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Imagens do Estrangeiro no Diário de Miguel Torga

Gago, Dora Maria Nunes

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Universidade Nova de Lisboa Faculdade de Ciências Sociais e Humanas Imagens do estrangeiro no Diário de Miguel Torga Dora Maria Nunes Gago Dissertação de Doutoramento em Literaturas Românicas Comparadas apresentada à Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, sob a Orientação do Professor Doutor Álvaro Manuel Machado 1 Agradecimentos Nesta breve nota, pretendo lembrar os que, de diversos modos, partilharam esta «caminhada» para colher e analisar as imagens configuradas pelo olhar do narrador torguiano, tornando-a mais aliciante e menos árdua. Em primeiro lugar, manifesto a minha profunda gratidão ao senhor Professor Doutor Álvaro Manuel Machado pela constante disponibilidade, sábia e atenta orientação científica concedida. Agradeço muito especialmente à minha irmã, aos meus pais e avós o apoio dispensado, assim como aos colegas da Escola EB 2,3/S. Dr. Isidoro de Sousa de Viana do Alentejo e aos amigos (particularmente, à Maria Sarmento, Mariana Louzeau, Cidália Cotrim, Estela Pinheiro, Álvaro Revello e Maria Vila). Por fim, quero agradecer também aos Serviços de Gestão dos Recursos Humanos a concessão da Licença Sabática que me possibilitou o desenvolvimento e conclusão deste trabalho. 2 «O universal é o local sem paredes». Miguel Torga, Traço de União, 1969. 3 Índice Introdução..................................................................................................................p. 5 Primeira parte I. A viagem como modo de conhecimento do estrangeiro.............................p.12 II. Literatura Comparada e imagologia...................................... ..................p. 43 III. Imagem do estrangeiro e estereótipo........................................................p. 58 IV. A representação simbólica do Outro.........................................................................................................p. 73 Segunda parte I. A geração da Presença: recepção e divulgação de modelos estrangeiros............................................................................................................p. 90 . II. Os modelos literários estrangeiros na obra de Miguel Torga.................. p.123 III. Influências e originalidade do Diário......................................................p. 148 IV. A especificidade do Diário: fragmentarismo vs.unidade........................p. 165 Terceira parte I. Os itinerários do narrador-viajante..........................................................p. 179 II . A imagem de Espanha.............................................................................p. 201 III. O Brasil: da vivência da emigração ao fascínio do reencontro................p. 229 IV. África: o exotismo e a diferenciação......................................................p. 247 V. O Oriente: a busca dos vestígios do Império..........................................p. 260 . 4 VI. As cidades revisitadas: a sacralização dos espaços.............................. p. 278 VII. O fim da jornada: entre a falibilidade da História e a ameaça da morte..........................................................................................p. 300 Conclusão..................................................................................................................p. 322 Bibliografia...............................................................................................................p. 330 Introdução 5 Introdução O Diário de Miguel Torga constitui um manancial de referências e imagens do estrangeiro de onde emerge o múltiplo olhar do autor sobre os diversos espaços e tempos da dimensão humana, ao longo de sessenta e três anos de vida. Assume-se, por conseguinte, como documento de extrema importância para o estudo da formação de imagens do estrangeiro, que servirá de tema à presente dissertação de Doutoramento, no âmbito da Literatura Comparada. Neste sentido, sendo o nosso corpus constituído pelos dezasseis volumes do Diário, atendendo à complexa intercomunicabilidade que impregna a obra torguiana, não podemos deixar de considerar também outras obras do autor que complementam as representações do estrangeiro presentes no Diário, como é o caso de A Criação do Mundo, Poemas Ibéricos, Traço de União e Fogo Preso. Norteará este trabalho o objectivo de, através da análise das imagens do estrangeiro apreendidas por Torga, desenvolver o estudo de uma nova dimensão de teor universalista de um autor marcadamente conhecido pelo seu telurismo. Isto porque é através do confronto com o «outro» que é possível definir a identidade do «eu» e do seu país de origem. Neste contexto, a metodologia seguida será, pois, a da imagologia, partindo sempre do geral para o particular e da teoria para a prática. Numa primeira parte, reflectiremos acerca da importância da viagem como forma de conhecimento do estrangeiro e dos diversos autores (portugueses e estrangeiros), mencionados por Torga no Diário, que a reescreveram, partindo sobretudo de uma experiência de contacto directo com outros países, como foi o caso de Fernão Mendes Pinto, Montaigne, Chateaubriand, entre outros. Importará, neste âmbito, desenvolver e Introdução 6 salientar a importância da viagem não apenas na sua dimensão geográfica e histórica, mas também cultural e social, como apropriação de um mundo, de determinadas imagens. Por conseguinte, para o estudo destas imagens utilizaremos, como já referimos, a imagologia, um dos métodos mais antigos da Literatura Comparada, cuja contextualização teórica e importância como campo de investigação será pertinente abordar. Nesta sequência, apresentaremos o percurso de desenvolvimento deste método, desde a escola francesa de Jean-Marie Carré, focando o seu carácter interdisciplinar. Neste âmbito, a apresentação de conceitos de imagem e a análise do modo como se formam estereótipos é essencial numa contextualização teórica do nosso estudo. Do mesmo modo, serão abordados os três elementos constituintes da imagem: a palavra, a relação hierarquizada e o cenário. No contexto deste último, atentaremos na representação simbólica do «outro», considerando as atitudes fundamentais na sua representação: a superioridade da realidade cultural estrangeira relativamente à nacional; a inferioridade da realidade cultural estrangeira em relação à nacional; a relação de admiração mútua (conducente a uma assimilação das ideias do estrangeiro); e, finalmente, uma quarta atitude, na qual não são tecidos juízos de valor positivos, nem negativos, evidenciando-se o cosmopolitismo do escritor. Além disso, a consciência enunciativa do «Eu», a influência da sua ideologia na organização e elaboração das representações do «Outro» serão questões a desenvolver. Neste sentido, visto que Miguel Torga integrou o Segundo Modernismo, estudaremos na segunda parte a importância da geração da Presença na divulgação e recepção de modelos literários estrangeiros, tal como o seu eco na obra torguiana. Neste campo, focaremos o contributo da Nouvelle Revue Française e dos seus colaboradores na formação da Presença. Introdução 7 Uma questão assume, neste contexto, relevância: de que modo foram recebidos determinados escritores estrangeiros, nesta época, em Portugal, por Miguel Torga e pelos outros autores do Segundo Modernismo? Esta questão remete-nos para a estética da recepção de Jauss e para o seu conceito de horizonte de expectativa – estes serão efectivamente pontos a desenvolver ainda na segunda parte. Neste âmbito, particularizaremos os modelos estrangeiros presentes na obra torguiana, sendo de toda a pertinência sublinhar a distinção entre «modelo produtor» (aquele que provoca, desperta a recepção literária) e «modelo de referência» (situado num plano mais distante de admiração, ou afinidade, não se integrando no fundamental da obra)1. De entre os autores considerados «modelos» devemos salientar os franceses André Gide e Proust; os espanhóis Miguel Cervantes e Unamuno, e o russo Dostoievski. Importa ainda abordar as influências transmitidas por Raul Brandão, em cuja obra encontramos marcas tanto de Victor Hugo como de Dostoievski. Ainda nesta parte, apresentaremos as influências e originalidade do Diário, nomeadamente considerando os modelos estrangeiros de escrita diarística referidos por Torga, como é o caso de Amiel e de Gide. Deste modo, quando iniciarmos a análise dos itinerários do narrador já conheceremos o contexto social e histórico em que se movimenta, as leituras e referências culturais que transporta na sua «bagagem» de viajante. Além disso, analisaremos igualmente as características que marcam a originalidade do Diário. Na terceira parte, procederemos à análise das imagens do estrangeiro, do seu significado, dos percursos e mecanismos (externos e internos ao sujeito) que as geraram. 1 Álvaro Manuel Machado, «Génio nacional e modelos estrangeiros: reflexões comparativistas sobre Miguel Torga», Aqui, Neste Lugar e Nesta Hora – Actas do Congresso Internacional sobre Miguel Torga, Porto, Edições Universidade Fernando Pessoa, 1994, p. 285. I. A viagem como modo de conhecimento do estrangeiro 14 Enraizando-se num movimento fulcral de indagação, o ponto de chegada da viagem é sempre um novo ponto de partida, de retorno. O viajante não traz consigo nenhum elemento concreto dessa experiência. À semelhança de Lázaro, que ressuscitou da morte e abandonou a sepultura de mãos vazias, também o viajante assim regressa ao seu torrão natal. Frisa-se a passagem para uma atitude passiva e contemplativa através da imagem do «manjerico», planta tradicionalmente portuguesa. A viagem assume-se como prática cultural que abrange uma vertente histórica e antropológica. Neste caso, interessa-nos particularmente o testemunho escrito da viagem como experiência humana insubstituível que transforma o viajante, arrastando-o para longe do mundo quotidiano, familiar. Corresponde, pois, o acto de viajar a uma deslocação retranscrita, reescrita, fruto de um intercâmbio, de uma espécie de fusão entre o espaço estrangeiro e a escolha de um modo de escrita, de um conteúdo cultural susceptível de a reproduzir. Assim, constituindo uma prática cultural, «a viagem é, simultaneamente, uma experiência humana singular, única, inconfundível para aquele que a viveu, e um testemunho humano que se inscreve num momento preciso da história cultural de um país: o do viajante.»5 No que concerne à relação entre viagem e literatura, é pertinente mencionar a distinção efectuada por Álvaro Manuel Machado e Daniel-Henri Pageaux entre os conceitos de viagem, de peregrinação e de turismo, considerando o seu carácter individual e livre: «a viagem opõe-se diametralmente quer à peregrinação quer ao turismo, 5 Álvaro Manuel Machado - Daniel-Henri Pageaux, Da Teoria da Literatura à Literatura Comparada, ed. cit. p. 33. I. A viagem como modo de conhecimento do estrangeiro 15 dado que o viajante – contrariamente ao peregrino e ao turista – reivindica ou considera implícito o carácter individual da sua decisão e do seu acto.»6 Deste modo, a expressão literária da viagem revela a adequação do homem ao meio exterior, aliada ao poder de compreender e descrever o mundo circundante, apropriando-se dele e convertendo o elemento desconhecido em algo familiar e compreendido. Desempenha, nesta sequência, um papel fulcral na interpretação quer do mundo, quer da História. É em A Criação do MundoQuarto Dia, que encontramos algumas considerações que esclarecem a atitude de Torga como escritor-viajante. Dialogando com um amigo em Paris, a propósito de uma viagem empreendida e do facto de muitos artistas se mudarem para essa cidade, afirma a incapacidade de deixar a sua terra para viver noutro país: De resto, tenho o corpo e a alma plantados naquele chão. E não posso fugir também a esse condicionalismo, complementar ou paralelo ao da fala. Ando de fronteira em fronteira a ver coisas. Mas sei de ciência certa que só quando voltar é que lhes vou descobrir a verdadeira significação. Chega a ser engraçado: o universal, que num país estrangeiro sinto infinitamente longe de mim, das fragas nativas parece-me ao alcance da mão...7 Primeiramente, constatamos o forte telurismo do narrador, através da alusão a um processo unificador, quase de «fusão», que o converte em parte integrante do chão do seu país, simultaneamente condicionadora do seu próprio ser. As incursões pelo território estrangeiro funcionam como um modo de aferir a sua identidade nacional. No entanto, esse processo só adquire sentido após o regresso e um distanciamento que permite redimensionar as experiências vividas. 6 Idem, p. 35. 7 A Criação do Mundo - O Quarto Dia, Lisboa, 3ª ed. integral, Pub. Dom Quixote, 2002, p. 347. I. A viagem como modo de conhecimento do estrangeiro 16 É, por conseguinte, a viagem que lhe permite traçar os seus limites: «Feliz ou infelizmente conheço os meus limites, que este passeio pela Europa ajudou furiosamente a precisar.»8 Curiosamente, o interesse pela literatura de viagens (sobretudo por algumas obras) evidencia-se em diversas passagens do Diário. Torga refere a ausência na literatura espanhola de uma notável obra de viagens que seja «comparável, por exemplo, à nossa Peregrinação, ou ao Itinerário de Chateaubriand.»9 Neste sentido, abordaremos, em seguida, em linhas muito gerais, o modo como o tema da viagem tem sido tratado ao longo do tempo na literatura e a importância dos autores referidos por Torga no seu Diário, cuja influência foi notória na literatura portuguesa e europeia, em geral: Fernão Mendes Pinto, Montaigne, Chateaubriand; Byron, Sterne, Goethe, Stendhal, Flaubert, Almeida Garrett, Eça de Queirós e Thomas Mann. Muitos outros poderiam ser abordados. No entanto, não pretendemos elaborar um historial da Literatura de Viagens, mas apenas reflectir acerca do contributo de alguns autores, considerados mais próximos de Torga – quer pelas referências a eles feitas no Diário, quer por alguma influência transmitida. Por outro lado, houve a preocupação de seleccionar escritores de diversas épocas, numa perspectiva diacrónica, para melhor abordarmos a importância da viagem ao longo do tempo como modo de conhecimento do estrangeiro e como factor impulsionador para os estudos de Literatura Comparada. Na cultura ocidental, remonta a literatura de viagens à Idade Média e à tradição cristã da peregrinação. Esta tinha como destino a Terra Santa, constituindo um modo de afirmação da fé, com o intuito de atingir a vida eterna. Por vezes, os viajantes, procurando apenas a confirmação das suas quimeras, efectuavam registos, geralmente notas pouco 8 A Criação do Mundo, ed. cit., p. 348. 9 Diário VI, ed. cit., p. 632. I. A viagem como modo de conhecimento do estrangeiro 17 articuladas, formadas por meros inventários ou curiosidades. Neste âmbito, a primeira obra famosa é o Livro de Marco Polo, que parece constituir o modelo deste género. Foi escrito no século XIII e relata as viagens do mercador veneziano pelo mundo. Contudo, é de salientar que as peregrinações forneceram, de certo modo, os primeiros «guias de viagem», com alguns detalhes acerca de itinerários, hospedarias, etc., apresentando itinerários fixos e conselhos estereotipados. Assemelhavam-se a uma primeira forma «embrionária» de turismo, diferente, por isso, do conceito de viagem já anteriormente focado. É com os Descobrimentos que a literatura de viagens se expande. Desde o início do século XVI, a escrita de viagens deixa de ser mera transcrição de notas tomadas de memória, verificando-se um encontro e uma fusão entre o discurso e o percurso. A partir do momento em que a percepção do novo implica a mudança incessante do horizonte de conhecimentos, a experiência de viagem abre-se aos novos horizontes da imaginação. Ela possibilita ao viajante da Renascença, de sentidos bem despertos para a realidade circundante, adquirir conhecimentos distintos dos que são proporcionados pela ciência. Paralelamente à descoberta do Outro, do diferente, há uma reflexão humanista sobre si próprio. Tal como refere Álvaro Manuel Machado: A partir de então, a narrativa de viagem, criando a imagem do estrangeiro, leva o escritor-viajante a tornar-se simultaneamente produtor do texto, objecto do texto e encenador da sua própria personagem, ou seja: narrador, actor, experimentador e objecto da experiência, efabulando, construindo um imaginário próprio.10 Em Portugal, como se sabe, a primeira narrativa de viagens considerada como texto literário é a Carta do Achamento do Brasil, da autoria de Pero Vaz de Caminha. É datada 10 Álvaro Manuel Machado in Dicionário de Literatura Portuguesa, organização e direcção de Álvaro Manuel Machado, Lisboa, Ed. Presença, 1996, p. 566. I. A viagem como modo de conhecimento do estrangeiro 18 de 1 de Maio de 1500 e relata ao rei D. Manuel a descoberta do país mencionado. Para além de outros textos, importa ainda mencionar a História Trágico Marítima (publicada em 1735 e 1736). Porém, é a Peregrinação de Fernão Mendes Pinto o texto paradigmático da narrativa de viagens do século XVI, tendo sido publicado em Lisboa em 1614. São diversas as referências acerca desta obra presentes no Diário. Numa passagem datada de 28 de Janeiro de 1941, é criticada a falta de universalidade da literatura portuguesa, que faz com que as suas obras não sejam reconhecidas além-fronteiras, como sucede com autores estrangeiros (são citados Cervantes, Shakespeare, Molière e Goethe) 11. Torga considera que, perante as obras dos autores supramencionados, quer Os Lusíadas, quer a História Trágico-Marítima, quer a Peregrinação, se assumem como os «monumentos literários» nascidos dos Descobrimentos, não passando de «realizações caseiras». Além disso, a «Peregrinação não vai além do livro bem rememorado do seu autor.»12 Anteriormente, a 5 de Julho de 1940, é ainda citada uma frase, onde, com o intuito de criticar o exagero dos ingleses, Torga recorre à comparação e a uma citação da obra de Mendes Pinto: Estes ingleses, quando fazem uma das deles e depois a contam nos Comuns, parecem o Fernão Mendes Pinto: “E com muitas ave-marias e muito pelouro nos fomos a eles e em menos de um credo os matámos a todos.” 13 11 Cf. Diário I, ed. cit., p. 135. 12 Idem, p. 136. 13 Idem, p. 119. I. A viagem como modo de conhecimento do estrangeiro 19 Numa outra passagem do Diário, o narrador confessa ter sentido desejo de ser, entre outros heróis literários, o protagonista da Peregrinação: Não há dúvida nenhuma: se um leitor não se tem firme nos pés diante de certos livros e de certos autores, acontece-lhe como quando a gente se debruça a uma alta janela e olha com adesão exagerada para o fundo: atira-se dali abaixo [...] Por mim, já esta semana tive tentações de ser o Binmarder da Menina e Moça, o António de Faria da Peregrinação [...]14. Verifica-se então, através deste comentário, uma admiração pelo herói de Fernão Mendes Pinto, um desejo de se metamorfosear nele, experimentando a influência e o poder que uma obra literária pode exercer no seu leitor. Curiosamente, neste caso, Faria não se pode considerar um herói, mas antes um «anti-herói» picaresco, que nos revela o fascínio pelo Oriente longínquo, em oposição à triste realidade portuguesa. Nesta obra, a civilização estrangeira é vista como superior à de origem, sendo a acção nos portugueses no Oriente criticada e satirizada, crítica que se estende à civilização ocidental. Por isso, como referiu António José Saraiva, o que mais interessa nesta obra é precisamente «a intenção da narrativa, o que ela exprime sobre a posição pessoal do autor perante o mundo em que vivia e, através dela, todo um xadrez social e, portanto, humano. Não é a verdade geográfica o que nos interessa na Peregrinação, mas outra verdade que só a ficção nos pode dar.»15 Para a análise do contacto entre europeus e asiáticos na Peregrinação, estabelece Maria Leonor Carvalhão Buescu uma tipologia diferenciada, baseada num esquema 14 Diário II, ed. cit., p. 198. 15 António José Saraiva, Para a História da Cultura em Portugal, 5ª ed., Lisboa, Bertrand, 1982, vol. II, p. 97. I. A viagem como modo de conhecimento do estrangeiro 20 tricotómico que abrange três perspectivas16. Em primeiro lugar, a evidenciação de um estatuto de predominância do Eu (identificado com um narrador individual ou um grupo, um «nós») relativamente ao Outro. Em segundo, o estatuto de igualdade entre o Eu e o Outro. Finalmente, a situação que parece predominar na Peregrinação é o estatuto de inferioridade do «Eu» face ao Outro. Neste caso, o narrador presente na Peregrinação é o europeu, o estrangeiro, o «diferente» desprovido de poder e de espaço. Assim, «a Peregrinação representa o paradigma duma atitude expectante e receptiva, marcada pela aventura da captação de imagens oscilantes e reversíveis.»17 Na segunda metade do século XVI, a viagem principia a revestir-se de um valor enciclopédico e de funções epistemológicas cada vez mais complexas18. Montaigne é outro dos autores deste século referido, pelo qual Torga manifesta alguma admiração, invejando o isolamento a que se podia votar na sua época o escritor e a dedicação consagrada à escrita: Montaigne. Capítulo XXIII. De la coustume, et de ne changer aisément une loy reçüe. Bons tempos estes em que um intelectual podia isolar-se numa torre, e consumir a preguiça a anotar largos exemplos e a tirar breves e subtis conclusões. Bons tempos estes, sem pedagogias nem psicologias [...]19. De 22 de Junho de 1580 até 30 de Novembro de 1581, Montaigne efectua um longo périplo através da Europa, descrito no seu Journal de Voyage. Após um tratamento em 16 Maria Leonor Carvalhão Buescu, «As alternativas do olhar: para uma tipologia do encontro», in As dimensões da alteridade nas Culturas de Língua Portuguesa, Actas do I Simpósio Interdisciplinar de Estudos Portugueses, Lisboa, Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, 1985, p. 149. 17 Idem, p. 161. 18 Paola Mildonian, «terre, territoire, paysage: les instances de la recherche, le temps de l’ aventure, l’ espace de l’histoire», in Les récits de voyages, typologie, historicité, org. Mª Alzira Seixo e Graça Abreu, Lisboa, Ed. Cosmos, 1998, p. 270. 19 Diário II, ed. cit., p. 190. I. A viagem como modo de conhecimento do estrangeiro 21 Plombières e em Bade, visita a Baviera, atravessa a Áustria, percorre a Itália. Seguidamente, conclui a segunda edição dos ensaios, em 1588 (a primeira surgira em 1580, sendo constituída por dois livros), acrescentando-lhe mais um volume que enriquece com numerosas anotações, desencadeadas pelos percursos empreendidos. Sendo um homem renascentista, do século XVI, época que relegava a descrição para o plano da pintura ou da poesia e não da viagem, Montaigne não confere atenção particular à paisagem com que se depara. Para este autor, a viagem é acima de tudo uma actividade profícua para o conhecimento, independentemente do objectivo, do ponto de partida ou de chegada. Como refere Paola Mildonian, para este autor a viagem é gerada por uma «doença» frutífera, o denominado «animus instabilis», ou seja, um espírito inquieto, que necessita de se deixar levar pela natureza, de acordo com o seu movimento interior20. Tal facto reflecte-se no termo «branler» usado por Montaigne e que contagia todos os elementos da natureza e do mundo inteiro21. Neste contexto, a viagem é tudo e visa a busca do que é diferente, da diversidade, permitindo o enriquecimento pessoal. A vida de Montaigne é, pois, marcada pelo provisório, pelo desejo de uma morte sem retorno em terra estrangeira, que se reflecte na afirmação: «plutôt à cheval que dans un lit, hors de ma maison et eloigné des miens.»22 Assim, o acto de viajar assume-se como modo insubstituível de desenvolvimento do «eu», que implica o esquecimento da vertente doméstica, libertando o indivíduo de todos os entraves da sociedade civil. Tende a tornar-se numa arte individual de vida, empreendida por um sujeito consciente dos seus próprios meios. O principal objectivo da 20 Paola Mildonian, «Terre, territoire, paysage», in Les récits de voyages, ed. cit. p. 271. 21 «Le monde n’est qu’ un branloire perenne. Toutes les choses y branlent sans cesse : la terre, les rochers du Caucase, les pyramides d’ Égypte [...]» (Montaigne, Essais III. Préface de Maurice M. Ponty, Paris, Gallimard-Folio, 1996, p. 44). 22 Idem, p. 250. I. A viagem como modo de conhecimento do estrangeiro 22 viagem é o enriquecimento pessoal, através de um trabalho intelectual baseado nas atitudes de medir, julgar e comparar. Afirma Montaigne: [...] le voyage me semble un exercice profitable. L’âme y a une continuelle excitation à remarquer les choses inconnues et nouvelles; et je ne sache point meilleure école, comme j’ai dit souvent, à former la vie que de lui proposer incessamment la diversité de tant d’autres vies, fantaisies et usances, et lui faire goûter une si perpétuelle varieté de formes de notre nature.23 Nesta sequência, constatamos que a viagem do Renascimento é um meio privilegiado para o estabelecimento de uma relação de alteridade, assente na apropriação do Outro, através da qual se valoriza a virtude da experiência, o espírito crítico e a observação directa em detrimento do saber tradicional. Evidencia-se uma ênfase colocada no teor provisório, revelando a visão plural do homem renascentista. À semelhança de Torga, também Montaigne prefere a viagem por terra, visto que lhe abre maiores hipóteses de percursos (ao contrário da marítima). No Journal de voyage constatamos que a experiência de viagem se eleva ao estatuto de um método baseado na experiência prática. Neste contexto, a busca da diversidade conduz a uma dessacralização e dessimbolização do caminho percorrido24. No final do século XVI e durante o século XVII, principia a divulgar-se o «Grand Tour»25, que se converterá numa «prática institucional» cerca de 1650 e cuja tradição será prolongada até ao século XIX. Esta viagem através da França, Itália, Alemanha e Suíça, contemplando o circuito das principais cidades e locais de interesse, assumia-se como parte integrante da educação dos jovens pertencentes a uma classe social privilegiada. Esta 23 Idem, pp. 244-245. 24 Cf. Friedrich Wolfzettel, Le discours du voyageur, Paris, PUF, 1996, p. 115. 25 A expressão «Le Grand Tour» pertence a Richard Lassels, que, como preceptor, realizou a viagem por Itália cinco vezes entre 1637 e 1668. (Cf. Jean Goulemot, «Le Grand Tour comme apprentissage», in Magazine Littéraire, nº 432 juin 2004, Paris, p. 33) I. A viagem como modo de conhecimento do estrangeiro 23 digressão visava conferir realidade a um saber abstracto, aprender e aperfeiçoar o «bom gosto» através, sobretudo, do contacto com a arte em Itália. A sua finalidade não era, em suma, a escrita de uma narrativa de viagens. Com efeito, no século XVII sintetizam-se e ultrapassam-se as experiências vividas no Renascimento, procurando unificar e transformar o espaço disperso do Renascimento num novo mundo, marcado pela unidade. Abundam ainda as viagens comerciais empreendidas por indivíduos que se deixam conduzir geralmente pela razão, convertida num instrumento de pesquisa, julgamento e compreensão. Segundo Wolfzettel: Le voyage savant et érudit à l’état pur n’ existe pas au XVII siècle. Par contre, ce type de voyage est susceptible d’ être considéré comme un idéal qui influe sur le choix des informations et la tournure de l’esprit, créant ainsi le voyage véridique et complet typique de la seconde moitié du siècle. 26 Não obstante, a época aúrea das viagens e da literatura que as relata ocorre precisamente no período do Iluminismo. Seguindo a perspectiva de Daniel-Henri Pageaux, podemos considerar que viajar, neste século, significa essencialmente descobrir e comparar, discernir características originais, converter a multiplicidade na unidade, aglomerar a diversidade num sistema de pensamento. Por isso, «voyager c’ est moins regarder autour de soi que remonter le fil des siècles, établir des synthèses, des tableaux permettant l’étude comparée des grandeurs et des décadences, c’est reorganiser, hierarchiser, classer.»27 Pertinente será confrontar esta definição do verbo «viajar» com a anteriormente revelada por Torga. Neste caso, surge-nos uma perspectiva igualmente activa, mas mais 26 Friedrich Wolfzettel, Le discours du voyageur, ed.cit., p. 192. 27 D-H. Pageaux, La littérature générale et comparée, Paris, Armand Colin, 1994, p. 33. I. A viagem como modo de conhecimento do estrangeiro 30 dividida em sete partes, contempla os diversos locais visitados: (I) viagem da Grécia, (II) viagem do Arquipélago, da Anatolie e de Constantinopla, (III) viagem de Rodes, de Jafa, de Belém e do Mar Morto, (IV e V) viagem de Jerusalém, (VI) viagem do Egipto, (VII) viagem de Tunes e regresso a França. Inicia-se assim uma nova tendência das narrativas de viagem, de teor mais literário. Paul Van Thieghem cita este autor como exemplo da viagem como fonte de exotismo romântico: Comme lui, beaucoup de romantiques de divers pays aiment voyager à l’étranger, de préférence aux terres lointaines, moins pour étudier les institutions, comme le faisait Montesquieu, que pour découvrir des décors, des costumes, des moeurs privées, des types nouveaux.40 Acerca ainda de Chateaubriand, Torga faz outra referência a propósito da leitura da página referente a Byron de Memoires d’ Outre Tombe: «Que despeito, e ao mesmo tempo que crítica certeira! Se os grandes homens se pudessem entender como os pequenos, que bela ajuda poderiam dar uns aos outros!»41 No que concerne a Byron, o poeta revela alguma admiração pela sua coragem, pelas vivências transpostas para a poesia, sem deixar de aludir à sua vida dissoluta ao apelidá-lo de «Henrique VIII»: 40 Paul Van Thieghem, Les romantismes dans la littérature européenne, Paris, Ed. Albin Michel, 1969, p. 259. 41 Diário IV, ed. cit., p.429. I. A viagem como modo de conhecimento do estrangeiro 31 Leitura de uma “Vida de Byron”. Não há dúvida nenhuma que aquele homem foi uma espécie de Henrique VIII do reino da poesia. Coragem de ser quem era, e coragem de pôr a sua realeza ao serviço do seu corpo.42 Byron representou, como se sabe, uma variedade particular de romantismo, marcada pela revolta e o orgulho, a violência e a provocação, tendo levado uma existência caracterizada pela insolência, amores incestuosos e longas viagens. A obra que o celebrizou intitulava-se Child Harold’s Pilgrimage (Peregrinação de Childe Harold), poema cujos primeiros cantos foram publicados em 1812, o segundo em 1816 e o terceiro em 1818. Descreve as viagens e reflexões de um peregrino que procura distracções por terras estrangeiras. Nos dois primeiros cantos são descritos os lugares visitados por Harold em Portugal, Espanha, nas ilhas Ionianas e na Albânia, terminando com um lamento motivado pela escravatura na Grécia. Nestes cantos, revela Portugal como uma espécie de paraíso perdido, do qual evoca quadros pitorescos, onde, de certo modo, é teatralizada a pobreza. Por seu turno, o terceiro canto revela-nos a visita à Bélgica, às margens do Reno, aos Alpes e Jura, enfatizando a importância da natureza. Além disso, os locais visitados desencadeiam frequentemente reflexões acerca de acontecimentos históricos, como é o caso da guerra de Espanha. Finalmente, a última parte é inteiramente dedicada a Itália e a algumas das suas principais cidades, como é o caso de Veneza (onde faleceu Petrarca), de Florença, pátria de Dante, de Roma, entre outras. Esta obra obteve grande sucesso, pois, como refere T.F. Aubier: «Harold, transparente personnification de Byron, fut consideré comme un esprit révolutionnaire et parut incarner le mal du siècle.»43 42 Diário I, ed. cit. p. 46. 43 T. F. Aubier, «Chevalier Harold (Le)», in Dictionnaire des oeuvres de tous les temps et de tous les pays, vol. I, ed. cit., p. 726. I. A viagem como modo de conhecimento do estrangeiro 32 Por seu turno Le Corsaire (1814), poema constituído por três cantos, tem como cenário o Oriente (mais especificamente a Turquia e o arquipélago grego). Por outro lado, não podemos deixar de mencionar dois autores franceses que, embora com presença mais apagada, são igualmente referidos no Diário, tendo assumido papel relevante através de obras reveladoras do seu conhecimento do estrangeiro, nomeadamente de Itália e do Oriente, destinos preferenciais. Primeiramente, Stendhal44, cuja sensibilidade foi bastante marcada pela descoberta de Itália e que escreveu Mémoires d’ un touriste (1838), onde ainda encontramos um viajante «amador», egocêntrico. De seguida, Flaubert, que percorreu a Itália, o Egipto e a Grécia, numa viagem de dois anos, terminada em 185145. Estas experiências são narradas na obra Notes de voyages en Orient (publicada postumamente em 1910). Este autor ocupa um lugar particular na literatura de viagens46, devido ao ponto de vista singular do narrador que descreve o que viu sem julgar, quase sem intervir, conferindo à narrativa um carácter impessoal. Transmite, desse modo, uma noção de alteridade, original na época, baseada na tentativa de compreender o «Outro» sem efectuar juízos de valor, evidenciando uma atitude desprovida de indiferença, de arrogância, mas sem perda de identidade. Quanto a Garrett, surge no Diário, integrada numa reflexão acerca da História da Literatura Portuguesa e do valor dos nossos poetas, datada de 6 de Abril de 1944: «Mas está bem, aceitemos Camões. E a seguir? A seguir vêm dois séculos em que ninguém sabia 44 Stendhal é citado, quando Torga refere a debilidade do romance português, que é atribuído à falta de imaginação e à precariedade da vida social: «[o escritor português] ou se resigna a desenterrar esqueletos enquanto Stendhal ergue das realidades do seu tempo a síntese que se chama Sorel, ou então pinta realismos sociais por imitação.» (Diário IV, ed. cit., p. 449). 45 Relativamente a Flaubert, Torga critica-lhe o excesso de objectividade, de frieza, de perfeição, preferindo a Correspondência às outras obras. Após apresentar várias citações, refere: «Que romance, se todas essas cartas estivessem em Madame Bovary!» (Diário II, ed. cit., p. 196). Não obstante, aquando da leitura do 4º volume da Correspondência, manifesta a sua desilusão (cf. Idem, p. 207). 46 Cf. Pierre Biasi, «Flaubert,une conversion du regard», in Magazine Littéraire, nº432, juin 2004, Paris, p. 42. I. A viagem como modo de conhecimento do estrangeiro 33 o que era um verso! Lá aparece Garrett por fim a estudar o romanceiro, a aprender de novo a magia das coisas, e consegue escrever as Asas Brancas»47. Como se sabe, Almeida Garrett escreveu os poemas D. Branca e Camões (1825) no exílio, fornecendo-nos também algumas referências do estrangeiro. Sobretudo em Camões, constatamos uma imagem essencialmente política, pois a Inglaterra é vista como um país dominado pelo liberalismo, que recebe bem os exilados, ao contrário, por exemplo, da França, cuja imagem é negativa, o que se constata através da comparação entre o Tejo e o Sena. Contudo, foi a obra Viagens na minha Terra que, como se sabe, não relata uma digressão localizada em território estrangeiro, mas sim no nacional, centrando-se a obra numa ida ao vale de Santarém que mais terá influenciado os autores portugueses. No referido vale, o narrador deteve-se e ficou diante de uma janela, à qual surgem o herói (Carlos) da novela entrelaçada pelo escritor no relato da sua viagem, a heroína (Joaninha) e outras personagens. É notória nesta obra a influência da recepção de um modelo literário estrangeiro: Lawrence Sterne, sobretudo da Sentimental Journey. Uma das marcas evidenciadas é o estilo coloquial, que lhe permite tratar com familiaridade o seu leitor. À semelhança da já mencionada obra de Sterne, também as Viagens na minha Terra terão influenciado diversos autores através do denominado «garretismo», como refere João Gaspar Simões: As Viagens na minha Terra são uma perspectiva sem fim na história das nossas letras [...] aí tínhamos o «garrettismo», filho legítimo desta obra, e estado de espírito inaugurado por ela e por ela transmitido a toda uma geração de escritores portugueses do fim de século. [...] E que seria de António Nobre, e de Cesário Verde, e de um certo Fernando Pessoa [...] e de um certo Miguel Torga – que seria de algumas das 47 Diário III, ed. cit., p. 272. I. A viagem como modo de conhecimento do estrangeiro 34 personalidades mais vivas e irradiantes da moderna literatura portuguesa, se todas elas não tivessem ao menos provado desse néctar embriagador?48 Regressando ao Diário, Victor Hugo é referido para frisar o carácter interventivo do poeta (semelhante ao de um profeta) na sociedade: «O poeta representará, como puder, o ardor indignado e fraterno de quantos, de Villon a Victor Hugo, de Gil Vicente a Guerra Junqueiro, protestaram contra o iníquo pesadelo, e contribuíram para a sua extinção ou repulsa na consciência universal;»49. Além disso, Victor Hugo é de novo mencionado, numa passagem em que Torga elogia a literatura do século XIX em detrimento daquela que é produzida no século XX, que nem sequer é prestável, nem graciosa: «Entre a sua voz entaramelada e a balbuciante de antanho, a dos Tolstois e a dos Hugos, a troar olimpicamente das estantes do mundo.»50 Torga sofreu a influência «hugoliana» através de um escritor que ele muito admira: Raul Brandão. Tal influência (que desenvolveremos no capítulo consagrado aos modelos literários, na segunda parte), é, à partida, notória na concepção torguiana do poeta como um profeta, um demiurgo, para além do vitalismo que impregna a sua escrita. Viajou Victor Hugo mais longe em pensamento do que na realidade, nunca tendo ultrapassado as fronteiras da Europa. Durante a infância visitou a Itália e posteriormente percorreu a França, a Bélgica, a Holanda, a Alemanha, a Suíça, além de ter registado breves passagens por Londres e Bruxelas. Assim, embora nunca se tenha aventurado por terras do Levante, escreveu Les Orientales (1829), obra constituída por uma recolha poética que nos proporciona uma «viagem imaginária» através da qual transparece um Oriente sedutor, marcado pela 48 João Gaspar Simões, Almeida Garrett, Lisboa, Ed. Presença, 1964, p. 140. 49 Diário X, ed. cit., pp. 1111-1112. 50 Diário XI, ed. cit., p. 1165. I. A viagem como modo de conhecimento do estrangeiro 35 opulência. No prefácio da edição original, o autor refere algumas razões de carácter geo- -político que desempenharam um papel fulcral no desenvolvimento do orientalismo oitocentista: Au reste, pour les Empires comme pour les littératures, avant peut-être l’Orient est appelé à jouer un rôle dans l’Occident.[...] Voici maintenant que l’équilibre de l’Europe paraît prêt à se rompre ; [...] Tout le continent penche vers l’Orient. Nous verrons de grandes choses. La vieille barbárie asiatique n’est peut-être pas aussi dépourvue d’hommes supérieures que notre civilisation le veut croire.51 Em Choses vues constata-se uma mistura efectuada pelo viajante entre a observação e a imaginação, alternando o «eu» íntimo com o espaço percorrido, descrito. Embora não esqueça a unidade da viagem, recorre a técnicas da ficção, como é o caso da analepse. Estas obras fundamentais influenciam os contactos internacionais, a psicologia dos povos, renovando a literatura e o pensamento dos escritores. Torga também visitou o Oriente, em 1987, e antes de partir mostra-nos como essa viagem era há muito esperada, muitos anos depois de ter escrito uma obra (O Senhor Ventura) cuja acção se passa na China – espaço construído a partir da imaginação: Mais uma viagem. Mais oportunidades para o espírito e mais canseiras ao corpo. Foi sempre assim, e sempre os dois o agradeceram à vida.[...] Espero que desta vez aconteça o mesmo, já que ambos satisfazem um desejo velho, constantemente frustrado, de conhecer ao natural terras e mares por onde em tempos temerariamente me aventurei na pessoa inventada do Senhor Ventura. .52 51 Victor Hugo, Les Orientales, Paris, Ed. Gallimard, 1981, pp. 23-24. 52 Diário XV, ed. cit., p. 1576 I. A viagem como modo de conhecimento do estrangeiro 36 Por um lado, a viagem é concebida como uma oportunidade de enriquecimento do espírito, através do contacto com uma realidade distinta. Por outro, constata-se um certo receio de que a realidade não corresponda à expectativa construída a partir da literatura e da imaginação. Evidencia-se, como já anteriormente sucedeu, o papel das leituras como factor determinante para a formação da expectativa estabelecida entre o que se planeia ver e aquilo que o viajante observa na realidade, assumindo-se como um aspecto fulcral, quer nas narrativas de viagem, quer para a abordagem dos registos presentes no Diário de Torga. Relativamente a Eça de Queirós, Torga reconhece-lhe a mestria e o estilo, revelando conhecimento da sua obra, embora não seja um dos seus autores preferidos, devido ao seu cosmopolitismo e a uma falta de casticismo, de integração na cultura nacional, e simultaneamente de universalismo: «Restava Eça. Mas faltava a este uma integração perfeita no nosso húmus, o conhecimento vivo do povo.»53 Eça, apesar de ter viajado bastante, não manifestou notória propensão para fixar pela escrita essas viagens. Não obstante, deixou-nos algumas obras, consideradas de menor relevância, centradas nesta temática. Como se sabe, embora tenha visitado o Oriente, somente abordou a temática oriental em obras consideradas secundárias (O Egipto. Notas de Viagem e o Mandarim). Publicou no Diário de Notícias o relato intitulado «De Port Said a Suez» (editado postumamente na obra Notas Contemporâneas), onde foca a inauguração do Canal de Suez, à qual assistiu. Nessa digressão iniciada a 23 de Outubro de 1869, visitou a Alexandria, o Cairo e outros 53 Diário I, ed. cit. ,p. 137. I. A viagem como modo de conhecimento do estrangeiro 37 locais como Heliópolis, Guiza, Sakara, Mênfis, entre outros. Terminou o percurso com uma estada de quinze dias na Palestina. Na obra O Egipto. Notas de viagem (escrita em 1869-70, mas só publicada postumamente em 1926), Eça respeita os «protocolos» em vigor referentes às narrativas de viagem. No entanto, noutras obras o autor tenta desmistificar alguns convencionalismos e lugares-comuns da viagem, desmontando a vertente artificial dessas narrativas. Tal facto sucede, por exemplo, em A Relíquia, onde o protagonista, Teodorico Raposo, se opõe ao viajante romântico, não passando de um turista burlesco e sacrílego, que rejeita o exotismo, preferindo Paris a uma terra longínqua e desconhecida. Nesta sequência, o acto de viajar é empreendido como forma de fugir ao domínio da tia e a sua preparação é nitidamente turística54. Em Os Maias constatamos igualmente que Carlos da Maia e Ega encaram a viagem com a atitude snob e convencional da época. Por seu turno, Thomas Mann é referido por Torga, a propósito das obras Os Buddenbrook e a Montanha Mágica, evidenciando profunda admiração pelo escritor55. O reconhecimento da grandiosidade deste autor evidencia-se ainda quando o autor se refere à fraca qualidade dos romances portugueses, declarando: «[...] só um milagre nos podia dar um Mann ou um Steinbeck.»56. Nenhuma das obras anteriormente mencionadas se integra na literatura de viagens, nem deixa transparecer representações particulares do estrangeiro, apesar de o primeiro romance referido (que relata a decadência de uma família) ter sido iniciado durante uma estada em Itália de 1897 a 1898. Contudo, é posteriormente na obra Morte em Veneza (1912) de Mann, que a Itália, particularmente a cidade de Veneza, surge 54 «[...] e tendo comprado um Guia do Oriente e um capacete de cortiça» (Eça de Queirós, A Relíquia, Lisboa, Livros do Brasil, s/d, p. 63). 55 Afirma Torga a propósito de Os Buddenbrooks: «[...] é um belo espectáculo ler um livro assim. Tem a gente a impressão de que toda a Grécia e toda a Europa se diluíram na caixa de compor da tipografia.» (Diário III, ed. cit., p. 314) 56 Diário IV, ed. cit., p. 450. I. A viagem como modo de conhecimento do estrangeiro 38 como cenário e simultaneamente como refúgio do protagonista. Esta obra mergulha-nos na complexa psicologia e no destino trágico de um artista (Aschenbach, um escritor célebre) que acaba por sucumbir à tentação da morte. É descrita a atmosfera de Veneza, transmitindo-nos a imagem de uma cidade que emerge numa profusão de esplendores e contrastes. Nela paira a ameaça de uma epidemia, a corrupção, a morte, a decadência moral, a desordem, que se aliam à esperança e a um modo particular de doçura57. Em suma, a época aúrea das viagens decorreu entre o século XVI e o XIX58. A ânsia de aprender e de apreciar as maravilhas da História, da Antiguidade, conduz frequentemente os viajantes tocados pelo Humanismo até Roma. Estas viagens originaram, como já constatámos, uma literatura abundante. Sobretudo com a Sentimental Journey de Sterne, l’Italienische Reise de Goethe e l’Itinéraire de Paris à Jérusalem, a viagem converte-se em «género literário». Algumas cidades são mitificadas, como é o caso de Roma, Paris, Florença, Nápoles ou Veneza. Surge um particular interesse em determinar os elementos dinâmicos de construção desses mitos Assim, com o Romantismo, o «eu-narrador-viajante» contempla o outro a partir de si, implicando-se em construções de alteridade ao falar do «outro», mas também em construções de identidade, ainda que esse processo seja, por vezes, inconsciente. Não se restringe esse olhar a uma mera detecção de semelhanças e diferenças, como sucedia anteriormente, mas alarga-se a uma reflexão mais profunda, transmitida através dos mecanismos da escrita. Este «eu» assume-se como um privilegiado mediador na celebração da alteridade. Assumindo-se como personagem fulcral da sua narrativa, transmite a sua 57 «Isto era Veneza, beleza lisonjeadora e suspeita, cidade meio contode –fadas, meio armadilha para estrangeiros, em cujo ar pútrido a arte outrora florescera luxuosamente [...]». (Thomas Mann, A morte em Veneza, Lisboa, Ed. Relógio d’Agua, 1987, p. 63). 58 Cf. Pierre Brunel/ Claude Pichois/ André Michel Rousseau, Qu’est-ce que la littérature comparée?, 3ªed. Paris, Armand Colin, 1983, p. 34. I. A viagem como modo de conhecimento do estrangeiro 39 própria narrativa de viagem, as suas impressões e emoções, revelando, através da busca do exotismo, o olhar lançado do Ocidente para o Oriente. Por conseguinte, à medida que se avança no século XIX, a procura do exotismo converte-se numa forma diferente de pitoresco, afastada do progresso e da modernidade. O escritor anseia revelar a sua necessidade de se abandonar, de se evadir para um local distante onde, escapando à ideia da efemeridade possa atingir a pureza do sonho, convertida na palavra. Neste paradigma podemos integrar a cidade de Veneza (Morte em Veneza de Thomas Mann), onde no seio da decadência o narrador, Aschenbach, encontra simultânea e paradoxalmente a verdade, a vida, a beleza e a morte. Constatámos pela breve análise de algumas viagens relatadas pelos escritores abordados a preferência pela Itália como centro de cultura para os europeus. Miguel Torga visitou igualmente este país, tendo percorrido as cidades de Veneza, Florença, Roma, Milão e Nápoles – entre outras cidades italianas, cuja imagem analisaremos na terceira parte. A verdade é que este autor sentiu bem presente a passagem dos seus antecessores pelos locais que visitou, pois afirma em Milão, a 28 de Dezembro de 1937: Um dos ângulos mais apertados de quem viaja numa terra destas é caminhar como um cão nas pegadas dos grandes homens [...] Eu próprio, hoje, na Ambrosiana, não pude deixar de ter este estremecimento imbecil: neste mesmo lugar esteve Stendhal, esteve Byron...59 Em Roma, numa outra viagem, visita o Albergo dell Orso, «onde Dante, Rabelais, Montaigne e Goethe se hospedaram.»60 59 Diário I, ed. cit., pp. 56-57. 60 Diário V, ed. cit., p. 545. II. Literatura Comparada e imagologia 46 na imagem tradicional da Alemanha, fixada por Mme de Staël em 1813. Essa visão manteve-se, traçando uma discrepância entre a realidade da Alemanha e a imagem que dela mantiveram os intelectuais franceses. Por isso, Jean-Marie Carré refere: «Nos intellectuels et nos écrivains n’ ont presque jamais jugé l’Allemagne en elle-même, mais presque toujours, au contraire, par rapport aux idées qu’ils soutenaient chez nous. Ils l’ont regardée à travers le prisme de leurs propres idéologies.»6 Esta obra visa compreender a origem da imagem francesa da Alemanha, o modo como ela orientou as relações intelectuais e literárias entre os dois países. Neste âmbito, evidencia a soma de clichés, de estereótipos culturais, atendendo igualmente ao modo como são recebidos os escritores de uma nação pela outra. Coloca, assim, a questão da relação entre literatura e imaginário social, visto que é aí que as imagens são delineadas. Como afirma Jean-Marc Moura: «Il ne s’engageait naturellement pas dans une sociologie littéraire, ou plutôt une sociosémiotique, mais il dégageait une dimension cardinale des études d’images.»7 Assim, interessando-se pelas obras literárias e pelo seu contexto histórico e sóciocultural, Carré preconiza que a definição de uma literatura nacional engloba o recurso a elementos de uma cultura estrangeira. Embora produzida numa época em que a teoria literária não se encontrava muito desenvolvida e o método imagológico dava os seus primeiros passos, desta obra emergiram princípios decisivos para o desenvolvimento dos métodos comparativistas.8 Primeiramente, é relevante a atenção conferida à dinâmica das interacções entre as diversas literaturas nacionais - visto que estas não se constróem pela mera adesão a um espírito 6 Apud Jean-Marc Moura, «Jean-Marie Carré (1887-1958): images d’un comparatiste», in Revue de Littérature Comparée, juillet-septembre 2000, pp. 366-367. 7 Idem, p. 367. 8 Cf . idem, p. 369. II. Literatura Comparada e imagologia 47 colectivo, mas através da diferenciação face ao estrangeiro. Em seguida, importa frisar o alargamento dos estudos literários à análise dos contextos intelectual e ideológico da obra, ou seja, ao seu imaginário social. Tal facto constata-se igualmente na obra do mesmo autor intitulada Voyageurs et écrivains français en Egypte, em que se revela um particular interesse pelo contexto histórico e sócio-cultural onde as obras se produzem. De entre os preconizadores e seguidores de Carré, podemos salientar Hugo Dyserinck (Aix–la-Chapelle), Alexander Dutu (Bucareste), Franco Meregalli (Veneza), Peter Boerner (em Indiana, nos Estados Unidos), entre outros. Vários foram os trabalhos baseados na imagologia, de entre os quais podemos citar apenas alguns exemplos: L’Allemagne devant les lettres françaises de 1814 à 1835 de André Monchoux (publicado em 1953); L’ Image de la Grande-Bretagne dans le roman français [1914-1940] de Marius-François Guyard (publicado em 1954); Romain Rolland, l’ Allemagne et la guerre de René Cheval (1963); L’Image de la Russie dans la vie intellectuelle française [1839-1856] de Michel Cadot (1967); L’ image de la Belgique dans les lettres françaises de 1830 à 1870 de Claude Pichois (1957); L’ Espagne devant la conscience française au XVIIIe siècle de Daniel-Henri Pageaux (1975). A interpretação recíproca de povos, viagens e miragens é legitimada, passando a constituir parte integrante da Literatura Comparada. Na obra escrita dezoito anos depois, Guyard reitera a principal tarefa do comparativista, que deverá «décrire exactement l’image ou les images d’ un pays en circulation dans un autre à une époque donnée.»9 Além disso, o referido investigador deposita grandes esperanças no desenvolvimento da Literatura Comparada, baseada na imagologia, possibilitadora de uma compreensão mais nítida dos modos de elaboração e permanência dos grandes mitos nacionais nas 9 Marie-François Guyard, La Littérature comparée, Paris, Presses Universitaire de France, «Que sais-je?», 1969, p. 118. II. Literatura Comparada e imagologia 48 consciências individuais e colectivas. Através do estudo dos mecanismos de desenvolvimento e formação de certas interpretações de um país, abriam-se novos caminhos de pesquisa na Literatura Comparada. Contudo, os defensores da imagologia sucumbiram ao erro do extremismo e, por vezes, o lugar do investigador comparativista foi legado ao historiador. Em França, a utilização deste método incorreu, sobretudo, em dois excessos10. Primeiramente, uma excessiva atenção conferida aos textos literários despojados de análise histórica e cultural. Em segundo lugar, o inverso, ou seja, uma leitura demasiado redutora de textos, transformados em meros inventários de imagens do estrangeiro. Nesta sequência, entre os defeitos apontados salienta-se a catalogação de temas, a abundância abusiva de citações e de paráfrases, a confusão entre o domínio da história e o da literatura. Jean-Marc Moura alerta, igualmente, para os vícios em que a imagologia é susceptível de cair: «interdisciplinarité sauvage et nacionalisme, voire psychologie des peuples non avoués»11. Este autor refere, pois, o facto de se conceder excessiva importância aos factores extra-literários, descurando a componente estética do texto, enquanto é veiculado um nacionalismo «disfarçado» da evocação do estrangeiro e apoiado numa suposta «psicologia dos povos». Devido aos extremismos em que incorreu, o estudo das imagens desencadeou numerosas críticas, tendo contado com diversos opositores. Aliás, é célebre a querela entre a já mencionada «escola francesa» e a «escola americana» – embora não se tenham tratado efectivamente de escolas, mas sim de correntes, de círculos de opinião divergentes. Os comparativistas franceses privilegiavam aspectos como a história literária, enfatizando os fenómenos de influência, transmissão, tendo como ponto de partida as 10 Cf. D.-H. Pageaux, «De l’imagerie culturelle à l’imaginaire», in Précis de littérature comparée, dir.Pierre BrunelYves Chevrel, Paris, PUF, 1989, p. 134. 11 Jean-Marc Moura, L’Europe littéraire et l’ailleurs, Paris, PUF, 1998, p. 36 II. Literatura Comparada e imagologia 49 literaturas nacionais. Em contrapartida, os americanos baseavam-se em dois princípios: primeiramente um moral, assente numa abertura ao universo, numa atitude «democrática» face a todas as outras culturas (de modo a não privilegiar as literaturas europeias); e um intelectual, baseado numa preocupação de preservar valores estéticos e humanos da literatura, de utilizar as mais ecléticas experiências de método e interpretação. Um dos elementos da «escola americana» foi o investigador checo René Wellek, que se revelou em 1953, através de um artigo publicado no Yearbook of Comparative and General Literature, onde evidenciou a sua oposição aos estudos de tipo historicista que integravam a imagologia. Reitera-a ainda, criticando Carré e Guyard em the «Crisis of Comparative Literature»12, publicado em Proceedings of the Second Congress of the ICLA, Chapel Hill, Univ.of North Carolina Press, 1959. Neste texto, após referir o fracasso das tentativas para delimitar os métodos e o objecto de estudo da Literatura Comparada, Wellek afirma: Também não me convencem as tentativas recentes de Carré e Guyard de ampliar repentinamente o espectro da literatura comparada a fim de incluir o estudo das ilusões nacionais, das ideias fixas que as nações têm umas das outras. Pode ser muito interessante saber o conceito que os franceses faziam dos alemães ou dos ingleses – mas seria este ainda um estudo literário?13 Wellek preconiza, deste modo, através do texto referido, o fim de um paradigma unicamente historicista da Literatura Comparada. Defendeu como solução, perante um impasse histórico, a aproximação à teoria literária. Esta aproximação possibilitou uma 12 Foi consultado o texto traduzido e integrado na obra Literatura Comparadatextos fundadores, organização de Eduardo F. Coutinho e Tânia F. Carvalhal, Rio de Janeiro, Ed. Roco, 1994. 13 René Wellek, «A crise da Literatura Comparada», in Literatura Comparada - textos fundadores, organização de Eduardo F. Coutinho e Tânia F. Carvalhal, ed. cit., p. 110. II. Literatura Comparada e imagologia 50 reconfiguração do campo do conhecimento comparativista, tendo assumido um relevante papel na re-fundação da sua prática. Outra das vozes críticas que se ergueu contra a já mencionada «escola francesa» foi a do investigador suíço François Jost, que criticou a concepção de Literatura Comparada preconizada por Carré, acusando-o de «autarcia cultural», visto que o estudo das relações literárias internacionais assim empreendido reforçaria o conceito de literatura nacional, ao contrário do que deveria ser o objectivo dos comparativistas 14. Ainda neste contexto, René Etiemble, em 1963, em Comparaison n’est pas raison, estigmatizou as pesquisas no âmbito da imagologia, uma vez que «regardent l’historien, le sociologue ou l’homme d’état»,15 aproximando-se de Wellek relativamente aos argumentos utilizados, aludindo, por exemplo, a pesquisas acerca dos viajantes de Madagáscar, de forma ironizar a questão e mostrar a pouca pertinência deste método de estudos. Étiemble defendeu a concepção de um comparativismo planetário fundado numa ideologia racionalista, humanista e universalista. Sendo o homem um ser uno, a literatura só poderia ser igualmente una, universal, concretizando-se através de diversas invariantes. Étiemble opunha-se a um «europocentrismo» e historicismo veiculado pela escola francesa. Ao insistir na necessidade de um discernimento crítico que aplicasse o critério da literariedade, contribuiu, paralelamente a outros comparativistas americanos, para uma evolução conducente à definição da Literatura Comparada também como Literatura Geral, ou seja, orientada para o estabelecimento de uma teoria capaz de a contemplar na sua totalidade e unidade. 14 Cf. François Jost, Essais de Littérature Comparée, Fribourg, Ed. Universitaires, 1968, p. 331. 15 Daniel-Henri Pageaux, «De l’imagerie culturelle à l’imaginaire», in Précis de littérature comparée, dir. Pierre Brunel - Yves Chevrel, ed.cit., p. 133. II. Literatura Comparada e imagologia 51 Por seu turno, Hugo Dyserinck responde às críticas tecidas pelos apologistas da corrente americana, defendendo a orientação francesa16. Preconiza que a «imagemmiragem» do estrangeiro constitui parte integrante da Literatura Comparada, visto figurar na obra literária. Baseando-se na argumentação de Carré e Guyard, considera ser a definição de imagens uma desmitificação necessária para que os povos se compreendam melhor entre si. Partilhando esta linha de opinião, Cadotaponta a dureza das críticas que abalaram a escola francesa de comparativismo,17 rotulada de positivista, primeiro pelo new criticism anglo-americano, depois pelo formalismo russo, checo e a nouvelle critique. Porém, frisa a reabilitação do estudo da imagem, implicando o recurso a uma base documental nãoliterária. Salienta igualmente o contributo das Ciências Humanas (História, Mitologia, Psicologia, Linguística). Assim, importa reinscrever a reflexão literária numa análise geral, respeitante à cultura das sociedades (observada e observadora). Neste sentido, Daniel-Henri Pageaux, um dos investigadores responsáveis pela evolução da teorização da imagologia, enfatiza o pendor relativista da imagem, reivindicando para o seu estudo o lugar da interacção, da multiplicidade de discursos e de olhares18. Preconiza, consequentemente, a abordagem sistémica, pluridisciplinar e histórica, complementada por uma análise atenta das características textuais e categorias por elas enunciadas. Considera, então, o estudo da imagem do estrangeiro distanciado, tanto da sociologia qualitativa ou descritiva (definidora 16 Cf. Hugo Dyserinck, «Zun Problem der images und mirages und ihrer Untersuchung in Rahmem der Vergleichenden Literaturwissenchaft», in Arcadia 1, 1966. 17 Cf. Michel Cadot, «Les etudes d’ images», in La recherche en littérature générale et comparée, Paris, SFLGC, 1983, pp. 71-86. 18 Cf. (entre outras): «Pour un nouveau programme d’études en littérature comparée: les relations interlittéraires et interculturelles», in The Futur of Literary Scholarship, Bayruth, Verlag Peter Lang, 1986; «De l’imagerie culturelle à l’imaginaire», in Précis de littérature comparée, ed.cit.; La littérature génerale et comparée, ed.cit. ; Le bûcher d’ Hercule.Histoire, critique et théories littéraires, Paris, Honoré Champion, 1996; Trente essais de Littérature générale et comparée ou la corne d’ Amalthée, Paris, L’Harmattan, 2003. II. Literatura Comparada e imagologia 52 duma imagem média ou standard), como duma monografia redutora ou duma investigação puramente esteticizante. Assim, este estudo possibilitará ao investigador, por um lado, a compreensão do discurso crítico sobre a literatura estrangeira e as suas funções culturais, e, por outro, numa primeira abordagem da ampla história das mentalidades e sensibilidades ou ideologias, resituar o estudo da recepção crítica. Além disso, o comparativista poderá proceder a uma revisão e reapropriação da sua própria cultura. Partindo da controvérsia entre Wellek e Carré, Gerhard Kaiser parece aproximar-se teoricamente dos estudos franceses, nomeadamente de Pageaux, ao focar, primeiramente, a importância dos second-rate writers (ou seja, escritores considerados de menos importância), como intermediários, pois através deles é possível analisar e esclarecer a adaptação específica das suas obras a um determinado contexto histórico19. Em segundo lugar, a relevância dos géneros literários típicos de mediação (literatura de viagens, crítica literária, correspondência) – exemplos que revelam como seria arbitrário, na perspectiva formal, excluir do repertório de temas comparativistas as publicações periódicas. Seguidamente, o estudo dos clichés, dos mitos culturais (como pode ser o caso, por exemplo, do «bom selvagem») e da própria auto-reflexão científica. A importância dos estudos da imagem recíproca é, pois, de extrema pertinência neste contexto. Importa, igualmente, definir o objecto central da imagologia. A sua relevância para a ciência literária evidencia-se nos casos em que a literatura (por vezes conjuntamente com outras artes) marca alguns conjuntos de imagens de teor simbólico e alegórico ou caricatural. Tal facto sucede, por exemplo, com a imagem de Itália na literatura alemã ou de Veneza na literatura de fin-de-siècle. Constata-se, deste modo, que as imagens literárias 19 Cf. Gerhard Kaiser, Introdução à literatura comparada, Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, 1989, p. 164. II. Literatura Comparada e imagologia 53 revelam sempre formas específicas de uma auto-compreensão transmitida. Neste âmbito, a imagologia seria pertinente no estudo de oposições histórico-teóricas, como a existente entre as literaturas do norte e as do sul. Seria também essencial a análise pormenorizada dos testemunhos imagológicos e mesológicos nas perspectivas divergentes do emissor e receptor. Ainda segundo Kaiser, seria pertinente salientar a função específica da literatura na história geral, insistindo nos aspectos estéticos dos processos de mediação internacionais e das imagens do estrangeiro. Tratar-se-ia de compreender conteúdos e funções estéticas com o auxílio da história social, no intuito de entender de forma mais precisa a História geral. Assim, evitar-se-ia o risco de se «malograr» a História através de uma sociologia da literatura redutora. Por seu turno, Yves Chevrel na obra La Littérature comparée20 salienta a convergência com a História, sublinhando o facto de, neste domínio, o material literário e o não literário se assumirem como matéria de estudo, visto ser nos textos não-literários que se encontram os exemplos mais nítidos. Além disso, integra na imagologia o que denomina ser uma importante parte dos estudos comparativistas consagrados às imagens culturais representando o estrangeiro. Segundo o autor supramencionado, existem três vias de investigação no âmbito da imagologia. Em primeiro lugar, o estudo das narrativas de viagem que constituem um meio privilegiado de encontro com o estrangeiro: «[...] les récits de voyage en disent beaucoup sur les structures mentales et psychologiques de qui les rédige [...]»21. Estas narrativas reenviam, por conseguinte, frequentemente, a pressupostos de uma representação colectiva do estrangeiro que é necessário descodificar. Em segundo, o estudo de obras de ficção 20 Cf. Yves Chevrel, La Littérature comparée, Paris, Presses Universitaires de France, «Que sais-je?»,1989, pp. 25-26. 21 Idem, p. 25. II. Literatura Comparada e imagologia 54 (quer incluam directamente estrangeiros ou se refiram a uma visão de conjunto, mais ou menos estereotipada de um país estrangeiro). Em terceiro e a partir daqui, poderão considerar-se abordagens mais gerais, relacionadas com a antropologia e a etnopsicologia22. Neste ponto, é fundamental considerar a comunicação apresentada por Álvaro Manuel Machado no IV Congresso da Associação Portuguesa de Literatura Comparada (Évora, Maio de 2001), intitulada «Repensando a Literatura Comparada: Imagologia e Estudos Culturais»23. Principia com a formulação da seguinte pergunta: «A Literatura Comparada ainda existe?» Centrando-se em questões específicas da imagologia, o autor repensa «a autonomia da função teórica da Literatura Comparada»,24 atendendo à sua polémica evolução ao longo do tempo, às fragmentações e críticas de que tem sido alvo. Na comunicação acima referida, a problemática imagológico-cultural é definida a três níveis: o primeiro, referente a questões de comunicação; o segundo, à mitologia do espaço estrangeiro e o terceiro relativo ao imaginário como modelo simbólico. Nesta sequência a imagologia é relacionada com os Estudos Culturais, tendo como ponto comum a análise sócio-histórica da constituição de estereótipos25. Além disso, os Estudos Culturais podem igualmente ajudar a aprofundar a mitologia do espaço, relacionada com a formação da imagem do estrangeiro. Deste modo, os Estudos Culturais só terão sentido se partirem do universo textual e se este se integrar na reflexão acerca da história e da cultura. Álvaro Manuel Machado conclui que, no campo da investigação da imagologia, a Literatura Comparada se assume como uma disciplina cuja actualidade é incontestável. No 22 Idem, ibidem. 23 Esta comunicação integra a obra Do ocidente ao Oriente. Mitos, Imagens, Modelos, Lisboa, Editorial Presença, 2003. 24 Álvaro Manuel Machado, Do Ocidente ao Oriente. Mitos, Imagens, Modelos, ed. cit., p. 57. 25 Nos Estados Unidos, a Literatura Comparada «metamorfoseou-se» nos denominados «Cultural Studies», expandidos igualmente no Brasil sob a designação de Estudos Culturais. II. Literatura Comparada e imagologia 55 entanto, para salvaguardar a sua autonomia, deverá delimitar as suas fronteiras teóricometodológicas. A profícua relação entre imagologia e Estudos Culturais é ilustrada, no final, com uma citação de um estudo de Jean-Marc Moura cuja transcrição é pertinente: L’ histoire des illusions littéraires sur l’ étranger, qu’elle emprunte les voies anglosaxones des «Cultural Studies» ou de la critique postcoloniale, qu’elle rejoigne la mythocritique ou les études de réception ou bien encore qu’elle revienne sur la théorie, fondatrice, de l’espace littéraire est plus que jamais d’actualité pour le comparatiste. 26 Devido ao seu carácter interdisciplinar, é de toda a importância para a imagologia o conhecimento das pesquisas efectuadas no âmbito da etnologia, antropologia, sociologia e história das mentalidades, relativos a aspectos fulcrais como é o caso da alteridade, da identidade ou do imaginário social, entre outros. Nesta sequência, o comparativista deve considerar os estudos realizados nos domínios supramencionados, de modo a possibilitar a comparação entre os métodos de estudo literário e os outros. Só assim será possível estabelecer um paralelismo entre a imagem literária e outras representações veiculadas através de outros meios, como a imprensa ou as outras formas de arte. Isto porque a literatura relaciona-se intimamente com as outras artes, reflectindo sempre os paradigmas e os mecanismos da sociedade e da época histórica em que se integra. Do mesmo modo, para estudarmos, analisarmos e interpretarmos a imagem do estrangeiro, teremos de considerar todos os factores que a rodeiam e não somente a mera representação textual, linguística e literária. Ela constitui sempre o fruto de numerosos factores extra-literários ligados a fenómenos históricos, sociais, étnicos, culturais referentes tanto ao Outro (ao país ou cultura observada) como à entidade observadora. 26 Apud Álvaro Manuel Machado, «Repensando a Literatura Comparada: Imagologia e Estudos Culturais», in Do Ocidente ao Oriente. Mitos, Imagens, Modelos, ed. cit., p. 65. III. Imagem do estrangeiro e estereótipo 62 No Diário de Torga deparamo-nos com diversas imagens estereotipadas. Embora a sua análise mais detalhada esteja reservada, como já anteriormente mencionámos, para a terceira parte, importa referir e comentar alguns exemplos concernentes às imagens evidenciadas de Espanha e França. Na primeira visita a França, datada de 24 de Dezembro de 1937, no Alto dos Pirinéus, em Lourdes, Torga afirma: «Uma luz maravilhosa inunda esta grande muralha que defende o meu Senhor D. Quixote das tentações das “Folies Bergères”.»10. Neste caso, através da conversão da realidade geográfica em realidade espiritual, emerge a ideia estereotipada de futilidade associada à França, oposta à espiritualidade ibérica simbolizada pelo mito literário de D. Quixote. Estes dois mundos são separados por uma «muralha» natural, que enfatiza ainda mais o abismo que os separa. O vínculo a Espanha é acentuado através do determinante possessivo «meu», que remete para uma relação de proximidade e de afectividade. Torga foge à moda do «francesismo», visto que as conotações referentes a este país opõem-se aos valores por ele considerados primordiais: a simplicidade, a pureza original, a comunhão com as forças e os elementos da natureza (à semelhança de um verdadeiro Anteu). Estereotipada é igualmente a imagem transmitida dos romances franceses, quando afirma a 9/8/1942, a propósito de Manon Lescaut: «Se alguém for capaz de me mostrar um dia um romance francês com uma mulher honrada, um homem honrado e meia dúzia de vizinhos honrados, dou-lhe um doce.»11. Deste modo, partindo do conhecimento de alguns romances franceses, Torga parte do princípio de que nenhum deles tem personagens honradas, através de um mecanismo de simplificação e generalização. Deste modo, a 10 Diário I, ed. cit., p. 55. 11 Diário II, ed. cit., p. 172. III. Imagem do estrangeiro e estereótipo 63 imagem estereotipada da frivolidade e de uma certa leviandade é construída também através de um processo de recepção literária. Nesta sequência, podemos ainda mencionar o registo duma viagem a Montpellier (datado de 7 de Setembro de 1950), do qual emerge a ideia da França racionalista através da oposição irónica e humorística estabelecida entre Descartes e Cervantes12. Do mesmo modo, o estereótipo também surge na imagem transmitida de Espanha. A ela subjaz a carga cultural e histórica do imaginário social. Isto porque é precisamente no seio do imaginário social que se forja a imagem literária transmitida pelo escritor. Neste caso, importa lembrar as palavras de Oliveira Martins, citadas por Eduardo Lourenço, concernentes à relação de Portugal com o estrangeiro: «O estrangeiro pode amar-nos ou odiar-nos: não pode ser-nos indiferente. A Espanha provocou entusiasmos ou rancores: jamais foi encarada com desprezo ou ironia».13 Aliás, este peso do património histórico e cultural é reconhecido por Torga quando declara: Os povos limítrofes, em regra, dão-se mal. Há ressentimentos mútuos, gerados ao longo da História, que nenhuma diplomacia supera e nenhuma trégua adoça. É o que nos acontece com a Espanha desde que nos libertámos do seu jugo. Mesmo nas melhores horas de entendimento, estamos sempre de pé atrás.14 É ainda nesta linha que afirma, aquando de uma visita a Verin: «A Espanha sempre amada e sempre temida»15. Encontramos aqui subjacente uma certa necessidade de libertação, sentida por Portugal, relativamente a Espanha, aliada a um receio, proveniente 12 «O guarda da aduana francesa, a olhar o colega castelhano, parecia Descartes a contemplar um bisonte. E o outro era o Cervantes...» (Diário V, ed. cit., p. 541). 13 Apud Eduardo Lourenço, Nós e a Europa, ou as Duas razões, Lisboa, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1988, p. 79. 14 Diário XIV, ed. cit., pp. 1476-1477. 15 Diário XV, ed. cit., p. 1637. III. Imagem do estrangeiro e estereótipo 64 do complexo de invasão, gerado pelos períodos de ocupação ocorridos no passado, como sucedeu entre 1580 e 1640. Assim, é o saber colectivo traçado pela História, pela herança cultural e social que transparece da imagem estereotipada do país vizinho. Claudio Guillén cita ainda George Orwell, aludindo à banalidade de alguns estereótipos que se traduzem em tópicos, devido à dificuldade evidente na definição de características nacionais, o que conduz frequentemente à fixação de aspectos triviais, e por vezes desconexos16. O estereótipo corresponde, portanto, a uma forma mínima de comunicação, uma espécie de resumo, uma expressão emblemática de uma cultura, de um sistema ideológico. Transmite uma definição do outro através de um saber considerado colectivo que se pretende validar. Não sendo polissémico, ou seja, possuindo apenas um significado, é policontextual e reempregável. Implicitamente, coloca uma hierarquia, uma dicotomia dos mundos e das culturas. Por outras palavras, como refere Daniel-Henri Pageaux : «Prodigieuse ellipse de l’esprit, du raisonnement, il est une constante pétition de principe: il montre (et démontre) ce qu’il fallait démontrer.»17 Definida como comunicação programada, a imagem é teoricamente constituída por três elementos: a palavra, a relação hierarquizada e o cenário, conducentes a três níveis de estudo18. No presente trabalho percorreremos estes três níveis, cujos fundamentos teóricos e exemplos apresentaremos de seguida, mas cuja aplicação prática será desenvolvida, aquando da análise das imagens constituídas através dos diversos percursos efectuados pelo narrador torguiano. Seguindo a ordem de complexidade crescente e partindo do 16 Cf. Claudio Guillén, Muliples moradas. Ensayo de Literatura Comparada, ed.cit., p. 339. 17 D-H.Pageaux, La littérature générale et comparée, ed. cit., p. 63. 18 Cf. Daniel Henri -Pageaux, «De l’imagerie culturel à l’ imaginaire», in Précis de Littérature comparée, ed. cit., p. 142; La littérature générale et comparée, ed.cit., p. 64. III. Imagem do estrangeiro e estereótipo 65 menos para o mais literário, do mais específico para o geral, apresentaremos seguidamente os três níveis de estudo imagológico, de acordo com os pressupostos teóricos de Pageaux. Em primeiro lugar, consideramos a palavra, ou seja, um «stock» mais ou menos restrito de palavras possibilitadoras da difusão da imagem do Outro numa determinada época e cultura. Neste âmbito, devemos proceder a uma análise do léxico, atendendo à formação de campos lexicais e semânticos (que possibilitam o estabelecimento de isotopias). Além disso, é fundamental distinguir as «palavras-chave» (que se aproximam do estereótipo pela sua natureza e funcionamento), das denominadas «palavras-fantasma» (destinadas a servir uma comunicação de teor simbólico). Importa atender a duas ordens lexicais: por um lado, as palavras da língua de origem que servem para definir o país observado; por outro, as palavras retiradas da língua e do imaginário do país estrangeiro, sem tradução – estas constituem um inalterável elemento de alteridade, visto veicularem uma realidade estrangeira absoluta. Neste caso, podemos exemplificar através da utilização feita por Torga da palavra castelhana «hombridad»,19 transcrita sem tradução para definir precisamente a grandiosidade geográfica do país vizinho, reflectida nas suas qualidades sociais e culturais. Além disso, nesta análise lexical é necessário atentar nas marcas de iteração, repetição (efectuar o inventário de determinadas ocorrências consideradas relevantes), nos indicadores de tempo e de espaço, na adjectivação utilizada para caracterizar a realidade estrangeira observada. Enfim, importa abordar todos os elementos que, ao nível da palavra, são susceptíveis de traçar um sistema de equivalência do «eu» relativamente ao «outro». Só assim é possível compreender de que modo se escreve a apropriação do estrangeiro, se nos encontramos perante uma redução do desconhecido ao familiar, ao elemento nacional, 19 «A hombridad espanhola é uma sobranceria geográfica» (Diário IX, ed. cit., p. 955). III. Imagem do estrangeiro e estereótipo 66 ou se, pelo contrário, constatamos uma exotização dos processos de integração cultural da realidade observada. Podemos exemplificar, recorrendo a algumas «palavras-chave» empregues por Torga para revelar a sua opinião acerca de Castela, que contrasta, por exemplo, com a da Catalunha e da restante «Ibéria». Castela é descrita através de palavras como «opressão», «violência» e «tirania», opostas ao modo de sentir e de ser da Ibéria. Segundo o autor: «A voz centrípeta de Castela nunca há-de ser entendida pelo resto da Ibéria. Magoa, pela sua violência, ouvidos milenarmente habituados à doçura dos segredos do mar, murmurados pela boca dum búzio...»20. Assim, um elemento que caracteriza a restante Ibéria e do qual Castela se encontra afastada é o mar, ou seja, o atlantismo. O povo castelhano é conotado com o excesso, a megalomania, o fanatismo religioso («Pensar, em Castela, é deambular numa prisão. A prisão da Fé e da Pátria.»)21. Em contrapartida, a região da Catalunha, mais especificamente, Barcelona, por exemplo, marca a diferença entre os seus habitantes e os outros, que, embora unidos pelo mesmo espaço geográfico, têm formas de pensar, de sentir e de agir diferentes. Por isso, Torga declara: «Industrioso e sensível, o homem daqui, a fabricar ou a idealizar coisas concretas, tem pouco que ver com a sombra espectral dum salmantino eternamente a lançar no descampado da Meseta a semente abstracta da sua fé.»22. Para melhor ilustrar estas diferenças exemplifica ainda com a imagem de duas castanhas colocadas dentro da mesma casca, mas condenadas a destinos diversos. É ainda a este nível que devemos atentar na escrita da alteridade, notando todos os elementos possibilitadores da diferenciação ou da assimilação entre o «Outro» e o «Eu». Por conseguinte, o vocabulário utilizado nos comentários tecidos às terras pertencentes à província de Castela, assim como as referências à capital, denotam uma 20 Diário V, ed. cit., p. 537. 21 Idem, p. 536. 22 Idem, p. 540. III. Imagem do estrangeiro e estereótipo 67 atitude de afastamento face ao «Outro» de rejeição do clima de opressão que domina esses locais. Em contrapartida, há uma proximidade e identificação com a Catalunha, retratada com «palavras-chave» que nos remetem para a liberdade. Por conseguinte, enquanto no primeiro exemplo é utilizada adjectivação de valor negativo, no segundo evidencia-se o uso de adjectivos de conotação positiva. No caso concreto de Torga, relativamente aos mecanismos de elaboração de imagens, importa considerar o isolamento cultural do país de origem que acompanha a elaboração dos primeiros doze volumes do Diário (período ditatorial) e o posicionamento crítico do autor perante o ambiente político, cultural e social onde se encontra imerso. Neste âmbito, a imagem do estrangeiro também pode revelar aspectos difíceis de conceber e de exprimir acerca do país de origem. Na nossa análise não podemos esquecer alguns dados fulcrais, quer biográficos, quer do contexto cultural, social, político, do imaginário social onde se formou a sua personalidade e que terá determinado as suas posições ideológicas, religiosas, etc. A imagem elaborada a partir da contemplação do «outro» pode surgir como um prolongamento do «eu» e do seu espaço de origem, transpondo metaforicamente realidades nacionais. Deste modo, esta imagem do elemento estrangeiro veicula a que o narrador tem de si próprio. Tal facto pode ser exemplificado através da noção de Ibéria, que, ao englobar os dois países, acaba por apresentar Espanha como um prolongamento de Portugal e viceversa. Além disso, constata-se ainda quando Torga considera a América do Sul como uma transposição da Ibéria. Nesta sequência, a ideologia religiosa e política do escritor influencia a sua visão de outro país, de outra cultura. Sendo essa imagem reveladora das opções ideológicas que atravessam e estruturam a sociedade, é necessário evitar uma leitura redutora, devendo-se III. Imagem do estrangeiro e estereótipo 68 sair do texto, visto as imagens veicularem relações com dados de ordem histórica, social e cultural. Por isso, sendo a imagem que Torga forma da Espanha historicamente contextualizável, encontramos na sua génese, não apenas a experiência individual do autor, mas também o contexto histórico e social onde se insere. Será, pois, lícito colocar a seguinte questão: de que modo as imagens elaboradas Torga reflectem o contexto social, histórico e cultural da sua época? Importa analisar ainda em que medida a linguagem simbólica da imagem nos conduz à linguagem simbólica do mito (nas páginas do Diário de Torga, surgem-nos, por exemplo, o mito de Dom Quixote, de Anteu e de Orfeu). Em que medida nos conduz a uma mitologia colectiva ou individual? É sobretudo a consciência enunciativa, o modo como o «eu» diz o «outro», que deverá constituir o ponto de partida, uma vez que: Seguir os meandros da escrita deste Eu enunciador, é identificar, para lá dos motivos, das sequências, dos temas, dos rostos e das imagens que dizem o Outro, a maneira de se articularem no interior de um texto, os princípios organizadores, os princípios distribuidores (série do Eu versus série do Outro), as formas lógicas e as divagações do imaginário.23 O segundo momento de estudo é o das relações hierarquizadas Tem inspiração estruturalista, utilizando os métodos descritivos utilizados pelo antropólogo Claude LéviStrauss para a leitura e compreensão do funcionamento dos mitos. 23 Álvaro Manuel Machado - Daniel-Henri Pageaux, Da Literatura Comparada à Teoria da Literatura, ed. cit., p. 56. III. Imagem do estrangeiro e estereótipo 69 A este nível, abordando o texto na sua dimensão informativa, é necessário efectuar o seguinte percurso estruturalista:24 primeiramente, identificar as oposições estruturadoras do texto (por exemplo: eu-narrador-cultura de origem vs. Outro, cultura representada); em seguida, focar as unidades temáticas, as pausas descritivas (constatar de que modo o elemento estrangeiro é investido de uma função particular); em terceiro lugar, atentar nas sequências onde se encontram os elementos catalisadores da imagem do estrangeiro. Ainda neste nível, é necessário analisar o quadro espácio-temporal, visto que estes elementos, além de serem descritivos, assumem também uma função explicativa. Assim, é pertinente o estudo do processo de organização ou reorganização do espaço estrangeiro, as modalidades de determinação espacial e as dicotomias presentes no discurso acerca deste espaço. A título de exemplo, podemos referir, no Diário, a configuração da imagem de Espanha através da dicotomia liberdade/opressão, conotada, respectivamente, com a Catalunha e Castela. Verifica-se, além disso, por vezes, uma configuração do espaço através da oposição «eu» (ou cultura de origem) versus o «outro» (ou cultura observada). É o que sucede, por exemplo, na representação da imagem de França em confronto, quer com a de Espanha, quer com a de Portugal. Neste caso, o artificialismo e o racionalismo francês opõem-se à autenticidade e espiritualidade espanhola e portuguesa. Nesta etapa é ainda necessário não esquecer os locais que são valorizados e isolados através de um pensamento mítico, conferindo-lhes uma posição fulcral. Por conseguinte, há zonas investidas de valores positivos ou negativos, permitindo a simbolização (ou «sacralização») do espaço. No Diário torguiano são diversas as cidades revisitadas e mitificadas (que posteriormente abordaremos), como é o caso de Roma ou de Veneza, entre outras. Além disso, deparamo-nos com alguns locais considerados verdadeiramente 24 Cf. Daniel-Henri Pageaux, «De l’imagerie culturel à l’ imaginaire», in Précis de littérature comparée, ed.cit., p. 146. III. Imagem do estrangeiro e estereótipo 70 paradisíacos – como é o caso da ilha de Moçambique25, um verdadeiro «locus amoenus», - em oposição a outros onde reina o caos, entendidos como «locus horrendus» infernais (como a cidade de Luanda).26 Ainda neste ponto de abordagem das representações imagéticas, é necessário atentar na relação entre o espaço geográfico e o psíquico, visto que, por vezes, o modo como é retratado o espaço exterior estrangeiro reproduz uma paisagem mental do «eu» do narrador. Outro elemento cujo estudo é fundamental é o tempo, uma vez que as indicações cronológicas e as datas históricas permitem situar o elemento estrangeiro no tempo, surgindo igualmente a possibilidade de mitificação do tempo histórico. No caso particular do nosso corpus de estudo, as indicações cronológicas são precisas e constantes, pois todos os registos do Diário se encontram datados e localizados geograficamente. Não obstante, importa igualmente analisar, por exemplo, as analepses e todos os elementos susceptíveis de possibilitar a coexistência entre o tempo linear irreversível da história e o tempo reversível, cíclico da imagem. Neste contexto, relativamente ao recuo temporal, notamos, por vezes, no Diário a evocação do passado com o objectivo de justificar situações ocorridas no tempo presente. É o que sucede, numa passagem localizada em Santo António do Zaire, no dia 23 de Maio de 1973, quando o narrador, aludindo ao risco de naufrágio que vivenciou durante uma viagem de barco pelo rio, refere: «A obstinação de visitar o sítio que o meu comprovinciano Diogo Cão pisou pela primeira vez ia-me custando a vida. A raiva do Zaire parecia querer vingar-se em mim da violação de quinhentos.»27. Assim, os 25 Cf. Diário XII, ed. cit., pp.1257-1258 26 Cf. idem, pp. 1247-1248. 27 Idem, p. 1249. III. Imagem do estrangeiro e estereótipo 71 acontecimentos históricos justificam a fúria demonstrada por um país, por uma Natureza personificada, num momento presente. Após a caracterização destes elementos enunciadores da alteridade, devemos examinar o sistema de personagens, a sua relação com o «eu», o modo como se integram num processo de inclusão ou de exclusão, o seu posicionamento cultural ou político, o facto de existir uma predominância do elemento feminino ou masculino e as suas implicações na construção textual e imagética. Neste âmbito, constatamos a priori que a escrita diarística se centra no «eu», no protagonista, intervindo, ou sendo referidas esporadicamente, outras personagens, que contribuem para consolidar ou configurar uma determinada representação do estrangeiro. Como exemplo, podemos transcrever um excerto duma passagem referente à visita a Angola: «Penoso diálogo com um cabecilha nacionalista. Inteligente, frio e peremptório, cada palavra que lhe saía da boca parecia uma punhalada.»28. Aqui, apesar do reconhecimento de uma qualidade ao «outro» (a inteligência) desprende-se da descrição efectuada uma crítica ao extremismo, à agressividade e intolerância, que constituem entraves ao diálogo e ao entendimento entre o povo colonizado e o colonizador. Pertinente é ainda o facto de, neste caso, como noutros, em que há referência à intervenção de outras personagens, estas não terem nome, o que lhes confere um certo grau de indefinição. Além disso, o texto deve ser entendido como um documento antropológico, onde se expressa o sistema de valores do «outro», assumindo-se como um testemunho da cultura estrangeira. Deverá, por conseguinte, ser estudado como um processo narrativo, descritivo e também cognitivo, conducente à compreensão da génese e desenvolvimento do processo de conhecimento do escritor, face ao elemento «estrangeiro». Neste caso, sendo o nosso 28 Diário XII, ed. cit., p. 1258. IV. A representação simbólica do Outro 78 concreta da viagem parece reforçar a imagem já antecipadamente delineada através da leitura, confirmando o horizonte de expectativa formado. Aquando da passagem por Londres, em Junho de 1977, Torga vai também transmitir de Inglaterra, inicialmente, uma certa ideia de superioridade, seguindo a linha de Garrett, Antero ou de Eça de Queirós, para quem este país era sinónimo de civilização e de «cultura superior». Então, ao contrário do que sucede em Portugal, país desprovido de identidade e de coesão, naquela terra britânica, sente-se a coerência e a ordem, uma solidez social, que parece transbordar, inclusivamente para a própria natureza: Tudo certo, tudo harmonioso. O rio corre disciplinado, a liberdade autolimita-se, as instituições funcionam. Para cada actividade há uma dignidade. [...] A pátria que é memória e acção. Que é uma comunhão quotidiana de presenças e ausências, sacramento que nunca figurou no nosso catecismo cívico.13 A este elogio à superioridade da organização e da dignidade britânica, acresce ainda a reacção a alguns escritores ingleses, pelos quais é revelada grande admiração. Um dos exemplos que podemos referir é o de Keats (já anteriormente mencionado), outro é o de Shakespeare, considerado por Torga como um autêntico génio criador14. No entanto, esta atitude da parte do narrador torguiano, que aproximámos da «mania», não pressupõe a importação consciente de hábitos ou aspectos culturais dos países considerados superiores em alguns aspectos. Nestes casos, nota-se apenas admiração e reconhecimento de elementos que são positivos no estrangeiro e que se encontram ausentes no país de origem. Não obstante, tal facto, gerador, por vezes, de 13 Diário XII, ed. cit., pp. 1344-1345. 14 Cf. Diário I, ed. cit., p. 101. IV. A representação simbólica do Outro 79 algum complexo de inferioridade, embora desencadeie uma atitude crítica, não provoca o desprezo pelo país de origem. Por isso, consideramos que há uma certa aproximação relativamente à «mania», embora não englobando todas as características teóricas que lhe são apontadas. Aliás, esta representação do «outro» não se baseia numa elaboração textual da imagem propriamente literária, tornando-se por isso um estereótipo, visto constituir uma forma massiva de comunicação dum saber colectivo, assumindo-se como «a verdade do escritor como representante duma determinada cultura nacional»15. Por outras palavras, esta representação do «estrangeiro» enquadra-se no esquema cultural dominante. Podemos assim considerar que, neste caso, o «outro» é delineado como «alter», através de uma representação de carácter ideológico, integradora. Aliás, a ideologia alimenta-se precisamente dos estereótipos culturais, das imagens estereotipadas que assumem um carácter preservador. A segunda atitude, oposta à anterior, denomina-se «fobia». Neste caso, a realidade estrangeira é considerada, de certo modo, inferior à da cultura de origem. Em Torga, não encontramos atitudes autênticas de «fobia». Deparamo-nos, antes, com alguma rejeição por determinadas realidades estrangeiras, às quais falta a pureza primitiva, a autenticidade, ou a coesão – características muito valorizadas pelo autor. Como exemplo que se aproxime parcialmente desta atitude, podemos referir algum desconforto e desagrado, revelado pelo narrador ao percorrer a França (nomeadamente, Paris) e um certo desespero durante a visita a Angola e Moçambique, aliado ao sentimento de diferenciação face ao Outro. Porém, esta última atitude não se enraíza numa reacção racista, mas antes na desilusão de ver um país dilacerado pela guerra, onde entre o mundo dos brancos e o dos nativos se desenhou um fosso intransponível. Neste caso, é de extrema 15 Álvaro Manuel Machado, Do Romantismo aos romantismos em Portugal. Ensaios de tipologia comparativista, Lisboa, Ed. Presença, 1996, p. 53. IV. A representação simbólica do Outro 80 importância abordar a situação histórica vivida durante a visita: Angola, à semelhança dos outros países africanos colonizados pelos portugueses, encontrava-se em plena guerra colonial. Principiemos então pela imagem da França que, como já anteriormente constatámos, é concebida sobretudo como fútil e artificial. A estas características acrescem ainda a megalomania, a inconsistência, a vaidade sem razão, como refere o narrador a 2 de Outubro de 1950, em Paris, após elogiar a autenticidade espanhola: «Quanto a esta pobre França, se um dia lhe sopra um vento a valer, pulveriza-se. Com a cegueira de se julgar uma nova Grécia, cuida que devorará todos os invasores.»16. Além disso, a vertente cosmopolita de Paris reveste-se para o observador duma dimensão quase «vampiresca», assemelhando-se a um parasita, na medida em que a acusa de extrair aos visitantes a sua característica mais pura e autêntica17. No entanto, é anteriormente, aquando da primeira visita registada à capital deste país, que mais nitidamente se evidencia o desagrado e uma certa incomunicabilidade com o espaço visitado: Se me obrigassem a pagar aqui outro imposto que não fosse este dum cartão de livre trânsito por tantos dias - morria. Se tivesse que ser nestes Campos Elíseos qualquer coisa que me secasse a lembrança da minha avenida da Liberdade de Lisboa – morria. Se tivesse de escrever aqui um poema sem o jeito da língua que mamei – morria.18 Verifica-se, deste modo, a impossibilidade de integração do visitante no espaço visitado, aliada à sua forte vinculação à pátria. O formigueiro humano parisiense, composto por cinco milhões de habitantes, provoca-lhe repulsa. Além disso, ainda no 16 Diário V, ed. cit., p. 554. 17 Cf. Idem, p. 555. 18 Diário I, ed. cit., p. 63. IV. A representação simbólica do Outro 81 mesmo registo, evidencia-se uma certa «superioridade» da cultura de origem, quando Torga contesta o facto de Paris ser considerada a capital do mundo, afirmando: «A capital do mundo de meu Pai é S. Martinho de Anta»19. Esta imagem negativa é ainda configurada através do modo como são recebidos alguns autores franceses (como é o caso de Sartre e de Baudelaire) e da opinião geral e estereotipada acerca do romance francês (já referida no capítulo anterior a propósito de Manon Lescaut). Relativamente ao primeiro poeta supramencionado, Torga revela um profundo distanciamento e recusa perante a sua obra ao escrever: «As Fusées de Baudelaire. Decididamente, não pertenço a semelhante raça. Aquilo, de resto, não é nada, a não ser o fígado a dar sinais de si.»20. Por seu turno, Sartre é acusado de falta de sinceridade, visto a sua obra não ser uma expressão de vida nem de franqueza, qualidades essenciais na literatura, segundo Torga. Por isso, comenta de forma irónica: «A vida é uma paixão inútil, diz o Sartre. Mas, afinal, não se matou depois da descoberta.»21 Bastante distinta é a imagem construída de África, que decidimos integrar neste âmbito, não pela superioridade da cultura de origem, mas antes pelo distanciamento face ao «outro», pela incomunicabilidade e pela impossibilidade de adaptação do «eu» num território completamente «estranho» e estrangeiro». Em primeiro lugar, o narrador confessa o seu desespero na anotação datada de 2 de Junho de 1973: «Mas que hei-de eu fazer, se desde que pus o pé em África vivo em pânico, sinto a terra fugir-me debaixo dos pés?»22 Dois dias depois, numa caçada na Gorongosa (que lhe desperta saudades das caçadas à perdiz feitas em Portugal), observa em relação às pessoas que o rodeiam: 19 Idem,ibidem. 20 Idem, p. 91. 21 Diário V, ed. cit., p. 516. 22 Diário XII, ed. cit., p. 1255. IV. A representação simbólica do Outro 82 Por muito que viva nunca esquecerei o pasmo irónico de três mulheres aborígenes, que não entendiam uma palavra de português, e o olhar oblíquo de um bando de homens [...] Caras estranhas, enigmáticas, onde a minha má consciência branca lia o ódio, e talvez espelhassem apenas a instintiva desconfiança em qualquer natural por um semelhante que o não é.23 Transparece da passagem supracitada um processo de estranhamento e distanciamento face à realidade observada. A diferença racial encontra-se subjacente na expressão «a minha má conciência branca». É precisamente essa consciência de se sentir um «inimigo» que o leva a interpretar como ódio um sentimento que poderá ser de medo ou de mera desconfiança. Este processo de rejeição é atribuído aos factores históricos, ao facto de entre o colonizador e o colonizado nunca ter existido um entendimento, nem uma comunhão de culturas. Porém, constatamos que a imagem das ex-colónias não é inteiramente sobredeterminada pela ideologia portuguesa, evidenciando-se a independência de pensamento do autor. Neste caso, podemos considerar que o «outro» se assume como «alius», pela sua indefinição e pelo questionamento existente da cultura de origem. Além disso, numa passagem localizada em Nova Lisboa e datada de 30 de Maio de 1973, o viajante menciona as potencialidades daquela terra, evocando a possibilidade de uma sociedade alternativa, marcada pela perfeição, onde reinasse a liberdade e a igualdade, que poderia ter sido (ou vir a ser) ali edificada, embora isso não passe de mera utopia: «Sim, um próspero país futuro, construído com amor e suor do Zaire ao Cunene, cada habitante a semear e a colher os frutos agridoces da vida por conta própria e não por conta alheia.»24. Além disso, é tecida uma crítica ao fracasso de Portugal em África (ao contrário do que 23 Diário XII, ed. cit., p. 1256. 24 Idem, p. 1254. IV. A representação simbólica do Outro 83 sucedeu, comparativamente, no Brasil), apontando a principal causa - que no fundo se enraizou na atitude portuguesa - pois teria sido apenas necessário «que cada um dos que vieram mar fora trouxesse a convicção que ser angolano, moçambicano, guinéu ou timorense eram maneiras heterónimas de ser português»25. Por seu turno, a terceira atitude considera a realidade cultural estrangeira positiva, integrando-a na cultura de origem. Verifica-se uma valorização positiva, uma estima mútua, designada por «filia». Assenta num intercâmbio real, bilateral, permitindo o desenvolvimento de processos de avaliação e reinterpretação do estrangeiro. Ao contrário do que sucede nas atitudes anteriores, aqui pressupõe-se um diálogo, uma troca de ideias equitativa e harmoniosa, onde se constata um reconhecimento do «Outro», sem ser superior, nem inferior. Aqui, o elemento «estrangeiro» não é importado, através de um processo de aculturação, mas sim repensado e assimilado. Esta relação é notória no Diário quando são registadas visitas a países como a Espanha - apesar de a relação com este país se revestir de alguma ambivalência que desenvolveremos posteriormente - ou o Brasil. No que concerne ao país vizinho, apesar das já referidas diferenças de opinião relativamente a Castela e à Catalunha, a verdade é que Torga se considera um escritor «ibérico» e a sua pátria é, por conseguinte, a Ibéria (a união de Portugal e Espanha)26. Reside neste «iberismo espiritual» a atitude de «filia» face a Espanha, como se nela procurasse uma sensação de completude, que o leva a declarar: Não há dúvida que me sinto bem a pisar terra espanhola! É uma sensação agradável de alargamento físico, de reconciliação íntima, de fome satisfeita. Parece que 25 Idem,ibidem. 26 No prefácio da tradução espanhola da colectânea de contos intitulada Bichos, assume-se como «Filho ocidental da Ibéria», declarando-se «pela graça da vida, peninsular». ( Diário III, ed. cit., pp. 281-282). IV. A representação simbólica do Outro 84 se completam em mim não sei que crescimento celular interrompido, que voo espiritual travado, que compreensão esboçada.27 Esta «filia» é ainda corroborada com a recepção literária de autores espanhóis (como é o caso de Unamuno, Garcia Lorca, Cervantes, entre outros), pelos quais é revelada profunda admiração, paralelamente ao que sucede também, por exemplo, com pintores como Picasso ou Goya. Além disso, o mito de D. Quixote surge com alguma frequência no Diário torguiano, recriado de uma forma peculiar. Em suma, na imagem do país supramencionado, o «outro» surge novamente como «alter». Ele não se encerra numa diferença irredutível, nem é concebido como um elemento indefinido, abrindo-se ao diálogo, à comunicação bilateral, integrada na ideologia do grupo, da sociedade a que pertence o observador da cultura estrangeira. O Brasil é outra nação cuja imagem se desenha através da «filia». Na segunda visita efectuada a este país, onde o autor passou cinco anos da sua adolescência, refere: A concentrar a atenção neste ser uno e diverso, local e universal, cioso e pródigo, inquieto como um adolescente e atento como um adulto, que é o brasileiro – europeu tropical a inaugurar o futuro, português policromado que melhorou a alma e a fantasia, e tem oito milhões de quilómetros quadrados de extensão humana.28 Verificamos que o «elemento estrangeiro» é visto como uma espécie de versão aperfeiçoada do «Eu» (neste caso, projectando a cultura de origem). Nesta sequência, o «outro» reúne em si todas as qualidades que auguram um futuro promissor, aliando características à partida consideradas contraditórias (uno e diverso, local e universal). Porém, é precisamente na versatilidade e originalidade resultante da união de 27 Diário IX, ed. cit., p. 958. 28 Diário VII, ed. cit., p. 758. IV. A representação simbólica do Outro 85 características tão díspares, que reside a capacidade deste povo para conquistar o futuro, desenvolvendo-se cada vez mais. Além disso, a extensão geográfica é humanizada, metamorfoseada em «extensão humana». Evidenciam-se neste caso os dois processos de simbolização do outro mais frequentes: a metáfora (na medida em que refere o brasileiro como «português policromado») e a metonímia («europeu tropical»), ao designar uma realidade através de um termo referente a uma outra, relacionada com a primeira. O Brasil configura-se como um país de disponibilidade e comunhão, pleno de potencialidades, com o qual Portugal e o mundo poderão aprender muito, como revela o narrador: Deslumbrado, a olhar o caleidoscópio humano que me rodeia. O mundo nunca será suficientemente grato ao Brasil por esta dignificação do negro, que é um triunfo no plano moral e no estético.29 No registo acima transcrito, a imagem metafórica do caleidoscópio assume-se como um recurso caracterizador e definidor da representação do estrangeiro, evidenciando a multiculturalidade, a diversidade e a riqueza humana concentrada nesse espaço. É enfatizada e elogiada pelo narrador a «dignificação do negro», que noutros países foi discriminado. Acentua-se, deste modo, a representação do Brasil como lugar de comunhão e união entre raças. Deparamo-nos, então, com uma imagem do Brasil utópica, afastada dos esquemas dominantes da sociedade de origem, onde o «outro» se assume como «alius», na medida em que há um questionamento da perspectiva que a sociedade portuguesa tem deste país. Aliás, a originalidade desta representação é corroborada na obra Traço de União, onde o 29 Idem, p. 757. IV. A representação simbólica do Outro 86 autor salienta a necessidade de uma aproximação e de um aprofundamento das relações entre Portugal e o Brasil, com os quais ambos beneficiarão. Por outro lado, alude ao facto de Portugal permanecer arreigado à imagem dum Brasil «quinhentista»30. Neste âmbito podemos ainda questionar-nos: até que ponto esta imagem original e «subversiva» (no sentido de utópica) do Brasil poderá desenhar-se como um mito pessoal do autor? Esta será uma questão a desenvolver no capítulo consagrado à análise da representação deste país. Finalmente, é colocada a possibilidade de uma quarta atitude, denominada cosmopolita ou internacionalista. Aparentemente, ela não coloca a questão de um juízo positivo ou negativo, uma vez que as relações entre as culturas se convertem tendencialmente num processo de unificação cultural. Esta análise, devido precisamente à mencionada ausência de juízos, é susceptível de conduzir a situações extremas, por vezes, de fobia ou de mania. Por outras palavras, pode residir numa generalização da reciprocidade, ou pelo contrário na sua inteira anulação. Por isso, como refere Pageaux: Dans le cas du cosmopolitisme, attitude qu’on pourrait louer comme ouverte et généreuse, on sera attentif à l’histoire: le cosmopolitisme des Lumières suppose une «philie» entre élites et un centre positif: Paris [...] . Quant au reste, elle sombre [...] dans les ténèbres du fanatisme.[...] On se méfiera donc de ses échanges présentés souvent dans leurs manifestations partielles mais aussi partiales.31 Esta ideia de unificação, embora não transpareça, à partida, dos registos do Diário, leva-nos a reflectir acerca da célebre frase proferida pelo autor e registada na obra Traço 30 Cf. Miguel Torga, Traço de União, 2ª ed. revista ,Coimbra, Ed. do Autor, 1969, p. 9 31 Daniel-Henri Pageaux, la littérature générale et comparée, ed. cit. p. 72. IV. A representação simbólica do Outro 87 de União, em que afirma que «o universal é o local sem paredes.»32. Todavia, não consideramos que esta frase aponte para uma atitude de cosmopolitismo evidenciada por Torga, visto que da imagem que nos transmite do «outro» acaba sempre por emergir um juízo de valor. No contexto em que é feita, a afirmação mencionada destina-se precisamente a revelar a projecção de Trás-os-Montes como exemplo de uma realidade autêntica, verdadeira. Por outras palavras, este «aforismo» afirma a «escrita» e «transcrição» de um espaço primordial, inaugural, entendido como expressão do universal e concebido como «axis mundi» para Torga. Por maior que seja a abertura ao «outro», as fronteiras do «eu torguiano» encontram-se sempre delimitadas e enraizadas numa pátria, numa cultura. Como sabemos, delimitar a especificidade do outro significa tecer comparações com o «eu» e consequentemente, singularizá-lo. Daí toda a razão da frase: «Diz-me como vês o Outro, dir-te-ei quem tu és»33. A identidade do «eu» (que pode ser também ser extensiva ao país de origem) é, portanto, fundamentada e delineada através do estatuto e da representação do «outro». Em síntese, as quatro atitudes configuradoras da representação simbólica do «outro» assumem-se como evidentes manifestações duma leitura e interpretação do «estrangeiro». Constituem, por isso, atitudes susceptíveis de clarificar no seio de um determinado texto, as escolhas, as rejeições que presidem a estas representações, desenhadas a partir da tensão entre os dois pólos: a utopia e a ideologia. Para uma mais aprofundada reflexão acerca dos mecanismos que as condicionaram, teremos obrigatoriamente de conhecer a geração literária a que Torga pertenceu, assim 32 Traço de União, ed. cit., p. 69. 33 Daniel-Henri Pageaux, Imagens de Portugal na cultura francesa, ed. cit., p. 14. I. A geração da «Presença»: recepção e divulgação de modelos literários estrangeiros 94 Por isso, a Presença foi considerada por alguns críticos como retrógrada relativamente à geração anterior. Coloca-se, pois, a questão da divulgação em Portugal nos anos 20-30 de obras pertencentes à tradição do romantismo do século XIX, numa atitude de recusa da ruptura total vanguardista de Orpheu. Aliás, a designação de «segundo modernismo» aplicada à Geração da Presença é polémica. Eduardo Lourenço, por exemplo, considerou que este grupo não representou nenhum avanço relativamente ao primeiro Modernismo, mas antes um retrocesso, expondo a sua opinião no artigo intitulado «Presença ou a contra-revolução do modernismo português?»TPF 9 FPT, onde preconiza que ao ser atribuída a designação de «segundo modernismo» se privilegiou o factor cronológico, em detrimento da natureza cultural. Casais Monteiro contesta esta ideia, salientando o facto de a Presença surgir como «um ponto de convergência de todas as tendências modernistas»TPF 10 FPT, fazendo com que o tal aparente «passo atrás» seja um passo em frente, devido à reintegração de valores que haviam permanecido até então ocultos. Constata-se, relativamente à Presença, uma defesa da originalidade individual, íntima do autor, em detrimento da originalidade excêntrica e colectiva. Assim como preconiza Eduardo Lourenço: A “Presença” nasce programática e poética ao mesmo tempo. A sua primeira página é um artigo de crítica. O “Orpheu” nasce poesia. A geração da “Presença” criou e conservou o sangue frio diante da criação, fez poemas e reflectiu sobre eles, fez literatura e tomou dela uma contínua consciência, defendendo-a como literatura.TPF 11 FPT TP 9 PT Este artigo foi publicado no jornal O Comércio do Porto (Suplemento «Cultura e Arte», 14.6.1960, com supressões impostas pela Censura e posteriormente (numa versão supostamente definitiva) na obra Tempo e Poesia, Lisboa, Ed. Gradiva, 2003, pp. 131-154. TP 10 PT Adolfo Casais Monteiro, A poesia da Presença, Lisboa, Moraes Editores, 1972, p. 14. TP 11 PT Eduardo Lourenço, «O desespero humanista de Miguel Torga e o das novas gerações», in Tempo e Poesia, ed. cit., p. 75. I. A geração da «Presença»: recepção e divulgação de modelos literários estrangeiros 95 Por outras palavras, o Orpheu tornava a vida literatura, tentando vivenciar as experiências da imaginação, visto que escrever assemelhava-se para ele a respirar, sendo quase um acto involuntário, afastado da reflexão acerca dos mecanismos que o desencadeavam. Por isso, ao contrário dos presencistas, os primeiros modernistas nasceram «fora da História da Literatura», tendo surgido como um «acto de subversão», sem qualquer intenção conscientemente doutrinária. Assim, em traços gerais, a doutrina estética da Presença desenvolve-se até meados de 1930 através de um constante «diálogo» entre Régio e Gaspar Simões. A partir daí, conta também com o contributo de Casais Monteiro e de José Marinho. Nos primeiros três números, Régio principia a teorização do «Modernismo ou Literatura viva», afirmando: «Em Arte é vivo tudo o que é original. É original tudo o que provém da parte mais virgem, mais verdadeira e mais íntima de uma personalidade artística.»TPF 12 FPT. Defende uma literatura viva, humanizante, personalista, marcada pelo individualismo, como aliás se reflecte, inclusivamente, no nome «Presença» - significa a presença pessoal do poeta perante as suas próprias ideias, enfatizando o personalismo como atitude estética. Nesta sequência, tal como refere Régio: «Eis como tudo se reduz a pouco: Literatura viva é aquela em que o artista insuflou a sua própria vida e que por isso mesmo passa a viver de vida própria»TPF 13 FPT. Deste modo, à procura da autenticidade pessoal e ao individualismo, aliam-se os outros princípios norteadores da estética presencista: o triunfo do psicologismo sobre o TP 12 PT Apud Eugénio Lisboa, O segundo modernismo em Portugal, 2ª ed. Lisboa, ICLP, «Biblioteca Breve»,1984, pp. 78-82. TP 13 PT Idem, p. 81. I. A geração da «Presença»: recepção e divulgação de modelos literários estrangeiros 96 social, o privilégio da intuição em detrimento da razão, a independência de pensamento relativamente aos poderes e a primazia da liberdade de criação. No entanto, não podemos esquecer que uma geração nunca surge isolada, mas sempre entrelaçada com outras e num determinado contexto histórico e sócio-cultural. Neste caso, para além da influência de Orpheu, também foi notório o contributo da Nouvelle Revue Française e de autores estrangeiros que os presencistas se preocuparam em divulgar, tal como diversas literaturas pouco conhecidas na altura, como foi o caso das literaturas brasileira, italiana e russa. Nesta altura, impunha-se no horizonte literário europeu, oriunda de uma França ainda dilacerada por uma guerra e na eminência de um novo conflito bélico, a Nouvelle Revue Française, iniciada quinze anos antes da Presença. Neste contexto, Jorge de Sena frisa a influência literária da França ao sintetizar a história desta revista do seguinte modo: A Presença, portanto, nasce, logo após o 28 de Maio, condicionada pela atmosfera de censura que dominará o país por décadas; vai esmorecer no fim dos anos 30, quando os seus directores se dividem [...] e morre, com não menos carácter simbólico, em 1940, no ano em que a derrota da França não significa tanto a vitória nazi que afinal não houve, mas de algum modo um fim de época [...] Mesmo a Revolução Russa de 1917 chegava a Portugal e a outros países traduzida em francês.[...] Mas desejo acentuar que mesmo a divulgação de outras culturas, feita nesse período, em grande parte dependeu da difusão que grandes críticos da França lhes haviam dado ou estavam dando.TPF 14 FPT Constatamos, assim, que os autores russos, cuja importância focaremos ao longo deste capítulo, foram lidos pelos presencistas traduzidos em francês, o que ilustra, à partida, a importância da mediação cultural francesa. TP 14 PT Jorge de Sena, Régio, Casais, a «presença» e outros afins, Porto, Brasília Editora, 1977, pp. 28-29. I. A geração da «Presença»: recepção e divulgação de modelos literários estrangeiros 97 Surgiu o primeiro número da Nouvelle Revue Française a 15 de Novembro de 1908, sob a direcção de André Gide, embora só se tenha afirmado no panorama literário francês no ano seguinte. Constituída por um grupo criador de um novo conceito estético e uma nova sensibilidade literária, marcada pela ausência de fronteiras, integravam-na escritores como Jacques Rivière, Paul Valéry, Jean Cocteau, Marcel Proust, Paul Claudel, Jules Supervielle, entre outros. Os princípios essenciais que a nortearam e que foram definidos no primeiro número da nova série da revista (datado de 1909) por Schlumberger, baseiam-se na defesa do trabalho poético em detrimento do improviso, na procura dum estilo, na ânsia de independência do espírito, aliados à tentativa de encontrar a verdade e a sinceridade da arte, na harmonia entre a tradição e a inovação. Assim, a Nouvelle Revue Française assumia uma atitude cosmopolita, empenhando-se, segundo Clara Rocha: [...] na defesa de uma arte individualista, autónoma relativamente ao social, e particularmente interessada na pesquisa da complexidade psicológica do homem (em parte, devido à influência do intuicionismo de Bergson e das teorias freudianas), ser dividido entre impulsos superiores e inferiores e que deve ser analisado sem preconceitos morais.TPF 15 FPT O seu objectivo era sobretudo questionar e não encontrar as respostas. Uma vez que, como afirma André Gide: «há duas espécies de artistas: uns trazem respostas, os outros fazem perguntas [...] porque aquele que pergunta, não é nunca aquele que responde.»TPF 16 FPT Estes autores integravam-se precisamente no segundo grupo. TP 15 PT Clara Rocha, Revistas Literárias do séc. XX em Portugal, Lisboa, Imprensa Nacional -Casa da Moeda, 1985, p. 389. TP 16 PT Apud Auguste Anglès, André Gide et le Premier Groupe de «La Nouvelle Revue Française», Paris, Editions Gallimard, 1978, p. 205. I. A geração da «Presença»: recepção e divulgação de modelos literários estrangeiros 98 Nesta medida, elaborou a Nouvelle Revue um conjunto de propostas consideradas exemplares: «[...] defesa da originalidade e do génio interior do artista, com o corolário da preservação da sua liberdade interior, sinceridade [...], tónica nos valores específicos da arte (em arte as soluções visadas são soluções estéticas e não outras).»TPF 17 FPT No fundo, são evidentes as afinidades entre a Nouvelle Revue e a Presença, quer relativamente aos conceitos de arte e de artista, quer entre os princípios basilares: o amoralismo, o individualismo e a originalidade. O empenhamento dos presencistas relativamente à mencionada revista francesa era de tal modo notório que, como refere Maria Isabel Vaz, diversos artigos nela publicados, um mês depois surgiam traduzidos na PresençaTPF 18 FPT. Por isso, a influência deste órgão era reconhecida pelos presencistas, que não receavam as influências, uma vez que uma personalidade forte nunca seria influenciada, mas antes despertada. Aliás, Régio rejeita o conceito de «influência», admitindo antes «afinidades». Na verdade, foi a Nouvelle Revue que divulgou os autores russos, considerados pelos presencistas como verdadeiros «faróis», como é o caso de Tolstoi e, sobretudo, Dostoievski. Neste caso, é pertinente a referência de Torga ainda relativamente ao ambiente vivido inicialmente, de onde transparece a importância da recepção de alguns autores estrangeiros: À porfia, cada qual ia descobrindo o seu autor. Joyce, Chestov, Bergson, Fernão Mendes Pinto, Dostoievsky passaram a conviver connosco à mesa do café. Era um arco- -íris humano que abarcava o mundo. Fiéis à grandeza do passado, esforçávamo-nos por TP 17 PT Eugénio Lisboa, O segundo modernismo em Portugal, ed. cit., p. 41. TP 18 PT Cf. Maria Isabel do Amaral Antunes Vaz, Imagens da vida (Presença: Poesia e Artes Plásticas), Porto, Ed. Universidade Fernando Pessoa, 1996, p. 63. I. A geração da «Presença»: recepção e divulgação de modelos literários estrangeiros 99 dar-lhe continuidade e renovo. [...] Queríamos ser a autenticidade dum Portugal local, que desejávamos tornar universal.TPF 19 FPT Manifesta-se, deste modo, o objectivo de renovar e de assegurar a grandiosidade dos autores do passado mais recente ou recuado, pois como afirma Daniel-Henri Pageaux: «L’art poétique de Presença [...] s’écrit à partir de «consécrations», de célébrations. Le temps et les espaces poétiques sont ritualisés par les critiques-poètes qui vont vers les Anciens, les étrangers ou les contemporains [...]»TPF 20 FPT. Paralelamente, é notória a preocupação de permanecer fiel às raízes, a uma autenticidade possibilitadora da projecção universal de Portugal. Assim, segundo Álvaro Manuel Machado, tal como a Nouvelle Revue Française, a Presença afasta a literatura da contingência política e social, em benefício da imaginação psicológica, inserindo-se precisamente neste contexto a influência de Dostoievski, considerado um modelo na época, conhecido pela nova geração modernista através dos franceses (Gide fez uma leitura profunda e subtil deste autor)TPF 21 FPT. A importância e admiração pelo escritor russo reflecte-se nas palavras de Gaspar Simões escritas no nº6 da revista Presença: «Em Dostoievski tudo é vivo. A contribuição mais extraordinária com que o escritor russo acorreu à salvação da novela ocidental, foi precisamente uma contribuição vital, biológica.»TPF 22 FPT Nesta sequência, como refere Álvaro Manuel Machado, a recepção do modelo dostoievskiano permitirá também a Régio, atraído pela temática metafísica, levar a um TP 19 PT A Criação do Mundo – O Terceiro Dia, ed. cit., p. 196. TP 20 PT Daniel-Henri Pageaux, Le bûcher d’Hercule, ed. cit., 515. TP 21 PT Cf . Álvaro Manuel Machado, Les Romantismes au Portugal, ed. cit., p. 597. TP 22 PT João Gaspar Simões, «Depois de Dostoievski», in Presença, nº6, 18 de Julho de 1927, p. 1. I. A geração da «Presença»: recepção e divulgação de modelos literários estrangeiros 100 ponto extremo a expressão de uma estética romântica, da qual Camilo foi um modelo e que Raul Brandão herdariaTPF 23 FPT. Além disso, com o objectivo de mostrar que o interesse primordial da arte reside na exploração do fundo psicológico e humano, escreve Gaspar Simões ainda sobre a obra do escritor russo supramencionado: Ora é a este procedimento originalíssimo que nós chamaremos a revelação dinâmica do mecanismo psicológico: transposição efectiva do interno drama das consciências para o externo conflito dos seres, conversão dum obscuro drama espiritual num não menos obscuro conflito físico.TPF 24 FPT Neste caso, é igualmente pertinente citar Raul Brandão, que tendo como modelo principal e decisivo Dostoievski, se assumiu para a Presença como «modelo dum Modernismo mais autêntico, mais vital»TPF 25 FPT. Sobre Brandão, escreveu Régio, após ter elogiado as suas obras de ficção, que «é um visionário do grotesco, possui um modo próprio de exprimir e sentir, é um psicólogo fragmentário mas audaz e lúcido»TPF 26 FPT. De novo, são, pois, o «psicologismo» e a originalidade as características brandonianas que impressionam Régio. Mas a Raul Brandão regressaremos mais adiante, para dar conta da sua importância na obra de Torga. É, então, nítida a adesão de Régio aos princípios de Bergson, criador e apologista do intuicionismo, presente na definição do modernismo português visto como «uma arte toda intuitiva, directa ou indirectamente filiável em Bergson [...]»TPF 27 FPT. Este individualismo TP 23 PT Cf. Álvaro Manuel Machado, Les Romantismes au Portugal, ed. cit., p. 604. TP 24 PT João Gaspar Simões, «Depois de Dostoievski», in Presença, nº 6, ed. cit., p. 2. TP 25 PT Álvaro Manuel Machado, Raul Brandão entre o Romantismo e o Modernismo, 2ª ed. revista e aumentada, Lisboa, Ed. Presença, 1999, p. 87. TP 26 PT José Régio, «Literatura livresca e literatura viva», in Presença, nº9, 9 de Fevereiro de 1928, p. 3. TP 27 PT José Régio, Pequena História da Moderna Poesia Portuguesa, Lisboa, Edit. Inquérito, S/d, p. 89. I. A geração da «Presença»: recepção e divulgação de modelos literários estrangeiros 101 intuicionista assume-se como a face mais nítida da teorização presencista, embora os teorizadores lhe sintam, por vezes, as antinomias. Deste pensador, são citadas por Gaspar Simões principalmente duas obras: Le rire, Matière et mémoire e Essai sur les données immédiates de la conscience. A fusão entre o racional e o irracional serviu o psicologismo evidenciado pela Presença. Por seu turno, evidenciam-se ecos das teorias freudianas em João Gaspar Simões, que, no artigo «Individualismo e Universalismo», refere: «A descoberta do inconsciente e a sua elaboração nas mais rudimentares manifestações psíquicas [...] colaboram, decisivamente, nessa feição individualista que a literatura tão maravilhosamente ostenta.»TPF 28 FPT. Nesta linha, é seguida a teoria de Gide, segundo a qual «quanto mais individual, mais universal». Freud influencia ainda Régio, ao explorar o inconsciente através da poesia, esforçando-se por atingir o seu «mundo profundo». Com efeito, como já constatámos, a posição dos críticos presencistas assenta, essencialmente, na doutrina filosófica do intuicionismo bergsoniano. Preconiza esta teoria que dificilmente seria possível proceder à interpretação da experiência estética, dada a sua natureza incomunicável. Por isso, apenas a aplicação da doutrina psicanalítica freudiana às artes poderia garantir o desvendar da manifestação artística. Por conseguinte, verifica-se uma aliança entre o bergsonismo e o quase racionalismo de Freud. Devido a tal facto, na crítica presencista a vertente sensível alia-se à intelectual. Neste contexto, a arte corresponde a uma revelação da verdade, o que remete, segundo Pageaux para a teoria da obra de Arte de Heiddeger, que seria aquela onde uma verdade essencial (aletheia) se revelaTP F 29 FPT. Então, uma vez que a obra de arte justifica o criador, encontramos em Régio TP 28 PTJoão Gaspar Simões, «Individualismo e Universalismo» in Presença, nº4, 8 de Maio de 1927, p. 1. TP 29 PT Cf. Daniel-Henri Pageaux, Trente essais de littérature générale et comparée, ed. cit., p. 107. I. A geração da «Presença»: recepção e divulgação de modelos literários estrangeiros 102 uma concepção ontológica do acto criador. Tal concepção será, como veremos, partilhada por Torga, para quem «escrever é um acto ontológico»TPF 30 FPT. Por seu turno, Chestov é divulgado por José Marinho, que critica a sua visão negativa da vida, manifestando incapacidade quer de a superar, quer de a aprofundarTPF 31 FPT. Por outro lado, o pensamento deste filósofo influenciou particularmente Gaspar Simões. Pois, como refere Óscar Lopes, «todo o pensamento chestoviano se reduziria a uma simples insistência em tudo o que na vida humana há de negativo, a fim de coonestar o salto místico ao seio de Deus, ou de um Anjo da Morte, transcendente a todas as razões, verificações e valores humanos.»TPF 32 FPT. Além disso, segundo Álvaro Manuel Machado, os textos de Gaspar Simões reflectem ainda a influência de autores franceses do século XIX: Sainte Beuve, Taine, Brunetière, aliada à de Freud e de BergsonTPF 33 FPT. Além da inspiração nietzschianaTPF 34 FPT, recebida através dos escritores russos (nomeadamente de Dostoievski), dois filósofos foram ainda abordados pela Presença através da pena de Jaime Santos: Hegel e CroceTPF 35 FPT. É pertinente aflorar alguns pontos de divergência nas teorias destes dois filósofos. Neste sentido, segundo Hegel, a realidade é o absoluto presente numa evolução dialéctica de teor lógico, racional. Por conseguinte, todo o real é racional e todo o racional é real. Concebe a tríade da afirmação, da negação e da síntese das duas em verdade. Em contrapartida, Croce opõe-se à aplicação deste ritmo ternário ao conhecimento humano, garantindo que apenas a síntese é verdadeira. Estabelece a divisão binária do universo em teoria (arte e filosofia) e prática (economia e TP 30 PT Diário XII, ed. cit., p. 1319. TP 31 PT Cf. José Marinho, «O equívoco Chestoviano», in Presença, nº 29, Novembro-Dezembro, 1930, pp. 5,6,7 e 15. TP 32 PT Óscar Lopes, Entre Fialho e Nemésio II, Lisboa, 1987, Ed. Imprensa Nacional-Casa da Moeda, pp. 650651. TP 33 PT Cf. Álvaro Manuel Machado, Les Romantismes au Portugal, ed. cit., p. 598. TP 34 PT O pensamento de Nietzsche centra-se no homem, na sua história e ética, negando a metafísica, a fé em Deus e a imortalidade da alma. Por conseguinte, negando Deus, nega todos os padrões e referências morais. TP 35 PT Cf. Jaime Santos, «Sobre Hegel e Croce», in Presença, nº 18, Janeiro de 1929, p. 3. I. A geração da «Presença»: recepção e divulgação de modelos literários estrangeiros 103 moral). Partindo destes pressupostos, podemos referir que o ideal para os presencistas (sobretudo para Régio) seria atingir uma síntese entre a crítica e a criação, visto que esta síntese possibilitaria uma afirmação simultânea da individualidade e da universalidade. Por seu turno, Ortega y Gasset com as teorias da realidade radical e da razão radical - presentes na obra La Deshumanización del Arte - não suscitou a adesão dos presencistas, embora tivesse sido por eles lido. Isto porque, sendo fortemente individualistas, não aceitam a concepção da arte como técnica pura. Apesar disso, reconhece Gaspar Simões que: Gasset é profundo, mas persegue sobretudo, as ideias em si, afastando-se de mais da realidade humana.[...] Mas o seu defeito, afinal é o de todos os filósofos quando se aproximam de uma questão que escapa aos atributos das suas inteligências. Porque efectivamente a arte não é a técnica pura que supõe o autor de El tema de nuestro tiempo.TPF 36 FPT Esta recepção da obra do filósofo madrileno é, segundo Jesús Herrero, o mais evidente indício do «anti-modernismo» presencista, pois se fossem verdadeiros modernistas teriam recebido de bom grado as características apontadas por Gasset para o modernismoTPF 37 FPT. Deste modo, os presencistas preferiam a tese do ensaísta francês Julien Benda que contrariava a de Gasset, preconizando a «humanidade» da arte moderna. Da literatura francesa, brilham sobretudo André Gide e Marcel Proust, embora seja este último o preferido e mais elogiado, considerado por Régio como superior a Gide, por TP 36 PT João Gaspar Simões, «Realidade e Humanidade na Artea propósito de La Deshumanización del Arte de Ortega Y Gasset», in Presença, nº 16, Novembro 1928, p. 4. TP 37 PT Cf. Jesús Herrero, Miguel Torga, poeta ibérico, ed. cit., pp. 43-44. I. A geração da «Presença»: recepção e divulgação de modelos literários estrangeiros 110 contacto com a terra, [...] em que a sensualidade se entrelaça aos jogos duma imaginação que descobre significações e rostos novos às coisas [...]»TPF 61 FPT. Finalmente, outro autor espanhol muito apreciado é Pio Baroja, que João Gaspar Simões considera ter tido a coragem de quebrar as tradições e de lutar contra o tédio da arte e da literatura demasiado sábia, contra a falsidade e a esterilidade. Por isso, a sinceridade e independência deste autor deveriam constituir um exemplo na literatura portuguesa. A defesa da liberdade de criação é evidente nas seguintes palavras: «[...] el auctor tomará la palabra quando le parezca, oportuna y inoportunamente; [...] faremos todas las extravagancias y nos permitiremos todas las liberdades»TPF 62 FPT. Por seu turno, Torga parece considerar Baroja «ultrapassado» por Gide e Proust ao mencionar: «Agarrado às novelas carlistas de Pio Baroja, o Alvarenga não podia compreender o novo tempo romanesco de Proust e de Gide, e menos ainda a sensualidade ambígua que documentavam em cada página.»TPF 63 FPT. No entanto, como não é de estranhar num órgão incentivador da liberdade de expressão e da polémica, a Presença sofreu cisões internas. Neste contexto, foi efémera a colaboração de Miguel Torga, iniciada, como já referimos, no número 19 (FevereiroMarço de 1929). Seguidamente, na edição de Setembro-Novembro publica os poemas «Baloiço» e «Inércia» e no seguinte, datado de Dezembro do mesmo ano, «Remendo». Ainda no número de Janeiro de 1930 surgem os últimos poemas publicados: «Balada da Morgue» e «Compenetração». No entanto, a sua colaboração será encerrada com um texto em prosa intitulado «O caminho do meio», publicado no nº26 (Abril-Maio do mesmo ano). TP 61 PT Idem, ibidem. TP 62 PT Apud João Gaspar Simões, «Contemporaneos Espanhois (continuação)», in Presença, nº 2, 28 de Março de 1927, p. 4. TP 63 PT A Criação do Mundo - O Terceiro Dia, ed. cit., p. 191. I. A geração da «Presença»: recepção e divulgação de modelos literários estrangeiros 111 A ruptura não é individual, acompanham-no Branquinho da Fonseca e Edmundo Bettencourt. Escrevem uma carta conjunta, na qual acusam a revista de cair no arcaísmo estático das escolas, de ser excessivamente doutrinária e de falta de liberdade. Contudo, em A Criação do Mundo, o autor explicará melhor os motivos da ruptura: Bons camaradas quase todos, tinham, contudo, os defeitos das próprias virtudes. Intelectualizados da cabeça aos pés, mal tocavam a realidade. Eram platónicos no amor, teóricos no desporto, metafísicos no convívio. A consciência de serem únicos distanciava- -os do vulgo, tornando-os incapazes dum contacto permanente com as forças rasteiras da natureza.TPF 64 FPT Essencialmente, evidencia-se a acusação de a Presença se encontrar encerrada no seu subjectivismo e alheada das transformações da sociedade. Esse excesso de introspecção é, pois, responsável pela ausência de renovação, por uma deficiente interacção com o mundo que circunda a «torre de marfim» onde se enclausuram os presencistas, não se coadunando com a ânsia e inquietude humanista de Torga, que refere ainda: «Depois de algum tempo de entusiasmo, saíra da Vanguarda, onde a minha inquietação não cabia [...]»TPF 65 FPT. Mais adiante, declara também a sua crença na solidão do artista, face ao absoluto: «Passada a euforia colectiva do tempo da Vanguarda, o sentimento íntimo, que sempre tivera, e que motivou em parte a cisão, de que o artista era um penitente solitário a enfrentar o absoluto, recrudesceu.»TPF 66 FPT. Em suma, Torga rebelou-se contra a defesa intransigente dos puros valores estéticos, a independência (e, de certo modo, indiferença) relativamente aos valores políticos e morais, conducentes a uma literatura estéril e hermética. Pelo contrário, ele TP 64 PT Idem, p. 197. TP 65 PT Idem, p. 205. TP 66 PT Idem, p. 207. I. A geração da «Presença»: recepção e divulgação de modelos literários estrangeiros 112 preconizava uma literatura interessada, envolvida na vivência humana real e não o mero polemismo abstracizante e desumanizado. Por isso, como refere Maria Isabel Vaz, «da sua passagem pela Presença deixou Adolfo Rocha a convicção da sua profunda humanidade – duma luta sem tréguas de igual para igual, logo conflituosa»TPF 67 FPT. Uma expressão dessa ideia de conflito é transmitida por Torga mais adiante, na obra supramencionada, deixando transparecer alguma mágoa pela incompreensão de que é vítima, devido ao facto de ter optado por seguir o seu caminho solitário, resumindo mais uma vez as causas que o impeliram ao afastamento: [...] atacado de todas as maneiras pelos antigos companheiros da Vanguarda, que cada vez me perdoavam menos a cisão do grupo, de que eu fora o principal responsável. Cristalizados na sua verdade, não podiam compreender que é próprio da natureza humana a aventura, embora às vezes à custa da destruição. Razões de discordância estética e razões de liberdade humana tinham-me obrigado a abandoná-los e a tomar outro rumo.TPF 68 FPT Não obstante, antes de Torga iniciar o seu caminho solitário, imediatamente após a cisão com a Presença, dirigiu ainda o único número da revista Sinal (em Julho de 1930), com a colaboração de Branquinho da Fonseca, que assinava com o pseudónimo «António Madeira» e posteriormente a Manifesto (da qual saíram cinco números, entre Janeiro de 1936 e Julho de 1938). À primeira revista se refere Torga, atribuindo-lhe o nome de Facho da seguinte maneira: «Mal abandonara a Vanguarda, fundara uma revista independente, Facho, que morreu ao nascer. As boas intenções de fazer dela um farol de nova luz, não TP 67 PT Maria Isabel Vaz, «De peremptório a hesitante: Adolfo Rocha na Presença», in Aqui, Neste Lugar e Nesta Hora, ed. cit., p. 484. TP 68 PT A Criação do Mundo – O Terceiro Dia, ed. cit., p. 232. I. A geração da «Presença»: recepção e divulgação de modelos literários estrangeiros 113 bastaram.»TPF 69 FPT. Seguidamente, Torga menciona alguns dos objectivos e dos sonhos perseguidos através da revista Manifesto (a que chama Trajecto): Por isso, procurávamos um caminho de liberdade assumida, onde nem o homem fosse traído, nem o artista negado. [...] Embora individualistas, não concebíamos uma sociedade de solidões. Sonhávamos o mundo unificado num esforço mútuo de colaboração, cada qual na sua intimidade inviolável.TPF 70 FPT Embora no Diário não encontremos referências específicas a esta revista, encontramos, na passagem datada de 20 de Janeiro de 1949, uma reflexão particularmente interessante acerca do conceito de «geração» e uma crítica algo acutilante aos homens da geração de Torga. Principia o autor por referir que considera «traiçoeira» a palavra «geração» e que entende como pertencentes à sua geração aqueles com quem partilha, além do «parentesco de idade, afinidades de espírito»TPF 71 FPT. Nesta passagem, o autor não hesita em reconhecer o fracasso dos homens da sua época, ao afirmar: «[...] será com um sentimento de falência que os homens da minha geração hão-de acabar os dias.»TPF 72 FPT. Este insucesso é atribuído ao contexto histórico, mas também à falta de convicção para empreender uma luta até ao final, à «falência social» e falta de confiança. Por seu turno, o poema que inicia o Diário, intitulado «santo e senha», é de extrema importância, fornecendo-nos uma espécie de «chave» para a compreensão da obra torguiana e da sua concepção da escrita como um acto ontológico. Revela-nos a individualidade do poeta como ser solitário e livre de trilhar o seu próprio caminho, liberto de «peias», ou teorias estéticas. Do mesmo modo, emerge a imagem do poeta-profeta TP 69 PT Idem, p. 243. TP 70 PT Idem, pp. 244-245. TP 71 PT Diário IV, ed. cit., p. 447. TP 72 PT Idem, ibidem. I. A geração da «Presença»: recepção e divulgação de modelos literários estrangeiros 114 (proveniente da herança de Victor Hugo), o tema da predestinação poética, que concebe o artista como um ser verdadeiramente excepcional, ideia que se encontra também presente em Régio, sendo um dos pontos da doutrina presencista: Deixem passar quem vai na sua estrada. Deixem passar Quem vai cheio de noite e de luar. Deixem passar e não lhe digam nada. [...] Que vai cheio de noite e solidão. Que vai ser Uma estrela no chão.TPF 73 FPT Emerge, deste modo, o apelo do «eu» a que o deixem seguir o seu caminho, pois ele vai, simultaneamente, cheio de noite, luar e solidão, para ser «uma estrela no chão», ou seja, para iluminar todos os outros, para exercer uma função de «demiurgo», visto que tal como surge noutro poema, o poeta «é um Deus que passeia o seu caminho/ A beber a amargura de quem chora»TPF 74 FPT. Transparece a ideia de que o acto poético é um exercício de tal modo sublime, autêntico, que só pode ser empreendido com pureza, fidelidade pessoal e, simultaneamente, distanciamento. Nesta linha, encontramos em Torga outros aspectos comuns aos presencistas, como é o caso dos motivos do húmus, do lodo como substancialização da miséria humana e do constante diálogo com Deus (ambos presentes também, por exemplo, na poesia de TP 73 PT Diário I, ed. cit., p. 31. TP 74 PT Diário II, ed. cit., p. 219. I. A geração da «Presença»: recepção e divulgação de modelos literários estrangeiros 115 Régio)TPF 75 FPT. No entanto, em Torga este diálogo assume-se como um desafio lançado em nome da condição humana. Estes elementos surgem no poema «Prece», publicado no Diário: Senhor, deito-me na cama Coberto de sofrimento; E a todo o comprimento Sou sete palmos de lama: Sete palmos de excremento Da terra-mãe que me chama. Senhor, ergo-me do fim Desta minha condição: Onde era sim, digo não, Onde era não, digo sim; Mas não calo a voz do chão Que grita dentro de mim. Senhor, acaba comigo Antes do dia marcado; Um golpe bem acertado, O tiro dum inimigo... Qualquer pretexto tirado Dos sarcasmos que te digo.TPF 76 FPT Este confronto entre o Criador e a criatura encontra-se intimamente relacionado com a problemática existencial da liberdade. Constata-se uma oscilação do poeta entre o TP 75 PT Cf. Clara Rocha, Revistas literárias do séc. XX em Portugal, ed. cit., p. 415. TP 76 PT Diário I, ed. cit., p. 35. I. A geração da «Presença»: recepção e divulgação de modelos literários estrangeiros 116 homem e Deus, ou, se atendermos a uma certa influência nietzschiana muito em voga na época, entre o homem e o super-homemTPF 77 FPT. Outra tendência literária, cujas raízes mergulham no Romantismo, passando por Baudelaire e pela geração de Orpheu, para perpassar pelas páginas da Presença, é o «satanismo», patente no poema «Balada da Morgue» de Torga, do qual é pertinente apresentar o seguinte excerto: Olho este corpo morto aqui deitado E sinto impulsos de beijá-lo e ter Toda a força de beijá-lo Com sugestões de prazer... [...] Ai! Dos corpos metidos em sarcófagos!... Ai! De quem morre vestido!... Nesta luxúria da Morgue Há todo o satanismo Que nos foi prometido No Final...TPF 78 FPT Neste caso, o satanismo, aliado à morte, surge como refúgio de uma revolta, devido à incapacidade de qualquer vitória perante a eternidade. No entanto, a revolta permanece, não encontra solução, assumindo-se o poema como uma denúncia da sua própria incompreensão. Em A Criação do Mundo – O Terceiro Dia, o narrador fornece-nos uma explicação pertinente no que concerne a este texto. Revela o facto de a palavra «morte» ter adquirido para ele uma maior densidade após a experiência de dissecação do primeiro cadáver. Terá sido após essa vivência que escreveu o poema supracitado, acerca do qual TP 77 PT Cf. Clara Rocha, Revistas literárias do séc. XX em Portugal, ed. cit., p. 417. TP 78 PT Presença, nº 24,Janeiro de 1930, p. 6. I. A geração da «Presença»: recepção e divulgação de modelos literários estrangeiros 117 afirma: «Na Balada da Morgue que então escrevi é que assinei verdadeiramente o meu pacto com Orfeu. Toda a miséria humana e toda a angústia da vida no paroxismo dum grito.»TPF 79 FPT. Deste modo, este é considerado o primeiro poema autêntico e digno desse nome. O interesse presencista pelo satanismo (que também transparece em José Régio), manifesta-se igualmente através da tradução por Luiz Cardim de a «Alocução de Satã ao Sol», que integra o Livro IV do Paraíso Perdido de MiltonTPF 80 FPT. Evidencia-se igualmente a busca de um humanismo enraizado na essência do eu, que procura no seu âmago a sinceridade – é, pois, o psicologismo presencista que se revela no já nomeado poema «Baloiço» (ainda assinado por Adolfo Rocha): Subo e desço. Entouteço... Um repelão de falido. Regateio; pago o preço E sigo desiludido... [...] Lá, muito alto, no alto Olhei a curva da volta E de medo entonteci... Eu tinha a minha mão dada com Deus Mas, sem força, despreguei-me Da mão de Deus e caí [...] Agora este orgulho álerta: Hei-de subir mas de cor; Que eu deixei a porta aberta Noutra passagem maior...TP F 81 FPT TP 79 PT A Criação do Mundo – O Terceiro Dia, ed. cit., p. 190. TP 80 PT Cf. Presença nº 41-42, Maio de 1934, p. 4. TP 81 PT Presença, nº 16,Novembro de 1928, p. 6. I. A geração da «Presença»: recepção e divulgação de modelos literários estrangeiros 118 Neste poema transparece a dicotomia ascese/ queda. A última poderá coincidir com uma consciencialização do mundo real e, logo, com a desilusão. O confessionalismo e o individualismo constatam-se imediatamente através da utilização insistente do pronome pessoal «eu». Além disso, é revelado o conflito homem/Deus, visto que, devido ao entontecimento das alturas, o sujeito poético cai «sem força da mão de Deus». Todavia, o «orgulho» marca presença e é aberta a perspectiva de «uma passagem maior», transcendente, libertadora, provavelmente, do circuito fechado, repetitivo, entontecedor do «baloiço», através da qual seja possível, pela procura de si mesmo, chegar mais além. Outro motivo frequente, quer em Torga, quer noutros poetas da Presença, como por exemplo em Alberto de Serpa, é a noiteTPF 82 FPT. Em Torga ela é, geralmente, o tempo propício ao isolamento, o cenário dos conflitos interiores, mas também de um encontro consigo mesmo, estando, por isso, ligada ao acto gerador da Poesia. É o que constatamos, por exemplo, no poema intitulado «Noite»: «Noite, manto do nada/ Onde se acolhe tudo,/ [...] Pecado sem perdão./ Aceno sem ternura;/ Noite, o meu coração/ Anda à tua procura»TPF 83 FPT. Assim, tal como refere Clara Rocha, sendo um motivo frequente na obra presencista, a noite pode surgir: «associada quer a uma “viagem à roda do quarto” plena de inquietação e poesia, quer a uma narcísica descida ao fundo do poço, quer a uma «descensio ad Inferos» cheia de conhecimento.»TPF 84 FPT. Isto porque, nesta literatura, o acesso ao conhecimento tanto surge como uma «subida aos Céus» como transparece numa «descida aos Infernos». Aliada à ideia, já anteriormente referida, do Artista como um ser excepcional, surge a questão da inspiração, pois tanto Torga como os presencistas acreditam que o poeta é TP 82 PT Cf. o poema intitulado «Poesia» (publicado em A Poesia de Alberto de Serpa, p. 34), onde a noite corresponde também ao tempo da poesia. TP 83 PT Diário III, ed. cit., p. 269. TP 84 PT Clara Rocha, Revistas Literárias do séc. XX em Portugal, ed. cit., p. 422. I. A geração da «Presença»: recepção e divulgação de modelos literários estrangeiros 119 tocado pela graça, pela visita das MusasTPF 85 FPT, visto que «irreal e conforme,/ O poema virá no seu momento».TPF 86 FPT No entanto, embora nos tenhamos restringido até ao momento aos aspectos de teor literário da Presença, é de toda a pertinência focar sumariamente o seu carácter pluridisciplinar. Aliás, José Régio e António Navarro nos nºs 26 e 27 da revista, estabelecem um paralelismo em relação às dificuldades sentidas pelos artistas das diversas áreas, quer em termos de criação, quer de divulgação da arte. Além disso, no âmbito das artes plásticas, foram publicadas reproduções de desenhos de Almada Negreiros, Sarah Afonso, Mário Eloy, Júlio, Dórdio Gomes, entre outros. Do mesmo modo, foi conferido particular destaque ao «primeiro salão dos independentes»TPF 87 FPT. Nesta sequência, a abertura ao estrangeiro também foi feita através da divulgação de grandes nomes da pintura (Picasso, Cézanne, Vlaminck) e do cinema (Chaplin e Buster Keaton). Neste âmbito, importa referir que também Torga testemunhou a sua admiração por estas duas grandes figuras do cinema no Diário. Acerca de Buster Keaton, escreve a 2 de Fevereiro de 1966, aquando da morte deste artista: Morreu Buster Keaton. E com a sua morte apagou-se dentro de mim mais uma luz exemplar. O cinema foi o grande educador da minha adolescência. [...] Buster Keaton foi um desses heróis liberais, pungentes e abnegados. Aparecia na tela sério e solene, lutava árdua e desastradamente contra os moinhos do destino, e partia vencido, com o triunfo adiado na fundura dos olhos. Charlot revezava-se com ele nos programas e nas aventuras.TPF 88 FPT TP 85 PT Num poema intitulado «Inutilidade» Alberto de Serpa escreve : «Eu sou aqui um pobre poeta espontâneo e triste/ [...] Deixai-me receber a graça desta poesia inútil». (Presença, nº 49, p. 11). TP 86 PT Diário V, ed. cit., p.566. TP 87 PT Cf. «À roda do 1º salão dos independentes», in Presença, nº 27 Junho/Julho 1930, pp. 4-8. TP 88 PT Diário X, ed. cit., pp. 1077-1078. II. Os modelos literários estrangeiros na obra de Miguel Torga 126 por Portugal e Torga por Espanha, ou seja, enquanto o primeiro é culturalmente lusófilo, o segundo é hispanófilo. Verifica-se em ambos a tentativa de regeneração e de conhecimento da pátria através da descoberta da essência do país vizinho. A ligação de Unamuno a Portugal prende-se à admiração revelada por escritores como Antero de Quental, de quem herda elementos de teor filosófico. Além da influência de Antero, evidencia-se a de Manuel Laranjeira e Teixeira de Pascoais, com quem manteve correspondência. Aliás, a geração de 98 em Espanha, que Unamuno integra, revela grandes afinidades com a geração de 70 portuguesa, visto terem vivenciado contextos sociais e culturais semelhantes. Menciona Torga que Unamuno foi o escritor que deu a conhecer a Ibéria em toda a sua essência à Europa, uma vez que soube «explicar ao mundo a natureza da nossa língua, o caminho da nossa história, a terrosidade do nosso chão, a seriedade da nossa paisagem, a intimidade da nossa literatura, a grandeza dos nossos heróis»11. Neste contexto, encontramos no Diário de Torga evidentes ecos do casticismo unamoniano. Por isso, assume particular relevância a definição unamuniana de «casticismo», derivado de «casta» e casta provém do adjectivo «casto», que significa puro12. Assim, «castiço» será uma raça ou um povo que se mantêm puros, genuínos, sem contaminação de elementos estranhos, tal como um idioma puro será aquele que não foi contaminado por outros idiomas. Nesta sequência, no ensaio En torno al casticismo (1895), Unamuno revela a realidade castelhana através de uma longa descrição da paisagem. Segundo ele, o clima e o meio assumem-se como princípio explicativo do psiquismo individual e colectivo, tanto da história de uma nação como do conteúdo das suas crenças e aspirações. Tal facto remete11 Cf. Idem, p. 186. 12 Cf. Miguel de Unamuno, En torno al casticismo, 11ªed, Madrid, Col. Austral, Espasa Calpe, 1991, p. 35. II. Os modelos literários estrangeiros na obra de Miguel Torga 127 -nos imediatamente para uma passagem do Diário, onde Torga justifica a grandiosidade espanhola pela grandeza geográfica, afirmando: A “hombridad” espanhola é uma sobranceria geográfica. Não há grandeza possível emoldurada num pequeno caixilho territorial. Ninguém peça largueza de espírito, fidalguia de gestos, nobreza de atitudes a um homem que viva a tropeçar nas fronteiras da pátria e a contar os grãos de centeio da courela que amanha.13 Porém, esta ideia inscreve-se mais nitidamente em A Criação do Mundo, num excerto onde se considera que o carácter dos povos é esculpido pelas características geográficas: Sabia já que cada povo possuía o seu estilo de vida próprio, o seu carácter, mais produto do meio do que da raça. A secura e amplidão da meseta ibérica, a amenidade da terra gaulesa e o sol transalpino explicavam mais o castelhano, o francês e o italiano do que o sangue que lhes corria nas veias.14 Deste modo, encontramo-nos perante um determinismo geográfico, enraizado no determinismo «mesológico» de Unamuno, no qual a comunhão com a natureza proporciona ao indivíduo a busca de uma nova definição do seu ser, o renascer das energias, um encontro consigo mesmo e com a sua própria natureza. Por seu turno, é no campo, na natureza e não na cidade que, segundo Unamuno, se enquadra o homem espanhol (e no caso de Torga, o homem português), onde se situa o espaço material e espiritual necessário à renovação das suas energias. Consequentemente, o ser humano deve assumir o seu passado, a sua cultura e permanecer fiel à história. 13 Diário IX, ed. cit., p. 955. 14 A Criação do Mundo - O Quarto Dia, ed. cit., p. 322. II. Os modelos literários estrangeiros na obra de Miguel Torga 128 Além de irmanados pelo mesmo iberismo cultural, é também o desespero humanista que une os dois escritores. Este elemento foi nitidamente herdado de Unamuno, que soube absorver e adaptar à sua realidade concreta, cultural e espacial as ideias filosóficas de Pascal, Leibniz, Kierkegaard e Nietszche, traduzidas num humanismo sem fronteiras. A ideia unamuniana da europeização conta com a aprovação de Torga, que considera ter sido Unamuno quem mais nos aproximou da Europa, tendo entendido o problema na sua profundidade e respeitado as ideias enraizadas na cultura de origem, ao explicar ao mundo a sua história, a língua, a literatura e todos elementos inerentes a uma cultura autêntica, genuína. Isto porque «só depois de bem avaliar as suas características particulares e de as caldear a seguir no grande lume universal, pode um qualquer ser ao mesmo tempo cidadão de Trás-os-Montes e cidadão do mundo. Foi o que Unamuno se esforçou por nos ensinar e ensinar à Europa.»15. Deste modo, através do conceito de «intra- -história»16, conseguiu o escritor de Salamanca que a Europa tivesse consciência da «Ibéria» e vice-versa. O narrador torguiano estende a sua crítica à literatura e aos escritores portugueses que não assumem a nacionalidade, nem a genuinidade. Em contrapartida, tentam imitar os autores europeus, conseguindo assim debilitar ainda mais os seus parcos dons naturais. Segundo ele, também no domínio literário: Tudo está em aprender e seguir a grande lição do velho mocho de Salamanca. Fincar primeiro, amorosa e obstinadamente, os pés na terra esbraseada da Ibéria; e, com ela na sensibilidade e no entendimento, olhar então, num movimento de humana e natural curiosidade, para o que se passa do outro lado do muro.17 15 Diário II, ed. cit., p. 186-187. 16 Este conceito expresso na obra En torno al casticismo enraíza-se na procura da tradição verdadeira, eterna, ou seja, aquela que se encontra subjacente à história (a intra-história). 17 Diário II, ed. cit., p. 187. II. Os modelos literários estrangeiros na obra de Miguel Torga 129 Significativa é a metáfora caracterizadora de Unamuno, designado por «velho mocho». Convém recordarmos que esta ave é conotada com a sabedoria, mas também associada ao retiro solitário e melancólico. Por outro lado, importa frisar o percurso a empreender: só depois de conhecer profundamente o espaço de origem se deve olhar para o exterior, para o estrangeiro, neste caso representado pelo «outro lado do muro». Por outras palavras, só após o conhecimento íntimo da cultura de origem é possível divulgá-la e integrá-la no contexto europeu. Nesta esteira, a «europeização» preconizada por Unamuno ter-se-ia desenvolvido em duas fases18: a primeira, coincidente com a época da publicação da obra En Torno al Casticismo (1895), assentava na assimilação espanhola da cultura europeia de origem; a segunda fase (iniciada em 1906, após a publicação de Don Quijote y Sancho), denominada de «quixotismo quixotesco», defendia uma «espanholização da Europa». Além disso, a contradição permanente entre a razão e a fé é outra característica que aproxima estes dois autores. Assim, é a voz de Unamuno que afirma: [...] mi religión es buscar la verdad en la vida y la vida en la verdad, aun a sabiendas de que no he de encontrarlas mientras viva; mi religión es luchar incesante e incansablemente com el misterio; mi religión es luchar com Dios desde el romper del alba, hasta el caer de la noche como dicen que com Él luchó Jacob.19 É, pois, através da busca incessante da verdade, que Unamuno estabelece uma relação pessoal com Deus, reflectida num confronto aberto. Isto porque, embora continuamente negado, Deus aparece como um privilegiado interlocutor. Esta concepção religiosa aproxima-se significativamente da de Torga. Este, a partir do momento em que 18 Cf.Laín Entralgo, La Generación de Noventa y Ocho, apud Jesús Herrero, Miguel Torga Poeta Ibérico, ed.cit., p. 103. 19 Miguel Unamuno, Mi Religión y otros Ensayos Breves, Madrid, Colección Austral, 1986, p. 10. II. Os modelos literários estrangeiros na obra de Miguel Torga 130 perde a fé da infância, assume-se como um homem em crise, visto não encontrar uma visão filosófica da existência possibilitadora da compreensão da vida através da razão. É, tal como Unamuno, na luta com Deus que Torga revela o seu amor à vida e ao Homem. Por isso, tal como o seu «mestre» não encontra respostas no catolicismo, mas também não consegue cair no completo ateísmo. Como consequência, sente a angústia de não poder contar com o apoio da religião, com a crença na vida eterna, que lhe proporcionaria um sentido à vida: Isto de religião está cada vez pior dentro de mim. Depois de uns arrancos fundos e angustiosos, a coisa foi secando, secando, até chegar a esta mirra mística [...] Mas quanto mais pobre estou desse conteúdo humano, mais cheio me sinto de desespero. [...] Queria era sentir-me ligado a um destino extra-biológico, a uma vida que não acabasse com a última pancada do coração.20 Além disso, Torga evidencia o seu distanciamento dos rituais católicos e dos dogmas ao afirmar a 9 de Agosto de 1944: «Cada vez sei menos de rezas e de santos.[...] O catolicismo, sem o Cristo querer, encheu este mundo de cruzes e de água benta».21 Neste campo, considera Carlos Carranca que, relativamente à religião, Unamuno e Torga são «heréticos», visto professarem uma opinião pessoal, particular, usando livremente a sua opinião, manifestando um sentimento religioso exterior a qualquer confissão22. Estabelecem assim uma relação pessoal com o divino, sem aceitar nenhuma ortodoxia, nem sequer a católica, que seria a única possível. 20 Diário I, ed. cit., p. 42. 21 Diário III, ed. cit., p. 297. 22 Cf. Carlos Carranca, O sentimento religioso em Torga e Unamuno, Lisboa, Ed. Hugin, 2002, p.38. II. Os modelos literários estrangeiros na obra de Miguel Torga 131 Por isso, Torga afirma ser «um ateu a conviver com divindades desde a pia baptismal»23. Isto porque o ateísmo não triunfa completamente devido, em parte, ao peso que a religião assume no meio sócio-cultural onde se encontra inserido. Portanto, Deus é uma presença constante na obra de Torga, revestida de contradições, angústias e ambiguidade, na medida em que «escreve deuses e pensa Deus, que escreve Deus e não sabe ao certo se pensa Nada. Mas esse nada o inquieta como se fosse Deus [...]»24. Apagadas as crenças, instaurada a visão pessimista, a agonia (sempre denotadora de uma luta), o poeta só pode contar consigo próprio. Entrega-se à esperança, convertendo o seu desespero num «desespero humanista», visto que a religiosidade se consubstancializa na ansiedade, angústia e inquietação. Aliás, acerca de Unamuno escreveu Torga: «Místico sem Deus, enraizado numa Espanha que lhe doía, atravessara os anos devorado pela fome de absoluto. E desse absoluto morrera sacramentado»25. Evidente é o paralelismo de sentimentos dos dois escritores, dilacerados pela ânsia de absoluto, de liberdade e de uma verdade que ultrapassa os dogmas e rituais religiosos. Para ambos, o homem deve ser considerado como um fim em si mesmo, visto constituir o imediato fundamento da religiosidade. É o Homem de «carne e osso» («aquele que nasce, cresce e morre – sobretudo o que morre26») e a questão da sua mortalidade que norteia o percurso literário dos dois autores. Por seu turno, o conceito de «intra-história» preconizado por Unamuno é ainda referido no Diário em 1949, relativamente ao homem concreto e responsável pelo cumprimento do seu destino: 23 Diário XI, ed. cit., p. 1226. 24 Eduardo Lourenço, «O Desespero Humanista de Miguel Torga e o das Novas Gerações», in Tempo e Poesia, ed. cit., p. 110. 25 A Criação do Mundo - O Quarto Dia, ed. cit., p. 279. 26 Miguel de Unamuno, O Sentimento Trágico da Vida, Lisboa, Editora Relógio de Água, 1988, p. 7. II. Os modelos literários estrangeiros na obra de Miguel Torga 132 Também eu acredito que a existência precede a essência. Que tudo começa quando o coração pulsa pela primeira vez, e tudo acaba quando ele desiste de lutar. [...] Se ao cabo de quarenta anos de vida cada um de nós olhar para a sua intra-história, que vê ele? Que são os fastos e as misérias da sua actuação pessoal que a memória assinala e retém. [...] A mãe que o pare e o coveiro que o sepulta é que limitam e condicionam a sua empresa.27 Efectivamente, notamos nesta citação alguns laivos de existencialismo28 («a existência precede a essência») e de vitalismo de herança brandoniana, devido ao relevo conferido ao nascimento e à morte – aspecto que mais adiante desenvolveremos. Além disso, tanto em Unamuno como em Torga, é evidente a imperiosa necessidade de lutar contra o tempo, a solidão e a incomunicação, a ânsia de sinceridade, de penetrar a alma humana em toda a sua profundeza, aliada à confissão literária. Afirma Torga: «Não acreditava em Deus, mas acreditava na poesia.»29. Assume-se, então, a poesia como uma religião oposta ao poder totalitário de Deus. Aliás, particularmente relevante neste contexto é o poema intitulado «catequese» presente no último volume do Diário, quando o narrador sente mais nítida a proximidade da morte, que revela um Deus convertido em pura poesia: «Reza comigo, se te queres salvar/ Deus é pura poesia/ E o poema uma humilde petição»30. Na verdade, como constatou José María Moreiro, as semelhanças entre os dois autores são diversas: 27 Diário IV, ed. cit., pp. 460-461. 28 Neste âmbito, é também pertinente referir que Unamuno é considerado por José María Moreiro um préexistencialista: «Unamuno é um dos grandes pensadores “existencialistas” que se adianta à nova filosofia» (José María Moreiro, Eu, Miguel Torga, ed. cit., 99). 29 A Criação do Mundo - O Terceiro Dia, ed. cit., p. 208. 30 Diário XVI, ed. cit., p. 1739. II. Os modelos literários estrangeiros na obra de Miguel Torga 133 [...] a existência como preocupação fulcral, geradora de um profundo sentimento trágico no meio de um mar de dúvidas; o terror da morte inevitável, a obsessão e a ânsia conscientemente impossível da eternização ou, no mínimo de se perenizarem na memória humana [...] 31. Em ambos se evidencia, por conseguinte, a consciência do fim, da morte e da dor. O ser humano que percorre as páginas que geraram, não é uma entidade abstracta, mas sim o Homem autêntico, como matéria viva plena de contradições, imperfeita, que presentifica a humanidade. Apesar do amor ao solo pátrio, constata-se um universalismo de pensamento. Em suma, ambos revelam o orgulho da sua origem, da sua cultura e língua, do telurismo, da história e da humanidade, concebendo a Ibéria como uma «mátria». Por isso, conforme explicita José María Moreiro: O orgulho, a obstinação, o amor comum à Ibéria ligam Unamuno e Torga, dois criadores que enfrentaram o mundo mediato e imediato, a vida e o próprio destino com uma única arma: a confiança em si próprios, na valia das suas obras e no seu julgamento favorável mesmo que tardio.32 Efectivamente, quanto mais pessoal, dramático, agónico e rebelde Torga se revela, mais se aproxima de Unamuno. Do ponto de vista cultural, como já constatámos, enquanto Unamuno se define pela sua «lusofilia», Torga é «hispanófilo». Ambos contribuíram (um em Espanha, outro em Portugal) para aproximar a Península Ibérica da Europa e provavelmente também para tornar um pouco mais ibérica a Europa. Isto porque o 31 José María Moreiro, Eu, Miguel Torga, ed. cit., p. 101. 32 Idem, p. 254. II. Os modelos literários estrangeiros na obra de Miguel Torga 134 verdadeiro casticismo consiste «em projectar-se no mundo, no universal»33. Contudo, enquanto em Unamuno a esperança fundamentou a edificação de uma vida espiritual, em Torga ela adquiriu «uma capacidade de recreação poética que suscita espaços interiores de paz afectiva.»34 Deste modo, os elementos da «herança» unamuniana não se encontram estruturalmente inscritos no Diário, mas antes metamorfoseados pela sensibilidade única e originalidade criadora de Torga. Esta identificação com Unamuno conduz-nos a Cervantes. Convém recordar que este autor comentou a obra de Cervantes através do seu ensaio Vida de Don Quijote y Sancho (1905). Verificamos através da leitura do Diário que Cervantes é um autor admirado e referido (sobretudo entre 1936 e meados de 1960), tal como D. Quixote, o personagem convertido em mito que, sobretudo no século XIX, se assumiu como presença relevante tanto na literatura portuguesa como na europeia.35 Porém, não nos cabe neste momento desenvolver a questão de formação deste mito, mas antes abordar esquematicamente a recepção e presença cervantina na obra de Torga, particularmente no Diário. Neste contexto, é de toda a pertinência a apresentação e análise de um fragmento do Diário datado de 18 de Novembro de 1939, que principia do seguinte modo: «Cervantes. Pego no seu livro e começo: “En un lugar de la Mancha”»36. Seguidamente, o narrador relata-nos o modo como o herói, Dom Quixote, irrompe na obra, dominando o leitor e fazendo esquecer o seu criador. Tal facto só será comparável ao Robinson Crusoé de Daniel Defoe, onde, mais uma vez, a personagem criada suplanta o 33 Jesus Herrero, Miguel Torga, poeta ibérico, ed. cit., p. 108. 34 Idem, p. 126. 35 Sobre a importância e formação do mito quixotesco veja-se: Maria Fernanda de Abreu, Cervantes no Romantismo português, Lisboa, Editorial Estampa, 1994. 36 Diário I, ed. cit., p. 93. II. Os modelos literários estrangeiros na obra de Miguel Torga 135 criador. Especifica este caso recorrendo a dois escritores considerados também geniais, Shakespeare e Dostoievski, mas que não se sacrificaram em detrimento das suas personagens, enquanto que no que toca a Cervantes: «convergiram no livro do grande Espanhol a força da nossa prévia e total aceitação e a do seu génio demiúrgico e generoso»37. Partindo de um confronto entre o criador e a criação literária, entre a literatura e a vida, o narrador compara Cervantes a uma mãe que perde a vida ao dar à luz. Por outras palavras, a realidade espiritual, cultural é metamorfoseada num facto biológico, revelando um mecanismo de procura dos instintos e dos princípios básicos, primitivos e genesíacos. Nesta linha, o universalismo cervantino e do seu herói são elogiados no fragmento datado de 28 de Junho de 1941, onde é colocado em paralelo com Shakespeare, Molière e Goethe e em oposição aos autores portugueses (como Camilo e Gil Vicente), que carecem dessa qualidade38. A mesma ideia é realçada na passagem datada de 11/11/1942, onde se compara este autor a Unamuno39. Além disso, a 6/4/1944, de novo são comparadas as limitações da literatura portuguesa com a grandeza da espanhola, questionando o narrador: «Onde temos nós coisa que se compare a um Dom Quixote, essa gigantesca coluna do génio mais estremado que se viu?»40. Ainda nesta passagem, é referido que até as «piores» páginas do D. Quixote evidenciam um diálogo universal ausente nas obras dos autores portugueses. Nesta sequência, a 10/4/1948 é criticado o facto de o público preferir a leitura de jornais à de Cervantes41. Por seu turno, a oposição entre o espírito e a matéria surge 37 Idem, ibidem. 38 Cf. Idem, p.135. 39 Cf. Diário II, ed. cit., p. 186. 40 Diário III, ed. cit., p. 271. 41 Cf. Diário IV, ed. cit., p. 414. II. Os modelos literários estrangeiros na obra de Miguel Torga 142 Criado literariamente à sombra de Prousts e Joyces, a arte era para mim um descampado lúdico e pessoal de quermesse. Embora todo o meu ser tivesse protestado desde o início contra esta visão, paradisíaca e privativa, da beleza, a verdade é que nunca tive forças para rever inteiramente a minha posição. [...] Todos os Gides me tinham ensinado que os homens se dividiam em artistas e não artistas, e que os dois grupos não se podiam encontrar na vida.68 No que concerne a Proust, a sua admiração é evidente, pois Torga afirma a certa altura: «De Proust para cá, é sempre a perder o pé da terra.[...] Os livros não têm força nem verdade»69. Mais adiante, o diarista escreve que ao explicar a um amigo quem era Proust se sente admirado, por, apesar de não o ler há muito tempo, recordar tão nitidamente a sua obra. Tal facto explica-se porque: «Uma obra genial é assim. A gente muda de rumo, esquece-se da sua significação, tenta negá-la; mas ela continua viva dentro de nós. [...] É qualquer coisa de nós que não envelheceu e que não envelhecerá»70. Neste fragmento, encontramos uma subtil alusão ao afastamento do escritor relativamente ao grupo da Presença e aos seus modelos literários, através da expressão «a gente muda de rumo». Não obstante, o carácter genial e único da obra proustiana parece ter permanecido gravado para o autor, ultrapassando as fronteiras das gerações e das escolas literárias. Porém, no que concerne ao relevo de Proust, notamos uma diferença relativamente aos escritores e teorias presencistas, no seguinte registo datado de 3 de Setembro de 1941, intitulado «Correio»: 68 Diário III, ed. cit., p. 294. 69 Diário V, ed. cit., p. 507. 70 Idem, p. 532. II. Os modelos literários estrangeiros na obra de Miguel Torga 143 Carta de minha Mãe. Quando já nenhum Proust sabe enredos, A sua letra vem A tremer-lhe nos dedos. -«Filho».... E o que a seguir se lê É de uma tal pureza e de um tal brilho, Que até da minha escuridão se vê.71 Assim, neste poema, tal como refere Álvaro Manuel Machado, não se evidencia a preocupação de escrever «à maneira de Proust», nem a retórica do «eu» que em Régio se aproxima do tom oratório de Vieira, surgindo como um elemento limitador72. Pelo contrário, Torga ultrapassa-a, devido «a uma visão cósmica em que a ancestralidade se sobrepõe à personalidade, as origens do homem e a sua luta total no mundo, às origens e à evolução psíquica do indivíduo»73. Ainda neste âmbito, considera Teresa Rita Lopes que Torga se aproxima de Proust, devido à procura de um «eu perdido», à nostalgia de um paraíso perdido e ao facto de ambos se «contarem para se encontrarem». No entanto, uma vez que Torga reduz o homem à «pureza dos seus instintos», a autora afirma que: Torga et Proust peuvent bien représenter les deux pôles opposés: natura-cultura. La nostalgie de Proust le conduit de préférence, vers un intérieur bien calfeutré, plein d’odeurs exquises, de contacts insaisissables, nuancés à l’extrême. [...] Torga, par contre, recherche non seulement le plein air mais, plus encore, l’air de la jungle.74 71 Diário II, ed. cit., p. 147. 72 Cf. Álvaro Manuel Machado, A novelística portuguesa contemporânea, 2ª ed., Lisboa, Ed. ICLP, Biblioteca Breve, 1984, pp. 56-57. 73 Idem, p. 57. 74 Teresa Rita Lopes, «Torga et Proust», in ADAM International Review, nºs 481-486, London, 1987, p. 60. II. Os modelos literários estrangeiros na obra de Miguel Torga 144 De seguida, importa fazer uma breve alusão à referência aos modelos do romance inglês do início do século XX. Tais referências são predominantes no volume I do Diário, proporcionando-nos uma visão de teor sobretudo cultural, que parte frequentemente de uma comparação com a realidade portuguesa. Deste modo, a 12 de Abril de 1939, Torga mostra o seu desagrado perante o intelectualismo de Aldous Huxley75. Posteriormente, lamentando a sua falta de inspiração, o autor refere um romancista inglês que teve recepção relevante na Presença: «De resto, de que vale escrever estas porcarias que eu escrevo, se por vinte escudos, tenho aqui o Charles Morgan à cabeceira?!»76. Nesta sequência, a 6 de Agosto, refere-se mais concretamente à obra deste autor: Sparkenbroke. Nada que se compare com The Fountain; mas ainda assim uma grande coisa.[...] Depois de ler um inglês deste tamanho, é que se vê bem que, quando toca mesmo a quebrados cá na literatura, as autênticas fronteiras dela são os Montes Urais e o Meridiano de Greenwich.77 Por seu turno, a 26 de Agosto de 1939 evoca a leitura de Virgínia Woolf, que compara com Proust, mas a quem não reconhece genialidade nem originalidade: «Todo o dia Virgínia Woolf. Um Proust sem a grandeza do outro.(Chega a fazer impressão a maneira como este Proust influencia a literatura inglesa contemporânea)»78. 75 Cf. «[...] hoje, depois de reler Aldous Huxley, concluí que um dos maiores escritores que tenho lido é... o Júlio Dinis.» (Diário I, ed. cit., p. 82). Além disso, refere a propósito deste autor: «E o Huxley de carne e osso é um membro insigne da sociedade intelectualizada e depravada que descreve.» (Diário IV, ed. cit., p. 449). 76 Diário I, ed. cit., p. 85. 77 Idem, pp. 85-86. 78 Idem, p. 88. II. Os modelos literários estrangeiros na obra de Miguel Torga 145 Seguidamente, a 28 de Junho de 1941, em Coimbra, tece algumas considerações acerca da literatura inglesa num fragmento relativamente longo – depois de ter partido da crítica à falta de universalidade dos autores portugueses (valorizando, no entanto, Eça, relativamente a Camilo) em oposição, por exemplo, ao universalismo de D. Quixote (que já anteriormente focámos). No que concerne à literatura inglesa, o diarista frisa o facto de a poesia, por ser vaga e intraduzível, carecer de um universalismo que se encontra no romance e no teatro, por isso: «Não é em Shelley que a literatura inglesa se fia para atravessar o Canal, mas num Dickens ou num Shaw.»79 Em suma, segundo Torga, à prosa portuguesa falta conteúdo, pois desenvolveu-se ao longo do tempo num formalismo oco. Além disso, este problema não pode ser resolvido com a «importação» de elementos do romance estrangeiro, nomeadamente do inglês, visto que ele emana de uma realidade completamente distinta da portuguesa. Assim, como menciona o autor: «Ora a significação do romance inglês vem-lhe em grande parte do facto de ele reflectir ao mesmo tempo a complexidade e a sedução da vida de uma sociedade diariamente coscuvilhada pela curiosidade dos cinco continentes.»80. Por outras palavras, a grandiosidade deste romance advém, em parte, da projecção e do lugar relevante ocupado por Inglaterra no mundo. Em síntese, embora se tenham constatado afinidades com Unamuno a nível de alguns vectores temáticos e filosóficos, como é o caso da problemática religiosa, do desespero humanista e do casticismo, temos que admitir que esta proximidade não basta para considerarmos o escritor salmantino como «modelo produtor». Por isso, tanto Unamuno, como Cervantes, Proust, ou mesmo Garcia Lorca, Hernández ou António Machado, não ultrapassam o estatuto de «modelos de referência», apesar da importância que lhes 79 Idem, p. 139. 80 Idem, p. 140. II. Os modelos literários estrangeiros na obra de Miguel Torga 146 reconhece Torga. Embora os três primeiros assumam maior relevância do que Hernández, Machado ou Lorca (cuja presença é, a nosso ver, mais apagada no Diário), todos eles são meros «autores adormecidos», cujo rasto detectamos, por vezes, na obra torguiana. Isto porque é sempre a originalidade do autor que prevalece para além de todas as influências. Ainda neste contexto, importa citar uma passagem do Diário, onde é transcrito um diálogo em torno da questão do acto criador relativamente ao seu aspecto individual e colectivo: -Então mas a catedral não é precisamente uma prova irrefutável da arte por equipas? E Shakespeare e Camões e Goethe não se fartaram de construir sobre materiais carreados por outros? - Embora. Entro na Sé Velha ou na Batalha, e digo: Aqui, o génio de tudo isto está na padieira da porta. Quem a arredondou ou ogivou, esse é que tem a glória. Quanto ao Camões e aos outros, por cada cena que já estava imaginada antes deles, menos um valor. E tanto se me dá que me chamem individualista, como não. Enquanto não aparecer uma escola de ginástica que fabrique um Nijinski, em arte sou pelo dom e pela predestinação.81 Evidencia-se, deste modo, a defesa acérrima do teor pessoal, original e individual da arte. Curiosa é a aproximação entre os domínios da arquitectura e da literatura, lembrando a questão da técnica, da utilização de materiais já «carreados» por outros, ou de palavras já ditas por outros. Neste âmbito, o narrador torguiano contrapõe a importância da originalidade, advogando com a ideia do «dom e da predestinação». Segundo ele, se fosse apenas necessário o trabalho, a técnica, então, seria possível o «fabrico», numa escola, de artistas grandiosos como é o caso do grande bailarino e coreógrafo russo, de origem polaca, Nijinski – por outras palavras, só o talento, génio ou predestinação lhe terão possibilitado o sucesso no exercício da sua arte. Ainda nesta linha de pensamento, 81 Diário III, ed. cit., p. 309. II. Os modelos literários estrangeiros na obra de Miguel Torga 147 podemos mencionar a crítica à imitação de modelos e falta de originalidade: «Produções de jovens a repetir Pessoa, Breton, Sartre, etc. Mas é escusado. [...] O fundador da escola esgota logo as virtualidades que ela contém»82. Seguidamente, abordaremos a situação de Torga no contexto da tradição diarística e relativamente a dois autores, considerados também como «modelos» (referidos sobretudo devido aos diários que redigiram): Gide e Amiel. 82 Diário VI, ed. cit., p. 654. III. Influências e originalidade do “Diário” 148 III. Influências e originalidade do Diário Com o intuito de compreendermos a originalidade do Diário de Torga, importa conhecer outras obras anteriores (sobretudo estrangeiras) inscritas no género diarístico, que foram lidas pelo autor e de cuja recepção nos é transmitida uma opinião pessoal, sobretudo nos primeiros volumes da referida obra. Por outro lado, é igualmente pertinente abordar de forma sumária algumas obras que integraram a tradição diarística portuguesa. Tendo surgido como fruto do desenvolvimento da civilização europeia, a escrita diarística desenvolveu-se com o individualismo romântico. Aliás, Béatrice Didier advoga que o diário se formou como género devido à convergência de três factores históricos: o cristianismo, o capitalismo e o individualismo1. Deste modo, segundo Maria da Assunção Monteiro, é a partir do século XVII, em Inglaterra, que o Diário se reveste de interesse literário2. Neste contexto, um dos primeiros diários divulgados é o de Samuel Pepys, editado em 1825, com o título Memoirs of S.P. Retrata a vida londrina entre Janeiro de 1660 e Maio de 1669. A obra supramencionada foi lida por Torga em 1948, depois de já ter iniciado o seu diário. Este autor revela admiração pela sinceridade e desnudamento transmitidos por Pepys, visto a sua obra narrar pormenorizada e espontaneamente os aspectos curiosos da vida pública inglesa e também as vivências pessoais do escritor inglês, sem qualquer tipo de «filtro» ou preocupação de teor estilístico-literário. Nesta medida, refere Torga: 1 Apud Clara Rocha, Máscaras de Narciso. Estudos sobre a literatura autobiográfica em Portugal, Coimbra, Almedina, 1992, p. 16. 2 Cf. Maria da Assunção Monteiro, O conto no Diário de Miguel Torga, 2ª ed., Vila Real, Universidade de Trás-os -Montes e Alto Douro, 2004.113. III. Influências e originalidade do “Diário” 149 Acabei de ler o Diário de Samuel Pepys. Nenhuma literatura, nem nenhuma grandeza construída. Uma vida ao natural, mediana, sincera, lúbrica e mesquinha. Mas que extraordinário livro, afinal![...] Um diário como o de Pepys é uma lição de esperança. Uma espécie de cura psicanalítica.3 Por outro lado, a propósito das limitações das biografias, susceptíveis de não corresponderem inteiramente à verdade, e do contributo dos diários para o conhecimento de certas personalidades relevantes, Torga tece a seguinte consideração: Antes do conhecimento de certos diários íntimos, que retratos amáveis não tínhamos nós de certas personalidades! Suponhamos que não apareciam tais diários. Não era a versão oficial a tomada por verdadeira? E quem nos diz que um Amiel, que um Pepys ou que um Gide disseram tudo? 4 Deste modo, é colocada a questão da autenticidade, da veracidade na escrita diarística e dos seus limites. Por um lado, os diários fornecem uma nova imagem dos seus autores, mas por outro, não há garantia de que esta seja verdadeira e fiel. Neste ponto, será pertinente apresentarmos de forma sintética um conceito de «diário». Recorrendo às palavras de Aguiar e Silva, podemos defini-lo como um «escrito em que o autor regista e analisa, dia a dia e durante uma longa extensão de tempo, ocorrências da sua vida ou acontecimentos de que teve conhecimento, problemas e aspectos da sua intimidade e da sua consciência, reflexões, sonhos, etc.»5 Por seu turno, a referência aos diários de Amiel e Gide assumem particular relevância. Note-se que outros modelos de referência para Torga, como é o caso de 3 Diário IV, ed. cit., p. 432. 4 Diário V, ed. cit., p. 495. 5 Vítor Manuel de Aguiar e Silva, «Diário» in Enciclopédia Verbo Luso-Brasileira de Cultura, vol. 9, Lisboa/S. Paulo, Ed. Século XXI, , 1999, p. 208. III. Influências e originalidade do “Diário” 150 Unamuno e de Dostoievski, também escreveram diários, mas não encontramos alusões a essa escrita intimista no Diário. Deste modo, os Fragments d’un Journal Intime de Henri Frederic Amiel, iniciados em 1847 e escritos durante trinta anos, revelam a sensibilidade de uma alma profundamente romântica, de um «eu» simultaneamente consciente e insatisfeito, aspirando ao infinito e ao impossível. Contém registos quotidianos, reflexões, críticas à realidade circundante e confidências. Como refere Philipe Monnier: «Le journal, c'est aussi la vie quotidienne, le soleil et la pluie, les joies et les pleurs, la grandeur et la misère de l'homme condamné à affronter sa fin. C'est enfin une tranche de l'histoire du monde vue par un témoin singulièrement lucide et visionnaire»6. Este diário substitui, de certo modo, a obra que o autor nunca conseguiu escrever. Nele, Amiel desenvolve os temas do desdobramento, da multiplicação das consciências, o que conduz Fernando PessoaBernardo Soares a identificar-se profundamente com ele. Esta ideia da despersonalização do eu-sofredor aproxima Pessoa e Amiel, distanciando-os de Torga, onde o sentido do «eu» não se perde. Deste modo, essa despersonalização é visível nas seguintes palavras do escritor suíço, datadas de 19 de Abril de 1876: «Le Journal Intime me depersonnalise tellement que je suis pour moi un autre et que j’ai à refaire la connaissance biographique et morale de cet autre»7. Foi, precisamente, desta obra que Torga extraiu a frase utilizada como epígrafe em todos os volumes do Diário: «chaque jour nous laissons une partie de nous-mêmes en chemin». Contudo, é em A Criação do Mundoo Quarto Dia que encontramos referência ao significado deste autor como modelo para Torga. A alusão a Amiel enquadra-se no contexto da viagem à Suíça, mais concretamente no encontro num pequeno hotel de 6 Philippe Monnier, «Amiel en bref» - http://www.amiel.org/atelier/compagnondunevie. htm. 7 Apud Catherine Dumas, «Diário íntimo e ficção», in Colóquio/ Letras nº131, Janeiro-Março, 1994, p. 128. III. Influências e originalidade do “Diário” 151 Martigny, quando o narrador se depara com a empregada que o serviu à mesa (cujo nome é Marguerite) imersa na leitura de uma biografia de Amiel, o que o faz declarar: [...] Amiel era um dos meus homens, secretamente admirado pela minha própria timidez que, apesar de compensada, se doía também nos recessos do meu ser. Reencontrá- -lo na sua terra, naquele dia e nas mãos duma mulher, parecia-me simbólico. Tornava-se- -me transparente o seu drama, todo de gelo circundante, de íntima solidão, e de feminina solicitude.8 Constatamos, assim, que Torga já tinha lido e admirava Amiel, visto referi-lo como «um dos meus homens». Provavelmente, nesta altura já teria também seleccionado para epígrafe a frase anteriormente mencionada. Todavia, neste caso, é relevante, além do contacto literário já anteriormente estabelecido, a experiência vital que consistiu em encontrar o autor na sua terra de origem e além do mais, através «do encontro com uma mulher que, maternal, encarna o próprio «espírito do lugar».9 Neste contexto, ainda no cenário da viagem à Suíça, inscreve-se a referência à estátua de Rousseau, em Genève, na viagem de regresso a Portugal, após uma despedida tão dolorosa para o narrador como para Marguerite, pois confessa que: Sofria como um cão, por ser como era. Que o dissessem as páginas íntimas que escrevia diariamente, mesmo se, no puro plano da sinceridade, muito houvesse a objectar- -lhes, como às do Amiel que me abrira as portas daquela terra, e às dele próprio, Rousseau, que as fechava.10 8 A Criação do Mundo - O Quarto Dia, ed. cit., p. 323. 9 Álvaro Manuel Machado, «Modelos e referências estrangeiras na obra de Miguel Torga», in «Sou um homem de granito», ed. cit., p. 337. 10 A Criação do Mundo - O Quarto Dia, ed. cit., p. 326. IV. África: o exotismo e a diferenciação 254 É, então, a grandeza e o carácter primitivo, selvagem e larvar deste território que surpreende e parece atrair o narrador. Enquanto os discursos anteriores deixaram transparecer uma ideia de desilusão face ao país visitado, neste, parece-nos vislumbrar alguma esperança e um reconhecimento das potencialidades ainda por despertar. O viajante recorre sempre à comparação com a realidade a que pertence, para constatar que entre a cultura africana e a europeia existe uma diferença abismal, delineada pela dicotomia entre o primitivo e o civilizado. Em Moçambique, a realidade observada assemelha-se à já apreendida em Angola. O visitante percebe a resistência do nativo face ao colono, os sintomas segregacionistas traduzidos na hostilidade do «outro» em relação ao «eu» e aos que se integram na sua cultura de origem. Simultaneamente, sente a completa incomunicabilidade face ao estrangeiro (que nenhum gesto ou atitude podem atenuar), enraizada na própria História, nas vivências de todo um passado de opressão e incompreensões: «Entre mim e aqueles irmãos de espécie abria-se um abismo intransponível com quinhentos anos de largura. Desse as voltas que desse, eu era ali um inimigo.»23 Aquando da visita a Cabora Bassa, o narrador critica a construção da barragem que destruirá o passado, a cultura, as memórias. Constata-se o domínio da vertente materialista, económica, face à espiritual, cultural, que é condenada pelo «eu». Nesta anotação, principia por aproximar a realidade estrangeira de outras conhecidas, onde o progresso avassalou as memórias e os costumes comunitários ancestrais e nucleares dos habitantes: «Aqui como em Vilarinho da Furna, como em Assuão, como em toda a parte.[...] Um lago imenso vai deixar sem deuses, sem mortos, sem berço e sem memória milhares de criaturas. [...] Milhões de pulsações cardíacas trocadas por milhões de quilovátios.»24. 23 Idem, p. 1256. 24 Idem, p. 1257. IV. África: o exotismo e a diferenciação 255 Nesta medida, é a desumanização, o desrespeito pela singularidade dos valores ancestrais e primordiais do ser humano que afligem o narrador. Finalmente, a chegada à Ilha de Moçambique recompensa o viajante pelas desilusões, angústias e sensação de terror sentidos ao percorrer o território africano. Esse local ultrapassa as suas melhores expectativas, acendendo-lhe o orgulho de ser português. Através do seu discurso constatamos que nesta ilha reina a fraternidade, a comunhão tão ansiada de raças, culturas e religiões, visto cada um ter dado o melhor de si, ultrapassando os próprios limites. Por isso, foi atingido um reconfortante paradigma de organização social. Neste contexto, o protagonista revela claramente o seu deslumbramento perante a realidade desse local (um autêntico locus amoenus) que parece utópico, assumindo-se, segundo Raul Silva, como a Eurídice (símbolo da pátria) procurada após a descida aos Infernos pelo Orfeu (narrador) 25. Constata-se o reencontro com uma pátria sonhada e procurada. «É o Portugal mítico de Torga reencontrado, é o quinto império sempre imaginado [...] Torga-Orfeu viu a sua esposa Portugal-Eurídice e deslumbrou-se.»26. A comprovar esta dimensão utópica encontrada, afirma o narrador: «Em vez de uma ilha real, com latitude e longitude, tenho a impressão de surpreender um acto de imaginação da pátria.»27. Neste caso, a realidade estrangeira é apreendida de forma bastante positiva, como uma realização superior e aperfeiçoada da cultura de origem. Em contrapartida, as impressões provocadas pela visita, em Lourenço Marques, ao estúdio de um pintor moçambicano (cujo nome não é revelado, mas que sabemos tratar-se de Malangatana) são dominadas pelas sensações de agressividade, raiva, ódio, fruto de memórias enraizadas em aspectos históricos traumatizantes, assumindo-se como presságio 25 Cf. Raul Calane da Silva, «Moçambique na África de Miguel Torga», in Aqui, Neste Lugar e Nesta Hora, ed. cit., p. 472. 26 Idem, pp. 472-473. 27 Diário XII, ed. cit., p. 1258. IV. África: o exotismo e a diferenciação 256 de «um puro massacre tribal entre negros tribais e brancos tribais»28. Evidencia-se, assim, uma interpretação da obra deste pintor à luz do conturbado contexto bélico vivenciado na altura. De regresso a Luanda, o narrador proporciona-nos, novamente, a descrição da visão aérea do território, metaforizado sob a forma de uma «imensa placenta». Esta imagem revela o carácter embrionário deste continente, cujo destino e natureza ainda se encontram indefinidos, por fecundar. A visão geral e privilegiada do espaço, proporcionada pela viagem de avião, permite ao narrador um distanciamento e uma largueza de horizontes, conducentes à elaboração de uma imagem mais geral e, simultaneamente, mais humana dos países visitados. Dos últimos momentos passados em Luanda, é referida a visita às igrejas, cuja beleza evocam um tempo de paz e de fé, que há muito foi sepultado. Além disso, é mencionada a contemplação de um pôr-do-sol «feérico» do alto da fortaleza. Novamente, constatamos que, através do movimento ascensional, o visitante procura uma nova perpectiva da realidade, onde resida uma maior beleza. Por fim, o protagonista revela a inquietude que aquele clima bélico lhe provoca e transcreve o diálogo com um transeunte, no qual o narrador aproveita para censurar a colonização portuguesa em África ao frisar: «Na sua exemplaridade trágica, os massacres foram o sinal eloquente da nossa falência civilizadora.»29 No final, Torga sintetiza a imagem de África no poema intitulado «Breve adeus», onde acentua a sua desmesurada dimensão telúrica («grande e fermente coração de terra»30), acentuando o ambiente de terror e pesadelo que se vive nesse território. Assume28 Idem, p. 1259. 29 Idem., p. 1260. 30 Idem, ibidem. IV. África: o exotismo e a diferenciação 257 -se o poema como um grito de angústia pelo inferno gerado pelo fracasso histórico, onde se espelha uma nítida ideia de perda, presente, inclusive, no título «Breve adeus». Em síntese, a imagem desenhada deste continente através das impressões escritas a partir de Angola e Moçambique é a de um locus horrendus, um local de pesadelo, um reino de sombras, onde se respira um clima bélico hostil, dominado pelo medo, o racismo e a segregação, aliados à desconfiança e a um ódio mútuos. Na verdade, dificilmente se poderia esperar impressões diferentes de países dilacerados pela guerra colonial. A imagem do Portugal mítico desvanece-se completamente perante o caos presenciado, sendo reencontrada apenas na Ilha de Moçambique, um verdadeiro oásis e locus amoenus, um «cosmos», a contrastar com o restante território visitado. O exotismo, a diferenciação (que englobam a paisagem humana e natural), a hostilidade gerada pelo clima bélico e a subversão dos padrões culturais contribuem para uma sensação de completa desintegração e receio revelada pelo narrador, que mostra sentir-se um intruso, um inimigo. Estas sensações e imagens de países dilacerados são delineadas por algumas dicotomias essenciais: primitivo/civilizado, branco/ negro, nativo/colono, atracção/repulsa e opulência/miséria. O discurso do visitante, por seu turno, deixa transparecer uma ideologia e uma posição política marcadas pela defesa de uma descolonização inadiável, visto que só sendo livres, independentes e pacificados, estes países poderão desenvolver-se e realizar-se. Só assim a «imensa placenta» poderá gerar vida. Consequentemente, a atitude de fobia, de repulsa, revelada por vezes, deve-se ao clima bélico instaurado, ao estranhamento relativamente à paisagem e não a uma posição ideológica de racismo ou xenofobia. É sobretudo ao colonizador (por isso, de certo modo, também à considerada «cultura de origem») que é apontada a responsabilidade pela realidade insustentável vivida nesses IV. África: o exotismo e a diferenciação 258 territórios. O colonizador foi incapaz de estabelecer um diálogo com o povo indígena, de conhecer profundamente a sua cultura, os motivos que o levam a agir. Devido a esse total desinteresse foi impossível estabelecer uma comunhão, uma cooperação que conduzisse à construção de uma sociedade equilibrada e harmoniosa. É notório o facto de o narrador, frequentemente, ao criticar o fracasso dos portugueses, utilizar o pronome pessoal «nós», o que implica uma integração do sujeito nos factos comentados e criticados (ex: «É pena. Falhámos por um triz».)31. Deste modo, transparece uma tentativa de fusão com a pátria evocada e, simultaneamente, um modo de atenuar as falhas apontadas, ou, por outras palavras, uma assumpção deste fracasso como fenómeno colectivo, nacional. Com efeito, após a visita registada a Angola e Moçambique, constatamos que África, principalmente as ex-colónias, continuarão a ser objecto de preocupação de Torga, sendo referidas noutras páginas do Diário. Nesta sequência, ainda no Diário XII, no registo de 11 de Julho de 1976, evidencia o seu protesto contra os fuzilamentos em Angola32. Posteriormente, a 22 de Julho de 1986, é ainda mais veemente a sua indignação com os fuzilamentos na Guiné-Bissau33. No mesmo ano, a 20 de Outubro, revela grande consternação pela morte do Presidente de Moçambique, Samora Machel, recordando um encontro com ele, onde se nota a afeição, admiração e empatia sentidas: «Encontrámo-nos [...] e falámos largamente das nossas pátrias. Da dele, que erguia corajosamente dos alicerces, e da minha que histórica e civilizadoramente os havia fundado.»34. Em suma, embora com contornos nitidamente negativos, visto ter sido delineada num clima de guerra, a imagem que o narrador nos fornece de Angola e Moçambique não é 31 Idem, p. 1254. 32 Cf. idem, p. 1319. 33 Cf. Diário XIV, ed. cit., pp. 1561-1562. 34 Idem, p. 1565. IV. África: o exotismo e a diferenciação 259 inteiramente estereotipada. Apesar de todos os elementos negativos decorrentes da situação política, histórica e social vivida na época, Torga, como observador penetrante da inconsciência colonial, revela-nos uma outra vertente destes países, enraizada na sua perspectiva pessoal, de luta pela liberdade como valor primordial: são países dilacerados, escravizados, que necessitam urgentemente de liberdade para se definir, formar, desenvolver e encontrar um caminho. É, essencialmente, o sentimento de desilusão perante as injustiças sociais presentes na África portuguesa, o desprezo pela política do Estado Novo, aliados ao espanto provocado pelo fracasso do colonialismo português nessas paragens e à ideia da necessidade de uma descolonização inadiável, que dominam o espírito do viajante durante esta visita. No entanto, Torga foi mais longe na busca dos vestígios de Portugal no mundo, viajando também até às longínquas terras do Oriente, como veremos em seguida. V. O Oriente: a busca dos vestígios do Império 260 V. O Oriente: a busca dos vestígios do Império Neste capítulo, analisaremos a última grande viagem, realizada por Torga em 1987, e narrada no Diário, cujo destino foi o Oriente, tendo o narrador visitado Macau, Cantão, Hong-Kong, Goa e Bombaim. Ao focarmos o itinerário do viajante, atentaremos, particularmente, nas impressões relativas ao exotismo e à diferenciação, ao estranhamento. Algumas questões nortearão a nossa abordagem: de que modo se integram as novas imagens apreendidas no imaginário cultural do visitante? Que estereótipos transparecem nessas descrições? Que distância existe entre as expectativas do narrador e a realidade com que se defronta? Contudo, antes de acompanharmos e analisarmos o olhar do narrador durante este percurso, é pertinente focar, esquematicamente, a formação e presença do mito do Oriente na literatura portuguesa, de modo a podermos constatar em que medida esse mito terá ou não influenciado a representação elaborada por Torga. Nesta sequência, o Oriente terá sido mitificado devido ao fracasso dos portugueses nessas paragens. Por isso, segundo Álvaro Manuel Machado, o nascimento desse mito advém: [...] da perda da nossa oportunidade histórica de transpor para o Oriente o que do Ocidente renascentista aprenderamos. A perda de uma herança renascentista que a velha civilização ocidental enriqueceria culturalmente, herança que ficou para sempre perdida, acção que ficou para sempre incompleta, perda moral que a perda da independência nacional com a morte de D. Sebastião só veio tragicamente concretizar.1 1 Álvaro Manuel Machado, O mito do Oriente na literatura portuguesa, ed. cit., p. 16. V. O Oriente: a busca dos vestígios do Império 261 Na origem do mito do Oriente encontramos diversos escritores e historiadores, como foi o caso de João de Barros, Diogo do Couto, Fernão Mendes Pinto, Camões, além de outros que o desenvolveram (por exemplo, Bocage, Antero de Quental, Eça de Queirós, Wenceslau de Morais, Camilo Pessanha ou mesmo Fernando Pessoa). Além disso, integrada na mitificação genérica do Oriente, surge particularizada e especificada a Índia, «que parece não se situar em lado nenhum e, por isso mesmo, é ubíqua e sempiterna, ou melhor: toma a forma duma verdadeira utopia.»2 Neste sentido, João de Barros, reconhecido sobretudo pela função de historiador, revela fascínio pelo desconhecido distante, longínquo, materializado através de descrições detalhadas das terras descobertas, num discurso eivado de retórica. Isto porque, tendo apenas realizado breves viagens pela Índia e pela Guiné, é em Lisboa e não in loco que elabora a sua obra intitulada Décadas. Consciente da ineficácia da administração portuguesa no Oriente, descreve a Índia como um local povoado de ocultos perigos. Apresenta, por conseguinte, uma visão mítica generalizante, onde cristaliza os portugueses num passado histórico mitificado. Por seu turno, Diogo do Couto, que viveu parte da sua vida na Índia e lá faleceu, desenvolveu o mito a partir da sua experiência individual e histórica. Aborda, numa primeira fase, a Índia do passado, dos conquistadores indiferentes à riqueza, como seria o caso de Afonso de Albuquerque e, posteriormente, a do seu presente (ou seja dos finais do século XVI e início do século XVII), marcada pelo mercantilismo, decadência e corrupção, que se manifesta sobretudo na obra O Soldado Prático. Desenha-se, assim, o mito da Índia como um paraíso perdido, cuja pureza contrasta, precisamente, com a impureza e ganância dos colonizadores. 2 Álvaro Manuel Machado, Do Ocidente ao Oriente. Mitos, Imagens, Modelos, ed. cit., p. 31. V. O Oriente: a busca dos vestígios do Império 262 Outro autor relevante é, como se sabe, Fernão Mendes Pinto com Peregrinação, cujo narrador, que embarca em 1537 para o Oriente, é o anti-herói picaresco, vagabundo, mostrando em certos momentos mais medo do que coragem, um pouco à semelhança do «Ventura» torguiano, como observa Pierre Brunel3. Aliás, na obra O Senhor Ventura de Torga, o protagonista é um homem simples, que deixa o seu Alentejo natal e chega a Lisboa, à caserna. Seguidamente, devido a distúrbios que conduziram à morte de um indivíduo, o protagonista junta-se ao contingente militar que parte para Macau. O mesmo modelo surge na Peregrinação de Fernão Mendes Pinto, onde o herói, devido a um acontecimento ocorrido em Lisboa, se refugia em Setúbal, sendo, em seguida, forçado a partir. Do mesmo modo, à semelhança do narrador de Mendes Pinto, que encontra um fiel companheiro de viagem, chamado António de Faria, também Ventura encontrará o compatriota e depois amigo, Pereira. No entanto, esta amizade termina na Peregrinação com a separação e na obra de Torga com a morte de Pereira, sendo a partir daí o protagonista acompanhado apenas pela lembrança e «sombra» do amigo. Neste contexto, Brunel sugere um papel de «mediação» exercida pela Peregrinação na obra de Torga, ao afirmar: «Comme Socrate, Mendes Pinto peut faire figure de «médiateur». Et il l’est d’autant plus qu’en tant qu’ écrivain il invite Torga à surmonter son impuissance créatrice momentanée et à vivre l’ aventure de l’ écriture.»4 Deste modo, na obra de Mendes Pinto o narrador autodiegético narra as suas viagens, descrevendo os costumes e as civilizações orientais, os templos, os cultos, as superstições, a fauna e a flora exótica, os naufrágios e as lutas. Dos factos narrados deriva uma visão do Oriente mais genérica e menos mítica, onde se coloca em causa o mérito da expansão da Civilização Ocidental. Numa atitude de «filia», a Civilização Chinesa é considerada 3 Cf . Pierre Brunel, «Le voyageur et son ombre», in Transparences du roman, Paris, Ed. José Corti, p. 273. 4 Idem, p. 275. V. O Oriente: a busca dos vestígios do Império 263 superior à de origem e, inclusive, à ocidental, não só pelas riquezas naturais, mas sobretudo pela arte de bem governar. Apesar de não abandonar «a raiz mítica nacionalista» comum também a João de Barros e Diogo de Couto, Mendes Pinto critica e satiriza, de forma alegórica, a acção dos portugueses e dos ocidentais em geral. Não obstante, segundo Álvaro Manuel Machado, terá sido, posteriormente, Camões o responsável pela repercussão duma mitologia da Índia na literatura portuguesa que, mais tarde, foi recriada por Fernando Pessoa5. Assim, enquanto Diogo do Couto concebe a Índia como um local paradisíaco, contrastante com a impureza dos colonizadores portugueses, na lírica camoniana deparamo-nos com imagens tornadas arquetípicas, que, embora desencadeadas pela realidade, «correspondem antes a uma transfiguração simbólica que mitifica esses lugares, conferindo-lhes interioridade, tornando-os “cosa mentale”»6. Por seu turno, Camões na «Elegia I – o poeta Simónides falando», aborda a partida para Goa em 1553, concebendo a Índia como um local mítico, impregnado de um fascínio maldito, indefinido, quase infernal. Esta ideia reflecte-se, igualmente, por exemplo, no soneto «Cá nesta Babilónia donde mana», onde Goa é metaforizada na cidade bíblica da Babilónia, conotada com o exílio: «Cá nesta Babilónia, donde mana / matéria a quanto mal o mundo cria;/ cá onde o puro Amor não tem valia [...]»7. É, pois, tecida uma severa apreciação da política governativa no Oriente. Posteriormente, é Bocage quem retoma este mito, partindo de Camões e conferindo- -lhe a ideia de decadência do Império português na Ásia. Tal facto reflecte-se, por exemplo, no soneto XXIII: «Por terra jaz o empório do Oriente/ Que do rígido Afonso, o 5 Álvaro Manuel Machado, Do Oriente ao Ocidente. Mitos, Imagens, Modelos, ed. cit. , p. 32 6 Idem, p. 34. 7 A lírica de Luís de Camões. Apresentação, crítica, selec. de Maria Vitalina Leal de Matos, 3ª ed., Lisboa, Ed. Comunicação, 1988, p. 110 V. O Oriente: a busca dos vestígios do Império 270 Albuquerque ou Veloso, por exemplo), modelados psicologicamente, responsáveis pelas acções que realizam. Segundo Torga, esta obra, dotada de uma inovadora modernidade, assume-se como uma transfiguração do concreto, representando personagens verdadeiras, narrando eventos ocorridos num passado próximo. Seguidamente, o visitante realça a redução da pátria à sua pequenez: «A pátria que temos hoje não é a mesma de então. Geograficamente, não passa de uma nesga de terra debruada de mar [...]»28. Porém, o narrador reconhece o direito dos povos colonizados à sua independência, que constitui o «rosto colectivo da liberdade», do mesmo modo que o reconheceu durante a visita a Angola e Moçambique, já anteriormente abordada. Posteriormente, o visitante alude à eminente perda de Macau. Afirma a sua lusitanidade, salientando o facto de a sua aldeia natal, S. Martinho de Anta, se assumir como o seu «axis mundi», espaço primordial de nascimento: «[...] sempre vi Portugal e a civilização ocidental começar ali.»29. Reflectindo a propósito da identidade e ancestralidade do homem português, Torga salienta a importância da sua presença por todo o mundo, visto ter «pegadas indeléveis por todos os continentes, que neles foi imprimindo, através dos tempos, nas várias modalidades da sua acção.»30. Além disso, salienta que estas marcas não se desvanecerão através da perda da soberania, pois ficaram enraizadas na cultura dos povos colonizados. Assim, o carácter aventureiro, mas conciliador, dos portugueses espelha-se na facilidade de integração dos emigrantes: «E aonde chegue um emigrante lusíada, chega uma criatura convivente, prestante, diligente e influente, que concilia, congrega, desbrava, cria riqueza, funda instituições benemerentes, semeia humanidade.»31. Essa figura do português «completo», pioneiro e visionário é representado por Camões, que representa o «génio da pátria», com 28 Idem, p. 1582. 29 Idem, ibidem. 30 Idem, p. 1583. 31 Idem, p. 1584. V. O Oriente: a busca dos vestígios do Império 271 todos os seus defeitos e virtudes, assumindo-se igualmente como um guia. Aliás, esta ideia é também preconizada por Eduardo Lourenço quando refere que: «À imagem ideal e “imortal” da pátria portuguesa, Camões estará para sempre, o sempre da nossa perenidade histórica e linguística, ligado.»32 Além disso, Torga afirma o vitalismo dos portugueses, que, ao contrário do que se poderá pensar, não são um povo esgotado, nem estagnado, possuindo uma valiosa cultura e uma afectividade que são necessárias ao resto do mundo. Todavia, um dos defeitos do povo português, na opinião deste viajante, é a falta de frieza e de lucidez para se compreenderem a si próprios. Ainda nesta linha de pensamento, também Eduardo Lourenço frisou como traço genérico do comportamento português «o de viver mais a sua existência do que compreendê-la»33. Por isso, impulsionados pela paixão, os portugueses actuam ao longo da História com uma «obscura inocência». Revelam, por seu turno, complexos de inferioridade, na medida em que minimizam sempre as suas qualidades, hipertrofiando as dos outros. Do ponto de vista do narrador, o valor de um indivíduo advém da sua inquietude e, nesse contexto, o povo português é «inquietação encarnada», que possibilitou a transposição dos limites espaciais e a descoberta das diversas «longitudes humanas». Por conseguinte, verificamos que este discurso deixa transparecer a emoção do poeta, enraizada na grandeza espiritual de uma pátria que se projectou no mundo, redimensionandoo. O dia 10 de Junho é assinalado com um poema intitulado «Na gruta de Camões», no qual Torga apelida esse poeta de ter sido o «primeiro Encoberto da nação» e «o poeta 32 Eduardo Lourenço, O labirinto da saudade: Psicanálise Mítica do Destino Português, 5ª ed., Lisboa, Publicações Dom Quixote, 1992, p. 121. 33 Idem, p. 65. V. O Oriente: a busca dos vestígios do Império 272 universal de Portugal»34. Por outro lado, é elogiado um jantar tipicamente chinês, que constitui para o viajante uma agradável surpresa. No registo datado do dia seguinte (o último passado em Macau), o narrador confessa a sua incapacidade para entender aquela terra: É tudo tão enigmático, tão movediço, tão ambíguo, tão labiríntico, que o tino perde- -se a cada passo. Procura-se Portugal angustiadamente e não se encontra, apesar de as ruas terem nomes de figuras nacionais e de a estátua de Vasco da Gama se erguer a dois passos do hotel. [...] Os exóticos, no meio da uniformidade amarela, somo nós.35 Constatamos, então, que o «eu» não se consegue distanciar dos seus pontos de referência, procurando naquele território estrangeiro a projecção da pátria. Porém, é incapaz de a encontrar, pois depara-se com uma sociedade onde a maioria das marcas coloniais se desvaneceram, não se fala português e a religião dominante é a budista, visto a população ser maioritariamente chinesa. Por isso, neste cenário exótico, o visitante sente-se excluído, diferente. O exotismo que o rodeia encontra-se de tal modo generalizado que é ele próprio, como português, que se considera desintegrado, «exótico». Desiludido, o visitante verifica que dos quatrocentos anos de colonização portuguesa restam apenas alguns monumentos, como é o caso do farol de Nossa Senhora da Guia e da fachada da Igreja de S. Paulo. Conclui, relativamente à presença de Portugal no mundo, que: «Corremos o mundo fantasmagoricamente, a deixar nele pegadas sonâmbulas.»36 Apesar do tom de decepção com que abandona Macau, devido à ausência das marcas procuradas da identidade portuguesa, é na China, particularmente em Cantão, que se evidencia o maior choque (embora neste caso, seja positivo) entre o horizonte de 34 Diário XV, ed.cit., p. 1587. 35 Idem, p. 1588. 36 Idem, ibidem. V. O Oriente: a busca dos vestígios do Império 273 expectativa do narrador e a realidade com que se depara. Aquilo que presencia afasta-se completamente da imagem formada daquele país, a partir da literatura, das leituras realizadas. Por isso, exprime admiração e emoção: A lição enrodilhada dos livros, e a eloquência singela dos factos! [...] A China entorpecida e céptica que eu trazia na ideia, e a China desenvolta e confiada com que vim deparar! Uma, intemporal, a sonhar no sono da História; outra, temporal, acordada, de olhos postos na vida.37 Deste modo, a imagem do país estagnado, adormecido no passado, envelhecido, é substituída por uma realidade plena de vitalidade. O responsável por essa metamorfose terá sido o poder da revolução, que transformou as mentalidades, abrindo perspectivas de futuro, transformações sociais cujas consequências e impacto são imprevisíveis, dada a existência de: «Mil milhões de sábios indiferentes, transformados do pé para a mão num frenético e alucinante formigueiro de inquietações.»38. É, pois, a dimensão humana que configura a imagem deste país onde, novamente, a inquietação surge associada à vitalidade, como sinónimo de vida, de mudança. Na passagem por Hong Kong, ocorrida a 13 e 14 de Junho, Torga compara com Macau este território de colonização britânica, que lhe provoca profundo desagrado. Enquanto Hong Kong é «um desaforo capitalista que ofende terra e céu», Macau é um «discreto padrão aventureiro». Assim, ao desregrado e selvagem capitalismo proveniente de Inglaterra, opõe-se a simplicidade, a discrição e o espírito de aventura transmitidos por Portugal. A imagem negativa desta cidade hiperboliza-se através da expressão: «ofende terra e céu». Neste registo o narrador insinua a discordância pela passagem de Macau para 37 Idem, pp. 1588-1589. 38 Idem, p. 1589. V. O Oriente: a busca dos vestígios do Império 274 a soberania chinesa. Posteriormente, o viajante declara ter conseguido distanciar-se da paisagem urbana e comungar com a beleza natural que ainda resta. No entanto, essa paisagem contrasta com a miséria indígena, que leva o narrador a lamentar: «[...] em termos humanos, isto não presta. É uma prefiguração dum mundo sem alma, a zumbir em colmeias de muitos andares. Mas que caleidoscópio geográfico! Que visão acordada do sonhado!»39. Domina, portanto, a desumanização e a despersonalização, uma vez que, para o narrador, esse povo parece ter perdido a alma. Neste âmbito, as suas habitações são representadas através da imagem das «colmeias», remetendo para o anonimato e a azáfama impessoal em que vive essa gente. Neste caso, o falhanço da colonização inglesa parece ter sido total, corrompendo e destituindo de alma e humanidade aquele território. O próximo destino é Goa, onde o viajante continua procurando os vestígios da pátria, como se pretendesse reconstruir a sua identidade a partir das marcas do passado. Porém, a língua e a cultura portuguesa parecem esquecidas: «De Portugal, nestas terras, em termos concretos, só restam igrejas e baluartes.»40. Neste local, os baluartes denotam a necessidade de defesa, de segurança, tal como as igrejas remetem para o refúgio espiritual. Evidencia-se, nesta passagem, o constante duelo entre a Natureza e a História, uma vez que a primeira principiou já a recuperar o que a segunda lhe roubou, degradando as construções humanas, edificadas pelos portugueses, levando Torga a afirmar: «[...] deambulo pelas muralhas da praça, que a salsugem vai roendo do seu vagar.»41. Nesta passagem, até o oceano Índico parece cioso dos seus domínios, outrora conquistados pelos descobridores lusos, parecendo conter «uma raiva antiga». Não obstante, a natureza torna-se confidente do «eu» - marca nitidamente romântica, que remonta também às Cantigas de Amigo da Idade Média, sobretudo às barcarolas ou marinhas, onde o sujeito poético feminino 39 Idem, ibidem. 40 Idem, ibidem. 41 Idem, p. 1590. V. O Oriente: a busca dos vestígios do Império 275 evocava as ondas do mar. Neste caso, também o viajante declara confessar-se às ondas, mas são outros os seus motivos. A desilusão e a ideia de perda, do declínio, são evidentes na frase final: «Sim, sou o descendente infeliz de uma raça heróica e absurda, que senhoreou o mundo, e anda agora por ele a cabo a matar saudades.»42. Ainda neste território, o viajante refugia-se na História, no passado, como elemento estruturador que lhe permite suportar o presente, pois: «Sem a sua lição imperecível, não conseguiria encontrar pé nesta cruciante desolação.»43. Transparece, efectivamente, a oposição entre o apogeu do passado e o declínio do presente. Neste caso, a realidade contradiz o que as crónicas, a literatura e a História afirmam44. De novo, verifica-se a discrepância entre as leituras, o saber adquirido pelo narrador e a realidade depois presenciada. Por conseguinte, as leituras realizadas terão contribuído para a criação de uma expectativa diferente, marcada pelo mito da Índia como um local paradisíaco. Ao contrário do que sucedeu com a China, a «surpresa» é desagradável. O narrador parece rejeitar o cenário que presencia, para se encerrar nos «testemunhos insubornáveis» que «transfiguram magicamente o pouco de agora no muito de antanho.»45. No fundo, perante tal realidade, o que importa é que a História permanecerá escrita, atravessando os séculos, mantendo vivas as glórias do passado. A desilusão sentida perante Goa é ainda reforçada no registo datado de 6 de Outubro de 1987, a propósito de uma reportagem sobre este local, que corrobora a realidade já conhecida pelo poeta, levando-o a reafirmar a sensação de desencanto: «Ainda 42 Idem, p. 1590. 43 Idem, ibidem. 44No que concerne ao conhecimento da Índia adquirido através da leitura, Torga mostra particular interesse pela cultura e literatura deste país, numa reflexão datada de 9 de Agosto de 1941, a propósito da morte de Tagore: «A propósito da morte de Tagore, fui reler coisas da Índia. Daquela Índia maravilhosa, que em mim começa em Fernão Mendes Pinto, passa pelo Buda e acaba no Rudyard Kipling.» (Diário I, ed. cit., p. 142). Por outro lado, o autor revela profunda admiração por Gandhi, mostrando grande indignação aquando do seu assassinato, pois considera-o um «Sócrates da acção», tendo o seu apostolado constituído «a expressão mais alta do que se viu até hoje da intangibilidade humana.» (Diário IV, ed. cit., p. 407). 45 Diário XV, ed. cit., p. 1590. V. O Oriente: a busca dos vestígios do Império 276 hoje me não consolo de ter acordado daquele sonho.»46. Por fim, no dia dezassete de Junho, o último passado em Goa, o narrador faz o balanço concreto dessa visita: «Faço das tripas coração, mas vou desiludido. O passado que ando aqui a evocar não me consola.»47 Em suma, nada corresponde às expectativas alimentadas pelo viajante, que procurava naquela terra a familiaridade, a cultura deixada pela pátria. Com efeito, a estagnação caracteriza aquele espaço e o «eu» revela-se impossibilitado de sentir a sensação de familiaridade, possibilitadora de integração. Perante esse cenário, revela o estranhamento, o sentimento de ser estrangeiro. À luz da sua bagagem cultural aquele é um mundo perdido, onde o rio Mandovi não passa dum «Tejo sem saudades». Captada pelo olhar do viajante desiludido, a imagem que se desenha de Goa é a de um cemitério onde jazem as marcas da pátria, da memória e da História. Por isso, é visível a desilusão e uma certa nostalgia nas últimas frases: «Antes não tivesse vindo! Convencido de que a podia alargar, e o que eu perdi da minha dimensão lusíada nestes três dias!»48. Finalmente, uma reflexão acerca das religiões é suscitada pela passagem por Bombaim. Segundo Torga, ao contrário do cristianismo, que mergulha o homem no medo da morte e do inferno, o budismo transmite tranquilidade, segurança e libertação ao ser humano. Por isso, embora rodeados pela mais profunda degradação e miséria, os habitantes daquela terra mostram dignidade, compostura e serenidade. Em suma, na imagem do Oriente desenhada por Torga ecoam, em certa medida, as concepções do mito da Índia anteriores, aliando a nostalgia pessoana com a ideia de decadência evocada por Bocage. Assim, na nossa opinião, Torga proporciona-nos uma «imagem» e não uma «mitificação» do Oriente, acentuando a nostalgia do fracasso, em 46 Idem, p. 1604. 47 Idem, p. 1590. 48 Idem, p. 1591. V. O Oriente: a busca dos vestígios do Império 277 contraste com o anterior heroísmo de Portugal, do qual, ao contrário do que seria de esperar, não restou praticamente nada. Seguidos, então, os diversos percursos do narrador-viajante, é chegada a altura de analisarmos, no capítulo seguinte, o seu regresso a determinadas cidades valorizadas, «mitificadas». VI. As cidades revisitadas: a sacralização dos espaços 278 VI. As cidades revisitadas: a sacralização dos espaços Diversas são as cidades revisitadas ao longo do tempo. De entre elas, abordaremos mais detalhadamente os regressos àquelas que são investidas de um maior valor literário, histórico e simbólico, como é o caso de Paris, Roma, Veneza, Florença (que, como se sabe constituíram pólos de atracção e de profundo interesse cultural, sobretudo entre os séculos XVI e XIX). Neste âmbito, importa, igualmente, focar os regressos a Bruges, Bruxelas e às duas cidades e vila espanholas visitadas com mais frequência: Madrid, Salamanca e Verin. Isto porque, por vezes, «o espaço estrangeiro é envolvido num processus de mitificação: o espaço, na imagem da cultura, não é contínuo nem homogéneo; um pensamento mítico valoriza certos lugares, isola outros, condena outros ainda»1. É, pois, neste contexto, que se inscrevem todos os elementos proporcionadores da simbolização do espaço, ou como denominou Mircea Eliade, a «sacralização do espaço»,2 configurada, frequentemente, por vários regressos aos mesmos locais. A importância dos regressos é corroborada por uma afirmação do autor: Mais para verificar a minha capacidade de reacção do que comprovar a força impressiva que as anima, gosto de rever certas terras e reler certas obras. Ao mesmo tempo que recapitulo nelas toda uma aprendizagem humilde dos valores, vou avaliando o grau de intensidade emotiva que me resta.3 Assumem-se estas revisitas, a priori, como um modo de conhecimento do «eu», de medir os seus sentimentos, limites e fronteiras. 1 Álvaro Manuel Machado - Daniel-Henri Pageaux, Da Literatura Comparada à Teoria da Literatura, ed. cit., p. 57. 2 Cf. Mircea Eliade, O sagrado e o profano. A essência das religiões, Lisboa, Ed. Livros do Brasil, s/d, p. 35. 3 Miguel Torga, Diário VIII, ed. cit., p. 878. VI. As cidades revisitadas: a sacralização dos espaços 279 Neste sentido, Paris é uma cidade com extensa fortuna literária, considerada «cidadeluz», e que, segundo Marcello Duarte Mathias, condensou a época mais brilhante da sua história a nível artístico, intelectual e literário, na fase do primeiro pós-guerra. Assim, sendo «cidade de vanguarda e lugar de passagem, a Paris desses anos é também à boa maneira europeia continuidade e rememoração.[...] E por isso também, mais do que de passagem era local de peregrinação. Ontem tanto como hoje.»4. Ora, não é esta ideia de Paris como centro cultural do mundo e sonho de todos os estrangeiros que emerge dos registos das visitas de Torga. Aliás, no registo da primeira visita, ocorrida em Janeiro de 1938, o narrador insurge- -se contra a ideia estereotipada de Paris ser considerada a capital do mundo, pois a sua verdadeira capital é S. Martinho de Anta5. O protagonista revela estranhamento e incapacidade de adaptação nesta cidade, conotada com um estilo de vida requintado, luxuoso e fútil, onde se sente incapaz de viver, uma vez que esta realidade é contraposta à da sua terra natal. Define os habitantes que percorrem a cidade como um «formigueiro humano» que lhe desperta repulsa. Evidencia-se, deste modo, a dicotomia de cunho romântico, eu/ outros, sendo o «outro» descrito como um grupo massificado, despersonalizado, o que incentiva o isolamento do «eu». Neste espaço, os edifícios, os monumentos parecem dominar o ser humano, destituído de alma e de humanidade. Por outro lado, a arte deste país também não emociona o protagonista, ao contrário do que sucede com a espanhola, uma vez que até as esculturas do Arco do Triunfo são consideradas demasiado «retóricas». Pertinente é confrontar este registo com o presente em A Criação do Mundo - O Quarto Dia, correspondente à mesma visita. Torga principia, aqui, por contrapor Paris a 4 Marcello Duarte Mathias, «Paris e a geração perdida» in Colóquio/ Letras nº 155/156, Janeiro-Junho, 2000, p. 394. 5 Cf. Diário I, ed. cit., p. 63. VI. As cidades revisitadas: a sacralização dos espaços 286 épocas e facetas da Humanidade: «Era esse o privilégio único da Cidade Eterna: viver-se nela, num só momento, séculos de originalidade e diversidade.»31. Transparece, portanto, a ideia de Roma como pedra angular da fundação da nossa cultura, o locus classicus da civilização ocidental, salientando-se com a denominação «eterna» a ideia da cidade como um contínuo entre o seu passado monumental e o presente, entre a morte e a vida. O regresso à capital italiana ocorre a 13 de Setembro de 1950. Neste caso, o diarista alonga-se nos registos. No primeiro, inicia cada frase com a utilização do infinitivo, através do qual pretende sintetizar os objectivos deste regresso: «Apagar o deslumbramento espantado do primeiro encontro, e admirar calma e demoradamente cada criação, cada solução, cada imponderável toque do pincel ou do escopro. Ver, rever, analisar, assimilar, e regressar mais consciente e mais humilde.»32 Manifesta, assim, a consciencialização do enriquecimento cultural e pessoal proveniente desta revisita, deste reencontro com o estrangeiro. Intitula um poema «Santa Teresa de Bernini»33, que apelida de «Filha da Ibéria, mística doutora». Deste modo, a Ibéria assume-se como o omnipresente ponto de referência. Nesse poema, atribui a Roma os adjectivos «papal» e «redentora», acentuando a vinculação religiosa emanente desta cidade. Do dia 15 de Setembro, redige uma nota em tom reflexivo, suscitada pela visita ao Albergo dell’ Orso onde se hospedaram grandes escritores: Dante, Rabelais, Montaigne e Goethe. Embora fascinado pelo passado e pelo peso da herança cultural, o narrador revela o desejo de quebrar o «íman da tradição», de não se refugiar nesse passado, mas antes estar atento ao presente, identificar-se com ele e preocupar-se com o futuro. Transparece, consequentemente, a sua ânsia de seguir o seu percurso livre e individual, sempre 31 Idem, p. 312. 32 Diário V, ed. cit., p. 543. 33 Idem, p. 544. VI. As cidades revisitadas: a sacralização dos espaços 287 preocupado com o presente que o rodeia e perspectivando o futuro. Em tom de máxima, declara: Por mais pequeno que seja cada criador, terá de amadurecer os seus frutos a céu aberto. Acobardado à sombra de qualquer carvalho gigantesco da floresta, arrisca-se a nem sequer dar conta da tempestade que passa, que lhe poderia pôr à prova a resistência das fibras. Robles dos tais, Dante, Rabelais, Montaigne e Goethe cumpriram em tamanho desmedido a sua missão. Urzes rasteiras, saibamos cumprir a nossa.34. De novo se enfatiza a ideia do poeta como um ser predestinado, encarregue de uma missão particular e individual. Em suma, a revisitação de Roma representa uma apropriação e assimilação dos valores do passado, que inicialmente parece ter «ofuscado» o narrador e que depois se entrecruza com o presente e o futuro, através de uma atitude de maior distanciamento crítico. Veneza é, como se sabe, outra das cidades que alcançou notável fortuna literária, destacando-se, desde a Idade Média, no seio da Europa, pela sua beleza e riqueza, tendo-se convertido num ponto de encontro e ligação entre os vários quadrantes europeus. A primeira visita efectuada por Torga é registada no Diário, com a data de 2 de Janeiro de 1936, resumindo-se a passagem a três linhas, onde revela a expectativa com que aguardava o encontro e também a desilusão: «Ora até que enfim, Veneza! Mas esta velha namorada está gasta. Não há corpo de mulher que resista às noitadas de vinte gerações.»35. A degradação da cidade é personificada e metaforizada através do corpo de uma mulher, como sucederá também com Madrid. Deparamo-nos, assim, com a presença de um «topus» 34 Idem, p. 545. 35 Diário I, ed. cit., p. 59. VI. As cidades revisitadas: a sacralização dos espaços 288 que remonta à Bíblia, onde Jerusalém e a Babilónia surgem metaforizadas como mulheres e ainda, como refere Stephen Reckert, à tradição retórica árabe que descrevia as cidades como donzelas a conquistar36. Ou seja, Torga recria um lugar-comum extremamente antigo, que conheceu na época romântica bastante sucesso, para representar a importância que confere a Veneza e uma certa desilusão quando a conhece in praesentia. Revela-se, por conseguinte, uma descontinuidade entre a cidade empírica e a literária. Em A Criação do Mundo - O Quarto Dia é desenvolvida a imagem desta cidade antevista como um refúgio de artistas. Acentua-se e desenvolve-se a discrepância entre a expectativa formada a partir da literatura e a realidade concreta presenciada: «Por mais que fizesse, não conseguia ajustar a Veneza que trazia no pensamento à Veneza que tinha diante de mim. A outra era muito mais concreta, apesar de apenas lida nos livros ou fantasiada.»37. Assim, a imagem ficcionada torna-se mais real do que a verdadeira, devido ao facto de ser a que integra o imaginário do narrador, a que ele preconcebeu através da cultura adquirida. No entanto, ao visitar as obras de artistas como Canova, Tintoretto, Veronese ou Ticiano, Torga deixa transparecer uma sensação de euforia, considerando aquele espaço como um «oásis do mundo». Posteriormente, nas anotações da visita ocorrida em Setembro de 1950, as impressões já são bastante positivas. Porém, revela que a perfeição da Praça de S. Marcos lhe provoca pouco entusiasmo. Isto porque ao deparar-se com uma obra perfeita, sente que nada pode fazer por ela, visto já se encontrar completa. Consequentemente, essa completude provoca no narrador uma sensação de impotência, como se nada pudesse fazer pela própria vida. A contrariar, assim, a imagem de decadência formada à primeira vista, desta vez, é a ideia de vida que emerge, apagando o impacto da desilusão do primeiro 36Cf. Stephen Reckert, «O Signo da Cidade», in O imaginário da Cidade, Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, Acarte, 1989, p. 16 37 A Criação do Mundo - O Quarto Dia, ed. cit., p. 318. VI. As cidades revisitadas: a sacralização dos espaços 289 encontro: «Que viva me parece Veneza desta vez! Será dela, ou de uma onda de modernidade a varrer neste momento?»38. Por conseguinte, o sentimento que invade o viajante é o de um «optimismo purificador», evidenciando-se uma sensação de renascimento. Uma outra cidade italiana visitada duas vezes é Milão, que surge, à semelhança de Roma, como um espaço profundamente marcado pelo passado, pelas grandes figuras que a percorreram ou habitaram, assumindo-se estes como elementos configuradores da paisagem, que levam o sujeito de enunciação a declarar a intenção de «caminhar como um cão nas pegadas dos grandes homens.»39. O próprio narrador revela a dificuldade de se libertar do peso das figuras do passado: «Eu próprio, hoje, na Ambrosiana, não pude deixar de ter este estremecimento imbecil: neste mesmo lugar esteve Stendhal, esteve Byron....»40. Todavia, esta carga histórica e cultural parece fazer desvanecer a espontaneidade e a pureza, que o faz afirmar: «Já não era eu como por Trás-os Montes a ter a alegria virgem de estar só e puro diante de uma giesta florida.»41. Assim, em confronto com o espaço estrangeiro, do «outro», marcado por uma profunda carga cultural e civilizacional, emerge o espaço de origem, caracterizado pela natureza pura e autêntica. É notória a «contaminação» exercida pelos lugares no narrador, ao referir «Já não era eu». Assistimos, pois, a uma certa «desintegração» da unidade do «eu», consciente da influência exercida sobre ele pelo espaço. Além disso, o narrador também visita mais de uma vez a cidade de Pisa, de cujas impressões sobressai a imagem da torre, entendida como símbolo da Humanidade, na sua melhor expressão42. 38 Diário V, ed. cit., p. 550. 39 Diário I, ed. cit., p. 56 40 Idem, p. 57. 41 Idem, ibidem. 42 Cf. Diário V, p. 541. VI. As cidades revisitadas: a sacralização dos espaços 290 Por seu turno, Florença, cidade cuja importância histórica e cultural, como se sabe, se tornou decisiva sobretudo entre os séculos XIII e XVI, foi visitada três vezes por Torga. Da primeira visita não encontramos nenhuma anotação no Diário. Em A Criação do Mundo, ela é referida a propósito da admiração pela «Pietá» de Miguel Ângelo e para enfatizar ainda mais a grandiosidade de Roma, pois em Florença lia-se «apenas uma página empolgante e gloriosa da história do espírito criador do homem.»43. É no registo da segunda visita que encontramos no Diário alusão à primeira, através da evocação de Mussolini: «Quando aqui vim, há anos, encontrei as paredes cobertas de impropérios e arrogâncias. O Tempo passou, o autor das tolices pôs a Itália a ferro e fogo, e morreu coberto de ignomínia.»44. Porém, desta vez o que mais emociona o narrador, para além da arte de Donatelo, Miguel Ângelo ou Celini, é o local onde foi queimado o pregador Jerónimo Savonarola, cuja memória penetra na alma do protagonista, ao contrário do que sucede com os outros visitantes, que passam indiferentes. Enfatiza-se, novamente, a curiosidade do narrador em desvendar o sentido oculto e o essencial dos espaços visitados, a preocupação com a dimensão humana que passa despercebida. Por outro lado, na terceira visita, efectuada em 1970, Torga constata um ambiente conturbado, uma irrupção da amargura humana do presente na eternidade quase «divina» do passado, por isso, declara: «Desta vez havia gotas de fel humano na ambrósia divina.»45. Com efeito, nesta época a Itália encontrava-se mergulhada num clima dominado pela violência e anarquia. Porém, o protagonista reconhece a legitimidade desta imposição do circunstancial ao perene, das vozes denunciadoras que parecem atenuar o brilho das obras de arte, pois afirma: «Mas acabei por gostar de receber a lição moral na terra onde mais vezes tenho esquecido que a 43 A Criação do MundoO Quarto Dia, ed. cit., p. 312. 44 Diário V, ed. cit., p. 542. 45 Diário XI, ed. cit., p. 1193. VI. As cidades revisitadas: a sacralização dos espaços 291 soberania do perene pode ser em certas horas uma criminosa afronta à legitimidade do circunstancial.»46. De um modo geral, a imagem das cidades italianas visitadas é bastante positiva, sendo-lhe incontestavelmente reconhecida a superioridade cultural: «O mundo que trazia nos sentidos e no entendimento parecia-me bárbaro, ao lado de tanta sensibilidade, de tanta finura, de tanto requinte [...] E um sentimento de inferioridade começou a invadir-me.»47. Assim, para além da grandiosidade dos monumentos e das obras visitadas, acompanha sempre o narrador a memória dos grandes artistas italianos, como é o caso de Dante; Leonardo Da Vinci, Miguel Ângelo, Giotto. Por seu turno, no percurso pela Bélgica são visitadas mais de uma vez as cidades de Bruges e Bruxelas. Relativamente a esta última, encontramos o registo de três visitas, sendo a primeira datada de 15 de Janeiro de 1938. No poema que assinala esse primeiro encontro, o sujeito poético considera-se um «Duque de Alba de agora». Esta identificação com Fernando Alvarez de Toledo, general de Carlos V e de Filipe II, cuja actuação foi enérgica (embora politicamente pouco correcta) é significativa, remetendo-nos para uma identificação com a coragem e valentia desta figura histórica. Numa atitude narcisista, prossegue o viajante, acrescentando: «vim olhar o que sou/como quem se namora.»48. É, sem dúvida, a revelação da procura e do encontro da própria identidade. O registo do dia seguinte transmite-nos a ideia de uma deslocação penosa, da fusão na realidade telúrica: «Mais um rebolão do penhasco que sou, pela Europa acima, sem Polidori nenhum a tomar nota dos meus passos.»49. Neste caso, o sujeito de enunciação demarca-se de Lord Byron, que na sua viagem pela Europa foi acompanhado pelo seu secretário, o médico e escritor 46 Idem, ibidem. 47 A Criação do Mundo – O Quarto Dia, pp. 301-302. 48 Diário I, ed. cit., p. 63. 49 Idem, p. 64. VI. As cidades revisitadas: a sacralização dos espaços 292 John William Polidori. Evidencia-se uma sensação de proximidade com o espaço, visto que considera a cidade «íntima», ao referir que o objectivo dos poetas actuais é procurar «um amigo, um quadro», ou por outras palavras, a beleza, a arte e a fraternidade. Nesta sequência, numa breve passagem pela Antuérpia, Torga insere o poema «Peregrinação», transmitindo-nos as sensações de nostalgia, mas também de sonho, magia e mistério («Vim ver o cais da bruma./ [...] Vim fechar o meu sol nesta tristeza»50). No entanto, no apontamento localizado na Gare du Midi, a 17 de Janeiro, revela desalento, desilusão e tristeza, visto não ter encontrado no espaço estrangeiro o refúgio e o lenitivo que procurava51. Em A Criação do Mundo - O Quarto Dia o protagonista refere a ida a Bruxelas com o intuito de visitar um amigo que exerce a função de Secretário da Embaixada. A apreciação que faz ao regressar a Paris é que, apesar da monotonia da paisagem e dos habitantes, agrada-lhe a «solidez humana», sentindo-se «desconsolado e tonificado ao mesmo tempo. Com a alma triste e o corpo contente.»52. Aquando do regresso a Bruxelas (4 de Junho de 1958), Torga idealiza um viajante imortal que, regressando constantemente aos diversos locais, conseguisse presenciar o nascimento, desenvolvimento e morte dos mesmos, compreendendo-os assim integralmente. Nesta sequência, confronta o Grand Palace que o deslumbrou com o Atomium, causador de repulsa. Lamenta a ausência de uma «capacidade englobadora» que lhe permitisse integrar, objectiva e imparcialmente, os elementos que rejeita, por lhe parecerem insólitos, estranhos. Além disso, a visita à Exposição Universal desilude-o e provoca-lhe frustração, devido à incapacidade de conseguir encontrar nela uma «unidade humana»: «E eu vinha disposto a encontrar tudo, menos uma confraternização universal, 50 Idem, p. 64. 51 Cf. idem, p. 65. 52 A Criação do Mundo - O Quarto Dia, ed. cit., p. 346. VI. As cidades revisitadas: a sacralização dos espaços 293 cultural e técnica, de dentes arreganhados.»53. No meio desta hostilidade que parece opor as diversas nacionalidades, apenas os países pequenos (ex: Áustria, Holanda) parecem dotados de maior humanidade, devido à sua simplicidade, acendendo a esperança, incentivando ao progresso para conquistar o lugar que «nos coube na roleta da vida». Finalmente, a última visita ocorrida a Bruxelas, em 1977, tem como objectivo a recepção do Prémio Internacional de Poesia das Bienais de Knokke-Heist. Ao chegar, Torga compara o desembarque nesta cidade com o do Rio de Janeiro, quando era um jovem emigrante, devido ao facto de ser recebido por uma pessoa desconhecida que ergue um cartão com o seu nome. Tal facto reveste-se para o protagonista de um carácter simbólico, como se nesse momento o poeta fosse recompensado pelo sofrimento anterior, pela vida árdua experimentada no Brasil, uma vez que vai receber «O prémio de ser fiel às origens, e de ter sempre, como os antepassados, mourejado na mesma humildade e tenacidade, de enxada na mão ou de caneta na mão.»54. Observamos, neste caso, a aproximação entre o acto de criação literária e o do cultivo da terra, visto que ambos se revestem da mesma sacralidade. Além disso, no discurso pronunciado na recepção do referido prémio, o autor congratula-se com o facto de, através da sua poesia, a língua e cultura portuguesa ter penetrado num país estrangeiro, onde até então «nenhum Espírito Santo a fizera descer»55. Nesta medida, o que alegra verdadeiramente Torga é a expansão e divulgação da singularidade de Portugal, além-fronteiras. Por isso, este discurso é dominado por uma reflexão acerca do papel desempenhado pelo poeta e pela poesia na sociedade, ao longo da história, sendo enfatizada a necessidade de o poeta ser fiel a si próprio e às suas raízes. 53 Diário VIII, ed. cit., p. 875. 54 Diário XII, ed.cit., p. 1339. 55 Idem, p. 1340. VI. As cidades revisitadas: a sacralização dos espaços 294 Por seu turno, Bruges, embora não tenha tido a fortuna literária de Veneza, ou Paris, conheceu, como se sabe, sobretudo entre os séculos XIV e XV, grande prosperidade, tendo sido das cidades europeias mais povoadas e cosmopolitas. Neste cenário, a cidade impôs-se como centro artístico, através do desenvolvimento da escola de pintura flamenga. Neste âmbito, no primeiro contacto que Torga regista com Bruges, é precisamente a presença monumental do passado, aliada à imagem da serenidade e de uma certa estagnação que emerge, através das palavras do sujeito de enunciação: «Gosto destas cidades paradas, que fazem parar a gente – Veneza, Bruges, Gand, Ouro Preto, Pompeia, por ordem da sua inércia.»56. Espelha-se, deste modo, uma ideia de cristalização no tempo, que aproxima Bruges, por exemplo, de Veneza. Aliás, Bruges foi apelidada de «Veneza do norte». Neste âmbito, no regresso a esta cidade belga, o narrador afirma novamente a sua convicção, no que concerne ao regresso aos mesmos locais: «Nunca consigo esgotar a realidade no primeiro encontro. Mas, nos seguintes, as coisas, embora ganhem mais significação, perdem não sei que frescura virginal.»57. Deste modo, no segundo encontro com a realidade estrangeira, o viajante já não se encontra «anestesiado» pela surpresa, conseguindo analisar, ou mesmo, podemos dizer, «dissecar» de forma minuciosa e mais objectiva a realidade circundante. No caso específico desta segunda visita a Bruges, o sujeito enunciativo declara aperceber-se de aspectos negativos, como é o caso do desagradável odor exalado pelos canais da cidade, que anteriormente lhe havia passado despercebido. Nesta sequência, na entrada correspondente ao penúltimo dia passado em Bruxelas, encontramos uma reflexão acerca do reencontro com «duas velhas paixões», ou seja, duas obras de arte admiradas por Torga: a «Tentação de Santo António» de Bosch e a «Queda 56 Diário VIII, ed.cit., p. 876. 57 Diário XII, ed. cit., p. 1339. VI. As cidades revisitadas: a sacralização dos espaços 295 de Ícaro» de Breughel. Note-se que, também neste caso, é a originalidade e genialidade destes dois artistas flamengos do século XVI que seduzem o viajante torguiano. Deste modo, o registo do dia seguinte é constituído pelo poema «Ícaro», que se assume como uma transfiguração do sujeito poético, representando o esforço inglório do espírito que, quando ousa ultrapassar os seus limites, é fulminado. No entanto, este Ícaro, não desiste porque, após a queda: «A alma já lhe pede, impenitente,/A graça urgente/ De uma nova aventura.»58 Por seu turno, outro artista belga é apreciado por Torga, neste caso no domínio da música: encontramos referência à morte do cantor Jacques Brel, considerado «uma das raras encarnações raivosas do artista empenhado em reflectir o mundo inteiro no espelho da sua própria aflição.»59 Em suma, a partir das passagens por Bruxelas e Bruges, Torga fornece-nos uma imagem da Bélgica, cuja tónica dominante é uma certa frieza, aliada à «solidez humana», de onde sobressai, de entre as artes, a pintura de Breughel e Bosch60, particularmente a representação de Ícaro, com quem o «eu» sente alguma afinidade. Revela-se assim o interesse do narrador pelas diversas artes e em captar os elementos essenciais de cada território visitado. Por fim, não podemos deixar de focar, sumariamente, o regresso a duas das cidades espanholas mais visitadas: Madrid (cinco incursões) e Salamanca ( seis visitas), bem como à vila de Verin, da qual encontramos dez registos. Neste sentido, relativamente a Madrid na primeira visita, Torga transmite as suas impressões, metaforicamente, recorrendo à imagem de cariz biológico do corpo para 58 Idem, p. 1344. 59 Diário XIII, ed. cit., p. 1373. 60 Ao longo do Diário encontramos outras referências a estes pintores. A genialidade de Breughel e a sua imaginação poderosa é referida, por exemplo, no Diário III, ed. cit., p.335 e no Diário IV, ed. cit., p. 441. No caso de Bosch, ele é mencionado, por exemplo, no Diário XI, ed. cit., p. 1209. VII. O fim da jornada: entre a falibilidade da história e a ameaça da morte 302 cadeia de pensamentos, subordinados a determinadas leis, mostrando que a humanidade caminharia rumo a um fim, avançando de modo imparável para o autoconhecimento e o autodesenvolvimento. Ao dirigir-se para um fim, segundo Hegel, a História revela um desenvolvimento inequívoco rumo a uma maior racionalidade e liberdade. Assim, este filósofo foi o primeiro a constatar «a essência da realidade na mudança histórica e no desenvolvimento da consciência de si que o homem tem»5. Nesta sequência, Hegel considera que a história é governada pela razão. Por isso a história universal desenvolve-se racionalmente. É, de certo modo, a crença neste processo racional do devir histórico, na função vingativa da História, que o narrador torguiano evidencia, ao esperar que seja precisamente ela a punir e julgar a época em que viveu. Assim, para Torga a evolução da história humana desenrola-se através do desenvolvimento da autoconsciência da liberdade. Isto porque a história não se constrói apenas com elementos de mudança, pois «as estruturas sociais e sobretudo as de mentalidade actuam em relação às forças momentâneas como vigorosos agentes de resistência, de permanência e de continuidade.»6 Durante a época ditatorial não encontramos muitas referências a acontecimentos históricos. No entanto, mesmo em viagem, longe do seu país, constatamos que o autor não se consegue libertar do clima de opressão que se vive em Portugal. A condição de português reprimido acompanha-o sempre, por isso descreve em traços gerais essa situação, que ultrapassa até a avaliação da História7. Além disso, a história é um elemento inerente à própria condição humana, que nunca o abandona, visto que o homem nunca deixa de recordar8. É ainda notória a revolta do sujeito por viver num tempo onde os valores se encontram invertidos. Por isso desabafa: 5 Apud Jacques le Goff, «História», in Enciclopédia Einaudi, vol. I, Lisboa, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1984, p. 210. 6 Fernão Magalhães Gonçalves, Ser e ler Torga, Chaves, Ed. Tartaruga, 1998, p. 111. 7 Cf. Diário VIII, ed. cit., p. 873. 8 Idem, p. 877. VII. O fim da jornada: entre a falibilidade da história e a ameaça da morte 303 «Tem cada homem o seu tempo histórico, e eu aceito, com todas as implicações respectivas, o que me coube. Que remédio! Mas custa.»9. Desta maneira, emerge a consciencialização da inserção do indivíduo num momento histórico, que lhe condiciona a vida, mas relativamente ao qual é revelada alguma revolta. A 18 de Abril de 1963 o narrador volta a evocar a História como um último recurso: «O Tribunal da História... A última instância que resta ao desespero. Uma Boa-Hora do futuro onde os Plenários não lembrem os da Boa-Hora do presente...»10. Porém, dado o interesse de Torga pelo factor humano, importa-lhe reflectir sobretudo acerca da essência do ser português, da identidade da sua pátria e das marcas que nela deixou a ditadura. Tal como refere João Medina: «neste aspecto, os seus diários são uma das reflexões mais importantes de Lusitanologia em toda a cultura portuguesa passada e coeva.»11. Isto porque o que interessa a Torga é a essência e a vivência do Portugal profundo (na sequência do que Unamuno chamava de intra-história) e não os meros acontecimentos políticos, sociais ou históricos. É, sobretudo, no Diário XII (abrangendo o período entre 17 de Maio de 1973 e 22 de Junho de 1977), que a marca indelével da História se principia a inscrever mais nitidamente, visto que neste volume é narrada a visita à África colonial portuguesa, e também o grande acontecimento histórico que foi a revolução do 25 de Abril. Esta revolução não correspondeu às expectativas do autor como constatamos, por exemplo, através da seguinte afirmação: 9 Idem, p. 909. 10 Diário IX, ed. cit., p. 1027. 11 João Medina, «Torga e Salazar, a ditadura e o ditador nos Diários de Miguel Torga», in Sou um homem de granito, ed. cit., p. 399. VII. O fim da jornada: entre a falibilidade da história e a ameaça da morte 304 Estamos a viver em pleno absurdo, a escrever no livro da História gatafunhos que nenhuma inteligência poderá decifrar no futuro.[...] Jogamos numa roleta de loucos, que tanto anda como desanda. O que apelidamos de revolução é um despautério social a que teimamos em dar esse nome sagrado. Quem faz revoluções não exibe revoluções.12 Note-se que não é rejeitada a ideia sociopolítica da revolução nem a sua necessidade histórica. O que o autor condena é o triunfalismo político, o oportunismo, a desumanização e a ideia de caos que diverge do ideal de plena libertação individual e colectiva. Nesta esteira, é principalmente e cada vez mais a ideia de degradação que principia a emergir, uma vez que o narrador afirma: O mundo parece prostituído. Nas terras estrangeiras por onde me perdi no passado, e me perco quando posso no presente, acontece outro tanto. O antigo recanto em que viviam foi igualmente devassado, e pouco da singularidade, pureza e específico encanto lhes resta e as distingue do comum.13 É, assim, a antinomia entre um passado marcado pela pureza e integridade, oposto ao presente cada vez mais corrupto, que emerge desta passagem. Além disso, constatamos um paralelismo entre a degradação de teor físico, moral, social e cultural, aliada a uma certa nostalgia do passado, de uma espécie de «paraíso perdido», onde reinava uma pureza e genuinidade, definitivamente sepultadas pelo progresso, pelo consumismo, pelos interesses capitalistas. É o tema da decadência, já abordado por Antero de Quental nas Causas da decadência dos povos peninsulares (1868) e nas Cartas Peninsulares de Oliveira Martins (1894), que, de certo modo, Torga retoma, neste caso, conferindo-lhe um cunho diferente e adaptando-o aos condicionalismos da sua época. Assim, constatamos que o momento histórico contemporâneo, seja qual for a sua situação cronológica, é sempre injusto, 12 Diário XII, ed. cit., p. 1300. 13 Idem, p. 1263. VII. O fim da jornada: entre a falibilidade da história e a ameaça da morte 305 caótico, trágico, representando uma decadência relativamente aos anteriores momentos históricos14. Neste âmbito, numa passagem datada de 3 de Abril de 1976, o narrador revela o receio da perda da História, ao declarar: «Começo a temer que estejamos no fim da nossa História. Derrubadas as fronteiras naturais, seremos um trago na garganta da Europa. E as fronteiras naturais estão a ruir aterradoramente!»15. Esta preocupação acentua-se ainda mais, num registo posterior, onde Torga lamenta e revela alguma mágoa pelo facto de os portugueses não valorizarem, nem se esforçarem por preservar o património, nem estabelecerem uma correspondência entre o passado e o presente, ignorando a memória individual e colectiva, pois, tal como refere o diarista: «Olhamos os testemunhos da nossa identidade como trastes velhos, sem préstimo, que apenas atravancam o quotidiano.»16. É, pois, o receio da perda da identidade histórica e cultural que emerge desta passagem. Interessante é também uma reflexão acerca da História, onde o plano mitológico e o humano se entrecruzam. Paralelamente, entrelaça-se também o plano do «homem histórico» (moderno), assumido como criador da História e o homem das civilizações tradicionais que, entendendo-a de um modo negativo, não a concebe como categoria específica do seu modo de existência: A História é uma paixão dos Homens e uma ironia dos deuses. Sendo vivida por nós, parece feita por eles. Quanto mais nos obstinamos em torná-la o espelho dos nossos triunfos, mais não sei que ocultos desígnios capricham em reduzi-la a uma aventura absurda. Porque, ao fim e ao cabo, sempre que nela floresce a esperança, frutifica a desilusão. Arena inglória onde a vida e a morte se confrontam a toda a hora, o sangue que 14 Cf. Mircea Eliade, O mito do eterno retorno, Lisboa, Edições 70, 2000, p. 145. 15 Diário XII, ed. cit., p. 1316. 16 Diário XIII, ed. cit., p. 1352. VII. O fim da jornada: entre a falibilidade da história e a ameaça da morte 306 a mancha nem sequer tem sentido. Inocente ou culpado, mitiga apenas a sede insaciável e vã da fatalidade.17 A História surge, em parte, aliada a uma ideia de fatalismo e de paganismo, visto que parece subjugar-se a um destino traçado pelos deuses. Nesta sequência, a ideia da falibilidade da História principia a desenhar-se numa passagem localizada em Coimbra, onde Torga refere uma vaga de violência juvenil a alastrar em Inglaterra. Torga evoca a crise de valores ao afirmar: Há muitos indícios de que esta civilização está no fim. Mas o mais seguro é, sem dúvida, a recusa dos novos em serem os herdeiros dos valores dos pais. Sempre que assim acontece, a História dá cartas de novo para que o jogo da vida colectiva possa continuar. Com outras regras e outros azares...18 Deste modo, a História assume-se como uma entidade personificada que, de certo modo, condiciona o destino dos homens. Sempre que existe uma situação de fracasso, falência a nível civilizacional, uma nova época se inicia, com outras regras. Por isso, a História é interminável, são as civilizações que terminam, para originar outras, com outros valores, outros objectivos. Assim, o que consideramos como «falibilidade» da História é, sobretudo, a falibilidade da civilização, dado que a História permite sempre um recomeço. Nesta medida, a situação em que o homem vive agrava-se à medida que o tempo passa. No entanto, esse agravamento pode ser entendido como um sintoma da regeneração que se deverá seguir. 17 Idem, p. 1433. 18 Idem, p. 1445. VII. O fim da jornada: entre a falibilidade da história e a ameaça da morte 307 Posteriormente, Torga reafirma a sua situação de marginal, de contra-corrente, ao lamentar o facto de estar circunscrito a um determinado tempo, espaço e personalidade: «A estar sempre do mau lado da sorte, dos acontecimentos, da História.»19 No Diário XIV, deparamo-nos com a indignação do narrador perante os morticínios do Líbano, as chacinas na Índia e o atentado da Rússia a um avião civil coreano. Por outras palavras, aumenta gradualmente a reflexão e a censura dos acontecimentos em que a sacralidade da vida humana é constantemente ameaçada. Por outro lado, num registo datado de 30/5/1982, Torga refere a proliferação de grupos culturais pelo país, que parecem norteados por uma certa ânsia de procurar as raízes. Todavia, este interesse, segundo o autor, reduz-se a um ilusório renascimento, visto que: «Perdido o sentido da História, toda a reidentificação colectiva não passa de um tropismo obstinado da memória.»20. Por conseguinte, a História assume-se como elo de ligação entre a memória e a identidade colectiva. Seguidamente, numa entrada datada de Dezembro do mesmo ano, o narrador tece uma nova reflexão acerca dos tempos vividos e do declínio vivenciado, pois de certo modo, Torga partilha com Nietzsche a crença de que a época actual se encontra marcada pelo fim das ideologias: Tempo terrível, este![...] A vida colectiva simultaneamente trepidante e por um fio. Todas as ideias, todas as crenças, todas as ideologias, todos os sentimentos postos em causa. A História fala-nos doutras épocas também varridas por ciclones de inquietação. Mas nenhuma foi tão aberta a quantos ventos quiseram soprar dos quatro cantos da terra.21 19 Idem, p. 1455. 20 Diário XIV, ed. cit., p. 1461. 21 Idem, p. 1472. VII. O fim da jornada: entre a falibilidade da história e a ameaça da morte 308 Segundo o autor, encontramo-nos no fim de um ciclo civilizacional, no qual o poder se sobrepôs à expressão pessoal e individual do ser humano. De um modo geral, a humanidade encontra-se esterilizada numa organização que tende para a massificação e para a autodestruição. Emerge, então, o esquema mítico do envelhecimento e da regeneração através da morte, da desintegração da velha civilização, em certa medida, na esteira de Spengler ou de Toynbee22. Neste âmbito, a propósito da visita a uma exposição acerca de «Os Descobrimentos Portugueses e a Europa do Renascimento», o narrador critica, novamente, o facto de os portugueses não se orgulharem nem preservarem o seu património, os testemunhos da sua identidade, frisando que: «Flutuamos irresponsavelmente à tona da História.»23 Mais adiante, a propósito da alusão a um protesto em defesa da liberdade, Torga censura o facto de os dirigentes políticos ignorarem as lições da História, agindo como se tudo principiasse no momento em que chegam ao poder24. Todavia, como já referimos, é o final da jornada, ou seja, os volumes quinze e dezasseis do Diário, que merecerão particular atenção neste capítulo. Neste caso, constatamos uma nova forma de mediação para o conhecimento do estrangeiro: os órgãos de comunicação social, visto que os acontecimentos vividos no estrangeiro chegam até ao sujeito de enunciação, mas através das notícias dos jornais, da televisão ou da rádio. Neste contexto, verificamos que no Diário XV o autor segue com particular interesse os acontecimentos desenrolados na Polónia e na Rússia, congratulando-se, neste caso, com a retirada das tropas russas do Afeganistão e o triunfo do amor pela identidade face ao 22 Oswald Spengler, na obra Der Untergang des Abenlandes (A decadência do Ocidente), compara as civilizações, no sentido mais amplo, com os seres vivos que nascem, desenvolvem-se e, em seguida, morrem inexoravelmente. Por seu turno, Toynbee na obra Study of History (que contém 12 volumes publicados entre 1934-1961) preconiza que cada civilização apresenta quatro fases do seu ciclo vital: a génese, o desenvolvimento, o progresso, a decadência e a desagregação. 23 Diário XIV, ed.cit., p. 1482. 24 Idem, p.1513. VII. O fim da jornada: entre a falibilidade da história e a ameaça da morte 309 poder de uma grande potência25. Apesar de tudo, parece existir no narrador alguma esperança na luta pela individualidade, quando, a 6/3/88, o autor escreve: «Os impérios da História, com a mesma língua, os mesmos arcos de triunfo, os mesmos uniformes, e a sua paz opressiva, sempre me causaram engulhos.[...] Falta-lhes, no paladar da grandeza, o sal das diferenças e da liberdade.»26. Por outras palavras, sendo o homem um ser social, deve estabelecer com os outros uma relação de reciprocidade, de aceitação mútua pelas diferenças de cada indivíduo. Para que a liberdade exista é, portanto, necessário que cada indivíduo actue de acordo com a sua razão, sem pressões externas do poder. Aliás, o poder é entendido como um elemento nocivo que aniquila a naturalidade do homem, normalizando-o, uniformizando-o. Isto porque a verdadeira grandeza de uma comunidade reside nas particularidades, nas diferenças entre os indivíduos. A atitude de descrença, o pessimismo perante a proximidade da morte reflecte-se no Diário XV, na passagem que alude à morte de um general nazi, Rudolf Hess, de quem já ninguém se lembra e à qual todos parecem indiferentes, quando Torga afirma: «A História memoria; mas o tempo desmemoria. E o homem vive no tempo, não vive na História.»27 Neste volume encontramos referência às eleições no Chile e à derrota do ditador (5/10/88), aos motins na Argélia em defesa da democracia, cuja repressão indigna o narrador (7/10/88). Por outro lado, Torga tece um comentário mais desenvolvido acerca de um congresso em Itália sobre o diabo, enfatizando o facto de ele viver na maldade de cada ser humano, embora se continue a insistir na vertente teológica. Além disso, o diarista refere ainda o domínio da revolta dos militares na Argentina (5/12/88) evidenciando uma 25 Cf. Diário XV, ed. cit., p. 1515. 26 Idem, p. 1617. 27 Idem, pp.1599-1600. VII. O fim da jornada: entre a falibilidade da história e a ameaça da morte 310 posição «antimilitarista» que, neste caso, se prende à posição antibelicista do autor, pois: «A humanidade não terá paz enquanto não for toda civil. Por dentro e por fora.»28 Por seu turno, com a data de 27 de Março de 1989, encontramos um registo de três linhas a propósito das eleições na Rússia, que o diarista considera como um auspicioso começo, pois «o gosto pela liberdade apura-se à medida que a vamos provando.»29 Outro breve comentário, de carácter factual, acerca do acordo na Polónia entre a oposição e o governo polaco surge a 5/4/1989, no qual Torga realça de forma lapidar e algo irónica o facto de os tiranos do passado se converterem nos democratas do futuro30. Seguidamente, ainda na mesma página, mas com datas distintas, dois acontecimentos, que poderíamos considerar como «fait divers», merecem a atenção do autor: o assassinato de cinquenta doentes por cinco enfermeiras austríacas e os 93 mortos por esmagamento num campo inglês de futebol. Mais uma vez, é a dimensão humana que configura o olhar do narrador para o exterior, indignando-se com a atrocidade, a violência, a desumanidade e o desrespeito pela vida. Em seguida, num outro registo sintético, próximo do texto informativo, Torga refere as manifestações estudantis na China, relembrando que, aquando da sua visita a esse país, vislumbrou o início desta luta pela liberdade e democracia. Indigna-se, por isso, com o massacre desses lutadores pela liberdade31. O registo datado de 9 de Novembro de 1989 consiste num comentário mais desenvolvido e subjectivo da queda do muro de Berlim, considerado um dos acontecimentos históricos mais significativos desta época. Note-se que o autor contactou presencialmente com o referido muro, aquando da sua viagem a Berlim, encontrando-se 28 Idem, p. 1646. 29 Idem., p. 1656. 30 Cf. Idem, p. 1657. 31 Idem, p. 1658. VII. O fim da jornada: entre a falibilidade da história e a ameaça da morte 311 portanto, numa posição privilegiada para avaliar a «vergonha e humilhação» representadas por essa barreira. Por isso, o narrador revela o seu alívio perante a abolição do muro, pois: «Já se podem trocar as virtudes, os vícios e as ideias. E olhar livre e fraternalmente em todas as direcções.»32 Outros acontecimentos relevantes merecem comentários do diarista, como é o caso da aclamação de Dubcek em Praga e do encontro no Vaticano de Gorbatchev com o Papa, sendo este último considerado pelo narrador como o «homem certo» para o cargo que ocupa33. Paralelamente, o narrador revela grande atenção e entusiasmo face a todas as mudanças ocorridas no Leste da Europa e que ele assume não conseguir relatar com a dimensão merecida pelos factos, revelando uma sensação de incomunicabilidade, que contrapõe a escrita à vida. Neste caso, o acto da escrita não consegue representar de forma satisfatória os factos reais. Há um desfasamento entre a capacidade de expressão e o grau de exigência do autor, remetendo assim para uma certa «impureza» da expressão. Isto porque os acontecimentos mencionados constituem «[...] um sismo da História. Um abalo colectivo de ressurreição.»34 Seguidamente, encontramos uma crítica ao desempenho dos portugueses em Timor, ao ser referido um acordo entre a Austrália e a Indonésia para exploração de petróleo nesse território. Por fim, é com uma nesga de esperança relativamente às mudanças que vão ocorrendo no mundo que o diarista termina este volume. Simultaneamente, faz um breve balanço dos seus oitenta e dois anos de vida que, para ele, parecem ficção35. Surge assim a 32 Idem, p. 1668. 33 Cf. idem, p.1669. 34 Idem, p. 1670. 35 Idem, p. 1671. VII. O fim da jornada: entre a falibilidade da história e a ameaça da morte 318 massacres ocorridos na Somália58. É, igualmente, o partido dos oprimidos e injustiçados que o autor sempre toma, ao condenar e se indignar com o assassinato de sete crianças no Rio de Janeiro59. Por fim, os últimos acontecimentos mundiais referidos e comentados são a assinatura na Casa Branca da paz israelo-palestiniana (10/9/93), que provoca alívio no diarista e alguma esperança no futuro; a luta pelo poder na Rússia (3/10/93) e o triunfo da maioria socialista na Grécia (11/10/93). Este último é comentado de forma mais desenvolvida, espelhando o desejo de que os gregos honrem a lição de sabedoria e civismo dos seus antepassados, visto que este povo «conheceu, como nenhum outro na História, a dignidade de ser cidadão a tempo inteiro.»60. No entanto, paralelamente a todas as transformações e vicissitudes históricas, e ao fracasso da civilização, emerge, cada vez mais intensamente, a sombra da morte: «Corajosamente, envelheci, e corajosamente morro.»61; ou ainda numa outra passagem escrita em 1993, onde Torga confessa: Penso e repenso dia e noite na morte. [...] Com o instinto de conservação de bicho, fui-lhe trocando as voltas. Mas o tempo passou, as defesas naturais diminuíram, veio a velhice, e chegou a vez dela. Sem contemplações, tiranicamente, comanda agora todos os meus actos e pensamentos. [...] Ao fim e ao cabo, a vida é irremediavelmente um dom provisório.62 Em síntese, os acontecimentos que abalam o mundo, concernentes sobretudos à política internacional, não são relatados por Torga com o intuito de os historiar, mas sim 58 Cf. idem., p. 1763. 59 Idem, pp. 1764-1765. 60 Idem, p. 1775. 61 Idem, p. 1769. 62 Idem, p. 1777. VII. O fim da jornada: entre a falibilidade da história e a ameaça da morte 319 com o objectivo de reflectir sobre eles. Perante a ameaça da morte, notamos que as principais preocupações do autor continuam a ser a realidade humana subjacente aos fenómenos políticos e sociais e, principalmente, os eventos históricos relacionados com a conquista ou a perda de liberdade dos povos, ou ainda com a ameaça à sacralidade da vida humana. De certo modo, evidencia-se uma simpatia pelo socialismo, mas «o socialismo de Torga é, como noutras coisas, de tecitura elementar e popular»63. Por outras palavras, trata- -se de um «socialismo» de raiz popular e não partidária, visto que Torga sempre foi um «livre pensador» e nunca se deixou «arregimentar» pelos políticos. Neste âmbito, o interesse pelo conhecimento do Outro, do mundo, não decresce, simplesmente concretiza- -se através de outros elementos de mediação. Por outro lado, o juízo crítico e o distanciamento face aos acontecimentos agudizam-se, sendo transmitidos de forma cada vez mais sintética e lapidar, assemelhando-se a sentenças e aforismos. Como refere Clara Rocha, o último volume do Diário assume-se como a representação do «fim da caminhada» anunciada através do «Requiem por Mim». Entre este último e o primeiro volume, iniciado sessenta anos antes pelo «Santo e Senha»: [...] fica a paisagem dum “eu” que se constrói na sua descontinuidade, na sua conflitualidade, na sua opacidade a si mesmo, e naquilo que tem de singular e de comum a todos os da sua espécie. E também a paisagem dum tempo histórico não menos conflitual e atribulado.64 Perante a ameaça cada vez mais eminente da morte, o tempo dessacralizado é representado com a duração precária, evanescente, conduzindo inexoravelmente ao fim. 63João Maia, «Diário XVI de Miguel Torga», in Brotéria, vol. 138, nº3, Lisboa, Março de 1994, p. 344. 64 Clara Rocha, Miguel Torga - Fotobiografia, ed. cit., p. 179. VII. O fim da jornada: entre a falibilidade da história e a ameaça da morte 320 Note-se que, de entre os países que registam acontecimentos relevantes, evidencia-se a Rússia. Apesar de nunca ter sido visitada pessoalmente pelo narrador torguiano, ela é conhecida, essencialmente através da literatura, dos autores que constituem importantes marcos de referência. Neste caso, além de Dostoievski, deparamo-nos com diversas alusões ilustradoras da admiração por Tolstoi65 e Soljenitsine. Deste último é admirada a figura exemplar, contestatária, intrépida,66 para além da sua obra O Arquipélago de Goulag, que é caracterizada como «uma angústia concentracionária do tamanho da Rússia»67. Estes elementos, aliados ao registo dos acontecimentos políticos e sociais que convulsionaram o país nos últimos anos abrangidos pelo Diário, contribuem para esboçar da Rússia a imagem de um país assente numa cultura sólida, que principia a despertar para a liberdade e no qual ainda é possível depositar alguma esperança. No último volume do Diário, à sede de liberdade e de independência sentida na Europa de Leste, parece contrapor-se um certo obscurecimento da pátria, cuja história, identidade e cultura, perigam face à subserviência e dependência da Europa económica comunitária. De certo modo, domina a ideia da falibilidade da história de Portugal, que vai declinando como pátria, desde o fim do império até ao anunciado fim de uma identidade. Encontramos, nesta medida, uma sintonia entre a morte, a decadência da pátria e a do autor, pois por todo o país ecoa: «Um dobre a finados de uma pátria sem esperança, que o poder não ouve, ou finge não ouvir, [....] num desprezo olímpico pelo povo que em má hora o elegeu.»68. Aliás, este declínio comum ao autor e à pátria é já antecipado, em parte, quando, numa passagem datada de 15/5/77, Torga afirmava: «À medida que o tempo passa, mais agónicas são as horas. A saúde piora, a pátria desintegra-se, a solidão 65 Cf. Diário IV, ed. cit., p. 377 e p. 433. 66 Cf. Diário XII, ed. cit., p. 1377. 67 Idem, p. 1294. 68 Diário XVI, ed. cit., p. 1778. VII. O fim da jornada: entre a falibilidade da história e a ameaça da morte 321 aumenta.»69. Nesta sequência, para além da confrangedora realidade nacional, também pelo mundo inteiro, os desígnios da fraternidade e da tolerância vão sendo progressivamente aniquilados. Emerge, então, através de todos os comentários feitos aos eventos que vão marcando a história mundial, a elevada concepção do homem, localizada muito para além das contingências históricas. Salienta-se, assim, a unidade de pensamento do autor, enraizada numa constante visão do mundo, do estrangeiro, configurada pelo mais nítido humanismo. Espelha-se, constantemente, a preocupação social do autor com os acontecimentos que oprimem a pátria e o mundo, que afectam o «eu» e também o «outro», visto que o nacional se reflecte também no universal. Neste sentido, perante o fracasso civilizacional e a inexorável ameaça da morte, o acto «ontológico» da escrita surge como único lenitivo, como acção libertadora das teias da corrupção e da morte, elemento unificador de um «eu» fragmentado através de uma constante exposição à acção da temporalidade. Neste caso, verificamos que o «ritual» da criação literária se assume como única fuga possível à inexorabilidade da passagem do tempo linear irreversível. O acto de escrever reveste-se da mesma sacralidade de que são dotados para Torga todos os actos primordiais (como por exemplo, o cultivo da terra), mergulhados no tempo cíclico da imagem e do mito. 69 Diário XII, ed. cit., p. 1336. Conclusão 322 Conclusão Em síntese, partindo dos pressupostos teóricos da formação e função da imagem do estrangeiro em Literatura Comparada, apresentados na primeira parte do nosso trabalho, acompanhámos o narrador torguiano, verdadeiro «homo viator», ao longo das suas inúmeras digressões, para colhermos e analisarmos as imagens produzidas pelo seu olhar. Constatámos que a viagem é para Torga a forma privilegiada de enriquecimento e desenvolvimento pessoal, de delimitação das suas próprias fronteiras e identidade através do imprescindível contacto com o «Outro». Aliás, em Torga, a alteridade encontra-se sempre presente, dada a sua ânsia de desvendar o essencial da existência humana, o que só poderá ser atingido plenamente através do confronto do «Eu» com o «Outro», compartilhando o seu sentido de humanidade. Como o autor declara: «Regra geral, as pessoas só querem conhecer o modo de vida dos outros. [...] Eu, pelo contrário, esforço-me por surpreender a diferença específica que faz de cada indivíduo um ser radicalmente distinto. O meu semelhante.»1. É, então, a procura das semelhanças nas diferenças que norteia este processo de alteridade, este constante diálogo e abertura face ao outro (quer seja estrangeiro ou português), embora no presente trabalho nos tenha interessado particularmente o estrangeiro. Aliás, «o encontro com os outros é o verdadeiro encontro connosco.»2. Por isso, escrever sobre o outro será autodefinir-se. Na senda de Montaigne, como notou Pierre Veilletet ao escrever «Aujourd’hui, Montaigne est portugais. C’est Miguel Torga», o Diário evidencia a nítida consciência «da 1 Diário XII, ed. cit., p.1284. 2 Eduardo Lourenço, O labirinto da saudade, ed. cit., p. 184. Conclusão 323 finalidade da escrita do eu»3. No entanto, a análise do «eu» não se sobrepõe à análise da realidade circundante, ambas se fundem e se interpenetram. Torga não nega a importância de todos os que o antecederam, no relato das suas viagens e na riqueza das obras literárias, quer sejam estrangeiros como Montaigne, ou portugueses, assumindo-se como discípulo «modesto e aplicado» dos grandes cronistas que calcorrearam o mundo e dele deram notícia, como foi o caso de Pêro Vaz de Caminha e Fernão Mendes Pinto. Neste sentido, refere: Corri também, desde a meninice, as sete partidas. Presenciei, alanceado, cenas cruentas de guerra, contemplei, atónito e envergonhado, os destroços de civilizações criminosamente destruídas, ouvi vociferações de energúmenos a anunciar a multidões fanatizadas o aniquilamento de colectividades inteiras, comunguei com naturais doutras raças e culturas no mesmo sonho de um futuro próximo de harmonia humana. E dei, com o engenho que pude e algum risco, testemunho empenhado mas descomprometido dessas andanças. Sou, afinal, como vós e à minha medida, o repórter inquieto dum quotidiano sem fronteiras.4 Essa reportagem do «quotidiano sem fronteiras», sobretudo das realidades com que se foi deparando por terras estrangeiras, é, pois, elaborada de forma profundamente original e autêntica no seu Diário, que continuará uma obra ímpar na literatura portuguesa. Se, como referiu Dostoievski, os homens se dividem em duas categorias : os criadores e os reprodutores, cabendo aos primeiros a invenção da arte e da literatura5, poderemos indubitavelmente integrar Torga no primeiro grupo, pois «só depois de ser 3 Clara Rocha, O cachimbo de António Nobre e outros ensaios, Lisboa, Publicações Dom Quixote, 2003, p. 105. 4 Diário XVI, ed. cit., pp. 1744-1745. 5 Apud Fernão Magalhães Gonçalves, «Torga um auto-retrato português», in Homenagem a Miguel Torga, Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, 1979, p. 28. Conclusão 324 autêntico se é livre, e que há uma comunicação dos homens do espírito tão misteriosa e sagrada como a dos santos.»6 Esta ânsia de liberdade como valor primordial, aliada à sua situação histórica e pessoal, determinam o seu papel singular, a sua voz inconfundível e a sua efemeridade no seio do movimento presencista, a marginalidade relativamente às correntes literárias com que se deparou ao longo do seu tempo, passando incólume por diversos códigos literários, sem por eles se deixar marcar, visto que a literatura brota da âmago da vida e do ser. Nesta medida, Torga tece uma análise lúcida, distanciada e concisa das virtudes e defeitos da sua geração, que considera antecipadamente condenada por ter nascido num contexto histórico adverso, marcado pela opressão, a quem faltou combatividade, chegando ao fim da vida «melancolicamente convencida de que foi quase inútil ter vindo ao mundo, uma vez que o mundo não era um panorama para se gozar, pensar ou descrever, mas sim uma fortaleza para se conquistar.»7. Encontramos, assim, esboçados nesta passagem os motivos, já abordados, que ditaram o afastamento de Torga relativamente à geração presencista, que vive encerrada na sua «torre de marfim», produzindo uma literatura, de certo modo estéril, inteiramente alheia às contingências da realidade social, às vicissitudes do «homem de carne e osso», uma vez que escolheu a literatura em detrimento da vida. Neste âmbito, embora o autor tenha revelado a sua admiração pelos «modelos» enaltecidos pela geração presencista, estes nunca ultrapassaram, no interior da sua obra, o estatuto de meros «modelos de referência», reveladores da sua adesão, ainda que imparcial, a uma tendência geracional. Porém, é a sua autonomia a nível estético ideológico e formal que sempre prevalece. Isto porque a escrita de Torga, como acto primordial, ontológico que é, germina nas fragas profundas do seu ser, autêntica e única (pois quanto mais autêntica, mais 6 Diário XVI, ed. cit., p. 1738. 7 Diário IV, ed. cit., p. 448. Conclusão 325 universal). O seu vasto conhecimento da literatura nacional e mundial é apenas um «meio» e nunca um fim. Aliás, nesta medida, critica diversas vezes os autores que cedem ao «francesismo» e a todas as modas importadas do estrangeiro, confinando-se a uma mera imitação, sem coragem de ser autênticos e originais. Neste campo, afirmou o autor quando o interrogaram acerca do seu segredo: «Ser idêntico em todos os momentos e situações. Recusar-me a ver o mundo pelos olhos dos outros e nunca pactuar com o lugar comum.»8. Por outro lado, a dimensão universal apenas adquire sentido na terra natal. O genuíno, autêntico e humano não tem limites, por isso o universal é o local desprovido de fronteiras. As personagens, os sentimentos presentes na obra torguiana não se circunscrevem à realidade de Portugal ou de Trás-os-Montes, são universais e, por isso, existem em qualquer outra parte do mundo, visto que o espírito não tem limitações geográficas. Como o narrador afirma: «Não tenho fronteiras espirituais, mas trago gravados nos cromossomas os marcos da minha freguesia e a fisionomia dos meus conterrâneos»9. Além disso, ainda refere: Do meu Marão nativo abrange-se Portugal; e de Portugal, abrange-se o mundo. Obrigado pela necessidade, e por gosto, cedo comecei a calcorrear os dois, e a maravilhar-me com a dimensão incomensurável de cada criatura que neles subia a sua via-sacra, aqui branca, ali negra, acolá amarela, sempre variada na aparência e igual na realidade.10 Assim, apesar de todos os locais visitados e revisitados, da importância conferida a muitos deles, aquele cuja «sacralização» é mais intensa, o seu verdadeiro «axis mundi» é a sua aldeia natal, mitificada, que usufrui de um estatuto ontológico único no universo 8 Diario XVI, ed.cit., p. 1686. 9 Idem, p. 1749. 10 Idem, p. 1737. Conclusão 326 privado do sujeito. Pois: «S. Martinho foi o lugar de onde»11. Contudo, a viagem desloca o centro de gravidade do narrador para um lugar desconhecido, correspondendo à cosmização de um espaço, ou, como diria Mircea Eliade, à reiteração de uma cosmogonia, ao acto de ordenar um caos12. Apesar disso, constatamos que os elementos assimilados, apreendidos nas viagens efectuadas, confirmam o saber que se vai incrementando acerca desse «axis mundi» de onde o «eu» partiu e ao qual sempre regressa, uma vez que todos os pontos de chegada são provisórios. De um modo geral, o narrador-viajante integra-se no espaço que percorre, estabelecendo uma comparação entre a realidade presenciada e o conjunto de imagens pré- -adquiridas através das leituras. A realidade corrobora ou contradiz essas imagens, ultrapassando quase sempre as expectativas do narrador; o espaço geográfico e o espaço imaginário confundem-se, por vezes, confirmando a grandeza mítica da viagem livresca. A leitura das imagens formadas pelo olhar atento e perspicaz deste narrador permitiu- -nos compreender o modo como são progressivamente interiorizadas as imagens do «outro», como elemento configurador do «eu» e por extensão do país de origem. Evidencia-se a progressiva interiorização das imagens do «outro» como processo de autoconhecimento do «eu», através da sua incessante abertura ao diálogo intercultural. Relativamente ao sentido das imagens do estrangeiro delineadas, constatámos que, nos locais visitados, o que interessa particularmente ao narrador é a dimensão humana, simbólica e mítica (não podemos esquecer que «os mitos são verdades eternas»13), que eles encerram e através dos quais o viajante alarga as suas fronteiras espirituais. Neste contexto, as referências culturais assumem a função de mediadoras do sentido do espaço visitado. Por isso, o viajante descobre-se, redescobrindo a sua própria nacionalidade, 11 Idem, p. 1683. 12 Cf. Mircea Eliade, O sagrado e o profano. A essência das religiões, ed. cit., p. 46. 13 Diário XV, ed. cit., p. 1667. Conclusão 327 particularmente nos espaços adequados à sua sensibilidade, onde sente mais afinidades, onde o «outro» não surge configurado apenas como «diferente», mas também como idêntico ao narrador. É o que sucede em Espanha, onde encontra a sua unidade cultural mais profunda e intrínseca, embora eivada de uma ambivalência de raízes históricas e culturais; no Brasil, que lhe deixou marcas profundas, tendo contribuído para a formação da sua personalidade, e que é encarado como uma verdadeira «terra prometida», fervilhante de vida, de beleza, de potencialidades para concretizar, «país-irmão», complemento cultural e espiritual da pátria de origem, reformulado através de uma mitologia pessoal; na Itália dos renascentistas, onde a arte domina e se assume como constante e renovado milagre, concebida como uma espécie de «reino superior» da cultura, «a pátria dos simbólicos refúgios»14, onde constantemente caminham os poetas; na Grécia, onde encontra in praesentia o fascínio vivo de uma cultura clássica (da qual o «eu» se reconhece beneficiário), considerada fonte genuína e autêntica da cultura europeia, onde o narrador pode saciar a sede de beleza. Em contrapartida, ao procurar os vestígios das pegadas colonizadoras dos portugueses, Torga desilude-se profundamente com a guerra colonial de Angola e Moçambique, com o racismo e a violência que o fazem sentir-se um inimigo e são a prova do fracasso colonial português, que apenas no Brasil atingiu a sua grandiosa dimensão e comunhão com os indígenas. Somente a ilha de Moçambique surgiu, neste campo, como um oásis, o reencontro com a pátria desejada e mitificada, rodeada por um cenário de caos e terror. Além disso, o viajante desilude-se com o facto de a cultura portuguesa ser parte do passado de Goa e de Macau, evidenciando assim o fracasso de um império. Por seu turno, a cultura francesa, do mesmo modo que Paris, é desmitificada, representada através da 14 Diário VI, ed. cit., p. 631. Bibliografia 334 KAISER, Gerhard - Einführung in die vergleichende literaturwissenschaft, Darmstadt,Wissenschaflliche Buchgesellschaft, 1980.(Trad. 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