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O Impacto das características da indústria na intensidade exportadora das empresas

Joana Vieira dos Reis

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O IMPACTO DAS CARACTERÍSTICAS DA INDÚSTRIA NA INTENSIDADE EXPORTADORA DAS EMPRESAS Joana Vieira dos Reis [email protected] Dissertação de Mestrado em Economia e Gestão Internacional FACULDADE DE ECONOMIA DA UNIVERSIDADE DO PORTO Orientadora: Rosa Maria Correia Fernandes Portela Forte Setembro de 2013 i Breve nota biográfica Joana Reis nasceu a 24 de agosto de 1988 na cidade de Coimbra. Em julho de 2011 licenciou-se em Economia pela Faculdade de Economia do Porto, instituição onde está a concluir o Mestrado em Economia e Gestão Internacional. A escolha deste Mestrado esteve relacionada, para além do interesse pessoal na área, pelo facto de, em setembro de 2010, ter iniciado a sua atividade profissional na empresa BSL Comércio Internacional, S.A. Este contacto com o comércio internacional, nomeadamente com as exportações, tornou-se um grande impulsionador na realização deste trabalho e, nomeadamente, na escolha do tema. ii Agradecimentos À minha orientadora, Professora Doutora Rosa Forte, agradeço a dedicação, as críticas, o incentivo e a disponibilidade. À Professora Doutora Anabela Carneiro, agradeço os comentários e sugestões no âmbito da estimação econométrica. À BSL agradeço a disponibilidade que me permitiu conciliar os estudos com o trabalho. À minha família e namorado agradeço a compreensão e carinho neste ano letivo de grande intensidade profissional e académica. iii Resumo O processo de globalização de economias e mercados tem conduzido as empresas a ponderarem a entrada nos mercados externos. A exportação é o modo mais simples de entrada em mercados estrangeiros, mas também o mais comum e o que requer menores recursos financeiros e humanos, daí ser importante estudar os fatores que contribuem, positiva ou negativamente, para a performance/intensidade exportadora das empresas. São vários os autores que têm estudado os fatores que influenciam a performance exportadora das empresas, mas são escassos os que abordam a relação entre as características da indústria e a intensidade exportadora. Desta forma, o presente estudo tem como objetivo central analisar o impacto que as características da indústria, nomeadamente a intensidade em capital, a intensidade em investigação e desenvolvimento (I&D), a produtividade do trabalho, a orientação para a exportação e a concentração, têm na intensidade exportadora das empresas, visando acrescentar evidência empírica a esta área de investigação relativamente negligenciada. Com base numa amostra de 1.425 empresas portuguesas para o período de 2008 a 2010 e recorrendo a técnicas de estimação com dados em painel, os resultados empíricos indicam que algumas características da indústria (produtividade do trabalho, orientação para exportação e concentração), bem como algumas características da empresa (produtividade do trabalho e dimensão) são importantes determinantes da intensidade exportadora das empresas. Em particular, conclui-se que a intensidade exportadora é positivamente influenciada pela produtividade do trabalho, tanto ao nível da indústria como ao nível da empresa, reforçando a necessidade dos governos e empresas direcionarem as suas políticas no sentido do aumento da produtividade, de modo a promover a competitividade nos mercados externos. Palavras-chave: Performance exportadora, intensidade exportadora, empresas portuguesas, características da indústria iv Abstract The process of globalization of economies and markets has led firms to consider entry into foreign markets. Exporting is the simplest foreign market entry mode, but also the most common, not requiring high financial and human resources. Hence it is important to study the factors that can affect the firms export intensity, measure commonly used to assess the export performance. Several authors have studied the factors that influence the firms export performance, but few have addressed the relationship between industry characteristics and export intensity. Thus, the objective of the present study is to analyze the impact of industry characteristics (capital intensity, R&D intensity, labor productivity, export orientation and concentration) on the firms export intensity, seeking to add empirical evidence on this relatively neglected research area. Based on a sample of 1,425 Portuguese firms during the period 2008-2010 and using panel data estimation, the empirical results show that some industry characteristics (labor productivity, export orientation, concentration), as well as firm characteristics (labor productivity, size) are important determinants of firms export intensity. In particular, we conclude that firm export intensity is positively affected by labor productivity (at industry and firm level), corroborating the idea that to improve competitiveness in foreign markets, firms and governments need to direct their policies towards increased productivity. Keywords: Export performance, export intensity, Portuguese firms, industry characteristics v Índice Breve nota biográfica ......................................................................................................... i Agradecimentos ................................................................................................................ ii Resumo ............................................................................................................................ iii Abstract ............................................................................................................................ iv Índice de Tabelas ............................................................................................................. vi Introdução ......................................................................................................................... 1 Capítulo 1 - Revisão de literatura ..................................................................................... 4 1.1. Considerações introdutórias ............................................................................... 4 1.2. Determinantes da performance exportadora ...................................................... 5 1.2.1. Fatores internos ........................................................................................... 6 1.2.2. Fatores externos ........................................................................................ 12 Capítulo 2 - As características da indústria e a intensidade exportadora das empresas. Considerações metodológicas ......................................................................................... 20 2.1. Considerações iniciais .......................................................................................... 20 2.2. Questão de investigação e especificação do modelo a estimar ............................ 20 2.3. Amostra de empresas, variáveis proxy e fontes de dados utilizadas .................... 21 2.4. Análise descritiva do comportamento das variáveis ........................................... 25 Capítulo 3 – As características da indústria e a intensidade exportadora das empresas. Resultados empíricos. ..................................................................................................... 29 3.1. Considerações iniciais .......................................................................................... 29 3.2. Resultados descritivos .......................................................................................... 29 3.2.1. Diferenças de médias ..................................................................................... 29 3.2.2. Correlações entre as variáveis ....................................................................... 31 3.3. Estimação econométrica...................................................................................... 32 Conclusões ...................................................................................................................... 36 Referências ...................................................................................................................... 38 ANEXO 1 ....................................................................................................................... 41 ANEXO 2 ....................................................................................................................... 42 ANEXO 3 ....................................................................................................................... 43 vi Índice de Tabelas Tabela 1: Síntese dos estudos que focam determinantes internos .................................... 7 Tabela 2: Número de estudos que focam determinantes externos .................................. 14 Tabela 3: Síntese dos estudos centrados nas características da indústria ....................... 19 Tabela 4: Variáveis independentes e respetivas proxies ................................................. 23 Tabela 5: Análise descritiva das variáveis ...................................................................... 27 Tabela 6: Diferenças de médias entre as empresas com I_Exp abaixo da média vs. acima da média – Teste não paramétrico de Kruskal-Wallis .................................................... 30 Tabela 7: Correlações entre as variáveis ......................................................................... 31 Tabela 8: Resultados da estimação (variável dependente: Intensidade Exportadora) .... 34 1 Introdução A exportação é uma atividade fundamental para a saúde económica das nações, uma vez que contribui significativamente para a melhoria da balança comercial, para o crescimento económico e melhoria do nível de vida (Guner et al. (2010), baseado em Czinkota e Ronkainen (1998)), promovendo e melhorando a capacidade de produção interna, criando novas oportunidades de emprego, acumulando reservas cambiais e melhorando a produtividade industrial (Moghaddam et al., 2012). As exportações representam mais de 10% da atividade económica mundial, sendo uma importante oportunidade estratégica para as empresas (Ahmed e Rock, 2012) pois são consideradas um modo relativamente fácil e rápido de entrada em mercados externos (Sousa et al., 2008), exigindo reduzidos recursos financeiros e humanos quando comparado com outras formas de entrada (Sousa, 2004). As exportações, segundo Moghaddam et al. (2012), apresentam inúmeros benefícios para as empresas, assegurando a sobrevivência e crescimento das mesmas. Por conseguinte, o estudo dos determinantes que influenciam a intensidade exportadora das empresas é essencial não apenas para as empresas mas também para os governos dos países que têm a responsabilidade de elaborar políticas de incentivo às exportações. De acordo com Estrin et al. (2008), a intensidade exportadora indica-nos a importância das exportações no total das vendas da empresa, não devendo ser confundida com a propensão à exportação que está relacionada com a escolha das empresas em exportar ou não exportar. São vários os autores que abordam a temática relativa aos fatores que influenciam a intensidade exportadora (e.g., Nazar e Saleem, 2009; Salomon e Shaver, 2005; Zou e Stan, 1998), no entanto, são poucos os que aprofundam o impacto que as características da indústria têm na mesma, representando uma lacuna na literatura (Guner et al., 2010). Zou e Stan (1998) procedem a uma revisão de literatura empírica, publicada entre 1987 e 1997, sobre os determinantes que influenciam a capacidade exportadora das empresas, dividindo-os em internos e externos e controláveis e não controláveis. De acordo com esta classificação as características da indústria são consideradas fatores externos e não controláveis. No entanto, estes autores fazem apenas uma breve referência a algumas características da indústria: a intensidade tecnológica e instabilidade. Similarmente, 2 Sousa et al. (2008) efetuam uma revisão de literatura empírica mais recente (publicada entre 1998 e 2005), sobre os determinantes que influenciam a performance exportadora das empresas.1 Com base nesta literatura os autores realçam, dentro dos fatores internos, o papel da estratégia de marketing das exportações, as características da empresa e da respetiva administração. Dentro dos fatores externos salientam as características do mercado interno e do mercado externo. Note-se que estes fatores podem ser desagregados, tendo os autores encontrado um total de 40 determinantes diferentes, dos quais 31 são fatores internos e 9 fatores externos. Contudo, Sousa et al. (2008) não fazem referência à relação entre as características da indústria e a intensidade exportadora das empresas, o que evidencia que este tema tem sido negligenciado pela literatura. Relativamente a estudos mais recentes (e.g., Iyer, 2010; Lu et al., 2012), constata-se que focam, essencialmente, as características da empresa, como a dimensão e a idade da mesma, descurando as características da indústria. Deste modo, o presente trabalho foca um determinante pouco abordado na literatura. O objetivo centra-se, assim, no estudo da relação entre as características da indústria e a intensidade exportadora das empresas, baseando-se numa amostra de empresas portuguesas. O foco no caso português deve-se ao facto de, pelo nosso conhecimento, apenas um estudo (Lages e Montgomery, 2005) analisar este país e com objetivos diferentes deste trabalho, porque se centra na relação entre a estratégia de adaptação de preços e a performance exportadora. Através do presente estudo pretende-se aprofundar o papel que as características da indústria poderão ter na intensidade exportadora das empresas, dando um importante contributo à literatura relacionada. O presente trabalho encontra-se organizado em capítulos como se evidencia de seguida. No Capítulo 1, através de uma revisão de literatura, pretende-se identificar os principais determinantes da performance exportadora das empresas e clarificar o modo como se espera influenciem essa performance, com especial destaque para a relação entre as características da indústria e a intensidade exportadora das empresas. No Capítulo 2 detalham-se algumas considerações de natureza metodológica, nomeadamente, o 1 Saliente-se que grande parte dos estudos que focam a performance exportadora das empresas (e.g., Zou e Stan (1998), Leonidou et al. (2002), Nazar e Saleem (2009)), utilizam a intensidade exportadora como medida dessa performance. Deste modo, poderemos considerar que os determinantes da performance são também determinantes da intensidade exportadora. 9 Também a revisão de Sousa et al. (2008) revela não existir consenso quanto ao tipo de relação entre a dimensão da empresa e a performance exportadora da mesma, existindo autores que defendem que empresas de maior dimensão possuem mais recursos e capacidades para exportar mais (Sousa et al. (2008), baseado em Bonaccorsi, (1992)) enquanto outros não encontram relação significativa entre a dimensão da empresa e a performance exportadora (Sousa et al. (2008), baseado em Moen (1999), Wolff e Pett (2000), Contractor et al. (2005)). Este desacordo verifica-se, igualmente, em estudos mais recentes. O estudo concretizado por Fu et al. (2009), para uma amostra de 36.941 empresas industriais chinesas (entre 1999 e 2003), conclui que a dimensão da empresa, medida pelo número de trabalhadores, afeta positivamente a intensidade exportadora da mesma. Em sentido contrário são as conclusões obtidas por Iyer (2010) e Ahmed e Rock (2012). Iyer (2010) conclui que a dimensão da empresa influencia negativamente a sua intensidade exportadora, pelo que grandes empresas tendem a ter uma elevada quota no mercado interno. Do mesmo modo, Ahmed e Rock (2012), através da análise de 133 empresas do setor secundário do Chile, concluem que a pequena dimensão das empresas contribui positivamente para a intensidade exportadora das mesmas. Note-se, ainda, que existe um elevado número de estudos que não encontram evidências de relação estatisticamente significativa entre a dimensão da empresa e a intensidade exportadora. Por exemplo, Pla-Barber e Alegre (2007), analisando uma amostra de 121 empresas francesas a operar na indústria biotecnológica, não consideram a dimensão da empresa como sendo um fator preponderante na questão da internacionalização das empresas, tendo encontrado relações estatisticamente insignificantes entre esta variável e a intensidade exportadora. Adicionalmente, Lu et al. (2012), através do estudo de uma amostra de 10 empresas australianas exportadoras de serviços, concluem que a dimensão da empresa não é um fator relevante para a performance exportadora de todas as empresas dessa amostra. Do mesmo modo, Ganotakis e Love (2012), com uma amostra de 412 empresas tecnológicas do Reino Unido, não encontraram relação entre a dimensão da empresa (medida pelo número de empregados) e a respetiva intensidade exportadora. Em suma, não podemos afirmar, inequivocamente, que a dimensão da empresa influencie de forma positiva a intensidade exportadora da mesma, dada a diversidade de resultados: dos 26 estudos que focam este determinante, 7 obtiveram 10 uma relação positiva, 4 obtiveram uma relação negativa e em 15 estudos os resultados obtidos não são estatisticamente significativos. Outra característica da empresa que apresenta resultados inconsistentes é a idade da mesma, expressa pelo número de anos de atividade (Zou e Stan, 1998). Estes autores apresentam dois resultados negativos e um estatisticamente não significativo relativamente à relação entre a idade da empresa e a intensidade exportadora. Dos dois estudos analisados por Sousa et al. (2008) acerca deste determinante, um apresenta resultado negativo e o outro obtém um resultado estatisticamente não significativo da sua relação com a performance exportadora. Estudos mais recentes concluem o mesmo. Iyer (2010) também obteve uma relação estatisticamente não significativa entre a idade da empresa e a intensidade exportadora. Por outro lado, Fu et al. (2009) e Ganotakis e Love (2012) encontraram uma relação negativa entre a idade empresa e a intensidade exportadora. Esta relação negativa entre a idade da empresa e as respetivas atividades internacionais, nomeadamente a exportação, é explicada por Ursic e Czinkota (1984). De acordo com estes autores, e para uma amostra de 126 empresas dos E.U.A., empresas mais recentes exportam entre 21 a 25% das suas vendas, em comparação com os 16% que as empresas mais antigas exportam. Estes autores, através de um questionário realizado às empresas da sua amostra, concluem também que todas as empresas com idade inferior a 20 anos realizam atividade exportadora, enquanto que somente 85% das empresas com idade igual ou superior a 20 anos o fazem. 3 Ursic e Czinkota (1984) afirmam que as empresas mais recentes que não tem recursos suficientes para competir no mercado interno, devem considerar a hipótese de se aventurarem internacionalmente, por forma a se tornarem mais experientes e competitivas no mercado interno. Ainda dentro do grupo dos fatores internos relacionados com as características da empresa, Sousa et al. (2008) encontram um impacto positivo na performance exportadora das empresas relacionado com a orientação da empresa para o mercado e as capacidades e competências da mesma. Empresas orientadas para o mercado são capazes de reconhecer e responder a mudanças e oportunidades globais (Sousa et al., 2008). Relativamente às capacidades e competências das empresas, os autores referem3 Ursic e Czinkota (1984) consideram empresas mais antigas, as que têm 20 ou mais anos de existência e empresas recentes as que têm menos de 20 anos. 11 se às capacidades de desenvolvimento de novos produtos, qualidade dos mesmos, apoio técnico e serviços pós-vendas, amplitude da linha de produtos, tal como a competitividade na relação custo/preço e conhecimento de clientes, não tendo sido encontrada uma relação consensual com a performance exportadora nos estudos analisados por Zou e Stan (1998). No entanto predomina a relação positiva entre este determinante e a performance exportadora no conjunto dos estudos analisados por Zou e Stan (1998) e Sousa et al. (2008). Considerando as características da administração, Zou e Stan (1998) focam fundamentalmente dois determinantes: a experiência internacional e o nível de educação/experiência. Por sua vez, a revisão de Sousa et al. (2008) acrescenta ainda o compromisso em exportar. Os autores evidenciam a existência de uma relação positiva entre o compromisso (em exportar) dos gestores e a performance exportadora, levando os gestores a planearem cuidadosamente o plano de entrada em novos mercados, reduzindo a incerteza. No que diz respeito à relação entre a experiência internacional dos gestores e a performance exportadora das empresas os resultados não são unânimes. Dos estudos analisados por Zou e Stan (1998), a maioria obteve uma relação positiva, pois a perceção e identificação de oportunidades internacionais é maior. Sousa et al. (2008) apresentam dois resultados: relação positiva (Sousa et al. (2008), baseado em Montgomery (2005)) e ausência de evidências que determinem qualquer tipo de relação entre este determinante e a performance exportadora (Sousa et al. (2008), baseado em Contractor et al. (2005)). Por sua vez, Suárez-Ortega e Álamo-Vera (2005), confirmam a existência de uma relação positiva entre a experiência internacional dos administradores (tempo que os administradores estiveram no estrangeiro) e a performance exportadora das empresas. Suárez-Ortega e Álamo-Vera (2005) estudam os recursos e as capacidades da empresa, bem como as características, atitudes e perceções da administração para uma amostra de 286 empresas espanholas da indústria vinícola, concluindo que a experiência da empresa no desenvolvimento do mercado geográfico, ou seja, a experiência internacional, se encontra positivamente relacionada com a intensidade exportadora. Deste modo, a maioria dos estudos analisados refere uma relação positiva entre a experiência internacional dos gestores e a intensidade exportadora das empresas. 12 Quanto ao nível de educação dos administradores, a relação encontrada relativamente à performance exportadora é positiva, segundo estudos analisados por Sousa et al. (2008), Nazar e Saleem (2009) e Ganotakis e Love (2012). Ganotakis e Love (2012) consideram que tanto a educação em geral, como a mais específica (em negócios, por exemplo), influenciam positivamente a intensidade exportadora. As competências da administração provenientes da educação desempenham um papel muito importante no sucesso comercial no estrangeiro, isto porque o nível de educação dos administradores os torna mais habilitados a desenvolver práticas com maior eficácia na exploração comercial dos produtos (Ganotakis e Love, 2012). 1.2.2. Fatores externos Dentro dos fatores externos influenciadores da performance exportadora das empresas (ver Tabela 2), os que mais frequentemente são mencionados, de acordo com Sousa et al. (2008), são as características do mercado interno (como a assistência às exportações e o ambiente hostil do mercado) e as características do mercado externo (como as semelhanças culturais, a competitividade do mercado e os fatores político-legais) . Para além destes, Zou e Stan (1998) também referem duas características da indústria: a intensidade tecnológica e a instabilidade da indústria. A relação entre as características do mercado externo e do mercado interno e a performance exportadora não é consensual. Em relação às características do mercado interno, Sousa et al. (2008) concluem que a assistência às exportações apresenta uma relação positiva com a performance exportadora. Este resultado tem como fundamento o facto dos programas de assistência às exportações funcionarem como recurso externo através do qual a empresa ganha experiência e conhecimento a ser aplicado na internacionalização (Sousa et al., 2008). Por outro lado, e ainda segundo Sousa et al. (2008), ambientes internos hostis, considerados ambientes de risco e de stress, estão negativamente relacionados com a performance exportadora, sustentando que empresas a operar em ambientes de risco apresentam pior performance exportadora. As características do mercado externo, apresentam resultados não consensuais para a relação com a performance exportadora. Quanto ao ambiente político-legal do mercado externo, espera-se que este represente um papel significativo (negativo/positivo, 13 conforme se verifica na Tabela 2) nas exportações e na performance da empresa afetando as operações da mesma através de barreiras à entrada, leis ou pressões. Sousa et al. (2008, pp. 361) baseados em Beamish (1993) afirmam que “o governo de um país estrangeiro, por exemplo, pode impor controlos de câmbio, o que pode ter um importante impacto no reinvestimento, financiamento e decisões de repatriação. Como resultado, as leis e a pressão do governo estrangeiro podem desempenhar um papel importante na performance, aumentando ou reduzindo a competência e eficiência da empresa.” Os resultados relacionados com as semelhanças culturais também não são consensuais, sendo maioritariamente positivos, pois semelhanças culturais representam maior probabilidade de sucesso do que as diferenças culturais. As divergências culturais aumentam as dificuldades na obtenção de informações sobre o mercado externo, tal como o risco de fracasso. Sousa et al. (2008) referem também que existe uma falha na literatura relativamente à definição desta variável. Ainda dentro das características do mercado externo, Sousa et al. (2008) apresentam resultados mistos para a relação entre a competitividade do mercado externo e a performance exportadora das empresas. O resultado positivo foi obtido por Lages e Montgomery (2005), que explicam esta relação pelo facto dos mercados menos competitivos serem associados a países menos desenvolvidos onde existe maior instabilidade de mercado e o sucesso se torna mais difícil de alcançar. Outra explicação avançada por Lages e Montgomery (2005) refere-se ao facto das empresas tenderem a esforçar-se menos em mercados mais fáceis de operar. Daí que para estes autores a competitividade esteja positivamente relacionada com a performance exportadora. Em relação às características da indústria (ver Tabelas 2 e 3), objetivo central do presente estudo, verifica-se que os estudos existentes encontraram evidência de uma relação positiva ou estatisticamente não significativa entre a instabilidade da indústria e a performance exportadora das empresas (intensidade exportadora). Zou e Stan (1998) consideram o risco, a previsibilidade e as mudanças tecnológicas como fatores determinantes desta variável e, deste modo, baseiam-se nos estudos de Das (1994) e Lim et al. (1996) para obterem estas conclusões. Por sua vez, Gao et al. (2010), basedos numa amostra de 18.644 empresas chinesas, com dados em painel de 2002 a 2005, 14 obtêm também uma relação estatisticamente não significativa entre a instabilidade da indústria (medida pelo somatório das flutuações das quotas de mercado de cada empresa numa indústria específica) e a intensidade exportadora. Apesar deste resultado não significativo, estes autores afirmam que, quando o mercado interno é estável, as empresas têm menos motivação para exportar, pois o risco de se aventurarem no estrangeiro é elevado comparando com o risco de competir no mercado interno. Tabela 2: Número de estudos que focam determinantes externos Determinantes Proxy Zou e Stan (1998) Sousa et al (2008) Estudos recentes analisados + - 0 + - 0 + - 0 Características do mercado interno Assistência à exportação E.g., programas patrocinados pelo Estado 5 Ambiente hostil Ambientes de risco, de stress 1 Características do mercado externo Ambiente político-legal Nível de intervenção dos governos no mercado 2 3 Semelhanças culturais Semelhanças nas dimensões socioculturais 2 1 1 Competitividade Forças que determinam a intensidade competitiva (E.g., número de concorrentes, preço, serviço, entrega) 3 1 1 1 Características da indústria Instabilidade Taxas de mudanças na tecnologia, previsibilidade, grau de risco, flutuações das quotas de mercado 2 1 1 Intensidade em capital Total do ativo sobre volume de vendas 3 Intensidade em I&D Rácio das despesas em I&D sobre o total das vendas 1 1 Concentração Vendas das maiores empresas 1 2 Ciclo de vida Empresas com crescimento anual superior a 10% 1 Produtividade do trabalho Volume de vendas por trabalhador 1 Orientação para exportação Percentagem de exportadores na indústria 2 1 Legenda: (+) relação positiva entre o determinante e a performance exportadora, (-) relação negativa, (0) relação estatisticamente não significativa. Fonte: Cálculos próprios, baseados em Zou e Stan (1998), Sousa et al. (2008) e na revisão própria de trabalhos mais recentes mencionados na lista de referências. 15 Lim et al. (1996), baseando-se num questionário realizado a 438 empresas dos Estados Unidos da América (E.U.A.), comprovam a relação positiva entre as mudanças nos produtos (um dos determinantes da instabilidade da indústria, mais concretamente das mudanças nas condições globais de negociação) e o sucesso das exportações (medido pela intensidade exportadora). Por sua vez, encontraram uma relação estatisticamente não significativa entre as mudanças tecnológicas, económicas e sociopolíticas e o sucesso das exportações. Das (1994), através de uma análise discriminatória para uma amostra de 58 empresas indianas, confirma uma forte associação entre os níveis de conflito e a performance exportadora (medida pela percentagem de vendas para exportação). Segundo o autor, a instabilidade da indústria é medida por mudanças rápidas ou imprevisíveis, flutuações cíclicas ou sazonais, risco elevado, nível de competição e a entrada de concorrentes na indústria. Estudos mais recentes (Fu et al., 2009; Guner et al., 2010 e Iyer, 2010) enfatizam a temática das características da indústria e contribuem para alargar o campo de análise do presente estudo. Guner et al. (2010) analisam o impacto de cinco características da indústria (intensidade em capital, intensidade em investigação e desenvolvimento (I&D), produtividade do trabalho, nível de concentração e ciclo de vida) na performance exportadora (medida pelo peso das vendas para exportação no total das vendas da empresa, ou seja, a intensidade exportadora) das empresas de três países (560 empresas alemãs, 580 empresas japonesas e 545 empresas dos E.U.A.). Segundo Guner et al. (2010), baseados em Czinkota e Ronkainen (1998), a intensidade em capital contribui para a sofisticação tecnológica das operações, redução de custos, vantagens operacionais e maior facilidade de entrada em mercados externos. Contudo os resultados obtidos por Guner et al. (2010) evidenciam que, para os três países, a intensidade em capital (medida pelo total do ativo sobre o total das vendas) apresenta uma relação negativa com a intensidade exportadora. O mesmo resultado é apresentado no estudo de Zhao e Zou (2002), para uma amostra de 999 empresas exportadoras chinesas, e por Fu et al. (2009), também para uma amostra de empresas chinesas. Fu et al. (2009, p.11) afirmam que uma menor intensidade em capital representa uma maior intensidade em trabalho, ou seja, empresas em indústrias intensivas em trabalho tendem 16 a apresentar maior intensidade exportadora, confirmando a ideia de que a expansão das empresas chinesas depende fortemente da sua vantagem comparativa em termos de trabalho abundante e barato. A intensidade em I&D é outro fator suscetível de influenciar a intensidade exportadora. Medida pelo rácio do total das despesas em I&D sobre o total das vendas, Guner et al. (2010) constatam que esta variável influencia positivamente a performance exportadora das empresas dos três países em análise. Guner et al. (2010) explicam este resultado pois o investimento em I&D capacita a empresa a ser mais competitiva em áreas como o desenvolvimento do produto, eficiência operacional e redução de custos. Por sua vez, Ito e Pucik (1993), para uma amostra de 271 empresas japonesas, obtiveram um resultado positivo para a relação entre a intensidade em I&D da indústria e as vendas para exportação, não tendo encontrado relação entre a intensidade em I&D da indústria e a percentagem de vendas para exportação, ou seja, a intensidade exportadora. Finalmente, Ganotakis e Love (2012) apresentam uma relação positiva entre a intensidade em I&D da empresa (medida pela percentagem da despesa em I&D no total da despesa) e a intensidade exportadora da empresa. Também a concentração da indústria (medida pela proporção das vendas maiores empresas no total das vendas da indústria) pode influenciar a performance exportadora das empresas. Segundo Guner et al. (2010), taxas de concentração mais elevadas podem afetar positivamente a performance exportadora, pois as empresas dominantes detêm recursos necessários para competir internacionalmente. Iyer (2010), conclui que esta variável não tem poder explicativo, ou seja, não é estatisticamente significativa para explicar a intensidade exportadora. No entanto, este autor, baseado em Cloughety e Zang (2008) e Zhao e Zou (2002) apresenta, na sua revisão de literatura, perspetivas contraditórias no que respeita à relação entre a concentração da indústria e a intensidade exportadora. Por um lado, a concentração da indústria pode permitir que as empresas obtenham economias de escala, sendo este um fator relevante na entrada das empresas nos mercados externos. Por outro lado, a concentração também pode resultar num menor incentivo ao esforço por parte da empresa, ou seja, menor incentivo na identificação de novos mercados, na diversificação dos seus produtos e em melhorar a performance exportadora da empresa. De acordo com este último ponto de vista está o estudo de Zhao e Zou (2002) que apresenta uma relação negativa entre a concentração 17 da indústria e a intensidade exportadora da empresa. Fu et al. (2009), também apresentam um resultado estatisticamente não significativo para a relação entre a concentração da indústria (medida pelo coeficiente de Herfindal) e a intensidade exportadora das empresas. Relativamente à produtividade do trabalho (medida pelo volume de vendas sobre o número de trabalhadores da empresa), Guner et al. (2010) constatam uma influência positiva na intensidade exportadora das empresas mas somente no Japão, sendo negativa nos outros países. Ou seja, somente no Japão as empresas em indústrias mais produtivas são as que exportam maior percentagem das suas vendas. De acordo com Guner et al. (2010), também o ciclo de vida da indústria poderá influenciar a intensidade exportadora das empresas. Citando Porter (1990), Guner et al. (2010, p. 128) referem que “no comércio internacional, as indústrias em crescimento têm uma vantagem competitiva natural, pois possuem uma vantagem First mover, até que a tecnologia seja difundida”. No entanto, medindo o ciclo de vida pelo crescimento das vendas da indústria, Guner et al. (2010) concluíram que só tem influência positiva nas empresas dos E.U.A. que apresentem taxas de crescimento anuais acima dos 10%. Por último, e ainda abordando as características da indústria, Fu et al. (2009) concluem que empresas em indústrias orientadas para o exterior são mais propensas a exportar e apresentam maior intensidade exportadora. Por um lado, as empresas não exportadoras são atraídas para a exportação, influenciadas pelas empresas exportadoras e, por outro, as empresas exportadoras contribuem para a redução de custos com a exportação devido à rede de informação sobre mercados externos e emprego que criam (Fu et al., 2009). Gao et al. (2010) também encontram uma relação positiva entre a orientação para a exportação e a intensidade exportadora, defendendo que as empresas podem obter benefícios com a exportação como economias de escala ou diversificação de receitas. Estes autores afirmam também que é comum as empresas imitarem os comportamentos exportadores de outras empresas da mesma indústria e que empresas exportadoras podem servir como um sinal de atratividade para outras empresas que queiram exportar. Por outro lado, Iyer (2010) apresenta uma relação estatisticamente não significativa entre a orientação para a exportação da indústria e a intensidade exportadora, apesar de, 18 na sua revisão de literatura, concordar que as empresas que concorrem com empresas exportadoras têm um maior incentivo a exportar. Resumindo, e como se pode verificar pelas Tabelas 1 e 2 e 3, apesar da quantidade e qualidade dos estudos existentes sobre os determinantes da performance/intensidade exportadora das empresas, são poucos os estudos que focam as características da indústria. Esta lacuna na literatura faz com que o presente estudo seja relevante neste âmbito. 25 Com base na revisão de literatura exposta na secção anterior, espera-se que a relação entre as variáveis intensidade em investigação e desenvolvimento e orientação para a exportação e a intensidade exportadora seja positiva, que a relação entre as variáveis intensidade em capital, produtividade do trabalho e concentração e a intensidade exportadora seja ambígua (positiva ou negativa), e que a relação entre a intensidade em capital e a intensidade exportadora seja negativa à semelhança dos estudos de Ito e Pucik (1993), Zhao e Zou (2002), Fu et al. (2009), Gao et al. (2010), Iyer (2010) e Guner et al. (2010), (ver Tabelas 3 e 4). Pode-se verificar na Tabela 4 que, relativamente às variáveis de controlo, os resultados esperados não são tão lineares. Espera-se uma relação negativa entre a idade da empresa e a intensidade exportadora e uma relação positiva entre a produtividade do trabalho da empresa e a intensidade exportadora. Relativamente à relação entre a dimensão da empresa e a intensidade exportadora, não é possível antecipar o tipo de relação, uma vez que, de acordo com Zou e Stan (1998), Pla-Barber e Alegre (2007), Sousa et al. (2008), Fu et al. (2009), Iyer (2010), Ahmed e Rock (2012), Lu et al. (2012) e Ganotakis e Love (2012), tanto pode ser positiva como negativa. 2.4. Análise descritiva do comportamento das variáveis De forma a compreender o comportamento das variáveis do modelo, torna-se útil analisar as suas estatísticas descritivas, tanto a nível global, como a nível setorial. Como suporte à análise global a Tabela 5 descreve os valores médios, mínimos e máximos, assim como o desvio padrão de todas as variáveis do modelo. A Tabela 5 revela uma elevada discrepância entre as empresas em termos de intensidade exportadora, idade, dimensão e produtividade do trabalho. Em termos das variáveis calculadas para a indústria/setor também se notam diferenças significativas. Note-se ainda que para além das diferenças a nível global, as diferenças setoriais são igualmente significativas. Para esta análise consideram-se as tabelas A2 e A3 constantes do Anexo 2 e 3, respetivamente, com valores agregados por setor e sem distinção anual (média dos três anos em estudo: 2008 a 2010). A variável dependente, intensidade exportadora da empresa, tem valor médio global de 45,79%, o que significa que, em média, 45,79% do total das vendas das empresas da 26 amostra têm como destino a exportação. Tendo em atenção a tabela A2 do Anexo 2, verifica-se que o setor 18 (Impressão e reprodução de suportes gravados) é o setor cujas empresas apresentam menor intensidade exportadora (apenas 6,2%) e o setor 14 (Indústria do vestuário) é aquele cujas empresas apresentam maior intensidade exportadora (78,1%). A discrepância entre o valor mínimo (0,0004) e o valor máximo (1,0000) desta variável significa que existem empresas com vendas muito reduzidas para o exterior (apenas 0,04%) e, por outro lado, empresas em que todas as vendas têm como destino único a exportação. Em relação à variável idade, a média global das empresas dos 20 setores é de 18,6625 anos de existência, sendo o setor 17 (Fabricação de pasta de papel e cartão e seus artigos) aquele que inclui empresas com mais anos de laboração, com média de idades das empresas que o constituem de 23,467 anos, e o setor 26 (Fabricação de equipamentos informáticos, equipamento para comunicações e produtos eletrónicos e óticos) composto por empresas mais recentes, com média de 10,538 anos de existência. Relativamente à dimensão da empresa, a média global é de aproximadamente 42 trabalhadores por empresa, sendo que as empresas do setor 29 (Fabricação de veículos automóveis, reboques, semirreboques e componentes para veículos automóveis) são as que apresentam um maior número de trabalhadores (média de aproximadamente 225 trabalhadores por empresa) e o setor 20 (Fabricação de produtos químicos e de fibras sintéticas ou artificiais, exceto produtos farmacêuticos) o que engloba as empresas com menor média, com aproximadamente 24 trabalhadores por empresa. Em relação à produtividade do trabalho das empresas, o setor que engloba as empresas com menor valor de vendas por empregado é o 31 (Fabricação de mobiliário e de colchões), com valor médio de 56,726 e o setor cujas empresas apresentam maior produtividade é o 21 (Fabricação de produtos farmacêuticos de base e de preparações farmacêuticas) com volume médio de vendas por trabalhador na ordem dos 345,833. Esta variável é a que apresenta maior diferença entre o valor mínimo de volume de vendas por trabalhador (0,2199) e o valor máximo (6.710,0000), evidenciando uma elevada dispersão dos valores de produtividade das empresas incluídas na amostra. Analisando as características da indústria, constata-se que, globalmente, o valor médio da intensidade em capital é de 1,444, sendo o setor 17 o mais intensivo em capital e o 26 o menos intensivo. Relativamente à intensidade em I&D, o valor médio global é de 27 0,0065, sendo o setor 14 o que apresenta valores mais reduzidos desta variável e o setor 21 o que apresenta maior intensidade em I&D. Tabela 5: Análise descritiva das variáveis Dimensão Determinante Proxy Média Máximo Mínimo Desvio padrão Intensidade exportadora (variável dependente) Peso das vendas para exportação no total das vendas da empresa 0,4579 1,0000 0,0004 0,3604 Indústria Intensidade em capital Total do ativo no total das vendas da indústria 1,4440 3,0156 0,6227 0,4540 Intensidade em investigação e desenvolvimento Rácio das despesas em projetos de desenvolvimento sobre o total das vendas da indústria 0,0065 0,1073 0,0012 0,0060 Orientação para exportação Percentagem de empresas exportadoras na indústria 0,0881 0,2661 0,0310 0,0534 Produtividade do trabalho Volume de vendas da indústria por trabalhador 87,4678 321,5275 24,6297 57,1597 Concentração Rácio das vendas das 4 maiores empresas da indústria no total das vendas da indústria 0,2106 0,7486 0,0735 0,1403 Empresa Idade Número de anos de atividade da empresa 18,6625 92,0000 0,0000 13,4609 Dimensão Número de trabalhadores da empresa 42,0227 3.365,0000 1,0000 112,2563 Produtividade do trabalho Volume de vendas da empresa por trabalhador 101,4906 6.710,0000 0,2199 204,0944 Fonte: Cálculos próprios no programa EViews Por sua vez, o setor 11 (Indústrias das bebidas) é o mais orientado para o exterior, com uma percentagem de empresas exportadoras na ordem dos 26% e o setor 10 (Indústrias alimentares) o menos orientado para o exterior (3,2% de empresas exportadoras), sendo a média global desta variável de 8,81%. Em relação à produtividade do trabalho, o valor médio apresentado é de 87,468, sendo o setor 20 o mais produtivo e o setor 14 o menos 28 produtivo. Este último é o setor que apresenta maior intensidade exportadora e menor intensidade em investigação e desenvolvimento. O setor que apresenta menor intensidade em capital (setor 26) é também o que apresenta maior grau de concentração. As vendas das quatro maiores empresas do setor 26 representam 71,9% das vendas totais do setor. O setor 14 é o que apresenta menor grau de concentração, ou seja, as vendas das 4 maiores empresas deste setor representam somente 8,7% das vendas de todas as empresas do setor. No conjunto dos setores analisados, o nível de concentração médio atinge os 21,06%. 29 Capítulo 3 – As características da indústria e a intensidade exportadora das empresas. Resultados empíricos. 3.1. Considerações iniciais Neste capítulo descrevem-se os resultados da estimação dos modelos econométricos utilizados para analisar o impacto das características da indústria na intensidade exportadora das empresas. Na Secção 3.2.1. apresentam-se as análises baseadas na estatística descritiva das diferenças de médias recorrendo ao teste não paramétrico de Kruskal-Wallis. Na Secção seguinte (Secção 3.2.2), procede-se a uma breve análise das correlações entre as variáveis. Finalmente, na Secção 3.3, apresentam-se os resultados da estimação econométrica. 3.2. Resultados descritivos 3.2.1. Diferenças de médias Antes de proceder à análise multivariável, é útil realizar uma análise exploratória que permita ‘conhecer’ melhor os dados. Dada a importância para a análise da variável intensidade exportadora das empresas (I_Exp), pré-definiram-se dois grupos de empresas: empresas cuja intensidade exportadora se situa abaixo da média (0,4579, conforme a Tabela 5) e empresas cuja intensidade exportadora se situa acima da média. Deste modo, pretende-se perceber se os valores médios das variáveis independentes diferem para valores da intensidade exportadora acima e abaixo da média. Para concretizar esta análise foi utilizado o teste não paramétrico de Kruskal-Wallis, adequado a esta amostra por se tratar de um número relativamente elevado de variáveis independentes (Maroco, 2007). Este permite testar a hipótese nula de que as médias associadas a diferentes amostras de uma mesma população são iguais (Maroco, 2007). Desta forma, possibilita determinar se existe evidência de diferenças estatisticamente significativas entre as médias das diferentes variáveis em análise para as empresas de cada um dos grupos. Com base no teste de Kruskal-Wallis para as diferenças de médias entre as empresas com intensidade exportadora acima e abaixo da média (ver Tabela 6), verificam-se diferenças estatisticamente significativas nas variáveis intensidade em capital, 30 intensidade em investigação e desenvolvimento, produtividade do trabalho, concentração, dimensão e idade, sugerindo que estas variáveis deverão ser relevantes na explicação da intensidade exportadora. Somente para duas variáveis (orientação para exportação da indústria e produtividade do trabalho da empresa) a hipótese nula correspondente à igualdade das médias das variáveis independentes para os dois grupos de empresas não é rejeitada. Este resultado poderá indicar que estas duas variáveis não são relevantes na explicação da intensidade exportadora das empresas, aspeto que irá ser aprofundado na Secção 3.3. Tabela 6: Diferenças de médias entre as empresas com I_Exp abaixo da média vs. acima da média – Teste não paramétrico de Kruskal-Wallis Dimensão Determinante Proxy Todas as empresas Empresas com I_Exp abaixo da média Empresas com I_Exp acima da média K-W (pvalue) Indústria Intensidade em capital Total do ativo no total das vendas da indústria 1,4440 1,4974 1,3826 0,000 Intensidade em investigação e desenvolvimento Rácio das despesas em projetos de desenvolvimento sobre o total das vendas da indústria 0,0065 0,0072 0,0057 0,000 Orientação para exportação Percentagem de empresas exportadoras na indústria 0,0881 0,0912 0,0845 0,091 Produtividade do trabalho Volume de vendas da indústria por trabalhador 87,4678 96,7038 76,8527 0,000 Concentração Rácio das vendas das 4 maiores empresas da indústria no total das vendas da indústria 0,2106 0,2258 0,1932 0,000 Empresa Dimensão Número de trabalhadores da empresa 42,0227 34,9996 50,0945 0,000 Idade Número de anos de atividade da empresa 18,6625 19,4357 17,7738 0,000 Produtividade do trabalho Volume de vendas da empresa por trabalhador 101,4906 93,4917 110,6839 0,466 Nota: Nível de significância de 5%. Fonte: Cálculos próprios no programa SPSS 31 Para todas as variáveis para as quais se rejeita a hipótese nula, com a exceção da dimensão da empresa, o valor médio da variável para as empresas com intensidade exportadora abaixo da média é superior ao valor médio da variável para as empresas com intensidade exportadora acima da média. Para o caso da intensidade em capital, por exemplo, as empresas com intensidade exportadora inferior à média apresentam uma intensidade em capital média de 1,4974, enquanto que as empresas com intensidade exportadora superior à média apresentam intensidade em capital de 1,3826. Somente a variável TRb apresenta o resultado oposto, isto é, as empresas com intensidade exportadora acima da média apresentam dimensão média superior (média de 50,0954), enquanto que as empresas com intensidade exportadora abaixo da média apresentam uma dimensão inferior (média de 34,9996 trabalhadores). 3.2.2. Correlações entre as variáveis Para complementar o teste de evidência estatística efetuado na secção anterior, foi concretizada uma breve análise da matriz de correlação entre as variáveis relevantes (Tabela 7), sendo a análise das correlações útil para avaliar em que sentido e com que intensidade duas variáveis quantitativas estão relacionadas. Tabela 7: Correlações entre as variáveis (1) (2) (3) (4) (5) (6) (7) (8) (9) (1) I_Exp 1,000 (2) I_CP -0,152 1,000 (3) I_ID -0,152 0,318 1,000 (4) Or_Exp -0,064 0,481 0,325 1,000 (5) P_TRb -0,198 0,144 0,315 0,599 1,000 (6) CR4 -0,139 0,308 0,455 0,693 0,818 1,000 (7) IDd -0,086 0,118 0,019 0,070 0,062 0,055 1,000 (8) TRb 0,065 -0,089 0,044 -0,016 0,081 0,081 0,064 1,000 (9) P_TRbE 0,046 -0,010 0,051 -0,006 0,143 0,083 -0,058 0,078 1,000 Fonte: Cálculos próprios no programa Eviews 32 Através da análise da Tabela 7 verifica-se uma correlação positiva da variável dependente (I_Exp) com o número de trabalhadores e produtividade da empresa, o que sugere que, em média e numa perspetiva bivariada, empresas de maior dimensão e mais produtivas tendem a apresentar maior intensidade exportadora. Por sua vez, verifica-se uma correlação negativa da variável dependente com as restantes variáveis (intensidade em capital, intensidade em I&D, orientação para exportação, produtividade do trabalho, concentração e idade), sugerindo que empresas com valores mais elevados destas variáveis apresentam menor intensidade exportadora. Analisando as variáveis independentes, verifica-se que a maioria não apresenta valores muito elevados para o coeficiente de correlação. A exceção ocorre com as variáveis CR4 e P_TRb que apresentam uma forte correlação (0,818) o que pode significar que as variáveis estão a medir o mesmo determinante ou que apresentam uma dependência comum de outra variável não medida no modelo (Maroco, 2007). 3.3. Estimação econométrica O presente trabalho pretende testar a influência das características da indústria (intensidade em capital, intensidade em I&D, orientação para exportação, produtividade do trabalho e concentração) na intensidade exportadora das empresas, controlando para um conjunto de fatores suscetíveis de influenciar essa intensidade exportadora (idade, dimensão e produtividade da empresa). Após a análise exploratória dos dados efetuada nas Secções anteriores, nesta Secção procede-se a uma análise de causalidade recorrendo para tal a técnicas econométricas multivariáveis com dados em painel. Recorrendo a um painel balanceado com 4.275 observações, começamos por estimar por OLS o modelo “pooled”. A coluna (1), na Tabela 8, apresenta os resultados desta estimação, onde podemos verificar que todas as variáveis são estatisticamente significativas, embora nalguns casos (intensidade em investigação e desenvolvimento) apresentem sinal contrário ao esperado. No entanto, o modelo “pooled” desconsidera a existência de heterogeneidade entre os indivíduos, assumindo o mesmo coeficiente para todos (note-se que os efeitos exclusivos de cada indivíduo estão incluídos no termo εit). É possível, no entanto, que um elevado número de fatores que afetam a intensidade exportadora da empresa, 33 nomeadamente relacionados com as características da empresa em termos de estratégia de marketing das exportações ou características do mercado doméstico e externo, não estejam incluídos no lado direito da equação (2.1.). Pode assumir-se que estas variáveis em falta ou não observadas expressam a heterogeneidade do indivíduo (empresa), embora mantendo-se constante ao longo do tempo. Além disso, de acordo com Wooldridge (2001), para uma amostra com elevado número de indivíduos e um pequeno número de períodos (como é o nosso caso: 1.425 empresas durante 3 anos) é adequado considerar efeitos temporais, ou seja, considerar diferentes interseções para cada período de tempo, permitindo efeitos de tempo agregados que têm a mesma influência na intensidade exportadora de todos os indivíduos (empresas), como por exemplo fatores macroeconómicos. Podemos descrever este modelo através da expressão que se segue: I_Exp ijt = β1 I_CP jt + β2 I_ID jt + β3 P_TRb jt + β4 Or_Exp jt + β5 CR4 jt + β6 IDd ijt + β7 TRb ijt + β8 P_TRbE ijt + εit (3.1.) Onde ittiit u  , com i  representando os efeitos individuais desconhecidos a serem estimados para cada empresa i, t  representando as diferentes interseções no tempo e it u representando o termo de perturbação. Deste modo, estimou-se um modelo com efeitos fixos cross section e os efeitos temporais foram contemplados com a introdução de duas dummies anuais.9 Salienta-se que o modelo de efeitos fixos não pode considerar a variável idade (IDd) na medida em que levaria a um problema da multicolinearidade perfeita. Foi ainda utilizado o teste de Hausman, a fim de verificar se é mais adequado estimar o modelo especificado utilizando efeitos fixos ou efeitos aleatórios. O resultado, em termos de estatística de Qui-quadrado (115,414) sugere que o modelo de efeitos fixos é mais apropriado (rejeitamos a hipótese nula de que não há má especificação do modelo). Analisando os resultados do modelo de efeitos fixos, representados na coluna (2) da Tabela 8, verificamos que três das cinco variáveis relacionadas com a indústria 9 Note-se que no modelo “Pooled” também recorremos a efeitos temporais. Ao testar a significância conjunta das estimativas de efeitos fixos (efeitos cross-section e temporais), as duas estatísticas obtidas (a estatística F de 25,9 e Qui-quadrado de 11276) e os p-values associados rejeitam a hipótese nula de que os efeitos cross section e temporais sejam redundantes. 34 (orientação para exportação, produtividade do trabalho e concentração), assim como duas variáveis da empresa (dimensão e produtividade do trabalho) são estatisticamente significativas. As variáveis intensidade em capital e intensidade em I&D não são estatisticamente significativas. Tabela 8: Resultados da estimação (variável dependente: Intensidade Exportadora)10 Notas: (1) ***, ** e * indicam os níveis de significância de 1, 5 e 10, respetivamente. (2) A estatística t em parênteses, utilizando correção de heteroscedasticidade White cross-section’s . (3) A semelhança dos estudos da Tabela 3, algumas variáveis foram logaritmizadas. Os resultados relativos às características da indústria indicam que a produtividade do trabalho tem um impacto positivo na intensidade exportadora das empresas, ou seja, 10 Para estimar o modelo usámos o software EViews. Variáveis independentes (1) Pooled OLS (2) Efeitos fixos cross section Características da indústria I_CP -0,152561*** (21,08181) 0,023528 (1,309610) I_ID -5,465421*** (-12,67190) 0,110605 (0,093119) Or_Exp 1,211781*** (-12,67190) -1,762527 * (-1,742430) LOG(P_TRb) -0,252705*** (7,122488) 0,121059 ** (3,114435) CR4 0,435042*** (5,032834) -0,158368 * (-1,939772) Características da empresa IDd -0,001692*** (-22,07157) LOG(TRb) 0,016977*** (6,337268) 0,052238 *** (4,664228) LOG(P_TRbE) 0,027195*** (44,65441) 0,033509 *** (4,925277) Efeitos temporais SIM SIM Estatística F 60,39380 29,53061 Nº observações 4.275 4.275 41 ANEXO 1 Tabela A1 – Descrição dos setores e número de empresas da amostra Código Descrição Nº empresas 10 Indústrias alimentares 95 11 Indústrias das bebidas 103 13 Fabricação de têxteis 75 14 Indústria do vestuário 148 15 Indústria do couro e dos produtos do couro 80 16 Indústrias da madeira e da cortiça e suas obras, exceto mobiliário; fabricação de obras de cestaria e de espartaria 110 17 Fabricação de pasta, de papel e cartão e seus artigos 15 18 Impressão e reprodução de suportes gravados 46 20 Fabricação de produtos químicos e de fibras sintéticas ou artificiais, exceto produtos farmacêuticos 22 21 Fabricação de produtos farmacêuticos de base e de preparações farmacêuticas 4 22 Fabricação de artigos de borracha e de matérias plásticas 70 23 Fabrico de outros produtos minerais não metálicos 210 24 Indústrias metalúrgicas de base 11 25 Fabricação de produtos metálicos, exceto máquinas e equipamentos 213 26 Fabricação de equipamentos informáticos, equipamento para comunicações e produtos eletrónicos e óticos 13 27 Fabricação de equipamento elétrico 21 28 Fabricação de máquinas e de equipamentos, n.e. 54 29 Fabricação de veículos automóveis, reboques, semirreboques e componentes para veículos automóveis 26 30 Fabricação de outro equipamento de transporte 12 31 Fabricação de mobiliário e de colchões 97 TOTAL 1.425 Fonte: Elaboração própria 42 ANEXO 2 Tabela A2 – Média, total e por setor, dos valores das variáveis calculadas para cada empresa Indústria I_Exp IDd TRb TRbE 10 0,2643 20,2211 64,8246 157,4308 11 0,3264 22,8350 36,1489 117,2972 13 0,5426 19,1200 47,8667 180,0804 14 0,7811 16,7027 35,8018 76,5506 15 0,6825 14,3500 44,2875 72,9949 16 0,4900 21,1364 33,0970 106,6452 17 0,2009 23,4667 56,9111 184,0933 18 0,0618 21,8043 28,5000 61,4098 20 0,3793 15,0000 23,5758 313,7593 21 0,3115 13,0000 132,5000 345,8330 22 0,3421 19,0857 38,8667 106,4886 23 0,4970 18,5333 35,8810 80,8507 24 0,4124 17,5455 84,9394 325,9020 25 0,4100 17,7512 29,0454 72,2486 26 0,5919 10,5385 57,4615 137,4400 27 0,3064 16,4762 99,7460 117,5269 28 0,4138 20,2037 24,2778 73,7348 29 0,5298 18,1923 224,5513 114,5124 30 0,4988 18,7500 36,2222 98,7735 31 0,3828 17,8454 30,0275 56,7259 Global 0,4579 18,6625 42,0227 101,4906 Fonte: Cálculos próprios no programa Excel. 43 ANEXO 3 Tabela A3 – Média, total e por setor, dos valores das variáveis calculadas para a indústria Indústria I_CP I_ID Or_Exp P_TRb CR4 10 0,9152 0,0024 0,0321 114,5690 0,1216 11 2,2223 0,0130 0,2601 210,5819 0,5220 13 1,7706 0,0059 0,0586 52,2291 0,1358 14 1,0657 0,0015 0,0631 25,8783 0,0867 15 0,8099 0,0019 0,0722 44,7073 0,0968 16 1,5859 0,0037 0,0708 88,3423 0,2236 17 2,4077 0,0028 0,0532 205,5836 0,5608 18 1,9770 0,0123 0,0559 50,6152 0,2018 20 1,1873 0,0072 0,0616 257,3336 0,3228 21 1,4760 0,0861 0,0691 160,9754 0,3647 22 1,0347 0,0078 0,1074 112,0003 0,2131 23 1,6813 0,0060 0,1176 90,2412 0,2413 24 0,9101 0,0064 0,0817 234,5316 0,4801 25 1,5283 0,0071 0,0595 54,4431 0,1182 26 0,7052 0,0212 0,0924 130,3109 0,7193 27 0,9525 0,0108 0,0853 153,3658 0,4052 28 1,3241 0,0099 0,0757 78,2644 0,1844 29 0,7065 0,0105 0,0862 172,8361 0,4752 30 2,2347 0,0221 0,0865 46,5357 0,3830 31 1,5061 0,0040 0,0750 42,7718 0,1281 Global 1,4440 0,0065 0,0881 87,4678 0,2106 Fonte: Cálculos próprios no programa Excel