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Ex mensa exitium: morte e ignomínia nos alimentos ou na privação deles

Pimentel, Maria Cristina, 1954-

Abstract

Este artigo debruça-se sobre a presença, e a função dessa presença, da alusão a alimentos ou ao momento em que se consumiam, na obra de Tácito, em especial os Annales. Observam-se circunstâncias como: consequências da abundância ou escassez de alimentos, em contexto urbano e militar; os alimentos usados para propaganda e manipulação política; os sacra mensae e o sacrilégio ou indignidade de determinados factos ocorridos em conuiuia ou simples refeições; o veneno (efectivo ou suposto) ministrado com a comida ou a bebida; o conuiuium enquanto ambiente propício a delatores e lugar de perdição para os incautos; a refeição como último acto de celebração da vida; a morte, voluntária ou forçada, por inanição.

Full text

A na egação consul a e desca egamen o dos í ulos inse idos nas Biblio ecas Digi ais UC Digi alis, UC Pombalina e UC Impac um, p essupõem a acei ação plena e sem ese as dos Te mos e Condições de Uso des as Biblio ecas Digi ais, disponí eis em h ps://digi alis.uc.p /p -p / e mos. Con o me expos o nos e e idos Te mos e Condições de Uso, o desca egamen o de í ulos de acesso es i o eque uma licença álida de au o ização de endo o u ilizado acede ao(s) documen o(s) a pa i de um ende eço de IP da ins i uição de en o a da sup amencionada licença. Ao u ilizado é apenas pe mi ido o desca egamen o pa a uso pessoal, pelo que o emp ego do(s) í ulo(s) desca egado(s) pa a ou o im, designadamen e come cial, ca ece de au o ização do espe i o au o ou edi o da ob a. Na medida em que odas as ob as da UC Digi alis se encon am p o egidas pelo Código do Di ei o de Au o e Di ei os Conexos e demais legislação aplicá el, oda a cópia, pa cial ou o al, des e documen o, nos casos em que é legalmen e admi ida, de e á con e ou aze -se acompanha po es e a iso. Ex mensa exi ium: mo e e ignomínia nos alimen os ou na p i ação deles Au o (es): Pimen el, Ma ia C is ina de Sousa Publicado po : Imp ensa da Uni e sidade de Coimb a; Annablume URL pe sis en e: URI:h p://hdl.handle.ne /10316.2/39655 DOI: DOI:h ps://doi.o g/10.14195/978-989-26-1191-4_26 Accessed : 14-Ap -2018 02:24:26 digi alis.uc.p pombalina.uc.p Pa imónios Alimen a es de Aquém e Além-Ma Coimb a Joaquim Pinhei o Ca men Soa es (Coo ds.) Joaquim Pinhei o Ca men Soa es (coo ds.) Pa imónios Alimen a es de Aquém e Além-Ma IMPRENSA DA UNIVERSIDADE DE COIMBRA COIMBRA UNIVERSITY PRESS ANNABLUME OBRA PUBLICADA COM A COORDENAÇÃO CIENTÍFICA • Sé ie Diai a Sc ip a & Realia ISSN: 2183-6523 Des ina-se es a coleção a publica ex os esul an es da in es igação de memb os do p oje o ansnacional DIAITA: Pa imónio Alimen a da Luso onia. As ob as consis em em es udos ap o undados e, na maio ia das ezes, de ca ác e in e disciplina sob e uma emá ica undamen al pa a o desenha de um pa imónio e iden idade cul u ais comuns à população alan e da língua po uguesa: a his ó ia e as cul u as da alimen ação. A pesquisa incide numa análise cien í ica das on es, sejam elas esc i as, ma e iais ou iconog á icas. Daí denomina -se a sé ie DIAITA de Sc ip a - numa alusão an o à adução, ao es udo e à publicação de on es (que inédi as que indisponí eis em po uguês, caso dos ex os clássicos, g egos e la inos, ma iciais pa a o conhecimen o do pad ão alimen a medi e ânico), como a monog a ias. O sub í ulo Realia , po seu lado, cob e publicações elabo adas na sequência de es udos sob e as “ma e ialidades” que pe mi em conhece a his ó ia e as cul u as da alimen ação no espaço lusó ono. Joaquim Pinhei o é p o esso auxilia da Uni e sidade da Madei a (Faculdade de A es e Humanidades) e in es igado in eg ado do Cen o de Es udos Clássicos e Humanís icos (Uni e sidade de Coimb a). Tem desen ol ido in es igação sob e a ob a de Plu a co, a mi ologia g eco-la ina, a e ó ica clássica e o pensamen o polí ico na An iguidade Clássica. É memb o do P oje o DIAITA - Pa imónio Alimen a da Luso onia (apoiado pela FCT, Capes e Fundação Calous e Gulbenkian). Desde 2013, é coo denado do Cen o de Desen ol imen o Académico da Uni e sidade da Madei a. Ca men Soa es é P o esso a Associada com ag egação da Uni e sidade de Coimb a (Faculdade de Le as). Tem desen ol ido a sua in es igação, ensino e publicações nas á eas das Cul u as, Li e a u as e Línguas Clássicas, da His ó ia da G écia An iga e da His ó ia da Alimen ação. Na qualidade de adu o a do g ego an igo pa a po uguês é coau o a da adução dos li os V e VIII de He ódo o e au o a da adução do Ciclope de Eu ípides, do Polí ico de Pla ão e de Sob e o a ec o aos ilhos de Plu a co . Tem ainda publicado agmen os á ios de ex os g egos an igos de emá ica gas onómica (em pa icula A qués a o). É coo denado a execu i a do cu so de mes ado em “Alimen ação – Fon es, Cul u a e Sociedade” e di e o a do dou o amen o em Pa imónios Alimen a es: Cul u as e Iden idades. In es igado a co esponsá el do p oje o DIAITA-Pa imónio Alimen a da Luso onia (apoiado pela FCT, Capes e Fundação Calous e Gulbenkian). Os es udos eunidos nes e olume e le em, de uma o ma ge al, sob e a alimen ação enquan o elemen o de ex ao diná io alo cul u al e iden i á io. Com abo dagens di e sas ao pa imónio alimen a , seja numa pe spe i a linguís ica, seja numa análise mais li e á ia ou cul u al, com o de ido enquad amen o his ó ico, social e espacial, o conjun o dos abalhos ealça a impo ância des a emá ica, desde a An iguidade Clássica a é aos nossos dias. Na e dade, a alimen ação e udo o que com ela se elaciona conduzem-nos po uma iagem e elado a da o ma de ida do homem e do seu elacionamen o com a na u eza e com ou os se es i os. Os in a e qua o con ibu os da ob a es ão eunidos nos seguin es capí ulos: 1. Alimen ação: pa imónio ima e ial; 2. Alimen ação e pa imónio li e á io; 3. Alimen ação e pa imónio linguís ico; 4. Alimen ação: saúde e bem-es a ; 5. Alimen ação: sociedade e cul u a; 6. Alimen ação e diálogo in e cul u al. Com es e olume p e ende-se ambém ab i pe spe i as sob e no os domínios de pesquisa do pa imónio alimen a como on e de sabe essencial pa a a a ualidade. 9789892 611907 Ex mensa exi ium1: mO e e iGNOmíNiA NOs AlimeN Os Ou NA p i AçãO deles Ex mensa exi ium: dea h and ignominy in ood o in i s p i a ion Ma ia C is ina de Sousa Pimen el Uni e sidade de Lisboa Faculdade de Le as Cen o de Es udos Clássicos [email p o ec ed] Resumo: Es e a igo deb uça-se sob e a p esença, e a unção dessa p esença, da alusão a alimen os ou ao momen o em que se consumiam, na ob a de Táci o, em especial os Annales. Obse am-se ci cuns âncias como: consequências da abundância ou escassez de alimen os, em con ex o u bano e mili a ; os alimen os usados pa a p opaganda e manipulação polí ica; os sac a mensae e o sac ilégio ou indignidade de de e minados ac os oco idos em conuiuia ou simples e eições; o eneno (e ec i o ou supos o) minis ado com a comida ou a bebida; o conuiuium enquan o ambien e p opício a dela o es e luga de pe dição pa a os incau os; a e eição como úl imo ac o de celeb ação da ida; a mo e, olun á ia ou o çada, po inanição. Pala as-cha e: Táci o; Annales; His o iae; sac a mensae; alimen ação; manipulação polí ica; ep essão; delação; mo e po inanição Abs ac : This a icle ocuses on he p esence, and he unc ion o his p esence, o he e e ence o ood o o he momen when ood was consumed, in he wo k o Taci us, especially he Annales. We obse e ci cums ances such as: consequences o abundance o sca ci y o ood in u ban and mili a y con ex s; ood used o poli ical p opaganda and manipula ion; he sac a mensae and he sac ilege o indigni y o ce ain ac s ha occu ed in conuiuia o simple meals; he poison (ac ual o alleged) adminis e ed wi h ood o d ink; he conuiuium as a a ou able oppo uni y o dela- o s and a place o pe di ion o he unwa y; he meal as a las ac o celeb a ion o li e; dea h, olun a y o o ced, by s a a ion. Keywo ds: Taci us; Annales; His o iae; sac a mensae; ood; poli ical manipula ion; ep ession; dela ion; dea h by s a a ion Como qualque lei o a en o de Táci o conclui, não é p á ica comum do his o ióg a o de e -se em po meno es conc e os que desenhem ou en i- 1 A exp essão cons a em Tac. Ann. 15. 69. DOI: h p://dx.doi.o g/10.14195/978-989-26-1191-4_26 544 Ma ia C is ina de Sousa Pimen el queçam a desc ição de um luga 2, a de inição de um empo3, ou a ni idez de um aço isionómico4. Em ge al, Táci o na a os e en os anco ando-os num enquad amen o que omi e ou dispensa elemen os ou po meno es ma e iais, a não se quando al menção se e especi icamen e os seus objec i os li e- á ios ou ideológicos5. No caso das e e ências a alimen os e ao momen o em que são (ou não) consumidos, é possí el pe gun a : que alo ac escido azem à na ação essas indicações explíci as? Que in encionalidade nelas desco inamos, já que nada, em Táci o, é anódino ou desp o ido de alcance?6 Como é sabido, uma das p eocupações maio es em Roma e a o abas eci- men o umen á io7.Táci o dá-nos con a desse cons an e cuidado, sublinhando as consequências que a escassez de alimen os podia causa em e mos de ins abilidade e descon en amen o p opícios a dis ú bios ou insu eição8. C i ica a má o ien ação go e na i a que le a a a abandona o cul i o de ce eais na I alia, ou o a deles ão é il, pa a passa a depende das emessas do Egip o e do no e de Á ica (Ann. 12. 43), semp e ão ameaçadas po nau ágios e ca ás o es na u ais. Não deixa, ainda, de a alia em que medida o con olo do abas ecimen o alimen a à capi al se podia ans o ma num ins umen o de sedição, como quando egis a as azões pelas quais Augus o de e mina a que senado es e equi es de censo sena o ial não pudessem en a no Egip o sem sua au o ização9. Em ou os passos, Táci o apon a ace adas decisões dos p incipes con- ducen es à manu enção da paz social, ameaçada pela escassez ou ca es ia dos alimen os, como as que omou Tibé io, no ano 19, ixando o p eço dos ce eais pa a e i a a especulação (Ann. 2. 87), ou as medidas excepcionais 2 Sob e o signi icado simbólico e o uso, enquan o ins umen o do pa é ico, da e e ência explíci a aos espaços em que se consuma a agédia dos caídos em desg aça, . Malissa d 1991 e Pimen el 2009. 3 Sob e a especi icação empo al de que um acon ecimen o em luga du an e a noi e, e o signi icado dessa e e ência, . Pimen el 2006. 4 Sob e o aspec o secundá io da desc ição da apa ência ísica das pe sonagens em Táci o, . Aub ion 1985: 439-440. 5 Gal ie 2011: 117-118: «La é é ence à un élémen conc e ne con ibue pas seulemen à donne plus de igueu ou d’exp essi i é à l’é énemen é oqué. Elle es p esque oujou s do ée d’une signi ica ion (...) L’ élémen conc e peu ainsi appa aî e, non plus comme un dé ail adju- an , mais comme une pièce maî esse de l’ac ion en cou s, au cœu de la d ama isa ion du éci ». 6 A nossa análise incidi á sob e a ob a maio de Táci o, os Annales, pa a en a chega a conclusões nes a linha de análise, ainda que eco a, pon ualmen e, às His o iae. 7 Tome-se como exemplo a gene alização de His . 4. 38: uolgus ... cui una ex e publica anno- nae cu a. Sob e o e ei o p oduzido pelo ac o de se essa a in o mação com que “Taci us begins his accoun o he consula yea 70”, . Pome oy 2012: 147. 8 C . Ann. 6. 13, sob e a ins abilidade social mo i ada pela ca es ia da annona que põe Roma iux a sedi ionem, à bei a de uma insu eição. 9 Ann. 2. 59. Veja-se o que Vespasiano, chegado a Alexand ia, ama como o ma de p es- siona os i elianos: e gá-los pela ome, in e ompendo o abas ecimen o de ce eais à capi al (His . 3. 48). 545 Ex mensa exi ium: mo e e ignomínia nos alimen os ou na p i ação deles pa a mino a os e ei os de uma calamidade, como ez Ne o ao baixa o p eço do igo após o incêndio que de as ou Roma no ano 6410. Ou as ezes, Táci o des enda sem odeios o que quase semp e se escondia po ás da dis ibuição de alimen os, a sabe , uma in enção de p opaganda ou manipulação da opinião popula com a o es e libe alidades. Assim e ela e acon ecido aquando do congia ium dis ibuído em nome de Ne o, no ano 51, em que uma já mui o pode osa Ag ipina congemina e execu a as manob as des inadas a p omo e o seu ilho em de imen o de B i ânico, ilho biológico de Cláudio, e assim lhe ab i o caminho à sucessão impe ial (Ann. 12. 41). Anos mais a de, já impe ado , é Ne o quem, em espec acula ges o de p opaganda polí ica, manda dei a ao Tib e o igo já adul e ado pelo empo que se dis ibuía à plebe a baixo p eço (Ann. 15. 18), pa a man e a con iança num eabas ecimen o iminen e, ao mesmo empo que decide não aumen a o p eço do igo, exac amen e após se e em pe dido ezen os na ios que o anspo a am. Ne o sabia que inha de man e o po o iludido com uma apa ência de segu ança, ocul ando assim os g a es e eses de uma ins abilidade ex e na c escen e e ameaçado a. Com essas e ou as benesses ia ga an indo que a plebe omana não se e ol asse: a ome, é sabido, nunca é boa conselhei a. Deixemos ago a a cidade e obse emos as ci cuns âncias e a in encio- nalidade da menção dos alimen os em con ex o mili a . São á ios os passos em que se sublinha a impo ância do abas ecimen o do exé ci o11 e se alude às medidas omadas pa a que as opas enham o necessá io pa a come . O exé ci o le a, à sua en e, pabulan es (Ann. 12. 38), pilha o que pode às popu- lações e nos campos po onde ai passando (His . 1. 66), anspo a consigo alimen os e animais (Ann. 13. 55), como azem as legiões do gene al Co bulão que, em campanha con a a A ménia, se deslocam com camelos ca egados de ce eais (Ann. 15. 12). A impo ância dos alimen os ê-se, ambém, pelo ac o de uma cidade si iada só supe a o ce co se es i e bem abas ecida (Ann. 11. 8; 15. 4; 16): se, ao in és, nada i e a mazenado, ans o ma-se em p esa ácil e logo capi ula. O mesmo é álido pa a os si ian es, cons angidos a desis i do assédio se alguma ci cuns ância ad e sa os p i a de alimen os, como acon eceu aos Pa os, quando ce ca am Tig anoce os ocupada pelos Romanos e uma p aga de ga anho os de as ou os campos em edo (Ann. 15. 5). A escassez de man imen os é, sem dú ida, uma das p incipais azões de 10 Ann. 15. 39. Táci o, po ém, não deixa de inclui a medida en e as que quali ica como popula ia, e dá con a de que ela não su iu o desejado e ei o de apoio a Ne o, pois en e an o se espalhou o umo de que o p inceps assis i a, impá ido, ocando e can ando, ao incêndio que alas a a e ia des uindo a V bs. 11 His . 4. 35 esume, de o ma lapida , a impo ância do abas ecimen o egula pa a o exé - ci o: Nihil aeque exe ci us nos os quam eges as copia um a igaba . 546 Ma ia C is ina de Sousa Pimen el aze ecua uma campanha mili a (Ann. 12. 50) ou de a pô em isco. No en an o, a si uação con á ia, a abundância de í e es e a possibilidade de os consumi sem eio, assume-se como ci cuns ância ge ado a de indisciplina12. Um exé ci o que come e bebe em demasia é ácil de se de o a 13. Tal como a paz social, em Roma, se ga an ia com a sa is ação das neces- sidades básicas de alimen ação, e os congia ia e am a ma na mão dos p incipes pa a conquis a a au a popula is, assim ambém os dona i os ao exé ci o se des ina am em ge al a man ê-lo leal e apoian e de quem de inha o pode . Tome-se como exemplo o que Ne o ez depois de debela a conju a de Pisão, quando concedeu, além do dona i o pecuniá io, o o necimen o g a ui o do umen um que a é aí e a descon ado no salá io dos soldados (Ann. 15. 71). A e e ência aos alimen os em con ex o mili a se e ainda a Táci o pa a adensa o pa é ico da si uação em que se encon a am os soldados omanos na sequência de um g a e e és so ido na lu a con a os Ge manos lide ados po A mínio. O his o ióg a o oca o p o undo aba imen o das legiões após uma ba alha ad e sa que só o im do dia suspendeu. No local onde inal- men e conseguem es aciona pa a passa a noi e, pouco ou nada lhes es a pa a le an a o acampamen o: nem u ensílios, nem endas, nem ligadu as pa a a a os e idos. A es a enume ação c escen e, que ma ca o comple o desp o imen o de ecu sos, opõe Táci o, em clímax pa é ico14, a imagem dos soldados que, me gulhados nas e as unes as da noi e, pa ilham a comida: mas os alimen os es ão ensopados de lama e sangue (Ann. 1. 65: in ec os caeno au c uo e cibos diuiden es) e esse po meno ealça a mácula da de o a, o ín imo deg au da dignidade que es ão à bei a de pisa . Em pe spicaz con as e de e osimilhança psicológica, Táci o e oma o mo i o da e eição pa ilhada en e os soldados, no dia seguin e: uma ez que a oda da o una começou a gi a em bene ício dos Romanos, e o comba e a ado nesse dia lhes oi mui o mais a o á el, já as e idas, ainda que mais nume osas, e a escassez de alimen os, que e a a mesma (Ann. 1. 68. 5: plus uulne um, eadem cibo um eges as), não os impedem de sen i o ças eno adas e espe ança na i ó ia. 12 Ou de oma a i udes que o põem em g a e isco (His . 2. 21). C . His . 2. 76, sob e o e ei o ne as o de popinae e comissa iones sob e o a do e a e ocia dos soldados. 13 Ann. 4. 48. O excesso de comida e de bebida, os cons an es es ins, começados mui o an es de o dia omba , e o usual es ado de emb iaguez de Vi élio azem pa e da ca ac e ização mui o nega i a que Táci o lhe a ibui de modo eco en e, desde as p imei as menções das His o iae (1. 62; 2. 31; 62; 68; 71; 87; 95), como que an ecipando, pelo op ób io em que a pe sonagem me gulha, o seu im ine i á el e indigno. 14 Sob e o capí ulo 65, diz Mille 2007: 188: “This whole chap e is w i en in a e y ine s yle, wi h elabo a e pic o ial e ec s ob ained by delibe a ely unco-o dina ed s uc u e, and wi h s ong poe ic colou ing (...). Taci us is delibe a ely heigh ening he emo ional e ec o he passage (...) and he gi es us a ine piece o d ama ic and desc ip i e w i ing, no me ely a summa y o ac s”. 547 Ex mensa exi ium: mo e e ignomínia nos alimen os ou na p i ação deles A in ole á el indignidade a que, em si uações bélicas ad e sas, os sol- dados podem ica eduzidos aduz-se em ou os passos pela e e ência aos alimen os que se i am na necessidade de come , pa a sob e i e em. Foi o caso das legiões de Ge mânico, após um nau ágio em que quase odos pe e- ce am: apenas se sal a am aqueles que se alimen a am da ca ne dos ca alos que com eles de am à cos a (Ann. 2. 24: co po a equo um). A desc ição desse ipo de si uações limi e, em que os soldados e am ob igados a pa ilha uma comida que ine i a elmen e lhes causa a epugnância, mas lhes ga an ia a sob e i ência, ol a a encon a -se, nos Annales, quando Táci o egis a que o exé ci o de Co bulão, na campanha pa a a conquis a da A ménia, e e de ma a a ome ca ne pecudum (Ann. 14. 24), com a ca ne do gado que iam encon ando, po absolu a inópia de ce eais, base de sus en o a que es a am habi uados e que epu a am como a mais saudá el. A pa ilha da comida, de dia, e das endas, de noi e, en e os soldados, é conside ada como que um laço que os une, numa na u al sac alidade que o na mais c uel e abe an e qualque con li o que es ale en e eles, que os di ida e os ponha uns con a os ou os (Ann. 1. 49). Essa sac alidade, que ma ca a a e eição omada em conjun o, ou, de um modo mais amplo, o momen o em que se consumiam alimen os, anspa ece de ci cuns âncias á ias em que Táci o egis a, a nosso e com anspa en e in enção, que de e minado acon ecimen o e e luga num banque e, num es im, numa simples e eição. Obse emos alguns passos mais signi ica i os. Acen ua-se a indignidade de ce os ac os quando eles oco em du an e con í ios e banque es, pois in ingem-se aqueles que são os sac a mensae. A exp essão su ge duas ezes nos Annales. Na p imei a (Ann. 13. 17), ep esen a-se o en enenamen o de B i ânico, à en e de odos, num banque e p esidido po Ne o. Como é sabido, depois de uma en a i a de assassínio us ada, ambém po eneno e ido em bebida que B i ânico não assimilou (Ann. 13. 15), Ne o exige um eneno mais o e e e icaz, que oi minis ado ao i mão adop i o mis u ado na água ia que se jun ou a uma bebida escaldan e. O segundo passo, em que exp essamen e se alude aos sac a mensae e aos deuses que o nam in iolá el o hóspede, espei a à conju a de Pisão. Ala mados com a possibilidade de aição po pa e de uma libe a que o a p esa e es a a ao co en e do que se ama a - a co ajosa Epíca is que, a inal, se e elou sublime exemplum de cons ância e lealdade e a nenhuma o u a cedeu - os conspi ado es esol em ap essa o assassínio de Ne o. Planeiam ma á-lo em Baias, na uilla do p óp io Pisão, onde o p inceps ia mui as ezes, a aído pelos p aze es a que aí se podia en ega , en e eles os banhos e os banque es (Ann. 15. 52. 1: balneasque e epulas), e onde se sen ia ão à- on ade que dispensa a os gua das da sua segu ança pessoal. Pisão, oda ia, ecusou o plano, po não que e macula , com de amamen o de sangue, a sac alidade da mesa e os deuses da hospi alidade, os La es e os Pena es (Ann. 15. 52; sac a mensae 548 Ma ia C is ina de Sousa Pimen el diique hospi ales). Esses e am alo es que nem a necessidade de elimina o mais c uel i ano jus i ica a in ingi . Es es dois passos ab em-nos espaço pa a le mos mui os ou os em que Táci o plasma a ignomínia ac escida das aições ou assassínios come idos du an e um banque e ou e eição. Comecemos pela mo e po en enenamen o minis ado com a comida ou a bebida. Podemos esumi essa ci cuns ância na exp essão que chamámos ao í ulo des a comunicação: ex mensa exi ium, ou, ainda em pala as de Táci o, uenenum in e epulas (Ann. 13. 1). É de odos sabido que, em Roma, en e os memb os da amília impe ial e os que g a i a am na es e a do pode , e a p á ica comum o en enenamen o como o ma de a as a alguém do caminho ou, ambém, de ajus a con as ou da sa is ação a ódios acumulados. Es as ci cuns âncias incluem a acusação de en enenado as que amiúde ecaía sob e as mulhe es15, quan as ezes es- condendo ou des i uando os e dadei os mo i os da acusação. Pa a pe de uma mulhe , nada ão e icaz como as duas acusações que melho pa eciam, na opinião comum, adequa -se-lhe: en enenado a e adúl e a. O eneno e a, quase semp e, minis ado com a comida ou a bebida, ac o que é de al modo e iden e que, po ezes, Táci o nem o explici a, limi ando-se a ala de en enenamen o a p opósi o de casos em que ou as on es desen ol em a a i mação e e indo o meio a a és do qual se ins ilou o eneno. Assim acon ece no ocan e a dois libe os de Cláudio, os em empos pode ososíssimos Do í o o e Palas, sob e os quais Táci o apenas egis a: libe o um po issimos ueneno in e ecisse (Ann. 14. 65), lendo-se oda ia em Sue ónio como oi minis ado o eneno, epa ido en e a comida e a bebida16. Nos Annales, é possí el aze uma lis a, signi ica i a pelo ele o dos nomes, dos que encon a am a mo e po essa ia: Ge mânico, sob inho e ilho adop i o de Tibé io, que Táci o suge e, p imei o com ese a impos a pelo igo his ó ico, depois como ce eza i e agá el, e sido en enenado po Calpú nio Pisão e sua mulhe Plancina, senão a mando, pelo menos po suges ão inequí oca do impe ado e dece o de sua mãe, Lí ia (Ann. 2. 69: 3. 14); D uso, ilho de Tibé io, en enenado po um eunuco que o se ia e em quem deposi a a plena con iança, a mando de Sejano e com a cumplicidade de Lí ia, mulhe de D uso e aman e de Sejano (Ann. 4. 8); Cláudio, o impe- ado assassinado pela mulhe , Ag ipina, que lhe p opiciou, po in e médio do eunuco Halo o, se ido e p o ado da comida do p inceps, um suculen o bole us (Ann. 12. 66), o cogumelo em que se ins ila a o eneno; Júnio Silano, p ocônsul da Asia, du an e um es im, às escânca as, po acção di ec a do 15 V. e.g. Ann. 3. 23, o caso de Lépida. Sob e o es e eó ipo da mulhe adúl e a e, em pa icu- la , a ‘ e ó ica do eneno’ nos Annales, . San o o L’Hoi (2006) 158-195. 16 Sue . Ne o 35: ueneno pa im cibis pa im po ionibus indi o. 549 Ex mensa exi ium: mo e e ignomínia nos alimen os ou na p i ação deles ca alei o P. Céle e e do libe o Hélio, mas a mando de Ag ipina, que o emia po azões pessoais e polí icas (Ann. 13. 1), e pa a cujo assassínio, segundo Díon (61. 6. 4), ela expediu pa e do eneno que lhe sob a a do cogumelo a al p epa ado pa a a gula de Cláudio; os já e e idos libe os de Cláudio, Do í o o e Palas (Ann. 14. 65); al ez a é os ne os e indigi ados he dei os de Augus o, Gaio e Lúcio Césa , po maquinações de Lí ia (Ann. 1. 3; 3. 19)... A p á ica do en enenamen o du an e uma e eição não se es ingia, po ém, aos g andes de Roma. Disso é exemplo o modo como, na co e pa a, as in igas e a lu a pelo pode le am à mo e do in luen e eunuco Abdo, a aído aiçoei amen e a um banque e, a p e ex o de uma supos a econciliação amis osa (Ann. 4. 32: specie amici iae), pa a aí se en enenado. Tal compo amen o, lemb e-se o pa alelo, não anda longe do modo como Ne o a aiu a mãe à a madilha que lhe p epa a a: pa a a aze ao encon o que lhe oi a al, Ne o simulou a econciliação com Ag ipina, con idando-a ad epulas (Ann. 14. 4), em Baias. A e e ência a essa ci cuns ância in ensi ica, sem dú ida, o ca ác e ne ando do c ime que Ne o pe pe ou. O en enenamen o pela comida e a de al modo comum que Táci o nos suge e o medo e a descon iança que mui as pe sonagens sen iam e os le a am a oma as p ecauções possí eis. Ag ipina oma a há mui o an ído os con a e en uais enenos que lhe minis assem (Ann. 14. 3): essa oi uma das azões que le ou Ne o a pô de pa e um p imei o plano pa a assassina a mãe, jun amen e com a ce eza de que o c ime se o na ia e iden e aos olhos de odos se ele epe isse, à sua p óp ia mesa, o que ize a com B i ânico. Séneca, dando seguimen o à pa cimónia alimen a com que pau a a oda a sua ida, oma especial cau ela após o a as amen o da co e, em 62, con a um pos- sí el en enenamen o, que ecea a (Ann. 15. 45): i ia na maio ugalidade (pe simplici uic u), comia u os sel agens (ag es ibus pomis) e, pa a ma a a sede, nada mais bebia que água da nascen e (p o luen e aqua)17. Essa descon iança cons an e, de udo e de odos, em pa icula quando é o ódio ou a lu a pelo pode que es ão em campo, pode se ap o ei ada pa a lança a dú ida sob e a lealdade de alguém, com o consequen e p o ei o pa a quem espalha ou incu e essa suspei a. Pa a e i de descon iança a elação en e Tibé io e o ilho, D uso, que Sejano que ia a as a do seu caminho, o p e ei o do p e ó io e ia maquinado, en e ou as indignidades, espalha o boa o de que D uso que ia en enena o impe ado , e in igou pa a que es e 17 De ac o, segundo Táci o, um dos libe os de Séneca, Cleonico, a mando de Ne o, p e- pa ou eneno pa a minis a ao ilóso o. Se ele não mo eu, al de eu-se à e elação do p óp io libe o, ou ao egime alimen a de g ande sob iedade que adop a a. O p óp io Séneca e e e a ugalidade em que i ia, após e -se e i ado da ida pública, quando ala a Lucílio do panis ... siccus e sine mensa p andium (Ep. 83. 6), o pão seco comido em pé, ou lhe ala da mode ação alimen a que p ocu a man e (Ep. 108. 16).