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A ilusão da classe média: a nova pobreza em emergência?

Patrícia Mota Moreira

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Patrícia Mota Moreira A ILUSÃO DA CLASSE MÉDIA: NOVA POBREZA EM EMERGÊNCIA? Relatório de estágio realizado no âmbito do Mestrado em sociologia, orientado pela Professora Doutora Dulce Magalhães Faculdade de Letras da Universidade do Porto Setembro de 2015 II Sumário Agradecimentos………………………………………………………………………IV Resumo ………………………………………………………………………………VI Abstract ………………………………………………………………………………VIII Résumé………………………………………………………………………………..X Índice de tabelas e gráficos…………………………………………………………...XII Lista de abreviaturas………………………………………………………………….XIV Introdução ..................................................................................................................................... 1 Capítulo IConceitos orientadores ................................................................................................ 3 1.1)A crise, a globalização e o (des)emprego ......................................................................... 3 1.2) Pobreza e exclusão social ................................................................................................. 6 1.3) Classe média ..................................................................................................................... 9 1.4) Rendimento Social de Inserção ..................................................................................... 13 1.4.1. Etiquetagem e estigma em torno do beneficiário.................................................. 16 Capítulo IIOrganização acolhedora, metodologia e atividades realizadas ................................ 20 2.1) Organização acolhedora ................................................................................................ 20 2.1.1) Rendimento Social de Inserção .............................................................................. 20 2.2) Objeto empírico .............................................................................................................. 23 2.3) Metodologia .................................................................................................................... 24 2.4) Objetivos do estágio ....................................................................................................... 27 2.5) Atividades desenvolvidas no estágio ............................................................................. 27 Capítulo IIIAnálise da informação recolhida ............................................................................ 29 3.1) Entrevistas à equipa técnica: representações sobre os beneficiários ......................... 29 3.2) Observação direta a beneficiários ................................................................................ 37 3.3) Entrevistas aos beneficiários em estudo ....................................................................... 39 3.4) Cruzamento de todos os dados recolhidos ................................................................... 50 3.5) Perfil-tipo dos beneficiários .......................................................................................... 54 Conclusão .................................................................................................................................... 57 Referências bibliográficas ........................................................................................................... 61 Anexos......................................................................................................................................... 65 Anexo 1Grelha de observação ............................................................................................ 67 Anexo 2Guião de entrevista a beneficiários ...................................................................... 68 Anexo 3Guião de entrevista a técnicos .............................................................................. 71 Anexo 4Consentimento informado .................................................................................... 72 Anexo 5Análise horizontal da entrevista aos beneficiários ............................................. 73 III Anexo 6Análise vertical das entrevistas aos beneficiários ............................................... 85 Anexo 7Análise horizontal das entrevistas aos técnicos .................................................. 89 Anexo 8Análise vertical das entrevistas aos técnicos ....................................................... 99 IV Agradecimentos Gostaria de agradecer a todos aqueles que de uma forma ou de outra contribuíram para a concretização deste trabalho. A começar por todos os professores do departamento de sociologia que me ajudaram em todo o percurso, tanto no esclarecimento de dúvidas como na decisão de qual o melhor rumo a tomar. À Professora Doutora Dulce Magalhães por ter tornado possível a concretização deste relatório. Agradecer toda a disponibilidade, conselhos, críticas e sugestões que enriqueceram o trabalho. Agradeço ao Centro Social de Soutelo por toda a disponibilidade e acolhimento. A todos os elementos da equipa técnica do protocolo do Rendimento Social de Inserção que sempre ajudaram e motivaram à realização do relatório. Foram um enorme contributo e aumentaram o incentivo e gosto pela temática. Por último, agradecer a toda a minha família e amigos que sempre me auxiliaram e motivaram nos momentos mais complicados. Sem esquecer ainda todos os companheiros de turma que tornaram este percurso mais fácil. V VI Resumo A temática da emergência da nova pobreza afeta sobretudo os indivíduos que se inserem na classe média. Tendo em conta a atual conjuntura económica e todas as mudanças que lhe estão subjacentes, torna-se relevante analisar de que modo esta afeta um determinado conjunto de pessoas que até há pouco tempo tinham uma situação financeira relativamente estável e uma inserção profissional satisfatória e que de um momento para o outro se encontram no limiar da pobreza. A investigação foi realizada no Centro Social de Soutelo, sendo direcionada para a área do Rendimento Social de Inserção. Foi um estudo que decorreu durante aproximadamente 3 meses durante o estágio curricular. Assim, procurou-se perceber as perspetivas que os beneficiários têm sobre o modo como a crise os afetou, afeta e irá afetar a sua vida, quais as suas autorrepresentações e de que forma evoluíram os conceitos de pobreza, exclusão e desigualdade. A metodologia utilizada foi a intensiva, com entrevistas semiestruturadas e observação direta a beneficiários e à equipa técnica da instituição, sendo realizada posteriormente uma análise dos dados recolhidos e consequentemente as suas conclusões. Foi, assim, possível concluir que a atual conjuntura económica afetou estes indivíduos, tanto a nível pessoal, familiar, como social. Existiu uma grande dificuldade em verbalizarem a sua situação de pobreza, tendo declinado o seu lugar na estrutura de classe. Bem como se percebeu que existe uma grande dificuldade em conseguirem reestruturar a sua vida. Palavras-chave: pobreza; exclusão; classe média; desemprego; beneficiários do Rendimento Social de Inserção. VII VIII Abstract The subject of the emergency of the new poverty affects, in its majority, middle class’ individuals. Accounting the economic situation and all the underlying changes, it becomes relevant to analyze in which may it affects a group of people that until recently had a stable financial situation and a satisfying professional integration, and that suddenly find themselves in the poverty line. The investigation took place in the Centro Social de Soutelo, directed towards the Rendimento Social de Inserção area. This present study was held during a three months traineeship. This way, it has been researched the perspectives the beneficiaries have about the way the crisis affected their lives in the past, present and future, what are the selfimages they have, and in which way the poverty, exclusion and inequality concepts evolved. The used methodology was the intensive one, with semi-structured interviews and direct observation of beneficiaries and of the technical team of the institution, being posteriorly done an analysis of the collected data and consequentially its’ conclusions. It was possible to conclude that the current economic crisis has affected the subjects on a personal, familiar and social levels. The study also revealed that a major difficulty for subjects was to speak about their current situation of poverty and how it affects negatively their social status, finding synonyms in order to overcome their issues. It was also noticed by the study that the subjects find a great dificulty rebuilding their personal lives. Keywords: poverty; exclusion; middle class; unemployment; Rendimento Social de Inserção beneficiaries; XV 1 Introdução Portugal tem vindo a sofrer várias mudanças; passou de um país rural para um país predominantemente industrial e, posteriormente, para um país do terceiro sector. A estrutura familiar também se tem vindo a modificar, pois a família nuclear já não é a única forma de organização familiar; existem cada vez mais famílias recompostas e os casamentos religiosos têm diminuído ao mesmo tempo que o número de divórcios tem aumentado. A globalização contribuiu para todas estas mudanças, tanto a nível familiar, a nível da forma de interação entre os indivíduos, como ao nível do emprego, tornando-se este último cada vez mais escasso, temporário e precário. Devido à crise vivenciada a nível nacional e paralelamente ao desenvolvimento constante de novas tecnologias, o desemprego tem vindo a aumentar de forma exponencial. Trata-se de um desemprego que não inclui apenas os grupos mais vulneráveis da sociedade, mas também os grupos sociais que tinham uma inserção profissional consolidada e que de um momento para o outro o viram posto em causa, afetando ainda os jovens e com particular incidência, os qualificados. O presente relatório de estágio tem como objeto de estudo famílias que possuíam um emprego ou negócio próprio mas que devido à crise vivenciada atualmente se encontram neste momento numa situação de fragilidade financeira e que por esse motivo tiveram que recorrer ao apoio do Estado. Tem como objetivo perceber de que forma a atual conjuntura económica afetou estes agregados familiares, bem como entender a sua posição sobre a situação que vivenciam. Para tal, o estágio foi realizado no Centro Social de Soutelo, na valência do Rendimento Social de Inserção (RSI). Foi um estágio curricular de 500 horas onde foram desempenhadas variadas tarefas com os técnicos da instituição. Foi também o local onde se realizaram as entrevistas semiestrtuturadas aos técnicos, de modo a entender a perspetiva daqueles que lidam com este género de famílias diariamente; entrevistas semiestruturadas aos beneficiários de forma a perceber a perspetiva que cada um tem da sua situação; e por último, foi realizada a observação direta aos beneficiários nas entrevistas e atendimentos concretizados. Sendo que depois de toda a metodologia aplicada, procedeu-se à análise de todos os dados obtidos. 2 Em termos organizativos, o relatório encontra-se dividido em três capítulos: conceitos orientadores; organização acolhedora, metodologia e atividades; análise dos dados obtidos. No primeiro capítulo são tratados os assuntos da globalização e do desemprego em Portugal, como forma introdutória; as perspetivas sociológicas sobre a pobreza e exclusão social; a classe média e as suas perspetivas sociológicas; em que consiste o RSI e os tipos de beneficiários existentes, bem como o estigma existente em torno dos beneficiários. No segundo capítulo é dada enfase à organização acolhedora do estágio; à caraterização da equipa e das atividades desenvolvidas no mesmo; à caraterização do objeto empírico; e à metodologia utilizada. Por último, é apresentada a análise dos dados recolhidos que se encontra dividida nos seguintes setores: análise dos dados obtidos nas entrevistas à equipa técnica; dados obtidos nas observações; análise das entrevistas aos beneficiários; e por último é feito o cruzamento de todos os dados de forma a obter as principais conclusões. Por fim, o relatório termina com as conclusões principais obtidas após toda a investigação. São apresentadas ainda em anexo todas as grelhas e guiões referentes às atividades desenvolvidas ao longo da investigação e da recolha dos dados, nomeadamente: grelha de observação; guião de entrevista a beneficiários; guião de entrevista a técnicos; grelhas de análise das entrevistas. 3 Capítulo IConceitos orientadores 1.1) A crise, a globalização e o (des)emprego Portugal caracteriza-se por ter sido no passado, um país essencialmente agrícola, onde grande parte da população vivia no interior, com uma escolaridade bastante baixa. A partir da década de 60 do séc. XX, com a injeção de capital no setor secundário, implantada no litoral norte e centro-sul, a população começou a procurar melhores condições de vida e a deslocar-se para o litoral, principalmente para os grandes centros urbanos, Porto e Lisboa (Ferrão, 1987). O que teve consequências, uma vez que, segundo João Ferrão, deu-se uma decomposição da ruralidade, pois “O processo de «modernização» ocorrido durante estas três décadas contribuiu para a desagregação da(s) ruralidade(s) até então dominante(s), favorecendo o desenvolvimento urbano e suburbano, no país, e a expansão de actividades intensivas em mão-de-obra desqualificada, no estrangeiro” (Barreto, 1996: 165). Como refere Elísio Estanque “De uma sociedade predominantemente rural, passamos, em escassas dezenas de anos, para uma sociedade de serviços, e isso, naturalmente, fez-se sentir na estrutura das classes, culminando numa generalizada terceirização” (Estanque, 2013:173). É necessário referir que ao nível familiar existiram também várias mudanças que Firmino da Costa refere como “mutações familiares”. A baixa taxa de natalidade, a diminuição do número de casamentos católicos e o aumento do número de divórcios demonstram que, de facto, se estava perante uma recomposição familiar. Assim como o facto de os indivíduos se casarem cada vez mais tarde como consequência do aumento do percurso escolar e do prolongamento cada vez mais tardio na idade ativa, demonstram que a sociedade estava a tornar-se cada vez menos tradicional. A entrada da mulher no mercado de trabalho é também um factor decisivo para o culminar de todas as mudanças que foram decorrendo na sociedade portuguesa (Viegas: 1998). José Reis afirma que nos últimos 50 anos em Portugal, existiram três factores que conduziram o país à situação em que se encontra atualmente. Em primeiro lugar, a industrialização, associada aos «anos dourados», foi uma fase onde Portugal cresceu de forma bastante intensiva, com uma forte industrialização (Reis, 2011). Contudo, não existiu um aumento do mercado de trabalho nem das qualificações da população, tendo assim como consequência a separação entre economia e sociedade. O segundo fator consiste na emigração, pois embora fossem os anos dourados, o crescimento não foi gerador de emprego, obrigando a 4 que os indivíduos procurassem emprego fora do seu país. Por último, a internacionalização da economia e das capacidades produtivas, isto é, a exportação da mão-de-obra, ficando assim o bem-estar interno bloqueado (Reis, 2011). Todos os fatores aludidos, como a deslocação para os centros urbanos, a recomposição familiar, a industrialização, a emigração e a internacionalização da economia levaram ao estado atual do país, pois segundo o mesmo autor, “Todos estes ingredientes se verificam na actual crise: a crise de crédito do subprime nos Estados Unidos em 2007, as falências – efectivas ou evitadas in extremis pelas autoridadesde instituições financeiras, a bolha especulativa do petróleo e produtos alimentares na primeira parte de 2008, acompanhada por uma forte apreciação do euro em relação ao dólar enquanto moeda de refúgio (…) as crises financeiras actuais amplificam-se muito mais do que no passado em virtude da globalização dos mercados financeiros que se processou desde os anos oitenta e do desenvolvimento dos mercados de derivados.” (Ibidem: 76). Com o início do novo milénio, começaram a sentir-se os primeiros efeitos da globalização que vieram trazer aos países a possibilidade de diminuir entre si a distância e o tempo. O longe tornou-se perto e o demorado, rápido como considera Giddens: “Em relação ao passado, o mundo em que vivemos hoje em dia tornou-nos muito mais interdependentes das outas pessoas, ainda que estas estejam a milhares de quilómetros de distância. Estas relações entre local e global são bastante recentes em termos de história humana, tendo-se acelerado nos últimos trinta ou quarenta anos, em resultado dos progressos dramáticos no campo da comunicação, da tecnologia de informação e dos transportes.” (Giddens, 2010: 51). A globalização teve consequências a todos os níveis, desde o social ao económico, passando pelo mercado de trabalho. Com a introdução das novas tecnologias, as relações modificaram-se, bem como o trabalho, que passou a ser mais precário e fez diminuir o número de trabalhadores, gerando desemprego. Neste contexto, Beck considera que “O comércio global e as novas tecnologias tiveram um profundo impacto nas comunidades que assentavam na manufactura tradicional; muitos trabalhadores industriais ficaram sem emprego e sem o tipo de aptidões necessárias para fazer parte da nova economia baseada na informação (…) Os padrões tradicionais de trabalho a tempo inteiro estão a desfazer-se perante esquemas mais flexíveis (…)” (Cit. por Giddens, 2010: 62-63). Portugal encontra-se assim num panorama de recessão, com valores bastante elevados no que ao desemprego e desigualdades diz respeito e consequentemente “(…) acentuando-se a 5 erosão de uma economia cada vez menos civilizada, cada vez mais desligada das pessoas, da vida comum e de um sentido de progresso colectivo.” (Reis, 2011: 12). Então, o trabalho está associado a questões de incerteza, relações de poder desiguais e à noção de que o trabalhador é descartável e que pode ser substituído com a maior das facilidades. O emprego é a principal fonte de rendimento de uma sociedade, daí ser um conceito tão central no que se refere à pobreza, pois é através do emprego que o indivíduo se insere (ou não) na estrutura social. Como refere Fernando Diogo, “(…) o trabalho é um dos mais significativos, se não mesmo o mais significativo, elemento definidor da posição do indivíduo na sociedade e, consequentemente, tem uma grande importância na identidade social.” (Diogo, 2007: 37). Consequentemente, o facto de se ter um emprego possibilita a aquisição de um padrão de vida e uma possível mobilidade social, como afirma Estanque: “Se o problema das desigualdades e da mobilidade social se liga directamente ao mundo laboral e ao mercado de trabalho, é necessário ter presente as transformações em curso neste campo (…) Os processos de mudança e fragmentação do trabalho ao longo dos últimos 20 anos incidiram tanto no sector privado como no público, desafiando os anteriores modelos e os respectivos mecanismos de diálogo e concertação social em diversos países.” (Estanque, 2009: 7). Fernando Diogo afirma que “O trabalho e o emprego constituem aspectos particularmente significativos no que à identidade social diz respeito, quer pela importância que têm na definição do lugar dos indivíduos na sociedade, quer devido à forma particular como a nossa população alvo se relaciona com a esfera da actividadde social” (Diogo, 2007: 199). Isto porque estar desempregado atualmente, depois de se ter estado a trabalhar grande parte da vida, poderá ser para alguns um tormento, acabando por se tornar numa situação que poderá ter graves consequências na vida dos indivíduos, como por exemplo a exclusão social. O desemprego atual apresenta matrizes diferentes do vivenciado anteriormente, onde os desempregados eram na sua maioria pessoas desqualificadas e grupos vulneráveis como idosos, deficientes e mulheres, como consta Alfredo Costa e que os denomina de “sempre pobres” (Costa, 2008: 132-133). Atualmente o desemprego não afeta apenas estes grupos, afeta também indivíduos com elevadas qualificações certificadas e com empregos bastante qualificados que se foram tornando precários ou foram sendo extintos como consequência da crise vivenciada; Eduardo Rodrigues considera que “A revolução tecnológica trouxe progresso, aumentou as capacidades das pessoas para compreenderem e dominarem o mundo em que vivem, mas trouxe 6 também desemprego e uma enorme precariedade nas relações e vínculos de trabalho.” (Rodrigues, 2010: 32). Segundo Elísio Estanque, com a entrada no novo milénio os direitos laborais e sociais entraram em declínio, “(…) com o consequente aumento da insegurança e do risco, num processo que se vem revelando devastador para a classe trabalhadora à escala internacional e que, sobretudo na Europa, atinge particularmente as classes médias” (Estanque, 2012: 64). Posto isto, é inevitável falar de uma nova camada social que tinha um emprego estável e que foi atingida pelo desemprego, necessitando de ajudas sociais e acabando por se encontrar numa situação de pobreza. 1.2) Pobreza e exclusão social Em cada país, em cada cultura existem grupos desfavorecidos, como afirma António Gomes: “A pobreza existe. Os pobres existem. Por toda a parte. Nos países muito ricos como nos países menos ricos. Nos países capitalistas como nos países socialistas. Nos países industrializados como os países onde predomina a agricultura.” (Gomes, 2002: 17). Contudo o conceito e a noção de pobreza tem-se vindo a modificar ao longo dos tempos. Portanto, a noção de pobreza tem vindo a evoluir e modificar-se, pois os indivíduos que se encontram numa situação de pobreza têm características que se têm vindo a modificar também. Uma situação de pobreza pode ser traduzida em necessidades materiais e em situações existenciais como o psicológico e o social, podendo ser ainda traduzida na falta de liberdade e na habilitação (Costa, 2008: 21-22). A forma de verificar se um indivíduo se encontra numa situação de pobreza pode ser realizada através da observação das suas condições de vida objetivas, considera Estanque, “(…) poderá não constituir o aspecto mais grave da situação, mas sobressai por ser, de modo geral, o aspecto mais directamente observável da pobreza.” (Ibidem: 20). Anthony Giddens, considera que a pobreza pode ser analisada através de duas teorias, por um lado, a teoria da pobreza relativa e por outro, a teoria da pobreza absoluta. A primeira consiste na relação da pobreza com o padrão de vida geral que predomina numa determinada sociedade, onde a pobreza é definida culturalmente e não universalmente. A teoria da pobreza absoluta defende a ideia da subsistência, estando estritamente relacionada com as condições básicas de subsistência que asseguram a existência física saudável (Giddens, 2010: 313). 7 António Gomes considera também que existem esses dois tipos de pobreza, a absoluta e a relativa, contudo vai um pouco mais além e refere ainda a pobreza subjetiva. A pobreza absoluta é aquela que está relacionada com as necessidades elementares, essencialmente as de subsistência física, independentemente dos níveis de desenvolvimento da sociedade em geral. A pobreza relativa é aquela que só pode ser tida em conta em comparação com a realidade da sociedade em geral (Gomes, 2002). Por último, a pobreza subjetiva é aquela em que se tem em conta a opinião dos próprios indivíduos sobre a sua situação “(…) apoia-se exclusivamente no juízo que as pessoas e as famílias fazem sobre a sua própria condição, quer face às suas necessidades e aspirações, quer por comparação com os outros ou com a sociedade em geral” (Ibidem: 21). Então, estar numa situação de pobreza consiste numa privação por falta de recursos, que pode levar à exclusão social, exclusão esta que pode ser económica (insuficiência de recursos e precariedade ou inexistência de emprego) e/ou social, levando assim o indivíduo a sentir-se à margem de uma sociedade onde não possui os valores que nela predominam. Giddens entende por exclusão social “(…) formas pelas quais os indivíduos podem ser afastados do pleno envolvimento na sociedade (…) conjunto mais amplo de factores que impedem que os indivíduos ou grupos tenham oportunidades que estão abertas à maioria da população” (Giddens, 2010: 325). Para o mesmo autor, existem três tipos de exclusão: exclusão económica, que pode ser sentida tanto através da produção como do consumo, onde a inclusão só acontece através do emprego e da participação no mercado; exclusão política, que considera ser uma pedra angular dos estados democráticos liberais no que diz respeito à participação popular; exclusão social, onde os sujeitos passam a ser excluídos por possuírem menos oportunidades de viajar e exercer várias atividades fora do contexto doméstico e passam a ter uma rede social mais limitada, podendo levar ao isolamento (Ibidem: 325-326). Segundo Alfredo Bruto da Costa, a exclusão pode ser sentida a vários níveis: pode ser uma exclusão da sociedade, no domínio económico, institucional, territorial ou de referências identitárias; exclusão do mercado de trabalho, através do capital e de rendimentos; exclusão de bens e serviços e por último, exclusão da educação e formação (Costa, 2008: 64). Para o mesmo autor, a forma de inclusão traduz-se em três formas, “Para a maioria das famílias, a principal fonte de rendimento é o mercado de trabalho. Para outrospor exemplo, os reformados-, o principal recurso financeiro de que dispõem é a pensão de velhice ou invalidez. Para outros, ainda, são os activos (capital). Assim, o mercado de trabalho, o sistema 8 de segurança social e a propriedade (capital) são sistemas geradores de rendimento, que também são, alternativa ou cumulativamente, essenciais à inclusão na sociedade.” (Costa, 2008: 66). Assim, para Alfredo Bruto da Costa, a pobreza diz respeito a níveis e condições de vida que não estão satisfeitos, o que significa que para sair da situação de pobreza é necessário ter acesso a recursos que permitam possuir um determinado padrão de vida (Ibidem: 52). António Gomes afirma que a desigualdade está relacionada com a exclusão, pois “A desigualdade só se converte em pobreza quando se gera a exclusão de alguns cidadãos dos padrões de vida, dos costumes e actividades correntes na sociedade. Essa exclusão exprime-se de diversos modos: escassez de recursos, perda de poder e de participação, carências nos mais variados domínios da vida individual.” (Gomes, 2002: 22). Percebe-se assim que pobreza e exclusão social são conceitos que se cruzam também, pois a exclusão do mercado de trabalho leva à pobreza e esta leva a que o indivíduo fique excluído de diversas dimensões da sua vida, como considera Alfredo Bruto da Costa “(…) não existe pobreza sem exclusão. O contrário porém não é válido. Com efeito, existem formas de exclusão social que não implicam pobreza” (Costa, 2008: 63). Para Pereirinha, “(…) «o conceito de pobreza analisado enquanto situação de escassez de recursos de que um indivíduo, ou família, dispõem para satisfazer necessidades consideradas mínimas, acentua o aspecto distributivo do fenómeno (a forma como os recursos se encontram distribuídos entre os indivíduos e/ou famílias na sociedade). Já o conceito de exclusão social acentua os aspectos relacionais do fenómeno, quando encaramos este conceito enquanto situação de inadequada integração social».” (Cit. por Rodrigues, s/d: 66). Importa ainda referir que a pobreza pode ser dividida em dois setores, por um lado a pobreza temporária, que diz respeito à entrada e saída da pobreza de forma temporária apenas, sendo delimitada no tempo. Por outro, a pobreza duradoura que remete à reprodução social e consequente ciclo da própria produção da pobreza (Dias, 2010: 13). Então a pobreza duradoura pode ser aquela que está relacionada com os indivíduos que já nasceram numa situação estrutural de pobreza e que a família se encontra nesta situação também, estando assim presente uma situação de reprodução de pobreza e de pobreza geracional. Já a pobreza temporária, pode estar relacionada com situações de indivíduos que se encontraram numa situação de pobreza e que nunca a tinham vivenciado e que consideram e esperam que seja uma situação temporária. Desta forma, a pobreza temporária poderá estar 9 relacionada com o conceito de nova pobreza, segundo Gilles Lamarque “(…) a exclusão social não é mais do que o prolongamento do conceito de nova pobreza engendrado no início da década de 1980 para designar todos os indivíduos que são vítimas da crise económica e que estão sujeitos a múltiplas dificuldades resultantes do processo de desqualificação.” (Cit. Por Figueiredo, 2012: 352) Havendo uma evolução do conceito de pobreza, surge um novo conceito derivado das novas características dos sujeitos que dela fazem parte: a nova pobreza. Neste contexto, Eduardo Vítor Rodrigues considera que o conceito de nova pobreza “(…) está directamente relacionada com as reestruturações económicas e tecnológicas e com os seus efeitos no sistema produtivo, expressos nomeadamente no crescimento do desemprego estrutural e na precariedade do emprego” (Rodrigues, s/d: 67). Para o mesmo autor, existem dois tipos de pobreza, a temporária e a duradoura. A primeira diz respeito à entrada e saída da pobreza de forma temporária, sem noção de permanência. A pobreza duradoura consiste na reprodução social e ao processo cíclico da reprodução da pobreza, sendo que o desemprego contribui para a crescente pobreza duradoura (Ibidem: 68). Eduardo Rodrigues, afirma que existem dois tipos de categoriais sociais desfavorecidas, as tradicionais e as novas categorias. As tradicionais consistem nos idosos, camponeses pobres e assalariados com poucas qualificações. As novas categorias de pobreza são várias, nomeadamente: desempregados de longa duração; grupos étnicos e culturais minoritários; famílias monoparentais; pessoas com deficiência; jovens em risco; sem-abrigo; trabalhadores da economia informal; mulheres; jovens à procura do primeiro emprego; indivíduos com doenças crónicas e beneficiários do rendimento mínimo garantido (Ibidem: 71-72). Posto isto, percebe-se que o surgimento da nova pobreza está estritamente relacionado com um novo grupo de indivíduos com determinadas características, que se encontram numa situação de pobreza temporária e se autorrepresentam como situados na classe média. 1.3) Classe média A deslocação para os centros urbanos modificou a vida dos portugueses, não só geograficamente como também a nível do poder de compra e da produção. Como afirma Estanque, “(…) a rápida concentração urbana alterava os grupos de referência e modificava os estilos de vida de milhões de trabalhadores, enquanto os benefícios obtidos por via dos serviços prestados pelo 16 sociedade é constituída. Como afirma o autor, “O beneficiário ideal pode ser encontrado na legislação, nas estatísticas e ainda nas justificações dos programas políticos das leis, designadamente nas quais se projectam em discursos e prólogos à apresentação da legislação” (Diogo, 2007: 32). 1.4.1. Etiquetagem e estigma em torno do beneficiário Antes de mais importa referir que o que atualmente é considerado como desviante da sociedade, até recentemente era visto como algo de prestígio, como é o caso do facto de não trabalhar. Analisando os beneficiários à luz de Fernando Diogo, este considera que os beneficiários se tornam dependentes da medida a nível económico, embora o objetivo do RSI consiste na criação, através da inserção, de apoios que diminuam a dependência, o que significa que, não só devido à sua dependência, mas também a um conjunto de fatores a si associados, os beneficiários são alvo de rótulos, o que tem consequências a nível da construção da identidade (Ibidem). Então, sendo o beneficiário um indivíduo que necessita do apoio do Estado numa situação de maior fragilidade económica, este acaba por ser julgado, pois “(…) à sua identidade para os outros é associado um estigma, que passa pela caracterização como incapazes de autonomia e pela desconfiança na capacidade de desenvolverem esta capacidade de forma independente” (Ibidem: 135). Para além desta situação, o papel do Estado não ajuda os beneficiários na sua imagem perante a sociedade como afirma Fernando Diogo “Alguns responsáveis políticos, ao exemplificarem as categorias sociais a abranger pela medida, mais não fazem do que produzir um efeito paradoxal: ao procurar promover a inserção dos indivíduos na vida social, estigmatizam-nos no plano simbólico” (Ibidem: 135). O autor analisa o beneficiário através do conceito de assistido, baseado nos trabalhos de Paugam e Ogien. Olhar o indivíduo como assistido descentraliza o rótulo e estereótipo com conotação negativa, concentrando-se na relação entre o indivíduo e a sociedade e na existência de uma assistência, passando assim a ser um grupo com uma condição social com reconhecimento por parte da sociedade (Ibidem). Por outro lado, o autor considera que quando um indivíduo se encontra numa situação de pobreza, tem necessidade de pedir apoio para a sua subsistência, apoio este que pode ser a pares, familiares, instituições, ou ao Estado, nomeadamente ao RSI, pelo que Fernando Diogo 17 considera que “Pobres são aqueles que estão em condições de passarem sucessivamente pelo ritual do pedido de apoio, seguido de análise da vida privada (…), reconhecimento do estado de pobreza, receita para reinserção e apoio (…) e acompanhamento na sua intimidade por um técnico” (Diogo, 2007: 29). Esta etiquetagem, perda de privacidade e degradação do seu estatuto perante a sociedade, leva a que a construção da sua própria identidade seja feita de forma negativa, isto é, a autorrepresentação do seu estatuto de pobre e a hétero representação deixam o indivíduo num grau de vulnerabilidade e inferioridade muito elevado. É desta forma que se constrói o estigma associado ao beneficiário do RSI. Goffman considera que existem três tipos de estigma: as abominações do corpo; as culpas de caráter individual e por último, os estigmas tribais de raça, nação e religião (Goffman, 2004), sendo que o estigma ligado ao grupo em estudo diz respeito ao estigma da culpa de caráter individual. Mesmo de forma indireta, ou inconsciente, existe uma hétero avaliação sobre o indivíduo que beneficia do RSI, onde “Construímos uma teoria do estigma; uma ideologia para explicar a sua inferioridade e dar conta do perigo que ela representa, racionalizando algumas vezes uma animosidade baseada em outras diferenças, tais como as de classe social.” (Ibidem: 8). Tendo por base a teoria de Georg Simmel sobre a interação humana, percebe-se que o beneficiário pode ser interpretado como o estrangeiro que Simmel descreve nas suas obras, pois “A posição para com o estrangeiro é, então, construída na base da distanciação e da repulsão.” (Xiberras, 1993: 69). Para Simmel, o estrangeiro é aquele que por ter certas características diferentes é excluído, neste caso pode ser o facto de não ter emprego nem recursos económicos para possuir determinados recursos materiais, o que faz com que seja excluído, julgado e categorizado pela sociedade. Para o autor, esta exclusão está estritamente relacionada com as cidades, pois Simmel associa as cidades ao aumento do individualismo “No caso das metrópoles ocidentais, esta atitude é generalizada: cada um torna-se estrangeiro em relação aos outros.” (Ibidem: 75). Contudo, existe um outro ponto de vista, pois no que se refere à auto avaliação “Parece também possível que um indivíduo não consiga viver de acordo com o que foi efetivamente exigido dele e, ainda assim, permanecer relativamente indiferente ao seu fracasso; isolado por sua alienação, protegido por crenças de identidade próprias, ele sente que é um ser 18 humano completamente normal e que nós é que não somos suficientemente humanos.” (Goffman, 2004: 9). Tudo isto acaba por ter consequências ao nível identitário do beneficiário, bem como na forma como ele se relaciona com o Estado e nas suas interações diárias, pois este acaba por ser capaz de identificar quais as categorias existentes, bem como é capaz de prever e identificar quais as categorias às quais poderá pertencer ou não, “(…) qualquer indivíduo é susceptível de prever a categoria à qual pertence e, da mesma maneira, classificar outro numa categoria. É assim que se pode definir a identidade social.” (Xiberras, 1993: 137). Para Fernando Diogo, existem três formas de tentar resolver a tensão existente na construção de identidades; são então três modelos identitários, isto é, modelos de estratégias identitárias (Diogo, 2007). O primeiro modelo consiste naqueles indivíduos que procuram a sua identificação com os outros, e têm a capacidade de construir uma identidade social estável, pois têm recursos para construir uma identidade baseada nas referências de imagens institucionalizadas, bem como papéis interiorizados. O segundo modelo, diz respeito aos indivíduos que procuram focalizar a sua identidade no seu próprio “eu”. Por último, há os indivíduos que não têm recursos para conseguirem ultrapassar as próprias tensões identitárias, tendo como consequência uma identidade instável. Assim, percebe-se que a tensão na construção da identidade é diferente mediante os recursos de cada indivíduo. Como afirma o autor “(…) a tensão não é igual para todos, sendo maior para os indivíduos com menos recursos, isto é, para os que se encontram em situação de pobreza e de exclusão social” (Ibidem: 35). Relacionando a pobreza com a construção de identidade, percebe-se que segundo Dubet “(…) escondida por detrás da desigualdade como resultado do desempenhos dos indivíduos em relação à igualdade de partida, está a desigual distribuição dos recursos na sociedade” (Cit. Por Diogo, 2007: 53). Logo, existe uma desigualdade de recursos que se traduz numa desigual construção identitária, logo o esforço dos grupos designados como dominados, tem que ser muito maior, uma vez que não têm recursos sociais e culturais (Dubet, 1996). Como consequência de toda a desigualdade de recursos e diferença de percursos identitários, estão associados conceitos como vergonha, desprezo, “(…) o principal efeito da individualização é a ilusão de que os indivíduos dependem apendas de si próprios, o que não deixa de ter efeitos para os que, sendo pobres, têm menos recursos de todo o tipo e não conseguem construir-se de forma socialmente aceitável. Os indivíduos ficam mais expostos nos seus erros e insucessos, as comparações desfavoráveis, já não têm a almofada do destino, da sorte ou da injustiça social.” (Diogo, 2007: 55). 19 Todas as dimensões conotadas de negatividade associadas aos beneficiários fazem com que parte destes tentem esconder o facto de o serem, daí associada a noção de pobreza envergonhada, como demonstra Omote, “A marca social que representa hoje o estigma não é visível, mas a manipulação que se faz do estigma e o tratamento especializado dispensado ao estigmatizado podem aumentar a visibilidade da condição especial desse indivíduo.” (Omote, 2004: 295). No estigma existem duas vertentes, por um lado o olhar da sociedade perante o estigmatizado e por outro o olhar do próprio estigmatizado. O olhar da sociedade perante o estigmatizado faz com que este se sinta como se a sua situação fosse uma consequência que tivesse que carregar, transportando a culpa da sua pertença à categoria (Xiberras, 1993). Por outro lado, o estigmatizado pode acabar por interiorizar os próprios critérios da sociedade onde se encontra inserido e consequentemente pode ficar isolado da mesma (Ibidem). 20 Capítulo IIOrganização acolhedora, metodologia e atividades realizadas 2.1) Organização acolhedora O estágio curricular foi realizado no Centro Social de Soutelo, que se trata de uma Instituição Particular de Solidariedade Social, isto é, uma IPSS. Situa-se no Lugar de Soutelo, na freguesia de Rio Tinto, concelho de Gondomar. Nasceu após o 25 abril de 1974, tendo primeiramente como finalidade a área infantil. Tem como objetivo conseguir dar resposta às necessidades e expetativas da comunidade, de modo a difundir a solidariedade, cooperação, igualdade e participação ativa na mesma. É uma instituição que estabeleceu bastantes parcerias e é reconhecida pelos Ministérios da Educação e da Solidariedade e Segurança Social, sendo ainda um membro fundador da união distrital de IPSS. A organização tem como áreas de intervenção: i) a educação, que se encontra dividida entre a creche, pré-escolar e atividades de tempos livres do 1º, 2º e 3º ciclos; ii) intervém também na área dos idosos, encontrando-se dividida em centro de dia, centro de convívio e apoio domiciliário; iii) por último, interessa-se pela área de intervenção comunitária, nomeadamente no protocolo do RSI, empresas de inserção, A escolha é tua E5G, Equipa de rua, ProjetArte e Triplo Salto. Paralelamente, tem como preocupação o desenvolvimento de atividades culturais e sociais, que vão desde o coro, grupos de dança, teatro, atelier, até à recolha de alimentos para o banco alimentar. De entre todas as valências existentes no Centro Social de Soutelo, o estudo foi realizado na do RSI, uma vez que se pretende um campo empírico específico e apenas nesse sector foi possível encontra-lo. 2.1.1) Rendimento Social de Inserção O estágio incidiu na área do RSI que abrange as freguesias de Baguim do Monte e de Rio Tinto. Consiste numa prestação monetária para o agregado familiar, de modo a que sejam satisfeitas as necessidades essenciais. Paralelamente ao apoio pecuniário, trabalha a inserção social, laboral e comunitária dos beneficiários. É elaborado um diagnóstico da situação familiar, dando origem a um relatório social e construção e acompanhamento de um programa de inserção, que neste momento abrange cerca de 360 agregados familiares. Assim, através do RSI, a instituição procura a inclusão social, o incentivo à atividade profissional, a promoção do sucesso escolar, a valorização do desenvolvimento e a descoberta de capacidades sociais e individuais de modo a aumentar a autoestima e autonomia, tentando também desenvolver ações de intervenção. 21 A equipa é constituída por 10 elementos no total, nomeadamente por duas assistentes sociais, duas psicólogas, duas educadoras sociais, o que dá um total de seis técnicas; e ainda quatro ajudantes de ação direta. A função das assistentes sociais, psicólogas e educadores consiste no acompanhamento dos 180 processos que se encontram divididos entre a equipa, sendo que entre as seis técnicas, três tratam dos processos de Baguim do Monte e as outras três dos processos de Rio Tinto. É feito o acompanhamento com alguma regularidade dos processos existentes, de forma a que a técnica tenha uma maior proximidade da situação e de modo a ter conhecimento se a situação do beneficiário se mantém ou não. O acompanhamento presencial é feito através de atendimentos marcados no local do protocolo do RSI; contudo nos casos em que existem carências que impossibilitem a deslocação, a técnica desloca-se ao local de residência, sendo que este deslocamento é feito também com alguma regularidade para haver conhecimento do local e das condições habitacionais, havendo assim visitas domiciliárias com alguma regularidade e por vezes sem um aviso prévio. No caso da chegada de novos processos, é obtida primeiramente uma informação social onde são recolhidas todas as informações necessárias para se iniciar o acompanhamento. No caso das psicólogas, para além do acompanhamento dos processos familiares, estas fazem também um acompanhamento psicológico nos casos da existência desta necessidade. Para além destas funções, o protocolo desenvolve ainda uma atividade denominada “mãos d’oiro”, que consiste numa reunião semanal de várias mulheres beneficiárias do RSI. São beneficiárias que possuem determinadas características em comum, como por exemplo, a necessidade de socialização; serem beneficiárias há longos anos; carência de modos de apresentação e de saber estar. Independentemente das características comuns, outras beneficiárias, querendo, podem fazer parte do grupo, integrando a atividade “mãos d’oiro”. Tem como objetivo desenvolver várias atividades, como por exemplo: - saídas culturais: museus, cidades, entre outros; - realização de trabalhos manuais com o objetivo de serem vendidos no mercadinho realizado mensalmente, sendo que a quantia arrecadada é guardada para despesas necessárias, como as saídas, por exemplo; - presença regular de uma pessoa com formação em artes plásticas que ensina e auxilia na realização de trabalhos manuais; - comparência assídua de um indivíduo com formação musical que ensina e desenvolve atividades de foro musical com as beneficiárias; Os principais objetivos que se pretendem obter com a realização destas atividades consistem na aquisição e desenvolvimento de aptidões sociais como competências relacionais, 22 formas de apresentação, competências ao nível da conversação, do saber estar e do saber comportar-se em grupo. A aquisição de todas estas competências promove ainda a inclusão e a socialização. O RSI, como já foi referido anteriormente, não procura ter apenas uma função monetária; tem também o objetivo de integração no mercado de trabalho. Para tal, as técnicas recebem com alguma regularidade ofertas de emprego e de formações por parte do centro de emprego e procuram assim a integração de determinados beneficiários que se enquadrem no perfil pretendido para o cargo disponível. Acontecendo o inverso também, na medida em que o técnico procura encontrar determinadas ofertas de emprego e de formação existentes. Ainda dentro do RSI, existe a CAF (Comunidade Auto Financiada) que reúne mensalmente e em que grande parte das beneficiárias fazem parte do grupo “mãos d’oiro”. A CAF consiste num grupo que tem como finalidade fazer empréstimos monetários, isto é, nas reuniões as intervenientes pagam uma cota e quando alguma delas necessita de uma quantia monetária pode fazer um empréstimo, contudo quanto mais longo for o período de demora do pagamento, mais juros terá que pagar, sendo que o valor dos juros foi definido previamente em unanimidade entre todas as intervenientes. Para além do RSI, existe no Centro Social de Soutelo o GIP (Gabinete de Inserção Profissional) que tem como finalidade ensinar, ajudar e auxiliar na procura ativa de emprego e para onde são encaminhados vários beneficiários do RSI. As auxiliares de ação direta prestam serviços às famílias que lhes são indicadas pelas técnicas e auxiliam de determinadas formas, mediante as carências de cada família: - Acompanhamento a consultas; - Explicação de como poderá ser realizada a higiene pessoal e/ou higiene habitacional; - Aconselhamento naquilo que considerarem necessário; - Ajuda na gestão económica do montante mensal do agregado; No local do RSI as auxiliares atendem telefonemas que reencaminham para as técnicas e recebem os beneficiários encaminhando ou não para as técnicas consoante os casos. Assim, percebe-se que o papel da técnica consiste no acompanhamento do beneficiário em variadas vertentes da sua vida, não apenas a económica, tentando encontrar soluções e auxiliar na resolução de problemas que estejam ao seu alcance. 23 2.2) Objeto empírico Estar numa situação de desemprego pode levar a que os indivíduos se encontrem no limiar da pobreza e, consequentemente, percam ou vejam modificadas diversas situações, como o caso das relações sociais, autorrepresentações e o modo como se sentem perante a sua realidade e perante os outros. Admitindo que as pessoas que se inserem num contexto de pobreza têm características diferentes daquelas que se inseriam nesse mesmo contexto até meados de 2009, será então que os conceitos de pobreza, exclusão e desigualdade se têm vindo a modificar também a par das novas caraterísticas destes indivíduos? Tendo em conta estes conceitos, importa então ter em consideração a noção que as pessoas têm do facto de se encontrarem numa situação de pobreza. Neste sentido, terão elas uma autorrepresentação do seu lugar na estrutura de classe, isto é, acreditam que o seu lugar na estrutura de classe não se modificou ou consideram que houve um declínio do seu lugar de classe? E estarão elas num contexto de pobreza envergonhada? E será que têm perceção de que as suas atitudes e comportamentos perante a situação os enquadram num contexto de pobreza envergonhada? Deste modo, importa perceber o que se passou, passa e irá passar com esta parcela da sociedade que será analisada: partindo estes indivíduos de uma situação comum de pobreza, poderão dar origem a um perfil socioeconómico singular? Por último, tendo em conta todos os fenómenos que estão subjacentes à atual crise, será que esta atingiu os indivíduos nas suas relações com os outros e no seu estado psicológico e físico? De modo a encontrar respostas para todas estas questões, o presente relatório tem como objeto de estudo as famílias da classe média e classe média alta que, por diversos motivos, tiveram que recorrer a ajudas económicas e sociais recentemente. O objetivo principal do estudo consiste em tentar perceber de que forma a atual conjuntura económica atingiu estes agregados familiares, tentando ainda entender o que subjaz à sua atual situação de dependência socioeconómica. Desta forma, o campo empírico diz respeito ao conjunto de indivíduos que por variados motivos tiveram necessidade de recorrer a ajudas do Centro Social de Soutelo recentemente, nomeadamente ao RSI. Depois de iniciado o estágio curricular e de concluída a análise de alguns processos, foi possível perceber que para definir a amostra pretendida para o estudo, existiu a necessidade de estabelecer alguns limites para a sua construção. Deste modo, fazem parte do campo empírico 24 beneficiários do RSI que se encontram numa situação de desemprego pelo menos desde 2009, sendo que este desemprego pode ter sido causado por três situações diferentes: despedimento por parte da empresa; falência da empresa onde estavam inseridos ou falência de negócio próprio. Uma vez que se pretende perceber de que forma a crise afetou os indivíduos, procurase estudar beneficiários que foram afetados diretamente pela crise, ou seja, que se encontravam numa situação financeira estável, e que sofreram um despedimento por parte da empresa onde estavam inseridos ou falência da própria, ou então por falência do seu próprio negócio, e não despedimento por vontade própria. A escolha do limite de tempo máximo em que se encontram nesta situação deveu-se a alguns fatores como o facto de estar na medida há pouco tempo e ter sido afetado pela atual conjuntura económica. O limite temporal foi assim definido por não ser importante para o estudo em causa analisar indivíduos que já se encontrem na medida há vários anos e que não têm perspetivas de sair da mesma; pelo contrário, faz sentido analisar aqueles que foram afetados atualmente pela crise. Assim, aqueles que se enquadram no estudo são os indivíduos que se encontram na medida desde 2008/2009 até 2015. 2.3) Metodologia A metodologia utilizada é a qualitativa, uma vez que importa estudar e perceber intensivamente o campo empírico em causa. Não basta apenas agrupar em categorias e quantificar, é necessário ir mais além e analisar tudo o que subjaz à sua situação socioeconómica atual. Os dados são registados através da observação e de entrevistas. A conceção em causa é a construtivista social, onde os sujeitos procuram perceber e dar significado ao mundo onde vivem. É então necessário confiar nas visões dos intervenientes e a partir daí construir categorias e encontrar pontos em comum, assim como fatores de singularidade entre as afirmações de todos os participantes no estudo, pois segundo Creswell “Os indivíduos desenvolvem significados subjectivos de suas experiências, significados dirigidos para alguns objectos ou coisas. Tais significados são variados e múltiplos, levando o pesquisador a buscar a complexidade dos pontos de vista em vez de estreitá-los em algumas categorias ou ideias.” (Creswell, 2010: 31). Durante o estágio curricular foram implementadas metodologias de investigação, como a observação e a respetiva grelha produzida previamente (Anexo 1); as entrevistas 25 semiestruturadas realizadas ao campo empírico pretendido e respetivo guião (Anexo 2); entrevistas à equipa técnica com o guião produzido previamente (Anexo 3) e por fim foi realizada uma análise documental. A observação foi realizada aos beneficiários do RSI nos atendimentos com as técnicas e durante as entrevistas, tendo sido previamente produzida uma grelha de observação. Tornase importante observar este grupo para que seja possível recolher informação sobre a forma como se comportam e reagem perante um atendimento e/ou entrevista, de modo a constatar se existem singularidades e/ou fatores em comum entre eles. É uma observação direta, onde o observador recolhe diretamente a informação, apelando aos próprios sentidos de observação (Quivy, 1992: 165). Foi então uma observação qualitativa, onde foram realizadas anotações sobre o comportamento dos beneficiários no próprio local, pois Creswell considera que “(…) o pesquisador faz anotações de campo sobre o comportamento e actividades dos indivíduos no local de pesquisa.” (Creswell, 2010: 214). Assim, o observador terá que optar por ser participante ou não participante mediante a situação, de modo a conseguir observar apenas aquilo que se considera essencial, tendo a capacidade de excluir tudo aquilo que não pareça pertinente ao caso para que responda de forma clara a todos os objetivos do estudo, uma vez que segundo Quivy, “Em investigação social, trata-se, pelo contrário, de recolher apenas os dados úteis à verificação das hipóteses, com exclusão dos outros. Estes dados necessários chamam-se, muito justamente, dados pertinentes. Em contrapartida, os dados excedentários enganam o investigador e levam-no, por conseguinte, a apresentar um trabalho cuja amplitude é geralmente proporcional à mediocridade” (Quivy, 1992: 158-159). A observação é um instrumento bastante pertinente, pois não permite apenas recolher informação, mas possibilita também a recolha dessas mesmas informações de modo a que seja possível aplicar o tratamento essencial e assim atingir os objetivos (Quivy, 1992: 205). Para tal, foi construída e aplicada previamente uma grelha de observação de modo a facilitar o trabalho do observador. Quivy afirma que “Estas grelhas definem de modo muito selectivo as diferentes categorias de comportamento a observar. As frequências e as distribuições das diferentes classes de comportamento podem então eventualmente ser calculadas para estudar as correlações entre estes comportamentos e outras variáveis destacadas pelas hipóteses” (Ibidem: 199). A principal vantagem da observação direta consiste na capacidade de apreender os comportamentos e acontecimentos no próprio momento, relevando assim a autenticidade dos 32 Fernando Diogo refere que perante o Estado existe um beneficiário ideal presente na legislação e este beneficiário tem todas as caraterísticas ditadas pela lei (Diogo, 2007). Então esta lei considera que existe um beneficiário ideal enquanto que o que está presente na Tabela 2 demonstra a existência de dois tipos de beneficiários. São indivíduos com caraterísticas, carências, necessidades e objetivos de vida diferentes mas que têm todos os mesmos direitos e deveres perante a lei. Será então pertinente haver uma lei uniforme para uma situação repleta de tanta heterogeneidade? Tabela 2Diferença entre beneficiários (1) Beneficiários cíclicos Beneficiários em estudo Beneficiários acomodados Beneficiários incomodados Pobreza duradoura Pobreza temporária Pobreza geracional Nova pobreza Inexistência de procura de emprego Procura ativa de emprego Sentimento de passividade Sentimento de revolta Baixas qualificações Qualificações mais elevadas Pouca importância dada à escolaridade dos filhos Bastante importância dada à escolaridade dos filhos Grande rede social Eclosão social Integração no meio “Estrangeiro” Apresentação desleixada Apresentação cuidada Linguagem corrente Linguagem cuidada À vontade Incomodo (1)Tabela produzida com base nas conclusões retiradas das entrevistas ii) Um ponto em comum partilhado por toda a equipa consiste no sentimento de vergonha partilhado pelos beneficiários. Referiram que os indivíduos só recorrem à medida quando já não têm mais nenhuma solução nem alternativa. Sentem-se humilhados e com bastante vergonha de serem beneficiários do RSI, pois não querem ser comparados com os outros beneficiários, aqueles que se encontram na medida há vários anos e que veem o RSI como uma forma de vida. Consequentemente acabam por esconder que o são, tanto de amigos, como de familiares. 33 Em termos de comportamento acaba por se notar alguma vergonha também, pois o receio de serem comparados e de se inserirem no mesmo círculo que os outros beneficiários, os cíclicos, é demasiado elevado. Isso leva-os a terem comportamentos que transmitem incomodo, rigidez e tentativa de ocultação da situação até mesmo perante desconhecidos, Toda esta situação deixa o indivíduo numa situação de vulnerabilidade muito elevada, pois como refere Fernando Diogo, a perda de privacidade, a exposição da situação perante um técnico e a etiquetagem levam a uma autorrepresentação de inferioridade muito elevada. Percebendo-se assim a necessidade da ocultação e dos comportamentos que demonstram alguma timidez e vergonha, pode-se assumir então que esta é uma pobreza envergonhada. Quando um indivíduo está numa posição social em que se sente enquadrado e integrado, considera que aqueles que têm caraterísticas diferentes, e neste caso, formas de estar na vida também elas divergentes, são considerados também eles pessoas diferentes e que não se enquadram na sociedade, como refere Simmel, são vistos como “estrangeiros” (Xiberras, 1993). Então, estes beneficiários em estudo, antes de fazerem parte da medida, viam os beneficiários do RSI como “estrangeiros”, pois estes viviam à custa do Estado devido à inexistência profissional. Agora que fazem parte da medida, eles próprios identificam-se como o “estrangeiro”, aquele que não se enquadra nas normas da sociedade e o receio de serem vistos como o “estrangeiro” perante o resto da comunidade leva-os à ocultação e ao maior sigilo possível sobre a situação. “(…) isto é o último recurso para eles e portanto eles acabam por esconder, principalmente aos amigos, à família, têm alguma vergonha.” (Entrevistado 6) “(…) há muitas pessoas que chegam cá e dizem mesmo «tenho muita vergonha» e que só estão aqui porque de facto não têm ninguém que os ajude, porque caso contrário nunca requereriam este tipo de apoio.” (Entrevistado 7) iii) Devido a todas as mudanças, esta situação acaba por ter consequências, tanto a nível psicológico, como familiar e da saúde, como referem as entrevistadas. Ao nível da saúde, o número de depressões é elevado, as pessoas acabam por viver em constante agonia, ficando num estado psicológico e emocional bastante abalado. Assim, a única forma de minimizar a situação é através de medicação, o que implica dependência, acarretando um valor monetário associado o que para alguns é bastante complicado de conseguir suportar. Ao nível familiar, em alguns casos, existem bastantes desequilíbrios, violência e consequentemente uma elevada destruturação que acaba por traduzir-se em divórcios, pois estando um dos membros do casal numa situação de desemprego, o ambiente familiar fica 34 abalado. Isto acresce nas situações em que ambos os membros do casal se encontram desempregados e a falta de poder económico traz discussões, discórdia e, consequentemente, mau ambiente familiar o que em alguns casos, pode levar mesmo ao divórcio e destruturação familiar. Relativamente ao círculo de amigos também as diferenças são visíveis, pois o círculo diminui, a existência de possibilidades económicas para a realização de determinadas atividades de lazer e de convívio passa a ser nula, a única opção passa por ser ficar em casa, sendo que em muitos dos casos, o aumento do isolamento é bem visível. Tudo isto conduz a uma situação de eclosão, como refere Eduardo Vítor Rodrigues, pois quando os sujeitos estão numa situação de maior fragilização financeira, a probabilidade de virem a perder contactos e a diminuir a possibilidade de sociabilidade é muito elevada (Rodrigues, 2010). Percebe-se assim que ao nível social estes beneficiários se sentem excluídos por deixarem de possuir as possibilidades que tinham anteriormente. Como refere Giddens, estes deixam de conseguir participar em determinadas atividades exteriores ao ambiente doméstico e ficam mais limitados socialmente, o que pode levar ao isolamento (Giddens, 2010). Então, como já foi referido no primeiro capítulo, o facto de o indivíduo ter sido excluído do mercado de trabalho leva-o à pobreza e o facto de se inserir na pobreza tem consequências a diversos níveis da sua vida, deixando-o excluído de diversas dimensões da sua vida, principalmente a social (Costa, 2008). “Sei lá […] eu acho que o que se vê mais nas pessoas é a nível do casamento, maior parte deles destrói-se com maior facilidade não é? Se calhar agora também as pessoas estão com menos paciência das coisas e se calhar ou revelam mais as situações que antigamente passavam […] e tinham medo de revelar e que agora revelam. Mas acho que isto está a fazer muito mal a nível psicológico às pessoas, a nível mental.” (Entrevistado 4) “Depois também nas atividades de lazer, nas atividades desportivas porque todas elas são pagas e pronto mesmo em termos escolares, um miúdo que sempre teve tudo, de um momento ter que recorrer ao subsídio escolar, pronto mas lá está, eu acho que se os pais reagirem positivamente a isto da melhor forma que conseguirem, eu acho que o impacto vai ser diferente nos miúdos.” (Entrevistado 7) iv) Tendo em conta todas as mudanças e consequências vividas, a reestruturação da vida poderá ser algo complexo. Como referido anteriormente, estes beneficiários pretendem sair desta situação brevemente e veem a medida como algo transitório, mas poucos conseguem, de facto, sair desta situação. 35 Para as entrevistadas, o fator impulsionador para a mudança consiste no emprego, pois através do emprego conseguem ter estabilidade financeira para reestruturarem a sua vida. Porém, os indivíduos que se encontram nesta situação são demasiado velhos para trabalhar, mas demasiado novos para a reforma, o que significa que o fator idade é um grande entrave, bem como as baixas qualificações da maioria. Embora muitos aproveitem esta fase para aumentar os estudos através de cursos, são escassos os que conseguem realmente reestruturar a sua vida. Pois por muito que tentem e se esforcem para tal, não está só dependente deles a obtenção de um emprego, o que os coloca numa posição de frustração. Então, segundo as entrevistadas, o emprego é o fator mais importante para que estes beneficiários consigam sair desta situação e assim reestruturarem a sua vida, o que vai de encontro ao que já foi referido anteriormente por Fernando Diogo, uma vez que considera o emprego como o principal elemento que define o indivíduo, tanto na sua posição na sociedade, como na construção da sua identidade social (Diogo, 2007: 37). “Hum […] é assim, estas pessoas estão muito motivadas para alterar a sua situação, mas há fatores que lhes são externos, que eles não conseguem ultrapassar, controlar. Hum […] como a tal questão da inserção profissional, é uma questão que não está dependente deles. Mas se calhar investir mais nessa área. Mas eu acho que neste momento é uma situação geral e no caso dos beneficiários do RSI ainda mais complicado está.” (Entrevistado 1) v) Estamos então perante uma situação de nova pobreza, pois todas as entrevistadas, afirmaram que esta é uma situação de nova pobreza, uma pobreza bastante envergonhada com caraterísticas próprias, portanto são pessoas que tinham uma vida estável e que devido a uma situação de desemprego tiveram que recorrer à medida, trabalharam grande parte da sua vida, o que significa que são ainda muito novas para a reforma, mas muito velhas para trabalhar. Então, a nova pobreza está estritamente relacionada com os beneficiários incomodados que se inserem, à priori, na pobreza temporária. Segundo as entrevistadas, esta é uma pobreza com caraterísticas próprias, pois acabam por ser excluídos do mercado de trabalho e assim pertencer à nova pobreza, como afirma Lamarque, uma vez que a exclusão é a extensão da nova pobreza (Cit. Por Figueiredo, 2012: 352). “Sim, em muitas situações sim. Nós recebemos […] e é notório que nós recebemos cada vez mais famílias nesta situação. É como eu te dizia ao bocado, o RSI para eles já é a última linha e o RSI vai ser insuficiente para suprir […] aliás, o RSI na minha opinião é insuficiente para suprir as necessidades das famílias, sejam elas beneficiárias já de longa duração, sejam elas famílias que entram recentemente.(…) E de facto noto que é uma pobreza muito envergonhada, porque estas famílias têm muita dificuldade em chegar a um serviço e dizer «olhe eu não tenho isto, eu já não 36 tenho aquilo, eu tenho dificuldade nisto, tenho dificuldade naquilo», porque lá está, é o estigma não é? Tu dizeres «eu não consigo ter o básico para os meus filhos» é uma coisa que dói, chegar a um serviço e dizer isso. Mas de facto é uma pobreza muito envergonhada.” (Entrevistado 9) vi) Relativamente à hierarquia classista, a conclusão foi unânime: já pertenceram à classe média e alguns até mesmo à classe alta, mas neste momento encontram-se todos na classe baixa. Contudo, foi referenciado por grande parte da equipa técnica que a classe média já não existe, pois é apenas um mito urbano, uma vez que cada vez mais existem menos diferenças entre classes. Esta conceção da inexistência cada vez mais acentuada da classe média vai de encontro ao que Elísio Estanque afirma e enuncia como a ilusão da classe média e da miragem a esta associada (Estanque, 2012), que é realçada pelo entrevistado 2: “ (…) eu acho que não há nenhum fosso neste momento que separe a classe média da classe pobre ou da classe média alta ou da classe média baixa, não é? A que podemos chamar hoje a classe média alta são aqueles que têm um trabalho, que pagam, não dá para juntar dinheiro, mas dá para sobreviver, ir vivendo não é? Privando de algumas coisas mas dá para ir vivendo. A classe média baixa será as pessoas que têm os rendimentos ou que vivem com os dinheiros contados e vivem de subsídios porque já não há grande, não há muita diferença, na minha opinião não é?” (Entrevistado 2) vii) Por último, foi possível perceber que na opinião das entrevistadas a comunicação social acaba por influenciar a forma como a medida é entendida e consequentemente, a forma como os beneficiários são percecionados e julgados. Isto porque, segundo a equipa técnica, a comunicação social e o próprio Estado transmitem uma imagem muito negativa daquilo que é a medida e sobre a forma como os beneficiários vivem, passando mesmo a ideia de que estes são inúteis para a sociedade. O que significa que aqueles que não estão na medida julgam os que dela fazem parte, e quando passam para a posição de beneficiários têm vergonha e receio de serem julgados e estigmatizados da mesma forma que os outros, até porque já o fizeram. Esta é uma opinião partilhada também por Fernando Diogo, pois considera que o Estado não é capaz de proteger os beneficiários na sua imagem perante toda a sociedade, acabando por fazer o inverso. “E eu acho que em alguns casos há até aqui um auto reforço do estigma porque as pessoas estiveram do outro lado e tinham a sua própria opinião e agora estão deste lado e isto é muito frequente, sobretudo quando estamos a avaliar processos que estão agora a entrar pela primeira vez na medida, eu ouço muitas vezes isto «olhe eu nunca me pensei ver nesta situação, porque eu sempre achei que eles eram uns grandessíssimos malandros e agora eu estou aqui a pedir e eu não 37 sou malandra, eu quero trabalhar, eu não quero isto para a minha vida, eu só estou a pedir porque eu neste momento não tenho outra opção […]»” (Entrevistado 9) Percebe-se assim que a atual conjuntura económica afetou os indivíduos a vários níveis da sua vida e os técnicos que lidam com esta realidade diariamente conseguem observar que estes beneficiários acabaram por se tornar em indivíduos revoltados, frustrados e que procuram a reintegração no mercado de trabalho o mais rapidamente possível. Sofrem ainda de um grande estigma e ocultam a situação, sendo que em alguns casos acabam por esconder até mesmo de familiares próximos. Ao nível da saúde, da estrutura familiar e das relações sociais, todas as vertentes acabam por ser afetadas devido à falta de poder económico e às dificuldades emocionais em conseguir lidar com a atual realidade. Então têm uma enorme dificuldade em reestruturar a sua vida, sendo que a maior parte não o consegue fazer, apesar de todo o esforço para a integração no mercado de trabalho. Estamos perante uma situação de nova pobreza, sendo esta uma pobreza muito envergonhada, percebendo-se que é em parte consequência da forma como a comunicação social aborda e anuncia a medida, pois segundo as entrevistadas, é de uma forma muito negativa. Todos eles pertenceram à classe média ou à classe alta, mas neste momento encontram-se na classe baixa. Esta é uma realidade que está presente no quotidiano profissional de todas as entrevistadas; porém é também importante perceber a forma como os beneficiários vivem esta realidade na primeira pessoa. Estes são indivíduos que sofreram uma situação de despedimento involuntário, ou então o seu próprio negócio entrou em falência e todos eles tiveram que recorrer ao RSI como forma de auxílio económico. 3.2) Observação direta a beneficiários As observações foram realizadas nos atendimentos com as técnicas e durante as entrevistas. Foram um total de 42 observações, 24 em atendimentos e 18 em entrevistas. A grelha de observação tem como tópicos: postura; forma de comunicar; linguagem fluente/não fluente; código restrito/código elaborado; emoção; expressão facial; apresentação cuidada/pouco cuidada; observações adicionais (Anexo 1). Foi possível notar algumas diferenças entre aqueles beneficiários que já o são há bastante tempo e aqueles estão na medida desde pelo menos 2009. Então as conclusões retiradas são seguintes: i) No que se refere à postura, verificou-se que todos aqueles que estão na medida há bastante tempo têm um maior à vontade, estão descontraídos e não têm qualquer tipo de 38 constrangimento; falam abertamente sobre a sua vida e a falta de privacidade parece ser algo que pouco ou nada incomoda. Naqueles que se encontram na medida há menos tempo verificou-se que têm uma postura diferente, mais rígida, pouco à vontade e inicialmente demonstraram uma grande timidez, vergonha e constrangimento que com o decorrer do tempo foi diminuindo, apesar de não deixar de existir na totalidade. O facto de terem de falar sobre a sua vida e sobre algumas questões mais pessoais e privadas, demonstrou que se sentem constrangidos e a postura de timidez torna-se bem mais visível; ii) Relativamente à demonstração de alguma emoção, verificou-se que nos beneficiários cíclicos existe uma atitude de passividade, não demonstrando qualquer emoção, incomodo ou tristeza. Isto porque é uma situação habitual para eles e uma realidade que sempre conheceram. Nota-se que os beneficiários em estudo transpareceram emoções como revolta e tristeza, acabando mesmo por se emocionarem quando falavam sobre a vida que tinham, a dificuldade em encontrar emprego devido à idade e quando era tocado o assunto dos filhos, devido ao receio e à preocupação de algo lhes faltar; iii) Verificou-se que aqueles que estão há pouco tempo na medida, têm uma apresentação mais cuidada, enquanto que os outros beneficiários têm uma apresentação menos cuidada, notando-se um certo desleixo, pois como já foi referido anteriormente, esta é uma situação habitual, acabando mesmo por ser a rotina; iv) Na forma de comunicar e na linguagem usada notaram-se também diferenças, uma vez que aqueles que estão na medida há bastante tempo utilizam uma linguagem banal, corrente, sem haver qualquer preocupação com a forma como comunicam, ou até mesmo sobre o conteúdo da conversa. Aqueles que estão na medida há pouco tempo têm um maior cuidado na linguagem, na forma como comunicam e por vezes recorriam a um código linguístico mais elaborado, sendo bastante seletivos no conteúdo da conversa. Relativamente a todas as outras vertentes, não se verificaram diferenças significativas, porém importa frisar que de uma forma geral foram encontradas as diferenças referidas anteriormente, o que não significa que todos os beneficiários façam parte da norma e que não existam exceções. Percebe-se assim que os beneficiários que se encontram numa situação cíclica não veem os atendimentos, nem as idas ao RSI como algo fora da sua zona de conforto, sendo sim uma parte da sua rotina. Já os beneficiários em estudo saem completamente da sua zona de conforto, 39 sendo a postura perante a situação completamente diferente e havendo assim um maior cuidado tanto na apresentação, na postura e na linguagem, como ficou patente na Tabela 2. 3.3) Entrevistas aos beneficiários em estudo O campo empírico em estudo é composto por 18 indivíduos, como se pode verificar na Tabela 3, sete dos entrevistados são do sexo feminino e 11 do sexo masculino, com idades compreendidas entre os 37 e 64 anos, sendo que apenas uma das entrevistadas tem 21 anos. A escolaridade varia entre o 4º ano e o 12º ano, mas a grande maioria possui o 6º (oito entrevistados) e o 9º ano (cinco dos entrevistados) e apenas dois possuem o 4º ano e três o 12º ano de escolaridade. Desta forma, é possível perceber que não são indivíduos com qualificações académicas muito elevadas e alguns deles conseguiram aumentar a sua escolaridade apenas após terem ficado desempregados, aproveitando assim esta fase para melhorar as suas qualificações. Relativamente à atividade profissional que desempenhavam no momento em que foram despedidos, estas são muito variadas: construção civil; comissionista; restauração; empregados fabris; motoristas; prospeção geológica; quatro eram proprietários da própria empresa; empregada doméstica; ourives; mecânico; call center; setor de vendas. Percebe-se assim que o tipo de emprego que tinham não era um emprego que necessitasse de qualificações bastante elevadas, sendo que grande parte trabalhou maior parte da sua vida sempre na mesma profissão, tendo sido promovidos de posto por experiência profissional e/ou mérito e não pelas suas habilitações. No que diz respeito ao período temporal em que se encontram na situação de instabilidade financeira, grande parte refere os anos de 2009, 2010 e 2011 como o marco do início da situação que vivem atualmente, pois seis indicam o ano de 2009 e outros seis o ano de 2010, cinco referem o ano de 2011 e apenas um indica o ano de 2013 como início da mudança da sua vida. No que se refere ao tipo de família, existe uma grande variedade: nove são famílias nucleares; quatro constituem um casal; três são singulares e duas são famílias monoparentais. Assim percebe-se que existe uma grande heterogeneidade da composição familiar, contudo a nuclear é a mais comum, como afirma Firmino da Costa “Nas ultimas décadas, em Portugal, tem vindo a combinar-se, no âmbito das relações familiares, traços de modernidade e de tradicionalismo, no decurso de um processo continuado de mudanças estruturais e culturais e de diversificação de modelos e práticas.” (Viegas, 1998: 76) 40 É ainda de referir que de entre todos os entrevistados, existem ligações familiares diretas, como por exemplo, um casal e pai e filha. Embora a situação vivenciada seja a mesma e contenha as mesmas circunstâncias, a entrevista foi realizada individualmente, pois importa perceber quais as suas autorrepresentações, isto porque apesar de a situação ser a mesma, poderá afetar cada um de forma diferente, bem como a forma de lidar com a situação poderá ser díspar. Tabela 3Composição do campo empírico (1) Entrevistado Sexo Idade Escolar idade Família Profissão Início das dificuldades Entrevistado 1 Masculino 48 6º Nuclear Construção civil 2009 Entrevistado 2 Masculino 64 6º Casal Comissionista 2009 Entrevistado 3 Masculino 54 12º Nuclear Restauração 2011 Entrevistado 4 Masculino 58 9º Casal Empregado fabril 2010 Entrevistado 5 Feminino 54 6º Casal Empregada fabril 2010 Entrevistado 6 Masculino 52 6º Nuclear Motorista pesados 2009 Entrevistado 7 Masculino 53 9º Casal Prospeção geológica 2009 Entrevistado 8 Feminino 40 9º Nuclear Proprietária cabeleireiro 2013 Entrevistado 9 Feminino 37 9º Monoparental Empregada doméstica 2010 Entrevistado 10 Feminino 64 4º Singular Proprietária de um café 2011 Entrevistado 11 Feminino 52 6º Singular Proprietária de uma loja de costura 2011 Entrevistado 12 Masculino 49 6º Nuclear Ourives 2010 Entrevistado 13 Masculino 49 4º Nuclear Mecânico 2010 Entrevistado 14 Masculino 58 6º Nuclear Marmorista 2009 Entrevistado 15 Masculino 51 6º Nuclear Proprietário empresa de móveis 2011 Entrevistado 16 Masculino 46 9º Singular Motorista 2009 Entrevistado 17 Feminino 21 12º Nuclear Call center 2011 Entrevistado 18 Feminino 48 12º Monoparental Setor de vendas 2010 (1) Tabela produzida através das conclusões retiradas das entrevistas 41 As questões colocadas nas entrevistas (Anexo 2) tinham como objetivos: - Perceber o que aconteceu para ter havido esta situação de rutura; - Abranger o que de facto mudou nas suas vidas desde que se encontram nesta situação; - Compreender se existem ou não consequências sociais/pessoais e/ou familiares; - Entender a auto consciencialização sobre a situação, isto é, autorrepresentação sobre a sua classe social, pertença a uma situação de pobreza e sentimentos face à realidade presente; - Percecionar qual a trajetória virtual futura da situação. Percebe-se assim que as entrevistas tinham como propósito abordar as questões do passado, do presente e do futuro, passando pelas noções de autorrepresentação dos beneficiários sobre a sua própria vida e situação vivenciada. De entre todas as entrevistas realizadas, foi possível retirar várias conclusões e encontrar pontos em comum entre todos os 18 entrevistados. Para tal foi analisada individualmente cada uma das entrevistas (Anexo 6) e posteriormente foi realizada uma análise horizontal de todas as entrevistas (Anexo 5). Então, foi possível reter as seguintes conclusões: i) Relativamente à situação profissional e ao momento de rutura, os entrevistados que sofreram um despedimento relataram que as causas se deveram à crise, nomeadamente à necessidade de redução de pessoal, ou à falência do local onde estavam empregados. Grande parte afirma ter trabalhado vários anos na empresa, sendo para muitos o único emprego que tiveram durante toda a vida, uma vez que entraram para a empresa quando eram ainda bastante jovens. Depois de ficarem na situação de desemprego, alguns tiveram direito ao subsídio de desemprego e quando este terminou começaram a sentir as consequências da falta de poder económico. Uma pequena parte ainda conseguiu encontrar alguns trabalhos precários e temporários, porém foram de curta duração. Outra parcela não obteve mais nenhum emprego, aproveitando, assim, este tempo de espera enquanto não conseguia encontrar nenhum emprego, para melhorar as suas qualificações académicas. “O meu emprego de maior, posso dizer de maior sucesso, pronto foi numa empresa de mármores e granitos, tive lá 35 anos. Fui […] entrei para lá com 15 anos mais ou menos, sai de lá com 48 praí […] a fábrica portanto, a empresa entrou em insolvência em 2005. Eu em janeiro de 2005 vim embora da empresa depois de 35 anos lá a trabalhar.” (Entrevistado 14) 48 afirmou esconder a situação pela qual estão a passar, uma vez que sentem demasiada vergonha e sofrem de um estigma tão forte que acabam por se isolar e ocultar a sua realidade de todos os outros, tendo como aspiração conseguir um emprego, mas vivendo um dia de cada vez. A outra parte dos beneficiários afirmou não esconder a situação, embora sintam alguns constrangimentos e partilhem dos mesmos sentimentos de revolta, angústia e frustração. Toda esta situação leva a que o indivíduo tenha sempre associados os sentimentos de desprezo e de vergonha, pois ficaram numa situação de exposição dos seus próprios erros e insucessos, sentindo assim um sentimento de fracasso, como afirma Fernando Diogo (Diogo, 2007). Neste contexto, Omote afirma que todos estes sentimentos levam a que o indivíduo tenha a atitude de ocultação, pois tenta ao máximo reservar a sua situação, daí estar sempre associado o conceito de pobreza envergonhada. Ao mesmo tempo, Xiberras anuncia que a presente situação pode ser analisada de duas formas: por um lado, pelo olhar da sociedade para o indivíduo, o que faz com que este sinta que a sua situação é culpa dele próprio, estando assim associado o sentimento de culpa; por outro lado, o olhar do próprio estigmatizado sobre si mesmo, em que tenta interiorizar os critérios da sociedade e acaba por ficar isolado da mesma por sentir que não possui esses mesmo critérios (Xiberras, 1993). A conceção de Xiberras vai de encontro ao que foi relatado por aqueles beneficiários que não se sentem bem com a situação e tentam esconder, acabando por se isolar. “É assim, além disto eu tenho o programa dá, pronto eles dão-me 35 euros para alimentação. É assim, eu sinto mais vergonha aí se calhar, porque é assim, o rendimento mínimo ninguém vê nada. Recebo a carta em casa, pego na carta, vou aos correios e levanto. Quando tenho que ir ao programa dá tenho um bocado de dificuldade em entrar lá dentro, isto é, entrar e que estejam lá pessoas conhecidas, é a minha […] eu quando chego lá começo a olhar a ver se vejo gente conhecida, se vir gente conhecida não entro, espero que as pessoas se vão embora, tenho mais vergonha nisso.” (Entrevistado 12) “Sinto, sinto vergonha. Sinto, sinto vergonha porque é assim, a profissional que eu sou, que eu fui, da maneira como eu gosto da minha arte […] é frustrante, é triste, é muito triste a gente chegar a este ponto. Tenho que esconder, eu mostro sempre o meu sorriso […] mas por dentro a gente sente […] eu costumo dizer que nunca andava de cabecinha virada para o chão e agora dou por mim muitas vezes a olhar para o chão. Porque eu rio-me e «bom dia» e […] mas é para esconder se calhar o meu sentimento” (Entrevistado 8) “Esconder não […] não tenho problemas de todo, pessoas amigas minhas, família minha, sabem aquilo que aconteceu à minha situação.” (Entrevistado 1) 49 x) O facto de serem ou não beneficiários do RSI não foi motivo de inclusão ou exclusão do campo empírico, porém, todos aqueles que fazem parte do estudo acabaram por ser beneficiários do RSI. Assim sendo, questionar sobre o sentimento de cada um sobre o facto de fazerem parte da medida, permitiu entender qual a posição de cada um sobre a mesma, assim como perceber a existência ou não de sentimentos de estigma, ocultação ou vergonha. A esmagadora maioria afirmou sentir-se constrangida por beneficiar do RSI, admitindo só ter aderido à medida quando não havia mesmo mais nenhuma alternativa. Foi portanto o último recurso, a última opção. Foi ainda possível perceber que se encontravam muito pouco informados sobre a medida, não sabiam bem como funcionava e tentam esconder que dela fazem parte. Contudo, uma pequena parcela afirmou sentir-se bem com a medida e não sentir vergonha nem ocultar. Todos veem a medida como algo passageiro, sendo só uma alternativa enquanto não conseguem encontrar emprego. O facto de ser beneficiário tem consigo uma conotação estigmatizada, pois da medida fazem parte aqueles que não têm autonomia para se desenvolverem de forma independente (Diogo, 2007). Então esta etiquetagem e perda de privacidade leva a que o beneficiário construa uma identidade e uma autorrepresentação negativa, então a sua forma de viver e de interagir com os outros fica afetada também. Como já referido anteriormente, aqueles que agora se encontram na medida, nunca dela fizeram parte e sempre fizeram uma avaliação sobre aqueles que eram beneficiários. Agora que fazem parte desse mesmo grupo, acabam por sentir um constrangimento de tal maneira intenso e negativo que escondem a situação, tornando-se assim em beneficiários incomodados (Rodrigues, 2010) e em estrangeiros da própria sociedade, como afirma Simmel (Cit. Por Xiberras, 1993). “Sinto vergonha, sinto vergonha em estar nesta situação. Foi a última coisa, cheguei a um ponto que disse «pah tenho que meter isto», não consigo.” (Entrevistado 16) “Aí tenho, aí tenho, não gosto porque me sinto muito marginalizada, sinto. Ainda lhe vou dizer mais, tenho vergonha no sentido, por exemplo, eu não gosto de ir a esta segurança social aqui de Rio Tinto, para já porque o próprio espaço em si é horrível e eu às vezes procuro a loja do cidadão, ou vou a Gondomar, ou não sei quê […] mas não gosto de me sentir beneficiária do RSI, não gosto porque sinto que a sociedade olha para as pessoas do RSI como quem […]. No outro dia, por exemplo, vou-lhe dar um exemplo que me aconteceu, fui à escola do meu filho e lá a funcionária que está no pbx, a senhora já me conhece e ela estava a falar de qualquer coisa, ela é funcionária da escola e acho que eles iam fazer greve ou fizeram e a senhora estava a comentar dos direitos ela e disse «pois as pessoas do RSI, não tem lógica nenhuma, porque há pessoas que nunca descontaram e agora estão a receber» e ela como me vê lá muitas vezes na 50 escola, ela sabe que eu estou desempregada e ela sem querer virou-se para mim e disse «a senhora por acaso, desculpe lá, não é beneficiária do RSI, pois não?» e eu disse «não», portanto aquele estigma tocou-me, percebe? Aí sim, sinto-me mal por ser beneficiária do RSI.” (Entrevistado 18) “Não, também não, não tenho nenhum problema com isso (…) e eu dizia sempre que sou dos pobres, eu estou mesmo no fundo da tabela, eu estou a viver do rendimento social. (…). Não posso fazer nada contra isso a não ser procurar emprego e esperar que um dia apareça qualquer coisa aqui dentro ou fora daqui, já me é indiferente. Se calhar fora daqui até era melhor, como lhe digo, porque com a mesma tarefa se calhar ganho muito melhor lá fora.” (Entrevistado 7) xi) Tendo já sido abordadas as temáticas inerentes ao passado e ao presente, tornou-se fulcral perceber o que pensam sobre o futuro, quais as suas expetativas e quais as atitudes que irão tomar. Assim, apenas dois dos entrevistados afirmaram acreditar que tudo irá piorar, enquanto que todos os outros têm a expetativa de que tudo irá melhorar. Para tal, a luta pela procura de trabalho irá continuar e baixar os braços é algo que não se encontra no vocabulário de todos estes que acreditam que tudo irá progredir. Uma pequena parte vê a emigração como uma solução. “É levantar a cabeça e saber que vem um dia melhor né? Não estou ruim, existem pessoas piores, em situações piores, pessoas que nem estão tendo acesso ao rendimento e não conseguem trabalho.” (Entrevistado 3) “O que vou fazer é […] se eu tivesse trabalho isto de certeza que já tinha, já tinha melhorado muito, pronto.” (Entrevistado 6) “As mesmas, continuar a procurar emprego, continuar à procura de emprego, qualquer coisa. Até, ao bocado falou da questão dos amigos, do círculo de amigos, eu tenho alguns amigos que até acabaram por ir lá para fora, porque são obedientes e acabaram por ouvir o conselho do primeiro-ministro [risos] e até nesse sentido comunicamos com alguma frequência para ver se me arranjam alguma coisa.” (Entrevistado 7) 3.4) Cruzamento de todos os dados recolhidos Depois de todas as entrevistas analisadas foi possível entender o que aconteceu na vida dos beneficiários, a forma como eles lidam com a situação no momento presente, bem como as expetativas que têm da sua trajetória virtual futura, bem como a opinião dos técnicos sobre as mesmas questões. Assim sendo, é possível categorizar as conclusões retiradas de ambas as entrevistas em cinco vertentes: consequências da situação; sentimentos e atitudes perante a situação; 51 autorrepresentação do lugar de classe e situação de pobreza; dificuldades na reestruturação da vida; expetativas sobre a trajetória virtual futura. i) Consequências da situação: a equipa afirmou de forma unânime que ao nível da saúde os beneficiários sofreram consequências, estando grande parte a viver neste momento uma situação de depressão; vivem em constante agonia e sentem-se muito abalados. Na opinião dos próprios beneficiários, a situação abalou-os bastante psicológica e emocionalmente. Alguns admitiram viver uma situação de depressão e estão a ser medicados; afirmaram que o sistema nervoso se alterou bastante e vivem com os sentimentos de tristeza, angústia e fraqueza sempre presentes no quotidiano, o que os levou a viver numa constante desmotivação, fraqueza e a alegria de viver deixou de existir. Em termos familiares, a equipa referiu que existem bastantes casos de desequilíbrios, violência e destruturação que acabam em divórcios. Na opinião dos beneficiários, todos afirmaram que o seio familiar ficou afetado. Metade afirmou que de facto teve consequências negativas, pois o stress aumentou, bem como as discussões e a tristeza. Outra parte mais pequena afirmou receber bastantes ajudas familiares, assim como outra parte mais diminuída considera que aumentou a união entre a família. O que significa que em termos da estrutura familiar, a opinião da equipa técnica apenas representa metade dos entrevistados. Relativamente ao meio social, as técnicas afirmaram que o círculo de amigos diminuiu, uma vez que deixaram de existir possibilidades económicas para praticar determinadas atividades e consequentemente conviver. Os beneficiários afirmaram que de facto não existem mais possibilidades de sair, o que significa que deixam de praticar determinadas atividades e assim o convívio diminui significativamente sendo o isolamento muito maior. Estes entrevistados consideram ainda que uma das alterações sentidas é a quebra da rotina, uma vez que não existem mais horários para cumprir e a organização do quotidiano modificou-se bastante, sendo esta também uma consequência da situação. ii) Sentimentos e atitude perante a situação: a equipa técnica considerou que os beneficiários incomodadosos que foram entrevistadostêm vergonha da situação, pois sentemse demasiado humilhados e então escondem a situação. Isto porque têm receio de serem comparados, pois ao contrário deste grupo de beneficiários, os outros não têm expetativas nem ambições de conseguir um emprego, uma vez que não existem hábitos de trabalho. As técnicas afirmam ainda que a comunicação social também é em parte culpada por toda esta vergonha que sentem, dado transmitirem uma imagem muito negativa dos beneficiários. Então a 52 vergonha destes beneficiários serem comparados com aqueles outros, faz com que a postura perante a situação passe pela ocultação da mesma. A opinião do grupo técnico vai de encontro ao sentimento dos beneficiários perante a situação, bem como a sua atitude perante a realidade, pois todos os entrevistados afirmam sentir-se revoltados, frustrados e angustiados com a situação, deixaram de fazer planos e a alegria de viver deixou de existir. A grande parte tem uma atitude perante a situação que passa pela ocultação da mesma, têm demasiada vergonha e um grande estigma relacionado com a realidade presente que estão a vivenciar, o que significa que se isolam e escondem a situação, tanto de familiares como amigos e conhecidos. Para além do receio de comparação com os outros beneficiários, existe também bastante vergonha e sentimento de humilhação sobre o facto de compararem a vida que tinham com a que têm agora, o que traz associado um sentimento de fracasso e impotência muito grande. Pois ter que contar a amigos e/ou familiares e/ou conhecidos que já não têm a vida que tinham e que neste momento passam por dificuldades e por isso necessitam de apoio do Estado, é algo demasiado humilhante, daí a opção pela ocultação ser a mais razoável, tanto a nível emocional como psicológico. Isto porque antes de necessitarem da medida, pouco ou nada sabiam sobre a mesma e a informação que tinham era bastante negativa, então tinham a sua própria opinião sobre os beneficiários do RSI e fazer agora parte deste mesmo grupo é algo muito frustrante e exatamente por isso, recorrer a esta medida foi a última opção. Pese embora todos procurem emprego ativamente e pretendem sair da situação o mais rapidamente possível e alguns vão fazendo alguns biscates para amenizar a situação. O facto de o emprego ser central na sua vida e o facto de não conseguirem encontrar nenhum, é então um dos motivos que levam a que estes beneficiários não se sintam bem com a presente situação, pois o receio de serem comparados com aqueles que têm uma atitude de passividade perante o desemprego é elevada. iii) Autorrepresentação do lugar de classe e situação de pobreza: relativamente ao lugar na estrutura social, a equipa técnica afirmou que neste momento todos eles se encontram na classe baixa e que de facto houve um decréscimo no seu lugar de classe, pois todos eles se encontravam na classe alta ou média. A opinião dos beneficiários sobre o seu próprio lugar na estrutura social vai de encontro à opinião das técnicas, todos admitiram estar neste momento numa situação de classe baixa, admitindo ter estado anteriormente numa classe superior. No que se refere à situação de pobreza, as técnicas relataram que todos eles vivem uma situação de pobreza, nomeadamente de nova pobreza, sendo esta uma pobreza envergonhada. 53 Os próprios beneficiários acreditam estar também numa situação de pobreza, obtendo-se assim uma opinião unânime em relação a todos os entrevistados. Paralelamente, a autorrepresentação que os beneficiários têm sobre a sua situação é de facto uniforme, todos admitiram estar numa situação de pobreza, assim como admitiram pertencer à classe baixa. Porém, metade dos beneficiários teve dificuldade em verbaliza-lo e aqueles que tiveram dificuldade em admitir que estão neste momento numa situação de pobreza, são exatamente os mesmos beneficiários que tiveram dificuldade em verbalizar que neste momento se encontram na classe baixa. Portanto, embora a autorrepresentação seja conclusiva, a dificuldade de expressão em traduzi-lo verbalmente, foi divergente. iv) Dificuldades na reestruturação da vida: a equipa técnica considerou que para os indivíduos conseguirem reestruturar a sua vida é necessário encontrarem um emprego. Porém esta é uma situação bastante complicada devido à idade dos beneficiários e às suas baixas qualificações. Os próprios beneficiários têm como ambição encontrar emprego, pois este é o facto determinante para a estabilidade económica e para a possível reestruturação da sua vida, contudo o fator idade é o maior obstáculo sentido pelos mesmos, pois sendo eles considerados velhos para trabalhar, mas simultaneamente, demasiado jovens para a reforma, acabam por ficar sem alternativas e a reestruturação da sua vida torna-se algo demasiado difícil de ser alcançado. Como se pode observar no Gráfico 1, o emprego é o fator essencial para que consigam reestruturar a sua vida. Para além de que a falta de poder económico torna-se bastante complicada e na maioria dos casos, pagar a prestação da habituação torna-se uma das principais preocupações e dificuldades sentidas pelos mesmos. 54 Gráfico 1Importância do emprego (1) (1)Gráfico construído com base nas conclusões retiradas nas entrevistas v) Expetativas sobre a trajetória virtual futura: a esmagadora maioria dos beneficiários acredita que o futuro será risonho, que a situação irá melhorar e que de facto conseguirão reestruturar a sua vida. O que farão para que tal aconteça remete para o que já estão a fazer no presente momento: continuar à procura de emprego e acreditar que o conseguirão encontrar e que a situação irá melhor e assim, consequentemente, sair da medida. Porém, a equipa técnica tem uma opinião menos positiva, acreditando que será bastante difícil conseguirem reestruturar a sua vida, e no que se refere a voltarem a ter a vida que tinham, consideram-no impossível. 3.5) Perfil-tipo dos beneficiários Assim é possível construir um perfil tipo dos beneficiários em estudo, como se pode observar no Gráfico 2. São indivíduos que ficaram desempregados involuntariamente e sofreram variadas consequências, nomeadamente, a nível pessoal na área da saúde, pois passaram a viver numa constante tristeza, tendo problemas de depressão; a nível familiar, o ambiente também se modificou, ficando afetado; a nível social, as possibilidades de sair e conviver diminuíram, o que fez com que levasse a um maior isolamento. São beneficiários que se sentem humilhados, têm consigo um constante sentimento de revolta e tristeza e ocultam a Inexistência de emprego Dificuldades Fazer face às despesas Pagar habitação Preocupações Idade Dificuldade na reestruturação da vida Ausência de emprego Ausência de poder económico 55 sua situação; contudo procuram ativamente emprego para conseguirem sair desta situação o mais breve possível. Relativamente à autorrepresentação, aqui existem dois tipos de beneficiários: por um lado há aqueles que conseguem verbalizar o facto de se situarem neste momento numa situação de pobreza e que passaram da classe média ou alta para a classe baixa. Enquanto que a outra parcela dos beneficiários não o consegue pronunciar, tentando encontrar sinónimos que transmitam a mesma ideia mas através de eufemismos. São sujeitos que têm bastantes dificuldades na reestruturação da sua vida devido à idade e às baixas qualificações, embora tentem procurar emprego, a concretização do mesmo tornase bastante árdua devido aos obstáculos já referidos anteriormente. Apesar de todas as dificuldades, são indivíduos que têm ambições e procuram um futuro melhor e acreditam que irão conseguir melhorar a sua situação e que esta irá mudar. Para tal, continuarão a fazer o que têm feito até então, insistindo na procura ativa de emprego, sem desistir. Gráfico 2Perfil-tipo (1) Momento de rutura Desemprego involuntário Negócio próprio Trabalho por conta de outrém Consequências Saúde Depressão Tristeza Familiar Desestruturação Social Diminuição de saídas culturais e de lazer Isolamento 56 (1)Gráfico construído com base nas conclusões retiradas nas entrevistas Sentimentos e atitudes Humilhação, vergonha e revolta Ocultação Procura ativa de emprego Autorrepresenta ção 2 tipos de beneficiários Dificuldade de verbalização Classe baixa Noção de situação de pobreza Verbalização passiva Classe baixa Noção de situação de pobreza Reestruturaçã o da vida Dificuldade Idade Habilitações Expetativas Otimismo Procura ativa de emprego 57 Conclusão A presente investigação procurou perceber de que forma a atual crise foi sentida por um determinado grupo da sociedade: indivíduos que tinham um emprego estável, mas que devido à conjuntura económica e financeira do país transitaram para uma situação de desemprego; são pessoas que tinham um padrão de vida satisfatório mas que devido ao desemprego involuntário tiveram que ajustar o modo de vida às novas necessidades e despesas; são sujeitos que procuram sair o mais rapidamente da medida, e por isso se enquadram nos beneficiários incomodados, uma vez que fazer parte da medida RSI é algo incomodativo e revoltante para a grande parte dos entrevistados. Embora a atual conjuntura económica tenha modificado, de uma forma ou de outra, a vida de todos os portugueses, foi neste grupo em específico que a investigação se centrou. Um dos objetivos do estudo consiste em perceber se os conceitos de pobreza, de exclusão e de desigualdades sociais se têm vindo a modificar. Assim, através destes beneficiários incomodados, foi possível perceber que estes conceitos têm assumido contornos diferentes. Isto é, a pobreza vivenciada atualmente é diferente da pobreza existente até há algum tempo atrás, uma vez que as caraterísticas daqueles que dela fazem parte se têm vindo a modificar; são caraterísticas que se prendem ao facto de estes indivíduos anteriormente terem construído ao longo da sua vida uma situação profissional estável, bem como uma situação económica e financeira capaz de satisfazer as necessidades básicas e assegurar um nível de vida digno, o que foi, posteriormente, posto em causa devido à atual situação de desemprego involuntário. Neste sentido, percebeu-se a noção que os indivíduos têm sobre a sua situação de pobreza, sendo este um dos objetivos da investigação. Isto é, o desconforto sentido pelos beneficiários com a palavra “pobreza”, fez com que se apercebessem que o conceito de nova pobreza lhes trazia um maior conforto, da mesma forma que toda a equipa técnica admitiu que estes beneficiários se encontram numa situação de nova pobreza. Assim pode-se concluir que o conceito de pobreza evoluiu, dando origem a um novo paradigma: a nova pobreza. Relativamente aos conceitos de exclusão social e desigualdades, percebeu-se que estes se interrelacionam, uma vez que, o facto de se estar excluído do mercado de trabalho implica para o indivíduo consequências ao nível das desigualdades sociais, nomeadamente: ausência de saídas culturais e/ou de lazer e consequentemente um maior isolamento e diminuição da rede 64 OMOTE, Sadao (2004) - Estigma no tempo da inclusão. Revista Bras. [Em linha] Nº3. Vol.10. P.287-308. [Consult. 1 dezembro 2014]. Disponível em: http://www.abpee.net/homepageabpee04_06/artigos_em_pdf/revista10numero3pdf/3omote.pd f RODRIGUES, Eduardo Vítor [et al.] (s/d)- A Pobreza e a Exclusão social: Teorias, Conceitos e Políticas Sociais em Portugal. p. 63-101. [Consult. 8 Outubro 2014]. Disponível em: http://ler.letras.up.pt/uploads/ficheiros/1468.pdf. VIEGAS, José Manuel Leite; COSTA, António Firmino da (org.) (1998) – Portugal, que modernidade? [Consult. 19 Agosto]. Disponível em: http://www.ics.ul.pt/rdonweb-docs/karinwall-publicacoes-1998-n2.pdf 65 Anexos 66 67 Anexo 1Grelha de observação Local: Data: Hora: Atendimentos e entrevistas Postura Forma de comunicar Linguagem fluente/ não fluente Recurso a código restrito /código elaborado Existência de alguma emoção Expressão facial Apresentação cuidada/pouco cuidada Observações adicionais 68 Anexo 2Guião de entrevista a beneficiários Guião de entrevista a beneficiários: - Investigadora: Patrícia Mota Moreira a concluir o último ano de mestrado em sociologia na Faculdade de Letras da Universidade do Porto - Contextualização: No seguimento de uma investigação qualitativa, a presente entrevista tem como objetivo perceber de que forma a atual crise afetou os indivíduos - É garantida total confidencialidade e anonimato e com a sua autorização a entrevista será gravada. Muito obrigada pela colaboração. I - Caracterização sociodemográfica: 1Sexo Masculino Feminino 2Idade ____ 3-Estado civil: Solteiro Casado/União de facto Divorciado/Separado Viúvo 4-Nível de escolaridade: Não sabe ler nem escrever Inferior ao 1º ciclo 2º ciclo 3º ciclo Ensino Secundário Médio Superior Licenciatura Pós-graduação Mestrado Doutoramento 69 5Condição perante o trabalho/emprego: Nunca trabalhou Primeiro emprego Desempregado Desempregado à procura de emprego Empregado Qual o emprego?___________________________ Outra. Qual? __________________________________________ II-Percurso até ao momento presente 6Com que idade começou a trabalhar e quais os empregos/trabalhos que teve ao longo da sua vida? 7Relativamente ao seu percurso de vida, considera ter vivido com uma certa estabilidade financeira e/ou económica? - Se sim, o que aconteceu no seu percurso para que essa estabilidade deixasse de existir? 8Quando se começou a aperceber que estava a transitar para uma situação de instabilidade económica? Qual foi a sua primeira preocupação? 9Qual a sua primeira atitude face ao que lhe estava a acontecer? Quais as medidas que tomou até se encontrar presente nesta medida? 10Há quanto tempo se encontra nesta situação de instabilidade? 11Quais as alterações mais significativas que ocorreram no seu quotidiano? III-Momento presente e autorrepresentação da situação 12Considera que a situação onde se encontra teve consequências a nível pessoal? Isto é, alteração do estado de saúde, diminuição do círculo de amigos, alteração do ambiente/estrutura familiar, repercussões nas vivências dos filhos, entre outros. 13De que forma vive o presente? 70 14Que medida pensa tomar para melhorar a sua situação futuramente? (encontrar emprego, melhorar o ambiente familiar, emigrar, entre outros) 15Considera que a sua situação atual conduziu a uma situação de pobreza (nova pobreza)? Se sim, o que realmente mudou na sua vida? 16Em que classe/ camada/ estatuto social (Classe baixa, média, alta) considera que se situa? Sente que o seu lugar na estrutura social mudou desde que se encontra nesta situação específica? 17Qual o seu sentimento face à sua situação profissional? (estigmatização, pobreza envergonhada) 18Como reage a esta situação perante a sociedade em geral e os amigos/família em particular? (assume, tenta esconder, tenta ativamente sair desta situação) 19Quais as expetativas que tem sobre o seu futuro? Considera que irá melhorar, continuar igual ou piorar? 71 Anexo 3Guião de entrevista a técnicos Guião de entrevista a técnicos: - Investigadora: Patrícia Mota Moreira a concluir o último ano de mestrado em sociologia na Faculdade de Letras da Universidade do Porto - Contextualização: No seguimento de uma investigação qualitativa, a presente entrevista tem como objetivo perceber de que forma a atual crise afetou os indivíduos que tiveram como consequência pedir ajuda social. Analisando assim uma situação específica, a nova pobreza, onde se situam indivíduos que tinham uma vida estável e que passaram a encontrar-se numa situação de instabilidade económica e/ou social. - Garanto total confidencialidade e anonimato e com a sua autorização a entrevista será gravada. Muito obrigada pela colaboração 1Qual o lugar que ocupa no protocolo do RSI do Centro Social de Soutelo? 2Considera que existem diferenças entre estes beneficiários específicos e os que já se encontram nesta medida há vários anos? Se sim, quais são as principais diferenças? (postura perante a vida social e profissional; sentimento de estigma/vergonha) 3Acredita que estamos perante uma situação de nova pobreza? Se sim, quais as principais características? E em que varia face ao tipo de pobreza anteriormente vivida? 4Quais as principais dimensões da vida dos beneficiários que são mais afetadas? Onde considera que estes têm maior dificuldade na reestruturação da sua vida? Na sua opinião, como podem eles restruturar a situação atualmente vivida? 5Considera que estes indivíduos se enquadram na classe média? Os indivíduos que se encontram na classe média atualmente têm as mesmas caraterísticas que os indivíduos que aí se enquadravam quando começou a trabalhar nesta área? 6Considera que o papel da comunicação social influência a forma como os “novos” beneficiários se comportam perante a medida? 72 Anexo 4Consentimento informado Caro/a Senhor/a Eu, Patrícia Mota Moreira, estudante do mestrado em sociologia na Faculdade de Letras da Universidade do Porto, venho por este meio informar que me encontro a realizar um estágio curricular no Centro Social de Soutelo, nomeadamente no protocolo do Rendimento Social de Inserção. O estágio tem como finalidade estudar as famílias da classe média que se situam na nova pobreza, isto é, famílias que recentemente tinham uma situação financeira relativamente estável e uma inserção profissional satisfatória e que de um momento para o outro se encontram no limiar da pobreza. Assim, procuro construir perfis socioeconómicos sobre os participantes percebendo a sua trajetória passada, como vivem o momento presente e como perspetivam o futuro, procuro ainda perceber de que forma a atual crise afetou as relações sociais e qual a noção que o indivíduo tem da sua situação de classe. De modo a conseguir obter as informações pretendidas, será realizada uma entrevista e posteriormente a análise dos dados. Assim, na informação obtida, não haverá nenhum elemento capaz de identificar os participantes e todas as entrevistas serão anónimas. Garanto que toda a informação será tratada com estrita confidencialidade. ---------------------------------------------------------------------------------------------------------- Eu, …………………………………………………………………. tendo lido e compreendido o objetivo e os processos do estudo, autorizo participar e que os dados recolhidos sejam utilizados no âmbito do presente estudo do estágio curricular. Assinatura __________________________________ Data ____/_____/2015 73 Anexo 5Análise horizontal da entrevista aos beneficiários Data: Entrevistado: Sexo: Idade: Escolaridade: Resumo Citações Palavras-chave Passado Situação profissional e rutura A maioria dos entrevistados encontrava-se numa situação de fragilidade económica devido ao despedimento, tanto devido à redução de pessoal, como devido ao encerramento da empresa. Uma quantia menos reduzida dos beneficiários era proprietária do seu próprio negócio, mas a crise levou ao encerramento. “(…) vim para comissionista juntamente com o meu pai que já era o magnata das vendas (…) fiquei eu e as coisas começaram a deteriorar-se e cada vez menos, menos e menos e a casa fechou.” (Entrevistado 2) “[…] portanto, começou no ano de 2010, ia fazer 25 anos de casada e […] até aí eu estava num cafezito, tinha um cafezinho, mas com a crise perdi, não é?” (Entrevistado 10) “O meu emprego de maior, posso dizer de maior sucesso, pronto foi numa empresa de mármores e granitos, tive lá 35 anos. Fui […] entrei para lá com 15 anos mais ou menos, sai de lá com 48 prai […] a fábrica portanto, a empresa entrou em insolvência em 2005. Eu em janeiro de 2005 vim embora da empresa depois de 35 anos lá a trabalhar.” (Entrevistado 14) Empresa Encerramento Crise 80 Auto consciencialização Situação de pobreza Uma parte dos entrevistados conseguiu afirmar com clareza que se encontrava numa situação de pobreza. Porém, outra parte teve bastantes dificuldades em admiti-lo, acabando por declara-lo com algum esforço, ou então encontrando outras palavras que definissem a sua situação. “Não! Eu entro naquele carenciado que não é pobre, né? Seria pobre se eu tivesse na rua, não ter onde dormir, não ter condição de comer todo o dia […] eu estou numa situação de dificuldade […] pobre no sentido, é assim […] o próprio governo ele ajuda o carenciado, porque o pobre mesmo é aquele que não tem o que comer, não tem uma ajuda, um auxílio […] pobre eu seria se não tivesse uma cabeça de saber gerir, contornar a situação, que a gente diz pobre de espírito, né?” (Entrevistado 3) “[…] estou, claro que estou. Então ela sozinha praticamente a trabalhar, como é que eu vou viver?” (Entrevistado 6) “Eu tenho um teto […] é um dia de cada vez, como lhe disse [risos]” (Entrevistado 9) “Se for […] não é pobreza extrema, mas se for olhar ao passado, aí vivo, vivo na pobreza.” (Entrevistado 14) “Não, pobreza não, não digo pobreza. É assim, pronto é uma situação remediável, não é pobreza, isso também não. Pronto é remediado [… ] é a gente querer alguma coisa e não ter, e a gente graças a Deus ainda tem alguma coisita, não é?” (Entrevistado 15) Pobreza Dificuldades 81 Classe social Parte dos beneficiários afirmou com clareza que se encontrava neste momento na classe baixa e que anteriormente se encontrava na classe média. Enquanto que outra parte teve alguma dificuldade em declarar que está neste momento na classe baixa, tentando arranjar outras formas de o definir. “Estou na classe baixa, pronto estou falido […] eu neste momento não tenho dinheiro para comprar uma peça de roupa, é verdade, a roupa que eu ando é tudo o que tinha anterior […] Eu acho que na média, acho que estava na média.” (Entrevistado 4) “Não sei […] numa classe normal.” (Entrevistado 10) Classe média Classe baixa Classe normal Sentimento e atitudes Existe uma certa vergonha na situação pela qual estão a passar, tentam esconder e sentem-se desconfortáveis com a mesma. Porém, outra parte não tenta esconder nem sente vergonha. O que todos têm em comum é a vontade de conseguir encontrar emprego e a determinação para que tal aconteça. “Esconder não […] não tenho problemas de todo, pessoas amigas minhas, família minha, sabem aquilo que aconteceu à minha situação.” (Entrevistado 1) “Escondo completamente. A única pessoa que sabe completamente e falo todos os dias é a minha mãe. Porque os outros apercebem-se, mas lá está, não se liga, não se visita, não […] porque para ligar gasta-se, para visitar gasta-se gasolina e eu não tenho possibilidades para isso.” (Entrevistado 5) “(…) custa-me viver assim, porque eu nunca vivi, nunca vivi, nunca pensei a chegar a esta situação. Nunca, nunca pensei mesmo.” (Entrevistado 6) “Sinto, sinto vergonha. Sinto, sinto vergonha porque é assim, a profissional que eu sou, que eu fui, da maneira como eu gosto da minha arte […] é frustrante, é triste, é muito triste a gente chegar a este ponto. Tenho que esconder, eu mostro sempre o meu sorriso e […] mas por dentro a gente Vergonha Ocultação Emprego 82 sente […] eu costumo dizer que nunca andava de cabecinha virada para o chão e agora dou por mim muitas vezes a olhar para o chão. Porque eu riome e «bom dia» e […] mas é para esconder se calhar o meu sentimento” (Entrevistado 8) “É assim, além disto eu tenho o programa dá, pronto eles dão-me 35 euros para alimentação. É assim, eu sinto mais vergonha aí se calhar, porque é assim, o rendimento mínimo ninguém vê nada. Recebo a carta em casa, pego na carta, vou aos correios e levanto. Quando tenho que ir ao programa dá, tenho um bocado de dificuldade em entrar lá dentro, isto é, entrar e que estejam lá pessoas conhecidas […] eu quando chego lá começo a olhar a ver se vejo gente conhecida, se vir gente conhecida não entro, espero que as pessoas se vão embora, tenho mais vergonha nisso.” (Entrevistado 12) “Claro, claro que muita gente […] não sei lidar bem com essa situação entende? E às vezes quando estou com alguém tento também não mostrar que estou muito mal.” (Entrevistado 13) Beneficiário RSI Tornar-se beneficiário do RSI foi para a esmagadora maioria, o último recurso, a última opção, à qual nunca pensaram ter que recorrer. Sentem-se com vergonha, constrangidos e desintegrados. “É assim, eu não me meto com ninguém […] é um bocado chato chegar a este capítulo, não é? Pah, mas é melhor aquele que nenhum (…) Isto é o que se chama chegar ao fundo do poço mesmo, morrer na praia […] a não ser que as coisas melhorem, mas não vejo […]” (Entrevistado 5) “Não, também não, não tenho nenhum problema com isso (…) e eu dizia sempre que sou dos pobres, eu estou mesmo no fundo da tabela, eu estou a viver do rendimento social. (…) Não posso fazer nada contra isso a não ser Última opção Desintegração Vergonha 83 procurar emprego e esperar que um dia apareça qualquer coisa aqui dentro ou fora daqui, já me é indiferente. Se calhar fora daqui até era melhor, como lhe digo porque com a mesma tarefa se calhar ganho muito melhor lá fora.” (Entrevistado 7) “Sinto vergonha, sinto vergonha em estar nesta situação. Foi a última coisa, cheguei a um ponto que disse «pah tenho que meter isto», não consigo.” (Entrevistado 16) “Aí tenho, aí tenho, não gosto porque me sinto muito marginalizada, sinto. Ainda lhe vou dizer mais, tenho vergonha no sentido, por exemplo, eu não gosto de ir a esta segurança social aqui de Rio Tinto, para já porque o próprio espaço em si é horrível e eu às vezes procuro ou a loja do cidadão, ou vou a Gondomar, ou não sei quê […] mas não gosto de me sentir beneficiária do RSI, não gosto porque sinto que a sociedade olha para as pessoas do RSI como quem […]. No outro dia, por exemplo, vou-lhe dar um exemplo que me aconteceu, fui à escola do meu filho e lá a funcionária que está no pbx, a senhora já me conhece e ela estava a falar de qualquer coisa, ela é funcionária da escola e acho que eles iam fazer greve ou fizeram e a senhora estava a comentar dos direitos ela e disse «pois as pessoas do RSI, não tem lógica nenhuma, porque há pessoas que nunca descontaram e agora estão a receber» e ela como me vê lá muitas vezes na escola, ela sabe que eu estou desempregada e ela sem querer virou-se para mim e disse «a senhora por acaso, desculpe lá, não é beneficiária do RSI, pois não?» e eu disse «não», 84 portanto aquele estigma tocou-me, percebe? Aí sim, sinto-me mal por ser beneficiária do RSI.” (Entrevistado 18) Futuro Expetativas e atitudes Consideram que a situação irá melhorar. Para tal, irão continuar a procurar emprego, para alguns a melhor solução será emigrar. “É levantar a cabeça e saber que vem um dia melhor né? Não estou ruim, existem pessoas piores, em situações piores, pessoas que nem estão tendo acesso ao rendimento e não conseguem trabalho.” (Entrevistado 3) “O que vou fazer é […] se eu tivesse trabalho, isto de certeza que já tinha, já tinha melhorado muito, pronto.” (Entrevistado 6) “As mesmas, continuar a procurar emprego, continuar à procura de emprego, qualquer coisa. Até, ao bocado falou da questão dos amigos, do círculo de amigos, eu tenho alguns amigos que até acabaram por ir lá para fora, porque são obedientes e acabaram por ouvir o conselho do primeiroministro [risos] e até nesse sentido comunicamos com alguma frequência para ver se me arranjam alguma coisa.” (Entrevistado 7) “Olhe eu acho que sim, apesar de tudo eu acho que sim. Eu acho que sim porque se a pessoa tiver força de vontade e não desistir das coisas (…)” (Entrevistado 18) Otimismo Emprego Emigração 85 Anexo 6Análise vertical das entrevistas aos beneficiários Data: Entrevistado: Sexo: Idade: Escolaridade: Resumo Citações Palavras-chave Passado Situação profissional e rutura Período temporal Preocupações e dificuldades 86 Principais alterações Presente Consequências pessoais Consequências sociais Consequências familiares 87 Auto consciencializaçã o Situação de pobreza Classe social Sentimento e atitudes Beneficiário RSI 88 Futuro Expetativas e atitudes 89 Anexo 7Análise horizontal das entrevistas aos técnicos Entrevistado: Data: Sexo: Papel profissional: Resumo Citações Palavras-chave Diferenças existentes entre os beneficiários As diferenças prendem-se com as expetativas, ambições, forma de estar e apresentação. Pois aqueles que já se encontram na medida há bastante tempo, têm uma atitude de passividade, baixas qualificações e não têm hábitos de trabalho, nem procuram sair da situação em que se encontram. Os beneficiários em estudo têm um sentimento de revolta, frustração e desânimo, pois pretendem sair da medida o mais rápido possível e tentam reintegrar no mercado de trabalho e não conseguem, para além de que têm qualificações mais “As principais diferenças prendem-se com o facto de serem pessoas que não se acomodaram à questão, ou seja, há aquele tipo de beneficiários que serão beneficiários a vida toda e não têm grandes perspetivas de futuro e estas pessoas podem viver infelizes pelo facto de terem uma vida estável e depois terem perdido, hum tentam sempre fazer alguma coisa ou então estão sempre motivados para fazer alguma coisa para mudar a sua situação. Por isso acho que nesse sentido têm características diferentes.” (Entrevistado 1) “Acho, por exemplo, como é que eu vou explicar, você tem uma família que já está na medida desde 1995 que é quando ela começou e não conseguiu sair, ou nós não conseguimos que ela saísse, as pessoas têm uma atitude de passividade e já e é muito difícil, aí a gente consegue, o trabalhar com essas famílias não conseguimos, ou conseguimos pouco. Quando chegamos aqui e dizemos «se aquela família fizer o milésimo daquilo que a gente lhe sugere nós já chegamos aqui todas contentes», mas isso acontece poucas vezes. Essas famílias que tiveram tudo ou que tiveram uma vida estável e que agora têm uma vida difícil porque perderam a casa, perderam o carro, perderam os amigos também, não é? Perderam isso tudo. Há uma atitude de […] eu não queria dizer Revolta/Passividade Qualificações Mudança/estagnação Expetativas 96 dia não dá para media por ou tem um carro, ou se tem uma mota, ou se tem uma propriedade, já não é por aí que se, que se mede a pobreza, não é?” (Entrevistado 2) “Sim, em muitas situações sim. Nós recebemos […] e é notório que nós recebemos cada vez mais famílias nesta situação. É como eu te dizia ao bocado, o RSI para eles já é a última linha e o RSI vai ser insuficiente para suprir […] aliás, o RSI na minha opinião é insuficiente para suprir as necessidades das famílias, sejam elas beneficiárias já de longa duração, sejam elas famílias que entram recentemente.(…) E de facto noto que é uma pobreza muito envergonhada, porque estas famílias têm muita dificuldade em chegar a um serviço e dizer «olhe eu não tenho isto isto, eu já não tenho aquilo, eu tenho dificuldade nisto, tenho dificuldade naquilo», porque lá está, é o estigma não é? Tu dizeres «eu não consigo ter o básico para os meus filhos» é uma coisa que dói, chegar a um serviço e dizer isso. Mas de facto é uma pobreza muito envergonhada.” (Entrevistado 9) Classe média São beneficiários que se encontravam na classe média e eventualmente alguns, na classe alta. Mas neste momento encontram-se na classe baixa. Se bem que não existe muita diferença entre classe média e classe baixa e a classe média acaba por ser um mito. ““Não [risos] eu acho que nem temos classe média neste momento. Eu acho que estão numa situação de classe baixa, baixa e pronto tudo depende de como se vê o conceito de classe neste momento, não é? […] eu costumo dizer que o Rendimento Social de Inserção não é […] é uma medida que se pretende inclusiva e é um medida ativa, porque foi a primeira medida neste país que quebrou o assistencialismo, não é? Porque a pessoa tinha que assinar um contrato de inserção em que tinha que definir um projeto de vida, se depois tinha resultados ou não, não interessa, mas as pessoas acabaram por começar a perceber que não é só receber apoios, tinha que haver outra forma de trabalhar e de se ver também as políticas sociais neste país, tanto para os técnicos como para as pessoas que o beneficiam.” (entrevistado 6) Classe baixa Classe média Mito 97 “Agora não, não é? […] já foram. São pessoas com carência económica.” (Entrevistado 8) “ (…) eu acho que não há nenhum fosso neste momento que separe a classe média da classe pobre ou da classe média alta ou da classe média baixa, não é? A que podemos chamar hoje a classe média alta são aqueles que têm um trabalho, que pagam, não dá para juntar dinheiro mas dá para sobreviver, ir vivendo não é? Privando de algumas coisas mas dá para ir vivendo. A classe média baixa será as pessoas que têm os rendimentos ou que vivem com os dinheiros contados e vivem de subsídios porque já não há grande, não há muita diferença, na minha opinião, não é?” (Entrevistado 2) Influência dos media no comportamento dos beneficiários Tanto o Estado como os mass media passam uma imagem muito negativa daquilo que os beneficiários são, pois são vistos como inúteis. O que acaba por influenciar os novos beneficiários e faz com que tenham um maior estigma e vergonha em recorrer aos serviços, pois receiam a comparação. “ De certa forma, a mensagem que é passada, pelo menos é essa a perceção que eu tenho, pela comunicação social é que quem beneficia desta medida não quer trabalhar. De certa forma foi passando, ao longo dos anos, esta ideia em relação às pessoas que beneficiam e que passa muito também no discurso político, não é? Mesmo a maneira como a legislação está feita, não é?” (Entrevistado 8) “Sim, sim, porque depois eles acabam por achar que vão ser julgados da mesma forma […] porque a partir do momento que começam a ser beneficiários desta medida, vão ser rotulados da mesma forma e vão ter o mesmo tratamento que os outros.” (Entrevistado 7) “E eu acho que em alguns casos há até aqui um auto reforço do estigma porque as pessoas estiveram do outro lado e tinham a sua própria opinião e agora estão deste lado e isto é muito frequente, sobretudo quando estamos a avaliar processos que estão agora a entrar pela primeira vez na medida, eu ouço muitas vezes isto «olhe eu nunca me pensei ver nesta situação, porque eu sempre achei que eles eram uns grandessíssimos malandros e agora eu estou aqui a pedir e eu não sou malandra, eu quero trabalhar, eu não quero isto para a Negatividade Influência Inutilidade Estigma Vergonha 98 minha vida, eu só estou a pedir porque eu neste momento não tenho outra opção […]” (Entrevistado 9) 99 Anexo 8Análise vertical das entrevistas aos técnicos Entrevistado: Data: Sexo: Papel profissional: Resumo Citações Palavras-chave Diferenças existentes entre os beneficiários Comportamento dos beneficiários (vergonha/estigma) 100 Principais alterações e/ou consequências na vida destes beneficiários Reestruturação da vida Pertença à nova pobreza destes beneficiários 101 Em que classe social os beneficiários se enquadram Influência dos media no comportamento dos beneficiários