Excesso de peso e obesidade infantil: Influência das aptidões culinárias em contexto familiar
Full text
Excesso de peso e obesidade infantil: Influência das aptidões culinárias em contexto familiar Ana Filipa Sá Pereira Machado Dissertação de Mestrado apresentada à Faculdade de Ciências da Universidade do Porto, Faculdade de Ciências da Nutrição e Alimentação da Universidade do Porto Ciências do Consumo e Nutrição 2015 Excesso de peso e obesidade infantil: Influência das aptidões culinárias em contexto familiar Ana Filipa Sá Pereira Machado MSc FCUP FCNAUP 2015 2.º CICLO
FCUP / FCNAUP Excesso de peso e obesidade infantil: Influência das aptidões culinárias em contexto familiar III Agradecimentos Agradeço a todos aqueles que me apoiaram ao longo deste ciclo académico e que direta ou indiretamente contribuíram para que esta dissertação fosse possível de realizar. “O único lugar onde sucesso vem antes do trabalho é no dicionário” (Albert Einstein)
FCUP / FCNAUP Excesso de peso e obesidade infantil: Influência das aptidões culinárias em contexto familiar IV
FCUP / FCNAUP Excesso de peso e obesidade infantil: Influência das aptidões culinárias em contexto familiar V Abstract Introduction: The prevalence of overweight and obesity in children and adolescents has significantly increased in the last decades. In Portugal 31,6% of children are overweight and 13,9% obese. There are well defined causes for the development of overweight and obesity but, due to the multifactorial nature of this condition, some associations need further investigation. However, the increase of children’s overweight and obesity prevalence is mainly because of the influence of external factors on children and adolescents, such as family environment. The relation among family, cooking skills and diet quality is complex but it can play an important role on overweight and obesity prevention. Aim: Evaluate the relation among diet quality and cooking practice and skills of parents or caregivers, with children/adolescents nutritional status. Methods: A total of 153 parents or caregivers and their respective children/adolescents were attended in paediatric consultation in Centro Hospitalar Entre o Douro e Vouga (in Santa Maria da Feira, Portugal) during March 2015. Data were collected through a structured questionnaire directly applied to the participants. The diet quality of parents or caregivers was assessed through the degree of adherence to the Mediterranean dietary pattern (PREDIMED scale), the cooking skills through the Hartmann et.al. adapted scale, and the nutritional status of children and adolescents by calculating Body Mass Index (BMI) and respective rating according to World Health Organization (WHO) criteria. Results: It was found that 93.5% of parents or caregivers were children’s parents (father/mother), 87.6% were female, 81.0% were married/cohabitation, 51.0% completed secondary or higher education, 66.9% were employed, 54.9% have a household’s net income per month of less than 1000€, had an average of 39.2 (±6.2) years old, a BMI average of 25.8 (±4.2) Kg/m2, 31.5% had overweight and 15.4% obesity. It was observed that 53.6% of children/adolescents were male, had about 10 years and 6 months (±4 years and 6 months) in average, an average BMI of 19,8 (±4.2) Kg/m2, 25.5% had overweight and 17.0% obesity. The total average score of PREDIMED questionnaire was 8.76 (±1.61) points and 13.7% had a great adherence to de Mediterranean dietary pattern. Most parents or caregivers (77.1%) cooks 6 or more times per week, 55.6% feel confident when cooking, 82.4% like cooking, 16.3% consider having excellent cooking skills and the average of cooking skills was 4.95 (±1.00) points. Most of the sample is responsible for the preparation of children/adolescents meals, specially dinner. The
FCUP / FCNAUP Excesso de peso e obesidade infantil: Influência das aptidões culinárias em contexto familiar VI BMI and gender of parents and caregivers were found to have a significant effect, either independently or through an adjusted model, on prevalence of overweight and obesity in children/adolescents. (Exp(B) independent: 1,12 (1,03 – 1,22) and adjusted: 1,12 (1,01 – 1,25); Exp(B) independent: 5,85 (1,57 – 21,74) and adjusted: 19,71 (2,96 – 131,44), respectively) Conclusions: There wasn’t a significant relation between diet quality and cooking skills of parents or caregivers, with the nutritional status of their children/adolescents. However gender and BMI of parents or caregivers were identified as one of the main factors that influence the risk of developing overweight and obesity in children or adolescents. Keywords: Childwood obesity, Family meals, Diet quality, Cooking skills;
FCUP / FCNAUP Excesso de peso e obesidade infantil: Influência das aptidões culinárias em contexto familiar VII Resumo Introdução: A prevalência de excesso de peso e obesidade em crianças e adolescentes aumentou significativamente nas últimas décadas e em Portugal 31,6% das crianças tem excesso de peso e 13,9% obesidade. Existem causas bem definidas para o desenvolvimento de excesso de peso e obesidade, mas devido à sua natureza multifatorial, há relações que ainda carecem de investigação. No entanto, o aumento da sua prevalência deve-se sobretudo à influência de fatores externos sobre as crianças/adolescentes, como por exemplo o ambiente familiar. A relação entre a família, aptidões culinárias e qualidade alimentar é complexa mas pode desempenhar um papel importante na prevenção ou desenvolvimento de excesso de peso e obesidade. Objetivo: Avaliar a relação entre a qualidade alimentar, as práticas e aptidões culinárias dos pais ou cuidadores com o estado nutricional das suas crianças/adolescentes. Métodos: Foram avaliados 153 pais ou cuidadores e respetivas crianças ou adolescentes que frequentaram as consultas de Pediatria do Centro Hospitalar Entre o Douro e Vouga (unidade de Santa Maria da Feira) durante o mês de Março de 2015. Os dados foram recolhidos através de um questionário estruturado aplicado de forma direta aos participantes. A qualidade alimentar dos pais ou cuidadores foi avaliada através do grau de adesão ao padrão alimentar mediterrânico (escala PREDIMED), as aptidões culinárias através da escala adaptada de Hartmann e colaboradores, e o estado nutricional das crianças/adolescentes através do cálculo do IMC e respetiva classificação de acordo com os critérios da Organização Mundial de Saúde. Resultados: Verificou-se que 93,5% dos pais ou cuidadores era Pai/Mãe da criança que acompanha à consulta, 87,6% era do sexo feminino, 81,0% era casado(a)/união de facto, 51% completou o ensino secundário ou superior, 66,9% estava empregado, 54,9% apresenta um rendimento familiar líquido mensal inferior a 1000€, tinha em média 39,2 (±6,2) anos, um IMC médio de 25,8 (±4,2) Kg/m2, 31,5% apresentava excesso de peso e 15,4% obesidade. Observouse que 53,6% das crianças/adolescentes eram do sexo masculino, tinham em média cerca de 10 anos e 6 meses (±4 anos e 6 meses), um IMC médio de 19,8 (±4,2) Kg/m2, 25,5% apresentava excesso de peso e 17,0% obesidade. A média da pontuação total do questionário PREDIMED foi de 8,76 (±1,61) pontos, sendo que 13,7% apresentaram uma boa adesão ao padrão mediterrânico. A maioria dos pais ou cuidadores (77,1%) cozinha 6 ou mais vezes por semana, 55,6% sente-se confiante ao cozinhar, 82,4% gosta muito de cozinhar, 16,3% considera as suas aptidões culinárias excelentes e a média da escala de aptidões culinárias foi de 4,95 (±1,00)
FCUP / FCNAUP Excesso de peso e obesidade infantil: Influência das aptidões culinárias em contexto familiar VIII pontos. A maioria da amostra referiu ser responsável pela preparação das refeições das crianças/adolescentes, principalmente do Jantar. O IMC e o sexo dos pais/cuidadores revelaram ter um efeito significativo, quer independente quer através de um modelo ajustado, na prevalência de excesso de peso e obesidade nas crianças/adolescentes (Exp(B) bruto: 1,12 (1,03 – 1,22) e ajustado: 1,12 (1,01 – 1,25); Exp(B) bruto: 5,85 (1,57 – 21,74) e ajustado: 19,71 (2,96 – 131,44), respetivamente). Conclusões: Não foi observada uma associação significativa entre a qualidade alimentar, as aptidões culinárias dos pais/cuidadores com o estado nutricional das suas crianças/adolescentes. No entanto o sexo e o IMC dos pais/cuidadores foram identificados como fatores de risco no desenvolvimento de excesso de peso e obesidade nas crianças/ adolescentes. Palavras-chave: Obesidade infantil, Alimentação familiar, Qualidade Alimentar, Aptidões culinárias;
FCUP / FCNAUP Excesso de peso e obesidade infantil: Influência das aptidões culinárias em contexto familiar IX Índice Agradecimentos .................................................................................................................... III Abstract ................................................................................................................................. V Resumo ............................................................................................................................... VII Índice .................................................................................................................................... IX Índice de figuras ................................................................................................................... XI Índice de tabelas ................................................................................................................. XIII Lista de abreviaturas ........................................................................................................... XV Prefácio ............................................................................................................................ XVII Capítulo 1: Introdução ............................................................................................................ 1 1.1 Obesidade infantil ........................................................................................................ 1 1.2 Alimentação em contexto familiar ................................................................................ 7 1.3 Qualidade alimentar .................................................................................................. 10 1.4 Aptidões culinárias .................................................................................................... 12 Capítulo 2: Metodologia ....................................................................................................... 17 2.1 Amostragem e participantes ...................................................................................... 17 2.2 Recolha de dados ..................................................................................................... 17 2.3 Análise estatística ..................................................................................................... 20 Capítulo 3: Resultados ......................................................................................................... 21 3.1 Caracterização geral dos pais ou cuidadores ............................................................ 21 3.2 Caracterização geral das crianças/adolescentes ....................................................... 23 3.3 Caracterização da família das crianças/adolescentes ............................................... 24 3.4 Qualidade alimentar dos pais ou cuidadores ............................................................. 24 3.5 Práticas e aptidões culinárias dos pais ou cuidadores ............................................... 28 3.6 Preparação das refeições para as crianças/adolescentes ......................................... 31
FCUP / FCNAUP Excesso de peso e obesidade infantil: Influência das aptidões culinárias em contexto familiar X 3.7 Influência de diferentes variáveis no IMC das crianças/adolescentes ........................ 33 Capítulo 4: Discussão .......................................................................................................... 37 Capítulo 5: Conclusões ........................................................................................................ 41 Referências bibliográficas .................................................................................................... 43 Anexo A: Questionário ......................................................................................................... 47
FCUP / FCNAUP Excesso de peso e obesidade infantil: Influência das aptidões culinárias em contexto familiar XVII Prefácio Atualmente a obesidade infantil representa um problema de saúde pública a nível mundial, que tem vindo a atingir números particularmente alarmantes em Portugal. Apesar de existir um acesso à informação cada vez maior e haver uma disseminação de campanhas que pretendem promover a alimentação saudável, as famílias não estão a conseguir travar esta epidemia. Existem fatores que estão claramente relacionados com o desenvolvimento do excesso de peso e obesidade, como o estilo de vida “moderno”, o sedentarismo e a adoção da “dieta ocidental”, e que atualmente estão enraizados na sociedade. Por isso, é fundamental perceber quais as barreiras e dificuldades concretas que atualmente as famílias enfrentam para a adoção de uma alimentação e estilo de vida saudável. Só desta forma é que é possível desenvolver estratégias para a promoção da saúde infanto-juvenil que permitam aos profissionais, não só da área da saúde, como da indústria alimentar, do ensino e educação, da comunicação, entre outros, atuar de forma mais eficaz no seio das famílias para combater o excesso de peso e a obesidade infantil. A investigação só mais recentemente começou a procurar a possível relação entre as aptidões culinárias dos pais ou cuidadores com o desenvolvimento do excesso de peso e obesidade, por isso, este meu trabalho teve como objetivo procurar possíveis associações entre a alimentação a nível familiar, incluindo as aptidões culinárias dos pais ou cuidadores, e o aparecimento do excesso de peso e obesidade infantil. Desta forma, apliquei um questionário estruturado para avaliar os pais ou cuidadores e as crianças/adolescentes seguidos em consultas de pediatria no Centro Hospitalar Entre o Douro e Vouga, E.P.E de forma a procurar essa possível associação. Este Centro Hospitalar presta cuidados de saúde a 340 000 habitantes de uma vasta área geográfica e foi selecionado para a realização da investigação pelas condições práticas e disponibilidade que me ofereceu, uma vez que, à data da aplicação do questionário, era o meu local de trabalho onde desempenhava funções como Nutricionista. Ao longo deste percurso académico vários foram os contratempos e dificuldades que o tornaram um verdadeiro desafio, no entanto espero que, com este trabalho, tenha contribuído para a discussão de um tema atual e desafiante para toda a sociedade e de ter “aberto novos caminhos” para a sua investigação.
FCUP / FCNAUP Excesso de peso e obesidade infantil: Influência das aptidões culinárias em contexto familiar XVIII
FCUP / FCNAUP Excesso de peso e obesidade infantil: Influência das aptidões culinárias em contexto familiar 1 Capítulo 1: Introdução 1.1 Obesidade infantil Nas últimas décadas a prevalência de excesso de peso e obesidade nas crianças e adolescentes dos países desenvolvidos em todo o mundo, aumentou significativamente1. Segundo a British Medical Association existem 155 milhões de crianças com excesso de peso e obesidade em todo o mundo2. Na Europa, em 2010, existiam 40 a 50 milhões de crianças com excesso de peso, sendo este valor 10 vezes superior ao registado em 19703. Portugal está entre os países europeus com o maior número de crianças afetadas por esta epidemia e uma em cada três tem excesso de peso ou obesidade2. Nos últimos 10 anos, Portugal apresentou uma das maiores prevalências de obesidade infantil da Europa, por isso o combate a esta epidemia tornouse também uma prioridade política devido à sua relação com a morbilidade, mortalidade e aumento de custos associados. Face a este problema, surgiu na Europa a necessidade de instalar e desenvolver um sistema de vigilância da obesidade infantil e, após a aprovação da Carta Europeia da Luta Contra a Obesidade em 2006, os estados-membro da região europeia juntamente com a Organização Mundial de Saúde (OMS), criaram o projeto europeu Childhood Obesity Surveillance Initiative (COSI). Em Portugal, tal como noutros 16 países da Europa (Bélgica, Bulgária, Chipre, República Checa, Irlanda, Itália, Letónia, Lituânia, Malta, Noruega, Eslovénia, Suécia, Grécia, Hungria, Macedónia e Espanha), foi desenvolvida uma rede de informação, comparável entre os diferentes países, sobre as características do estado nutricional de crianças dos 6 aos 8 anos. Em Portugal este estudo foi coordenado pelo Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge (INSA) em parceria com a Direção Geral da Saúde (DGS) recorrendo a uma amostra representativa nacional de escolas do 1º ciclo do Ensino Básico. Utilizando os critérios de classificação da OMS para a classificação do estado nutricional verificou-se que, em 2010, 35,6% das crianças avaliadas apresentavam excesso de peso, e 14,6% obesidade3. Relativamente aos dados de 2008, ocorreu uma ligeira diminuição na prevalência de excesso de peso e obesidade, no entanto as diferenças não foram estatisticamente significativas3. Os dados mais recentes do estudo COSI, de 2013, demonstraram a mesma tendência, ou seja, em comparação com os dados de 2010, ocorreu uma diminuição da prevalência de excesso de peso para 31,6%, e uma diminuição da prevalência de obesidade para 13,9% (ver figura 1). Nestes
FCUP / FCNAUP Excesso de peso e obesidade infantil: Influência das aptidões culinárias em contexto familiar 2 últimos dados, as diferenças foram estatisticamente significativas apenas nas regiões do Norte e Madeira e é de notar que, tal como entre 2008 e 2010, ocorreu um aumento da prevalência de baixo peso. Portanto, apesar da diminuição do excesso de peso e obesidade parecer animadora, é necessário ter em conta o contexto socioeconómico que se vive em Portugal atualmente, que pode ter influência sobre o estado nutricional infantil4. Para a definição de excesso de peso e obesidade é frequentemente utilizado o Índice de Massa Corporal (IMC) que é calculado através do peso (em Kg) a dividir pela estatura (em m2). Os limites de classificação utilizados para os adultos não são utilizados para definir o excesso de peso e obesidade em crianças e adolescentes, uma vez que estes estão numa fase de crescimento e ganho de peso naturais1. Desta forma o IMC é avaliado através das curvas de crescimento que são um instrumento fundamental para monitorizar o crescimento e estado de nutrição das crianças e adolescentes. Em Portugal, até 2013, eram utilizadas as curvas de crescimento do Center for Disease Control and Prevention (CDC) na vigilância da saúde infantil. Entretanto, em 2006, foram publicadas as curvas de crescimento da OMS e, em 2007, as curvas específicas para a faixa etária dos 5 aos 19 anos. Por isso, em 2013, a DGS passou a utilizar as curvas de crescimento da OMS em Portugal uma vez que a metodologia utilizada na construção destas curvas as torna mais próximas a curvas-padrão e é uma ferramenta possível de ser utilizada a nível mundial5. Utilizando as curvas do IMC para a idade, o excesso de peso é definido quando o seu valor é superior ou igual ao percentil 85 e inferior ao percentil 97, e a obesidade Figura 1 - Estado nutricional das crianças dos 6 aos 8 anos em 2008,2010 e 2013 segundo o estudo COSI em Portugal (retirado de3)
FCUP / FCNAUP Excesso de peso e obesidade infantil: Influência das aptidões culinárias em contexto familiar 3 quando é superior ou igual ao percentil 976. No entanto é necessário ter atenção quando se comparam estudos internacionais uma vez que existem diferentes curvas e pontos de corte dependendo das ferramentas utilizadas. Por exemplo, o ponto de corte utilizado para definir a obesidade na maior parte dos países da Europa é o percentil 97 (utilização das curvas de crescimento da OMS), no entanto nos Estados Unidos da América (EUA) é o percentil 95 (utilização das curvas de crescimento do CDC)1. Para além do IMC outras medidas antropométricas têm sido sugeridas para avaliar a adiposidade corporal, como o Perímetro da Cintura (PC) e a Razão Perímetro da Cintura/Estatura (RPCE). É importante reconhecer que estas medidas se referem a diferentes aspetos da obesidade. O IMC é uma medida indireta da adiposidade, uma vez que apenas tem em conta o peso e a estatura sem qualquer medição direta da adiposidade e distribuição da gordura corporal7–9. Está correlacionado com a gordura corporal, no entanto é também sensível à massa magra, o que pode levar à classificação errada dos percentis de IMC9,10. Por sua vez, o PC é uma medida da adiposidade central/abdominal que, quando relacionada com a estatura (RPCE), transmite um índice de proporcionalidade. A adiposidade central (referida como obesidade androide) caracteriza-se pela deposição da gordura a nível visceral/interno e está relacionada com um risco aumentado para o desenvolvimento de co morbilidades como a resistência à insulina, hiperinsulinemia, dislipidemia e hipertensão, aumentando o risco do desenvolvimento de doenças cardiovasculares e diabetes9–11. Portanto, o IMC, o PC e a RPCE parecem funcionar bem como medidas isoladas para avaliar a gordura corporal, no entanto como medidas de avaliação do risco para o desenvolvimento de patologias relacionadas com a obesidade, podem ter diferentes interpretações7. Na prática clínica pediátrica a medição do PC não é comum, não existem pontos de corte internacionalmente aceites para a definição de obesidade12. Em Portugal foi criado o “Guia de Avaliação do Estado Nutricional Infantil e Juvenil” pelo Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge (INSA) em colaboração com o Conselho Científico da Plataforma contra a Obesidade da DGS, que reúne de uma forma padronizada os procedimentos mais atuais em antropometria, para auxiliar a correta vigilância nutricional infantil em Portugal. Neste guia é fornecida uma tabela de referência (elaborada por Fernandes e colaboradores) com os percentis para a população europeia-americana, dos 2 aos 18 anos e para ambos os sexos. Neste guia, os autores referem que apesar de não existir um ponto de corte consensual para a definição do risco cardiovascular em idade pediátrica, vários autores consideram o percentil 75 como limite acima do qual se considera um risco aumentado de obesidade abdominal e o percentil 90 como limite acima do qual se define a obesidade abdominal13.
FCUP / FCNAUP Excesso de peso e obesidade infantil: Influência das aptidões culinárias em contexto familiar 4 De qualquer forma, o IMC tem sido o método mais frequentemente utilizado10. No estudo longitudinal de Griffiths e colaboradores, foram comparadas estas diferentes medidas de adiposidade e verificou-se que as crianças e adolescentes num mesmo percentil de IMC apresentavam uma grande variação na distribuição da gordura corporal, e que as alterações no IMC podem não refletir alterações ao nível da adiposidade central. Por isso os autores referem que o PC parece ser melhor do que o IMC no que diz respeito à previsão da gordura abdominal, no entanto não é vantajoso na previsão da adiposidade no geral – neste caso o IMC parece mais adequado7. Também McCarthy and Ashwell afirmam que o PC, quer isoladamente quer relacionado com a estatura (RPCE), pode ser uma medida mais sensível na identificação do excesso de peso e obesidade em crianças que podem ter um maior risco para o desenvolvimento de complicações metabólicas9. Veldhuis e colaboradores referem também que, apesar de o IMC versus PC e o IMC versus a RPCE terem mostrado estar moderadamente em conformidade na definição do excesso de peso em crianças de 5 anos, é necessário considerar que utilizando os pontos de corte do IMC para a definição de obesidade podem estar a ser omitidas crianças classificadas como obesas através do PC. Referem também que o IMC parece ser pouco sensível para crianças relativamente mais altas ou mais baixas, por isso, sugerem a utilização do IMC em conjunto com o PC para a definição de obesidade nestas crianças8. A RPCE parece ser uma medida antropométrica mais adequada do que o IMC para prever os fatores de risco cardio-metabólicos relacionados com a obesidade em adultos, uma vez que o IMC não fornece informação acerca da distribuição da adiposidade14 e, para além disso, o IMC e PC são índices dependentes da idade, o que torna a sua utilização menos prática15. A RPCE, uma vez que tem em conta o PC, é também uma medida para avaliação da gordura abdominal, mas tem como vantagem o ajuste para a estatura. Desta forma, um indivíduo de elevada estatura, com um PC igual a um outro indivíduo de baixa estatura, apresenta menos fatores de risco cardiometabólicos e menos 30% de prevalência de síndrome metabólica. Para além disso, em adultos a RPCE apresenta um ponto de corte geral para definir a obesidade (0,5), e que pode ser utilizado para homens ou mulheres de diferentes etnias14. Nos anos 90, Margaret Ashwell desenvolveu um gráfico – The Ashwell Shape Chart – para ser utilizado pelos profissionais de saúde (e/ou população em geral), para avaliar a RPCE e verificar em que categoria esta se enquadra: Se a RPCE for inferior a 0,4, situa-se na zona do gráfico “Cuidar”; Se a RPCE for entre 0,4 e 0,5, situa-se na zona do gráfico “OK”; Se a RPCE for entre 0,5 e 0,6, situa-se na zona do gráfico “Considerar atuar” para adultos (idade superior a 18 anos) e “Atuar” para as crianças; Por fim, se a RPCE for superior a 0,6, situa-se na zona do gráfico “Atuar”. Segundo a autora, esta ferramenta está bem correlacionada com a gordura
FCUP / FCNAUP Excesso de peso e obesidade infantil: Influência das aptidões culinárias em contexto familiar 5 visceral e permite assim avaliar de uma forma simples, barata e não invasiva população que está em risco de desenvolver patologias como a diabetes, hipertensão, enfarte, dislipidemia e doenças cardiovasculares, para que seja possível “Atuar”, procurando o prestador de cuidados de saúde no sentido de reduzir o PC e assim diminuir a morbilidade e mortalidade9,11. Sijtsma e colaboradores referem que, ao contrário dos adultos, na infância e adolescência não é possível existir apenas um ponto de corte uma vez que a RPCE é muito variável até aos 18 anos. Segundo estes mesmos autores, parece que os estudos em crianças mais velhas (dos 8 aos 16 anos) demonstram que a RPCE está melhor correlacionada com a percentagem de gordura corporal do que o IMC. No entanto, os estudos com crianças mais novas (com menos de 10 anos) demonstram que a RPCE não está melhor correlacionada com a percentagem de gordura corporal do que o IMC e o PC. No que diz respeito aos fatores de risco cardiometabólicos, existem poucos estudos em crianças mais novas, no entanto os autores não demonstraram que a RPCE estivesse melhor correlacionada que o IMC ou PC. Desta forma os autores defendem que, relativamente ao IMC ajustado para a idade e género, a RPCE não confere vantagens para a definição de obesidade e correlação com os fatores de risco cardiometabólicos em crianças mais jovens14. McCarthy e Ashwell avaliaram a RPCE em crianças Britânicas, e também afirmam que esta razão é influenciada pela idade (e portanto, pelo crescimento) e pelo género. Referem também que existe uma diminuição na RPCE média entre os 5 e os 17 anos devido à diferença de velocidade de crescimento em altura e do PC com a idade, mas que a partir dos 18 anos ocorre uma cessação do crescimento, estabilizando a RPCE. Neste mesmo estudo, estes autores referem também que o ponto de corte de 0.5 utilizado em adultos, parece ser também adequado para as crianças, no entanto, tal como já referido anteriormente, em crianças mais novas a RPCE pode não ser adequada porque com este ponto de corte pode haver uma sobrestimação do número de crianças em risco. Desta forma o ponto de corte 0.5 pode não ser ideal para todas as idades. No entanto, a RPCE, com um ponto de corte de 0.5, utilizada em contexto de saúde pública, pode ser utilizada como ferramenta para avaliar crianças em risco de saúde aumentado9. O aumento da prevalência da obesidade infantil nos últimos anos tem sido preocupante porque algumas complicações relacionadas com a obesidade, e que raramente eram observadas em crianças, têm sido diagnosticadas nesta faixa etária, como por exemplo a apneia do sono e a diabetes tipo 216. Existe uma forte evidência científica que confirma também que um elevado IMC na infância pode levar ao excesso de peso na idade adulta17. A maior parte destas crianças e adolescentes continuarão com excesso de peso ou obesidade para o resto da vida e estima-se que 60% das crianças obesas serão adultos obesos3. No entanto, o impacto da obesidade infantil
FCUP / FCNAUP Excesso de peso e obesidade infantil: Influência das aptidões culinárias em contexto familiar 6 na vida adulta pode acontecer independentemente do peso na idade adulta16. Desta forma, no futuro a sociedade terá que lidar com as consequências da obesidade infantil na saúde, nomeadamente, o desenvolvimento de diabetes tipo 2, doenças cardiovasculares (como a hipertensão arterial e enfarte do miocárdio precoce), dificuldades respiratórias, problemas osteoarticulares, esteatose hepática, problemas psicossociais, entre outros1,2,17,18. A obesidade infantil pode, por isso, ter impacto na diminuição da esperança média de vida1, no aumento da morbilidade e na redução da qualidade de vida numa idade mais avançada16. Para além disso, os custos no setor dos cuidados de saúde serão também mais elevados1. As possíveis causas para o desenvolvimento do excesso de peso e obesidade infantis que têm sido discutidas na literatura são várias, nomeadamente ao nível da predisposição genética, das alterações nutricionais e alimentares e dos hábitos de atividade física (designadamente o desequilíbrio entre a ingestão e o gasto energético), do nível socioeconómico da família, das alterações sociais e do estilo de vida, entre outras1. A obesidade é uma desordem do balanço energético, por isso, se for considerado um modelo simplista, a obesidade resulta de um aumento da ingestão energética, ou de uma diminuição do gasto energético, ou das duas situações. No entanto a evidência tem vindo a demonstrar que os desequilíbrios do balanço energético são muito mais complexos do que esta visão estática19, e parece que o fenótipo da obesidade surge quando os fatores genéticos interagem com o ambiente20. Ou seja, a obesidade é considerada uma doença genética, no entanto, e uma vez que a herança genética sofreu poucas alterações nos últimos anos, o aumento da prevalência de obesidade infantil deve-se sobretudo à influência de fatores externos, que podem existir ainda em ambiente intrauterino, e que vão desde o ambiente familiar até às políticas nacionais (ver figura 4)16. Por exemplo, a influência protetora da amamentação, a influência de padrões alimentares como o aumento do consumo de bebidas açucaradas e a existência de espaços para fast-food, a influência parental por exemplo na seleção alimentar, o estilo de vida sedentário como o aumento de tempo a ver televisão, a influência da publicidade, a influência de fatores psicossociais como o estado socioeconómico da família, o acesso à educação, o acesso à saúde, a disponibilidade de espaços para a prática de exercício físico, entre vários outros fatores16,20. Figura 2 - Modelo de influência na obesidade infantil (retidado de16)
FCUP / FCNAUP Excesso de peso e obesidade infantil: Influência das aptidões culinárias em contexto familiar 7 Existem causas genéticas e hormonais que podem levar ao desenvolvimento de obesidade, no entanto são raras, por exemplo, endocrinopatias como o hipotiroidismo, síndromes genéticos como o síndrome de Prader-willi ou alterações genéticas que afetam o balanço energético como as alterações da via de sinalização da leptina16 1.2 Alimentação em contexto familiar As refeições em família são uma atividade social importante que pode influenciar a ingestão alimentar, a saúde21 e permitir o desenvolvimento de laços positivos com a família, que por sua vez pode promover o contacto com comportamentos promotores da saúde e o bem-estar emocional22. Os estudos sobre a prevalência das refeições em família entre as crianças e adolescentes apresentam uma grande variedade de resultados, no entanto, nos EUA por exemplo, a maioria dos jovens janta em família 5 ou mais dias por semana. Apesar de haver evidências inconclusivas, o género, idade, etnia, nível socioeconómico e a situação profissional parecem influenciar a prevalência das refeições em família. Os adolescentes em particular, comparados com os seus pais, revelam fazer menos refeições em família. Este resultado pode estar associado ao facto de terem atividades escolares, extracurriculares, profissionais e socais, estando assim mais afastados das refeições familiares mesmo quando os pais e os restantes membros da família fazem as refeições juntos. No entanto, as raparigas, jovens adolescentes, de um nível socioeconómico superior e que têm as suas mães numa situação de desemprego, parecem consumir com mais frequência as refeições em família21. A relação entre a frequência das refeições familiares e o peso corporal de crianças e adolescentes também tem sido cada vez mais estudada, revelando uma possível relação inversa entre estes indicadores23. Da mesma forma, tem-se verificado uma associação inversa entre as refeições em família e o consumo de refrigerantes, alimentos ricos em gordura e a obesidade nas crianças. No entanto, apesar de existirem estudos que revelam que os pais estão preocupados com o planeamento e preparação das refeições, há uma tendência para a diminuição da frequência das refeições familiares. Fulkerson e colaboradores, organizaram um grupo focal de pais empregados e com filhos em idade escolar para discutir acerca das barreiras para a preparação de refeições familiares. Os pais referiram gostar da partilha às refeições, mas revelaram que têm pouco tempo para a sua preparação e que muitas vezes estão a fazer várias tarefas a essa hora. Neste sentido é importante perceber quais os obstáculos que os pais atualmente enfrentam para a preparação das refeições em família para que seja possível desenvolver ações de melhoria da frequência, atmosfera e qualidade alimentar dessas refeições21.
FCUP / FCNAUP Excesso de peso e obesidade infantil: Influência das aptidões culinárias em contexto familiar 8 A quantidade e qualidade da alimentação das crianças é importante para o seu bem-estar e saúde no futuro. As características familiares, como o papel dos pais como modeladores da alimentação, o incentivo parental, o conhecimento nutricional dos pais e as suas preferências e práticas alimentares, são os principais determinantes do consumo alimentar das crianças. Para além disso, os pais têm um papel determinante na decisão do tipo de alimentos que são comprados, por isso, os fatores que influenciam os pais na escolha alimentar da família são importantes e devem ser avaliados uma vez que influenciam a disponibilidade dos alimentos em casa, o tipo de alimentos que os próprios consomem e o valor que diferentes alimentos têm no seio familiar. Segundo Roos e colaboradores os fatores que parecem influenciar a escolha alimentar da família, foram mais fortemente associados aos alimentos nutricionalmente mais densos do que aos alimentos com maior densidade energética o que, em concordância com outros estudos, demonstra que estes fatores estão mais relacionados com as refeições elaboradas em casa ou com os pequenos lanches mais saudáveis que se levam para a escola. Por outro lado os alimentos energeticamente mais densos são associados ao consumo fora de casa, geralmente relacionados com os “pares”. Quando existem crianças no seio familiar, os fatores considerados mais importantes foram a “saúde e composição natural”, “as características sensoriais” e a “conveniência”. O fator “saúde e composição natural” foi o que os pais mais fortemente associaram à sua ingestão alimentar, por isso, os filhos de pais que consideram este motivo o mais importante, apresentaram uma maior ingestão de alimentos nutricionalmente mais densos e uma baixa ingestão de alimentos de elevada densidade energética. As “características sensoriais” também se associaram de forma positiva à ingestão de alimentos nutricionalmente mais densos por parte das crianças, no entanto essa associação foi negativa no que concerne à “conveniência”. É importante ter em conta que neste tipo de estudos as associações podem estar enviesadas uma vez que os pais podem ter tendência a responder o “politicamente mais correto”, como por exemplo, afirmar que os alimentos que compram para os seus filhos são os mais saudáveis e que o fator “preço” não é uma barreira para a compra de alimentos saudáveis24. As mães, particularmente, são uma das principais influências na dieta e saúde dos filhos25, sendo modeladoras dos seus hábitos alimentares, incluindo o seu autocontrolo e preferências alimentares, que podem permanecer no futuro26. Para as decisões diárias relacionadas com o planeamento das refeições e a compra e preparação de alimentos, as mães têm em conta as necessidades da sua família, nomeadamente dos filhos, e outro tipo de constrangimentos, como o tempo e custo despendidos26. Existe, por isso, uma relação positiva entre o nível de conhecimentos nutricionais das mães com a saúde e ingestão alimentar das suas crianças, que mostram consumir menores quantidades de gordura, gordura saturada, colesterol e sódio, e uma maior ingestão de fibra. Esta relação está associada ao facto de serem as mães que
FCUP / FCNAUP Excesso de peso e obesidade infantil: Influência das aptidões culinárias em contexto familiar 15 entre aptidões culinárias e a forma como estas podem influenciar o comportamento alimentar não está esclarecida, e isso deve-se também à falta de uma ferramenta fiável que permita a avaliação das aptidões culinárias. A investigação tem-se focado no estudo dos hábitos culinários e técnicas de preparação que são influenciados pelos hábitos culturais, tradições e preferências pessoais, por isso Hartmann e colaboradores decidiram desenvolver um índice para avaliação das aptidões culinárias que fosse aplicável à maioria das populações. Esta escala foi utilizada no âmbito do estudo sobre comportamento alimentar da população suíça, com o objetivo de avaliar os fatores sociodemográficos e psicológicos promotores das aptidões culinárias, consequências da presença ou ausência de aptidões culinárias e relação entre a frequência de consumo de vários grupos alimentares e as aptidões culinárias. Os autores referem que nesta escala as aptidões culinárias são definidas como “a habilidade de preparar diferentes alimentos” e não de itens alimentares especiais ou refeições específicas porque esses dependem do contexto cultural em que estão inseridos, e por isso podem influenciar a pontuação na escala de aptidões culinárias. Referem ainda que apesar de ser quase impossível desenvolver uma escala culturalmente independente, a aplicação desta escala “é ilimitada e adequada para a região europeia”43. A relação entre a família, aptidões culinárias e qualidade alimentar é complexa mas pode desempenhar um papel importante na prevenção ou desenvolvimento de excesso de peso e obesidade. Desta forma, o objetivo deste estudo foi avaliar a relação entre a qualidade alimentar, as práticas e aptidões culinárias dos pais ou cuidadores com o estado nutricional das suas crianças/adolescentes.
FCUP / FCNAUP Excesso de peso e obesidade infantil: Influência das aptidões culinárias em contexto familiar 16
FCUP / FCNAUP Excesso de peso e obesidade infantil: Influência das aptidões culinárias em contexto familiar 17 Capítulo 2: Metodologia 2.1 Amostragem e participantes Para esta investigação foi realizado um estudo observacional transversal, e a amostra foi selecionada através de um procedimento não probabilístico, acidental ou de conveniência, uma vez que a recolha de dados aconteceu aleatoriamente, entre dia 03/03/2015 e 24/03/2015, na sala de espera das consultas externas de Pediatria do Centro Hospitalar Entre o Douro e Vouga, E.P.E (CHEDV) – Unidade de Santa Maria da Feira, Portugal. Durante este período, foram aleatoriamente selecionados 180 pais ou cuidadores de crianças/adolescentes com uma idade mínima de 2 anos, no entanto foram excluídos os dados de 27 indivíduos por apresentarem o questionário incompleto, perfazendo uma amostra para análise final de 153 pais ou cuidadores e crianças/adolescentes. Foram considerados questionários incompletos aqueles que não forneciam dados relativos ao hábitos alimentares, escala de aptidões culinárias, grau de parentesco, sexo e idade dos pais ou cuidadores, por serem considerados dados essenciais. 2.2 Recolha de dados Este projeto de investigação foi aprovado pela comissão de ética do CHEDV e a recolha e tratamento dos dados foi autorizada pelos participantes no estudo através da assinatura do consentimento informado. Os dados foram recolhidos através de um questionário estruturado – ver anexo A – aplicado de forma direta pelos participantes. O questionário engloba 4 grupos: Grupo I – Hábitos alimentares dos pais ou cuidadores Este grupo é constituído por 14 questões de escolha múltipla adaptadas do questionário PREDIMED40,41,47 que permite avaliar a qualidade alimentar dos pais ou cuidadores das crianças/adolescentes, através da avaliação da sua adesão ao padrão mediterrânico. Para cada opção de resposta há uma pontuação associada de 1 ponto caso sejam cumpridos os critérios de adesão à dieta mediterrânica, e de 0 pontos caso, pelo contrário, esses critérios não sejam cumpridos – ver tabela 1. A pontuação total é calculada através da soma das pontuações obtidas em cada questão. Os autores consideram que uma pontuação superior a 10 está associada a uma boa adesão à dieta mediterrânica40.
FCUP / FCNAUP Excesso de peso e obesidade infantil: Influência das aptidões culinárias em contexto familiar 18 É necessário referir que, devido a um erro de impressão não existente numa fase de préteste e não detetado precocemente na fase de aplicação do questionário, para análise dos resultados destas 14 questões as coincidentes opções de resposta “1 ou menos” e “1” (ver grupo I do questionário – Anexo A) foram fundidas na opção “1 ou menos” (que engloba as duas opções). Desta forma, para o cálculo da pontuação total teve também que haver um ajuste, nomeadamente nas questões 5, 6 e 7, e em vez de se atribuir 1 ponto se a resposta fosse “<1 porção por dia” (como se observa na tabela 1), atribuiu-se 1 ponto se a resposta for “≤1 porção por dia”. Tabela 1 - Questionário PREDIMED (adaptado de 40,41,47) * - Para a análise de resultados e cálculo da pontuação total, nesta investigação atribuiu-se 1 ponto se “≤ 1 porção por dia” Responda às seguintes questões de acordo com aquilo que é a sua alimentação habitual nos 7 dias da semana, indicando o número de vezes (por dia ou por semana) que consome determinados alimentos: 1 ponto se: 1. Usa o azeite como principal gordura para cozinhar? Não Sim Sim 2. Que quantidade de azeite consome num dia (incluindo uso para fritar, temperar saladas, refeições fora de casa, etc.)? <1 1 2 3 ≥4 (número de colheres de sopa por dia) ≥ 4 colheres sopa 3. Quantas porções de produtos hortícolas consome por dia? (1 porção: 200 g; considere acompanhamentos como metade de uma porção) <1 1 2 3 ≥4 (número de porções por dia) ≥ 2 porções por dia (ou ≥1 porção crua ou em salada) 4. Quantas peças de fruta (incluindo sumos de fruta natural) consome por dia? <1 1 2 3 ≥4 (número de peças por dia) ≥ 3 por dia 5. Quantas porções de carne vermelha, hambúrguer ou produtos cárneos (presunto, salsicha, etc.) consome por dia? (1 porção: 100-150 g) <1 1 2 3 ≥4 (número de porções por dia) < 1 porção por dia * 6. Quantas porções de manteiga, margarina, ou natas consome por dia? (1 porção: 12 g) <1 1 2 3 ≥4 (número de porções por dia) < 1 porção por dia * 7. Quantas bebidas açucaradas ou gaseificadas bebe por dia? <1 1 2 3 ≥4 (número de porções por dia) <1 porção por dia * 8. Quantos copos de vinho bebe por semana? <1 1 2 3 4 5 6 ≥7 (número de copos por semana) ≥ 7 copos por semana 9. Quantas porções de leguminosas consome por semana? (1 porção: 150 g) <1 1 2 3 4 5 6 ≥7 (número de porções por semana) ≥ 3 por semana 10. Quantas porções de peixe ou marisco consome por semana? (1 porção: 100-150 g de peixe ou 4-5 unidades ou 200 g de marisco) <1 1 2 3 4 5 6 ≥7 (número de porções por semana) ≥3 por semana 11. Quantas vezes por semana consome produtos de pastelaria ou doces comerciais (não caseiros), como bolos, bolachas, biscoitos? <1 1 2 3 4 5 6 ≥7 (número de vezes por semana) <3 vezes por semana 12. Quantas porções (de 30g cada) de oleaginosas (nozes, amêndoas, incluindo amendoins) consome por semana? <1 1 2 3 4 5 6 ≥7 (número de porções por semana) ≥ 3 por semana 13. Consome preferencialmente frango, peru ou coelho em vez de vaca, porco, hambúrguer ou salsicha? Não Sim Sim 14. Quantas vezes por semana consome hortícolas, massa, arroz ou outros pratos confecionados com um refogado (molho à base de tomate, cebola, alhofrancês ou alho e azeite)? <1 1 2 3 4 5 6 ≥7 (número de vezes por semana) ≥ 2 vezes por semana
FCUP / FCNAUP Excesso de peso e obesidade infantil: Influência das aptidões culinárias em contexto familiar 19 Grupo II – Práticas culinárias dos pais ou cuidadores Neste grupo foram avaliadas as práticas culinárias dos pais ou cuidadores, incluindo a avaliação da frequência e grau de confiança com que cozinham, com quem aprenderam a cozinhar e avaliação das suas aptidões culinárias através da escala adaptada de Hartmann e colaboradores43. A cada 7 afirmações relacionadas com a habilidade de preparação de diferentes alimentos, os inquiridos correspondem uma pontuação numa escala de 1 (“Discordo totalmente”) a 6 (“Concordo totalmente”) pontos - (ver tabela 2). O cálculo da média dessa pontuação corresponde ao seu grau de aptidões culinárias. Tabela 2 - Escala de aptidões culinárias (adaptada de 43) Grupo III – Preparação das refeições para a criança Neste grupo foi avaliada a influência dos pais ou cuidadores na preparação e confeção das refeições da criança que acompanha à consulta, nomeadamente quais as refeições que geralmente preparam para a criança. Na questão 24 deste grupo ocorreu alguma confusão relativamente às opções “todas ou quase todas as refeições” e “algumas refeições” e tal situação foi detetada quando se analisou a questão 26. Por isso, na análise de resultados estas duas opções foram incorporadas na opção de resposta “Sim, de todas ou quase todas as refeições”. Grupo IV – Dados gerais Este grupo subdivide-se em 3 para obter os dados antropométricos e sociodemográficos (1) dos pais ou cuidadores, (2) da família a que a criança pertence e (3) da própria criança. (1) No que diz respeito aos pais ou cuidadores foram recolhidos dados relativos ao grau de parentesco relativamente à criança, sexo, idade, peso (em Kg) e altura (em cm) (auto reportados), estado civil, grau de escolaridade que completou, situação profissional e rendimento familiar líquido mensal. O IMC dos pais foi posteriormente calculado com os dados do peso e altura recolhidos, de acordo com a fórmula: 𝐼𝑀𝐶 = 𝑃𝑒𝑠𝑜 (𝐾𝑔) 𝐴𝑙𝑡𝑢𝑟𝑎2 48. Afirmações Discordo totalmente 1 2 3 4 5 Concordo totalmente 6 1. Eu considero que as minhas aptidões culinárias são suficientes 2. Eu sou capaz de preparar uma refeição quente sem receita 3. Eu sou capaz de preparar gratinados 4. Eu sou capaz de preparar uma sopa 5. Eu sou capaz de preparar um molho 6. Eu sou capaz de fazer um bolo 7. Eu sou capaz de fazer pão
FCUP / FCNAUP Excesso de peso e obesidade infantil: Influência das aptidões culinárias em contexto familiar 20 (2) Em relação à família da criança foram recolhidos dados sobre o tipo de agregado familiar, número de elementos e número de crianças/adolescentes e idosos, no sentido de perceber a constituição familiar da criança. (3) As crianças/adolescentes selecionados aleatoriamente na sala de espera da consulta externa de Pediatria do CHEDV, deslocavam-se ao serviço de enfermagem para recolher os dados antropométricos necessários antes da consulta marcada de Pediatria, desta forma os últimos dados recolhidos pelo questionário referem-se à criança/adolescente, nomeadamente o registo do sexo, idade (anos e meses), peso (em Kg), estatura (em cm) e avaliação da presença de alguma patologia que obrigue ao seguimento de uma “alimentação especial”. O IMC da criança foi posteriormente calculado e, de acordo com as curvas de crescimento e limites da OMS, cada criança foi classificada relativamente ao seu estado nutricional – desta forma foram detetadas as crianças/adolescentes com excesso de peso ou obesidade5,6. 2.3 Análise estatística Para a elaboração da base de dados, tratamento estatístico e representação gráfica dos resultados foi utilizado o programa IBM SPSS® – Statistical Package for Social Sciences – versão 23.0 para a Microsoft Windows®. Para análise descritiva das variáveis contínuas procedeu-se ao cálculo de médias, desvios-padrão, valores mínimos e máximos, e o cálculo de frequências absolutas para a análise das variáveis nominais ou ordinais. Para avaliar a influência das principais variáveis em estudo no percentil de IMC das crianças/adolescentes, procedeu-se ao cálculo da correlação entre esta variável e as variáveis: “Pontuação total do questionário PREDIMED”, “Aptidões culinárias” e “IMC dos pais ou cuidadores”. O coeficiente de correlação de Spearman (p) foi utilizado para medir o grau de associação entre variáveis quantitativas. Para relacionar a influência de variáveis independentes na probabilidade do desenvolvimento de excesso de peso e obesidade nas crianças/adolescentes (variável dependente) aplicou-se a regressão logística binária, com um intervalo de confiança de 95%. Para avaliar a qualidade do ajuste do modelo de regressão recorreu-se ao R2 de Nagelkerke.
FCUP / FCNAUP Excesso de peso e obesidade infantil: Influência das aptidões culinárias em contexto familiar 21 Capítulo 3: Resultados Neste capítulo serão apresentados os principais resultados obtidos com a aplicação do questionário acima detalhado e em anexo – ver anexo A. 3.1 Caracterização geral dos pais ou cuidadores No que diz respeito à caracterização geral dos pais ou cuidadores das crianças/adolescentes que participaram no estudo, tal como apresentado na tabela 3, verificou-se que a maioria (93,5%) eram realmente pais (Pai ou Mãe) das crianças/adolescentes e que 87,6% da amostra era do sexo feminino (Mãe ou Avó ou Tia, etc). Dos 153inquiridos, 125 (81,7%) eram Mães enquanto que apenas 18 (11,8%) eram Pais. No seguimento da análise dos dados apresentados na tabela 3, é possível observar que a amostra era maioritariamente casada ou em união de facto (81,0%), com o ensino secundário ou superior completo (51%), empregada (66,9%) e com rendimentos familiares líquidos inferiores a1000€ por mês (54,9%). Apresentou uma média de idade de 39 anos (±6,3), tendo o individuo mais novo 22 anos e o mais velho 63 anos. Em média, os pais ou cuidadores pesam 68,4 Kg (±11,8), medem 1,63m (±0,08) e apresentam um IMC de 25,8 Kg/m2 (±4,2). O indivíduo com o menor IMC (18,7 Kg/m2), de acordo com os critérios de classificação da OMS49, encontra-se dentro de padrões considerados normais, e o individuo com maior IMC (39,3 Kg/m2) apresenta uma obesidade de grau II. A segmentação da amostra, de acordo com os critérios da OMS para o IMC49, apresenta-se na tabela 4 e figura 3. Verificou-se então, que nenhum indivíduo se situava na categoria de baixo peso nem na categoria de obesidade de grau III, e que a maioria da amostra (53,1%) apresentou um IMC dentro da normalidade. No entanto, é de notar que 46,9% dos pais ou cuidadores apresentou um IMC superior ao considerado normal, sendo que 31,5% tinha excesso de peso, 11,9% obesidade de grau I e 3,5% obesidade de grau II. Quando se segmenta a amostra por sexo, verifica-se que as percentagens de mulheres e homens com IMC normal estão próximas (50,0% e 47,4% respetivamente), no entanto existem mais homens com excesso de peso (36,8%) em comparação com as mulheres (28,4%). No que diz respeito à obesidade verifica-se que apenas 1 indivíduo (5,3%) do sexo masculino se situa nesta categoria (mais especificamente na categoria de Obesidade grau I), mas relativamente ao sexo feminino, 21 mulheres (15,6%) são obesas (11,9% com obesidade grau I e 3,7% com obesidade grau II).
FCUP / FCNAUP Excesso de peso e obesidade infantil: Influência das aptidões culinárias em contexto familiar 22 Tabela 3 - Caracterização geral dos pais ou cuidadores de crianças/adolescentes – Santa Maria da Feira, 2015 Variável Categoria Frequência n (%) n total Grau de Parentesco em relação à criança que acompanha Pai / Mãe 143 (93,5%) 153 Avô / Avó 2 (1,3%) Irmão / Irmã 1 (0,7%) Padrinho / Madrinha 3 (2,0%) Outro 4 (2,6%) Sexo Feminino 134 (87,6%) 153 Masculino 19 (12,4%) Estado civil Solteiro(a) 15 (9,8%) 153 Casado(a)/União de facto 124 (81,0%) Divorciado(a) 12 (7,8%) Viúvo(a) 2 (1,3%) Grau de escolaridade que completou Nenhum 0 153 Ensino primário 9 (5,9%) Ensino básico (2ºciclo) 28 (18,3%) Ensino básico (3ºciclo) 38 (24,8%) Ensino secundário 54 (35,3%) Ensino superior 24 (15,7%) Situação profissional Estudante 0 148 Desempregado(a) 42 (28,4%) Empregado(a) 99 (66,9%) Reformado(a) 1 (0,7%) Outra 6 (4,1%) Rendimento familiar líquido mensal Inferior a 500€ 27 (17,6%) 153 Entre 501 e 1000€ 57 (37,3%) Entre 1001 e 1500€ 33 (21,6%) Entre 1501 e 2500€ 17 (11,1%) Entre 2501 e 4500€ 3 (2,0%) Superior a 4500€ 0 Não sei / Não respondo 16 (10,5%) Variável Média Desvio padrão Mínimo Máximo n total Idade (anos) 39,2 6,3 22 63 153 Peso (Kg) 68,4 11,8 48 103 151 Altura (m) 1,63 0,08 1,40 1,85 143 IMC (Kg/m2) 25,8 4,2 18,7 39,3 143 Tabela 4 - Classificação do IMC dos pais ou cuidadores de crianças/adolescentes, segundo critérios da OMS49 – Santa Maria da Feira, 2015 Categorias de IMC Frequência total n(%) Frequência mulheres n(%) Frequência homens n(%) Baixo peso 0 0 0 Normal 76 (53,1%) 67 (50,0%) 9 (47,4%) Excesso de peso 45 (31,5%) 38 (28,4%) 7 (36,8%) Obesidade grau I 17 (11,9%) 16 (11,9%) 1 (5,3%) Obesidade grau II 5 (3,5%) 5 (3,7%) 0 Obesidade grau III 0 0 0 Figura 3 - Classificação do IMC dos pais/cuidadores de crianças/adolescentes, segundo critérios da OMS – Santa Maria da Feira 2015
FCUP / FCNAUP Excesso de peso e obesidade infantil: Influência das aptidões culinárias em contexto familiar 23 3.2 Caracterização geral das crianças/adolescentes Relativamente à caracterização das crianças/adolescentes, verificou-se que a amostra apresentou uma média de idade de 125,6 meses (±53,6) - aproximadamente 10 anos e 6 meses, sendo a criança mais nova de 23 meses (1 ano e 11 meses) e a mais velha de 18 anos – idade limite para a frequência às consultas de Pediatria. Em média, a amostra situava-se nos 41,9 Kg (±19,5) de peso, 1,41m (±0,25) de altura e apresentou um IMC de 19,8 Kg/m (±4,2). A maioria das crianças/adolescentes (85,6%) não apresentou nenhuma patologia que obrigasse a qualquer tipo de “alimentação especial”, no entanto 14,4% das crianças/adolescentes revelaram ter um tipo de alimentação mais cuidado devido a patologias como a Diabetes (tipo I), Doença Celíaca ou Hipercolesterolemia Familiar – ver tabela 5. Tabela 5 - Caracterização geral das crianças/adolescentes - Santa Maria da Feira, 2015 Uma vez que neste grupo etário o peso, altura e consequentemente o IMC, estão diretamente relacionados com a idade das crianças/adolescentes, a amostra foi segmentada de acordo com os percentis de IMC e classificação da OMS5,6 como é possível observar na tabela 6 e figura 4. A maioria das crianças/adolescentes (54,2%) apresentaram um IMC dentro dos valores considerados normais, no entanto 42,5% das crianças/adolescentes apresentaram excesso de peso e obesidade (25,5% e 17,0% respetivamente). Quando se procede à segmentação da amostra por sexo, verifica-se que a percentagem de crianças/adolescentes com um IMC normal é semelhante entre raparigas e rapazes (53,5% e 54,9% respetivamente) mas, quando se comparam os dois grupos, verifica-se que existem mais rapazes com obesidade (22,0%) e mais raparigas com excesso de peso (32,4%). Variável Média Desvio padrão Mínimo Máximo n total Idade (meses) 125,6 (aprox. 10 anos e 6 meses) 53,6 (aprox. 4 anos e 6 meses) 23 (1 ano e 11 meses) 216 (18 anos) 153 Peso (Kg) 41,9 19,5 12 93,2 153 Estatura (m) 1,41 0,25 0,84 1,91 153 IMC (Kg/m2) 19,8 4,2 12,3 37,4 153 Variável Categoria Frequência n (%) n total Sexo Feminino 71 (46,4%) 153 Masculino 82 (53,6%) Doença que obrigue a “alimentação especial”? Não 131 (85,6%) 153 Sim 22 (14,4%) Qual? Diabetes 9 (5,9%) 22 Doença Celíaca 3 (2,0%) Hipercolesterolemia 2 (1,3%) Outras 8 (5,2%)
FCUP / FCNAUP Excesso de peso e obesidade infantil: Influência das aptidões culinárias em contexto familiar 24 Tabela 6 - Classificação do IMC das crianças/adolescentes – Santa Maria da Feira, 2015 3.3 Caracterização da família das crianças/adolescentes A maioria (74,7%) das famílias das crianças/adolescentes que integraram a investigação era do tipo “Tradicional” (2 Progenitores + Filhos) e constituída por 4 elementos. De notar que 17,1% das crianças/adolescentes pertenciam a uma família do tipo “Monoparental” (1 dos Progenitores + Filhos) e apenas 8,2% das famílias analisadas eram do tipo “Extensas” (Progenitores + Filhos + Outros membros da família). A constituição do agregado familiar também foi avaliada no sentido de perceber quais os grupos etários que fazem parte da família, e verificou-se que 92,0% das famílias são constituídas apenas por adultos e crianças/adolescentes, sem a presença de idosos no ambiente familiar – ver tabela 7. Tabela 7 - Caracterização da família das crianças/adolescentes – Santa Maria da Feira, 2015 Variável Categoria Frequência n (%) n total Tipo de agregado familiar Tradicional 109 (74,7%) 146 Monoparental 25 (17,1%) Extensa 12 (8,2%) Número de elementos do agregado familiar 2 elementos 11 (7,5%) 147 3 elementos 44 (29,9%) 4 elementos 74 (50,3%) 5 elementos 15 (10,2%) 6 ou mais elementos 3 (2,0%) Constituição do agregado familiar Crianças/Adolescentes + Adultos 126 (92,0%) 137 Crianças/Adolescentes + Idosos 4 (2,9%) Crianças/Adolescentes + Adultos + Idosos 7 (5,1%) 3.4 Qualidade alimentar dos pais ou cuidadores Na tabela 8 é possível analisar os resultados relativos às 14 questões adaptadas do questionário PREDIMED. Numa amostra de 153 pais ou cuidadores (para todas questões), foi Categorias de IMC Frequência total n(%) Frequência raparigas n(%) Frequência rapazes n(%) Baixo peso 5 (3,3%) 2 (2,8%) 3 (3,7%) Normal 83 (54,2%) 38 (53,5%) 45 (54,9%) Excesso de peso 39 (25,5%) 23 (32,4%) 16 (19,5%) Obesidade 26 (17,0%) 8 (11,3%) 18 (22,0%) Figura 4 - Classificação do IMC das crianças/ adolescentes, segundo critérios da OMS – Santa Maria da Feira 2015
FCUP / FCNAUP Excesso de peso e obesidade infantil: Influência das aptidões culinárias em contexto familiar 31 inquiridos também concordam totalmente em como são capazes de fazer gratinados. A afirmação que apresentou um grau de concordância médio mais elevado (5,73) foi “eu sou capaz de fazer sopa” com 85,0% da amostra a selecionar a opção 6 (concordo totalmente). A maior parte dos pais ou cuidadores também se sentem totalmente capazes de fazer um molho ou um bolo, havendo 59,5% e 70,6% dos inquiridos (respetivamente) a concordar totalmente com essas afirmações (grau de concordância 6). No que diz respeito à capacidade de fazer pão as respostas já são mais distribuídas, e a respetiva afirmação apresenta o grau de concordância médio mais baixo (3,35) uma vez que, pelo contrário, a resposta mais frequente (32,0%) recai sobre a opção 1 (Discordo totalmente). Para cada indivíduo foi calculada a média do grau de concordância em relação às 7 afirmações, que corresponde às suas capacidades culinárias. Esta variável apresentou uma média de 4,95 e um desvio padrão de 1,00. 3.6 Preparação das refeições para as crianças/adolescentes Em relação à preparação das refeições para as crianças/adolescentes por parte dos pais ou cuidadores, verifica-se que a maioria (95,4%) tem responsabilidade pela preparação de “todas ou quase todas as refeições da criança”, sendo o Jantar a refeição mais frequentemente preparada (91,2%), seguindo-se o Pequeno-Almoço (85,7%), as Refeições Intermédias (48,3%) e por fim o Almoço, sendo a refeição preparada pelos pais ou cuidadores com menor frequência (38,8%). Apenas 7 participantes revelaram não ter a responsabilidade para preparar as refeições da criança que acompanhou à consulta porque há outra pessoa que tem essa responsabilidade ou porque não têm tempo nem disponibilidade para essa preparação – ver tabela 12. Para ser possível avaliar o padrão diário de preparação das refeições pelos pais ou cuidadores avaliou-se a combinação das refeições preparadas por cada um dos pais ou cuidadores e verificou-se que a combinação “Pequeno-almoço (P) e Jantar (J)” é a mais frequente (29%), seguindo-se o “Pequeno-almoço, Refeições intermédias (I) e Jantar” (20%), a combinação “Pequeno-almoço, Refeições intermédias, Almoço (A) e Jantar” (19%) e “Pequeno-almoço, Almoço e Jantar” (11%) – ver figura 6. Estes resultados vão ao encontro dos apresentados na tabela 18 uma vez que o Pequeno-almoço e Jantar são as refeições mais frequentemente preparadas pelos pais ou cuidadores. Para avaliação da frequência de preparação das principais refeições pelos pais ou cuidadores para as crianças/adolescentes analisaram-se as diferentes combinações, mas apenas foram consideradas as refeições principais: Pequeno-Almoço, Almoço e Jantar – os resultados são apresentados na tabela 13. Verifica-se que a maioria dos inquiridos (56,8%) prepara 2 refeições principais por dia às crianças/adolescentes que acompanharam,
FCUP / FCNAUP Excesso de peso e obesidade infantil: Influência das aptidões culinárias em contexto familiar 32 30,1% é responsável pela preparação de 3 destas refeições e 13,0% prepara apenas uma das refeições principais (Pequeno-Almoço ou Almoço ou Jantar). Tabela 12 - Preparação das refeições para as crianças/adolescentes por parte dos pais ou cuidadores – Santa Maria da Feira, 2015 Questão Opções de Resposta Frequência n (%) n total É responsável pela preparação das refeições da criança que acompanha? Sim, de todas ou algumas refeições 146 (95,4%) 152 Não 7 (4,6%) Porque: Há outra pessoa que tem essa responsabilidade 5 (71,4%) 7 Não tenho tempo/disponibilidade 3 (42,9%) Outros motivos 0 Quais as refeições que prepara/cozinha para a criança que acompanha? (pode assinalar mais do que uma resposta) Pequeno-almoço 126 (85,7%) 147 Refeições intermédias 71 (48,3%) Almoço 57 (38,8%) Jantar 134 (91,2%) Legenda: P – Pequeno-almoço; I – Refeições Intermédias; A – Almoço; J – Jantar Tabela 13 - Frequência de preparação das principais refeições pelos pais ou cuidadores para as crianças/adolescentes - Santa Maria da Feira, 2015 Variável Categorias Frequência n (%) n total Refeições principais preparadas pelos pais ou cuidadores para as crianças/adolescentes 1 Refeição 19 (13,0%) 146 2 Refeições 83 (56,8%) 3 Refeições 44 (30,1%) Figura 6 - Combinação das refeições que os pais/cuidadores preparam para as crianças/ adolescentes – Santa Maria da Feira, 2015
FCUP / FCNAUP Excesso de peso e obesidade infantil: Influência das aptidões culinárias em contexto familiar 33 3.7 Influência de diferentes variáveis no IMC das crianças/adolescentes Para avaliar o efeito de algumas variáveis no risco de desenvolvimento de excesso de peso e obesidade, foram excluídos da análise os pais ou cuidadores que referiram não ter qualquer responsabilidade na preparação das refeições para as crianças/adolescentes. Desta forma a amostra analisada foi de 146 indivíduos com influência direta na preparação das refeições. Na tabela 14 verifica-se que a relação entre as variáveis “IMC dos pais ou cuidadores” e “Percentil de IMC das crianças/adolescentes” foi satisfatória (0,25 – 0,5050) mas estatisticamente significativa, apresentando um coeficiente de correlação igual a 0,28. Existe uma tendência para que os pais ou cuidadores com um IMC elevado, sejam responsáveis por crianças ou adolescentes cujo IMC também é mais elevado. O mesmo se verificou entre as variáveis “Pontuação total do questionário PREDIMED” e “Aptidões culinárias – escala de Hartmann e colaboradores”, que apresentaram um coeficiente de correlação fraco (<0,2550) mas estatisticamente significativo existindo, por isso, uma ligeira tendência para que uma melhor adesão ao padrão mediterrânico esteja relacionada com melhores aptidões culinárias. Tabela 14 – Associação (correlação de Spearman (p)) entre as principais variáveis em estudo Variável Aptidões culinárias – escala de Hartmann e colaboradores IMC (pais ou cuidadores) Percentil IMC (crianças/adolescentes) Pontuação total do questionário PREDIMED 0,17* - 0,04 0,05 Aptidões culinárias – escala de Hartmann e colaboradores 1 0,07 0,02 IMC (pais ou cuidadores) 1 0,28* * Valor de prova<0,05 Verificou-se também que o efeito independente das variáveis “IMC dos pais ou cuidadores” e “Sexo dos pais ou cuidadores” foi estatisticamente significativo para o risco de desenvolvimento de excesso de peso e obesidade – ver tabela 15. Relativamente ao IMC dos pais ou cuidadores reforçam-se as evidências apresentadas na tabela 14, uma vez que as crianças/adolescentes com pais ou cuidadores com um IMC elevado têm 1,12 vezes maior risco de desenvolvimento de excesso de peso ou obesidade. No que diz respeito ao sexo dos pais ou cuidadores, existem evidências estatísticas de que as crianças/adolescentes com pais ou cuidadores do sexo
FCUP / FCNAUP Excesso de peso e obesidade infantil: Influência das aptidões culinárias em contexto familiar 34 masculino têm 5,85 vezes maior risco de desenvolver excesso de peso ou obesidade relativamente aos pais ou cuidadores do sexo feminino. Recorrendo a um modelo ajustado a todas as variáveis em análise, verifica-se que a relação das variáveis analisadas anteriormente com o risco de desenvolvimento de excesso de peso e obesidade das crianças/adolescentes, se mantém estatisticamente significativa. O potencial de risco manteve-se inalterado no caso do “IMC dos pais ou cuidadores”, mas aumentou para 19,71 no que concerne à variável “Sexo dos pais ou cuidadores”. Neste modelo ajustado a variável “Frequência de preparação das principais refeições” pelos pais ou cuidadores também se tornou estatisticamente significativa. Assim sendo, verificou-se que as crianças/adolescentes de pais ou cuidadores que preparam apenas 2 refeições principais diariamente têm um maior risco de desenvolvimento de obesidade relativamente a pais ou cuidadores que preparam as três principais refeições diárias. O modelo utilizado apresentou um R2 de Nagelkerke igual a 0,31, o que significa que 31% dos resultados obtidos relativamente ao risco de desenvolvimento de excesso de peso e obesidade das crianças/adolescentes são identificados pelo modelo.
FCUP / FCNAUP Excesso de peso e obesidade infantil: Influência das aptidões culinárias em contexto familiar 35 Tabela 15 - Caracterização do risco de desenvolvimento de excesso de peso e obesidade nas crianças/adolescentes – Santa Maria da Feira, 2015 Variável Exp(B) bruto (IC a 95%) Exp(B) ajustado para todas as variáveis (IC a 95%) Pontuação total do questionário PREDIMED 1,05 (0,84 – 1,30) 1,40 (0,99 – 1,97) Aptidões culinárias – escala de Hartmann e colaboradores 0,95 (0,67 – 1,36) 0,85 (0,50 – 1,46) IMC (pais ou cuidadores) 1,12 (1,03 – 1,22)* 1,12 (1,01 – 1,25)* Idade (pais ou cuidadores) 0,97 (0,92 – 1,02) 0,94 (0,87 – 1,01) Sexo (pais ou cuidadores) Feminino (Ref.) Masculino 5,85 (1,57 – 21,74)* 19,71 (2,96 – 131,44)* Rendimento familiar líquido mensal Inferior a 500€ (Ref.) Entre 501 e 1000€ 0,90 (0,35 – 2,33) 0,97 (0,24 – 3,95) Entre 1001 e 1500€ 0,78 (0,27 – 2,26) 0,84 (0,16 – 4,33) Superior a 1500€ 1,49 (0,45 – 4,96) 1,38 (0,21 – 8,98) Tipo de agregado familiar Tradicional (Ref.) Monoparental 1,03 (0,41 – 2,57) 1,17 (0,30 – 4,60) Extenso 2,35 (0,65 – 8,52) 3,41 (0,61 – 19,1) Situação profissional Sem emprego (Ref.) Empregado 0,90 (0,44 – 1,84) 0,49 (0,14 – 1,63) Frequência de preparação das principais refeições (P, A, J) 3 Refeições (Ref.) 2 Refeições 0,50 (0,16 – 1,55) 0,14 (0,02 – 0,88)* 1 Refeição 0,54 (0,26 – 1,15) 0,42 (0,16 – 1,10) * Valor de prova <0,05 Legenda: Exp(B) – Exponencial do coeficiente beta; IC – intervalo de confiança; Ref. – categoria de referência; P – Pequenoalmoço; I – Refeições Intermédias; A – Almoço; J – Jantar
FCUP / FCNAUP Excesso de peso e obesidade infantil: Influência das aptidões culinárias em contexto familiar 36
FCUP / FCNAUP Excesso de peso e obesidade infantil: Influência das aptidões culinárias em contexto familiar 37 Capítulo 4: Discussão Para uma análise correta dos resultados desta investigação é necessário ter em conta algumas limitações. Uma delas foi a amostra reduzida e não representativa, uma vez que os participantes foram selecionados por conveniência e em meio hospitalar. Um outro fator limitante foi o facto de o questionário ser aplicado de forma direta pelos participantes, o que levou a algumas situações de incompreensão, preenchimento incompleto e desistência, no entanto, uma vez que a recolha de dados foi realizada por uma pessoa apenas, este método permitiu a participação de um maior número de pais ou cuidadores de crianças/adolescentes em comparação com a recolha indireta de dados. Para além disso, o facto de se avaliar a adesão ao padrão mediterrânico, as aptidões e práticas culinárias através do autorrelato e não através da observação real destes parâmetros, poderá também ser uma fonte de erro. Uma vez que o questionário avaliava a alimentação dos pais (ou cuidadores) bem como a sua influência na alimentação dos seus filhos/das suas crianças, e apesar de ser referido que o questionário era anónimo, confidencial e de participação voluntária, um dos problemas da sua aplicação poderá ter sido a resposta “socialmente aceitável” que influenciou os resultados obtidos em várias questões. No que diz respeito ao tema da obesidade infantil, verificou-se que a prevalência de excesso de peso e obesidade na amostra de crianças avaliada, se assemelha ao panorama nacional4 existindo 25,5% de crianças/adolescentes com excesso de peso e 17,0% com obesidade. Uma vez que, para a consulta de Pediatria as crianças/adolescentes eram obrigatoriamente pesadas e medidas, uma das limitações foi que o cálculo do IMC se tornou mais prático como forma de avaliação do estado nutricional das crianças/adolescentes e outras medidas de avaliação do estado nutricional foram impossíveis de utilizar. No entanto, para futuras investigações seria interessante avaliar outros parâmetros antropométricos de avaliação como o PC e RPCE, uma vez que poderão avaliar de uma forma mais correta o risco de desenvolvimento de patologias relacionadas com a obesidade7. Já foi referido anteriormente que as mulheres da família, principalmente as mães, são uma das principais influências na alimentação dos filhos25, e estes resultados também vão ao encontro dessa tendência uma vez que 87,6% da amostra é do sexo feminino, sendo 81,7% Mães responsáveis pela preparação das refeições das crianças/adolescentes. É necessário ter em
FCUP / FCNAUP Excesso de peso e obesidade infantil: Influência das aptidões culinárias em contexto familiar 38 conta que este desequilíbrio pode influenciar e enviesar os resultados, nomeadamente relativamente às práticas culinárias e preparação das refeições. A maioria dos pais ou cuidadores afirmaram ser responsáveis pela preparação das refeições das crianças/adolescentes, sendo o Jantar a refeição mais frequentemente preparada. Este resultado pode estar relacionado com o facto de atualmente, devido a um estilo de vida moderno caracterizado, por exemplo, pelas refeições realizadas fora de casa ou take away29,51, a falta de tempo para a preparação de refeições21,29, e pela presença das mães no mercado de trabalho28, o Jantar ser a principal refeição realizada em família no final de um dia de trabalho/escola em que poderá haver mais tempo e disponibilidade para a sua preparação. É de realçar também que uma outra possível fonte de erro nesta investigação poderá ser o facto de os pais ou cuidadores considerarem que têm responsabilidade na preparação das refeições das crianças/adolescentes mas na realidade não serem os principais influenciadores da sua alimentação. Nesta investigação verificou-se que apenas 14% da amostra apresentou uma boa adesão ao padrão mediterrânico, portanto é possível afirmar que a maioria dos pais ou cuidadores (86%) apresentou um padrão alimentar de baixa qualidade devido à presença de hábitos alimentares considerados pouco saudáveis e que não coincidem com as características da alimentação mediterrânica. No entanto, para análise destes resultados é necessário ter em conta que este questionário foi adaptado, nomeadamente nas questões 5, 6 e 7 e respetivas pontuações, e que por isso poderá não espelhar os resultados que seriam obtidos através do questionário original. A escala utilizada para avaliar as aptidões culinárias dos pais ou cuidadores, é independente do contexto cultural em que a amostra está inserida de forma a ser uma ferramenta adequada para toda a população europeia. Assim sendo poderá não ser a melhor ferramenta para uma análise mais pormenorizada da habilidade para a preparação diferentes alimentos, técnicas culinárias e pratos típicos mais relacionados com a cultura portuguesa e/ou mediterrânica. Apesar destas limitações, quando se avaliou a relação da pontuação total obtida no questionário PREDIMED com as aptidões culinárias dos pais/cuidadores, verificou-se uma ligeira tendência para que uma melhor adesão ao padrão mediterrânico esteja relacionada com melhores aptidões culinárias dos pais ou cuidadores, no entanto sem qualquer relação significativa com o percentil de IMC das crianças/adolescentes. Esta associação positiva entre qualidade alimentar e aptidões culinárias também tem vindo a ser identificada noutros estudos. Hartmann e colaboradores verificaram que mulheres com melhores aptidões culinárias consomem mais hortícolas do que mulheres com menores aptidões culinárias43. Numa outra investigação com jovens adultos, verificou-se também que aqueles que estavam mais envolvidos na preparação das refeições atingiam mais frequentemente as recomendações alimentares (nomeadamente para o consumo
FCUP / FCNAUP Excesso de peso e obesidade infantil: Influência das aptidões culinárias em contexto familiar 39 de fruta, vegetais e cálcio)51. Esta relação poderá ser explicada pelo facto de, com melhores aptidões culinárias, ser possível a preparação de uma maior variedade de pratos e alimentos aumentando assim as escolhas alimentares e a variedade alimentar. Da mesma forma, seria de esperar que o consumo mais frequente de produtos de conveniência e pré preparados no presente estudo estivesse relacionado com menores aptidões culinárias por parte dos pais ou cuidadores, uma vez que exigem menor esforço e prática culinária43, mas tal relação não se verificou uma vez que a maioria dos pais ou cuidadores afirmou cozinhar com base em ingredientes básicos. O risco de desenvolvimento de excesso de peso e obesidade nas crianças/adolescentes está positivamente relacionado com o IMC dos pais ou cuidadores. Este resultado está em conformidade com vários estudos que indicam que a obesidade dos pais aumenta o risco de desenvolvimento de obesidade na infância20,52–54. O efeito do sexo dos pais ou cuidadores também parece influenciar o risco de desenvolvimento de excesso de peso e obesidade, uma vez que os pais ou cuidadores do sexo masculino estão associados a crianças/adolescentes com um IMC mais elevado. A razão para este facto não é clara, no entanto, parece ter surgido alguma evidência recente que indica que as crianças cuja Mãe apresenta um peso saudável, têm um risco substancialmente mais elevado de se tornarem obesas caso o Pai tenha excesso de peso ou obesidade, quando o contrário já não se verifica. Portanto, apesar da investigação incidir com maior frequência sobre a influência das Mães no estilo de vida e alimentação das suas crianças, os Pais também desempenham um papel importante no seu estilo de vida55. Para além disso, atualmente (porque as mulheres trabalham a tempo inteiro como não acontecia antigamente, por exemplo), os homens cada vez estão mais envolvidos nas tarefas domésticas relacionadas com a preparação das refeições e por isso devem ser considerados quando se pretende criar planos de intervenção nutricional56, como é o caso do combate à obesidade infantil. Quando se recorre ao modelo ajustado, a frequência de preparação das principais refeições também parece influenciar o IMC das crianças/adolescentes, uma vez que a preparação de 2 refeições principais está associada a um maior risco de desenvolvimento de excesso de peso e obesidade em comparação com a preparação de 3 refeições principais diariamente. O tempo que os pais passam a trabalhar (especialmente as mães), poderá ser um fator que explique a diminuição no número de refeições preparadas em casa. Existem estudos que demonstram que as mães empregadas passam menos tempo a cozinhar, a partilhar as refeições e a brincar com os seus filhos, e são mais propensas a comprar as refeições já preparadas. Este facto pode também levar a que as crianças/adolescentes façam mais refeições fora de casa57. Por sua vez estas refeições são um fator determinante da ingestão alimentar e do risco de desenvolvimento de
FCUP / FCNAUP Excesso de peso e obesidade infantil: Influência das aptidões culinárias em contexto familiar 40 obesidade uma vez que este padrão alimentar está associado a uma menor qualidade alimentar58, no entanto o consumo alimentar fora de casa não foi avaliado nesta investigação. Esta relação não foi estatisticamente significativa relativamente à preparação de apenas 1 refeição principal por dia, talvez porque o número de indivíduos dentro desta categoria era menor não sendo possível observar tal efeito. Apesar de todas as limitações apresentadas, penso que esta investigação foi inovadora devido ao facto de não existirem outros estudos que procuraram relacionar o impacto das aptidões culinárias em contexto familiar no risco de desenvolvimento de excesso de peso e obesidade na infância, nomeadamente em Portugal. É importante continuar a investigar nesta área no sentido de procurar as melhores estratégias de prevenção da obesidade infantil e promoção da saúde através de um estilo de vida e de hábitos alimentares saudáveis.
FCUP / FCNAUP Excesso de peso e obesidade infantil: Influência das aptidões culinárias em contexto familiar 47 Anexo A: Questionário
FCUP / FCNAUP Excesso de peso e obesidade infantil: Influência das aptidões culinárias em contexto familiar 48
FCUP / FCNAUP Excesso de peso e obesidade infantil: Influência das aptidões culinárias em contexto familiar 49
FCUP / FCNAUP Excesso de peso e obesidade infantil: Influência das aptidões culinárias em contexto familiar 50
FCUP / FCNAUP Excesso de peso e obesidade infantil: Influência das aptidões culinárias em contexto familiar 51
FCUP / FCNAUP Excesso de peso e obesidade infantil: Influência das aptidões culinárias em contexto familiar 52
FCUP / FCNAUP Excesso de peso e obesidade infantil: Influência das aptidões culinárias em contexto familiar 53