Sistemas de Remuneração Variável em Contexto de Contração Económica - Estudo de Caso
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SISTEMAS DE REMUNERAÇÃO VARIÁVEL EM CONTEXTO DE CONTRAÇÃO ECONÓMICA – ESTUDO DE CASO JOÃO MANUEL SOUSA BARBOSA, nº 110483018 SETEMBRO DE 2013
i Nota biográfica João Barbosa nasceu no Porto em 3 de Novembro de 1984. Percorreu a sua vida académica em escolas da cidade do Porto e licenciou-se em Gestão, em 2007, na Faculdade de Economia da Universidade do Porto. Em julho de 2006 foi admitido na empresa MCoutinho Peças e Reparação Automóvel, SA, para um estágio de verão e, posteriormente, um estágio curricular exercendo funções do departamento de Contabilidade/Financeiro. Entre novembro de 2007 e julho de 2008, realizou um estágio profissional na mesma empresa, acumulando às funções já anteriormente executadas, o processamento salarial e todos os processos administrativos relacionados com os recursos humanos dessa empresa (com cerca de 150 trabalhadores). Terminado este estágio, continuou em funções na mesma empresa, agora vinculado através de um contrato de trabalho. Em maio de 2009 foi convidado para integrar a equipa de Recursos Humanos, da empresa MCoutinho SGPS, SA, passando assim a desempenhar funções como técnico de recursos humanos para todas as empresas do Grupo MCoutinho (com cerca de 900 colaboradores), ligado à vertente administrativa/jurídica desse departamento. Em junho de 2011, passou a coordenar a área da gestão administrativa de recursos humanos do Grupo (funções que desempenha atualmente), passando assim a ter uma responsabilidade acrescida em relação às suas funções anteriores. Na segunda metade de 2011, retomou a vida académica, inscrevendo-se no mestrado de Gestão de Recursos Humanos, na Faculdade de Economia da Universidade do Porto.
ii Agradecimentos Para que este trabalho pudesse ser concluído, foram várias as pessoas que contribuíram, seja pelo incentivo ou pela colaboração a nível mais técnico. Gostaria de deixar os seguintes agradecimentos especiais: Ao meu orientador, Professor Doutor José Varejão, por ter aceitado o desafio de ser orientador desta tese, pelo fundamental contributo que a sua experiência e pragmatismo me proporcionou e sem o qual não seria possível concluir este trabalho. A sua disponibilidade foi importantíssima no sentido me fornecer o feedback adequado e oportuno durante as várias fases desta tese. Ao Sr. António Coutinho por me ter dado a oportunidade de conduzir este trabalho no Grupo MCoutinho, dado que o facto de ser um Grupo e um negócio que conheço, facilitou a realização desta tese. A todos os meus superiores hierárquicos com quem tive o prazer de trabalhar e que contribuíram para o meu desenvolvimento profissional e por, indiretamente, terem conduzido a minha carreira para aquilo que é hoje e que sem eles este trabalho nunca seria concretizado, nomeadamente Fernanda Tavares, Paulo Maravalhas, Rui Oliveira e Helena Cruz. A toda a Equipa dos Recursos Humanos do Grupo MCoutinho, com quem tenho o prazer de trabalhar (Fernanda, Patrícia, Vera, Ana, João), pelo apoio e ideias que me deram durante este ano. Ao Pedro Gonçalves pela disponibilidade em fornecer alguns dados, informações e explicações essenciais para a concretização deste trabalho. Aos amigos e à família pelo incentivo que me deram durante a realização deste trabalho, em especial aos meus pais por todos os sacrifícios que fizeram por mim. À Guida pelo incentivo e pela ajuda preciosa na realização desta tese e por fazer especial cada dia da minha vida.
iii Resumo O presente trabalho tem como objeto de estudo o sistema de remuneração variável da equipa comercial de uma empresa do setor automóvel, com o objetivo de analisar de que forma se comporta o sistema de remuneração variável, num contexto de contração económica e, principalmente, de que forma aquele evoluiu entre 2008 e 2012. Neste período é possível analisar a transição de uma situação de estabilidade económica, para uma situação de crise no setor automóvel. Neste trabalho foram analisados os dados de equipas de comerciais de veículos novos e usados. Foi utilizada uma abordagem qualitativa assente na revisão bibliográfica sobre esta temática e, posteriormente, uma abordagem quantitativa no tratamento dos dados, com o objetivo de conhecer a evolução das remunerações pagas aos comerciais no período em análise, bem como a dos custos e retornos da atividade comercial para a empresa. Foi ainda descrito, de forma exaustiva, o modelo de negócio da empresa, bem como os sistemas de compensação utilizados e a forma como este se comportam no período em estudo, verificando que o modelo atual utilizado pela empresa se encontra desajustado bem como os motivos para tal situação. Palavras-chave: setor automóvel, remuneração variável, vendedor, custo, retorno, risco.
iv Abstract The present work aims to study the variable remuneration system of the trade team in a company of the automotive sector, in order to analyze how the variable compensation system behaves in a context of economic contraction and, especially, how it evolved between 2008 and 2012. In this period, it is possible to analyze the transition from a situation of economic stability to a crisis in the automotive sector. In this study, we analyzed the data from the trade team of new and used vehicles. It has been used a qualitative approach based on the literature review of this subject and, then a quantitative approach in the treatment of the data, in order to know the evolution of the salaries of the trade team in the period, as well as the costs and returns of the commercial activity for the company. It has also been described exhaustively, the business model of the company, as well the compensation schemes used and how it behave in the period, in order to check if the current model used by the company is inadequate and the reasons for such situation. Keywords: automotive sector, variable compensation, seller, cost, return, risk.
v Índice Introdução ..................................................................................................................................... 1 Metodologia .............................................................................................................................. 3 Revisão bibliográfica .................................................................................................................... 4 Sistemas de compensações ........................................................................................................ 4 Componentes de recompensas .................................................................................................. 7 Remuneração variável ............................................................................................................... 9 Remuneração de comerciais .................................................................................................... 11 Margem bruta .......................................................................................................................... 13 Um novo paradigma? .............................................................................................................. 14 Exemplos de sucessos e erros.................................................................................................. 16 Caso prático ................................................................................................................................. 19 Contextualização do setor ....................................................................................................... 19 Comerciais e o modelo de negócio ......................................................................................... 23 Sistemas de compensações - Modelo MCoutinho ................................................................... 25 Análise de dados ..................................................................................................................... 31 Remunerações ..................................................................................................................... 31 Retorno e custos .................................................................................................................. 40 Risco .................................................................................................................................... 48 Conclusão .................................................................................................................................... 50 Bibliografia ................................................................................................................................. 53
vi Índice de Figuras Figura 1 – Organigrama do departamento de vendas .................................................................. 24 Figura 2 – Sistema de compensação da MCoutinho ................................................................... 26
vii Índice de Gráficos Gráfico 1 – Número de veículos (ligeiros e pesados) vendidos entre 1970 e 2011, em Portugal 20 Gráfico 2 – Evolução do número de colaboradores no GMC entre Janeiro de 2007 e Janeiro de 2013 ............................................................................................................................................. 21 Gráfico 3 – Composição da estrutura de RH por área de negócio (%) na MCoutinho, em 2012 22 Gráfico 4 – Composição da estrutura de Recursos Humanos por habilitações literárias na MCoutinho, em 2012 .................................................................................................................. 23 Gráfico 5 – Composição do total das remunerações (%) na MCoutinho, entre 2008 e 2012 ..... 27 Gráfico 6 – Composição da remuneração variável (%) na MCoutinho, entre 2008 e 2012 ........ 31 Gráfico 7 – Evolução das remunerações totais anuais (€) pagas aos comerciais na MCoutinho, entre 2008 e 2012 ........................................................................................................................ 32 Gráfico 8 – Evolução das remunerações fixas anuais (€) pagas aos comerciais na MCoutinho, entre 2008 e 2012 ........................................................................................................................ 34 Gráfico 9 – Evolução das remunerações variáveis anuais (€) pagas aos comerciais na MCoutinho, entre 2008 e 2012 .................................................................................................... 35 Gráfico 10 – Evolução do peso de cada rubrica da remuneração variável (%) pagas aos comerciais na MCoutinho, entre 2008 e 2012 ............................................................................. 36 Gráfico 11 – Evolução do peso da remuneração variável e do número de unidades vendidas (%) na MCoutinho, entre 2008 e 2012 ............................................................................................... 38 Gráfico 12 – Evolução das remunerações totais (€) pagas a dois comerciais de veículos novos na MCoutinho, entre 2008 e 2012 .................................................................................................... 39 Gráfico 13 – Evolução do peso do custo das remunerações e dos outros custos, no custo total dos comerciais, anualmente por comercial (€) na MCoutinho, entre 2008 e 2012 ..................... 41 Gráfico 14 – Evolução do custo total anual dos Comerciais e do custo total anual por Comercial (€) na MCoutinho, entre 2008 e 2012 ......................................................................................... 42 Gráfico 15 – Evolução do retorno (€) vs. comissões (€) anual na MCoutinho, entre 2008 e 2012 ..................................................................................................................................................... 43 Gráfico 16 – Evolução peso do valor total das comissões no valor total do retorno (%) na MCoutinho, entre 2008 e 2012 .................................................................................................... 45 Gráfico 17 – Evolução da margem (€) e da comissão por unidade vendida (€) da MCoutinho, entre 2008 e 2012 ........................................................................................................................ 46 Gráfico 18 – Evolução da rentabilidade dos comerciais (€) da MCoutinho, entre 2008 e 2012 . 47
viii Índice de Tabelas Tabela 1 – Evolução dos valores máximos e médios dos valores anuais pagos aos comerciais (€) pagas aos comerciais na MCoutinho, entre 2008 e 2012 ............................................................ 37 Tabela 2 – Evolução dos valores pagos (€) a dois comerciais de veículos novos na MCoutinho, entre 2008 e 2012 ........................................................................................................................ 40
7 • Pagamento em dinheiro ou de outras formas: é reconhecido que as compensações monetárias têm um efeito motivacional nos colaboradores, contudo é importante que estas sejam complementadas com outro tipo de benefícios (nomeadamente sociais); • Ocultação de pagamentos: deverá a empresa esconder (mesmo dentro da própria empresa) o que paga aos seus colaboradores? Esta decisão está relacionada com o princípio de equidade interna, visto que se existir equidade a empresa não terá problemas em divulgar os seus salários, porque não verá inconveniente em esconder o que seja; • Centralização nas decisões de pagamento: esta decisão é importante para as empresas que tenham negócios distintos. A empresa terá que decidir se trata todos os negócios da mesma forma, ou se deve ter em conta a especificidade de cada um, tendo políticas diferentes. Componentes de recompensas Após a empresa ter respondido a estas questões pertinentes, encontra-se em condições que definir a sua política de recompensas. Não existe apenas uma forma de classificar as recompensas. Tosdal (1953) sugere que as recompensas devem incluir as seguintes componentes: • Salário; • Comissões; • Prémios especiais; • Bónus; • Partilha de lucros; • Pagamento de despesas; • Outros benefícios.
8 Por seu turno, Câmara et al. (2001) propõe a seguinte separação: • Recompensas extrínsecas: as recompensas mais relevantes são compostas pelos salários, os benefícios sociais e específicos; estas por si só não geram motivação, mas podem causar desmotivação; • Recompensas intrínsecas: quando bem utilizadas, podem criar condições para um maior compromisso entre trabalhador e empresa. E podem manifestar-se por exemplo através da autonomia no trabalho, do reconhecimento e da progressão na carreira. Estes são apenas dois exemplos de autores que recentemente caraterizaram os sistemas de compensações, mas já antes outros o tinham feito, como por exemplo Gérard Donnadieu (1986), que os decompõem da seguinte forma: • Remuneração direta: salário, horas extras e outras compensações intrínsecas ao desempenho; • Complementos de remuneração: carteira de ações, planos de poupança, participação no capital da empresa; • Complementos de curto prazo: automóvel, telefone pessoal, descontos em produtos da empresa, bolsa de estudo para os filhos, etc; • Complementos de longo prazo: complementos de reforma, seguro de vida, seguro de doença, conta poupança a prazo, etc. Como acima referido, existem vários benefícios que podem ser utilizados para motivar os colaboradores e beneficiar ainda do facto de algumas destas regalias estarem isentas de impostos. Entre esses benefícios pode identificar-se: • Subsídio de alimentação; • Complementos de subsídio de doença; • Planos de reforma; • Carro de serviço; • Cartão de crédito;
9 • Opções de compras de ações da empresa; • Seguro de saúde. Remuneração variável Existem várias formas de recompensar o esforço do trabalhador e as empresas devem criar um plano articulado por forma a motivar os trabalhadores a seguirem a sua estratégia. Por norma uma das decisões mais complexas que as organizações têm que tomar, é a de incluir ou não uma parte variável nas retribuições dos colaboradores. Edward Lazear, deu um dos principais contributos em relação a esta matéria, descrevendo, por exemplo, as grandes diferenças entre o pagamento baseado no input e no output. A remuneração variável refere-se à parte da remuneração que é atribuída ao colaborador em função dos resultados obtidos, ou caso o mesmo atinga determinados objetivos e por esse motivo é uma componente que não é certa. A decisão de utilizar ou não este tipo de remuneração terá que ter em conta o setor de atividade onde a empresa se insere e quais as funções que existem na mesma, isto porque em determinadas situações o pagamento de remuneração variável pode revelar-se não benéfico. Lazear (1998), Zoltners et al. (2006), Tosdal (1953), e Basu et al. (1985), apontaram uma série de vantagens e desvantagens na utilização de remunerações variáveis. Entre as vantagens é possível apontar: • Aumento do empenho e da vontade dos colaboradores em atingirem os objetivos propostos; • Maior flexibilidade da organização, permitindo que esta possa adaptar as suas políticas de remunerações à situação do mercado; • Interligação entre os custos com pessoal e os benefícios, o que permite que em setores, com ciclos económicos muito acentuados, não existam custos com pessoal elevados, sem o retorno financeiro correspondente; • Eliminação, em processos de recrutamento, dos candidatos que consideram que não atingirão os objetivos pressupostos e que, por esse
10 facto, não seriam boas contratações para as organizações. Também por este motivo só os melhores trabalhadores sentem incentivo em manterem-se na empresa. Apesar de tudo, este tipo de recompensas pode, igualmente, acarretar alguns inconvenientes para as organizações que o utilizam, nomeadamente: • Alguns trabalhadores mais experientes podem não aceitar ser remunerados desta forma, por considerarem que já deram provas do seu desempenho e não querem ter uma percentagem do seu salário “em risco”; • A monitorização do desempenho dos colaboradores pode em alguns casos ser dispendiosa e, em certas circunstâncias, esses custos determinam a não utilização de sistemas de remuneração variável; • A cooperação entre os colaboradores da empresa poderá ser penalizada; • Em determinadas funções, nomeadamente de suporte/administrativas, pode não ser fácil encontrar métricas objetivas para avaliar o desempenho e, caso se opte por critérios mais subjetivos, a atribuição pode ser entendida como injusta internamente; • Os colaboradores podem dar prioridade às atividades que são valoradas para a remuneração variável, negligenciando das outras atividades. Daqui se pode depreender que não se trata de uma decisão fácil, a de remunerar de forma fixa ou variável, não existindo uma resposta universal relativamente a este ponto. A investigação empírica sugere, contudo, o pagamento via componente fixa quando é mais difícil medir a produtividade do trabalhador e o pagamento via componente variável nas situações em que existe uma forte correlação entre o esforço e os resultados. Se a decisão for a de utilizar a remuneração variável, a empresa terá que pensar que tipo de desempenho irá recompensar, isto é, se deverá avaliar o desempenho
11 individual, o de uma determinada equipa, de uma unidade de negócio ou de uma organização como um todo. Em qualquer uma das opções existem vantagens e desvantagens, e a escolha deve ser feita em função dos interesses da organização e do contexto onde esta se insere. Por exemplo se os resultados forem alcançados essencialmente fruto da cooperação de vários elementos dentro da equipa, então fará sentido utilizar prémios coletivos no sentido de estimular a cooperação entre os vários elementos; se o resultado for alcançado em função do trabalho de um colaborador, então poderá ser utlizada uma remuneração variável em função do desempenho individual, promovendo assim uma cultura organizacional mais individualista, o que poderá contudo prejudicar a relação entre os vários colaboradores. Remuneração de comerciais Nas funções comerciais, dependendo da atividade em causa, a remuneração variável pode representar mais de metade do valor total auferido durante o mês. John e Weitz (1989) apontam três factos que podem ditar o aumento da componente fixa em detrimento da variável, particularmente, se for difícil medir a performance do comercial, se a empresa estiver inserida num negócio com elevado nível de incerteza/instabilidade e se a empresa tiver que controlar o desempenho de uma equipa de comerciais com dimensões consideráveis. Coughlan e Narasimnha (1992) definem o volume de vendas, a experiência, as habilitações literárias e a antiguidade na empresa como pontos que influenciam positivamente o rácio salário/remuneração total. O custo de oportunidade tem sido, igualmente, um fator relevante, uma vez que o seu aumento deve ser acompanhado por um aumento da componente fixa, de forma a evitar que o comercial saia da empresa. Em sentido contrário, a diminuição da componente variável paga aos comerciais é associada à melhoria da reputação da empresa, à aposta em publicidade e melhoria da qualidade do produto, visto que se considera que a venda não se concretiza apenas pelas competências do comercial, mas também pelo investimento da empresa.
12 Outros autores salientam a importância dos sistemas de compensação na retenção dos vendedores, visto que a própria função é vulnerável. Por exemplo, Lucas et al. (1987) sugerem que a rotação de comerciais poderia estar mais relacionada com fatores externos do que internos, dado que as condições económicas e as oportunidades de emprego do setor podem ter uma forte influência nestas decisões. Os mesmos autores referem que cabe aos chefes de vendas serem mais pró-ativos face a estas mudanças, criando condições e desafios às suas equipas, no sentido de os motivarem. Curiosamente Joseph e Kalwani (1992), concluíram que os sistemas de prémios são de facto eficazes, mas apenas nas empresas onde o total de remunerações praticadas é superior à média do restante setor. Zoltners et al. (2006) identificam seis fatores que influenciam a rotação de comerciais: • Tratamento respeitoso; • Reconhecimento; • Remuneração; • Oportunidades de crescimento; • Qualidade de vida; • Interesse pelo trabalho. Um aspeto importante a referir, e que parece ser consensual entre os académicos, é que os sistemas de remuneração variável devem ser claros e facilmente comunicáveis aos seus “utilizadores”, nomeadamente aos vendedores, isto é, estes devem saber claramente o que podem atingir e o que podem ganhar com o exercício das suas funções. Algumas empresas defendem que o melhor plano de incentivos é o sistema mais simples possível, visto ser facilmente compreendido pelos vendedores e também de cálculo simples. Além disso, o empregador deve ter consciência que um dos objetivos dos sistemas de remuneração variável é compensar o esforço e o trabalho dos colaboradores. Por seu turno, o colaborador deve ter a perceção de que o seu esforço é refletido no recibo de vencimento e que existe uma correlação entre o trabalho e a
13 recompensa, pois caso tal não aconteça o fator motivacional desaparece (Coughlan e Narasimhan, 1992). Margem bruta Existem várias formas de construir um sistema de remuneração variável, contudo os mais comuns são os pagamentos via volume de vendas efetuado e pela margem bruta que as vendas realizaram. Esta escolha deve estar relacionada com o tipo de produto vendido ou no mercado em que a empresa se insere. O primeiro é relativamente comum, porém na prática muitas vendas podem não ser sinónimo de muito lucro. Não obstante, poderá fazer sentido ser utilizado em situações em que as margens não sejam muito relevantes, ou mesmo se os preços forem fixos, dado que nestas situações o que interessa é somente a quantidade de produtos ou serviços vendidos (Farley, 1964). No segundo caso, o comercial, para maximizar as suas comissões, terá que gerir o seu tempo não só para vender produtos ou serviços, mas também para a maximização do lucro da empresa, através da margem das vendas. Nesta situação, a empresa poderá ter uma série de problemas. Por exemplo, se a empresa desejar vender produtos que resultem habitualmente numa comissão relativamente baixa para o comercial, este tenderá a não investir muito do seu tempo a vender esses produtos. Um outro exemplo estará relacionado com o nível do cálculo da margem da venda, dado que em determinados bens ou serviços pode não ser fácil definir o “custo de produção”, ou nos casos em que este custo é demasiadamente variável com as vendas efetuadas e, consequentemente, o lucro efetivo da empresa pode não ser corretamente calculado. Todavia, a vantagem na utilização da margem bruta é exatamente a de não dar incentivo ao vendedor para que conclua a venda com grandes descontos. Em ambas as situações as empresas têm que decidir se todos os produtos que o comercial vende são remunerados à mesma taxa ou se existe algum fator que possa diferenciá-los. A este respeito, Farley (1964) argumenta que os produtos devem ser
14 remunerados pelo mesmo critério e percentagem, considerando que o comercial tem como objetivo maximizar a sua remuneração e, por consequência, irá maximizar o lucro da empresa. Mais tarde, Srinivasan (1981) defende que os produtos com menor elasticidade (das unidades vendidas em função do esforço) devem ser remunerados com uma percentagem inferior, dado que a competência ou esforço do comercial não é fator primordial no processo da venda, como nos restantes casos. Existem alguns setores de atividade onde a norma é a utilização da remuneração via margem bruta e tal acontece, por exemplo, quando os comerciais têm controlo sobre o preço da venda, como é o caso dos comerciais do setor automóvel (Lal, 1986), visto que só desta forma o vendedor terá interesse em atribuir um preço para a venda, que maximize o lucro da empresa. Para além disso, Lal indica que nas situações em que o comercial possui mais informação do mercado do que o chefe de vendas, a empresa tem vantagens em delegar o controlo do preço de venda no comercial. Esta situação é, correntemente, explicada pelo facto de que em determinados setores os comerciais são distribuídos por zona ou por tipo de clientes e, por isso, algumas “quotas de clientes” podem ser mais complicadas que outras. Sobre este tema, Jacob Gonik (1978) nota que depois da II Guerra Mundial verificou-se um boom na economia e que, por esse motivo, os comerciais conseguiam atingir os seus objetivos facilmente, sem aplicar o mesmo esforço, estando assim a ser pagos excessivamente. Um novo paradigma? Nos últimos anos, a literatura tem dado relevância a uma nova forma de remunerar os comerciais e, inclusivamente, algumas empresas já adotaram esta nova política com efeitos positivos na relação trabalhador-empregador como, por exemplo, a Xerox. Sobre este tema, Hunt (2012) conclui que se a empresa delegar a escolha do sistema de remuneração variável no próprio vendedor, poderá obter efeitos positivos na identificação do colaborador com a empresa, bem como o nível de suporte que esta proporciona ao vendedor, sendo estes dois pontos importantes para a diminuição da
15 rotatividade dos trabalhadores. Na prática trata-se de um sistema de compensações individualizado, podendo o vendedor optar por um plano com um componente fixa mais forte ou pelo contrário um sistema baseado principalmente em comissões e, por isso, sujeito a mais flutuações. Das entrevistas que Hunt (2012) aplicou a comerciais sobre este tema, alguns revelaram que têm uma certa inveja dos vendedores que podem escolher o seu plano de compensações e outros referiram que, nesse momento, ainda estão na mesma empresa, devido a essa flexibilidade remuneratória. Neste estudo, para além de comerciais, foram, também, entrevistados chefes de vendas e diretores e respetivas empresas, tendo-se salientado a importância da existência de opção do plano de compensação, de forma a permitir que estes se adaptem à fase da vida dos comerciais, visto que quando estes são novos estão dispostos a arriscar ter uma componente variável mais pesada, enquanto numa fase mais sénior preferem ter uma maior componente fixa, uma vez que valorizam a estabilidade financeira. Este novo sistema ainda não foi teoricamente muito explorado, mas dado o seu sucesso em algumas empresas, é possível que no futuro se torne uma política organizacional de referência. Um aspeto parece já certo: o facto de existir a possibilidade de escolha parece ter um impacto positivo na satisfação dos comerciais (Botti e Iyengar, 2004). Risco São vários os investigadores que se têm debruçado sobre a forma como o risco do negócio é partilhado entre o vendedor e a empresa, o que está diretamente relacionado com a forma como a empresa opta por pagar aos seus comerciais. Isto, porque quanto maior for a componente variável, maiores serão os benefícios e as perdas que aqueles têm em função da expansão ou contração do negócio (respetivamente). Assim sendo, na prática a remuneração variável pode ser utilizada como uma ferramenta de transmissão do risco entre a empresa e o trabalhador, visto que tendo parte da sua remuneração em risco, as flutuações do mercado, acabam por ter repercussões nas compensações pagas. Existe uma panóplia de investigação empírica,
16 onde os autores assumem que os vendedores são avessos ao risco e, por isso, quanto maior for o risco do negócio, maior deverá ser a componente fixa paga ao vendedor, para compensar a incerteza. Desta forma, parte do risco é transmitido para a empresa dado que os teóricos consideram que a esta será neutra ao risco. Esta opção pode fazer mais sentido, devido ao facto de que com o aumento da incerteza do mercado, mais difícil é avaliar o esforço do vendedor. Alternativamente, e caso o comercial não seja avesso e aceitar o risco, este deve ser compensado com o aumento as percentagens das comissões (Basu et al. 1985). A questão fundamental é perceber quem deve assumir o risco do negócio. Lazear (1998) sugere que deviam ser as empresas a suportar o risco, na medida em que estas têm maior facilidade em dissipá-lo (por exemplo, noutros negócios), enquanto os colaboradores têm determinadas necessidades que têm que ser atendidas independentemente do ciclo económico. Esta situação cria contudo um problema de incentivo, dado que aumentando a componente fixa, o trabalhador tem o seu retorno garantido. Exemplos de sucessos e erros Como se verificou atrás, o tema das remunerações variáveis é complexo e se pode, por um lado, ser um instrumento capaz de dirigir os comerciais para os interesses das empresas, pode, por outro, ser um instrumento de destruição. Nesse sentido Zoltners et al. (2006) apresentam alguns aspetos que podem levar ao sucesso ou ao insucesso na implementação de sistemas de compensação nos comerciais: • Incentivar as vendas em cross-selling: as vendas em cross-selling (vender um produto adicional ou outro de uma categoria diferente) têm ultimamente ganho algum relevo, em consequência da nova forma de venda. Assim, os autores chamam a atenção para o facto de que não é suficiente pagar uma comissão para incentivar este tipo de venda, visto que se o valor da comissão for insignificante, o vendedor sentirá que o
26% 15% Gráfico 4 – Composição da estrutura d Fonte: Cálculos próprios sobre dados fornecidos pela MCoutinho Comerciais e o modelo de negócio Este estudo irá incidir essencialmente sobre comerciais de viaturas novas e usadas da MCo utinho. A principal função dos comerciais é proceder à venda de viaturas e outros serviços relacionados, através de prospeção, acompanhamento de clientes e atendimento de stand, com um diretor de negócio (Figura 1) 23 8% 20% 31% 15% 1º Ciclo 2º Ciclo 3º Ciclo Ensino Secundario Ensino Superior Composição da estrutura d e Recursos Humanos por habilitações literárias na MCoutinho, em 2012 Cálculos próprios sobre dados fornecidos pela MCoutinho Comerciais e o modelo de negócio Este estudo irá incidir essencialmente sobre comerciais de viaturas novas e utinho. A principal função dos comerciais é proceder à venda de viaturas relacionados, através de prospeção, acompanhamento de clientes e com report direto ao chefe de vendas, que por sua vez reporta a (Figura 1) . 1º Ciclo 2º Ciclo 3º Ciclo Ensino Secundario Ensino Superior e Recursos Humanos por habilitações literárias na MCoutinho, em 2012 Este estudo irá incidir essencialmente sobre comerciais de viaturas novas e utinho. A principal função dos comerciais é proceder à venda de viaturas relacionados, através de prospeção, acompanhamento de clientes e direto ao chefe de vendas, que por sua vez reporta a
Figura Fonte: Caso a dimensão da equipa de vendas o permita, o chefe de vendas define os dias em que o comercial estará no prospeção de potenciais clientes. Na execução da sua tarefa o vendedor tem como principal objetivo promover as Contudo, poderá realizar , também, representa, apesar deste tipo de negócio não ser muito comum. A venda por norma é realizada entre o comercial e o potencial comprador, sendo que o primeiro negoceia o preço do veículo, visando o máximo venda. Uma vez que este mercado é bastante competitivo (existem concessionários da mesma marca e, também, concessionários de outras marcas), o comercial poderá ver obrigado a baixar o preço final para conseguir fechar o negócio. No entanto, exi 24 Figura 1 – Organigrama do departamento de vendas Fonte: Organigrama fornecido pela MCoutinho Caso a dimensão da equipa de vendas o permita, o chefe de vendas define os dias em que o comercial estará no stand e os dias em que estará fora do potenciais clientes. Na execução da sua tarefa o vendedor tem como principal objetivo promover as vendas da marca ou marcas para a s quais está designado , também, a venda de produtos de outras marcas que o Grupo representa, apesar deste tipo de negócio não ser muito comum. A venda por norma é realizada entre o comercial e o potencial comprador, sendo que o primeiro negoceia o preço do veículo, visando o máximo de lucro possív venda. Uma vez que este mercado é bastante competitivo (existem concessionários da mesma marca e, também, concessionários de outras marcas), o comercial poderá ver obrigado a baixar o preço final para conseguir fechar o negócio. No entanto, exi Caso a dimensão da equipa de vendas o permita, o chefe de vendas define os e os dias em que estará fora do stand, em potenciais clientes. Na execução da sua tarefa o vendedor tem como s quais está designado . produtos de outras marcas que o Grupo A venda por norma é realizada entre o comercial e o potencial comprador, sendo de lucro possív el nessa venda. Uma vez que este mercado é bastante competitivo (existem concessionários da mesma marca e, também, concessionários de outras marcas), o comercial poderá ver -se obrigado a baixar o preço final para conseguir fechar o negócio. No entanto, exi stem
25 limites mínimos para o preço de fecho do negócio, os quais o vendedor terá que ter em consideração e caso seja necessário vender abaixo desse valores o negócio terá que ser validado pelo chefe de vendas. É certo que a redução de preço não é uma situação ideal para a empresa (que tem um lucro menor), nem para o comercial (a sua comissão será igualmente inferior dado que a margem de negócio é menor), mas é um mal menor, visto que é melhor vender a um preço mais baixo, do que simplesmente não vender (dentro de determinados limites). Para além do que já foi mencionado, é importante referir que anualmente as marcas acordam com a Administração de cada concessionário o número de unidades que devem ser vendidas e, posteriormente, a Administração define para cada localidade e para cada equipa o número de unidades que devem ser vendidas por mês, de forma a alcançar os objetivos acordados com as marcas. Por vezes, quando uma determinada equipa está longe dos objetivos propostos, a empresa elabora um plano de incentivos para os comerciais, incentivando a venda de um determinado produto, através, por exemplo, do pagamento de uma comissão superior ao normal. Excetuando estas situações mais específicas, como se aprofundará mais à frente, a comissão é calculada com base numa determinada percentagem da margem da venda. De referir que apesar de existirem vários modelos para cada marca, a forma como se calcula a comissão é idêntica para todos os modelos, ou seja, numa situação normal, não existe qualquer incentivo à venda de um modelo específico. Concluída a venda da viatura, o processo de negociação entra numa fase secundária, onde o comercial tentará continuar a maximizar o seu benefício, bem com o da empresa, através da realização do financiamento e do seguro por intermédio da empresa. A comissão da primeira situação é calculada em função do retorno que esse financiamento representa para a empresa, enquanto a da segunda está pré-definida. Sistemas de compensações - Modelo MCoutinho Como já foi afirmado, o negócio de venda de automóveis tem algumas particularidades, caracterizado pela comercialização de inúmeras marcas e modelos,
vários concessionários para a se ainda um aumento da venda e compra de criação de vários sítios gratuitos para esse efeito e neste cenário vez mais um peso fundamental da concretização dos negócios. Deste modo, é necessário construir um sistema de compensações que permita à comerciais, para mantêlos afastados da concorrência e ao mesmo tempo maximizar as vendas. Tal como referido anteriormente, o sistema de compensações é uma ferramenta importante que permite atrair e fidelizar os melhores colaborad MCoutinho não foge à regra. Este é composto por uma componente fixa e variável em função do desempenho obtido (Figura. 2). Figura Nota: VN – Veículos novos; VO 26 vários concessionários para a mesma marca localizados nas grandes cidades, regista venda e compra de viaturas pela Inte rnet, facilitada pel criação de vários sítios gratuitos para esse efeito e neste cenário os comerciais têm cada vez mais um peso fundamental da concretização dos negócios. Deste modo, é necessário construir um sistema de compensações que permita à empresa motivar os seus los afastados da concorrência e ao mesmo tempo maximizar as Tal como referido anteriormente, o sistema de compensações é uma ferramenta importante que permite atrair e fidelizar os melhores colaborad ores e o sistema da MCoutinho não foge à regra. Este é composto por uma componente fixa e variável em função do desempenho obtido (Figura. 2). Figura 2 – Sistema de compensação da MCoutinho Veículos novos; VO – Veículos usados; PAC – Plano de ação comercial Fonte: Dados fornecidos pela MCoutinho mesma marca localizados nas grandes cidades, regista ndornet, facilitada pel a recente os comerciais têm cada vez mais um peso fundamental da concretização dos negócios. Deste modo, é necessário motivar os seus los afastados da concorrência e ao mesmo tempo maximizar as Tal como referido anteriormente, o sistema de compensações é uma ferramenta ores e o sistema da MCoutinho não foge à regra. Este é composto por uma componente fixa e variável em Plano de ação comercial
27 0% 10% 20% 30% 40% 50% 60% 70% 80% 90% 100% 2008 2009 2010 2011 2012 Composição do total das remnuerações (%) Tempo (anos) Fixo Variável A componente fixa foi desenhada para ter um menor peso relativo possível na compensação total, contudo como o número de unidades vendidas tem vindo a diminuir, o peso desta componente tem vindo a aumentar. Como se pode verificar no gráfico 5, a componente fixa da remuneração teve um peso de cerca de 43% em 2009 e 50% em 2011, mas em 2012 constituiu 60% do total, o que se poderá justificar pela quebra nas vendas. Curiosamente no ano de 2008, apesar de ter sido um ano com um número de unidades vendidas e de margens bastantes relevantes, a componente fixa representou cerca de 50% da remuneração total. Gráfico 5 – Composição do total das remunerações (%) na MCoutinho, entre 2008 e 2012 Fonte: Cálculos próprios sobre dados fornecidos pela MCoutinho Os benefícios fixos são compostos pelo ordenado base, pelo subsídio de refeição (valor pago por cada dia efetivamente trabalhado), subsídio de férias/natal e pelos equipamentos colocados à disposição para uso pessoal (dentro de determinados limites), nomeadamente viatura de serviço, telemóvel e computador. Conforme já foi referido, a nível pecuniário o objetivo é minimizar os custos fixos e por isso os valores pagos de
28 ordenado base e subsídio de refeição, reduzem-se quase ao mínimo exigido em termo legais. Por sua vez, a componente variável visa recompensar o bom desempenho do colaborador e é constituída da seguinte forma: • Comissões de vendas de viatura: valor obtido pela venda de viaturas novas (VN) ou usadas (VO), utilizando o sistema de comissionamento que veremos mais à frente; • Comissões de financiamento: remuneração paga quando a compra da viatura é feita através de um financiamento contratualizado via Grupo MCoutinho; • Comissões de Seguros: compensação quando o comprador formaliza o seguro para a viatura via Grupo MCoutinho; • Incentivos das marcas: prémios promovidos diretamente pelas marcas, que incentivam os comerciais das empresas a venderem determinadas viaturas em condições definidas pelas marcas; • PAC: os Planos de Ação Comercial são incentivos construídos pela empresa que consistem em premiar determinadas objetivos propostos aos comerciais, por exemplo venda de viaturas com mais de 180 dias de stock. Como se pode verificar com os incentivos acima mencionados, o objetivo do comercial hoje em dia, não se resume apenas à venda de viaturas, dado que também é dada alguma relevância à obtenção de financiamentos, seguros ou outros objetivos específicos da empresa ou da própria marca. Apesar de tudo, estas metas são sempre secundarizadas, porque a finalidade primeira será sempre a venda das viaturas e estes prémios podem ver vistos como um extra, principalmente quando se analisa a peso das comissões de venda de viaturas no cômputo geral da remuneração do comercial, conforme analisarei mais à frente.
29 Devido à importância da remuneração variável da venda de viaturas (novas ou usadas), este estudo incidirá essencialmente sobre esta componente. Para o cálculo da comissão da venda a pagar ao comercial existem fundamentalmente duas vertentes a ter em conta: a margem libertada e o número de unidades vendidas no mês. A primeira serve como incentivo aos comerciais para venderem a viatura com o maior lucro possível para a empresa, isto porque quanto maior for o lucro da empresa, maior será também a comissão a receber. Caso não existisse este incentivo, os comerciais venderiam a viatura ao menor preço possível, porque “oferecendo” a viatura a um preço mais baixo, aumentaria naturalmente a probabilidade da venda ser realizada, mas na prática o lucro para empresa seriam sempre menor. Esta margem é obtida pela diferença entre o valor da venda e os custos associados à compra e preparação da viatura. No entanto, existem determinadas situações em que esta margem é negativa, ou seja, o valor ao qual é vendida a viatura é menor do que os custos associados à compra da mesma. Mas nestes casos é assegurado um valor fixo independentemente do valor da margem e do número de unidades vendidas no mês. Esta comissão fixa justifica-se pelo custo stock que neste negócio é bastante elevado e dado que com o tempo a viatura vai perdendo valor de mercado, por vezes compensa à empresa vender o carro com margem negativa e deixar de ter o custo do stock. Obviamente que existem determinados limites mínimos aos quais os comerciais podem fechar negócio e abaixo desses limites só com a autorização da chefia é que o podem fazer. Para além da margem libertada, outro fator a ter em consideração no valor da comissão, é o número de unidades vendidas pelo comercial nesse mês. Tendo como objetivo incentivar o maior número de unidades vendidas num determinado mês, o sistema de comissionamento define que quanto mais viaturas vender, maior será a percentagem a aplicar à margem libertada para obter o valor da comissão. Este incentivo é gradual, ou seja, vai aumentando à medida que o número de unidades vendidas também aumenta, através do incremento que varia entre 0,5% e 1,5%, até uma percentagem máxima a partir da qual essa percentagem já não aumenta. Desta forma o comercial não tem incentivo em procrastinar a venda para o mês seguinte quando já atingiu esse limite, mas sim o contrário, isto é, quanto mais vendas realizar melhor,
30 porque essas vendas serão calculadas pela percentagem máxima. Para além disso são poucas as situações em que o comercial consegue atingir esse patamar máximo e com a competitividade do setor dificilmente existe a possibilidade de adiar o fecho de negócio por mais um mês, porque existe muita oferta. A percentagem utilizada para calcular a comissão varia também em função da marca e do local, devido à lógica de facilidade do negócio, isto porque, em determinadas localidades ou para determinadas marcas é mais fácil vender do que noutras e como se viu anteriormente o valor da remuneração variável deve ser fixado em função do esforço exigido ao trabalhador para atingir os objetivos propostos. Apesar de representarem apenas 10% da componente variável, os prémios podem representar uma ferramenta importante para a empresa direcionar a atenção dos comerciais para determinados negócios. Por exemplo, o custo do stock neste tipo de negócio é elevado e num determinado momento a empresa terá que criar incentivos extras para tentar escoar esse mesmo stock, caso contrário poderá estar a perder muito dinheiro. Desta forma ao estabelecer uma comissão fixa maior do que o habitual, poderá direcionar a atuação dos comerciais para o interesse da empresa. Em termos do peso relativo de cada componente, como se pode verificar no gráfico 6, as comissões de vendas de viaturas representaram entre 2008 e 2012, 69% da remuneração variável total auferida pelos vendedores. Em segundo lugar surgem as comissões de financiamento com 19%, seguido de prémios de produtividade (10%) e das comissões de seguros (2%).
69% Gráfico 6 – Composição da remuneração variável (%) na MCoutinho, entre 2008 e 2012 Fonte: Cálculos próprios sobre dados fornecidos pela MCoutinho Análise de dados Remunerações Apresentado o sistema de r dados e de que forma estes evoluíram no período em análise. Seria interessante analisar os dados com um período temporal mais alargado, mas por falta de dados disponíveis, este estudo irá centrarse no per de unidades vendidas de viaturas, em 2008, foi semelhante ao verificado em 2004 (gráfico 1). Em 2009 o setor entrou em recessão atingindo valores ao nível de 1988. Como resposta a este novo contexto o Est incentivo ao abate de veículos em fim de vida, permitindo ao mercado atingir números semelhantes aos anteriores a 2009. Todavia, com o fim desse apoio, em 2010, o setor entrou numa recessão ainda mais grave e sem preced 31 19% 2% 10% Financiamentos Seguros Viaturas Prémios Composição da remuneração variável (%) na MCoutinho, entre 2008 e 2012 Cálculos próprios sobre dados fornecidos pela MCoutinho Apresentado o sistema de r emuneração da MCoutinho, importa agora dados e de que forma estes evoluíram no período em análise. Seria interessante analisar os dados com um período temporal mais alargado, mas por falta de dados disponíveis, se no per íodo entre 2008 e 2012. No setor automóvel o número de unidades vendidas de viaturas, em 2008, foi semelhante ao verificado em 2004 (gráfico 1). Em 2009 o setor entrou em recessão atingindo valores ao nível de 1988. Como resposta a este novo contexto o Est ado Português lançou uma campanha de incentivo ao abate de veículos em fim de vida, permitindo ao mercado atingir números semelhantes aos anteriores a 2009. Todavia, com o fim desse apoio, em 2010, o setor entrou numa recessão ainda mais grave e sem preced entes. Financiamentos Seguros Viaturas Prémios Composição da remuneração variável (%) na MCoutinho, entre 2008 e 2012 agora analisar os dados e de que forma estes evoluíram no período em análise. Seria interessante analisar os dados com um período temporal mais alargado, mas por falta de dados disponíveis, íodo entre 2008 e 2012. No setor automóvel o número de unidades vendidas de viaturas, em 2008, foi semelhante ao verificado em 2004 (gráfico 1). Em 2009 o setor entrou em recessão atingindo valores ao nível de 1988. ado Português lançou uma campanha de incentivo ao abate de veículos em fim de vida, permitindo ao mercado atingir números semelhantes aos anteriores a 2009. Todavia, com o fim desse apoio, em 2010, o setor
32 0 5.000 10.000 15.000 20.000 25.000 0 100.000 200.000 300.000 400.000 500.000 600.000 700.000 2008 2009 2010 2011 2012 Remunerações anuais por comercial (€) Remunerações totais anuais (€) Tempo (anos) Remunerações Totais Remunerações por Comercial Seria de esperar que o ritmo das vendas fosse acompanhado na íntegra pelas remunerações pagas aos comerciais, porém, como se pode verificar no gráfico 7, tal não aconteceu no ano de 2009, uma vez que as vendas registaram uma diminuição e as remunerações dos vendedores aumentaram. Esta situação é justificada pelo aumento dos valores das comissões de financiamento e das comissões de vendas de viaturas usadas. Sendo que o aumento destas deve-se a uma reestruturação da equipa de usados que originou, também, a um aumento do retorno desta atividade para a empresa. Apesar de tudo, nos anos seguintes a diminuição das vendas originou a redução das remunerações variáveis pagas aos comerciais e, consequentemente, das remunerações totais pagas por comercial. A nível individual, as remunerações não registaram uma queda tão acentuada comparativamente com os valores acumulados de todos os comerciais. Esta diminuição de cerca de 50% nas remunerações fixas totais pagas anualmente deve-se ao facto de se ter verificado uma redução de cerca de 40% do número de comerciais vinculados à empresa, entre 2008 e 2012. Paralelamente registou-se uma diminuição de cerca de 25% da remuneração anual de cada vendedor, entre 2009 e 2012. Gráfico 7 – Evolução das remunerações totais anuais (€) pagas aos comerciais na MCoutinho, entre 2008 e 2012 Fonte: Cálculos próprios sobre dados fornecidos pela MCoutinho
39 0 5.000 10.000 15.000 20.000 25.000 30.000 2008 2009 2010 2011 2012 Total Pago (€) Tempo (anos) Com. 1 Com. 2 Gráfico 12 – Evolução das remunerações totais (€) pagas a dois comerciais de veículos novos na MCoutinho, entre 2008 e 2012 Fonte: Cálculos próprios sobre dados fornecidos pela MCoutinho No gráfico 12 é possível analisar a evolução da remuneração total paga a dois comerciais da empresa MCoutinho. Quanto ao comercial 1, verifica-se uma diminuição acentuada em 2010 e durante o restante período a evolução é idêntica aos restantes comerciais da empresa. Em relação ao comercial 2, os valores totais progrediram durante o período da mesma forma que o total dos comerciais da empresa, conforme já se tinha observado no gráfico 7. De referir, contudo, que entre 2011 e 2012, verificou-se uma maior queda nos valores totais pagos ao comercial 2 do que ao comercial 1. Em termos relativos o comercial 1 recebeu, em 2012, menos de 18% do que recebia em 2008 e o comercial 2 recebeu, no mesmo ano, menos 10% do que em 2008. Na tabela 2 pode observar-se a evolução das principais rubricas. De salientar que o peso da remuneração variável na compensação total é mais oscilante no caso do comercial 2 do que no 1 e que no período em que o mercado cresceu este peso é semelhante entre os dois comerciais, em contraste os períodos de contração onde a diferença entre os dois
40 vendedores é mais acentuada. Para além deste facto, é curioso verificar que em 2012 a remuneração variável do comercial 2 representou apenas cerca de 30% da remuneração total. Rem. Fixas (€) Vendas (€) Financiamento (€) Seguros (€) Prémios (€) Total (€) Rem. Variável (%) 2008 Com. 1 8.956 9.579 346 50 1.138 20.069 55% Com. 2 7.803 4.730 12 270 0 12.815 39% 2009 Com. 1 9.423 12.439 1.247 45 800 23.954 61% Com. 2 8.095 8.966 1.097 415 400 18.973 57% 2010 Com. 1 9.206 8.803 875 25 2.940 21.849 58% Com. 2 8.980 9.520 1.279 166 140 20.085 55% 2011 Com. 1 9.547 8.473 1.384 80 570 20.054 52% Com. 2 9.094 5.500 2.086 230 0 16.910 46% 2012 Com. 1 9.440 5.327 1.504 125 100 16.496 43% Com. 2 8.113 1.886 973 195 372 11.539 30% Tabela 2 – Evolução dos valores pagos (€) a dois comerciais de veículos novos na MCoutinho, entre 2008 e 2012 Fonte: Cálculos próprios sobre dados fornecidos pela MCoutinho Retorno e custos Após se ter realizado uma análise do lado do trabalhador, é igualmente importante dissecar o lado da empresa. O objetivo da empresa é maximizar o seu lucro e para o fazer deve tentar maximizar o retorno da atividade de cada comercial, nomeadamente as margens de cada negócio e minimizar os custos associados. Do lado dos custos, para além das remunerações que são pagas aos comerciais, consideramos também os custos com a utilização do telemóvel, computador e viatura de serviço. Em relação à viatura de serviço, não existem dados do custo direto da sua utilização, contudo de acordo com a informação facultada pela empresa não existe um custo direto, como por exemplo aluguer ou compra da viatura. Desta forma, o único encargo que existe está relacionado com o desgaste da viatura (não existem dados e, por isso, este encargo não será tido em consideração no presente trabalho). Assim, em relação à
41 88% 90% 91% 89% 86% 12% 10% 9% 11% 14% 0% 10% 20% 30% 40% 50% 60% 70% 80% 90% 100% 2008 2009 2010 2011 2012 Custo (%) Tempo (anos) Custo Remunerações Outros Custos utilização das viaturas de serviço, apenas será considerado o consumo de combustível, bem como o custo com o seguro da mesma. Gráfico 13 – Evolução do peso do custo das remunerações e dos outros custos, no custo total dos comerciais, anualmente por comercial (€) na MCoutinho, entre 2008 e 2012 Fonte: Cálculos próprios sobre dados fornecidos pela MCoutinho No gráfico 13 comparam-se os custos anuais das remunerações com os outros custos, nomeadamente utilização da viatura, telemóvel e computador, sendo possível verificar que o peso dos outros custos aumentou apenas ligeiramente entre 2008 e 2012, uma vez que o custo com as remunerações diminuiu. Em termos absolutos, o custo com a utilização das ferramentas necessárias para o vendedor exercer as suas funções, diminuiu devido à redução do número de comerciais vinculados à empresa. Em relação aos custos totais dos comerciais, estes acompanham o ritmo dos custos das remunerações, dado que esta é a principal componente da primeira. Conforme se pode verificar no gráfico 14, a média do custo anual com cada vendedor (incluindo custos das remunerações e outros custos que já foram identificados atrás) varia entre 20.000€ e 28.000€, por outras palavras, este é intervalo de retorno que os vendedores devem atingir para garantir lucro para a empresa.
42 0 5000 10000 15000 20000 25000 30000 0 100000 200000 300000 400000 500000 600000 700000 800000 900000 2008 2009 2010 2011 2012 Custo total anual por Comercial (€) Custo total anual (€) Tempo (anos) Custo Total Custo Total por Comercial Gráfico 14 – Evolução do custo total anual dos Comerciais e do custo total anual por Comercial (€) na MCoutinho, entre 2008 e 2012 Fonte: Cálculos próprios sobre dados fornecidos pela MCoutinho Interessa então perceber se o retorno da atividade dos comerciais é suficiente para cobrir todos os custos associados aos comerciais e ainda gerar algum lucro para a organização. Esta análise torna-se fundamental no estudo da remuneração variável por dois motivos: para perceber se a variação do retorno é acompanhado por uma subida ou descida da remuneração variável, isto porque, se atividade dos comerciais gera mais dinheiro para a empresa em princípio isso deverá traduzir-se num aumento da receita dos comerciais; por outro lado interessa perceber se o sistema de remuneração variável atualmente utilizado está a sobrevalorizar o contributo dos comerciais, ou seja, se os comerciais não estão a ser pagos em demasia para o retorno que trazem à organização. O retorno dos comerciais é medido através das margens das vendas efetuadas. Estas margens são calculadas viatura a viatura, pela diferença entre o valor da venda e o custo da compra da viatura e os outros associados à mesma. Nestes custos, para além de ser contabilizado o custo da viatura que é comprada pela empresa à marca, devem ser adicionados outras despesas como custos de transporte, preparação e legalização da
43 0 150000 300000 450000 0 500000 1000000 1500000 2000000 2008 2009 2010 2011 2012 Comissões Pagas (€) Retorno (€) Tempo (anos) Retorno Comissões Pagas viatura. Determinadas marcas optam por debitar em cada fatura os custos com formação e marketing em cada viatura, mas esta é uma prática pouco comum e o mais normal é estes custos serem debitados à parte e não serem considerados como custo no cálculo da margem. Assim, em qualquer circunstância a margem é sempre calculada entre a diferença do preço da venda da viatura e o preço da compra da viatura à marca (independentemente dos custos que são imputados na mesma). Relativamente ao retorno dos comerciais, serão comparados os valores dos retornos com as comissões pagas relativamente à venda dessas viaturas. Como se pode verificar no gráfico 15, em termos absolutos e sem grandes surpresas, o valor das comissões de vendas de viaturas tende a crescer com o aumento do retorno e a diminuir com o decréscimo do retorno da atividade dos comerciais. Este cenário já seria expetável, dado que como a comissão é calculada através da margem bruta de cada negócio, quanto maior for a margem bruta, maior é o retorno para a empresa e consequentemente maior a comissão paga ao comercial. Gráfico 15 – Evolução do retorno (€) vs. comissões (€) anual na MCoutinho, entre 2008 e 2012 Fonte: Cálculos próprios sobre dados fornecidos pela MCoutinho
44 No período analisado, a situação mais anormal verifica-se no ano de 2009, em que apesar do retorno ter decrescido ligeiramente, o valor das comissões pagas aumentou, o que poderá ser consequência do aumento da margem da venda por cada unidade vendida entre 2008 e 2009 e, consequentemente, do aumento da comissão paga por cada unidade vendida. Nos outros anos a situação é a esperada, verificando-se uma diminuição do valor das comissões pagas em consequência da diminuição do retorno da atividade dos comerciais. Comprovado o cenário que seria expetável, interessa verificar os valores relativos para averiguar qual o peso das comissões no valor total do retorno, ou seja, em termos médios qual a percentagem do retorno que é direcionada para o pagamento de comissões. Por um lado, para a organização quanto menor for o peso das comissões no lucro total da atividade dos comerciais melhor, contudo, quanto menor for esse peso, maior será a possibilidade dos vendedores considerarem que o seu esforço não está a ser devidamente compensado e poderão, eventualmente, estar disponíveis para aceitar uma proposta de emprego de uma outra empresa onde o sistema de comissionamento seja mais vantajoso, sendo que tal apenas é possível na atual conjuntura, devido à rotatividade dos comerciais. No caso dos comerciais menos reputados e, por isso, não tenham grande facilidade em mudar de empresa, podem simplesmente reduzir o seu esforço. Outro ponto de interesse é analisar de que forma esse peso se comporta durante o período em estudo.
0,00% 5,00% 10,00% 15,00% 20,00% 25,00% 2008 Peso relativo das comissões (%) Gráfico 16 – Evolução peso do valor total das comissões no valor total do retorno (%) na MCoutinho, Fonte: Cálculos próprios sobre dados fornecidos pela MCoutinho Como se pode verificar nos gráficos atividade dos comerciais tem um sentido inverso ao do número de unidades vendidas, isto é, quanto menor o número de unidades vendidas, que é destinada ao pagamento de comissões. Esta situação pode ser explicada entre outros motivos, pelo facto de que em tempos de retração económica existem situações de pagamento de negativo , que podem ser justificados pela elevada quantidade d que torna o escoamento das viaturas mais difícil e das viaturas em stock. Ent re 2008 e 2012, em termos médios, cerca de 17% do retorno da atividade dos comerciais foi direcionado para o pagamento de comissões. Este número poderá ser considerado relativamente elevado, não só porque apenas se está a considerar uma parte dos custos to viaturas juntamente com a empres a. Em 2012, mais de um quinto do produto das vendas foi utilizado pagamento de comissões. que constam no seguinte gráfico. 45 2009 2010 2011 Tempo (anos) Evolução peso do valor total das comissões no valor total do retorno (%) na MCoutinho, 2012 Cálculos próprios sobre dados fornecidos pela MCoutinho Como se pode verificar nos gráficos 16 , o peso das comissões no retorno da tem um sentido inverso ao do número de unidades vendidas, o número de unidades vendidas, maior é a percentagem do retorno que é destinada ao pagamento de comissões. Esta situação pode ser explicada entre outros motivos, pelo facto de que em tempos de retração económica existem comissões mínimas ou de negócios que são fechados retorno , que podem ser justificados pela elevada quantidade d e modelos que torna o escoamento das viaturas mais difícil e consequentemente pela antiguidade re 2008 e 2012, em termos médios, cerca de 17% do retorno da atividade dos comerciais foi direcionado para o pagamento de comissões. Este número poderá ser considerado relativamente elevado, não só porque apenas se está a considerar uma parte dos custos to tais dos comerciais, mas também porque a venda de viaturas juntamente com a reparação de veículos são as únicas fontes de rendimentos da a. Em 2012, mais de um quinto do produto das vendas foi utilizado Estes números podem, também, ser explicados pelos dados que constam no seguinte gráfico. 2012 Evolução peso do valor total das comissões no valor total do retorno (%) na MCoutinho, entre 2008 e , o peso das comissões no retorno da tem um sentido inverso ao do número de unidades vendidas, maior é a percentagem do retorno que é destinada ao pagamento de comissões. Esta situação pode ser explicada entre outros motivos, pelo facto de que em tempos de retração económica existem mais negócios que são fechados retorno modelos disponíveis o pela antiguidade re 2008 e 2012, em termos médios, cerca de 17% do retorno da atividade dos comerciais foi direcionado para o pagamento de comissões. Este número poderá ser considerado relativamente elevado, não só porque apenas se está a tais dos comerciais, mas também porque a venda de reparação de veículos são as únicas fontes de rendimentos da a. Em 2012, mais de um quinto do produto das vendas foi utilizado para ser explicados pelos dados
46 0 100 200 300 400 500 600 700 800 900 1000 2008 2009 2010 2011 2012 Valor (€) Tempo (anos) Margem por venda Comissão por venda Gráfico 17 – Evolução da margem (€) e da comissão por unidade vendida (€) da MCoutinho, entre 2008 e 2012 Fonte: Cálculos próprios sobre dados fornecidos pela MCoutinho Como se pode verificar no gráfico 17, a diminuição do valor das margens não tem sido acompanhada pela diminuição do valor das comissões. Entre 2008 e 2012, verifica-se uma queda de cerca de 37% do valor das margens por unidade vendida, mas o valor da comissão por unidade vendida caminhou no sentido contrário, aumentando cerca de 10%. Verificado que a empresa aloca cada vez mais uma maior parte da margem dos negócios para o pagamento de comissões e que estas margens têm diminuído ao longo do tempo, ao contrário o valor das comissões pagas, interessa então perceber se a atividade dos comerciais continua a ser lucrativa para a empresa, isto é, se o valor total das margens das vendas é superior aos custos associados aos vendedores, nomeadamente componentes fixas, variáveis e outros custos que são necessários para o exercício diário da sua função. Analisando o acumulado dos dados entre 2008 e 2012, verifica-se que cerca de 10% dos comerciais tiveram uma rentabilidade negativa nesse período, mas nenhum deles é atualmente colaborador da empresa. Se se analisar apenas o ano de 2012, a situação parece mais crítica, visto que cerca de 70% dos comerciais tiveram uma rentabilidade negativa e o acumulado da rentabilidade de todos vendedores
47 0 200000 400000 600000 800000 1000000 1200000 2008 2009 2010 2011 2012 Rentbilidade dos Comerciais (€) Tempo (anos) desse ano é quase nula, ou seja, o retorno da atividade dos comerciais, quase que não chega para pagar os custos associados aos mesmos. Gráfico 18 – Evolução da rentabilidade dos comerciais (€) da MCoutinho, entre 2008 e 2012 Nota: rentabilidade é calculada pela diferença entre o somatório das margens das vendas e o total dos custos vendedores Fonte: Cálculos próprios sobre dados fornecidos pela MCoutinho Como identificou Zoltners et al. (2006), um dos motivos para o insucesso dos sistemas de compensação é o facto das organizações não se adaptarem ao meio envolvente e os valores acima identificados são indicadores de que a empresa deverá rever o contexto em se encontra e o sistema de remuneração que atualmente é utilizado, caso contrário os números podem tornar-se insustentáveis. Alguns dos dados que aqui foram analisados podem ser indicadores disso mesmo: • Queda na venda de viaturas para valores que já não se registavam desde a década de 1980; • Em 2012, a remuneração fixa representou cerca de 60% da remuneração total;
48 • Diminuição das remunerações pagas aos comerciais, especialmente porque as variáveis que caíram cerca de 45% entre 2009 e 2012; • Diminuição de cerca de 75% do produto das vendas, entre 2008 e 2012; • Em 2012, mais de um quinto do produto das vendas era utilizado para pagamento de comissões; • Diminuição de cerca de 37% no valor da margem por unidade vendida, apesar do aumento de 10% da comissão paga por unidade vendida; • Em 2012, a rentabilidade dos comerciais era quase nula. Risco Vários autores discutem o papel do Conselho de Administração se este deverá desempenhar um controlo estratégico ou apenas financeiro? Como se verificou na revisão bibliográfica, são vários os autores que discutem a questão da partilha do risco e esta problemática tem ganho cada vez mais importância no atual contexto de crise económica. A utilização de remuneração variável funciona como uma ferramenta de partilha de risco entre a empresa e o trabalhador. Adicionalmente também se constatou que em tempos de contração económica, os teóricos sugerem que a organização deverá aumentar a componente fixa, assumindo a maior parte do custo da recessão, assegurando também uma remuneração mínima que os trabalhadores entendem que é necessária para estarem motivados. No caso em estudo, como supra analisado, não existiu nenhuma alteração relevante por parte da empresa do sentido aumentar a componente fixa da remuneração, no sentido de transferir parte do negócio do trabalhador para a empresa, isto porque a única alteração na política de remuneração foi decorrente a uma alteração do contrato coletivo do setor e não por iniciativa da empresa. Pode-se, assim, assumir que apesar de o setor automóvel estar em claro declínio, não existe nenhuma transferência do risco e a empresa opta por manter não aumentar a componente fixa dentro do período analisado. Existem várias formas de medir, o risco, de qualquer forma e sucintamente, o risco do trabalhador pode ser medido do gráfico 7 através da diminuição das remunerações totais
55 HOLMSTROM, B. (1979). “Moral Hazard and Observability”, Bell Journal of Economics, Vol. 10: 74-91 HUNT. C, (2012). “The Emerging Influence of Compensation Plan Choice on Salesperson Organization Identification and Perceived Organization Support”, Journal of Leadership, Accountability and Ethics, Vol. 9: 71-80 JOHN, G., WEITZ, B. (1989). “Salesforce Compensation: An Empirical Investigation of Factors Related to Use of Salary Versus Incentive Compensation”, Journal of Marketing Research, Vol. 26: 1-14 JOSEPH, K., Kalwani, M. (1992). “Do Bonus Payments Help Enhance Salesforce Retention”, Marketing Letters, Vol. 3, nº 4: 331-341 LAL, R. (1986). “Delegating Pricing Responsibility to the Salesforce”, Marketing Science, Vol. 5, nº 2: 159-168 LAL, R., Outland D., Staelin R. (1994). “Salesforce Compensation Plans: An Individual-Level Analysis”. Marketing Letters, 5:2 : 117-130 LAL, R., Srinivasan, V. (1993). “Compensation Plans for Singlesand Multi-product Salesforces: An Application of the Holmstrom-Milgrom Model”. Management Science, Vol. 39, nº 7: 777-793 LAL, R., Srinivasan, V. (1988). “Salesforce Compensation Plans: A Dynamic Perspective”. Graduate School of Business, Stanford University, nº 999 LAZEAR, E. (1998). Personnel Economics for Managers. John Wiley, New York
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57 WEINBERG, Charles B. (1975). “An Optimal Commision Plan for Salesmen´s Control Over Price”. Management Science, Vol. 21, nº8: 937-943 ZOLTNERS, A., Sinha, P., Lorimer, S. (2006). “The Complete Guide to Sales Force Incentive Compensation: How to Design and Implement Pland that Work”, AMACOM Books, EUA