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Ferramentas pedagógicas para a comunicação do Património: O Projeto Castelo de Vide - aprender com arqueologia (versão corrigida e melhorada após defesa pública) Margarida Onofre Mendes da Silva Março, 2022 Relatório de Estágio de Mestrado em Arqueologia
Relatório de Estágio apresentado para cumprimento dos requisitos necessários à obtenção do grau de Mestre em Arqueologia realizado sob a orientação científica da Professora Doutora Catarina Tente, Professora Auxiliar do Departamento de História da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas.
Aos meus pais.
AGRADECIMENTOS No decorrer da realização deste estágio foram múltiplas as dificuldades com as quais me deparei, no entanto, estas foram sempre ultrapassadas em parte graças ao apoio imprescindível de um conjunto de pessoas. Em primeiro lugar, um enorme agradecimento à minha orientadora, a Professora Doutora Catarina Tente por ter acreditado no meu projeto e por ter sido uma presença tão constante na sua realização, oferecendo sempre sem hesitar os seus conselhos e sugestões. À minha coorientadora Doutora Sara Prata quero também deixar um agradecimento muito especial pela constante ajuda e cumplicidade em todos os momentos, especialmente nos mais atribulados do desenvolvimento dos trabalhos. Ao Doutor Fábian Cuesta-Gómez quero também deixar um sincero agradecimento pelo apoio e ajuda nas mais diversas áreas, desde o desenho à própria prática da prospeção. O meu profundo reconhecimento ao Município de Castelo de Vide, na pessoa do Presidente António Pita, pelo seu apoio constante à arqueologia e ao património local. Agradeço a possibilidade que me foi dada de realizar o presente estágio bem como o meu alojamento na Casa do Investigador durante a sua duração. Este projeto nunca teria acontecido sem este acolhimento, por isso, estou eternamente grata. De igual modo, devo um enorme agradecimento aos Técnicos da Secção de Arqueologia da Câmara Municipal de Castelo de Vide: Carlos Grande, Nuno Félix, Paulo Morais e, em particular a João Magusto, pela constante disponibilidade, apoio e boa-disposição que mostraram ao longo destes dois anos e cujo auxílio e dedicação foram essenciais para o meu conhecimento do território, da vila e da população de Castelo de Vide. Este sentimento alarga-se ainda ao Gabinete de Turismo e em particular à Dra. Patrícia Martins, responsável pela agilização de toda a logística intrínseca ao desenvolvimento do meu projeto. Ao Sr. Joaquim Iria, Presidente do Rancho Folclórico Nossa Senhora da Alegria, pela amabilidade com que me acompanhou na visita à Sede do Rancho e ao Jardim da Casa Ventura Porfírio. Ao Sr. Carolino Tapadejo, referência incontornável para o estudo da História e do Património local, agradeço o interesse que demonstrou pelo meu trabalho e pela visita guiada à Oficina-Museu do Mestre Carolino. Por último, mas não menos importante, queria agradecer aos meus pais pela disponibilidade e por me terem dado a oportunidade de chegar até aqui. Sem eles nada
seria possível. Aos meus amigos, agradeço a amizade e os momentos de relaxamento, que me ajudaram a prosseguir durante estes anos tão atribulados. Ao Miguel Nunes, por me ter acompanhado e apoiado sempre ao longo deste trajeto.
Ferramentas pedagógicas para a comunicação do Património: O Projeto Castelo de Vide - aprender com arqueologia Margarida Onofre Mendes da Silva RESUMO PALAVRAS-CHAVE: Alto Alentejo; público escolar; Arqueologia Pública; Atividades Pedagógicas; Património. Castelo de Vide, embora sendo um território pequeno com cerca de 264 km2 de área, é um local que se encontra repleto de evidências arqueológicas, que se verificam por vários períodos cronológicos. No entanto, escasseiam intervenções no âmbito de divulgação e valorização do património arqueológico, caso que, por norma, é extensível ao território nacional. O presente trabalho propõe-se a trabalhar este desafio, criando ferramentas pedagógicas para a divulgação arqueológica do concelho de Castelo de Vide. Estas ferramentas são fichas de atividades educativas desenvolvidas para um público infantil definido entre os 8 e os 10 anos, a realizar em ambiente escolar, promovendo a cultura e o património histórico-arqueológico, de maneira a auxiliar os membros mais jovens da comunidade local a conhecer e valorizar os sítios arqueológicos da região onde vivem. Assim, este projeto surge, não só como uma proposta de divulgação do património arqueológico do concelho de Castelo de Vide, mas também enquanto contributo para a defesa e divulgação do património local, podendo posteriormente ser adaptado a outras regiões do país, que possuam características patrimoniais e demográficas semelhantes.
Teaching resources for heritage communication: The Project Castelo de Vide – learning with archaeology Margarida Onofre Mendes da Silva ABSTRACT KEYWORDS: Alto Alentejo; School children; Public Archaeology; Teaching Resources; Heritage. Although a small territory with only about 264 km2 of area, Castelo de Vide is a place with plenty archaeological remains, situated throughout various chronological periods. Nonetheless, there is a lack of outreach when it comes to communication and awareness of these types of heritage, which unfortunately is the norm in Portugal. This project tries to work on this issue by creating a collection of teaching resources for communicating Castelo de Vide’s archaeological estate. These tools are educational activities for children between 8 and 10 years old in schools, promoting culture, historical and archaeological local heritage, to help the youngest members of the local community to recognize and value their own cultural patrimony. In a way, this project attempts to facilitate the communication of Castelo de Vide’s archaeological evidence, but it also tries to create new ways of defending and communicating different aspects of local heritage, allowing it to be replicated to other places where archaeological evidence and demographics are similar.
Índice INTRODUÇÃO ................................................................................................................ 3 CAPÍTULO 1 - ENQUADRAMENTO ........................................................................... 5 1.1. Contextualização geográfica e demográfica de Castelo de Vide ........................... 5 1.2. Enquadramento da Instituição: A Secção de Arqueologia da Câmara Municipal de Castelo de Vide ........................................................................................................ 8 CAPÍTULO 2 - ESTADO DA ARTE ............................................................................ 10 2.1. Arqueologia em Castelo de Vide ......................................................................... 10 2.2. O fenómeno da Arqueologia Pública ................................................................... 14 2.3. Arqueologia ao serviço da Educação: Atividades Pedagógicas sobre Arqueologia .................................................................................................................................... 22 CAPÍTULO 3 - O PROJETO “CASTELO DE VIDE – APRENDER COM ARQUEOLOGIA!” ........................................................................................................ 28 3.1. Definição do Público-Alvo .................................................................................. 28 3.2. Metodologia ......................................................................................................... 31 CAPÍTULO 4 – MATERIAL PRODUZIDO ................................................................. 37 4.1. Atividade 1 - “Desenha um Arqueólogo!” (Draw an Archaeologist Test) .......... 39 4.2. Atividade 2 - “Os diferentes períodos” ................................................................ 41 4.2.1. Atividade “O Período Neolítico” .................................................................. 42 4.2.2. Atividade “O Período Romano” .................................................................... 43 4.2.3. Atividade “O Período Medieval” .................................................................. 44
2 4.2.4. Atividade “O Período Moderno”................................................................... 45 4.3. Atividade 3 - “De que período sou?” ................................................................... 46 4.4. Atividade 4 - “Introdução à estratigrafia” ............................................................ 49 4.5. Atividade 5 - “Sítios arqueológicos” ................................................................... 50 4.6. Atividade 6 - “Monta a Peça Arqueológica” ....................................................... 52 4.7. Outras atividades .................................................................................................. 54 CAPÍTULO 5 - REFLEXÕES E PERSPETIVAS FUTURAS ...................................... 56 BIBLIOGRAFIA ............................................................................................................ 61 ANEXOS I – MATERIAIS DE REFERÊNCIA PARA PRODUÇÃO DE CONTEÚDOS ANEXOS II - ATIVIDADES E RESPETIVOS GUIÕES
9 Por outro lado, desde os primórdios da formação do grupo de arqueologia, têm sido organizadas visitas à sede da Secção e a vários sítios arqueológicos da região, com o objetivo de promover e valorizar o património arqueológico local. Estas visitas são organizadas várias vezes por ano, recebendo turmas e grupos de diversos agrupamentos, incluindo grupos vindos de Espanha, tendo ainda sido realizadas visitas de instituições académicas. Estas atividades centram-se fundamentalmente em visitas guiadas à sede da Secção e a vários sítios arqueológicos da região; exposições do material arqueológico armazenado na Secção de Arqueologia e na realização de atividades que exploram partes inerentes à arqueologia, com exercícios de escavações (MAGUSTO, 2018b). Apesar destas atividades serem muito bem recebidas pelo público, tanto docentes como alunos, a sua realização tem sido menos recorrente ao longo dos anos (MAGUSTO, 2018b). A realização do presente estágio na SACMCV teve assim por objetivo trabalhar de perto com os membros da Secção e usufruir dos seus conhecimento e experiência prévia, principalmente no que respeitava à divulgação do património arqueológico para com a população local. Este trabalho de proximidade permitiu ter um conhecimento prévio do tipo de atividades já levadas a cabo e da recetividade dos diferentes públicos, ajudando a perfilar a nossa abordagem. O facto de ter sido possível participar nos trabalhos de campo de prospeção e relocalização arqueológica, e de ter sido facultado acesso ao espólio arqueológico em depósito foram experiências fundamentais para melhor conhecer as características do património arqueológico deste território e desenvolver atividades que representassem e celebrassem esses valores adequadamente.
10 CAPÍTULO 2 - ESTADO DA ARTE 2.1. Arqueologia em Castelo de Vide Castelo de Vide tem sido alvo de várias intervenções arqueológicas ao longo dos anos, levadas a cabo desde o século XIX, tratando-se de uma região com grande diversidade de sítios arqueológicos. Embora tenha beneficiado de vários estudos nos primórdios da discpilina arqueológica relativamente ao período Neolítico, a arqueologia em Castelo de Vide começou a crescer exponencialmente a partir da década de 70, com a elaboração da Carta Arqueológica de Castelo de Vide (RODRIGUES, 1975), que muito veio dar a conhecer acerca do território no que concerne aos sítios arqueológicos do concelho, proporcionando localizações e descrições dos mesmos. Outro momento muito importante para a consolidação da arqueologia em Castelo de Vide, foi a já referida formação do Grupo de Arqueologia em 1981, inserido num programa de Ocupação de Tempos Livres, sendo mais tarde inserido nos serviços municipais. O Grupo, e posterior Secção de Arqueologia, realizou desde o momento da sua fundação uma série de investigações pelo concelho, tanto em contexto urbano como rural, cuja maioria dos resultados permanecem por publicar. Nos últimos anos, Castelo de Vide tem continuado a ser palco de inúmeras investigações de âmbito académico, principalmente no contexto de mestrado e doutoramento, sempre com o apoio da Câmara Municipal e da Secção de Arqueologia. Para o período Paleolítico, as evidências arqueológicas são escassas, embora estejam documentadas duas possíveis estações ao ar livre nas zonas de Canto do Vasco e Pegos Dobrados (ALMEIDA, CARVALHO e AVELEIRA, 2011). Mais recentemente, durante uma obra de salvaguarda de vestígios arqueológicos na Central Fotovoltaica de Tendeiros, foram identificados cerca de 16 artefactos líticos fora do seu contexto primário (RICARDO, 2020). No entanto, para o período Neolítico as publicações são contrariamente bastante numerosas, especialmente no que diz respeito ao megalitismo. Em 1868, foi realizado um inventário sobre os dólmens de Portugal, incluindo um levantamento das antas deste concelho e alguns machados líticos (PEREIRA da COSTA, 1868). Importa também salientar as publicações de Laranjo Coelho, com levantamentos descritivos de vários monumentos megalíticos (LARANJO COELHO, 1924), e, realizada mais tarde, a investigação de Jorge de Oliveira, que analisou e inventariou os monumentos
11 megalíticos e a cultura material associada de toda a bacia hidrográfica do rio Sever, dando conta da manifesta diferença entre os ambientes de xisto e granito, possuindo os últimos uma maior riqueza e abundância de recursos (OLIVEIRA, 1997). Não obstante, existem outras publicações, de carácter mais específico, que importam mencionar, como, por exemplo, o artigo referente à datação de dois menires da região de Castelo de Vide, o menir da Meada e o menir da Patalou, que produziram datações situadas no Neolítico antigo, durante o 6º milénio, posicionando-os num momento anterior ao apogeu dolménico (OLIVEIRA, 2016) e a intervenção arqueológica da anta dos Currais do Galhordas, acompanhada de análises químicas que determinaram também um uso posterior, durante a Idade do Bronze, da estrutura estudada (MONTEIRORODRIGUES e OLIVEIRA, 2018). Esta teoria é também defendida na tese de mestrado de Ana Paroleiro, onde são analisadas várias tipologias de cerâmica identificadas associadas a dólmens da região que remetem para a Idade do Bronze, provando uma utilização de longa duração dos monumentos no território de Castelo de Vide (PAROLEIRO, 2016). O período proto-histórico apresenta dados de novo mais escassos, embora se destaque o artigo sobre o povoamento proto-histórico na zona do castelo da vila de Castelo de Vide (MAGUSTO, 2007) e o trabalho referente a um possível povoado fortificado em Castelo Velho de Sever, do período Calcolítico (AGUILAR, 1995). Importa ainda fazer referência à publicação acerca da única estela de tipo alentejano identificada no concelho de Castelo de Vide, na Tapada da Moita, decorada em relevo por um objeto bi-ancoriforme com correias e por uma espada de punho arredondado (OLIVEIRA, 1986). Por sua vez, para o período Romano os dados disponíveis são de novo mais expressivos. Castelo de Vide encontra-se nas proximidades da cidade romana de Ammaia, o que explica a presença de sítios arqueológicos deste período. Destacam-se nesse contexto as publicações referentes à Estação arqueológica de Mosteiros. A primeira obra faz referência ao sítio e à interessante cultura material que foi lá identificada, incluindo a única urna em chumbo conhecida no Alto Alentejo e um tramo de mosaico que não foi possível preservar (MONTEIRO, 2011). Este sítio foi primeiramente considerado uma villa romana, mas devido ao extenso espólio arqueológico de estruturas e materiais, foi apresentada a possibilidade de se tratar de um “santuário de terraços”, hipótese avançada por André Carneiro (2014) na sua análise do
12 povoamento rural na região do Alto Alentejo. Da mesma forma, a tese de doutoramento de Mélanie Wölfram sobre o processo de cristianização no Sul da Lusitânia merece menção pela abordagem a sítios e vestígios romanos e alto-medievais no território de Castelo de Vide (WOLFRAM, 2011). Igualmente de destacar são o Estudo Preliminar acerca de Cerâmica Comum romana no concelho (PEREIRA, MONTEIRO, 2011) e a tese de mestrado referente ao sítio arqueológico de Mascarro (RICARDO, 2015). Tal como o Megalitismo é das manifestações neolíticas cuja presença no território castelovidense é mais expressiva, o mesmo pode ser dito em relação às sepulturas escavadas na rocha e de lajes para o período alto-medieval. As publicações acerca das mesmas são diversas. Para começar, é importante referenciar a Carta Arqueológica do Concelho, onde foram apresentadas várias necrópoles e sepulturas na região pela primeira vez, incluindo as suas localizações, acessos e dimensões (RODRIGUES, 1975). Também o suplemento à Carta Arqueológica que a mesma autora publicou é relevante, dedicado singularmente a sepulturas, reunindo informação acerca do espólio exumado e implementando um novo método de sistematização para a criação de categorias formais para o espólio cerâmico das sepulturas com base nas suas formas e dimensões (RODRIGUES, 1978). Ainda relacionado com o estudo destas estruturas, importa mencionar a obra sobre a intervenção de emergência realizada a duas necrópoles alto-medievais identificadas após a descida das águas da barragem de Póvoa e Meadas (CAEIRO, 1984). Nos anos mais recentes, destaca-se ainda a tese de mestrado de Sara Prata onde se tentou perceber uma evolução mais linear relativamente às formas das sepulturas alto-medievais, chegando-se à conclusão de que esta variedade provavelmente nada se devia a uma evolução formal, mas antes à continuidade e descontinuidade de tradições e influências (PRATA, 2012). Este trabalho serviu como ponto de partida para o posterior projeto PRAMCV - Povoamento rural alto medieval no território de Castelo de Vide. Deste modo, publicaram-se vários trabalhos referentes aos vestígios do povoamento em contexto rural alto-medieval em Castelo de Vide, destacando-se os artigos relativos aos resultados obtidos do estudo das intervenções arqueológicas realizadas (PRATA e CUESTA-GOMÉZ, 2017; PRATA, 2018a, entre outros), resultando ainda na tese de doutoramento da autora (PRATA, 2018b). Já situado no período da medievalidade plena, queremos destacar as obras de Diamantino Trindade que são um importante contributo para a inventariação da arquitetura religiosa de Castelo de Vide, realizado com um olhar mais histórico-
13 cronológico (TRINDADE, 1979). A tese de mestrado de Ana Jorge deve ser também relembrada, por apresentar uma proposta para o desenvolvimento do burgo de Castelo de Vide, das suas muralhas, habitações e castelo, que terá tido início no século XIII (JORGE, 1991). A grande maioria de intervenções arqueológicas do período Moderno são de contexto urbano, realizadas no âmbito da salvaguarda do património. Importam referir alguns dos acompanhamentos que dão conta do grande número de silos identificados no centro histórico: o acompanhamento na Travessa do Saco nº 5, onde foram encontrados três silos de cronologia moderna (SANTOS, 2008) e as escavações realizadas pelo SACMCV a partir de 1988 no edifício do museu da Sinagoga, permitiram identificar testemunhos das diferentes ocupações e identificar três silos com fases distintas de utilização, sendo que a mais antiga e contemporânea da sua abertura, remontaria a finais do século XIV (SANTOS, 2006). Ainda acerca dos silos de Castelo de Vide, foi recentemente publicado um artigo que procurou analisar estas estruturas negativas e interligar os vários momentos da sua utilização com os processos de evolução da vila (CUESTA-GÓMEZ, PRATA e MAGUSTO, 2021). As intervenções realizadas nas cavalariças do castelo de Castelo de Vide permitiram também identificar um conjunto muito interessante de espólio, incluindo pontas de correia esmaltadas de cerca do século XIV-XV (MAGUSTO, 2019) e um conjunto de estruturas e pavimentos com indícios de abandono nos séculos XVII, XVIII e XIX (SANTOS, 2004). Recentemente, foi publicado um artigo que analisa os chafurdões, um tipo de estrutura vernacular e que propõe a sua interpretação como estruturas de uso temporário associadas simultaneamente a transformações nas práticas agrícolas e ao desenvolvimento urbano de Castelo de Vide em época Moderna (CUESTA-GÓMEZ e PRATA, 2021). É necessário ainda ressaltar que ao longo dos anos a SACMCV realizou numerosas prospeções, levantamentos, registos gráficos e escavações pelo território, tanto em contexto urbano como rural. No entanto, os resultados destas investigações encontram-se arquivados no acervo da Secção e a maioria destes trabalhos encontram-se ainda por publicar. O projeto de investigação para a elaboração da Nova Carta Arqueológica do território de Castelo de Vide (PIPA VIDE 2019-2022) atualmente em curso, pretende precisamente sistematizar toda esta informação em arquivo e oferecer novas leituras para a evolução diacrónica do território.
14 2.2. O fenómeno da Arqueologia Pública Mediante o exposto, torna-se claro que a vila de Castelo de Vide e o seu espaço rural conservam um importante número de vestígios arqueológicos, que têm contribuído para a reconstrução do passado deste território. No entanto, os resultados obtidos no âmbito de trabalhos arqueológicos nem sempre têm sido adequadamente divulgados para o público geral, um problema que se alarga e pode ser observado a nível nacional. Fora do âmbito português, a chamada arqueologia pública ou arqueologia comunitária tem sido muito promovida, embora a sua definição sempre tenha produzido bastante discussão, visto englobar vários conceitos e perspetivas (MOSHENKA, 2017: 4). O termo “arqueologia pública” emergiu pela primeira vez nos anos 70 do século XX, nos Estados Unidos, com a publicação de um artigo chamado “Public Archaeology” (MCGIMSEY, 1972). Nesta obra, o autor especificou o que entende por arqueologia pública e a necessidade de envolver o público na disciplina, de forma a facilitar o acesso à informação que se produz e, consequentemente, de melhor preservar os vestígios arqueológicos. Acima de tudo, McGimsey propôs um programa de apoio à arqueologia por parte do Estado, preocupado com a legislação envolvente e com a manutenção da preservação destes vestígios nos Estados Unidos. Nos anos seguintes, esta necessidade de educar o público para a preservação do património acentuou-se, especialmente nos países anglo-saxónicos. Na revista American Antiquity foi posteriormente publicado um artigo acerca da relação que um arqueólogo pode estabelecer com o público interessado em saber mais acerca das práticas arqueológicas (FAGAN, 1977). Foi, no entanto, a partir dos anos 80 que este movimento começou a crescer com grande vigor, com a criação de departamentos universitários; realização de debates, colóquios e sessões de esclarecimento, assim como o recrutamento de voluntários, de maneira a promover o envolvimento do público em trabalhos arqueológicos (ANTAS, 2013: 85). Surgiram também organizações como o Archaeological Institute of America (AIA) e a Society for American Archaeology (SAA), cujas principais prioridades refletidas num inquérito feito aos seus membros, centravam-se na educação e promoção da arqueologia para o público geral (FAIRBANKS ASSOCIATES, 1988). Do mesmo modo, a SAA organizou várias atividades e projetos, como o “Save the Future for the
15 Past”, realizando programas de voluntariado e atividades ligadas à educação formal e informal do público acerca da arqueologia, partilhando esforços com outros importantes grupos (SOCIETY FOR AMERICAN ARCHAEOLOGY, 1990). Um destes grupos e que merece menção é o Public Awareness Working Group (PAWG), fundado em 1986, cuja função foi, e continua a ser, a de consciencializar o público para os vestígios arqueológicos, responsável pela criação do Listing of Education in Archaeological Programs (LEAP). Este documento trata-se de uma lista com cerca de 1,200 entradas, cada uma descrevendo atividades relativas à educação patrimonial, realizadas entre 1990 e 1991 (KNOLL, 1992). Juntamente com estes grupos e organizações, destacam-se ainda outras obras estadunienses consideradas paradigmáticas neste campo. Em 1991, foi publicado na revista American Antiquity, um artigo relativo aos diferentes públicos da arqueologia, onde o público geral é subdividido de acordo com os seus interesses e/ou conhecimentos. Foi por esta altura que se começaram a demonstrar esforços para adaptar a informação arqueológica a diferentes tipos de público (MCMANAMON, 1991). No ano de 1994, foi também publicado um livro de grande interesse, que se dedicou ao estudo da maneira como o passado é ensinado nas escolas, museus e sítios históricos, argumentando que este, no geral poderá beneficar de uma perspetiva menos “documentária” e mais ligada à arqueologia (STONE, MOLYNEUX, 1994). Importa referir ainda que este livro se dedicou a explorar esta vertente em várias partes do mundo, demonstrando que a arqueologia pública se tornou neste momento num fenómeno a nível mundial. Em 1999, Tim Schadla-Hall propôs um novo paradigma para o termo de arqueologia pública, de modo a que este não se preocupasse somente com a difusão de informação arqueológica para a sociedade, mas também com o impacto que tem na sociedade a nível económico, chegando também a discutir o tráfico ilícito de antiguidades, o uso político que é dado à arqueologia e até a imagem que transparece ao público (SCHADLA-HALL, 1999) (ANTAS, 2013: 86). No século XXI, a prática da arqueologia pública começou a observar um imenso crescimento, no entanto, a variedade de conceitos para o que é a arqueologia pública e comunitária aumentam também, não existindo uma definição certa ou acordada. Esta falta de concordância acerca do tema torna-o muito vasto, com uma variedade de tipologias que necessitam de
16 ser discutidas e consideradas (figura 1). Desta maneira, apresentam-se aqui os conceitos, considerados por nós, centrais sobre a arqueologia pública: Em primeiro lugar, há-que considerar a arqueologia pública, na sua acepção inicial, que defende uma arqueologia apoiada pelo Estado, com cedência de fundos públicos a projetos de nível nacional, regional e local, que visem a preservação e gestão de arqueologia. Neste sentido, este não se foca no trabalho direto com a comunidade, mas numa interpretação mais democrática que apoie a arqueologia em si (MOSHENKA, 2017: 7 e 8). Por outro lado, a arqueologia pública também deve ser interpretada enquanto uma prática comunitária, apelando à participação de membros do público nas mais variadas atividades científicas relacionadas com arqueologia, podendo estas ser elaboradas por diferentes instituições que lidem com património arqueológico, ou pelos próprios arqueólogos (MOSHENKA, 2017: 8). Não se distanciando muito do conceito anterior, encontra-se a ideia da arqueologia pública enquanto disciplina educacional, partindo do principío de que o conhecimento arqueológico deve ser partilhado com todos, sob as mais diversas formas ou realizada por distintas instituições. Outro aspeto considerado por nós importante é a aproximação da arqueologia com a cultura popular e o entretenimento, como por exemplo através de programas televisivos ou videojogos, que acabam por ser os maiores veículos de transmissão da arqueologia dos nossos dias, especialmente para o público mais diversificado. Um estudo recente realizado pelo NEARCH demonstrou que 56% da população se informa acerca da arqueologia através de documentários, notícias na rádio e na televisão (MARX, NURRA, ROSSENBACH, 2017: 27). Recentemente, foi também realizada uma tese que tentou demonstrar o potencial que os videojogos podem ter, pegando numa amostra de jogadores, sendo que 66% a 75% dos participantes estão interessados em jogos cuja informação arqueológica é precisa (BOERBOOM, 2019: 48). Para além disso, o estudo demonstrou que uma pequena parte dos participantes gostou mais de visitar sítios arqueológicos e museus, depois de jogar videojogos (BOERBOOM, 2019: 49). Por outro lado, torna-se cada vez mais emergente conhecer e estudar a maneira como a cultura popular aborda a arqueologia e o papel do arqueólogo. Um relevante exemplo deste tipo de estudo é o trabalho de Cornelius Holtorf que analisou uma série de livros, programas televisivos, jogos e filmes ligados ao tema da arqueologia,
17 estabelecendo posteriormente os diversos tipos de arqueólogo que são transmitidos ao público (como o “arqueólogo-aventureiro”; o “arqueólogo-detetive”; o “arqueólogo das revelações profundas”; o “arqueólogo, protetor de artefactos”) (HOLTORF, 2007). Também a arqueologia pública abrange outras áreas direcionadas ao estudo do contexto económico, político, social e ético da arqueologia. Procura conhecer as implicações da preservação patrimonial no turismo, assim como nas instituições relacionadas com a gestão do património. Da mesma forma, o contexto político e legal da arqueologia determina o modo como são avaliados os sítios arqueológicos, impondo, ou não, limites no seu estudo; e, ainda, procurando combater o tráfico ilegal de antiguidades (ANTAS, 2013: 87). Estas implicações também se podem traduzir na maneira como se protege um sítio arqueológico face a um conflito armado. De um ponto de vista sócio-cultural, a arqueologia pública também se preocupa com a formação de identidade individual e coletiva e na valorização da arqueologia local enquanto parte dessa identidade. Relativamente ao campo da ética, a arqueologia pública também reconhece as noções de inclusividade e integração e da propriedade cultural de determinado sítio arqueológico, face a ambições ligadas a antecedentes, como é o caso dos povos indígenas (MOSHENKA, 2017: 10). Figura 1 - Alguns tipos de arqueologia pública, segundo Gabriel Moshenka (MOSHENKA, 2017: 6).
18 Tal como foi até aqui expressado, a arqueologia pública tem vindo a ser um tópico cada vez mais falado e praticado. No caso português acabam por ser os museus os grandes responsáveis pela difusão do património arqueológico, organizando e promovendo atividades variadas com o público, muitas vezes recorrendo também à própria arqueologia experimental, como é o caso do Museu Arqueológico do Carmo, o Museu Nacional de Arqueologia, o Museu Interativo do Megalitismo de Mora ou o Museu do Côa. Juntamente com estes museus, é necessário falar do papel pioneiro que teve o Campo Arqueológico de Mértola (ou Mértola Vila-Museu) desde 1979, na divulgação do património e envolvimento do público em atividades arqueológicas. Trata-se de um projeto de longa duração que além de organizar atividades educativas de animação patrimonial destinadas a alunos do Pré-Escolar e 1º Ciclo e fornecer a opção de participar voluntariamente nas investigações, também organiza exposições, cursos livres, recriações históricas, visitas guiadas e organiza atividades com a Universidade Sénior de Mértola (MATEUS, 1998; PALMA et al., 2020). Nos últimos anos em Portugal, começaram a surgir outros projetos de divulgação e envolvimento da população que merecem menção: o Parque Arqueológico do Vale do Côa desenvolve e promove projetos educativos para público de idade escolar, com visitas guiadas a núcleos de arte rupestre e com oficinas de arqueologia experimental (LIMA, 2009). Na mesma região, o projeto PICMOR (Projeto de Investigação do Castelo de Monforte de Ribacôa) promove a participação direta de pessoas, grupos e associações na investigação, de maneira a democratizar a arqueologia local (FRANCISCO, GIL, 2016). Por último, importa ainda referir com distinção o projeto Outeiro do Circo, cuja tarefa de envolvimento do público e disseminação de conhecimentos se assumiu como um dos objetivos centrais do projeto e, não somente como uma parte secundária. Foram realizadas visitas guiadas ao sítio, criadas réplicas dos materiais para acompanhar as várias apresentações, organizados workshops de arqueologia experimental e foi ainda permitida a participação da comunidade nas intervenções (PORFÍRIO, 2015). Para além dos projetos previamente mencionados, também as Câmaras Municipais (Vila Franca de Xira, Castelo de Vide, Belmonte, Vouzela, entre outras) têm proporcionado oportunidades de participação direta nas intervenções, organizando
25 passados e costumes, promovendo também a investigação e exploração do território, assim como o desenvolvimento do espírito crítico para os jovens 5 . Em Espanha, este tipo de unidade didáctica é também muito utilizada, especialmente associada a museus. O Museu Arqueológico de Murcia desenvolve e disponibiliza online cadernos de atividades a ser realizados por diferentes ciclos escolares acerca de temas variados dentro da arqueologia e pequenas maquetes em papel de estruturas de habitação 6 . O Museu de Pré-História de Valência oferece igualmente unidades didáticas para diferentes ciclos de escolaridade, dedicando-se a explorar o período pré-histórico por meio de histórias e cadernos de passatempos 7 . Também o Museu Arqueológico Nacional de Madrid oferece um conjunto de fichas didáticas e puzzles para a educação primária e secundária e material de apoio correspondente para os professores. Oferece ainda jogos interativos na plataforma Kahoot, apresentações interativas sobre as diferentes peças do seu acervo, alguns exemplos de jogos históricos e ainda uma visita virtual ao museu 8 . Estes museus são apenas alguns dos exemplos que oferecem estas unidades didáticas, sendo que grande parte dos museus em território espanhol se dedica à educação fora dos próprios museus. No contexto português, a realidade é muito diferente, existindo uma menor disponibilidade para atividades pedagógicas em ambiente escolar ou museológico, que sejam facilmente acessíveis. Também a realização de atividades arqueológicas junto do público infantil e juvenil se encontra mal documentado. Inicialmente, queremos mencionar alguns estudos que abordam o potencial da arqueologia dentro da sala de aula, no auxílio de outras disciplinas ou do desenvolvimento de capacidades científicas. Assim, destaca-se especialmente um artigo feito com base num projeto de investigação, que visa o manuseamento de objetos arqueológicos no ensino da disciplina de história. No final da investigação produziramse resultados muito satisfatórios no que diz respeito à aprendizagem apoiada na utilização de fontes arqueológicas (RIBEIRO, 2007). Na mesma vertente de 5 Historic Environment Scotland, Learning Resources. Consultado a 22/11/2020. Disponível em: https://www.historicenvironment.scot/learn/learning-resources/teaching-resources/#themed-resources_tab 6 Museos Región de Murcia, Material Didáctico. Consultado a 23/11/2020. Disponível em: https://www.museosregiondemurcia.es/web/museosdemurcia/museo-arqueologico-demurcia/didactica/material-didactico 7 Museu de Prehistòria de València. Divulgación y Educación. Consultado a 23/11/2020. Disponível em: http://www.museuprehistoriavalencia.es/web_mupreva/publicaciones/divulgacion_educacion 8 Museo Arqueológico Nacional. Recursos. Consultado a 22/11/2020. Disponível em: http://www.man.es/man/educacion/recursos.html
26 pensamento, destaca-se um artigo que, por sua vez, é baseado numa tese de mestrado onde várias atividades foram realizadas junto a uma turma do 7º ano, onde foram abordados vários temas ligados à arqueologia através de uma metodologia ligada ao manuseamento do objeto arqueológico, cujos resultados foram também muito positivos, demonstrando que os artefactos arqueológicos se tratam de instrumentos fundamentais para o ensino de história (GIL, 2020). Da mesma forma, há quem aborde a arqueologia enquanto mecânica para incentivar a preservação ambiental em públicos pré-escolares, como mostra o artigo referente à tese ainda em desenvolvimento de Susana Santos e Maria Rodrigues (SANTOS, RODRIGUES, 2016). Por outro lado, torna-se relevante mencionar a tese de mestrado de Beatriz Barata, dedicada à análise dos métodos comunicativos dos museus de arqueologia perante os jovens entre os 13 e 17 anos, um público tipicamente díficil de atingir. Para além desta análise, procedeu a um balanço dos programas educativos e pedagógicos que vários museus nacionais e internacionais de arqueologia oferecem, terminando com a sugestão de um conjunto de experiências e atividades que podem ser implementadas nestas instituições (BARATA, 2017). Importa ainda referir o projeto Rede de Clubes de Arqueologia concebido pelo Museu Nacional de Arqueologia cujos objetivos recaem na consciencialização dos estudantes para a preservação do património arqueológico, comprometendo-se a assumir um papel dinâmico na partilha de informação com as escolas que tenham aderido ao projeto. Assim, proporciona material didático sobre as suas coleções e sobre temas gerais da arqueologia; organiza conferências, debates, workshops, ateliers e exposições (ANTAS, 2012). O website do projeto, embora não seja atualizado há cerca de 9 anos, ainda oferece fóruns para discussão e alguns recursos didáticos acerca dos vários períodos cronológicos 9 . No que diz respeito aos serviços educativos dos museus, a maioria dos museus de arqueologia em Portugal contam com diversas atividades pedagógicas realizáveis no espaço do museu, como é o caso do Museu Nacional de Arqueologia, o Museu Arqueológico do Carmo ou o Museu Municipal de Arqueologia de Silves. Um dos melhores exemplos será o Polo Arqueológico de Viseu António Almeida Henriques que conta com diversas atividades pedagógicas mediante marcação prévia, podendo também o grupo do Pólo Arqueológico dirigir-se às escolas para as realizar. Estas atividades são 9 Clubes de Arqueologia. Consultado a 01/12/2020. Disponível em: http://www.clubesdearqueologia.org/
27 dirigidas a públicos infantis e juvenis e são muito diversificadas com formações para professores, projetos de divulgação de arqueologia, visitas guiadas e visitas virtuais, disponibilizando ainda toolkits temáticos de arqueologia experimental. Também no website se encontra uma visita virtual ao museu, tal como uma galeria 3D de peças do seu acervo 10 . Apesar de grande variedade de recursos, não disponibiliza atividades pedagógicas online que possam ser realizadas de forma autónoma ou nas escolas. Ao contrário dos exemplos dados, o Museu de Arqueologia D. Diogo de Sousa em Braga é o único museu que, para além de promover a realização de atividades lúdicopedagógicos no espaço museológico, também disponibiliza no seu website recursos educativos dedicados à arqueologia 11 . Conta, portanto, com fichas informativas que visam comunicar diversos aspetos do trabalho arqueológico, e de fichas de exploração pedagógica, que por outro lado pretendem aprofundar conhecimentos acerca do Período Romano. 10 Pólo Arqueológico de Viseu. Consultado a 02/11/2020. Disponível em: https://www.poloarqueviseu.pt/ 11 Museu de Arqueologia D. Diogo de Sousa. Consultado a 02/11/2020. Disponível em: https://www.museuddiogodesousa.gov.pt/servico-educativo/
28 CAPÍTULO 3 - O PROJETO “CASTELO DE VIDE – APRENDER COM ARQUEOLOGIA!” 3.1. Definição do Público-Alvo A escolha do público infantil, entre os 8 e os 10 anos, justifica-se por se tratar de uma época de desenvolvimento fundamental dos indivíduos. É durante a infância (entre os 0-12 anos) que se estabelecem as bases para um desenvolvimento de um indivíduo autónomo e emocionalmente saudável, capaz de aprender e a participar no mundo, através do seu espírito crítico e criativo, com uma atitude exploratória e respeitadora para consigo, para com os outros e para com o mundo (PORTUGAL, 2008: 33). Simultaneamente, é neste período que são fornecidos conceitos muito importantes como a identidade, tolerância, consciência local e nacional e preservação do património (ALVES, 2014: 68). A sua importância deriva do facto de recaírem nas necessidades básicas do crescimento saudável, sendo estas ligadas ao reconhecimento e à afirmação (necessidade de se sentir aceite, respeitado e ser tido em consideração; necessidade de pertença a uma comunidade ou ser parte integrante de um grupo) que, por sua vez, são determinantes para o bem-estar ao nível emocional do sujeito para com o contexto onde se insere (PORTUGAL, 2008: 44). É entre os 6 e os 10 anos que o estudo das cronologias, do passado e do presente se começa a estabelecer muito associadas a experiências pessoais e ao seu relacionamento com os seus quotidianos. O seu conhecimento acerca do que os rodeia é ainda muito básico, mas parte sobretudo das áreas onde residem e que os envolve, sendo muito benéfico dar a conhecer aspetos da arqueologia local (DÍAZ, 2018: 21). No caso específico de Castelo de Vide, este aspeto é ainda mais acrescido porque se trata de um local com uma grande presença arqueológica, tanto pela quantidade e bom estado de conservação da maioria dos vestígios, como pela grande variedade dos mesmos, estendendo-se por diversos períodos. Embora se considere que estas necessidades possam ser respondidas ao longo da infância de um indivíduo independentemente do seu programa escolar, é durante os 3º e o 4º ano que ocorre um maior investimento nestas áreas, pois é a partir desta altura que se começam a ensinar conteúdos relacionados com a disciplina de História, fundamentalmente da história local e nacional. Nestes primeiros anos, a História
29 enquanto disciplina assume um papel formador da cidadania e que visa a melhor adaptação dos indivíduos para com a sociedade e para com o meio que os rodeia, “valorizando a sua identidade e raízes, respeitando o território e seu ordenamento”; e com o objetivo de “identificar acontecimentos relacionados com a história pessoal e familiar, local e nacional, localizando-os no espaço e no tempo” (s.a., 2018a: 2). É ainda importante esclarecer que a História enquanto ciência dá sentido ao passado, contextualiza e orienta o futuro. Permite-nos explicar as sociedades humanas atuais através das decisões e dos atos dos nossos antepassados (AMARAL et al., 2012: 4). Estas questões são também fundamentais para a formação da ideia de pertença: saber quem somos, de onde vimos e como nos situamos em relação aos outros e à sociedade. Para isso, é necessário que exista uma dimensão cultural e histórica sempre presente, de modo a esclarecer estes pontos (AFONSO, 2007: 18). É neste sentido que a arqueologia também se torna numa importante ferramenta de aprendizagem quando aliada à disciplina de história, uma vez que é também nestes anos que se procura reconhecer vestígios e factos importantes do passado local (construções, costumes, origens da povoação, tradições, entre outros) (s.a., 2018a: 5). Por outro lado, a introdução da arqueologia enquanto ciência nas salas de aula ajudará a aprendizagem de outras maneiras. Em primeiro lugar, a arqueologia é uma ciência que estuda as sociedades humanas e a ligação que estas criam com o seu meio, a partir do momento em que são criadas as primeiras ferramentas. A arqueologia abarca todos os períodos da existência do ser humano, mesmo aqueles onde a documentação escrita não era ainda uma realidade, concentrando-se, essencialmente no estudo da cultura material e dos locais que foram outrora ocupados. Assim, a arqueologia acaba por ter uma grande interdisciplinaridade, pois precisa de recorrer a diversas outras ciências e áreas para melhor compreender o passado, tais como a geologia, geografia, cartografia, desenho, etc. Desta forma, o ensino da arqueologia acaba por permitir um grande cruzamento com diversas disciplinas que, muitas vezes não ocorre na disciplina de história (DÍAZ, 2018: 15, 16; ZAPATERO, 2010: 163). Esta característica está também muito ligada ao próprio carácter de investigação da arqueologia que, por sua vez, permite o desenvolvimento do pensamento crítico, lógico e científico através da análise de materiais arqueológicos e suas técnicas de produção, que pode depois ser relacionado com momentos específicos no tempo. Desta maneira, cimentam-se as
30 cronologias aprendidas em aula enquanto se tem contacto direto com várias fontes e ciências (DÍAZ, 2018: 15; ZAPATERO, 2010: 166). Da mesma maneira, compreende-se melhor a evolução do tempo e da paisagem, o que facilitará também a compreensão de temas relacionados com a natureza e os seus processos. Ainda neste aspeto, podem ser apresentadas as relações que as sociedades antigas mantinham com o seu meio, o que, por sua vez poderá fomentar atitudes mais respeitadoras para com o património histórico, arqueológico e natural (DÍAZ, 2018: 16; ZAPATERO, 2010: 166). Estas atitudes também poderão estar ligadas às ideias de ecologia e proteção do ambiente, onde se poderão introduzir temas como as mudanças climáticas e a maneira como isso nos afetará a nós e aos vários vestígios arqueológicos encontrados. Por outro lado, é uma boa maneira de introduzir também questões ligadas à proteção, preservação e conservação dos vários sítios e monumentos históricoarqueológicos, uma vez que são estes que fazem parte do nosso passado comum e justificam quem nós somos atualmente (ZAPATERO, 2010: 166). Igualmente importante, é a capacidade de criar valores ligados ao respeito e compreensão da diversidade cultural, ajudando a promover tolerância e solidariedade para com os outros, a partir da ideia de que a arqueologia e a história pertencem a todos nós enquanto seres humanos (DÍAZ, 2018: 16). É fundamental ter também em consideração a própria praticidade que caracteriza a arqueologia, sendo isso um benefício no estímulo à aprendizagem. Sob esta perspetiva, a arqueologia poderá auxiliar a disciplina de história, tornando-a menos baseada em exposição de matéria e factos, fugindo um pouco da total dependência dos manuais escolares. Neste ponto, é importante ter em conta que, muitas vezes, estes métodos de ensino mais tradicionais apenas levam o aluno a decorar a matéria sem a aprender realmente, o que o torna incapaz de a aplicar em situações concretas (GIL, 2020: 352).
31 3.2. Metodologia Partindo do princípio de que a forma de comunicação da arqueologia que tende a produzir os melhores resultados é aquela que faz uso da educação e do envolvimento do público, pensámos que este seria o ponto de partida para um projeto de divulgação, desenvolvendo atividades pedagógicas para públicos escolares (ALMANSASÁNCHEZ, 2017: 23). Hoje em dia, o papel das escolas na educação infantil é intrínseco. Quer isto dizer, que são os espaços escolares que na maior parte dos casos se dedicam exclusivamente à educação e ao ensino das crianças (SANTOS, RODRIGUES, 2016: 623). Desta forma e tendo em conta a realidade pandémica, procurou-se criar atividades que pudessem ser postas em prática nas salas de aula, pelos professores. Conscientes de que o público escolar compreende várias idades e estágios de desenvolvimento decidimos definir o nosso público-alvo para nos ajudar a adequar os exercícios e os seus conteúdos. Assim, determinou-se que as atividades a serem criadas se destinavam a turmas do 1º ciclo, especificamente para os alunos com as idades compreendidas entre os 8 e os 10 anos, tal como exposto no subcapítulo anterior. Para a realização de um trabalho deste género, que procura criar ferramentas e, no fundo, analisar o modo como pode melhor proceder para a divulgação do património arqueológico, deve ser estabelecida uma metodologia qualitativa que analise e tenha em conta o impacto da sua realização. Este tipo de metodologia deve abordar os eventuais resultados desde uma perspetiva mais subjetiva. Não se deve preocupar somente com o resultado final, mas deve dar especial importância ao modo como estas atividades são realizadas (MACK et al. 2005: 2). Desta maneira, a metodologia idealmente empregue seria uma metodologia cuja investigação é feita a partir de observação direta participativa, entrevistas ao público-alvo e discussões de grupo, para obter um conjunto de dados detalhados acerca do comportamento dos indivíduos e do modo como são vistas as atividades (SANTOS, RODRIGUES, 2016: 625). No entanto, devido à realidade pandémica, as atividades não puderam ser realizadas e este tipo de relato não pôde ser construído, permanecendo apenas enquanto propostas de atividades para serem aplicadas no futuro. Por esta mesma razão, as atividades que aqui se propõe carecem de feedback por parte do público, sendo impossível inferir o seu impacto real, tanto ao nível cognitivo das crianças como enquanto método de divulgação.
32 Cientes de que isto poderia ser uma realidade tentou-se adaptar ao máximo as atividades que aqui se propõe para irem ao encontro das nossas idealizações mesmo com os atuais impedimentos. Assim, as atividades foram totalmente adaptadas para o formato de ficha. Por outro lado, fez-se uso de uma atividade de diagnóstico já existente, que pode ser facilmente realizada pelos professores aos seus alunos. A atividade chama-se de “Desenha um Arqueólogo” (Draw an Archaeologist Test) e enquanto método de diagnóstico tem-se revelado bastante útil, podendo ser aplicado no início e final das atividades. Desta maneira, servem enquanto modo de avaliação direta das ideias iniciais que os alunos possam ter e do conhecimento que vão adquirindo com o decorrer das mesmas (RENOE, 2003). Juntamente com as fichas de atividades a ser realizadas, criaram-se guiões para os professores com o objetivo de os introduzir ao tema e à atividade tratada, o que permitirá acompanhar corretamente os alunos. Estes guiões incluem também sugestões para a realização das atividades em si e a total resolução dos exercícios. Importa refletir quais as atividades cuja realização se demonstrou um sucesso enquanto bons métodos pedagógico, lúdico e divulgativo que serviram de inspiração para as atividades que aqui são apresentadas. Em especial, é preciso referir o projeto “CSIC at School”, que promove o ensino da ciência em sala de aula por meio de atividades pedagógicas ligadas à arqueologia, realizado com a colaboração de educadores de diferentes países e instituições educativas (DÍAZ, 2018). Para além do projeto enunciado, as atividades criadas neste âmbito inspiraram-se bastante nas atividades pedagógicas desenvolvidas ao serviço de vários museus (Museu Arqueológico Nacional de Madrid, Museu Arqueológico de Múrcia, Museu de PréHistória de Valência) e nas atividades da Society for American Archaeology, todas previamente mencionadas no capítulo Estado da Arte – Atividades Pedagógicas. De maneira a enquadrar de forma curricular os conteúdos apresentados nas várias Unidades Didáticas, foram consultados os Guias de Aprendizagens Essenciais para o 1º Ciclo em vigor redigidos pela Direção-Geral da Educação, com o objetivo de as tornar em ferramentas úteis, auxiliares de ensino para determinadas disciplinas (s.a., 2018a; s.a., 2018b; s.a., 2018c; s.a., 2018d). De um ponto de vista pedagógico, as atividades foram também fundamentadas através da inserção e comparação dos seus conteúdos às oito inteligências correspondentes à teoria de múltiplas inteligências (GARDNER, 1999), uma teoria muito usada em contextos de educação patrimonial, tal
33 como foi mencionado no Estado de Arte. Don Henson relacionou esta teoria com o conhecimento e competências que a arqueologia pode suscitar nos diferentes tipos de inteligências, mas para efeitos do presente trabalho, apresentamos as diferentes atividades aqui criadas e que contributos trazem segundo as múltiplas inteligências. Inteligências Diferentes atividades Como se aplicam? Linguística Atividade sobre os diferentes períodos Estas atividades foram desenhadas para trabalhar interpretações dos textos e imagens. Atividade “De que período sou?” Obriga a interpretar as pistas dadas para vestir corretamente os bonecos segundo os períodos históricos. Interpessoal Atividade “Monta a peça arqueológica” Atividade para ser realizada em grupo. Atividade “De que período sou?” Permite a sua realização em grupo. Intrapessoal Atividade “Draw-an-Archaeologist” Test Serve para refletirem sobe o papel de um arqueólogo e a importância que tem. Atividade “De que período sou?” Exercício para refletir acerca do passado, como as pessoas se vestiam e os costumes que tinham. Lógicomatemática Atividade “Monta a peça arqueológica” Devem contar os pedaços, descobrir o número total dos mesmos e saber montar as peças arqueológicas na sua totalidade. Musical NÃO SE APLICA Espacial Atividades sobre sítios arqueológicos São feitas para introduzir escavações arqueológicas e o sistema cartesiano de coordenadas. Atividade “Introdução à estratigrafia” Atividade que procura introduzir a lei de sobreposição de camadas, lei básica da geologia. CorporalCinestésica Atividade “Monta a peça arqueológica” Permite a manipulação de materiais, simulando vestígios arqueológicos. Atividade “De que período sou?” Manipulação de bonecos e roupas em papel, simulando vestuário da época.
34 Tabela 3 - As múltiplas inteligências segundo Gardner (1999), baseado na proposta de Henson (2017) relativamente às competências que a arqueologia pode ajudar a criar, mas adaptado às atividades que aqui são propostas. Tal como se pode observar, as atividades aqui criadas podem ser inseridas em diferentes tipos de inteligência, trabalhando assim várias competências dos alunos. Outro aspeto considerado para o presente trabalho foi a importância do manuseamento de artefactos no ensino da história. Os artefactos arqueológicos, mesmo que réplicas, são fontes primárias que exercitam a capacidade de experiência sensorial, auxiliando os alunos a acederem mais facilmente ao passado e a períodos históricos de forma mais concreta (RIBEIRO, 2007: 187). A apresentação destes objetos também lhes suscita maior interesse por se tratar de objetos antigos, usados outrora por sociedades que desconhecem, tornando a aprendizagem mais dinâmica e interessante. Esta metodologia de ensino encaixa-se bastante num método de aprendizagem construtivista e permite que o aluno deixe de ser unicamente um recetor e ouvinte do conhecimento que o professor tenta transmitir, passando a ser o protagonista do seu próprio conhecimento (RIBEIRO, 2007: 194). Tendo isto em conta, algumas das atividades foram pensadas para inserir esta vertente de manipulação de objetos. Embora o ideal seja a utilização de réplicas dos objetos arqueológicos, não se pôde proceder desta forma e, como tal, procurou-se recriar em papel alguns destes materiais. Baseando-nos na atividade “Quanto pedaços fazem um prato?” do Pólo Arqueológico de Viseu António Almeida Henriques reproduzimos digitalmente alguns pratos que se encontram armazenados na Secção de Arqueologia da Câmara Municipal de Castelo de Vide, a maioria proveniente de contextos de escavação arqueológica, cuja tipologia permitia a colagem em pratos de Naturalista Atividade “Introdução à estratigrafia” Aprendem acerca da formação de camadas, algo que se alarga para todo o sítio natural. Atividade sobre os sítios arqueológicos Compreendem como se forma um sítio arqueológico, através de processos estratigráficos.
41 materiais. Neste sentido, os arqueólogos usam a informação que obtêm através dos materiais que as pessoas do passado criaram, os artefactos, e onde as deixaram, o contexto, para reconstruir a história dos humanos que ali viveram (DÍAZ, 2018: 25). Para além de tudo isto, importa ainda ressaltar a importância da arqueologia: a arqueologia existe, juntamente com a história, para estudar o passado e auxiliar-nos a compreender as razões por detrás do nosso presente. No fundo, são disciplinas que nos ajudam a compreender o porquê de as coisas serem como são hoje em dia e que nos ajudarão também a moldar o nosso futuro. 4.2. Atividade 2 - “Os diferentes períodos” São quatro atividades de cariz histórico, que se prendem na introdução de diferentes períodos: o período neolítico, o período clássico/romano, o período medieval e o período moderno, escolhidos por serem aqueles que melhor se distinguem para o território português e os que estão mais bem documentados a nível histórico e arqueológico para a região de Castelo de Vide. Cada atividade é composta por dois exercícios cada: o primeiro exercício é comum a todos, variando apenas os tipos de materiais e consequentes objetos; o segundo exercício varia por se encontrar dependente do tipo de vestígio arqueológico escolhido para representar o período. Estas atividades são simples e tentam relacionar e valorizar a história local e nacional, fazendo uso de unidades de referência temporal, tal como requerido no documento de Aprendizagens Essenciais do 4º Ano. Tal como já foi anteriormente defendido, o ensino da História tem também um papel muito importante para o desenvolvimento infantil, uma vez que constitui uma base para a formação de ideias de cidadania, identidade, consciência nacional e de preservação do património (ALVES, 2014: 68). Para introduzir os diferentes períodos, foi escrito um texto introdutório com as características básicas sobre o que os marcou. A acompanhar o texto, foi feita uma ilustração de como seria a paisagem na altura, com estruturas consideradas significativas. Para além desta paisagem, foram desenhados vários materiais obtidos nesta altura, embora não sejam exclusivos dos períodos em questão. Depois desta breve explicação, surge o primeiro exercício da atividade em que devem pintar apenas os
42 objetos que podiam ser construídos com base nos materiais apresentados anteriormente. Devem, portanto, utilizar o raciocínio lógico para perceber que tipos de ferramentas e artefactos existiam à época. O exercício seguinte foca-se na morfologia de uma estrutura ou elemento arqueológico considerado especialmente emblemático para o período em questão, existindo alguma variedade no tipo de exercício que é, dependendo do vestígio que é apresentado. 4.2.1. Atividade “O Período Neolítico” Objetivos: • Introduzir o Período Neolítico e ajudar os alunos a reconhecer alguns aspetos que o marcaram, tais como os materiais, as ferramentas e uma estrutura típica do Período. • Atividade de interpretação de textos e imagens, promovendo o pensamento crítico, a associação e ordenação de ideias. Duração da Atividade: 30 minutos Materiais Necessários: Lápis de carvão, borracha e material de desenho. Para a atividade em questão, trabalhou-se a ideia de o período neolítico ter sido uma altura de renovação tecnológica a nível agrícola. Quer isto dizer que foi dado especial ênfase à ideia de que foi a partir deste período que se desenvolveram técnicas de domesticação de animais e de plantas, podendo as sociedades viver agora de forma sedentária. A representação deste período foi feita através de uma casa feita de materiais perecíveis (madeira e colmo), com a presença de alguns animais domesticados (como a cabra, a ovelha e o cavalo). A rodear esta ilustração encontram-se diversos tipos de materiais que eram usados na altura (pedra, alimentos, carne, madeira, fertilizante, produtos animais, peles e ossos) para, de forma mais ilustrativa, facilitar a compreensão do período e a realização do próprio exercício. Depois de analisados os tipos de materiais que eram usados, devem conseguir, através do raciocínio lógico, perceber quais são os objetos que possuem estes materiais. Devem, assim, pintar somente esses objetos, utilizando as cores que acharem corretas. Para este exercício devem pintar a placa-ídolo em xisto, a foice de madeira e sílex, agulhas em osso e o machado de pedra
43 polida. Os objetos que devem deixar por pintar são a espada de ferro, o telemóvel e a caneta. Para o exercício seguinte, a estrutura escolhida foi uma anta, uma vez que este tipo de estrutura é das mais reconhecidas pela paisagem de Castelo de Vide e das que melhor identifica o período em questão (ANEXOS I – Figura 1). Num primeiro momento, o exercício explica o que é uma anta ou dólmen, para que serviam e os elementos que a constituem. De seguida, procurando introduzir um elemento arqueológico da região de Castelo de Vide, devem identificar os elementos explicados anteriormente, numa anta visitável do território castelovidense. Para o exercício, a anta usada foi a Anta da Melriça, que é facilmente visitável e das que melhor se conserva. 4.2.2. Atividade “O Período Romano” Objetivos: • Introduzir o Período Clássico/Romano e ajudar os alunos a reconhecer alguns aspetos que o marcaram, tais como os materiais, as ferramentas e compreender a funcionalidade das aras votivas. • Atividade de interpretação de textos e imagens, promovendo o pensamento crítico, a associação e ordenação de ideias. • Com a criação de uma dedicação a uma divindade, pretende-se introduzir aspetos da mitologia romana e do latim, aspetos importantes da epigrafia romana. Duração da Atividade: 30 minutos Materiais Necessários: Lápis de carvão, borracha e material de desenho. Este período foi retratado como tendo sido uma altura de grande desenvolvimento, tendo os romanos conquistado uma grande parte do mundo e inventado algumas coisas que hoje conhecemos. A ilustração que se criou para representar o período foi um templo romano, uma das estruturas mais representativas do período. Os materiais que foram utilizados foram também aqueles que se consideraram mais representativos da época: as pedras, madeira, o garum, o ferro, vinho e azeite e opus caementicum. Tal como foi dito, este exercício foi implementado em todas as
44 atividades sobre os diferentes períodos históricos, devendo os alunos pintar apenas os objetos que têm por base os materiais expostos antes. Assim, os objetos a pintar neste exercício são: o escudo em ferro (scutum), o gládio de ferro e a escultura de um imperador em pedra. Os objetos a deixar em branco são o telemóvel e a caneta. O exercício seguinte foi modificado para integrar de melhor maneira o património arqueológico romano de Castelo de Vide, uma vez que são poucas as estruturas na região fáceis de expor ao público escolhido 12 . Assim, explicou-se o que é uma ara romana, partindo do exemplo de uma ara votiva identificada na Estação Arqueológica dos Mosteiros em Castelo de Vide. De seguida, o exercício propõe aos alunos a criação de uma dedicação em latim. Esta dedicação deve ser feita a uma das divindades romanas indicadas, totalmente em latim, usando os termos apresentados e incluindo o nome do aluno. Apesar de todas estas limitações, o objetivo deste exercício não é criar um conjunto de epígrafes gramaticalmente corretas, nem exemplos exatos das epígrafes romanas. Pelo contrário, o importante é que este exercício consiga cimentar alguns conhecimentos sobre este tipo de inscrições, fomentando também alguma curiosidade acerca do tema. 4.2.3. Atividade “O Período Medieval” Objetivos: • Introduzir o Período Medieval e ajudar os alunos a reconhecer alguns aspetos que marcaram esta altura, assim como saber reconhecer os materiais e as ferramentas que eram usadas, os castelos e seus elementos. • Atividade de interpretação de textos e imagens, promovendo o pensamento crítico, a associação e ordenação de ideias. Duração da Atividade: 30 minutos Materiais Necessários: Lápis de carvão, borracha e material de desenho. Para o período medieval, tentou encontrar-se um consenso relativamente à definição de um período marcado por tão grandes mudanças, sem retratá-lo como a 12 Importa referir a existência de um forno romano bem conservado no concelho de Castelo de Vide, embora o mesmo não se encontre visitável. Por essa razão e pelo facto de se tratar de uma estrutura relativamente complexa de se explicar a um público tão jovem, preferiu-se escolher outra evidência arqueológica.
45 época das trevas como muitas vezes é descrito. Assim, mencionou-se vários aspetos importantes da altura como a construção de castelos; do sistema económico imposto, o feudalismo; da religião cristã e do advento das universidades. Para além disso e à semelhança das restantes atividades deste género, definiram-se vários tipos de produtos que eram obtidos e utilizados: pedra, alimentos (como o trigo e as favas), pão e queijo, madeira, fertilizantes e pedras preciosas. Mais uma vez, seguindo o protótipo geral da atividade, os alunos deviam relacionar os produtos que eram obtidos com os artefactos que depois eram utilizados, deixando por pintar os que nada tinham a ver com os materiais apresentados antes. Desta forma, devem pintar a espada de ferro, a foice de ferro, a coroa e o elmo de ferro. Para o exercício seguinte, a estrutura que se escolheu tratar foi o castelo, explicando os seus elementos e para que serviam, tal como na Atividade dedicada ao período neolítico. Depois de estabelecidos os vários elementos que fazem um castelo medieval, foi depois criado um castelo inspirado no castelo de Castelo de Vide, para os alunos relacionarem os vários elementos comuns a estas estruturas defensivas. Decidiuse não se representar a totalidade do castelo de Castelo de Vide, uma vez que foi sujeito a várias modificações ao longo dos anos. Por outro lado, também é importante que os alunos reconheçam os elementos básicos de um castelo. 4.2.4. Atividade “O Período Moderno” Objetivos: • Introduzir o Período Moderno e ajudar os alunos a reconhecer alguns aspetos que marcaram esta altura, os materiais e as ferramentas que eram usadas, assim como reconhecer chafurdões. • Atividade de interpretação de textos e imagens, promovendo o pensamento crítico, a associação e ordenação de ideias. Duração da Atividade: 30 minutos Materiais Necessários: Lápis de carvão, borracha e material de desenho. O período Moderno foi retratado pelas características que o melhor define: o Renascimento e a época das Grandes Navegações marítimas. Apesar destas grandes
46 mudanças que, no fundo, introduziram a sociedade Ocidental nos primeiros momentos da Globalização, a ilustração foi representada tendo por base o vestígio arqueológico da época que melhor se documenta em Castelo de Vide, o nosso caso de estudo. Os materiais escolhidos para representar este período foram: pedra, ouro, cana-de-açúcar, madeira, ferro e pólvora. É com base nestes materiais que devem pintar os objetos corretos relacionados com o período no primeiro exercício da atividade: o canhão, a nau portuguesa e o arcabuz. O exercício seguinte pretende, por sua vez, explicar o que são os chafurdões e os elementos que o compõem de forma geral. Para isso, utilizou-se um exemplo visitável em Castelo de Vide, o chafurdão de Vale de Cales (ANEXOS I – Figura 2). 4.3. Atividade 3 - “De que período sou?” Objetivos: • Introduzir os diferentes períodos sob uma perspetiva diferente, demonstrando que cada período é também marcado por modas e costumes distintos. • Cimentar conhecimentos históricos, introduzindo conceções mais objetivas a termos que são naturalmente mais subjetivos (como a questão do tempo). • Exercício de reflexão acerca do passado. • Interpretação das várias pistas dadas de forma a chegar à correta resolução do exercício. Duração da Atividade: 1 hora Materiais Necessários: Tesoura. A cola e a cartolina são opcionais. Esta atividade é composta por apenas um único exercício idealmente para ser encarado como um jogo, realizado em grupo. O grupo que terminar de vestir os bonecos mais rápido e de forma correta ganha. Para esta atividade foram criadas ilustrações de vários bonecos de papel (quatro meninos e quatro meninas) que representam diferentes períodos. Os bonecos encontram-se em roupa interior, adaptada à época que os bonecos representam. Juntamente com os bonecos são disponibilizadas fichas referentes aos quatro períodos selecionados anteriormente (Período Neolítico, Romano, Medieval e Moderno), cada
47 uma com pistas específicas acerca da roupa usada na época. Os alunos devem cortar os bonecos, as roupas e as fichas e devem ler, interpretando as pistas das fichas de maneira a vestirem os bonecos de acordo com o período que representam. As roupas escolhidas são uma reflexão generalizada dos estilos que fizeram parte de cada período, não devendo os exemplos escolhidos ser tomados como totalmente transversais ao período inteiro. Os bonecos que representam o período neolítico foram desenhados com cabelos compridos e desgrenhados, tentando transmitir uma maior antiguidade e consequente falta de tecnologias em comparação com os outros bonecos. Embora as roupas que usem não sejam necessariamente simples na sua manufatura foram retiradas e trabalhadas diretamente a partir da natureza, com peles e lãs pouco trabalhadas. Os acessórios são também importantes para criar maior distinção com os restantes períodos, com os bonecos a usar colares com dentes de animais e rochas, e agulhas feitas em osso para prender as roupas (ANEXOS I – Figura 3). Por sua vez, os bonecos do período romano são representados com roupas interiores típicas, cujas representações são encontradas em mosaicos do período. A menina usa um subligar e um strophium e o menino utiliza apenas um subligar (ANEXOS I – Figura 4). Os seus penteados são trabalhados, recriando o estilo de penteado que era também usado na época, sendo que a menina utiliza o cabelo preso com uma fita e com pequenos caracóis junto da testa. Por outro lado, o menino utiliza o cabelo curto. O calçado que usam é também o mais comummente usado durante todo o período romano: as sandálias. Quanto às roupas, o período romano é representado pelas togas, que vão diferindo de acordo com o estatuto e importância dos cidadãos que as usavam. Neste caso, representou-se a típica roupa de uma matrona constituída por uma túnica, uma stolla e uma palla. A stolla encontra-se presa com uma fíbula (ANEXOS I – Figura 6). O menino veste uma toga mais simples, a toga pura, que não é tingida e por isso permanece com a sua cor original (ANEXOS I – Figura 5). Para o período medieval, escolheu-se representar dois membros da nobreza cuja moda se insere no século XV, inspirada em quadros e iluminuras. A menina foi representada com um chapéu pontiagudo, o hennin, que cobre todo o cabelo. Os sapatos, os crakows, são igualmente pontiagudos e também são usados pelo menino. O chapéu que o menino usa também é típico do período, um acorn hat. Relativamente às roupas que usam, estas são feitas a partir de peles e tecidos ricos com cores típicas
48 (verde, vermelho e azul) e padrões. O vestido da menina é tipicamente muito longo constituído por dupla-saia com a cintura bem demarcada e com algum decote. Por sua vez, o menino foi representado com um gibão, um casaco acolchoado no peito e muito cintado acompanhado por calças justas (ANEXOS I – Figura 7). Contrastando com as escolhas anteriores de representar membros da classe alta de cada período decidiu-se representar o período moderno com dois bonecos camponeses para condizer com o tipo de estrutura que os melhor representa no contexto de Castelo de Vide: o chafurdão. Assim foram ambos representados com roupa interior muito simples feita de linho ou algodão. Os sapatos que usam são também de manufatura simples. Os cabelos encontram-se tapados por chapéus de pano, sendo que no caso do menino, ele usa uma crespina. As roupas são também simples com cores coloridas, mas claras. A menina usa uma saia comprida, meias altas e um avental (ANEXOS I – Figura 9). O casaco que usa fica por cima da camisa e serve para a proteger do sol e do trabalho no campo. Este aspeto também se encontra muito presente na roupa do menino que usa um casaco sobre a camisa que usa por baixo (ANEXOS I – Figura 8). Posto isto, este trata-se de um exercício que procura, essencialmente, cimentar ou introduzir conhecimentos históricos, fugindo um pouco da maneira tradicional de aprender os diferentes períodos. Para começar, faz uso de algo que já lhes é bastante familiar (as roupas) e, como tal, permite uma conceção mais objetiva de conceitos que são bastante subjetivos e, por vezes, difíceis de compreender (como é a questão dos períodos históricos). Assim, este exercício pode auxiliar na demonstração de que estes períodos não são apenas conceitos, mas que viveram pessoas nestas alturas com determinados costumes que se podem observar através das suas roupas. Neste sentido, esta atividade adquire grande importância para os alunos uma vez que dá a conhecer os diferentes períodos históricos de uma forma diferente e mais interativa. A nível de competências básicas, é também um exercício que obriga os alunos a selecionar e organizar a informação de forma a transformá-la em conhecimento, reconhecendo a evolução cultural e a diversidade de materiais e cores que eram utilizados. A nível interpessoal, trata-se também de uma atividade que motiva o trabalho em grupo.
49 4.4. Atividade 4 - “Introdução à estratigrafia” Objetivos: • Introduzir o tema da estratigrafia e o princípio da sobreposição de camadas. • Aprender a relacionar as mudanças ambientais com a formação e a transformação do nosso planeta. • Mostrar que o planeta se encontra em constante mudança. Duração da Atividade: 30 minutos para lerem a ficha e o professor explicar os conceitos apresentados; 10 minutos para preencherem a ficha. Materiais Necessários: Lápis de carvão e borracha. Este exercício pretende mostrar como se organiza a estratigrafia e para tal, é necessário explicar a formação de sequências estratigráficas com o objetivo de indicar os processos que influenciam os dados arqueológicos e a maneira como os investigadores lidam com estes aspetos (DÍAZ, 2018: 18). Assim, começou-se por se explicar conceitos básicos acerca da estratigrafia, para situar de melhor maneira os alunos no tema. Por meio de ilustrações, mostrou-se o que é a crosta terrestre, objeto de estudo para a estratigrafia. De seguida, para facilitar a compreensão do que são sequências estratigráficas e do que trata o princípio da sobreposição de camadas utilizou-se um exemplo gráfico de um bolo. O princípio da sobreposição de estratos foi posteriormente abordado, que é um elemento fundamental para o estudo da geologia, sendo que o estrato mais antigo é, por norma, o que se encontra mais longe da superfície e, por conseguinte, o mais recente é o que se encontra à superfície (DÍAZ, 2018: 32). Após este exemplo, explicou-se que os estratos são formados por vários processos causados pela natureza (como animais a fazer tocas, ou o vento a soprar nova terra), tratando-se de camadas de terra depositadas numa determinada área, que poderão ter vestígios da presença humana (DÍAZ, 2018: 31). Estes processos normalmente ocorrem ao longo de muito tempo. Para o culminar da atividade, foi desenhado um exercício cujo objetivo é preencher os espaços em branco com as palavras corretas, com base na ilustração feita de uma sequência estratigráfica. As camadas foram tratadas com cores diferentes para facilitar a sua distinção e para sugerir a ideia de que os estratos têm diferentes consistências e texturas, o que ocorre também em meio natural. Os vestígios
50 arqueológicos que se encontram a caracterizar as diferentes camadas surgem com o objetivo de marcar a ocupação do ser humano ao longo do tempo, evidenciando o tipo de materiais arqueológicos que podem ser deixados para trás, enquanto marcas de determinada época. O exercício obriga os alunos a analisar e a avaliar quais são as camadas que surgem primeiro e as que surgem por último, apresentando os alunos a sequências relativas de cronologia. Também pretende mostrar como, com o avançar do tempo, as paisagens vão mudando. 4.5. Atividade 5 - “Sítios arqueológicos” Objetivos: • Perceber como se formam os sítios arqueológicos, interligando com a ideia da evolução do tempo. • Compreender como se realiza uma escavação, alguns passos e ferramentas essenciais. • Inserir alguns conhecimentos básicos do sistema de coordenadas cartesiano. Duração da Atividade: 1 hora para pintar, desenhar e preencher cada ficha. Materiais Necessários: Lápis de carvão, borracha e material de desenho. Estas atividades foram realizadas com o objetivo de dar a conhecer os passos a tomar durante uma escavação, os tipos de materiais que se usam e exemplos de vestígios que se encontram para os diversos períodos mencionados, com base nos vestígios identificados em várias escavações realizadas no concelho de Castelo de Vide, embora não sejam exclusivos deste lugar. Para mais, é importante explicar como se forma um sítio arqueológico: o que acontece quando determinado sítio é deixado ao abandono ou destruído e quais são, na maioria dos casos, os passos que se sucedem na natureza para a degradação de um local e formação de um sítio arqueológico. Este é qualquer sítio que contenha vestígios materiais da atividade humana, no entanto, para facilitar a compreensão, deverá usar-se algo onde sejam visíveis os seus processos de abandono e deterioração, como uma casa ou uma anta. Desta forma, explicaremos o momento da ocupação e utilização de um sítio, para depois demonstrarmos que o processo de abandono ocorre quando já não vive
57 plenitude através da divulgação que existe. Esta dificuldade em divulgar o património cultural disperso é aliás sentida um pouco por todo o país. A arqueologia pública poderá facilitar a divulgação deste tipo de património. Enquanto conceito, este termo assume várias aceções e significados, tendo vindo a ser explorado por vários arqueólogos desde os anos 70 numa discussão aberta em contexto internacional. A nosso ver, a arqueologia pública abarca toda a prática que envolve a divulgação arqueológica aliada à presença de um público não especializado, seja por forma de participação direta ou por meios educativos. No entanto, consideramos que este conceito vai mais além, abordando ainda questões ligadas à política, economia, justiça social, ética, cultura popular e entretenimento, tratando-se de um tema bastante complexo. Estando já consolidada como área de investigação plena nos países anglosaxónicos, a arqueologia pública em Portugal encontra-se ainda numa fase embrionária, salvaguardando notáveis exceções das quais não podemos terminar sem destacar o Campo Arqueológico de Mértola. A educação patrimonial também se encontra ainda nesta fase embrionária, seja esta aliada à educação formal ou informal, especialmente no que toca à divulgação arqueológica perante públicos mais jovens. Neste caso, são os museus os maiores atuantes nesta área, muitas vezes desenvolvendo workshops e atividades práticas a realizar no espaço museológico, como é o caso do Museu Nacional de Arqueologia, o Museu Arqueológico do Carmo ou o Pólo Arqueológico de Viseu António Almeida Henriques. Mais escassos são os museus que disponibilizam também de forma gratuita fichas de atividades a realizar de forma autónoma ou fora do espaço do museu, sendo o Museu de Arqueologia D. Diogo de Sousa em Braga o único que encontrámos. Para o presente trabalho, o domínio educativo da arqueologia pública foi onde decidimos atuar com a criação de um conjunto de atividades pedagógicas que pudessem ser aplicadas em sala da aula por um professor, uma vez que o papel das escolas no desenvolvimento infantil é intrínseco. Por outro lado, a criação de atividades realizáveis em sala de aula facilitaria a divulgação do património arqueológico durante a atual pandemia, evitando deslocações de risco e permitindo um maior controlo na realização das atividades propostas, sendo necessária apenas a presença de um professor ou encarregado de educação para as pôr em prática.
58 As atividades foram ainda definidas para um público infantil de idades compreendidas entre os 8 e os 10 anos, que é uma idade fundamental para o desenvolvimento cognitivo e motor. É nesta idade que se começam a desenvolver capacidades muito importantes relacionadas com o espírito crítico e criativo e se formam noções básicas relacionadas com o que somos e com aquilo que nos rodeia. Ao mesmo tempo, estas ideias são ainda acompanhadas pelo desenvolvimento de ideais fundamentais de tolerância, compreensão, respeito mútuo, de consciência local e nacional e diversidade cultural. É nestes momentos que se deve trabalhar a valorização e preservação do património, começando por isso, na consciencialização do património arqueológico e histórico da região onde as crianças moram e que melhor conhecem. Em Castelo de Vide, esta necessidade é acrescida uma vez que o potencial arqueológico da região é muito grande, tanto pela variedade de vestígios como pela variedade de períodos em que se inserem. Da mesma forma, o ensino da arqueologia também pode auxiliar a desenvolver várias capacidades ligadas às diferentes inteligências explicitadas na teoria das múltiplas inteligências de Howard Gardner (GARDNER, 1999) (linguística, interpessoal, intrapessoal, lógico-matemática, espacial, corporal-cinestésica e naturalista), que tentámos adaptar às atividades em si. Para fundamentar a nível curricular as presentes atividades, foram consultados os Guias de Aprendizagem Essenciais para o 1º Ciclo em vigor, redigidos pela DireçãoGeral da Educação, de maneira a torná-las em ferramentas úteis e auxiliares de ensino (s.a. 2018a; s.a., 2018b; s.a., 2018c; s.a., 2018d). Também foram tidas em conta diversas outras preocupações relativamente à aprendizagem e avaliação das mesmas, propondo uma atividade inicial de diagnóstico que pode depois, conforme o interesse do professor, ser realizada em passos posteriores. As fichas foram ainda fortemente inspiradas por atividades já realizadas noutros países que mostraram ser de grande interesse como é o caso do projeto “CSIC at School” (DÍAZ, 2018) e pelas fichas de atividades pedagógicas desenvolvidas por vários museus de Espanha, como é o caso das fichas do Museu Arqueológico Nacional de Madrid, Museu Arqueológico de Múrcia ou o Museu de Pré-História de Valência, todas disponíveis nos seus respetivos websites. Para facilitar o acompanhamento das crianças por parte do professor foram ainda criados guiões, cada um dizendo respeito a uma atividade específica. Ao todo, o projeto “Castelo de Vide – aprender com arqueologia!” abarca 11 atividades e respetivos guiões para professores.
59 A primeira atividade trata-se de um diagnóstico baseado na atividade de “Drawan-Archaeologist Test” (RENOE, 2013), em que o aluno deve desenhar o que pensa ser um arqueólogo e os elementos que constituem o seu trabalho. A segunda atividade encontra-se subdividida em 4 fichas e cada uma trata de um período histórico diferente, marcados por distintos vestígios arqueológicos. Os períodos escolhidos foram o Neolítico, Romano, Medieval e Moderno e encontram-se divididos para facilitar o ensino separado de cada um, introduzindo o que caracteriza cada período de uma forma simples e direta. De seguida, a terceira atividade “De que período Sou?” introduz a história sob uma luz distinta, focando-se nas vestimentas que caracterizam cada período. A atividade seguinte, a de “Introdução à estratigrafia” tenta, tal como o título indica, introduzir uma das noções básicas da geologia, a lei da sobreposição de camadas. A atividade seguinte relativa a sítios arqueológicos encontra-se novamente subdividida por períodos, nomeadamente os períodos Neolítico, Romano e Medieval, onde são apresentados alguns vestígios arqueológicos que devem depois ser organizados dentro de uma quadrícula de uma escavação arqueológica em papel, simulando não só o processo de identificação de vestígios, mas também o sistema cartesiano de coordenadas. Por último, a atividade “Monta a peça arqueológica!” trata-se de uma atividade de montagem de pratos, previamente desenhados com base em peças arqueológicas existentes na Secção de Arqueologia de Castelo de Vide. De um modo geral, estas atividades tentam introduzir o tema da arqueologia e, mais especificamente, da arqueologia de Castelo de Vide ao público infantil local, simultaneamente procurando novos modos de comunicar, divulgar e promover a arqueologia no território português. Acreditamos que estas fichas poderão servir enquanto modelos para a criação de futuros conteúdos pedagógicos, uma vez que são facilmente adaptáveis a diversos contextos e vestígios arqueológicos. Castelo de Vide trata-se de um concelho muito rico em termos históricos e arqueológicos, representativo da maior parte dos territórios nacionais que possuem semelhantes riquezas, em especial o restante Alto Alentejo. Tendo sido desenvolvido como um caso de estudo, consideramos que a maior parte dos concelhos portugueses, especialmente territórios rurais, beneficiariam bastante com a criação de atividades de teor similar para divulgar e promover a arqueologia perante o público local infantil destas regiões. O envolvimento precoce da população infantil com o património pode ser uma ferramenta válida na promoção de boas práticas para com o património. São também conhecidos os efeitos
60 indiretos que o envolvimento das crianças e o interesse em determinados temas podem supor para o agregado familiar, podendo esta ser também uma forma de alcançar o público adulto. Por sua vez, promover a arqueologia e o património cultural junto de populações deprimidas demograficamente deve ser uma prioridade, para que no futuro estes contextos continuem a ser preservados e valorizados enquanto parte do património local e nacional. Para o público infantil, é especialmente necessário incutir estes valores desde o momento em que começam a desenvolver ideias mais concretas acerca daquilo que são e daquilo que os rodeia. Por outro lado, devemos considerar que a boa realização e compreensão destas atividades beneficiaria bastante se feita com a presença ou acompanhamento direto por arqueológos, na medida em que ajudaria a esclarecer as dúvidas que pudessem eventualmente surgir ou desenvolver noções práticas e teóricas sobre a disciplina. Por sua vez, a impossibilidade de pôr em prática as atividades no âmbito do presente projeto impediu que as mesmas fossem avaliadas quanto ao seu impacto no processo de aprendizagem das crianças ou enquanto método divulgativo dos conteúdos apresentados. Assim, estas atividades surgem somente como propostas a ser postas em prática pelos professores, não havendo, de momento, feedback por parte do público-alvo acerca do seu verdadeiro impacto. Este dilema surge especialmente causado pelo contexto pandémico atual, que impediu deslocações e contactos diretos e prolongados com as escolas, afetando os resultados totais do projeto inerente ao presente relatório. Uma vez estabilizada a situação pandémica, é nossa intenção acompanhar a realização das atividades propostas na Escola Básica Garcia de Orta, para que as atividades possam de facto ser realizadas pelo público infantil de Castelo de Vide, em colaboração com os professores e acompanhado pela mestranda. Para além das atividades aqui propostas em formato de ficha, queremos criar atividades de cariz mais prático, onde os alunos poderão interagir de forma direta com artefactos (ou réplicas), visitar sítios arqueológicos no território do concelho e participar em escavações arqueológicas. Os passos seguintes serão a quantificação do impacto direto deste tipo de atividades junto do público-alvo e a sua apresentação em formato de artigo científico. Pretendemos assim que os resultados aqui obtidos venham a influenciar trabalhos análogos e contribuir para o desenvolvimento de uma disciplina dedicada à divulgação patrimonial e ao intercâmbio entre a investigação científica e a sociedade civil.
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Figura 3 - Otzi, o homem do gelo. Cultura material e sua recriação. Retirado de: https://www.dailymail.co.uk/sciencetech/article-3747039/Mystery-tzi-Iceman-s-clothingsolved-5-300-year-old-mummy-sported-bear-hat-goat-leather-coat-died.html [consultado a 23/11/2020] Figura 4 - Representação de roupa interior nos mosaicos da Villa Romana del Casale, c. 300 d.C. Retirado de: https://earlychurchhistory.org/fashion/ancient-roman-undergarments/ [consultado a 25/11/2020]
Figura 5 - Mosaico retratando o poeta Virgílio com duas musas, Clio e Melpomene, conservado no Museu Bardo em Tunes, na Tunísia. Retirado de: https://en.wikipedia.org/wiki/Virgil_Mosaic [consultado a 25/11/2020] Figura 6 - Fresco da Villa dos Mistérios em Pompeia, onde estão representadas um grupo de matronas vestidas à moda da época. Retirado de: https://historia.nationalgeographic.com.es/a/pompeya-ciudad-desenterrada_7468/3 [consultado a 25/11/2020]
Figura 7 - Iluminura retratando o casamento de D. João I com D.ª Filipa de Lencastre do livro Anciennes Chroniques d’Angleterre de Johan de Wavrin, século XV. Retirado de: https://pt.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:Casamento_Jo%C3%A3o_I_e_Filipa_Lencastre.JPG [consultado a 25/11/2020] Figura 8 - “The Peasant and the nestrobber”, 1568. Pintura de Pieter Bruegel, o velho. Retirado de: https://en.wikipedia.org/wiki/The_Peasant_and_the_Nest_Robber [consultado a 26/11/2020]
Figura 9 - “Poor folk drinking in a Tavern”, c. 1625. Pintura de Adriaen Brouwer. Retirado de: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Adriaen_Brouwer__Inn_with_drunken_peasants.jpg?uselang=pt [consultado a 27/11/2020] Figura 10 - Fotografias dos pratos utilizados para a Atividade “Monta a Peça Arqueológica!”, cedidas pela SACMCV.
Figura 11 - Fotografias tiradas no espaço da Sede do Rancho Folclórico de Castelo de Vide. Autoria da mestranda.
ANEXOS II: FICHAS DE ATIVIDADES E RESPETIVOS GUIÕES
ATIVIDADE 1 “DESENHA UM ARQUEÓLOGO”
Guião para professores Atividade “Desenha um Arqueólogo!” Unidades didáticas 3º-4º ano de Escolaridade
Página 2 de 4 Ficha Técnica A atividade que aqui se apresenta faz parte do projeto “Castelo de Vide – aprender com arqueologia!”, que tem ao todo 11 atividades diferentes que podem ser realizadas de forma independente entre si. Estas atividades procuram promover a cultura e o património histórico-arqueológico de Castelo de Vide a públicos infantis, de forma lúdica e pedagógica por meio de atividades semipráticas, no sentido de uma transmissão de saberes de forma dinâmica e que motive os alunos a continuar a aprender mais sobre arqueologia, património e história. Realizado por Margarida Silva. Atividade criada no âmbito do mestrado em Arqueologia da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa.
Página 3 de 4 ATIVIDADE “DESENHA UM ARQUEÓLOGO!” Guião para professores o Exercício de diagnóstico; o Trata-se da primeira atividade do conjunto de unidades didáticas aqui propostas e, como tal, foi pensada para ser realizada primeiro que qualquer outra; o É para ser levado a cabo individualmente, sem trocar ideias com os colegas ou com os professores; o Pedir-se-á, com base nas ideias de cada um, que desenhem um arqueólogo, o trabalho que o arqueólogo faz, as ferramentas e roupas que usa; o No final, pedir-se-á que apresentem os seus desenhos aos colegas e que expliquem o que se sucede nos seus desenhos, apresentando as atividades e as personagens; o Os desenhos produzidos (mesmo os que não acertem no papel do arqueólogo) servirão para iniciar a desmistificação do papel do arqueólogo; o Depois de compreenderem o que é um arqueólogo, o que faz e como o faz, recomenda-se a realização deste exercício para avaliar os conhecimentos obtidos. OBJETIVOS - Avaliar a perceção inicial das crianças sobre a arqueologia, os arqueólogos, o trabalho que praticam, as ferramentas que usam; - Serve enquanto ponto de partida para discussão do tema. DURAÇÃO DA ATIVIDADE - 10-15 minutos para desenhar; - 10 minutos para apresentar os desenhos; - 10 minutos para debater o que é um arqueólogo e o que faz, com os colegas e com o professor; MATERIAIS NECESSÁRIOS Materiais de desenho como lápis de carvão, lápis de cor, canetas, etc.
Página 5 de 6 O que é uma anta? Nesta altura, passaram a enterrar alguns dos mortos em grandes monumentos de pedra cobertos por terra, chamados dólmens ou antas. Estes, devido ao seu grande tamanho, tinham que ser construídos em comunidade. Legenda 1 É a mamoa, uma cobertura de terra e pedras que construíam por cima da anta. Hoje em dia, a maior parte das antas já não têm mamoa! 2 Corredor de acesso. Servia para chegar à câmara funerária. 3 Câmara funerária, onde se enterravam os mortos. 4 Trata-se do chapéu, uma grande pedra que servia enquanto teto para a câmara funerária. 5 Chamam-se esteios e são todas as lajes de pedra que formam as paredes da anta. Vista de lado Vista de cima 1 1 2 3 4 5 5 5
Página 6 de 6 Hoje em dia, a maior parte das antas encontram-se sem a mamoa e com algumas pedras partidas por várias razões, tais como o desgaste provocado pela chuva e vento. Achas que consegues identificar os elementos que restam desta anta? Legenda 1 ____________________ 2 ____________________ 3 ____________________ Sabias que? 1 2 2 3 Existem muitas antas em Portugal que podes visitar! Inspirada na Anta da Melriça em Castelo de Vide
Guião para professores Atividade “O Período Neolítico” Unidades didáticas 3º-4º ano de Escolaridade
Página 2 de 5 Ficha Técnica A atividade que aqui se apresenta faz parte do projeto “Castelo de Vide – aprender com arqueologia!”, que tem ao todo 11 atividades diferentes que podem ser realizadas de forma independente entre si. Estas atividades procuram promover a cultura e o património histórico-arqueológico de Castelo de Vide a públicos infantis, de forma lúdica e pedagógica por meio de atividades semipráticas, no sentido de uma transmissão de saberes de forma dinâmica e que motive os alunos a continuar a aprender mais sobre arqueologia, património e história. Realizado por Margarida Silva. Atividade criada no âmbito do mestrado em Arqueologia da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa.
Página 3 de 5 ATIVIDADE “O PERÍODO NEOLÍTICO” Guião para professores o Atividade destina-se a fazer uma pequena introdução ao período neolítico e às inovações que se deram na altura; o Como exemplo, escolheu-se uma anta visitável em Castelo de Vide; o Na primeira atividade, é importante deixar claro que havia uma grande variedade de pedras que podiam ser utilizadas, havendo pedras mais adequadas para certos objetos e ferramentas: o sílex, que é uma pedra muito ambivalente, utilizada numa grande quantidade de ferramentas, e o xisto, pela facilidade em gravar lá marcas e símbolos. OBJETIVOS - compreender o Período Neolítico e reconhecer alguns aspetos que marcaram esta altura; - saber reconhecer os materiais usados para identificar as ferramentas da época; - saber identificar uma anta e elementos. DURAÇÃO DA ATIVIDADE 30 minutos MATERIAIS NECESSÁRIOS Lápis de carvão, borracha e material de desenho.
Página 4 de 5 Resolução da Atividade 1. Com base nos materiais que viste, pinta agora só os objetos que achas que eram construídos durante o período neolítico. Devem pintar apenas as seguintes imagens: Foice de madeira e sílex (pedra) Placa-ídolo em xisto (pedra) Agulhas em osso Machado de pedra polida
Página 5 de 5 2. Achas que consegues identificar os elementos que restam desta anta? Os elementos corretos são: Legenda 1 Chapéu 2 Esteios 3 Mamoa 1 2 2 3
ATIVIDADE 2: DIFERENTES PERÍODOS “O Período Romano”
Atividade “O Período Romano” Unidades didáticas 3º-4º Ano de Escolaridade Caderno do/a Arqueólogo/a _________________________________________ _________________________________________
Página 2 de 8 Ficha Técnica A atividade que aqui tens faz parte do projeto “Castelo de Vide – aprender com arqueologia!”, que tem ao todo 11 atividades (diferentes!) que podes fazer. Com estas atividades esperamos que aprendas um pouco sobre a arqueologia e sobre alguns vestígios arqueológicos que podes encontrar em Castelo de Vide. Diverte-te! Realizado por Margarida Silva. Atividade criada no âmbito do mestrado em Arqueologia da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa.
Guião para professores Atividade “O Período Romano” Unidades didáticas 3º-4º ano de Escolaridade
Página 2 de 4 Ficha Técnica A atividade que aqui se apresenta faz parte do projeto “Castelo de Vide – aprender com arqueologia!”, que tem ao todo 11 atividades diferentes que podem ser realizadas de forma independente entre si. Estas atividades procuram promover a cultura e o património histórico-arqueológico de Castelo de Vide a públicos infantis, de forma lúdica e pedagógica por meio de atividades semipráticas, no sentido de uma transmissão de saberes de forma dinâmica e que motive os alunos a continuar a aprender mais sobre arqueologia, património e história. Realizado por Margarida Silva. Atividade criada no âmbito do mestrado em Arqueologia da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa.
Página 3 de 4 ATIVIDADE “O PERÍODO ROMANO” Guião para professores o Introduzir o Período Clássico/Romano e ajudar os alunos a reconhecer alguns aspetos que o marcaram, tais como os materiais, as ferramentas e compreender a funcionalidade das aras votivas. o Atividade de interpretação de textos e imagens, promovendo o pensamento crítico, a associação e ordenação de ideias. o Com a criação de uma dedicação a uma divindade, pretende-se introduzir aspetos da mitologia romana e do latim, aspetos importantes da epigrafia romana. o O objetivo deste exercício não é criar um conjunto de epígrafes gramaticalmente corretas, nem exemplos exatos das epígrafes romanas. Como tal, não existe resolução desta atividade porque o objetivo é obter diferentes dedicações (desde que estejam escritas em latim). o Procura incentivar a curiosidade, a imaginação e o raciocínio. OBJETIVOS - compreender o Período Romano e reconhecer os aspetos que marcaram esta altura; - saber reconhecer os materiais usados e as ferramentas que eram usadas; - introduzir alguns aspetos da epigrafia e da mitologia romana; DURAÇÃO DA ATIVIDADE 1 hora MATERIAIS NECESSÁRIOS Lápis de carvão, borracha e material para pintar (lápis de cor, marcadores, etc.).
Página 4 de 4 Resolução da Atividade 1. Com base nos materiais que viste, pinta agora só os objetos que achas que eram construídos durante o período neolítico. Devem pintar apenas as seguintes imagens: Gládio de ferro Escultura de imperador em pedra Scutum (escudo) em ferro
ATIVIDADE 2: DIFERENTES PERÍODOS “O Período Medieval”
Atividade “O Período Medieval” Unidades didáticas 3º-4º Ano de Escolaridade Caderno do/a Arqueólogo/a _________________________________________ _________________________________________
Página 2 de 7 Ficha Técnica A atividade que aqui tens faz parte do projeto “Castelo de Vide – aprender com arqueologia!”, que tem ao todo 11 atividades (diferentes!) que podes fazer. Com estas atividades esperamos que aprendas um pouco sobre a arqueologia e sobre alguns vestígios arqueológicos que podes encontrar em Castelo de Vide. Diverte-te! Realizado por Margarida Silva. Atividade criada no âmbito do mestrado em Arqueologia da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa.
Página 3 de 7 O período medieval foi um período da história humana que aconteceu entre os séculos V e XV. Durante este período formou-se o reino de Portugal e assistimos à construção de vários castelos! Foi a altura do feudalismo, em que os camponeses viviam e trabalhavam nos campos de senhores nobres. A igreja cristã era muito poderosa na altura e eram praticamente apenas os membros do clero que sabiam ler e escrever, no entanto, foi também nesta altura que se começaram a construir as primeiras escolas e universidades. Observa agora as imagens seguintes sobre os materiais que eram usados no período medieval. Madeira Pedra Ferro Pedras Preciosas Fertilizantes (dejetos de animais) Alimentos (como o trigo e as castanhas) Pão e queijo
Página 4 de 7 Com base nos materiais que viste, pinta agora só os objetos que achas que eram utilizados durante o período medieval. Espada de ferro Telemóvel Foice de ferro Coroa com pedras preciosas Elmo de ferro Batom
Página 5 de 7 O que é um castelo? Os castelos são uma das estruturas arquitetónicas mais representativas da época medieval. Eram edifícios defensivos construídos em pedra e incluíam muralhas, vários tipos de torres, poços ou cisternas para armazenamento de água, e portas fortificadas. No seu interior tinham edifícios utilizados como dormitórios, refeitórios, armazéns, cavalariças e outros fins. Ainda que pudessem ser utilizados pelos reis e nobres como alojamento nas suas visitas pelo país, normalmente serviam para os cavaleiros, soldados e besteiros protegerem as vilas e seus arredores de possíveis inimigos. No caso de batalha ou ataque, as pessoas que moravam no território do castelo podiam refugiar-se no interior das muralhas, com alguns dos seus bens e animais. Vista de frente Vista de lado 2 1 2 3 3 4 6 7 8 5
Página 5 de 5 2. Achas que consegues identificar os elementos que este castelo tem? Legenda 1 Torre de Menagem 2 Praça de Armas 3 Porta Principal 4 Muralha 5 Poço Inspirado no castelo de Castelo de Vide 1 2 2 2 3 2 4 2 5 2 Armazém de Armas
ATIVIDADE 2: DIFERENTES PERÍODOS “O Período Moderno”
Atividade “O Período Moderno” Unidades didáticas 3º-4º Ano de Escolaridade Caderno do/a Arqueólogo/a _________________________________________ _________________________________________
Página 2 de 6 Ficha Técnica A atividade que aqui tens faz parte do projeto “Castelo de Vide – aprender com arqueologia!”, que tem ao todo 11 atividades (diferentes!) que podes fazer. Com estas atividades esperamos que aprendas um pouco sobre a arqueologia e sobre alguns vestígios arqueológicos que podes encontrar em Castelo de Vide. Diverte-te! Realizado por Margarida Silva. Atividade criada no âmbito do mestrado em Arqueologia da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa.
Página 3 de 6 O período moderno foi um período da História Ocidental que começou no século XV e terminou no século XVIII e foi marcado pelo Renascimento (um movimento artístico muito importante) e pela época das Grandes Navegações, tendo sido os portugueses que, no início, começaram a explorar o globo terrestre. Nesta altura o comércio também cresceu muito, alargando-se pelo mundo inteiro através de navios. Observa agora as imagens seguintes sobre os materiais que eram usados no período moderno. Pedra Madeira Pólvora (para armas) Ferro Ouro Cana-de-açúcar (açúcar)
Página 4 de 6 Com base nos materiais que viste, pinta agora só os objetos que achas que eram utilizados durante o período moderno. Canhão de ferro Nau portuguesa Caneta Arcabuz (arma de ferro e madeira) Lâmpada
Página 5 de 6 O que é um chafurdão? Para além dos navios desta altura, houve também um grande desenvolvimento da agricultura em Portugal, o que levou a mudanças nos campos agrícolas. Uma dessas mudanças foi a construção de chafurdões, que são estruturas construídas todas em pedra para resistirem e aguentarem muitos anos. São muito comuns em Castelo de Vide, mas existem pouco por outras regiões portuguesas onde se usam estruturas diferentes para apoio à agricultura. Pensa-se que estas estruturas tenham servido de forma temporária para diversas coisas, especialmente para guardar ferramentas ou servir de abrigo para as pessoas que tomavam conta do gado, que pastava junto destas estruturas. Vista de frente Vista de dentro Legenda 1 Telhado de falsa cúpula em pedra, feito por camadas até ao topo e depois coberto por terra. É por serem feitos com terra que acabam muitas vezes por ter plantas no topo. 2 Entrada do chafurdão. 3 Pequenos buracos nas paredes para colocar ferramentas ou fontes de iluminação. 4 Bebedouro. Estes bebedouros eram escavados na rocha para o gado e ficavam dentro dos muros, mas fora do chafurdão. 1 2 1 2 2 3 4
Página 6 de 6 Achas que consegues identificar os elementos deste chafurdão? Inspirado no Chafurdão de Vale de Cales Legenda 1 _________________________ 2 _________________________ 3 _________________________ Sabias que? Alguns chafurdões continuam a ser usados ainda nos dias de hoje! 1 2 3 2
Guião para professores Atividade “O Período Moderno” Unidades didáticas 3º-4º ano de Escolaridade
Página 2 de 5 Ficha Técnica A atividade que aqui se apresenta faz parte do projeto “Castelo de Vide – aprender com arqueologia!”, que tem ao todo 11 atividades diferentes que podem ser realizadas de forma independente entre si. Estas atividades procuram promover a cultura e o património histórico-arqueológico de Castelo de Vide a públicos infantis, de forma lúdica e pedagógica por meio de atividades semipráticas, no sentido de uma transmissão de saberes de forma dinâmica e que motive os alunos a continuar a aprender mais sobre arqueologia, património e história. Realizado por Margarida Silva. Atividade criada no âmbito do mestrado em Arqueologia da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa.
Lê as fichas seguintes com atenção. Estas fichas têm informação muito importante acerca dos diferentes períodos e das roupas que as pessoas usavam. Período Neolítico 5000 – 3000 a.C. - As roupas eram feitas de peles de animais e de tecidos feitos a partir de plantas (como o linho); - As pessoas usavam colares de pedras e, por vezes, de dentes de animais; - Usavam agulhas em osso para coser e prender as roupas. Período romano Séculos II a.C. – V d.C. - As roupas eram compridas, tanto para os homens como para as mulheres e chamavam-se togas; - As mulheres usavam penteados trabalhados, normalmente com caracóis e os homens preferiam usar os cabelos mais curtos; - Os sapatos mais comuns eram as sandálias, tanto para homem como para mulher.
Período Medieval Séculos V-XV d.C. - Estas personagens são nobres e tinham muitos criados que tratavam dos trabalhos mais práticos, como limpar; - Para as mulheres, a moda era cobrir os cabelos com véus, toucados ou chapéus que podiam ser bicudos e, por vezes, até com três bicos; - Os sapatos que se usavam também eram muitas vezes bicudos; - No caso das mulheres nobres, usavam-se mantos muito compridos e ricos e o vestido era composto por dupla-saia; - Os homens usavam casacos almofadados no peito, o gibão, acompanhado de calças justas. Período Moderno Séculos XVI-XVIII d.C. - Estas personagens trabalhavam no campo, junto de chafurdões, a tomar conta do gado ou de plantações; - Os camponeses trabalhavam muito e as roupas eram práticas e adaptadas ao trabalho no campo; - Tanto os homens como as mulheres cobriam o cabelo com chapéus de pano; - As mulheres usavam aventais por cima das saias compridas; - Os homens e as mulheres usavam casacos simples para proteger do sol por cima das camisas.
BONECOS Depois de leres as fichas, deves cortar os bonecos e as roupas seguintes pelos contornos pretos. A cada período pertence uma menina e um menino, que devem ser vestidos corretamente. Com ajuda do teu professor e das fichas, relaciona as personagens e as roupas com o período a que pertencem.
Guião para professores Atividade “De que Período sou?” Unidades didáticas 3º-4º ano de Escolaridade
Página 2 de 11 Ficha Técnica A atividade que aqui se apresenta faz parte do projeto “Castelo de Vide – aprender com arqueologia!”, que tem ao todo 11 atividades diferentes que podem ser realizadas de forma independente entre si. Estas atividades procuram promover a cultura e o património histórico-arqueológico de Castelo de Vide a públicos infantis, de forma lúdica e pedagógica por meio de atividades semipráticas, no sentido de uma transmissão de saberes de forma dinâmica e que motive os alunos a continuar a aprender mais sobre arqueologia, património e história. Realizado por Margarida Silva. Atividade criada no âmbito do mestrado em Arqueologia da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa.
Página 3 de 11 ATIVIDADE “DE QUE PERÍODO SOU?” Guião para professores o Esta atividade pretende demonstrar a diferença entre determinados períodos de uma perspetiva ligada ao vestuário de cada época; o A atividade pode também ser utilizada para ajudar os alunos a refletir como seria viver durante diferentes épocas históricas e para ajudar a cimentar as bases sobre os diferentes períodos; o Pode também ser uma boa oportunidade para gerar um debato com os alunos em que se discute qual é a época que preferem; quais são as diferenças entre os dias de hoje e as várias épocas passadas com base no que têm aprendido, etc.; o É necessário ter em conta que cada tipo de vestuário escolhido para o exercício não se aplica ao período inteiro, nem a todas as classes sociais que existiam; o As roupas escolhidas para o Período Neolítico são conjeturas com base em tecidos e materiais encontrados em escavações arqueológicas; o O vestuário do Período Medieval tem por base as pinturas e iluminuras feitas do século XV que, por sua vez, retratavam momentos da vida da corte; o Para o Período Moderno, ao contrário do período medieval em que são representados dois nobres, retrataram-se dois camponeses; o Este exercício pode funcionar como um jogo: quem vestir corretamente os bonecos e os associar de forma mais rápida ao período certo ganha; OBJETIVOS - Compreender que na história existiram diferentes períodos e que cada período é também marcado por modas e costumes diferentes. DURAÇÃO DA ATIVIDADE - 1 hora. MATERIAIS NECESSÁRIOS - Tesoura; - Cola e cartolina (opcional).
Página 4 de 11 o As roupas podem ser cortadas e coladas sobre os bonecos, para posteriormente serem coladas numa cartolina com a devida ficha acerca do período a que pertencem. Resolução das Atividades Para o período neolítico, os alunos devem focar-se especialmente nos seguintes pontos para descobrirem quais são os bonecos e as roupas desta época: Período Neolítico 5000 – 3000 a.C. - As roupas eram feitas de peles de animais e de tecidos feitos a partir de plantas (como o linho); - As pessoas usavam colares de pedras e, por vezes, de dentes de animais; - Usavam agulhas em osso para coser e prender as roupas.