remédios e providos de todo o que lhe faz mester, com aqueço a Afonso d’Albuquerque, que vinha da Índia em nau Santiago e assim Álvaro Barreto que veio a nau Santa Marta, que aqui chegam perdidos e foram providos de todo o que lhe foi necessário, a há se deu oitenta e tantos mil reais para seu fornecimento [...].”181 O porto da Ribeira Grande, como ponto de abastecimento, foi controlado pela Coroa portuguesa. Desta forma, observa-se que o arquipélago cabo-verdiano prestava serviços, que se podem designar como marítimos, de acordo com a política régia. Uma prova disto é a carta enviada pelo rei ao corregedor de Cabo Verde, mandando os funcionários locais abastecerem a armada de Martim Afonso de Sousa de mantimentos e de dinheiro, até à quantia de trezentos cruzados. 180 Iva CABRAL, “Ribeira Grande...”, op. cit., p. 230. 181 “Carta da Câmara da Ribeira Grande ao Secretário Carneiro”, 25/10/1512 in IAN/TT, CC-I-12-23, publ. em MMA, s. II, vol. II, doc. 20, p. 58. 84 “Eu el Rei mando vos corregedor com alçada na ilha de Cabo Verde [...], onde quer que for ter Martim Afonso de Sousa, do meu conselho, com esta armada que ora mando ao Brasil [...] que sendo vos por ele requerido quaisquer mantimentos ou dinheiro que lhe seja necessário para provimento da dita amada [...], que lhes deem e isto até valia de trezentos cruzados somente”. 182 O rei mandava fornecer às armadas tudo que uma tripulação precisasse: “Eu el Rei vou envio muito saudar, eu mando ora uma armada ao estreito de Magalhães aos efeitos que ho geral dela leva por instrução [...] e porque pode ser que a dita armada tome esta ilha de Santiago me parece (ainda que ho dito geral leva uma provisão minha que e vos mostrará, para lhe acudirem com mantimentos e com o mais que lhe for necessário [...]”.183 Os navios, que faziam escala e que se abasteciam no porto da ilha de Santiago, contribuíam para a economia de Cabo Verde, pois ao se abastecerem as tripulações eram obrigadas a pagar os mantimentos. O Rei ordenava que todas as mercadorias adquiridas pelas armadas deviam ser compradas pelo valor da terra, ou seja, os produtos não podiam ser vendidos por um valor mais alto, sendo uma prova da existência da circulação de moeda em Cabo Verde. “Eu el Rei faço saber aos que este alvará virem, que mando ora uma armada ao estreito de Magalhães [...]. E porque pode ser que a dita armada tome a ilha da Madeira, ou alguma das do Cabo Verde [...] mando aos capitães das ditas ilhas e portos [...] que com muita brevidade façam acudir a dita armada com os mantimentos e coisas que lhe foram necessárias e pedidas pelo geral dela, fazendo ele pagar tudo às partes pelo preço e estado da terra”.184 182 “Carta régia ao Corregedor de Cabo Verde”, 25/11/1530 in ATT, CC, I-46-27, publ. em MMA, s. II, vol. II, doc. 69, pp. 216-217. 183 “Carta régia ao governador de Cabo Verde”, 13/09/1581 in AGS - Guerra Antígua, maço 109, fl.462, publ. em MMA, s. II, vol. III, doc. 39, p. 89 184 “Provisão para Cabo Verde e seus Portos”, 13/09/1581 in AGS, Guerra Antígua, maço 109, fl.464, publ. em MMA, s. II, vol. III, doc. 38, p. 88. 85 Apesar da forte presença de uma dinâmica internacional em Cabo Verde, em especial na Ribeira Grande, durante todo o século XVI, nunca houve acumulação de capital derivado dos ricos circuitos comerciais. Em termos financeiros, a Ribeira Grande nunca poderia substituir a Antuérpia, cidade que desempenhou, na época, a função de capital-mundo, no âmbito do comércio à escala global. A cooperação de longa data entre Antuérpia e Lisboa permitiu que o rei português enviasse todos os produtos vindos do Oriente, África e América para aquela cidade. Desta forma, observa-se que a riqueza do comércio internacional contribuiu para o desenvolvimento econômico da Europa, mas não da Ribeira Grande. Tal facto, deriva do próprio sistema colonial, que não permitia o enriquecimento das suas colônias. Apesar destas fortes limitações impostas pela Coroa e mesmo sem grande capital financeiro, o pequeno arquipélago caboverdiano conseguiu ultrapassar as suas fronteiras, contribuindo para a difusão cultural e comercial da Europa, da América, da África e da Ásia, sendo um ponto de encontro de quatro continentes. 86 CONCLUSÃO O presente trabalho teve como objetivo oferecer uma viagem no espaço e no tempo por Cabo Verde, com o fim de compreender melhor a trajetória, durante o século XVI, da primeira cidade portuguesa no ultramar, isto é, a Ribeira Grande. Assim, a investigação centrou-se nos estudos dos aspetos cosmopolitas desta cidade, o primeiro núcleo populacional português nos trópicos. O estudo aprofundado da vasta documentação régia, religiosa e dos relatos de viagens dos grandes navegadores, aventureiros e, até, piratas, ofereceu uma visão interessante dos moradores da cidade da Ribeira Grande, tentando reconstruir a vida desta comunidade cosmopolita, que residia no pequeno porto, localizado no coração do Império Português Quinhentista. Antes de apresentar o estilo de vida, os costumes e a percepção do mundo dos moradores da cidade da Ribeira Grande, convém resumir os dois elementos essenciais da análise do contexto histórico. Primeiro, é necessário explicar que o fenômeno da internacionalização, que contribuiu para o nascimento da comunidade cosmopolita santiaguense, durou apenas um século, isto é, começou e terminou no século XVI. Os primeiros anos foram marcados, entre outros aspectos, pelas políticas executadas pela Coroa portuguesa, os privilégios comerciais e, especialmente, as vantagens no trato com a Guiné. Este processo de desenvolvimento terminou com as múltiplas consequências derivadas da União Ibérica. A comunidade cosmopolita exigiu o aparecimento de uma cidade política e administrativamente bem estruturada e Santiago de Cabo Verde deixou de ser num lugar deserto e isolado. A Ribeira Grande foi fundada em 1462 e elevada à cidade em 1533. A partir de 1460, neste porto cabo-verdiano desenvolviam-se as instituições políticas (a Câmara municipal, o tribunal, o almoxarifado), eclesiásticas (uma capela, posteriormente a Igreja da Nossa Senhora do Rosário, a residência episcopal), bem como órgãos da vida pública (a prisão e o hospital). Note-se que existia uma divisão do poder administrativo, fiscal, eclesiástico, judicial e militar. O desenvolvimento da cidade conduziu a uma tomada de consciência dos moradores da Ribeira Grande que, abertamente, defendiam os seus privilégios comerciais e políticos na Câmara municipal. A bem desenvolvida vida quotidiana da Ribeira Grande permite imaginar a primeira comunidade cosmopolita dos trópicos. O porto da Ribeira Grande tornou-se num dos centros do império português no século XVI. Serviu como ponto de escala e de abastecimento para os navios nas suas 87 viagens para à África, à Ásia ou o Brasil. Além disso, foi um lugar estratégico no cruzamento das mais importantes rotas marítimas e também um centro de troca de bens entre a costa ocidental africana, a Europa e Cabo Verde, de onde, em seguida, as mercadorias eram transacionadas numa escala internacional. A Ribeira Grande era um lugar de grande relevância na navegação atlântica, tanto horizontal como vertical, sendo também um centro de três importantes circuitos comerciais, a saber: o euro-africano, o africano e o afro-americano. Ademais, foi também um lugar estratégico no tráfico de escravos na costa ocidental africana e no comércio triangular transatlântico. Porém, convém assinalar que o processo de abertura de Cabo Verde para o mundo não era completamente independente das intenções da Coroa portuguesa. Esta, por sua vez, desenvolveu conscientemente os seus planos em relação a este porto cabo-verdiano, tentando manter a continuidade política e organizar a vida econômica e política deste arquipélago. As informações apresentadas permitem entender as circunstâncias internacionais e o contexto histórico mais amplo do nascimento da primeira comunidade cosmopolita nos trópicos. Com o propósito de entender os aspectos internacionais de Cabo Verde no século XVI, que o conduziram a uma vivência cosmopolita, procurou responder-se às seguintes perguntas: quem foram, o que pensaram e como viveram os primeiros habitantes cosmopolitas de Santiago? O século XVI foi um século de grandes mudanças, não apenas em termos do avanço técnico e marítimo, mas principalmente na percepção do mundo. O Renascimento revolucionou o pensamento europeu. As ilhas atlânticas, nomeadamente Cabo Verde, passaram a atrair mais Europeus. Entre os que vinham para este arquipélago, foram os reinóis, mas também os mercadores e os aventureiros que se encantaram por estas terras exóticas. Cabo Verde oferecia a possibilidade de um rápido enriquecimento com o trato da Guiné, assim como a aceitação de novos conhecimentos. O arquipélago de Cabo Verde foi visto como um lugar sem limites e sem fronteiras, um campo de experimentação. Por estas razões, não se deve estranhar que era a ilha que apresentava as condições necessárias para o surgimento da primeira comunidade cosmopolita nos trópicos. Afastados da Coroa portuguesa e obrigados a enfrentarem o clima hostil de uma ilha inicialmente desabitada e deserta, os moradores de Cabo Verde tinham mais liberdade de ação, desenvolvida num processo de tentativa e erro. Percebe-se que o mar desempenhou papel-chave na construção da cidade cosmopolita da Ribeira Grande. A dinâmica do Atlântico condicionava esta cidade e incentivava as interações multiculturais. Este pequeno porto cabo-verdiano fazia parte do amplo mundo atlântico, cujos agentes estavam interligados 88 através das rotas marítimas. As sociedades atlânticas, ou seja, o litoral do continente europeu, africano e americano, compartilhavam valores semelhantes, enquanto os portos atlânticos se tornaram nos centros de difusão de ideias, novidades e estilos de vida, facilitando, desse modo, a comunicação, a convivência e, principalmente, a troca. Isto explica porque os moradores da Ribeira Grande puderam ser capazes de pensar de uma forma mais global. A sociedade da Ribeira Grande era verdadeiramente cosmopolita, pois não foi composta somente por Portugueses. A sua composição social variou muito. Houve, entre outros, Judeus, Ingleses, Franceses, Holandeses, Genoveses, Castelhanos de Sevilha e Africanos (livres, forros e escravos). Por conseguinte, observa-se que o movimento migratório dividiu-se em duas etapas, o fluxo migratório entre Europa e Cabo Verde e o movimento interno na região da Guiné de Cabo Verde. Alguns destes indivíduos permaneceram na Ribeira Grande, outros estavam apenas de passagem. Os que permaneceram ocupavam-se da atividade comercial, como a importação, a exportação ou a reexportação. Aqueles que somente faziam escala neste porto, paravam para se abastecerem de combustível ou de alimentação, reparar os navios ou obter informações náuticas ou meteorológicas. Nem todos os habitantes da Ribeira Grande eram funcionários régios, mercadores, marinheiros ou contrabandistas. Houve sacerdotes e representantes de profissões urbanas, como pedreiros, sapateiros, barbeiros, boticários, etc. Alguns, como os criminosos, degredados e mecânicos de navios (chamados de homens de mar) foram obrigados a ir para o arquipélago, enquanto outros, como os aventureiros e piratas foram, simplesmente, atraídos a Cabo Verde. A Ribeira Grande foi uma cidade excepcional só império português, com a população muito internacional. É possível supor que esta cidade era uma Babel, onde os habitantes falavam várias línguas. Nesta cidade, caracterizada por grupos sociais e ofícios diferentes, com uma parte considerável de população flutuante, cruzavam-se várias informações, conhecimentos, crenças e saberes. Os moradores da Ribeira Grande cultivavam estes conhecimentos, enquanto os viajantes e as tripulações traziam novidades. Mesmo geograficamente isolados, os habitantes deste porto transoceânico conseguiram uma ligação com o mundo exterior graças aos estantes e aos lançados. Os estantes abasteciam-se de produtos da primeira necessidade, enquanto os lançados tornaram-se nos intermediários entre a administração colonial e os poderes locais africanos do continente. Contudo, convém assinalar que o elemento fundamental da 95 10. “Carta do infante D. Henrique doando a D. Afonso V a temporalidade das ilhas de Cabo Verde e dos Açores, e à Ordem de Cristo a sua espiritualidade”, 18/9/1460, in IAN/TT, Ordem de Cristo, códices n. 235, fl.11, n. 233, fl.1623, publ. em História Geral de Cabo Verde – Corpo Documental, vol. I, p. 13. 11. “Carta do Nicolau de Castilho ao rei”, 30/06/1616, Santiago em Arquivo Histórico Ultramarino de Lisboa, Catálogo Parcial do Fundo do Conselho Ultramarino da série de Cabo Verde, 2014, Cx. 1, D. 51. 12. “Carta do padre Fernão Rebelo ao padre Geral da Companhia”, 13/09/1585 in ARSI, Lus., Cod. 69, fl.151, publ. em Monumenta Missionária Africana, s. II, vol. 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