Uma análise da vulnerabilidade social das microrregiões geográficas do estado de Minas Gerais, Brasil
Full text
Geo UERJ | E-ISSN 1981-9021 ARTIGO © 2017 Oliveira, Costa e Ribeiro Filho. Este é um artigo de acesso aberto distribuído sob os termos da Licença Creative Commons Atribuição-Não Comercial-Compartilha Igual (CC BY-NC-SA 4.0), que permite uso, distribuição e reprodução para fins não comercias, com a citação dos autores e da fonte original e sob a mesma licença. 58 UMA ANÁLISE DA VULNERABILIDADE SOCIAL DAS MICRORREGIÕES GEOGRÁFICAS DO ESTADO DE MINAS GERAIS, BRASIL SOCIAL VULNERABILITY ANALYSIS BY MICROREGIONS IN THE STATE OF MINAS GERAIS, BRAZIL Letícia Parreira Oliveira1, Eduarda Pires Valente da Silva Marques da Costa2, Vitor Ribeiro Filho1 1 Universidade Federal de Uberlândia (UFU), Uberlândia, MG, Brasil 2 Universidade de Lisboa (UL), Lisboa, Portugal Correspondência para: Letícia Parreira Oliveira ([email protected]) doi: 10.12957/geouerj.2017.29321 Recebido em: 26 jun. 2017 | Aceito em: 22 jul. 2017 RESUMO As discussões sobre a vulnerabilidade social no contexto brasileiro são essenciais para se entender tal problemática na conjuntura contemporânea, uma vez que os debates sobre políticas públicas e sua efetivação na promoção de equidade social vêm recebendo visibilidade. Dessa maneira, a análise dessas disparidades no recorte regional, sob a perspectiva das condições de vida das pessoas, pode contribuir para apoiar as tomadas de decisões dos governantes com vista a uma melhor distribuição territorial dos recursos. Assim, o presente trabalho tem como objetivo elaborar uma análise da vulnerabilidade social nas 66 microrregiões do Estado de Minas Gerais, por meio da apresentação de uma tipologia de territórios construída com 20 indicadores organizados em 5 dimensões de análise. Com uma população estimada de cerca de 21 milhões de pessoas, o estado é o quarto maior, com aproximadamente 587 km² (IBGE, 2010). A metodologia perpassa pela selecção de indicadores que determinam a vulnerabilidade social por meio dos dados de 2010 no IBGE, PNUD, DATASUS, a que se aplicou uma análise factorial de componentes principais e posterior análise de clusters. Os resultados permitem identificar as disparidades regionais e classificar em grupos as microrregiões de Minas Gerais, de acordo com o seu perfil de vulnerabilidade social. Nota-se que os valores menos favoráveis são encontrados no norte do estado e os melhores nos locais mais urbanizados e com melhores indicadores de prestação de serviços públicos. Palavras-chave: Vulnerabilidade social; Microrregião Geográfica, Minas Gerais. ABSTRACT The discussions on social vulnerability in the Brazilian context are essential to understand this problem in the contemporary context, once the debates on public policies and their effectiveness have been gaining visibility. In this way, analyzing these disparities in the regional cut, from the perspective of people's living conditions, can increasingly assist in the distribution and decision-making of the rulers. Thus, the present work aims to elaborate an analysis of social vulnerability in the 66 microregions, through the presentation of a typology of territories constructed with 20 indicators organized in 5 dimensions of analysis. With an estimated population of about 21 million people, the state is the fourth largest, with approximately 587 km² (IBGE, 2010). The methodology will cover the selection of the indicators that determine social vulnerability through the 2010 data in the IBGE, PNUD, DATASUS applicated in a factorial analysis on principal components and a final cluster analysis. Through the analyzes it is possible to understand the regional disparities and to evaluate the degree of social vulnerability of Minas Gerais. It is noted that the lowest parameters are found in the north of the state and the highest in the most urbanized regions. Keywords: Social vulnerability; Geographical Microregion, Minas Gerais. INTRODUÇÃO
Oliveira, Costa e Ribeiro Filho Uma análise da vulnerabilidade social das microrregiões geográficas do estado de Minas Gerais, Brasil Geo UERJ, Rio de Janeiro, n. 30, p. 58-75, 2017 | doi:10.12957/geouerj.2017.29321 59 As discussões sobre a vulnerabilidade social no atual contexto brasileiro são essenciais para se entender tal problemática na conjuntura contemporânea, uma vez que as políticas públicas e sua efetivação vêm recebendo mais visibilidade. Diante disso, vale ressaltar que o Brasil apresentou uma transição populacional, nas últimas décadas, do rural para o urbano sem um planejamento adequado em todas instâncias, sobretudo, nas cidades (SANTOS, 2005). Miranda (2009) afirma que ainda não existe um conjunto de bases teóricas e métodos que possam estruturar o planejamento diante desse processo de transição do rural para o urbano. Logo, o processo histórico de ocupação, em escala nacional, de avanço do litoral para o interior do país, não foi homogéneo, sendo marcado desde o início pelos embates e diferenças políticas, além de uma preocupação baseada na interiorização visando segurança (VIlLAS BÔAS, 2012). Logo, sem um planejamento adequado de administração dessas regiões, algumas diferenças naturais e sociais são pontos importantes de análise, como apresenta Corrêa (2005). Nesse sentido, para se entender as questões socioeconómicas no território brasileiro é de suma importância a percepção de que existem diferenças também dentro das divisões por estado, como, por exemplo, uma extensão territorial ampla e uma miscigenação na sua ocupação. Por conseguinte, além dos estados, existem as subdivisões adotadas pelo IBGE, nas suas divisões regionais com função estatística e didática (CONTEL, 2014), em mesorregiões e microrregiões geográficas, antes de se chegar aos municípios e as cidades. Dessa maneira, a presente pesquisa utiliza como recorte espacial o estado de Minas Gerais, o qual possui uma população estimada de aproximadamente 21 milhões de pessoas e uma densidade demográfica de 33 habitantes por km², num estado que é o quarto maior (aproximadamente 587 km²), em extensão territorial no Brasil (IBGE, 2016). Minas Gerais está localizada na região sudeste do país, sendo uma das 27 unidades de federação e compreende 873 municípios divididos em doze mesorregiões geográficas, determinadas pelo IBGE, as quais são subdivididas em 66 microrregiões.
Oliveira, Costa e Ribeiro Filho Uma análise da vulnerabilidade social das microrregiões geográficas do estado de Minas Gerais, Brasil Geo UERJ, Rio de Janeiro, n. 30, p. 58-75, 2017 | doi:10.12957/geouerj.2017.29321 60 As microrregiões mais populosas do estado são as Metropolitana de Belo Horizonte, Triângulo Mineiro/Alto Paranaíba e Vale do Rio Doce, respectivamente, sendo as com menos habitantes a Noroestes de Minas e Vale do Mucuri (Anexo 1). O objetivo geral do presente artigo é elaborar uma análise da vulnerabilidade social no estado de Minas Gerais com base nas suas 66 microrregiões, por meio da apresentação de uma tipologia de territórios construída com vinte indicadores organizados em cinco dimensões de análise. Dessa forma, o trabalho estrutura-se em quatro partes. Na primeira parte, procede-se a um breve levantamento do referencial teórico acerca da temática e dos estudos desenvolvidos no âmbito da vulnerabilidade e das análises gerais do território mineiro. Na segunda parte, explana-se a metodologia que enforma a terceira parte onde se desenvolve uma tipologia de vulnerabilidade elaborada a partir de vinte indicadores organizados em cinco dimensões que elegemos como sendo determinantes da vulnerabilidade social: Demografia e estrutura urbana; Renda e trabalho; Infraestrutura e saneamento; Educação e Saúde. A quarta e última parte, contêm breves conclusões. REFERENCIAL TEÓRICO Nas últimas décadas a problemática acerca das catástrofes levaram a uma aplicação dos estudos e pesquisas com o intuito de se prever tais fenômenos para evitar ou minimizar o desastre. Assim, os estudos sobre vulnerabilidade social e ambiental passaram a receber mais destaque em várias esferas académicas, se disseminando sobretudo no patamar das análises e levantamento de indicadores, além da sua relação com o estabelecimento de políticas públicas. Apesar disso, sabe-se que a vulnerabilidade é um segmento recente, especialmente no que tange sua conceituação. No entanto, esse é um ramo já trabalhado pelos teóricos sociais (Monteiro, 2011), que adetra à ciência geográfica, sobretudo pela via ambiental. Os autores Glewwe e Hall (1998) debatem sobre a vulnerabilidade no segmento económico, enfatizando a ausência de pesquisas desenvolvidas acerca de quem são e quais pessoas são vulneráveis.
Oliveira, Costa e Ribeiro Filho Uma análise da vulnerabilidade social das microrregiões geográficas do estado de Minas Gerais, Brasil Geo UERJ, Rio de Janeiro, n. 30, p. 58-75, 2017 | doi:10.12957/geouerj.2017.29321 61 Para eles, a escassez de estudos é justificada devido a análise rigorosa que deve ser realizada, as quais exigem uma gama de dados nem sempre coletados e disponíveis, principalmente nos países do sul. Portanto, a vulnerabilidade possui vários segmentos que advêm da hipótese de risco e da capacidade das famílias e/ou governantes se articularem para enfrentar os possíveis problemas, tanto no âmbito social, quanto no económico e ambiental. Ela é compreendida como sendo a probabilidade de determinado grupo conseguir antecipar, lidar e superar um impacto ou atividade extrema relacionado a outros fatores como, por exemplo, grau de risco à vida, subsistência, bens e amplitude do evento (Wisner et al., 2004). Desse modo, algumas condições ou determinantes tornam certos grupos mais propensos à vulnerabilidade, especialmente quando se consideram variáveis como classe económica, sexo, idade, conjuntura da migração, aspectos naturais e condições de saúde (Wisner et al., 2004). Para Cain (2009), os fatores culturais também devem ser avaliados, principalmente os relacionados à etnia, género e religião que estão sempre ligados ao estágio cronológico da idade e, por conseguinte, aos ciclos de vida que modificam os riscos e a vulnerabilidade. A autora ainda enfatiza o papel dos responsáveis por sustentar as famílias, destacando como a taxa de desemprego e de mortalidade dos adultos interferem diretamente na análise de vulnerabilidade, uma vez que o papel de responsável familiar tende a migrar para os idosos. No que tange à vulnerabilidade social, os indicadores estatísticos fornecem dados sobre aspetos que são fundamentais para a análise como, por exemplo, bem-estar e qualidade de vida (Freyssinet, 2009). Entretanto, essa tipologia de vulnerabilidade social é capaz de dar dinamicidade aos indicadores estatísticos favorecendo as análises específicas. Portanto, o indicador de vulnerabilidade é capaz de antecipar alguns riscos que a comunidade pode enfrentar a longo, médio e curto prazo (Freyssinet, 2009). De acordo com Douglas (1994) o termo
Oliveira, Costa e Ribeiro Filho Uma análise da vulnerabilidade social das microrregiões geográficas do estado de Minas Gerais, Brasil Geo UERJ, Rio de Janeiro, n. 30, p. 58-75, 2017 | doi:10.12957/geouerj.2017.29321 62 risco é utilizado desde meados do século XVI vinculado às áreas económicas. Sobre esse debate os autores Paulilo e Jeolãs (2005) afirmam que, No século XIX, a análise de probabilidades tornou-se comum e o risco, agora dimensionado, se mostrou importante no âmbito da economia, sendo aplicado, então, à esfera do comércio e da indústria, para cálculos de investimentos, em termos de custo-benefício. [...] O termo foi se consolidando estreitamente ligado ao sentido de possibilidade – positiva e negativa – e à teoria das probabilidades, incorporando, a partir de então, a ideia de escolha racional, ponderadas as possibilidades de ganhos e de perdas. [...] O risco passa a ser abstrato e objetivamente controlado. Essa pretensão de um cálculo preciso com aura de ciência explica o fato de seu uso ter se estendido e de ter se tornado conceito em várias áreas do conhecimento. (PAULINO, JEOLÁS, 2005, p.177-178). Ainda nessa conjuntura, nas suas discussões, Birkman (2007) discorre sobre como a proximidade do termo vulnerabilidade e fragilidade, entre as décadas de 1970 e 1980, passa a ser analisada de forma distinta na atualidade. Em suas observações o autor diz que a vulnerabilidade é inerente ao sistema, sendo que ela expõe as condições em que determinada comunidade está frente ao impacto dos perigos, seus riscos e a dimensão das consequências, além da avaliação das possíveis perdas e danos. Dessa forma, cabe ainda enfatizar que é fundamental dentro das análises, a avaliação do tempo e probabilidade de recuperação de determinada sociedade para se reestruturar após o evento de risco. Para isso, os dados quantitativos não são suficientes para as observações, sendo de suma importância as pesquisas qualitativas para se atingir o resultado mais adequado. Devido as atuais condições sociais a nível local, regional e mundial, algumas populações não conseguem confrontar e se recuperar dos riscos vigentes, tendo por isso a vulnerabilidade como atributo social (Dutra Júnior, 2016). A mesma se relaciona à precariedade do trabalho e à fragilidade das sociedades primárias (Kowarick, 2003), o que modifica as análises sobre a pobreza, levando a uma nova visão dos processos e estratégias com o intuito de amenizar os riscos e melhorar o bem-estar da população (Carneiro, 2005).
Oliveira, Costa e Ribeiro Filho Uma análise da vulnerabilidade social das microrregiões geográficas do estado de Minas Gerais, Brasil Geo UERJ, Rio de Janeiro, n. 30, p. 58-75, 2017 | doi:10.12957/geouerj.2017.29321 63 Sobre a pobreza e vulnerabilidade, Glewwe e Hall (1998) afirmam a ideia de que uma é distinta da outra, uma vez que nem sempre todos os indivíduos vulneráveis estão no limiar mais baixo da classe econômica, mas sim que, Poverty concerns one’s current socio-economic status, while vulnerability focuses on changes in socio-economic status. The poor are not necessarily vulnerable; for example, subsistence farmers in remote areas are usually poor but their relatively autarchic status limits the impact of national and international economic events. The literature on poverty and vulnerability focuses on the intersection, i.e., on groups that are already poor and more likely to experience larger than average declines in socio-economic status. Little concern is shown for non-poor households that may also be vulnerable. (GLEWWE, HALL, 1998, p. 182). Partindo para as pesquisas sobre vulnerabilidade no Brasil, observa-se que a análise dessas disparidades no recorte regional, sob a perspectiva das condições de vida das pessoas, pode auxiliar cada vez mais na distribuição de verbas estaduais, nas tomadas de decisões dos governantes e na gestão territorial. Por meio dessa análise prévia, considera-se necessário compreender a vulnerabilidade social, no contexto do Brasil, sob o olhar regional devido ao programa de políticas por estado. Dessa forma, Kowarick (2003) em sua análise sobre a vulnerabilidade socioeconómica nos Estados Unidos, França e Brasil, afirma que, Diferentemente da estruturação discursiva norte-americana, creio que a matriz da desigualdade da sociedade brasileira não reside em culpar os pobres por sua pobreza, apesar de o discurso sobre a vadiagem ter estado muito presente em vários momentos da nossa história colonial, imperial e republicana. [...] Mesmo porque o desemprego, o subemprego e a precarização do trabalho atingiram também parcelas importantes das camadas médias (KOWARICK, 2003, p.17). Assim, para trabalhar o termo vulnerabilidade social no Brasil é preciso perpassar pelas observações sobre as problemáticas de cunho democrático, de igualdade dos direitos civis e marginalização da população que acomete e tornam as análises sociais remontantes ao processo histórico de construção da sociedade brasileira. Consequentemente, essas implicações influenciam diretamente na construção de sociedades vulneráveis, com reflexos por gerações, tornando mais amplas as discussões acerca do papel do Estado em suas esferas, nomeadamente na definição das políticas nacionais e regionais. Logo, é necessário compreender que há diferenças nas formas de governo, assim como disparidades nas regiões, sendo
Oliveira, Costa e Ribeiro Filho Uma análise da vulnerabilidade social das microrregiões geográficas do estado de Minas Gerais, Brasil Geo UERJ, Rio de Janeiro, n. 30, p. 58-75, 2017 | doi:10.12957/geouerj.2017.29321 64 que as dinâmicas mundiais se sobrepõem às do governo federal, as quais são priorizadas em conforme à escala regional e local (Atkinson, Marlier, 2010). Desse modo, a efetivação das políticas públicas estão diretamente ligadas aos impactes na população, traduzidas nas variações de indicadores de saúde, habitação, pobreza, educação e saneamento básico. Para Vignolo (2006), [...] o Estado oferece incentivos, fornece subsídios e transferências, habilita a infra-estrutura e o equipamento, disponibiliza serviços básicos e projeta, supervisiona e/ou sustenta sistemas de segurança e proteção social. Por meio dessas ações e das políticas que as comandam, o Estado age para responder, ou adaptar-se, aos riscos sociodemográficos (VIGNOLI, 2006, p. 97). Em vista disso, não basta analisar os dados sem relacioná-los com a postura histórica e política de determinado país ou região. No caso do estado de Minas Gerais, a sua formação territorial segue, em alguns processos, o que ocorreu no Brasil, que passa por ocupações dispersadas sob a demarcação territorial (as quais durante os anos são integradas) e, consequentemente, têm-se a criação da capital, Belo Horizonte (Frederico, 2009). Por fazer limite com quatro estados, algumas características são parecidas e as dinâmicas são incorporadas devido à proximidade, sobretudo no que tange à fronteira ao norte com a Bahia e ao Sul com São Paulo. A primeira tende a se a assemelhar aos problemas de implantação de políticas públicas de integração regional e a segunda se faz sobre o desenvolvimento industrial e de produção do estado paulista. Um dos fatores marcantes da história territorial e econômica do estado foi o período áureo do ouro, em meados da década de 1750, no qual as áreas mineradoras se estendem em direcção aos sertões. “Esse foi um movimento incessante de espraiamento sobre o espaço, ato configurador e organizador do território” (ESPINDOLA, 2009, p. 78). Todo esse processo mostra a pertinência das diferenças dentro do estado mineiro. METODOLOGIA
Oliveira, Costa e Ribeiro Filho Uma análise da vulnerabilidade social das microrregiões geográficas do estado de Minas Gerais, Brasil Geo UERJ, Rio de Janeiro, n. 30, p. 58-75, 2017 | doi:10.12957/geouerj.2017.29321 65 Tal como apontado na Introdução, o objetivo geral do presente artigo é elaborar uma análise da vulnerabilidade social no estado de Minas Gerais com base nas suas 66 microrregiões, por meio da apresentação de uma tipologia de territórios construída com vinte indicadores organizados em cinco dimensões que de acordo com considerações anteriores (Vignolo, 2006, IPEA, 2015) elegemos como sendo determinantes da vulnerabilidade social: Demografia e estrutura urbana; Renda e trabalho; Infraestrutura e saneamento; Educação e Saúde (quadro 1). Na primeira dimensão, “Demografia e Estrutura Urbana”, foram considerados indicadores que permitem medir a dinâmica populacional, nomeadamente a dinâmica urbana associada à importância do produto gerado. A segunda dimensão, intitulada “Renda e Trabalho”, é retratada por indicadores que medem a participação no trabalho (emprego e desemprego) e a renda (renda média e o percentual de ativos com salários reduzidos), apontando para situações de vulnerabilidade social. A terceira dimensão, “Infraestrutura e Saneamento”, procura retratar as condições da habitação e dos lugares, representando uma dimensão fundamental da vulnerabilidade social. A quarta e quinta dimensões, relacionam-se com duas componentes da vulnerabilidade social, a educação e saúde, medidas através de indicadores que medem o nível de escolaridade e o estado de saúde. Dimensões Indicadores Demografia e estrutura urbana Densidade demográfica (2010) Percentual de população residente urbana (2010) Taxa de Variação da População Residente entre 2000 e 2010 PIB/CAPITA - em mil reais (2010) Renda e Trabalho Renda per capita - em Mil reais (2010) Percentual de pessoas ocupadas (2010) Percentual de pessoas com 10 anos ou mais que ganham até 1 salário mínimo (2010) Taxa de desocupação de pessoas com 18 anos ou mais (2010) Infraestrutura e Saneamento Percentual de domicílios com abastecimento de água (2010) Percentual de domicílios com coleta de lixo (2010) Percentual de domicílios com energia elétrica (2010) População residente em domicílios particulares ocupados em aglomerados subnormais
Oliveira, Costa e Ribeiro Filho Uma análise da vulnerabilidade social das microrregiões geográficas do estado de Minas Gerais, Brasil Geo UERJ, Rio de Janeiro, n. 30, p. 58-75, 2017 | doi:10.12957/geouerj.2017.29321 66 (2010) Educação Taxa de frequência bruta no ensino médio regular (2010) Taxa de analfabetismo de 15 anos ou mais (2010) Percentual de 25 anos ou mais com superior completo (2010) Percentual de 6 a 14 anos no ensino fundamental com 2 anos ou mais de atraso (2010) Saúde Taxa de Mortalidade Infantil (2010) Número de internações hospitalares/1000 habitantes (2010) Esperança de vida ao nascer (2010) Número de Equipes de Saúde da Família/1000habitantes (2010) Quadro 1. Dimensões e indicadores selecionados para a construção da tipologia de vulnerabilidade social. Org.: COSTA, OLIVEIRA, 2017. Os dados foram obtidos pelo site do IBGE, Atlas de Desenvolvimento Humano, Atlas do Índice de Vulnerabilidade e pelo DATASUS para o ano de 2010, sendo posteriormente realizada uma análise factorial de componentes principais para as vinte variáveis e as 66 microrregiões (figura 1), seguidas de uma análise de clusters, que dá origem a uma tipologia final. Vale destacar que o IPEA (2015) apresenta um índice de vulnerabilidade social construído a partir de 3 dimensões: IVS Infraestrutura Urbana; IVS Capital Humano; IVS Renda e Trabalho. No presente trabalho, optou-se por testar uma metodologia alternativa que não configura um índice, mas sim numa tipologia de territórios. Assim, não existe um valor único de síntese que permita hierarquizar as áreas de estudo, mas obtêm-se grupos de microrregiões que apresentam comportamentos similares dentre as vinte variáveis, permitindo classificar os grupos de mesoregiões com o mesmo tipo de vulnerabilidade consoante a(s) dimensão(ões) que marcam mais esses territórios.
Oliveira, Costa e Ribeiro Filho Uma análise da vulnerabilidade social das microrregiões geográficas do estado de Minas Gerais, Brasil Geo UERJ, Rio de Janeiro, n. 30, p. 58-75, 2017 | doi:10.12957/geouerj.2017.29321 73 e 3, que apesar de registarem valores de renda ligeiramente superiores aos do grupo 1, mantêm vulnerabilidades relativamente às outras dimensões aqui analisadas (infraestrutura e saneamento, educação e saúde). No polo oposto, surgem as microrregiões com menor valor de vulnerabilidade, Belo Horizonte, Ouro Preto, Uberlândia, Ipatinga e Divinópolis. A posição dos grupos 4 e 5 relaciona-se com a urbanização e densidade demográfica, além do papel de pólos regionais dentro do estado. A disposição da malha viária também interliga essas microrregiões a outras importantes no país (ao Sul, São Paulo, ao interior, Brasília). Figura 6. Vulnerabilidade Social: uma tipologia (2010). CONCLUSÃO Esses dados permitem reconhecer as disparidades intra e inter regionais das microrregiões de Minas Gerais, relativamente à vulnerabilidade social. Como esperado, a urbanização é sinónimo de melhor infraestrutura e mais serviços de saúde e educação, determinando menores níveis de vulnerabilidade
Oliveira, Costa e Ribeiro Filho Uma análise da vulnerabilidade social das microrregiões geográficas do estado de Minas Gerais, Brasil Geo UERJ, Rio de Janeiro, n. 30, p. 58-75, 2017 | doi:10.12957/geouerj.2017.29321 74 social, como os registrados nas microrregiões que compõem a mesorregião Metropolitana de Belo Horizonte e do Triângulo Mineiro/ Alto Paranaíba. Ao contrário, a baixa densidade demográfica associada a territórios com menor acessibilidade e diversificação de oportunidades de emprego, saúde e educação, expressam nas tipologias de vulnerabilidade social valores mais elevados, apresentados ns territórios que integram as mesorregiões do Jequitinhonha e Vale do Mucuri. Nota-se que os menores valores dos vários indicadores são encontrados no norte do estado, o que pode ser explicado devido a uma maior escassez de investimentos e de projetos governamentais. Esses dados permitem reconhecer as microrregiões mais vulneráveis possibilitando uma melhor efetivação das políticas criadas pelos gestores públicos, sobretudo, a nível estadual. AGRADECIMENTOS À Capes pela bolsa de pesquisa do projeto FCT, ao IGOT pelo estágio em doutoramento e a UFU pelo apoio às pesquisas. REFERÊNCIAS ATKINSON, A. B.; MARLIER, E. Analysing and Measuring Social Inclusion in a Global context, New-York: United Nations, available at: http://www.un.org/esa/socdev/publications/measuring-social-inclusion.pdf , 2010. CAIN, E. Social Protection and Vulnerability, Risk and Exclusion across the Life-Cycle’, in OECD, Promoting Pro-Poor Growth: Social Protection, Paris, 2009. CARNEIRO, C. B. L. Programas de protecção social e superação da pobreza: concepções estratégicas de intervenção. Tese de doutorado. Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Federal de Minas Gerais, Minas Gerais, Belo Horizonte, Brasil, 2005. CONTEL, F. B. As divisões regionais do IBGE no século XX (1942 1970 e 1990). Terra Brasilis (Nova Série), São Paulo, v.3, p. 1-17, 2014. CORRÊA, R. L. A organização Regional do Espaço Brasileiro. In: CORRÊA, Roberto Lobato. Trajetórias Geográficas. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2005. 3ªed. p. 197-210. DOUGLAS, M. Risk and blame: essays in cultural theory. Routledge, Londres, 336 p, 1994.
Oliveira, Costa e Ribeiro Filho Uma análise da vulnerabilidade social das microrregiões geográficas do estado de Minas Gerais, Brasil Geo UERJ, Rio de Janeiro, n. 30, p. 58-75, 2017 | doi:10.12957/geouerj.2017.29321 75 DUTRA JÚNIOR, N. P. Vulnerabilidade Socioambiental em Ituiutaba-MG. Formação (Presidente Prudente), v. 3, p. 163186, 2016. ESPINDOLA, H. S. Território e geopolítica nas Minas Gerais do século XIX. Cadernos da Escola do Legislativo, v. 11, p. 71-88, 2009. FREDERICO, S. Formação territorial de Minas Gerias. In: II Encontro Nacional de História do Pensamento Geográfico, 2009, São Paulo. Anais do II Encontro Nacional de História do Pensamento Geográfico, 2009. FREYSSINET, J. How can social vulnerability be measured: a work in progress. The 3rd OECD World Forum on “Statistics, Knowledge and Policy”, p. 1-9, 2006. GLEWWE P.; HALL, G. Who is most vulnerable to macroeconomic shocks? Hypothesis tests based on panel data from Peru. Journal of Development Economics. Vol. 56, p. 181–206, 1998. IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – 2010. Censo Demográfico 2010. Disponível em: http://www.ibge.gov.br/home/estatistica/populacao/censo2010/caracteristicas_da_populacao/default_caracteristicas_da_po pulacao.shtm . Acesso em: 20 jan. 2017. IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística - 2016. Estados@. Disponível em: http://www.ibge.gov.br/estadosat/perfil.php?sigla=mg . Acesso em: 15 jan. 2017. Instituto de Pesquisa Económica Aplicada – IPEA - 2015. Atlas da Vulnerabilidade Social. Disponível em: <http://ivs.ipea.gov.br/ivs/pt/. Acesso em: 15 fev. 2017. KOWARICK, L. Sobre a vulnerabilidade socioeconómica e civil. Estados Unidos, França e Brasil. Revista Brasileira de Ciências Sociais vol 18 n. 51, p. 61-190, 2003. MIRANDA, L. I. B. Planejamneto em áres de transição rural-urbana: velhas novidades em novos territórios. Revista Brasileira de Estudos Urbanos e Regionais (ANPUR), v. 11, p. 25-40, 2009. MONTEIRO, S. R. R. O marco conceitual da vulnerabilidade social. In: Seminário de Políticas Sociais do Mercosul, 3., 2011, Pelotas. Anais... Pelotas, SEPOME, 2011. PAULILO, M. A. S.; JEOLAS, L. S. Aids, drogas, riscos e significados: uma construção sociocultural. Ciênc. saúde coletiva [online]. vol.10, n.1, p.175-184, 2005. PROGRAMA DAS NAÇÕES UNIDAS PARA O DESENVOLVIMENTO – PNUD. 2010. Atlas do Desenvolvimento Humano do Brasil. Disponível em: http://www.atlasbrasil.org.br . Acesso em: 15 fev. 2017. SANTOS, M. Urbanização Braseiliera. 5 ed. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2005. VIGNOLI, J. R. Vulnerabilidade sociodemográfica: antigos e novos riscos para a América Latina e o Caribe. In: Cunha J.M.P. Metrópoles Paulistas – População, vulnerabilidade e segregação. Campinas: Núcleo de Estudos da População – Nepo/Unicamp; p. 95-142, 2006. VILLAS BÔAS, C. e O. A Marcha para o Oeste: A Epopeia da Expedição Roncador-Xingu. São Paulo: Companhia das Letras, 2012. WISNER, B.; BLAIKIE, P.; CANNON, T., DAVIS, I. At Risk: Natural hazards, People’s Vulnerability and Disasters, second ed. Routledge, London, 2004, 124p.