Alterações climáticas, variabilidade climática e ações antropogénicas nas zonas costeiras. Cenários e adaptação Fernando Veloso-Gomes1; Álvaro Silva2 1Professor, CIIMAR, Faculdade de Engenharia, Universidade do Porto,
[email protected] 2Engenheiro, Mestre pela Faculdade de Engenharia, Universidade do Porto Palavras chave: Zona costeira, alterações climáticas, variabilidade climática, ações antropogénicas, cenários, adaptação Resumo Após um breve enquadramento da temática são enunciados os principais fatores e causas (naturais e antropogénicas) associáveis às dinâmicas costeiras e aos fenómenos erosivos. Destacam-se: Ações das ondas e das vagas, marés astronómicas e meteorológicas, correntes com diversas origens, ventos, instabilidade de arribas e taludes, fluxos fluviais de água e sedimentos, dragagens e extração de sedimentos, dragagens portuárias e em canais de navegação, destruição de dunas, ocupação e com edificações e estabilização de zonas naturalmente dinâmicas, estruturas de defesa costeira. Identificam-se os principais riscos naturais potencialmente presentes em zonas costeiras. Estes riscos são associáveis a tempestades, variações de nível de água, inundações, perdas sedimentares (erosão), atividade sísmica, maremotos (tsunamis), alterações de habitat e perdas de biodiversidade. As previsíveis alterações a nível de frequência e intensidade de ocorrência de situações extremas (tempestades), trajetórias das tempestades, subida dos níveis de água do mar, balanços sedimentares, dinâmicas de estuários, embocaduras, sistemas lagunares, sistemas dunares e arribas, qualidade das águas e sedimentos bem como da intrusão salina, agravarão ou tornarão mais incertos os riscos costeiros. Os impactes deverão ser avaliados a nível da estabilidade estrutural do edificado e das infra-estruturas, dos ecossistemas bem como das atividades económicas e usos das zonas costeiras (áreas edificadas, turismo e recreio, operacionalidade dos transportes marítimos e dos portos, florestas, agricultura, habitats, património cultural, paisagem). Apresentam-se exemplos práticos de situações críticas em zonas costeiras relacionadas com a natural “variabilidade climática” (extremos a que se associam períodos de retorno de algumas dezenas de anos ou mesmo superiores a 100 anos) e outras situações (Figura 1) que resultam de “ações antropogénicas” recentes (a uma escala regional ou local).
Figura 1. Ilustração do que se entende por variabilidade climática, alterações climáticas e ações antropogénicas em relação ao clima de agitação. Compreender os sistemas costeiros e elaborar previsões implica a utilização de diversas ferramentas complementares (tratamento de dados de campo, deteção remota, modelação numérica, modelação física) adotando diversas escalas espaciais e temporais. Às “alterações climáticas” estarão associadas escalas de tempo e escalas geográficas (globais e regionais) mais abrangentes que poderão implicar alterações nos padrões de tempestades no mar (duração, persistência, rumos e intensidades), na aceleração da subida generalizada dos níveis de água no mar e nas interações com as bacias hidrográficas. Através de uma representação muito intuitiva (Figura 2), pretende-se ilustrar o trinómio “alterações globais” em termos das suas componentes “variabilidade climática”, “ações antropogénicas” (regionais, locais) e “alterações climáticas” (globais, regionais). Alteração climática Variação climática Ações antropogénicas Alterações nos espetros: rumos de ventos rumos de agitação correntes (intensidade, direção) nº de tempestades no mar duração das tempestades alturas de onda períodos de onda balanços sedimentares níveis de água escoamentos terrestres Alterações globais Variabilidade no clima de agitação Alterações climáticas Redução das alturas de onda no interior do estuário por ações antropogénicas H alturas de onda Nº de tempestades H ?
Figura 2. “Alterações globais” e o trinómio “variabilidade climática” (natural), “ações antropogénicas” (regionais, locais) e “alterações climáticas” (globais, regionais). Face ao atual estado de conhecimentos e à elevada incerteza científica nas projeções a médio e longo termo, propõe-se uma metodologia com base em cenários de evolução no contexto desse trinómio. Apresentam-se exemplos de medidas de adaptação diretamente relacionáveis com frentes urbanas edificadas, portos e habitats costeiros. Essas medidas estão associadas a diferentes cenários potenciais: variação do nível médio das águas do mar, alteração de rumos da agitação marítima, aumento da frequência, intensidade e duração de temporais no mar, redução do fornecimento de sedimentos às zonas costeiras a partir da rede hidrográfica, aumento e redução do escoamento superficial proveniente das zonas terrestres. Em relação a estruturas portuárias e a intervenções de planeamento e defesa costeira, podem-se referir como exemplos de medidas de adaptação: A remoção / retirada / abandono de algumas infraestruturas, a adoção de zonas tampão para a edificabilidade e atividades, a aceitação de zonas “mártir” salvaguardando a segurança de pessoas e bens, a proteção e reforço dos cordões dunares e da vegetação ribeirinha, o aumento das cotas e larguras dos coroamentos das estruturas, o reforço estrutural, a redução de ângulos de talude (quebramares e estruturas de defesa), o reforço das fundações, a alteração das configurações em planta (quebramares e estruturas de defesa), o aumento das intervenções de manutenção, as alimentações artificiais, os sistemas de transposição de areias de barlamar para sotamar de quebramares, a construção de novas estruturas portuárias ou de defesa, a consideração de novos tipos de estruturas, bem como soluções mistas que se complementem.