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Relatório de Estágio

Daniela Sofia Soares Pereira

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Daniela Sofia Soares Pereira Relatório de estágio Dissertação realizada no âmbito do Mestrado em Tradução e Serviços Linguísticos, orientada pelo(a) Professor(a) Doutor(a) Thomas Juan Carlos Hüsgen Faculdade de Letras da Universidade do Porto Setembro de 2015 Relatório de estágio Daniela Sofia Soares Pereira Dissertação realizada no âmbito do Mestrado em Tradução e Serviços Linguísticos, orientada pelo(a) Professor(a) Doutor(a) Thomas Juan Carlos Hüsgen Membros do Júri Professor Doutor Rogélio José Ponce de León Romeo Faculdade de Letras - Universidade do Porto Professor Doutor Thomas Juan Carlos Hüsgen Faculdade de Letras - Universidade do Porto Professora Doutora Maria Joana de Sousa Pinto Guimarães de Castro Mendonça Faculdade de Letras – Universidade do Porto Classificação obtida: 16 valores “The translator has to do consciously what the author did instinctively. And yet it must be instinctive.” - Richard Pevear ÍNDICE Agradecimentos ................................................................................................................. i Resumo ............................................................................................................................. ii Abstract ............................................................................................................................ iii Índice de figuras .............................................................................................................. iv Índice de siglas e abreviaturas .......................................................................................... v Introdução ......................................................................................................................... 1 Parte I – Apresentação da empresa e do estágio ............................................................... 2 1. Apresentação da empresa .......................................................................................... 2 1.1 Equipa de trabalho ................................................................................................. 2 1.2 Organização e gestão do trabalho .......................................................................... 4 2. Descrição do estágio.................................................................................................. 7 2.1 Descrição das tarefas realizadas ............................................................................ 8 2.2 Ferramentas de apoio à tradução ......................................................................... 14 2.3 Principais recursos utilizados .............................................................................. 18 2.4 Apreciação global do estágio ............................................................................... 19 Parte II – Tradução: Análise de casos práticos ............................................................... 20 1. Análise de casos práticos......................................................................................... 20 1.1 A importância da imagem no processo de tradução ................................................. 21 1.2 Questões terminológicas ........................................................................................... 27 1.3 A ambiguidade lexical .............................................................................................. 33 1.4 Referências culturais................................................................................................. 38 1.5 Problemas técnicos ................................................................................................... 41 1.6 O Português do Brasil ............................................................................................... 43 1.6.1 Léxico e terminologia ............................................................................................ 44 1.6.2 Grafia ..................................................................................................................... 48 1.6.3 Tempos verbais ...................................................................................................... 51 1.6.4 Artigos ................................................................................................................... 52 1.6.5 Preposições ............................................................................................................ 53 1.6.6 Considerações finais .............................................................................................. 54 Conclusão ....................................................................................................................... 56 Referências bibliográficas .............................................................................................. 58 Anexos ............................................................................................................................ 60 Anexo I – Lista das traduções realizadas ao longo do estágio ....................................... 61 Anexo II – Exemplos de tradução .................................................................................. 63 Anexo III – Plano de estágio .......................................................................................... 70 Anexo IV – Avaliação do estágio curricular por parte da orientadora ........................... 72 i AGRADECIMENTOS Ao doutor Thomas Hüsgen, por todos os conselhos e recomendações transmitidos durante a elaboração deste relatório. Agradeço igualmente a todo o corpo docente do Mestrado em Tradução e Serviços Linguísticos, coordenado agora pelo Prof.º Thomas Hüsgen, que me auxiliou a desenvolver as minhas capacidades e aptidões na área da tradução e em particular, à Prof.ª Andrea Iglesias pela constante persistência e confiança nas minhas capacidades, especialmente nos momentos em que me sentia mais insegura. Os meus sinceros agradecimentos às doutoras Joana Pinto e Mónica Silva por me concederem a oportunidade de realizar um estágio na KvaliText, assim como a todos os colaboradores e colegas de trabalho, em especial à minha orientadora Catarina Ramos pela paciência, dedicação e disponibilidade que sempre revelou para auxiliar-me a melhorar o meu percurso ao longo destes três meses. Finalmente, aos meus pais por sempre acreditarem em mim, apoiarem a minha formação académica de forma incondicional e terem investido no meu futuro, à minha irmã pelo apoio constante e ao Pedro, pelo carinho e companheirismo. ii RESUMO O presente relatório constitui uma análise e reflexão do estágio curricular realizado na empresa KvaliText - Serviços de tradução, Lda., no período compreendido entre 2 de fevereiro de 2015 e 30 de abril de 2015 no âmbito do Mestrado em Tradução e Serviços Linguísticos da Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Tem como principal objetivo analisar e refletir sobre o processo tradutivo levado a cabo, analisando alguns exemplos ilustrativos. Primeiramente, será abordada a estrutura e a forma de funcionamento da empresa e, de seguida, será efetuada uma descrição dos principais trabalhos realizados e dos recursos utilizados. Numa segunda parte, procede-se a uma análise de exemplos de algumas dificuldades sentidas durante o processo de tradução, das soluções encontradas para superar as dificuldades, relacionando-as, em vários casos, com as teorias de tradução. Por fim, também serão abordadas algumas das principais diferenças detetadas entre o Português europeu e o Português do Brasil. Palavras-chave: estágio curricular, tradução, empresa de tradução, dificuldades tradutivas 4 grande parte dos textos traduzidos, em especial durante o segundo e terceiro mês de estágio, não eram de carácter geral. Pelo contrário, o grau de especificidade era bastante elevado, revelando-se textos para um tradutor com uma função superior à de tradutor assistente. Por último, é também relevante mencionar os freelancers, cuja função pode oscilar em virtude da sua versatilidade. Contudo, na KvaliText foi possível inferir que eram responsáveis, geralmente, pela tradução do seu próprio trabalho, pela revisão de projetos realizados pelos tradutores da equipa interna ou até pela simples realização de QA (Quality Assurance) de um projeto, cujo revisor estava indisponível devido à carga de trabalho existente. Observou-se igualmente que costumavam participar na tradução de textos de elevada dimensão, surgindo sempre que era necessário uma ajuda extraordinária. Um dos requisitos da norma europeia 15038:2006 prende-se com a formação dos elementos que constituem os recursos humanos. Segundo a norma, os tradutores deverão apresentar competências na área, isto é, através de formação superior oficial em tradução, ou alguns anos de experiência documentada em tradução. 1 Foi possível constatar a aplicação deste requisito, uma vez que todos os colaboradores da KvaliText têm formação oficial em tradução. Além disso, a sua formação é contínua uma vez que a empresa organiza frequentes formações na área da tradução, reunindo todos os seus colaboradores. Ao longo da realização do estágio, foram realizadas várias formações e reuniões para discussão de procedimentos de melhoria da qualidade do trabalho. Finalmente e ainda em relação à composição da empresa, é de referir que o departamento administrativo é constituído pela Dra. Joana Pinto e a Dra. Mónica Silva e o departamento tecnológico pelo IT Manager, responsável por solucionar as questões problemáticas apresentadas pela equipa relativamente ao software, ao hardware, e ao software interno da gestão de projetos (PO). 1.2 ORGANIZAÇÃO E GESTÃO DO TRABALHO 1 Consultar: www.idiomaglobal.pt/documentos/paginas/en15038_pt.pdf 5 A gestão de todas as tarefas relacionadas com os projetos de tradução é levada a cabo através de uma plataforma informática desenvolvida pela empresa e designada Project-Open (PO). Para poder aceder a esta plataforma a partir de cada computador individual, cada colaborador possui credenciais, constituídas por um nome de utilizador (são constituídas geralmente pelas iniciais do nome do funcionário) e uma palavrapasse. Após a introdução das respetivas credenciais, cada membro tem acesso à sua página pessoal, onde poderá visualizar os projetos em curso que lhe foram atribuídos. É no PO que as gestoras de projetos criam os projetos, introduzem todos os dados necessários e relevantes e distribuem as tarefas de tradução e revisão pelos colaboradores envolvidos no processo. Assim que essa tarefa for criada na plataforma, as partes envolvidas recebem um e-mail através do seu correio eletrónico interno com uma hiperligação direta para o projeto ao qual foi associado (considerado muitas vezes uma mais valia em termos de poupança de tempo). Através do PO, o tradutor tem acesso a todos os elementos necessários para a realização da tarefa em causa, como por exemplo, os ficheiros originais, as instruções, os materiais de referência ou eventuais glossários enviados pelo cliente. Além disso, o PO também inclui informações gerais sobre o projeto, como o nome e o código interno do projeto, a data de receção e de entrega, as línguas de partida e de chegada, o número de palavras do documento e o número de palavras a serem traduzidas, o formato em que o documento deverá ser entregue, entre outros. A plataforma está dividida internamente em vários separadores, sendo que o separador Projects é o mais relevante. Este separador está dividido em 4 subseparadores: Summary, Files, Trans Tasks e Assignments, tal como é possível observar na figura 1. Figura 1 - Separadores na secção Projects do PO No separador “Summary” é possível visualizar as informações gerais do projeto, preenchidas pelas PMs, entre elas as datas de receção e entrega, pares de línguas, 6 formato de entrega do documento final e até o endereço para a memória de tradução que deverá ser utilizada, entre outros aspetos já mencionados acima. No separador “Files” é possível encontrar geralmente quatro pastas, entre elas, a pasta “Source”, na qual se encontra o ficheiro original a traduzir, a pasta “Trans” que constitui a pasta na qual o tradutor deverá sempre carregar o ficheiro traduzido. Mesmo que esse documento tenha sido traduzido através do servidor de um cliente numa CAT tool como o MemoQ é necessário efetuar sempre uma cópia para ser colocada nesta pasta para registo interno. Além disso, no caso de projetos de grande dimensão que envolvem vários batches (séries e/ou pacotes) é nesta pasta que o tradutor deve criar subpastas com a designação do batch e a data de entrega da tradução correspondente. Em seguida, observa-se a pasta “Edit”, onde é colocada a versão do projeto já revista e pronta para ser enviada ao cliente. Finalmente, encontra-se a pasta “Delivered”, que como o próprio nome indica, é a pasta para a qual as gestoras de projetos carregam o documento ou a pasta final que foi entregue ao cliente. As restantes pastas instruções, materiais de referência ou glossários fornecidos pelo cliente. O separador “Trans Tasks” constitui um dos separadores que mais contribui para a fluidez e a organização dentro da equipa, uma vez que cabe ao colaborador informar as restantes partes envolvidas da fase em que se encontra o processo, isto é, se o documento já está pronto para ser traduzido (opção “For Trans”), se já está em fase de tradução (“Trans-ing”), se está pronto para ser revisto (“For Edit”), se já está a ser revisto (“Editing”) se está pronto para ser entregue ou se já foi entregue ao cliente. A atualização constante e adequada deste separador é uma das tarefas mais importantes que os tradutores devem levar a cabo, já que sem a sua atualização a restante equipa não estará a par da fase atual do projeto e a sua não execução pode mesmo prejudicar e atrasar os prazos de entrega e a alocação de novos projetos. Por fim, o separador “Assignments” é o local onde se encontra a informação sobre a função de cada colaborador no projeto. No caso de projetos de grande dimensão, este separador é fundamental para uma excelente organização dentro da equipa, já que normalmente estes projetos são constituídos por diversos ficheiros com diferentes datas de entrega e a sua realização é atribuída a vários tradutores e revisores da empresa, e muitas vezes, a freelancers. No PO, também é possível inserir o número de horas dispensadas para cada projeto, no separador Timesheet. O Timesheet é preenchido diariamente por cada colaborador, no final de cada projeto executado, constituindo um excelente mecanismo para controlar 7 o tempo utilizado por cada tradutor para cada projeto, em especial, projetos de grande dimensão. No ambiente de trabalho de cada computador individual, também é possível encontrar uma pasta designada “Organização”, onde foram colocadas inúmeras subpastas com vários tipos de informações sobre a empresa. Entre elas, os procedimentos internos de qualidade, ficheiros sobre algumas das diferenças entre o Português europeu e o Português do Brasil ou até mesmo, informações mais supérfluas como as datas de aniversários dos membros da equipa, entre outros. Além disto, no ambiente de trabalho consta também uma pasta com as memórias de tradução da empresa, designada “TMs”. Por fim, é de mencionar que a empresa possui o seu próprio chat interno, denominado Spark, através do qual todos os elementos da empresa podem comunicar entre si, algo que se revelou extremamente útil ao longo do estágio. 2. DESCRIÇÃO DO ESTÁGIO O estágio curricular realizado na KvaliText teve a duração de três meses em regime de full-time. A única tarefa atribuída ao longo destes três meses foi a de tradução de textos. Contudo, no primeiro dia de estágio foi incumbida apenas da leitura de diversos materiais por parte da orientadora. Entre esses materiais encontram-se os procedimentos internos de qualidade, cuja leitura constituiu uma mais-valia ao longo da realização dos projetos alocados, pois foram absorvidas informações fundamentais sobre os principais procedimentos e os mecanismos internos. Estas informações eram relativas não só à estrutura e organização do trabalho, mas também à terminologia e ao estilo. Algumas destas informações eram, por exemplo, erros comuns a serem evitados e guias de estilo internos, que incluíam as regras a seguir relativamente às unidades de medida ou à pontuação. O principal objetivo que a empresa de acolhimento pretendia que fosse atingido ao longo do estágio era a consolidação dos conhecimentos adquiridos durante a formação académica e das competências técnicas no âmbito da tradução. Apesar destes objetivos terem sido atingidos, ao nível pessoal, eram ambicionadas outras metas: testar a capacidade de adaptação ao trabalho diário de um tradutor num ambiente com 8 tradutores in-house numa empresa de tradução, conviver com tradutores seniores, com muita experiência na área, e trabalhar com diferentes ferramentas e recursos de tradução. Todos estes objetivos foram alcançados ao longo da realização do estágio curricular, tanto as metas propostas pela empresa, como as individuais, afirmando por isso, que o estágio proporcionou experiências únicas a vários níveis. 2.1 DESCRIÇÃO DAS TAREFAS REALIZADAS Tal como já foi mencionado anteriormente, ao longo do estágio, a única função levada a cabo foi a tradução de documentos, através das mais variadas ferramentas de apoio à tradução. Durante os três meses de estágio curricular, foram realizados 36 projetos e traduzidas cerca de 120 000 palavras. Para apresentar o exato fluxo de trabalho, é possível observar na figura 2 a distribuição do número de projetos e do número de palavras realizados ao longo destes três meses. Como demonstra o gráfico da figura acima, houve uma considerável oscilação no fluxo de trabalho ao longo do período de estágio. Durante o primeiro mês foram traduzidas cerca de 34 000 palavras, um valor relativamente baixo que é possível justificar pelo facto de ainda se tratar de uma fase inicial do estágio, isto é, a tradutora Figura 2 - N.º de projetos e n.º de palavras aproximados por mês 9 ainda se encontrava numa fase de adaptação à metodologia e ao funcionamento da empresa. No entanto, no mês seguinte, foram traduzidas menos 10 000 palavras, uma redução considerável, tendo em consideração que os números deveriam, na teoria, ser crescentes. Este facto pode ser explicado não só pelo próprio fluxo de trabalho da empresa acolhedora, mas também por uma relação entre os projetos e as palavras traduzidas. Isto é, no mês de março foram realizados um elevado número de projetos, o que prejudicou substancialmente o número de palavras traduzidas uma vez que cada vez que um colaborador alterna de projeto é necessário levar a cabo um complexo processo até ao projeto chegar às mãos do revisor. Este processo inclui diversos passos, como a revisão do próprio trabalho, a realização da verificação ortográfica do texto no Word, um procedimento de melhoria da qualidade, através da realização de Quality Assurance por meio de uma ferramenta própria, o carregamento de várias pastas para o PO, o preenchimento de uma checklist (o preenchimento da lista de verificação é um passo fundamental e obrigatório após a conclusão de um projeto, pois informa o revisor dos passos que foram ou não realizados durante o projeto) e o preenchimento do Timesheet, entre outras tarefas de menor dimensão. Assim, é possível afirmar que o mês de abril foi o mês mais produtivo, parcialmente devido a este motivo. Como se pode observar, neste mês foram traduzidas cerca de 62 000 palavras e apenas foram realizados 9 projetos ao longo de todo o mês. Uma vez que o número de projetos foi reduzido, o número de palavras aumentou consideravelmente, já que foram traduzidos os mesmos projetos ao longo de vários dias, auxiliando assim à produtividade diária individual. Neste sentido e em termos da produtividade diária, é possível afirmar que na sequência dos dados apresentados acima, os números ilustrados no gráfico abaixo (figura 3) não constituem uma surpresa. 10 Figura 3 - N.º aproximado de palavras diárias traduzidas por mês Tendo como ponto de partida, o número de palavras traduzidas em cada mês e dividindo-o por uma média de 20 dias de trabalho em fevereiro e 22 dias em março e abril, é possível obter a média apresentada no gráfico. Estes números estão em conformidade com os objetivos individuais e os objetivos estipulados pela entidade, pois verifica-se um visível crescimento e uma progressão do ritmo de trabalho, apesar do mês de março ter sido influenciado pelo fluxo de trabalho na empresa e pelo processo já mencionado anteriormente. Quanto às línguas de trabalho, é de referir que foram observados alguns padrões. O par Inglês-Português Europeu foi o mais frequente e o par Espanhol-Português Europeu também surgia com bastante frequência. Além disso, surgiram textos que tinham como língua de partida tanto o Inglês como o Espanhol e o Português do Brasil como língua de chegada. Neste sentido, a figura 4 representa a percentagem e o número de projetos realizados tendo em consideração a sua língua de partida. 11 72% (26) 28% (10) Inglês Espanhol 72% (26) 28% (10) Português europeu Português do Brasil Figura 4 - Percentagem e n.º de projetos por idioma de partida Por outro lado, relativamente à língua de chegada, todas as traduções realizadas tinham como idioma o Português, apesar de oscilar frequentemente entre o Português europeu e o Português do Brasil ao longo de todas as tarefas. O gráfico seguinte apresenta os dados (percentagem e número) dos projetos realizados, analisando o idioma de chegada dos diversos textos traduzidos e fazendo uma distinção entre as variantes. Figura 5 - Percentagem e n.º de projetos por idioma de partida Tal como é possível observar através dos gráficos, o Inglês dominou como língua dos documentos de partida, representando 72% dos projetos realizados, algo que já era esperado antes do início do estágio dada a importância deste idioma a nível global. No entanto, o Espanhol também obteve 28%, representando 10 dos 36 projetos realizados, o que pode ser justificado pela proximidade geográfica entre os dois países e 12 pela consequente expansão inicial de determinados negócios espanhóis. Portugal constitui frequentemente um dos primeiros mercados internacionais para os quais um negócio Espanhol tende a expandir. Geralmente, quando se traduzia um texto tendo como língua de partida o Espanhol, muito provavelmente teria como idioma de chegada o Português europeu e não o brasileiro. Note-se que nunca se traduziu um projeto cuja língua de partida fosse uma variante sul-americana da língua Espanhola. Neste sentido e relativamente às línguas de chegada, é possível concluir através do gráfico na figura 5, que o Português europeu representou o idioma de chegada preferencial, representando 72%, isto é, 26 dos projetos levados a cabo, o que não constituiu qualquer surpresa. Porém, os restantes 26% (10 projetos) foram traduções para a variante brasileira da língua portuguesa, o que constituiu efetivamente um facto inesperado, apesar da emergência da variante brasileira nos últimos anos e da sua crescente importância no mercado de trabalho e ao nível mundial. Quanto ao tipo de tradução, os trabalhos realizados foram, maioritariamente, de tradução especializada, apesar da tradução de textos de cariz geral também ser frequente. Segundo Gouadec (2007), a tradução geral refere-se à tradução de documentos e materiais que não pertencem a um tipo ou domínio específico. “that do not belong to any specific type or domain area (...)” Já a tradução especializada refere-se à tradução de textos de um domínio ou campo altamente especializado, como a tradução legal, financeira, técnica, no domínio das telecomunicações, tecnologias da informação e do marketing, entre outras. O gráfico da figura 6 apresenta os dados relativos aos tipos de traduções levadas a cabo ao longo do estágio em percentagens e número de projetos correspondentes. 13 Figura 6 - Percentagem e n.º de projetos segundo o tipo de tradução Tal como é possível observar na Figura 6, a tradução especializada foi predominante, representando 78% da totalidade dos projetos realizados, face aos 22% da tradução de carácter geral. A tradução técnica foi o principal tipo de tradução realizada, representando 28% das traduções na totalidade. Neste domínio, foram traduzidos principalmente manuais de instruções e pequenas fichas descritivas de produtos, cujos textos eram geralmente de pequena ou média dimensão, apesar de ter participado num texto técnico com cerca de 150 000 palavras. Após a tradução técnica, a tradução de textos de marketing também foi uma tarefa frequente, representando 20% dos textos realizados. Aqui, predominava a tradução de boletins informativos, apresentações de novos produtos, sendo geralmente projetos com menos de 1000 ou 2000 palavras, apesar de haver exceções. No entanto, a dimensão destes textos de marketing, em nada refletia a dificuldade do seu processo de tradução, uma vez que a função apelativa deste tipo de textos obrigava a uma reflexão e exigia originalidade por parte do tradutor responsável, de modo a cumprir com o propósito fundamental do texto original: apelar e cativar o leitor. A localização de websites (constituindo 19% dos projetos) também não foi simples e acessível, já que envolvia uma terminologia especializada, exigindo assim uma grande pesquisa e consequente tempo dispensado para levar a cabo essa pesquisa, o que normalmente encurtava o tempo para desenvolver a tradução, dificultando o cumprimento dos prazos de entrega. Um exemplo disto foi a tradução de um website sobre receitas de sobremesas, que exigia bastante pesquisa. Além disso, devido à 20 contribuíram para um progresso das competências e, claro, uma maior convivência entre os membros da equipa. Finalmente, é de referir o excelente tratamento dos estagiários. Como estagiária a frequentar um estágio curricular num ambiente profissional e em constante interação com profissionais da área da tradução é possível afirmar que não foi sentida qualquer diferença na forma de tratamento, em comparação com os tradutores internos. Ao longo do estágio, os projetos alocados eram idênticos aos dos tradutores in-house, apesar de, no início do estágio, ser notória uma tendência para atribuir projetos de carácter mais geral para permitir uma adaptação gradual do tradutor. Além disso, as opiniões das estagiárias curriculares eram tidas em conta e estas eram questionadas sobre algumas das soluções encontradas por parte dos revisores. O estágio permitiu experienciar o mundo real no qual está inserido um tradutor profissional, tendo sido por isso uma experiência única e estimuladora que contribuiu em muito para o conhecimento e vivência pessoal nesta área. PARTE II – TRADUÇÃO: ANÁLISE DE CASOS PRÁTICOS 1. ANÁLISE DE CASOS PRÁTICOS Nesta secção, será realizada uma exposição e análise de alguns exemplos que constituíram problemas tradutivos, descrevendo as soluções levadas a cabo para enfrentar esses desafios e estabelecendo, sempre que possível, uma relação entre as soluções encontradas e os modelos de tradução que as fundamentam. Sempre que for considerado adequado e pertinente, realizar-se-á, através de uma tabela, uma comparação entre as soluções encontradas por parte do tradutor e do revisor. Quanto ao critério de seleção dos exemplos, este foi realizado com base em erros, dúvidas ou casos pertinentes de referir que surgiram ao longo do estágio – erros 21 derivados da ambiguidade lexical, problemas terminológicos, erros de grafia, preposições e léxico provenientes da adaptação ao Português do Brasil, entre outros. 1.1 A IMPORTÂNCIA DA IMAGEM NO PROCESSO DE TRADUÇÃO No domínio da tradução, as imagens são consideradas excelentes materiais de referência, constituindo, em muitos casos, um elemento indispensável para que a tradução cumpra o seu propósito e seja adequada no texto de chegada (TC). Contudo, a questão do não fornecimento de imagens por parte de muitos clientes é uma problemática que afeta um elevado número de projetos e que, infelizmente, faz parte do dia-a-dia de muitos tradutores, quer freelancers, quer tradutores in-house. A polissemia de várias palavras, aliada à falta de imagens, pode resultar em traduções incorretas e verdadeiramente inadequadas. Um bom exemplo disto foi a tradução de um manual de instruções de um novo elevador, como é possível ver de forma mais detalhada abaixo. Caso n.º 1 N.º de palavras: 10 000 Línguas de trabalho: ES > PE Ferramenta de tradução: SDL Trados Studio 2011 Função do texto: referencial 3 Género textual: manual de instruções Contexto: Tradução de um manual de instruções de uma gama de elevadores, fabricada pelo próprio cliente. O projeto consistia na tradução de um texto técnico, que aborda uma nova gama de elevadores, criada pelo cliente, o que pressupõe desde logo alguns problemas. Por um lado, calcula-se que surgirá terminologia própria relativa às funções, peças e materiais do produto, muitas vezes exclusivos daquele cliente e dos seus produtos. Ou 3 A terminologia utilizada para descrever as funções de cada texto é baseada em Nord (2005). 22 seja, surgirá a necessidade de material de referência útil para ser possível compreender essa mesma terminologia. Por norma, os projetos que implicam a tradução dos manuais de instruções, costumam vir acompanhados pelo manual no seu idioma original (neste caso seria em Espanhol) em formato pdf ou Word. No entanto, esse não foi o caso do exemplo que se segue. Uma vez que o manual pretendia instruir o leitor acerca do funcionamento de um novo elevador e de todas as suas peças e funcionalidades, era de esperar que o material de referência fornecido incluísse algumas imagens ilustrativas. Contudo, apenas foi fornecido um ficheiro Excel por parte do cliente, cujas referências incluíam unicamente o texto a ser traduzido e os seus respetivos segmentos no SDL Trados Studio. Aquando da tradução de uma lista de materiais que faziam parte do elevador, surgiu o seguinte problema: Texto Original Tradução Revisão “MR0126-GRUPO PLACA ACUDES MANIOBRA UP-900” “MR0126-GRUPO PLACA SINAL DE CHAMADA COMANDO UP-900” “MR0126-GRUPO PLACA SINAL CHAMADA COMANDO UP-900” Neste exemplo, a expressão “Placa Acudes” mostrou-se um caso complicado de tradução. Desconhecendo o significado e sem qualquer imagem alusiva ao material procedeu-se a uma pesquisa no Linguee para poder obter o seu significado em contexto. A busca neste motor de pesquisa revelou-se infrutífera, pois não foram apresentados resultados nos quais a expressão aparecesse em conjunto (“placa acudes”), aparecendo apenas o substantivo “placa” ou o vocábulo “acudes”. Em seguida, foi realizada uma pesquisa no dicionário monolingue RAE (Real Academia española) por “Acudes”. O resultado obtido foi apenas o significado do verbo “acudir”. O primeiro significado desse verbo, contudo, revelou-se um tanto ou quanto útil: (RAE) 4 1. intr. Dicho de una persona: Ir al sitio adonde le conviene o es llamada. 4 Fonte: http://lema.rae.es/drae/?val=acudes – última consulta a: 6 de setembro de 2015 23 Deste modo, retirou-se a ideia de que talvez se tratasse de uma placa com a qual o indivíduo dentro do elevador pudesse chamar alguém que se encontrasse no exterior, como um botão de emergência. Foi realizada uma pesquisa intensiva em websites espanhóis através do motor de pesquisa Yahoo.es e foram encontradas apenas duas referências a “placa acudes” na área dos materiais em toda a web. Ainda assim, o contexto destas referências não era suficiente e era necessário tomar uma decisão. Em seguida, optou-se questionar o cliente sobre esta referência. A resposta obtida foi de que se tratava de um sinal luminoso que indicava num andar que o elevador iria a esse andar assim que fosse possível. Além disto, o cliente também proporcionou a tradução desse material em Inglês. Apesar da tradução em Inglês ter eliminado por completo a expressão “placa acudes” e não se ter referido a qualquer sinal luminoso optou-se por traduzir como “sinal de chamada”, com base na breve explicação dada pelo cliente, apesar de esta não ter sido, do ponto de vista da tradutora, satisfatória. Conclui-se esta descrição com a nota de que toda esta situação poderia ter sido evitada se o cliente tivesse fornecido imagens ou o manual original, isto é, o manual proporcionado aos utilizadores que certamente incluiria imagens ilustrativas das várias funções e materiais do elevador e não proporcionar apenas uma colagem do texto original num ficheiro Excel, pois teria facilitado o processo de tradução. Como se não bastasse, o tempo perdido para a pesquisa deste material e de outros materiais presentes na lista tomou proporções monumentais, algo que poderia ter sido evitado se a profissão e as tarefas do tradutor fossem mais compreendidas por parte do cliente. Caso n.º 2 N.º de palavras: 17 671 Línguas de trabalho: ES > PE Ferramenta de tradução: SDL Trados Studio 2011 Função do texto: referencial – informar o leitor acerca dos passos que deverá levar a cabo para a realização de uma sobremesa. Domínio: culinária Género textual: receita culinária 24 Contexto: Localização de um website dedicado exclusivamente à exposição de receitas para a elaboração de sobremesas, direcionado para o público geral. A tarefa atribuída à estagiária consistia na tradução de todas as receitas que compunham o website apresentado acima. Após esta experiência, é possível afirmar que o processo de tradução de receitas culinárias necessita obrigatoriamente de imagens de referência para permitir que o tradutor tenha uma ideia da sobremesa em causa e consiga traduzir adequadamente o nome das sobremesas para o seu público de chegada. Contudo, isso não sucedeu. O cliente deste projeto não proporcionou quaisquer imagens ou qualquer espécie de referência. Face a esta situação, a tradução prometia ser complicada, devido igualmente ao desconhecimento da tradutora relativamente à matéria em causa. Felizmente, foi possível deduzir o nome do website através de referências em alguns segmentos. Não constituiu qualquer surpresa o facto de este ter sido utilizado como referência ao longo de toda a tradução do texto, pois existia sempre uma imagem alusiva à sobremesa no cabeçalho da página da sobremesa selecionada. Apesar de isto ter parecido uma “vitória” no momento em que ocorreu, foi possível compreender, pouco tempo depois, que nem todas as sobremesas teriam imagens úteis para a identificação inequívoca do tipo de sobremesa pretendida, do efeito decorativo ou da forma que tomavam algumas sobremesas mais extremas ou invulgares. Apesar de a designação da sobremesa constar no texto a ser traduzido, isto não era suficiente uma vez que, muitas vezes, as sobremesas eram tradicionais de Espanha ou da América Central e/ou do Sul, ou até mesmo tradicionais de determinadas épocas ou de celebrações próprias destes locais. Eram necessárias imagens para poder adaptar o nome da sobremesa à cultura portuguesa ou, pelo menos, traduzir de uma forma que permitisse ao leitor compreender de que sobremesa se tratava quando lesse o título, sem necessitar de abrir a página Web. Consistência, exatidão e precisão faziam parte do objetivo de tradução. 25 A seguinte imagem é um exemplo de uma imagem ilustrativa de uma sobremesa no website. Figura 8 - A imagem representativa da sobremesa “Pastelitos de Moka” no website A visualização desta imagem confirma o que já foi referido. Nem todas as respetivas imagens das sobremesas no Site eram exatas da sobremesa, o que dificultou a tradução e a adaptação do nome da sobremesa. Especialmente desde um ponto de vista de um tradutor, nesta imagem falta essencialmente uma alusão nítida ao “pastelito” (bolo) em si e não só uma pobre ilustração, que apenas se concentra no efeito decorativo que é possível realizar (com o óbvio intuito de tornar a sobremesa apelativa ao leitor pela sua bonita decoração). Por fim, é de referir aquelas sobremesas cujas imagens no website eram nítidas e úteis pois sem elas ter-se-ia perdido tempo precioso em pesquisas intensivas. Tome-se como exemplo, o seguinte caso: Apenas foi possível traduzir o nome da sobremesa “bolas de navidad” de modo adequado para o público Português devido à imagem alusiva no cabeçalho da página no Site. Texto Original Tradução “Bolas de navidad” “Brigadeiro de coco” 26 Sem esta imagem, a tradutora teria de proceder a uma complexa pesquisa em websites espanhóis, já que quando se pesquisa o nome da sobremesa ou quando se realiza uma pesquisa juntamente com termos mais específicos da área da culinária na secção de imagens da Yahoo.es apenas surgem imagens de bolas de natal e de alguns enfeites característicos da época e em nada relacionados com a sobremesa em causa. De facto, há a ideia utópica de que o tradutor consegue realizar traduções adequadas sem qualquer tipo de material de referência. A “adequação” numa tradução, segundo Reiss e Vermeer (1984) corresponde ao cumprimento do skopos delineado pelo translation brief, isto é, o TC será adequado de modo funcional e comunicativo se cumprir com o propósito que lhe foi atribuído. A adequação das soluções encontradas foi um critério utilizado ao longo do processo tradutivo. Como ficou aqui provado, apesar de recorrermos frequentemente a especialistas, ao cliente ou a materiais que possamos encontrar para o esclarecimento de dúvidas, estes geralmente não são suficientes. Esta noção é consolidada nas palavras de Douglas Robinson. “How do you know what the source text means, or how it is supposed to work? You rely on your skill in the language; you check dictionaries and other reference books; (…) you contact the agency and/or client (…). But the results of this research are often inconclusive or unsatisfactory;(…). (…) you pretend to be a competent sourcelanguage reader. (…) But you know that there are problems with your understanding of this particular text; you know that you don't know quite enough; so you do your best, Figura 9 - A imagem representativa da sobremesa “bolas de navidad” no website 27 making educated guesses (abductions) regarding words or phrases that no one has been able to help you with, and present your translation as a finished, competent, successful translation.” (Robinson 2003: 164-165) 1.2 QUESTÕES TERMINOLÓGICAS Caso n.º 1 N. º de palavras: 5141 Línguas de trabalho: EN > PT-BR Ferramenta de tradução: SDL Trados Studio 2011 Função do texto: referencial e apelativa – dar a conhecer a diversos chefes de cozinha as características do produto e apelar à sua compra. Domínio: alimentação Género textual: brochura Contexto: Texto sobre o produto exclusivo do cliente, designadamente batatas fritas. A informação estava distribuída por 10 ficheiros conforme o tópico em questão (por exemplo, informações sobre a empresa, o processo interno de seleção das batatas, etc.) e o público-alvo, que neste caso, se tratava de chefes de cozinha ao nível mundial, abrangendo diversos tipos de restaurantes, como restaurantes localizados em hotéis ou de fast food. O exemplo a seguir é um excerto retirado do ficheiro que abordava o processo de seleção das batatas e os procedimentos internos aos quais as batatas eram submetidas até estarem prontas para serem distribuídas. Texto Original Tradução Revisão “After washing and peeling, the potatoes are “Após a limpeza e o descascamento, as batatas “Após a limpeza e o descascamento, as batatas 28 O principal problema encontrado neste exemplo prende-se com a falta de equivalentes em Português da expressão “water knives”. No contexto em que se insere e sem efetuar qualquer tipo de pesquisa, é possível inferir que se trata de um sistema que envolve facas numa atmosfera de água. No entanto, após uma intensa pesquisa através dos mais variados recursos online não foi possível chegar a qualquer conclusão (incluindo a pesquisa por imagens). Apesar de as imagens apresentadas durante a pesquisa serem relativamente semelhantes, proporcionando uma perceção visual do objeto em causa, não forneciam qualquer contexto e várias até apareciam na pesquisa, mas tinham uma designação diferente no website em que estavam incorporadas. De facto, ao contrário de outros casos que serão abordados mais à frente, uma pesquisa completa e intensiva nem sempre origina os resultados esperados. Foi necessária, por isso, outra abordagem, recorrendo-se a uma explicação do sistema em si. Efetivamente, apesar de não ter sido possível descobrir um equivalente direto, a pesquisa revelou algumas pequenas referências ao processo de corte e através da plataforma Youtube foi possível ter uma ideia do tipo de máquina na qual as batatas eram colocadas e o processo ao qual seriam sujeitas. Assim sendo, recorri a uma pequena narração dos elementos envolvidos no processo. No entanto, apesar de o revisor ter realizado poucas alterações e ter mantido o conceito de que o corte das batatas é realizado através de jatos de água de alta pressão, é cut. A special system of knives makes it possible to cut the potatoes in the desired shape and size. The potatoes are cut with water knives, which guarantees regular shape of the fries with minimal starch losses.” são cortadas. Um sistema especial de facas torna possível cortar as batatas na forma e tamanho desejados. As batatas são cortadas com jatos de água a alta pressão, com facas que garantem uma forma regular das batatas fritas e perdas mínimas da fécula.” são cortadas. Um sistema especial de cortes torna possível cortar as batatas na forma e tamanhos desejados. As batatas são cortadas com jatos de água de alta pressão, o que garante uma forma regular das batatas fritas e perdas mínimas de fécula.” 29 possível observar na tabela “Revisão” que o revisor retirou as duas referências ao corte através do uso de “facas” que estavam presentes na tradução. Este foi o único projeto realizado ao longo de todo o período de estágio, cujo revisor era um freelancer e com o qual não tive a oportunidade de contactar. Contudo, é possível inferir o motivo pelo qual efetuou a dita alteração. Ao longo da intensa pesquisa efetuada, incluindo a visualização de diversos clips no Youtube nunca foi fornecida uma referência direta e explícita ao uso de facas neste processo. Apesar de os resultados alcançados não terem sido muito claros em relação aos elementos e ao seu papel exato no processo de corte, foi um erro ter conjeturado que o corte envolveria facas unicamente devido ao texto de partida e ter refletido essa conjetura na tradução. Dado o tempo obviamente limitado que foi atribuído para a realização da tradução não foi colocada a hipótese de que talvez o processo não envolvesse de facto facas e que pudesse constituir uma metáfora de um corte realizado pela própria água, o que talvez possa ter ocorrido ao revisor. Neste sentido, a omissão destes objetos durante a revisão foi a opção mais viável por permitir uma maior generalidade do processo de corte de batatas, o que corresponde, de facto, às verdadeiras informações obtidas através da pesquisa realizada. Efetivamente, após uma tentativa inicial de procurar um termo equivalente direto em Português, talvez o recurso a uma estratégia de tradução pragmática tenha sido a opção mais correta: uma estratégia na qual o tradutor tenta tornar o TC mais claro e acessível para os leitores. Neste sentido, é possível recorrer à opinião de Chesterman (1997) segundo o qual a estratégia “explicitness” é uma estratégia segundo a qual alguma informação do texto poderá ser adicionada ou eliminada. “This change [explicitness] is either towards more explicitness (explicitation) or more implicitness (implicitation). Explicitation is well known to be one of the most common translatorial strategies.” (Chesterman 1997:108) O objetivo desta estratégia corresponde àquele estabelecido pelo tradutor durante o processo tradutivo de “water knives”. Neste sentido, o público-alvo deste projeto eram chefes de cozinha, o que apesar de inferir que possuem um elevado conhecimento na área da culinária, não implica que saibam necessariamente todos os diversos processos de corte de batatas. Devido igualmente à função conativa do texto, a solução que transmite uma pequena explicação do processo em si é adequada pois torna a leitura mais fluída e proporciona uma maior 36 Através dos três exemplos apresentados é possível verificar como a ambiguidade lexical e a consequente possibilidade de existir mais que uma interpretação podem resultar em traduções inadequadas. No exemplo n.º 1, “print report” tanto pode significar “imprimir relatório” como “relatório de impressão”. No exemplo n.º 2, “Filter” tem duas traduções consideradas como as mais prováveis: “filtro” e “filtrar”. Dada a falta extrema de contexto, durante o processo de tradução foi selecionada a opção do verbo no infinitivo — “filtrar” — já que face a dúvidas criadas por ambiguidade lexical a estagiária estabeleceu a “regra” de que traduziria a palavra como o verbo no infinitivo, se e quando parecesse adequado. Porém, durante o processo de revisão a palavra foi alterada para “filtro”. Claro que a ambiguidade da palavra não permitia que alguém “ganhasse” esta “batalha” visto que não é possível ter cem por centro de certeza quanto ao significado mais adequado neste caso. No exemplo n.º 3, “Up” e “Down” são duas palavras que apresentam uma elevada ambiguidade lexical pois permitem vários significados. As seguintes figuras ilustram o leque de significados de “down” na plataforma online de termos informáticos, a Microsoft Language Portal — um dos principais recursos utilizados neste projeto. 8 Figura 11 - Print screen de um significado de “down” 8 É apenas apresentado o significado de “down” do Microsoft Language Portal pois “up” não apresenta resultados nessa plataforma. 37 Dada a natureza do domínio do texto (informática) as soluções de tradução adotadas basearam-se muito nos resultados obtidos no dicionário da Microsoft, considerado uma das fontes online mais fiáveis entre os tradutores e revisores da KvaliText. Contudo, o tradutor não tem certezas da adequabilidade da sua tradução: “up” e “down” até podem ser traduzidos de modo mais adequado como “para cima” e “para baixo”, dependendo do papel que estas expressões desempenham na versão brasileira do software. Devido à situação descrita acima foi necessário contactar o cliente para procurar o esclarecimento das dúvidas. No entanto, este não respondeu às questões que lhe foram colocadas, permitindo que o tradutor e o revisor explorassem as várias possibilidades de interpretação. Efetivamente, a grande carência de contexto, o desinteresse por parte do cliente em responder às questões colocadas, a falta de materiais de referência e a ambiguidade lexical das palavras não permitiram que fosse possível obter as informações necessárias, dificultando a adequação da tradução do TC. Apesar de já terem sido apresentadas anteriormente, as palavras de Robinson descrevem de modo realista o que muitas vezes o tradutor se vê obrigado a realizar face a situações de ambiguidade lexical: “make[ing] educated guesses (abductions) regarding words or phrases that no one has been able to help you with, and present your translation as a (…) successful translation.” Neste sentido e em jeito de conclusão a tradutora é da opinião que uma das tarefas inerentes à profissão do tradutor, independentemente do tipo de texto ou género textual é a de muitas vezes necessitar de “supor”, “presumir” ou “adivinhar”. Efetivamente, esta afirmação é consolidada novamente pelas palavras de Douglas Robinson. Figura 12 - Print screen dos significados de “down” 38 “no one, not even the best translator, is ever perfectly proficient on every job s/he does; all translation contains an element of guesswork. The translator who never guessed, who refused even in a first rough draft to write down anything about which s/he; was not absolutely certain, would rarely finish a job.” (Robinson 2003:130). 1.4 REFERÊNCIAS CULTURAIS Para Eugene Nida, o sucesso de uma tradução depende de alguns fatores, mas acima de tudo esta deverá alcançar uma resposta equivalente (ao original). Este considera alguns aspetos como requisitos básicos de uma tradução, nomeadamente a realização de uma tradução que faça sentido, a transmissão do espírito e da forma do texto original, a produção de uma resposta idêntica, devendo igualmente possuir uma forma de expressão fácil e natural (Apud Munday 2008:42). A tradução de referências culturais tem constituído um dos maiores desafios enfrentados por um profissional da área da tradução. Neste âmbito, o tradutor vê-se confrontado com algumas opções, podendo recorrer, segundo Nida, a dois tipos de equivalência: a formal e a dinâmica (Apud Munday 2008:42). Caso n.º 1 N.º de palavras: 14 203 Línguas de trabalho: EN > PT-BR Ferramenta de tradução: MemoQ 2014 Função do texto: apelativa (subfunção: referencial) Domínio: marketing e informática Contexto: Texto sobre os diversos planos de um software que o público podia adquirir, caso exercessem o cargo de administrador(a) de uma empresa, na qual, através de uma equipa de trabalho com alguma dimensão, proporcionassem um serviço de apoio aos seus clientes, em especial por telefone e correio eletrónico. 39 Em geral, o texto em causa apresentava uma linguagem formal, mas com inúmeras referências culturais e coloquialismos, com o intuito de criar uma relação próxima com o leitor (dada à natureza do seu domínio) e persuadi-lo a adquirir o produto. Neste sentido, um problema surgiu aquando da tradução de um jogo infantil, uma referência no TP (texto de partida) relativa a uma das funções do software que tinha como intuito aprofundar a relação de proximidade com o público e tornar o produto ainda mais apelativo, transmitindo o conceito de “diversão” e “facilidade” em trabalhar com o software. Texto Original Tradução “Simon Says “Don’t Leave Email” (…) “In fact, our customers tell us that it not just makes their life better - it’s actually a lot of fun too! That’s why we made it into a game of Simon Says.” “O Mestre manda "Não saia do e-mail” (...) Na verdade, nossos clientes nos dizem que não torna apenas sua vida mais fácil - também é muito divertido! É por isso que o tornamos em um jogo do Mestre manda.” Ao analisar o contexto original, verifica-se que uma das funções/opções do software intitula-se “Simon Says”. Esta função, destinada ao administrador da empresa, tem como objetivo comunicar com a equipa de apoio ao cliente para que estes realizem alguma ação. Após alguma pesquisa verificou-se que “Simon says” é um jogo infantil, equivalente ao jogo “O rei manda” em Portugal. A primeira solução, considerada talvez a mais adequada seria adaptar o jogo Inglês à cultura brasileira, optando por um equivalente cultural e minimizando a “estranheza” no TC. No entanto, a frase que surge depois da frase apresentada na tabela acima, suscitou dúvidas devido ao segundo contexto no qual surge a referência ao jogo. 40 Texto Original Tradução “Just add all the commands you want your helpdesk to execute within the @simonsays command.” “Simplesmente adicione todos os comandos que deseja que seu helpdesk execute no comando @simonsays.” Como é possível observar, a referência ao jogo é antecedida pelo símbolo “@”, o que significa que, neste caso, a referência se trata do nome da funcionalidade disponível no software, sendo por isso, muito improvável que fosse alterada na versão brasileira do software. Por conseguinte, esta referência devia ser preservada em Inglês no TC. Face aos contextos em que esta referência cultural surge, o tradutor vê-se confrontado com duas opções: manter a referência no seu idioma original na primeira opção – tentando atenuar a estranheza por meio de parênteses, colocando o equivalente cultural ou uma breve explicação do jogo que permita colmatar as expectativas e tendo assim apenas uma referência ao jogo, o que permite a consistência intratextual – ou recorrer a “equivalências dinâmicas”, que transmitissem a ideia de “naturalidade”, o principal requisito para a realização de uma tradução para Nida. “‘Naturalness’ is a key requirement for Nida. Indeed, he defines the goal of dynamic equivalence as seeking ‘the closest natural equivalent to the source-language message’(…). This receptor-oriented approach considers adaptations of grammar, of lexicon and of cultural references to be essential in order to achieve naturalness; (…)”. (Apud Munday 2008:42) Neste caso, a equivalência dinâmica mais natural é a referência cultural “o rei manda”. Esta opção foi considerada a mais adequada por parte da tradutora, pois apesar da menção distinta ao jogo foi considerado fundamental manter a função apelativa do TP, assim como o seu lado criativo; o intuito foi preservar, de forma semelhante, a relação entre o recetor e a mensagem presente no texto original. (Munday 2008:42). Neste sentido, uma vez que o texto se destinava ao público brasileiro, foi necessário descobrir o nome deste jogo em Português do Brasil, verificando a 41 veracidade e a precisão das opções encontradas. Nesta etapa, como tradutora de nacionalidade portuguesa é de referir que a “naturalidade” da tradução da expressão poderia de certa forma estar comprometida, pois o conhecimento da cultura brasileira era limitado. Ainda assim, foi realizada uma pesquisa online e verificou-se que no Brasil o equivalente de “Simon says” é “O mestre mandou”. Porém, para confirmar a “naturalidade” desta expressão foi pedido auxílio às tradutoras de nacionalidade brasileira (que confirmaram o registo atual da expressão “O mestre”) e optou-se então por manter o verbo principal no presente do indicativo e não na sua forma do pretérito perfeito. Isto pode justificar-se por se entender que o presente do indicativo transmitiria igualmente a mensagem concreta do jogo infantil, mantendo o lado criativo e apelativo do TC, sendo facilmente identificável pelo leitor e dando a ideia de poder que o administrador podia exercer sobre a sua equipa no momento de leitura do texto (após confirmação clara de que isto seria natural para o público por parte das tradutoras brasileiras). 1.5 PROBLEMAS TÉCNICOS Caso n.º 1: Colocação de tags N.º de palavras: 556 Línguas de trabalho: EN > PE Ferramenta de tradução: SDL Studio 2011 Domínio: Medicina De todos os projetos realizados ao longo do estágio curricular, houve um que se destacou dos restantes em virtude dos seus problemas técnicos e do impacto significativo que esses problemas provocaram no processo de tradução. Neste caso, o problema prendia-se com o elevado número de tags no conteúdo do texto de partida, em comparação com o número de palavras. Este projeto, realizado na ferramenta SDL Studio, contava com 263 tags e 556 palavras ao todo. A figura seguinte mostra claramente esta situação. 42 Neste sentido, uma vez que se tratava de um projeto com apenas 556 palavras e que contava com uma memória de tradução repleta de entradas deduziu-se que a sua tradução terminaria num período máximo de duas horas. Contudo, este não foi o caso, pois a colocação das tags constituiu uma tarefa extremamente árdua e demorada. Como é possível observar na figura, as tags encontravam-se não só em todos os parágrafos e frases, mas até mesmo entre palavras, dividindo palavras em várias sílabas ou letras, isolando alguns sinais de pontuação como as vírgula ou os pontos finais. Foi necessário, portanto, colocar cada uma das tags no seu local correto no texto de chegada. Além de a tarefa atrasar por si só o processo tradutivo, a cat tool ainda “interpretava” alguns desvios do texto de partida como possíveis erros. Isto é, identificava falsamente espaços no texto de chegada que foram alterados devido à sintaxe da língua portuguesa, tornando-se confuso identificar se era uma falha real ou falsa devido ao elevado número de tags em apenas uma frase. As duas horas previstas para a conclusão deste projeto transformaram-se num período de quatro horas, o que diminuiu significativamente o tempo atribuído de antemão para a realização de outros projetos de pequena dimensão alocados para esse dia. Como consequência desta situação, foi necessário permanecer horas extra na empresa para poder concluir todos os projetos atribuídos para esse dia. Como conclusão desta experiência muito negativa, fica a nota de que os responsáveis pela análise dos projetos e pela sua distribuição, neste caso, os gestores de projetos deveriam ter este tipo de aspetos em conta aquando da alocação dos mesmos e refletir essa análise no tempo dispensado aos tradutores para a realização da tradução. Figura 13 - Print screen do TP na ferramenta de apoio à tradução 43 1.6 O PORTUGUÊS DO BRASIL Ao longo deste estágio foi possível entrar em contacto com uma variante da língua portuguesa, cuja presença no mercado da tradução é cada vez maior e mais dominante: o Português do Brasil. Deve-se referir que tradução para o Português do Brasil é uma prática muito recorrente na KvaliText e que os estagiários curriculares não são privados dos textos cujo idioma de chegada seja esta variante. A adaptação à variante brasileira não constituiu uma tarefa fácil. Como estagiária curricular, com uma experiência limitada no mercado de trabalho, falante materna da norma europeia e cujo contacto com a variante brasileira era escassa, previase o surgimento de várias dificuldades. Dificuldades procedentes não só da falta de conhecimento das diferenças gramaticais e lexicais entre ambas as variantes do idioma, mas também do desconhecimento de fontes online e recursos fiáveis aos quais era possível recorrer para o esclarecimento de dúvidas. Neste sentido e com o intuito de colmatar este desconhecimento foi proporcionada uma formação contínua neste âmbito ao longo do estágio curricular por parte da empresa acolhedora. Para isso, por um lado, foi fornecido material sobre algumas das maiores diferenças entre as duas variantes, cuja leitura foi realizada no primeiro dia de estágio, mas ao qual a estagiária tinha acesso contínuo. Por outro, foi realizada uma sessão de formação interna pelas tradutoras brasileiras sobre o Português do Brasil, que serviu para o esclarecimento de quaisquer dúvidas por parte da equipa. Além disso, era possível pedir auxílio aos colegas de equipa, em especial aos tradutores seniores, com uma elevada experiência na área e que trabalham há muitos anos na KvaliText. No entanto, apesar de todas estas estratégias por parte da empresa, o processo de adaptação foi moroso e gradual, constituindo mesmo o maior desafio deste estágio, pois tal como afirma Michelle de Abreu as discrepâncias entre ambas as variantes são muitas e exigem uma atenção redobrada por parte do responsável pela tradução, caso este seja de nacionalidade portuguesa. 44 “[…] quando olhamos mais de perto, percebemos que as discrepâncias entre a língua portuguesa europeia e a brasileira são muitas, capazes até de levar o leitor à total incompreensão, ou à falsa ilusão de que entendeu o texto quando, na verdade, ele acabou de ler vocábulos que existem em ambas as línguas, mas que podem adquirir significados diferentes em cada uma delas.” (Aio 2010:98) 1.6.1 LÉXICO E TERMINOLOGIA Uma das maiores dificuldades enfrentadas ao longo das traduções realizadas para a variante brasileira da língua portuguesa prendeu-se com as divergências ao nível lexical e terminológico. A experiência ganha ao longo do estágio permitiu compreender que para poder traduzir de modo adequado para a variante brasileira é necessário levar a cabo um processo de seleção de vocábulos, pois há determinadas palavras que embora existam em ambas as variantes, não possuem o mesmo significado, as chamadas palavras homónimas. Do mesmo modo, apesar de existirem palavras iguais em ambas as variantes e o seu significado ser idêntico, isso não se manifesta numa tradução natural. Isto é, em muitos casos, o uso de determinadas palavras é dependente do contexto em que a frase e/ou texto está inserido ou da sua vulgarização numa variante, tornando muitos vocábulos adequados para determinados enquadramentos e inadequados para outros. É necessário, por isso, conhecer não só o idioma, mas também a cultura. Uma vez que a tradução técnica, em especial do domínio da informática e a localização de websites representou uma porção significativa das traduções realizadas, é sem surpresa que se afirma que algumas das principais diferenças entre as variantes foram encontradas nesse âmbito. A seguinte tabela representa uma compilação de alguns dos termos reunidos ao longo da realização dos projetos e cuja tradução origina vocábulos distintos nas variantes portuguesa e brasileira. 45 Inglês Português Europeu Português do Brasil Área Application Aplicação Aplicativo Informática Archive Ficheiro Arquivo Informática Brake Travão Freio Mecânica Café (estabelecimento) Café Lanchonete Geral Database Base de dados Banco de dados Informática Desktop Ambiente de trabalho Área de trabalho Informática Management Gestão Gerenciamento Informática/Economia Mouse Rato Mouse9 Informática Passenger car/Coach Carruagem Vagão Transportes Password Palavra-passe Senha Informática Screen Ecrã Tela Geral Step Passo Etapa Geral Supply Fornecimento Suprimento Prestação de serviços Tab Separador Guia Informática To access Aceder Acessar Informática To collect Colecionar Coletar Geral To delete Eliminar Excluir Informática Truck Camião Caminhão Transportes 9 Aplica-se exclusivamente à área da informática. O animal (rato) é designado do mesmo modo em PTBR que em Português europeu. 52 Como é possível verificar, em ambos os casos foi aplicado o tempo verbal correto no Português europeu. Ao longo do estágio, este erro ocorreu diversas vezes e em projetos diferentes. Isto pode justificar-se pela lenta adaptação a esta regra por parte da estagiária, pois esta regra é considerada pouco natural para um falante de Português europeu. Mais uma vez e à semelhança do exemplo apresentado em 1.6.1, estes são erros cometidos por alguém que não deveria estar a efetuar uma tradução para uma variante da qual não é nativa, ou caso fosse uma tarefa considerada necessária, deveria ter uma alta formação do idioma de chegada. 1.6.4 ARTIGOS O emprego dos artigos definidos difere entre as variantes. Em Português do Brasil o seu uso está praticamente extinto quando este antecede um determinante possessivo. Esta diferença, de cariz gramatical, resultou em algumas traduções incorretas, apesar de estas terem ocorrido exclusivamente no início do estágio devido ao desconhecimento inicial e à insegurança em relação à frequência do seu uso nesta “estranha” variante. O seguinte problema surgiu aquando da tradução de um correio eletrónico de boas-vindas de pequena dimensão, de Inglês para Português do Brasil. Texto Original Tradução Revisão “Please ensure that data is handled according to your local data protection laws.” “Garanta que os dados são manuseados em conformidade com suas leis de proteção de dados locais.” “Garanta que os dados sejam manuseados em conformidade com suas leis de proteção de dados locais.” Texto Original Tradução Revisão “First step for you will be to log in here” “O seu primeiro passo será efetuar login aqui” “Seu primeiro passo será fazer logon aqui” 53 Durante o processo de tradução, achou-se por bem incluir o artigo antes do determinante. Contudo, após a entrega do projeto ao cliente, a revisão foi analisada por iniciativa própria e foi realizada uma pesquisa célere sobre a matéria; retirou-se a conclusão de que face a um determinante possessivo era incorreto precedê-lo por um artigo definido, independentemente do contexto em que poderia surgir. Este exemplo foi retirado de um projeto realizado na segunda semana de estágio, constituindo um dos primeiros projetos realizados para o Português do Brasil. 1.6.5 PREPOSIÇÕES “As diferenças entre PB e PE abrangem, além do léxico (...) aspetos sintáticos, fonológicos, morfológicos e pragmáticos.” (Aio 2010:105) Outra das diferenças mais significativas entre as variantes em causa e cuja formação nesse âmbito foi muito limitada prende-se com o uso das preposições. Os documentos proporcionados pela empresa, lidos no primeiro dia de estágio e cujo intuito era de certo modo colmatar o desconhecimento dos estagiários em relação a estas questões, através de guias de estilo e regras que estes deveriam seguir, não abrangiam adequadamente o tema do uso das preposições. De facto, foram abordadas matérias como as diferenças entre o uso de abreviaturas e de alguns símbolos, mas não foi abrangido devidamente o tópico referente ao uso das preposições e às diferentes formas de os empregar nas diversas variantes. Devido ao óbvio desconhecimento destas aplicações, esta foi uma das áreas em que os problemas tradutivos foram mais difíceis de solucionar e em relação à qual houve uma maior insegurança durante o processo tradutivo. Como consequência, os erros de tradução foram mais frequentes e a progressão nesta área não foi gradual ou significativa (ao contrário de outras matérias). Tome-se como ilustração, o seguinte exemplo: Texto Original Tradução Revisão “Communication lines “As linhas de comunicação “As linhas de comunicação 54 Neste caso, foi aplicada inicialmente a preposição correta desde um ponto de vista da variante europeia da língua portuguesa. Isto é, o uso de uma preposição que designa um modo (“a preto”). Contudo, após uma análise da revisão efetuada e após questionar uma colega de equipa brasileira, conclui-se que a construção frásica na variante brasileira é distinta e necessita da preposição “em” e não da “a”. 1.6.6 CONSIDERAÇÕES FINAIS Como conclusão deste tema, deve ser dito que, apesar dos vários problemas enfrentados e dos inúmeros erros cometidos, esta experiência revelou-se muito elucidativa quanto à escrita do Português no Brasil e ajudou à compreensão da própria cultura brasileira. Contudo, para obter uma tradução adequada que cumpra o seu propósito de “naturalidade”, esta deve ser realizada por quem domine totalmente a cultura de chegada, uma vez que a tradução envolve muito mais do que a simples substituição de vocábulos e expressões. “Translation involves far more than replacement of lexical and grammatical items between languages (…). (…) once the translator moves away from close linguistic equivalence, the problems of determining the exact nature of the level of equivalence aimed for begin to emerge.” (Bassnett 2014:35) Além disso, a generalidade desta experiência não constituiu apenas uma processo de tradução intertextual, pois pode também ser considerado de certo modo intralinguístico, uma vez que o processo de adaptação da escrita do tradutor ao Português do Brasil era contínuo e passava muitas vezes pela adaptação mental de uma shown in black use other internal protocols (CAN, PCIe, or proprietary protocols).” apresentadas a preto usam outros protocolos internos (Protocolos CAN, PCIe ou de propriedade).” apresentadas em preto usam outros protocolos internos (Protocolos CAN, PCIe ou de propriedade).” 55 variante para a outra. Como infracitado, no processo de tradução interlinguístico as alterações ocorrem dentro do mesmo idioma. “Intralingual translation would occur, for example, when we rephrase an expression or when we summarize or otherwise rewrite a text in the same language.” (Munday 2008:5) 56 CONCLUSÃO O estágio curricular levado a cabo na KvaliText foi uma experiência muito enriquecedora pois permitiu entrar em contacto com o mercado de tradução atual. Durante estes três meses de trabalho intenso foi possível compreender o fluxo de trabalho de uma empresa de tradução e os moldes em que trabalha um profissional inhouse. Foi possível colocar em prática e aperfeiçoar as competências já adquiridas durante a formação académica, assim como adquirir novas práticas de trabalho e novas competências informáticas. Além disso, foi possível superar os limites pessoais relacionados com a gestão do tempo e a qualidade da tradução. Este foi sem dúvida um dos principais aspetos a salientar: um progresso extraordinário da gestão do tempo e um progresso gradual, mas igualmente colossal da rapidez de trabalho e consequentemente da produtividade. Neste primeiro impacto com um contexto profissional foi necessário gerir o tempo atribuído pelas PMs de uma forma extremamente disciplinada para poder concluir o projeto a tempo e entregar um trabalho com qualidade. No entanto, ocorreram vários problemas a este nível, pois como se verificou através dos exemplos apresentados no capítulo II existem vários fatores e circunstâncias que afetam significativamente a rapidez e a qualidade de um determinado projeto de tradução. Entre eles, os problemas técnicos, não só ao nível da colocação de tags, mas também aqueles que surgem no software, muitas vezes erros que o próprio informático da empresa não consegue solucionar rapidamente; os problemas derivados das exigências do cliente ou da falta de materiais de referência não disponibilizados, entre outros. Porém, nem sempre os clientes estão cientes destes aspetos. “[..] when one's conception of translation is product-driven, all one asks of the process is that it be reliable, in the complex sense of creating a solidly trustworthy product on demand (and not costing too much). We need it now. And it has to be good. If a human translator can do it rapidly and reliably, fine; if not, make me a machine that can.” (Robinson 2003:16) 57 Além disso, neste estágio foi possível entrar em contacto com uma maior variedade de ferramentas de apoio à tradução, tipos de texto e géneros textuais e recursos online do que aqueles experienciados no MTSL (Mestrado em Tradução Serviços Linguísticos). Neste contexto profissional foi depositada extrema confiança na estagiária, foi possível ganhar autoconfiança e conviver com uma equipa fantástica e qualificada, composta por tradutores que partilhavam os conhecimentos adquiridos ao longo dos seus anos de experiência profissional, sempre que a estagiária necessitasse desse apoio. Contudo, nem tudo decorreu como esperado. A carga de trabalho era muito elevada, o que apesar de permitir pôr em prática alguns dos conhecimentos adquiridos no MTSL não permitiu feedback suficiente por parte dos revisores, nem muito tempo para refletir sobre o processo em si mesmo. O mercado da tradução avança a um ritmo frenético, exigindo uma adaptação rápida por parte das estagiárias. Além disso, estava planeado um apoio à gestão de projetos, algo considerado entusiasmante por parte da estagiária mas que infelizmente acabou por não suceder, devido, certamente ao fluxo de trabalho intenso. Esta área nunca foi abordada no MTSL e teria sido muito interessante compreender a fundo o trabalho das gestoras de projetos, lidar com orçamentos ou até obter algumas “luzes” relativamente à forma como se deve conversar com os clientes. Não obstante, este estágio permitiu uma transição do mundo académico para o mundo real de trabalho e proporcionou novas aprendizagens a vários níveis, permitindo um contacto com vários profissionais da área. Esta experiência resultou no culminar de anos de formação académica na área da tradução, tornando-se uma mais-valia para a carreira, pois possibilitou ainda um emprego na KvaliText. 58 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS Aio, M. A. (2012). A tradução literária entre o Português europeu e o Português brasileiro: relação entre língua e cultura. Babilónia, n.º 8/9, pp. 97-107. Disponível em: http://www.academia.edu/576117/A_Traducao_Literaria_entre_o_Portugues_Europeu_ e_o_Portugues_Brasileiro_Relacao_entre_Lingua_e_Cultura (última consulta em: 12/09/2015). Bassnett, S. (2014). Translation Studies. (4.ª edição). New York: Routledge. Chesterman, A. (1997). Memes of Translation: The spread of ideas in translation theory. Amsterdam/Philadelphia: John Benjamins B.V. Cunha, C. & Cintra, L. F. L. (2001). Nova Gramática do Português Contemporâneo. (3.ª edição). Lisboa: Editora Nova Fronteira, S.A. Esselink, B. (2000). A Practical Guide do Localization. Amsterdam/Philadelphia: John Benjamins B.V. Gouadec, D. (2007). Translation as a Profession. Amsterdam/Philadelphia: John Benjamins B.V. Munday, J. (2008). Introducing Translation Studies: Theories and applications. (2.ª edição). New York: Routledge. Nord, C. (2005). Translating as a Purposeful Activity: A Prospective Approach. TradTerm, Revista do Centro Interdepartamental de Tradução e Terminologia. FFLCH/USP. Volume 11, pp. 15-28. Disponível em: http://www.revistas.usp.br/tradterm/article/viewFile/49673/53784 (última consulta em: 13/09/2015). Nord, C. (2006). Loyalty and Fidelity in Specialised Translation. Confluências, Revista de Tradução Científica e Técnica, n.º 4, pp. 29-41. Reiss, K. & Vermeer, H. J. (1984). Groundwork for a general theory of translation. Tubigen: Max Niemeyer. 59 Robinson, D. (2003). An Introduction to the Theory and Practice of Translation. (2ª edição). New York: Routledge. Samuelsson-Brown, G. (2010). A Practical Guide for Translators. (5.ª edição). Bristol/Tonowanda/North York: Multilingual Matters. 60 ANEXOS 61 ANEXO I – LISTA DAS TRADUÇÕES REALIZADAS AO LONGO DO ESTÁGIO 16 Designação Tipo de tradução Par de línguas Nº de palavras Software Projeto 1 Marketing EN > PE 319 SDL Studio 2011 Projeto 2 Técnico EN > PT-BR 6500 SDL Studio 2011 Projeto 3 Geral ES > PE 818 Tag Editor Projeto 4 Técnico EN > PE 303 SDL Studio 2011 Projeto 5 Técnico EN > PE 290 SDL Studio 2011 Projeto 6 Técnico EN > PE 4325 Across Projeto 7 Técnico EN > PE 1623 Across Projeto 8 Geral EN > PT-BR 135 SDL Studio 2011 Projeto 9 Técnico EN > PE 435 Tag Editor Projeto 10 Localização EN > PT-BR 19 856 SDL Studio 2011 Projeto 11 Técnico EN > PE 744 SDL Studio 2011 Projeto 12 Marketing EN > PE 511 Tag Editor Projeto 13 Marketing EN > PT-BR 260 SDL Studio 2011 Projeto 14 Técnico ES > PT 10 000 SDL Studio 2011 Projeto 15 Técnico EN > PT 980 MemoQ 2013 Projeto 16 Técnico EN > PT-BR 639 MemoQ 2013 Projeto 17 Marketing EN > PT-BR 448 SDL Studio 2011 16 Na lista, os projetos são apresentados segundo a ordem em que foram atribuídos à estagiária. 68 English houseboats page about various houseboats, you may skip these examples on other languages pages.] English houseboats page about various houseboats, you may skip these examples on other languages pages.] Exemplo 2: texto técnico N.º de Palavras: 134 Línguas de trabalho: ES > PE Ferramenta de tradução: Tag Editor Material de referência: nenhum Texto Original Tradução HILO SELLADOR PARA ROSCAS - 100% P.T.F.E. FIO VEDANTE PARA ROSCAS – 100% P.T.F.E. CARACTERÍSTICAS CARACTERÍSTICAS Sellador de alta duración que se ajusta a la rosca durante el proceso de instalación. Válido para tubos de plástico y metal. Vedante de elevada duração que se ajusta à rosca durante o processo de instalação. Válido para tubos de plástico e metal. Resistencia a la mayoría de los productos químicos agresivos. No es inflamable. Resistente à maioria dos produtos químicos agressivos. Não é inflamável. No es peligroso, no produce ningún efecto en los fluidos de los tubos. Não é perigoso e não produz qualquer efeito nos fluídos dos tubos. Resistencia desde -200ºC a 240ºC. Resistente desde -200 °C a 240 °C. MODO DE EMPLEO MODO DE UTILIZAÇÃO Enrollar el hilo desde la parte final de la rosca en la misma dirección que ésta, Enrolar o fio desde a parte final da rosca na mesma direção que esta, sobrepondo-o 69 sobreponiéndolo frecuentemente. frequentemente. Adecuar el número de vueltas según rosca y medida del tubo. Se recomienda: Adeque o número de voltas segundo a rosca e a medida do tubo. É recomendado: Tubo 1/2” de 12 a 18 vueltas. Tubo de 1/2 polegadas (12,5 mm) – 12 a 18 voltas. Tubo 1 1/2” de 16 a 24 vueltas. Tubo de 1 1/2 polegadas (37,5 mm) – 16 a 24 voltas. Otros diámetros: ajustar número de vueltas Outros diâmetros: ajustar número de voltas. Aplicar 2-3 gotas de fluido distribuyéndolo sobre el hilo con el dedo; este material es biodegradable y no peligroso. Aplique 2 ou 3 gotas de fluido e distribuao pelo fio com o dedo; este material é biodegradável e não é perigoso. 70 ANEXO III – PLANO DE ESTÁGIO 71 72 ANEXO IV – AVALIAÇÃO DO ESTÁGIO CURRICULAR POR PARTE DA ORIENTADORA