A Fricativa Coronal /S/ em /#(Ø)SC/ em Português Europeu
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A Fricativa Coronal /S/ em /#(∅)SC/ em Português Europeu Dissertação apresentada à Faculdade de Letras da Universidade do Porto Para a obtenção do grau de Doutor em Linguística No âmbito do Doutoramento em Linguística Orientador da dissertação: Prof. Doutor João Veloso Discente: Isabel Henriques Porto -2012-
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ii Agradecimentos Neste percurso, muitas foram as pessoas que me acompanharam e auxiliaram na realização desta tese. Agradeço ao Professor Doutor João Manuel Veloso pela orientação em todo este trabalho e na revisão do mesmo. Às minhas colegas pelo apoio e acompanhamento nestes anos de pesquisa e reflexão. Ao Clup pelos subsídios atribuídos para as deslocações a conferências para apresentar os meus trabalhos e que muito contribuíram para a aquisição de novas e diferentes perspetivas acerca dos temas abordados na minha investigação. Para além da muita bibliografia necessária para elaboração deste trabalho. Finalmente, a todos amigos e família que estiveram sempre a meu lado e me incentivaram sempre a prosseguir o meu trabalho. Deixo um especial agradecimento aos que me incentivaram sempre a continuar: Ana Silva, Ana Figueiredo, Cláudia Dantas, Dulce Rocha, Glória Santos, Lurdes Ferreira, Maria José Henriques e Paula Fonseca. À Cláudia Silva agradeço os conselhos, as críticas e a paciência para ler este trabalho Concluo, portanto, com um agradecimento a todos os que me acompanharam e me incentivaram sempre, mesmo nos momentos menos positivos. Em conclusão, este trabalho é o resultado de um esforço conjunto e de todo o apoio dado por amigos e familiares.
iii Principais abreviaturas Cf. Confronte-se DEP-IO Não pode existir um segmento no output que não exista no input. FA Fonologia articulatória Fig. Figura MAX-IO O número de segmentos no input têm de ser igual no output. obs. Observação ONS-SON Aumento de sonoridade nos ataques PB Português do Brasil PE Português Europeu TO Teoria da Otimidade vd. Vide ∅ núcleo vazio
iv Resumo A presente dissertação tem como objetivo central determinar qual o estatuto prosódico das fricativas coronais, que são, por vezes, encaradas como especiais e com características particulares (cf. Miguel, 1993:201; Kenstowicz, 1994: 258; Kaye, 1996:173; Bertinetto, 1999: 99; Parker, 2002: 9; Tifrit, 2005: 230; Sanoudaki, 2007:647; Cardoso, 2008:19; Hermes et. al., 2008: 433) em determinados contextos prosódicos, nomeadamente, na posição que ocupam na estrutura interna da sílaba quando se encontram em início de palavra foneticamente e antes de uma oclusiva, uma vez que, de acordo com o Princípio de Sonoridade (Selkirk, 1982; 1983) e a Condição de Dissemelhança, não é permitida a sequência de fricativa e obstruinte tautossilábica. Assim, esta dissertação tem como intuito especificar o caráter mágico (Kaye, 1996) e especial das fricativas coronais em posição inicial de sílaba foneticamente. De acordo com o referido autor, a fricativa coronal subespecificada (/S/) viola as regras fonotáticas quando seguida de obstruinte em início de palavra, sendo-lhe atribuído um estatuto especial para justificar essa violação. Com este objetivo em mente, consideramos importante debruçarmo-nos sobre os seguintes pontos: i) identificar as características das fricativas (capítulo 1); ii) estudar a sílaba, seus constituintes, formatos e regras (capítulo 2) iii) analisar dados/estudos relativos à aquisição fonológica (capítulo 3); iv) comparar e analisar as diferentes propostas existentes (capítulo 4); v) confrontar propostas para diferentes línguas (capítulo 5); vi) selecionar uma proposta explicativa (capítulo 6). Embora haja hipóteses explicativas semelhantes nas diferentes línguas, torna-se complexo optar por uma das seguintes propostas que vão ser analisadas na presente dissertação: i) extrassilabicidade da fricativa; ii) a fricativa ser um apêndice, um adjunto; iii) núcleo vazio; iv) atribuição de silabicidade à fricativa; v) presença de vogal inicial; vi) ataque complexo; vii) uma unidade fonológica semelhante a uma africada.
v As diferentes propostas supra mencionadas vão ser analisadas com o intuito de apresentarmos uma proposta que se aplique ao PE e possivelmente a outras línguas românicas, com eventuais implicações para o inglês e holandês. Estes diferentes momentos permitiram-nos chegar a algumas conclusões e apresentar a nossa proposta, que assenta na existência um núcleo vazio, a nível subjacente, com preenchimento fonético facultativo.
vi Abstract This dissertation has as a main purpose to determine the special status of the coronal fricatives that are regarded as having a special status and particular traits (Miguel, 1993:201; Kenstowicz, 1994: 258; Kaye, 1996:173; Bertinetto, 1999: 99; Parker, 2002: 9; Tifrit, 2005: 230; Sanoudaki, 2007:6-47; Cardoso, 2008:19; Hermes et. al., 2008: 433) in certain prosodic contexts, namely when they appear in the beginning of a word phonetically and are followed by a plosive since this sequence is not allowed as a tautossylabic cluster by the Sonority Principle (Selkirk, 1982; 1983) and the Dissimilarity Condition. This thesis will try to determine the magical properties (Kaye, 1996) of this sequence in the beginning of the words (phonetically). According to Kaye (1996) the underspecified fricative (/S) when followed by a plosive in the beginning of the word has a special status since they are not allowed in this position according to the Sonority Principle and the Dissimilarity Condition. Having this purpose in mind, we think it is important to analyse the following topics: i) to identify the traits of the fricatives (chapter 1); ii) study the definitions of the syllable, its constituints, the rules, constraints and the principles/rules (chapter 2); iii) examine data related to phonological acquisition (chapter 3); iv) evaluate the diferente theoretical proposals (chapter 4); v) compare data from different languages (chapter 5); vi) present our proposal (chapter 6). Although there are different data from many languages it is difficult to choose one solution from the hypothesis given: i) extrassyllabic fricative; ii) the fricative can be an adjunct or an appendix; iii) empty nucleus; iv) the syllabification of the fricative; v) presence of an initial vowel; vi) complex onsets; vii) phonological complex unit;
vii The different proposals previously mentioned are going to be analyzed in order to find a solution to the European Portuguese and other romance languages with some probable implications to English and Dutch. These different hypotheses allowed us to draw some conclusions. One of the most important ones relies on the fact that the fricative is coda of the first syllable. We claim that there is an underlying empty nucleus with some optional phonetic vowel.
viii Índice A Fricativa Coronal /S/ em /#(∅)SC/ em Português Europeu ............................................ Agradecimentos ............................................................................................................ ii Principais abreviaturas ................................................................................................. iii Resumo ........................................................................................................................ iv Abstract ........................................................................................................................ vi Índice ............................................................................................................................. viii Lista de figuras, gráficos e tabelas ............................................................................... xi Figuras ......................................................................................................................... xi Gráficos ........................................................................................................................ xi Quadros ....................................................................................................................... xii Introdução ......................................................................................................................... 0 Capítulo IAs fricativas coronais e a fricativa coronal subespecificada /S/ .................. 14 1.1. Interface fonética/ fonologia ............................................................................ 16 1.2. Distinção Vogais/Consoantes .......................................................................... 18 1.3. As Fricativas Coronais ..................................................................................... 21 1.3.1. Perspetiva estruturalista ............................................................................ 21 1.3.2. Perspetivas Recentes................................................................................. 22 1.4. Dados fonéticos ................................................................................................ 25 1.5. A perspetiva fonológica ................................................................................... 27 Capítulo IIA sílaba ....................................................................................................... 30 2.1. Sílabaunidade fonológica .................................................................................. 33 2.2. Sonoridade ........................................................................................................... 35 2.3. Estrutura interna ................................................................................................... 38 2.4. Formatos silábicos ............................................................................................... 45 2.5. Algoritmo de silabificação ................................................................................... 46 2.6. Análise das propostas da literatura para problemática /#(∅)SC/ ......................... 48 Capítulo IIIA estrutura /#(∅)SC/ na aquisição fonológica .......................................... 52 3.1. Aquisição das fricativas ....................................................................................... 55 3.1.1. Conceitos de marcação .................................................................................. 57 3.2. A aquisição do constituinte ataque ..................................................................... 62 3.2.1. Diferentes fases de aquisição de ataques....................................................... 63 3.3. A aquisição de codas ............................................................................................ 68 3.4. As sequências /#(∅)SC/ na aquisição fonológica ............................................... 70
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2 A presente dissertação tem como objetivo central determinar o estatuto prosódico da fricativas coronal 1 (/S/), que é, por vezes, encarada como especial e com características particulares (cf. Miguel, 1993: 201; Kenstowicz, 1994: 258; Kaye, 1996: 173; Bertinetto, 1999:99; Parker, 2002: 9; Tifrit, 2005: 230; Sanoudaki, 2007:6/47; Cardoso, 2008: 19; Hermes et al., 2008: 433) quando seguida de obstruintes, em posição inicial de palavra quer fonética, quer fonológica, admitindo-se ou não a existência eventual de um núcleo vazio antes de /S/. Esta particularidade reside no facto de, com base no Princípio de Sonoridade e na Condição de Dissemelhança, não ser possível um ataque complexo fricativa+obstruinte porque estes ataques não respeitariam o valor mínimo de distanciamento de sonoridade estabelecido para as diversas línguas (Condição de Dissemelhança). Por conseguinte, a fricativa coronal é encarada como especial, em diversas línguas, devido às aparentes violações das restrições fonotáticas dessas línguas, caso integre um ataque ramificado com a consoante seguinte (/#(ø)SC.). Estas particularidades são atribuídas à fricativa coronal subespecificada /S/, que surge em estudos relativos ao italiano (Davis, 1987; Marotta, 1995; Bertinetto, 1999; Nikiema, 2000; McCrary, 2002), ao grego (Sanoudaki, 2007), ao holandês (Selkirk, 1982, 1984; Fikkert, 1994; Booij, 1999) e ao inglês (Durand, 1990; Blevins, 1995; Kaye, 1996; Parker, 2002; Gussman, 2002), para além do PE, entre outras línguas. Neste contexto, a fricativa coronal (/S/) é considerada, por alguns autores,um segmento extrassilábico 2 (Trommelen, 1984; Selkirk, 1982; Fikkert, 1994), ou um 1 As expressões usadas pelos diferentes autores para se referirem as estas particularidades variam. O pormenor que é comum a todos incide nas características apresentadas pela fricativa quando ocorre antes de oclusiva, em início de palavra. 2 Por extrassilábico entende-se um segmento que não é integrado nos constituintes da sílaba. Bisol (1999:119) define um segmento extrassilábico como “um segmento que, durante o pr ocesso de silabação de uma dada sequência, não pode ser associado a nenhuma sílaba, mas que não é apagado porque é considerado invisível às operações de apagamento.” (com base em Clements & Keyser, 1983)
3 adjunto (Van der Hulst,1984; Gierut, 1999), sobretudo quando seguida de obstruinte em posição inicial de palavra, pois se as duas consoantes constituíssem um grupo consonântico tautossilábico, um ataque complexo, violariam o Princípio de Sonoridade (Selkirk, 1982; 1984) e a Condição de Dissemelhança (Selkirk, 1982). O Princípio de Sonoridade permite organizar os segmentos que constituem a sílaba em torno de um crescendo de sonoridade, deixando prever quais os segmentos que podem ocorrer contiguamente ou não, tendo em conta uma diferença em crescendo ao longo de uma escala cujos valores indexados exatos variam quantitativamente conforme a língua em estudo. Para além do Princípio de Sonoridade, a sequência /.SC/ 3 violaria, em ataque ramificado tautossilábico, a Condição de Dissemelhança. No caso do PE, a Condição de Dissemelhança define que haja uma diferença mínima, entre os segmentos contíguos, de 4 pontos, de acordo com Vigário e Falé (1994: 474). Na sequência em estudo, as fricativas e as oclusivas apresentam valores muito próximos na escala de sonoridade indexada ao PE, como é definida por Vigário e Falé (1994: 473) para o PE, com base em Selkirk (1982, 1984) e em Rubach e Booij (1990a:122). Como se pode constatar pela escala indexada ao PE, na figura 1. Figura 1Escala de Sonoridade Indexada do PE OCL. [-voz] 0.5 [+voz] 1 FRIC. [-cor] [-voz] 1.5 [+voz] 2 [+cor] [-voz] 2.5 [+voz] 3 NAS. 3.5 LIQ. LAT. 5.5 3 Optámos por formalizar a representação desta sequência desta forma (/#(∅)SC/) porque, embora a sequência fricativa+obstruinte se possa encontrar, foneticamente, no início de palavra, existe a possibilidade de a referida sequência ter, no nível subjacente, um núcleo vazio inicial ou uma vogal. Como se trata de uma possibilidade, que vamos considerar e analisar ao longo do presente trabalho, colocámos a notação de tal núcleo vazio (hipotético teoricamente e facultativo foneticamente) entre parênteses. /S/ representa as diversas realizações fonéticas da fricativa coronal.
4 VIB. 6 VOG. 10 (Vigário & Falé 1994: 474) Importa, por conseguinte, identificar em que aspetos reside a especificidade de /S/, no referido contexto prosódico (início fonético de palavra). A excecionalidade da fricativa assenta, por exemplo, no facto de a sequência inicial fricativa coronal+obstruinte ser aceite como ataque ramificado em algumas línguas, nomeadamente nas línguas eslavas (Rubach & Booij, 1990a:122; Rubach & Booij, 1990b:431-432; Booij & Rubach, 1992: 706), ou a fricativa ser núcleo de sílaba como no berbere de Tashlhiyt (Dell & Elmedaloui, 1988; Ridouane, 2008). Esta última perspetiva, ou seja a possibilidade de as consoantes serem núcleo de sílaba, está igualmente presente em estudos sobre bella coola (Gibson, 1995), língua em que algumas soantes (/m n l/) podem ser núcleo de sílaba (Bagemihl, 1991; Fikkert, 1994: 43-44; Gibson, 1995: 37). No caso das línguas eslavas, estes ataques complexos de fricativa+ obstruinte são permitidos, enquanto que, no segundo exemplo (no berbere de Tashlhiyt), o núcleo pode ser ocupado por uma obstruinte ou soante, ou pelo menos, sem a inserção de um schwa (Dell & Elmedaloui, 1988; Ridouane, 2008). Outro dado excecional reside no facto de em alguns exemplos do lendu (família nilo-saariana, centro-sudanês, República do Congo), as sibilantes poderem ser núcleo de sílaba, devido ao ponto de articulação, como defende Demolin (2002: 502): “The comparison of two Lendu dialects has shown that it is the superposition of two gestures which accounts for the realization of alveolar fricative consonants as syllabic nuclei in this language. The almost simultaneous realization of the tongue tip and tongue body gestures necessary to produce syllabic consonants such as [s] or [z] is possible because of some inhibition of jaw movements.”
5 No entanto, as situações apresentadas no início desta introdução são consideradas excecionais, não constituindo, por isso, explicações para a maioria das línguas. As hipóteses explicativas que se aplicam a um maior número de línguas e que serão analisadas uma a uma no capítulo 4, com o intuito de contribuir para um maior esclarecimento do estatuto prosódico da fricativa na sequência /#(∅)SC/, são as seguintes: i) extrassilabicidade da fricativa; ii) a fricativa ser um apêndice ou um adjunto; iii) existência de um núcleo vazio; iv) inserção de um vogal epentética inicial; v) atribuição de silabicidade à fricativa; vi) ataque complexo; vii) uma unidade fonológica única (a fricativa e a obstruinte constituem uma unidade fonológica única, semelhante a um africada). Dependendo da proposta, a fricativa ocupará então uma posição prosódica distinta. Na proposta de extrassilabicidade da fricativa (possuindo esta um estatuto de adjunto ou apêndice), a fricativa coronal pode ser legitimada pela sílaba ou pela palavra fonológica, dependendo do autor e da língua em estudo, e ocupa uma posição própria, especial, que não é totalmente especificada, na nossa opinião. Desta forma, representa uma exceção às regras fonotáticas. Nas propostas em que se defende um núcleo vazio inicial, ou a inserção de uma vogal epentética, a fricativa é colocada em coda e a oclusiva em ataque da sílaba seguinte. A diferença entre estas duas propostas reside não só no facto de a posição de
6 núcleo ser ou não preenchida, mas também se é preenchida por uma vogal a nível fonético ou fonológico. Com efeito, a maioria dos autores defende a inserção da uma vogal epentética a nível fonético, não admitindo a existência de uma vogal fonológica. No entanto, nos estudos para o espanhol, por exemplo, estas duas propostas são complementares, atendendo a que a inserção de uma vogal epentética é desencadeada pelo aparecimento inicial do núcleo vazio (Carlisle, 1988/2001; Wheeler, 2005:250). Noutras propostas, a posição do núcleo vazio é ocupada pela fricativa, o que implica a atribuição de silabicidade à fricativa (Freitas, 1997). Em conclusão, consideramos que é importante contribuir para um maior esclarecimento acerca do estatuto prosódico da fricativa coronal subespecificada /S/. Este será um ponto central da nossa tese. Por conseguinte, todas as perspetivas vão ainda ser analisadas com o objetivo de determinar qual o estatuto prosódico da fricativa para o maior número de línguas, sendo o foco central da análise o PE e as línguas românicas, com algumas reflexões para o inglês e holandês. 1. Objetivos Tendo em conta o tema central desta tese, foram delineados os seguintes objetivos interligados entre si: i) determinar as particularidades da fricativas coronal /S/ no contexto em estudo (/#(∅)SC/) ; ii) especificar quais os contextos que propiciam as particularidades fonéticas, fonológicas e prosódicas da fricativa coronal subespecificada (/S/); iii) examinar o comportamento da fricativa coronal no contexto em estudo na sílaba e na aquisição da linguagem;
7 iv) determinar qual o estatuto prosódico da fricativa quando seguida de uma obstruinte em início de palavra; v) analisar e comparar as diferentes propostas existentes para o problema em questão; vi) apresentar uma proposta para explicar o estatuto prosódico da fricativa coronal (S) no contexto mencionado (/#(∅)SC/); vii) concluir se o Princípio de Sonoridade e a Condição de Dissemelhança são respeitados; viii) constatar se estamos perante um problema universal ou restrições específicas de cada língua (Kenstowicz, 1994: 259; Blevins, 1995). Em síntese, tentar-se-á determinar, através da recolha de dados respeitantes a várias línguas (português, espanhol, italiano, inglês e holandês), qual a proposta mais adequada das anteriormente apresentadas. Com este objetivo em mente optou-se, como metodologia de trabalho, por uma análise descritiva das diferentes propostas. 2. Metodologia Com base nos objetivos delineados optámos por uma metodologia descritiva e reflexiva da literatura sobre o tópico em análise. Assim, recolhemos pistas a nível da investigação fonética e fonológica, na área da aquisição fonológica e posteriormente comparamos a várias hipóteses explicativas com o intuito de construir e apresentar uma proposta. Salientamos que, neste estudo, abordaremos várias teorias fonológicas e não será adotada uma em detrimento de outra, visto, na nossa opinião, todas poderem fornecer
8 dados e perspetivas importantes para a análise do estatuto prosódico das fricativas coronais em início de sílaba e de palavra. Daí não termos escolhido apenas uma visão, uma só teoria fonológica. Quer a fonologia não-linear quer a fonologia articulatória ou a Teoria de Otimidade (TO) podem contribuir com informações importantes e profícuas para a compreensão deste fenómeno, pelo que não optámos por uma teoria em particular. Embora a tendência geral seja para adotar uma teoria, a nossa opção foi proceder a uma análise com base nas diferentes propostas. 3. Estrutura No capítulo 1, apresentamos alguns dados relativos a estudos fonéticos e fonológicos de diversas correntes e períodos, com o intuito de determinar quais as particularidades da fricativa coronal e qual o seu estatuto prosódico. Analisaremos também a interferência mútua dos planos fonéticos e fonológicos, tendo como referência a Fonologia Articulatória (FA) (Browman & Goldstein, 1989; Browman & Goldstein, 1990; Browman & Goldstein, 1992) e a Fonologia de Laboratório (Lindblom, 1984; J. Ohala, 1997 e Demolin, 2002). Tendo em conta os objetivos apresentados, optámos por analisar, numa parte inicial, o valor prosódico atribuído a /S/ na sequência /#(∅)SC/. Numa tentativa de aprofundar o nosso conhecimento a este respeito, iremos deter-nos também sobre aspetos de realizações fonéticas destas consoantes. Serão, essencialmente, objeto de análise características articulatórias e acústicas, com o intuito de detetar algum indício do comportamento distinto destas consoantes a nível fonético que justificasse o seu comportamento fonológico. No entanto, não apresentamos dados fonéticos e acústicos
9 próprios. Posteriormente, analisaremos o seu comportamento silábico/prosódico, tendo por base as diferentes propostas explicativas. A opção pela apresentação de informações fonéticas prende-se com a necessidade de entender o comportamento fonológico e prosódico da fricativa coronal subespecificada, dado que a produção influencia e pode dar um contributo importante para a explicação fonológica. A perspetiva fonética pode, assim, fornecer algumas pistas importantes para a análise fonológica destes segmentos (J. Ohala, 1997: 693; Lindblom, 1984:78; Demolin, 2002:461). Não se pretende, contudo, sobrepor a informação fonética em relação à informação fonológica. Com base em J. Ohala (1997: 693), defendemos que a fonologia deve recorrer a informações fonéticas, com o intuito de compreender determinados fenómenos. Consideramos essencial recolher informações da fonética porque o Princípio de Sonoridade conhece alguma motivação de base fonética (Keller, 2010). Por conseguinte, a nível fonético, para o estudo das fricativas, consultámos Haupt (2007) para o PB, bem como Jesus e Shadle (1999; 2002) para o PE. Estes estudos investigam a frequência das fricativas e os contextos em que ocorrem. Apenas salientamos a característica da estridência, que poderá dar um contributo para a explicação da especificidade das fricativas no contexto em estudo. Atendendo a que o PS é fonológico, vão ser, por conseguinte, comentados alguns estudos fonológicos que se debruçam sobre as fricativas, mais especificamente o contexto silábico da fricativa em início de palavra (/#(∅)SC/), com o intuito de estabelecer um confronto e mostrar de que forma a fonética e fonologia se interligam. Em suma, analisaremos o valor fonético e fonológico atribuído a estas consoantes na literatura, bem como alguns estudos fonéticos e fonológicos que apresentam as
10 características das mesmas, assim como o seu comportamento silábico (Barlow, 2001a: 9; Cardoso, 2008: 19). No capítulo 2, revemos algumas definições de sílaba, constituintes silábicos, assim como princípios silábicos que regem este constituinte prosódico, pois é neste contexto que o carácter particular e ‘mágico’ da fricativa coronal (/S/) ocorre. Neste capítulo procuraremos identificar algumas razões que influenciam estas particularidades, no contexto em estudo. No que se refere ao capítulo 3, analisaremos questões relacionadas com marcação e com a aquisição fonológica, pois podem fornecer dados para encontrar uma resposta para as particularidades das fricativas em determinados contextos prosódicos. Para uma melhor compreensão do tópico central, iremos recolher pistas à área da aquisição fonológica, pois consideramos que a frequência e a aquisição destes segmentos, bem como dos grupos consonânticos, podem fornecer algumas pistas para a nossa pesquisa (Demuth, 1995: 133; Kirk & Demuth, 2003; Demuth, 2009:184; Demuth & Mcclullough, 2009:428). Recolhemos dados de outros autores sobre a aquisição dos segmentos e dos grupos consonânticos nos diferentes constituintes silábicos, bem como os aspetos que influenciam a aquisição, nomeadamente: i) sonoridade; ii) frequência da unidade; iii) restrições da sílaba. Neste contexto, considera-se que a frequência com que determinados segmentos ou padrões silábicos ocorrem numa língua é, por vezes, associada ao conceito de marcação,
17 Clements (1985: 206 2 ), por exemplo, delimita os traços dos segmentos com base em fatores fonéticos e fonológicos (Kenstowicz, 1994: 138). Todavia, convém ter em mente que os traços representam os fatores acústicos e articulatórios, como argumenta Kenstowicz (1994:138): “The important point is that phonological rules never distinguish a sound depending on its associated phonetic correlator. The specific connections between the articulation and the acoustics are mediated by features.” Clements e Hume (1995: 298), ao apresentarem o modelo de traços, consideram que esta teoria recebe informações de várias fontes, acabando por ter igualmente informação fonética, embora não se limite a informação física e fisiológica. 3 Apesar de, desde a escola de Praga, com Trubetzkoy (1939) 4 e, posteriormente, se ter criado uma separação clara entre fonologia e fonética, consideramos, baseados na fonologia articulatória 5 (Browman & Goldstein, 1989; Browman & Goldstein, 1990; Browman & Goldstein, 1992; Appelbaum, 2004) e na fonologia laboratorial, que a informação fornecida pelos estudos fonéticos pode ser um contributo para a investigação fonológica (J. Ohala, 1997:685). 6 Portanto, na geometria de traços o modelo mantém a independência do plano fonético, embora recolha informação do mesmo (Clements, 1985: 206; Laver, 1994: 30 7 ). Assim sendo, procuramos selecionar informação fonética sobre as fricativas 2 Clements (1985: 206) afirma que: “The ultimate justification for a model of phonological features must be drawn from the study of phonological and phonological processes, and not from a priori considerations of vocal tract anatomy or the like.” 3 Clements e Hume (1995: 300) defendem que certos pontos da teoria podem ser acústicos e articulatórios, mas são também fonológicos. 4 Contudo, é questionável esta distinção em Trubetzkoy, visto algumas das suas generalizações fonológicas serem baseadas em aspetos fonéticos (cf. J. Ohala, 1997: 681) 5 Esta corrente fonológica unifica o plano fonético e fonológico, na medida em que recorre a informações fonéticas, nomeadamente da fonética articulatória (Browman & Goldstein, 1986). 6 Compare-se com J. Ohala (1997: 693), que defende que os dados fonéticos podem auxiliar a encontrar respostas na área da fonologia, embora sejam duas areas di stintas: “Inherent in this view is that phonology should not be conducted as an autonomous discipline but rather should embrace any means that will help to get the answers it seeks.” Atualmente, esta relação entre fonética e fonologia é consensualmente aceite. 7 “Phonology is intimately connected with the phonetic study of sp eech […] it is unreasonable to suggest that neither good phonology nor good phonetics is feasible without an adequate understanding of the other.” (Laver, 1994: 30)
18 coronais e, mais particularmente pela fricativa coronal subespecificada /S/, numa tentativa de determinar as suas características para, posteriormente, definir as particularidades mencionadas na literatura no contexto abordado no presente trabalho. Em suma, defendemos uma abordagem quer dos aspetos fonéticos e fonológicos, em relação às fricativas, numa tentativa de encontrar explicações para a problemática em estudo. 1.2. Distinção Vogais/Consoantes Uma divisão frequentemente apresentada consiste na distinção entre consoante e vogal. Esta distinção assenta sobretudo, desde os autores da fonologia estruturalista, num critério: na posição ocupada na sílaba (J. M Barbosa, 1994:135). Para Camara Jr. (1970:43), a consoante combina-se com a vogal silábica para formar sílaba, manifestando diferenças articulatórias de acordo com a posição que ocupa na palavra 8 . Portanto, estas duas categorias assentam na posição ocupada na sílaba e constituem, para estes autores, uma distinção fonológica. Contudo, a definição de consoante, na nossa opinião, não devia centrar-se apenas na dicotomia clássica vogal/consoante 9 (Grammond, 1933: 31; Pike, 1943:66; Catford, 1977: 165; Dziubalska-kołaczyk, 2002: 43; Mateus et al. 2003: 990); por isso, apresentamos algumas propostas alternativas de alguns autores. Uma dessas propostas é a de Pike (1943: 66), que defende que a divisão entre consoantes e vogais é insuficiente porque não representa uma definição que abarque 8 Esta distinção já estava presente em Leão (1576:2), entre outros autores, que define consoantes e vogais com base na posição ocupada na sílaba. 9 Mateus et al. (2003:990) afirmam: “Esses sons são divididos em duas grandes class es de vogais e consoantes. ” (negritos da autora)
19 todas as nuances, já que os sons são apenas englobados num grupo ou noutro 10 . Com base no referido autor há aspetos distribucionais que devem ser tidos em conta. A distinção proposta por Pike (1943) tem igualmente a ver com a aceção fonética e fonológica dos termos consoante/ vogal e contoides/vocoides. Além disso, Pike (1943: 70) 11 advoga que a sonoridade por si só não é razão explicativa suficiente para a distinção vogal/consoante. Para este estudioso, existem três critérios fundamentais que estão na base do papel das vogais e consoantes (Pike, 1943:68), nomeadamente: critérios articulatórios, acústicos e contextuais, reforçando o autor este último, visto ter duas funções: i) função do fonema e das suas ligações no sistema linguístico; ii) função constitutiva da própria “unidade sílaba” (Pike, 1943: 71 e 73). Relativamente à primeira função, Pike (1943: 78) propõe a distinção entre vocoides e contoides, cuja classificação se baseia nos critérios acústicos e articulatórios, como se comprova pela seguinte definição: “A vocoid is a sound which has air escaping (1) from the mouth, (2) without friction in the mouth (but friction elsewhere does not prevent the sound from being a vocoid.” (Pike, 1947: 13-14). Em suma, em vez da distinção entre consoantes e vogais, ter-se-ia a distinção entre contoides e vocoides. Salienta-se que a divisão vocoide/contoide é predominantemente fonética, funcionando de igual modo em todas as línguas, enquanto que a divisão consoante/vogal é essencialmente fonológica e varia de língua para língua. 10 Pike (1947 : 62) :“[t] he dichotomy between vowel and consonants is not strictly an articulatory one but is in part based on distributional characteristics ” 11 Pike (1943: 70) argumenta: “Even with friction and sonority as criteria, the border line between consonants and vowels is uncertain, hazy and wavering.”
20 Para a segunda função, apresenta a distinção entre segmentos silábicos e não silábicos (Pike, 1943:117; Tifrit, 2005: 110), distinção esta que podia aplicar-se quer a contoides, quer a vocoides, como se pode observa na fig. 2: Figura 2Representação dos sons de acordo com Pike (1943) (Pike, 1943: 145) Esta terminologia, apresentada por Pike (1943) 12 , permite a distinção entre conceitos de natureza fonológicos (vogal/ consoante) e conceitos de natureza fonética (vocoides/contoides), permitindo, desta forma, a distinção entre os dois planos: fonética e fonologia. Ainda dentro da mesma linha de análise, Schane (1967:26) define as diferenças e semelhanças entre vogais e consoantes de acordo com três aspetos, alguns dos quais já referidos anteriormente: i) a sua silabicidade; ii) a sonoridade; 12 Camara (1970) utiliza estas designações no sentido de Pike (1943). Syllabic vocoids (vowels) Non syllabic vocoids Sounds (all) When functioning as syllable crests (syllabics) Syllabic contoids Sounds (all) When functioning as nonsyllabics Syllabic contoids (consonants)
21 iii) o tipo de constrição. Bloomfield (1970: 124), por seu turno, distingue entre consoantes que são sempre ou quase sempre não-silábicas e as soantes, que podem ser silábicas de acordo com o contexto e o acento. Cria as noções de consonantoides (só podem ser silábicas em sílabas não acentuadas [m,n,l]) e vocaloides (silábicas mesmo nas sílabas acentuadas [r]). Portanto, neste contexto o critério que orienta a classificação de Bloomfield (1970) é a silabicidade. Em suma, conclui-se que independentemente da terminologia a silabicidade é atribuída às vogais. 1.3. As Fricativas Coronais 1.3.1. Perspetiva estruturalista Na perspetiva estruturalista, as fricativas coronais apenas se dividiam em sibilantes e chiantes (1969 : 62 ; Camara, 1970: 41) 13 . J. M. Barbosa (1965:170) apresenta a seguinte divisão fonética: “/s/ e /z/ co mme des fricatives (sifflantes) pré-dorsoalveolaires oral, sourde et sonore respectivement; /ʃ/ e /Ʒ/ comme des fricatives (chuitantes) alveolaires (se distinguant des sifflantes indiquées par un plus grand volume de la partie antérieure de la cavité buccale), orales, sourde et sonore respectivement.” Camara Jr. (1970:39) refere o facto de as fricativas apresentarem características próprias, ou melhor, denomina-os como “fonemas consonânticos puros”, devido ao “efeito auditivo de forte embaraço à corrente de ar, que nas oclusivas é o de uma plosão, e nas constritivas o de uma fricção.” (Camara Jr., 1970: 39). Se, por um lado a 13 Não se contemplam nesta secção as fricativas labiais. Além disso, esta divisão surge em outros autores anteriores.
22 estridência aproxima as fricativas das vogais, por outro lado denomina as fricativas de fonemas ‘consonântico puros’. Por estridentes entendemos, com base em Matzenauer (2005: 25) “os sons marcados acusticamente por um ruído estridente, em virtude de uma obstrução na cavidade oral que permite a passagem de ar através de uma constrição estreita.” Relembramos que, neste capítulo, procuramos analisar alguns pontos que serão contemplados na discussão das propostas, como foi inicialmente defendido esta análise permitir-nos-á rever argumentos relevantes, para o exame aprofundado das diversas hipóteses explicativas em confronto. 1.3.2. Perspetivas Recentes O estatuto das fricativas, segundo Collischonn (2005:124), apresenta uma problemática interessante, pois a palatal /ʃ/ possui quer traços consonantais, quer traços vocálicos, apresentando a seguinte representação (fig. 3), com base em Clements e Hume (1995) 14 : Figura 3Representação de /∫/ de acordo com a geometria de traços /ʃ/ 14 Collischonn (2005: 123-124) defende que a consoante palatal propicia o surgimento de ditongos leves, ou falsos ditongos tendo em conta os traços que apresenta. r c o P [+contínuo] [coronal] [vocálico] P V abertura [coronal] Collischonn (2005:124)
23 Collischonn (2002:220) 15 salienta ainda que existem dois tipos de fricativas, sibilante e não sibilante, que apresentam comportamentos distintos relativamente ao facto de favorecerem a ocorrência de epêntese: “Tanto as fricativas quanto as oclusivas teriam o mesmo grau de sonoridade, segundo a escala de Clements (1990). O que se verifica é que as fricativas não somente têm um comportamento discrepante em relação às oclusivas, mas também diferem significativamente entre si. A fricativa não-sibilante está relacionada a altas taxas de epêntese; a fricativa sibilante, por sua vez, está relacionada a taxas relativamente baixas. Do ponto de vista da sonoridade, entretanto, os dois tipos de fricativa deveriam ter o mesmo comportamento, uma vez que não se distinguem em termos de sonoridade.” (Collischonn, 2002:220, negrito nosso) Embora os dados da referida autora (Collischonn, 2004: 66) se reportem ao PB, salientamos o facto de no caso das sequências em estudo, prever uma maior ocorrência de epêntese visto não ser admitida pela estrutura canónica da sílaba em português. Estes dados podem ser úteis, para a aceitação ou não de algumas das propostas apresentadas na literatura, na nossa perspetiva. Uma outra perspetiva para a possibilidade de alteração da consoante ou dos segmentos com que se combina, consiste na posição ocupada na sílaba e na palavra, pois em final de palavra tende a sofrer mais alterações (Bybee, 2001:86 16 ). Leite (1997), por exemplo, realça a importância das fricativas coronais quando precedidas de vogal poderem estar ligadas a uma certa especificidade da língua portuguesa. Segundo Leite (1997: 157): “Penso que a razão pela qual as vogais do português caem com tanta facilidade poderá estar associada às características dos segmentos consonânticos que lhes estão subjacentes.” Daí que se entenda como fundamental determ inar quais as características dos segmentos consonânticos que podem estão adjacentes a vogais átonas. Segundo Leite (1997) há características nas consoantes que lhes permitem 15 A referida autora analisa o surgimento de epêntese em palavras como advogado, gnomo, rapto, opção. Nos resultados constata que existe uma variação na inserção da vogal com fricativa não sibilante (advogado) e com fricativa sibilante (opção). 16 Bybee (2001:8 6) afirma: “One of the most common sites for modification of consonants in phonological processes or sound change is syllable final pos ition.” Cf. Jesus e Shadle (2002: 455).
24 receber “traços de silabicidade” quando a vogal átona cai 17 e que são, talvez a razão da queda de vogais no PE. Portanto, a tradicional divisão bipartida (Veloso, 1997: 847) entre oclusivas e fricativas pode ser redutora, pois existem outras propriedades a ter em conta para além da continuidade (Veloso, 1997:847). A presença/ ausência de energia acústica parece ser um critério fundamental para esta divisão (Veloso, 1997:847). No entanto, existem outras propriedades fonéticas que possibilitariam uma divisão diferente. Com base no critério de estrictura (Veloso, 1997: 847) apresentado por Laver (1994), poderíamos falar em: i) fricativas; ii) oclusivas; iii) sons ressoantes/aproximantes. De acordo com Laver (1994: 147), a distinção seria, então, entre fricativas, oclusivas e ressoantes, como se pode ver na fig. 4: Figura 4Distinção dos sons silábicos e não silábicos (Laver, 1994) 17 Leite (1997: 161) argumenta que “[…] p ara as fricati vas em po sição inicial de palavra, ter-se-á que admitir que existem consoantes com características silábicas. Essas características poderão ser a razão da fácil queda de vogais no português.” Fricative non-syllabic approximant yacht syllabic vocoid sea syllabic contoid bottle non-syllabic contoid tea, sea, lea non-contoid contoid central resonant lateral resonant Resonant Stop
25 (Laver, 1994: 147) Esta proposta apresenta alguns aspetos interessantes, na medida em que inclui noções mais abrangentes do que a oposição entre vogal e consoante, fricativa ou oclusiva. Além disso, apresenta a possibilidade de termos contoides silábicas e não silábicas. Este quadro permite-nos questionar as perspetivas que defendem a atribuição de silabicidade à fricativa, visto não ser uma contoides silábica, com base em Laver (1994). 1.4. Dados fonéticos Com base em Shadle e Mair (1996:1524), podemos afirmar que as fricativas coronais têm formantes cujas frequências são reguladas pela configuração do trato vocal; aproximam-se, portanto, das vogais. O lugar da fricativa pode mudar conforme o contexto vocálico, que muda os formantes e anti-ressonâncias e que, portanto, afeta medidas como as da frequência absoluta. De acordo com Kent e Read (1992:121), Samczuk e Gama-Rossi (2004:1), o principal traço da fricativa é a formação de uma constrição estreita num dado ponto do trato vocal; pelo desenvolvimento de fluxo de ar turbulento e pela geração de um ruído de turbulência, distinguem-se das outras classes pela sua maior duração. Para além disso, Kent e Read (1992:121), bem como Samczuk e Rossi (2004:1), constatam que existe uma diferença do [ʃ] em relação às outras fricativas coronais. P or outro lado, a consoante [ʃ] revela valores mais elevados a nível de F2 do que, por exemplo [s], de acordo com Gordon et al. (2002: 165). Esta parece ser a principal característica que distingue [ʃ] das outras fricativas coronais (Gordon et al., 2002: 166; Haupt, 2007:40). Assim, como defende Kenstowicz (1994: 138), as fricativas são [+cont] porque permitem a circulação do fluxo de ar.
26 C. Oliveira (2009: 134), por seu turno, define as fricativas como “consoantes que envolvem uma constrição supralaríngea suficientemente estreita para gerar ruído de fricção, aquando da pas sagem de fluxo do ar” ainda que seja preciso distinguir as fricativas surdas [f], [s], [ʃ] e as fricativa vozeadas [v], [z], [Ʒ]. As fricativas [ʃ] e [Ʒ] são consideradas mais posteriores no português (C. Oliveira, 2009: 138) 18 . Tifrit (2005: 235), por seu turno, apresenta a seguinte definição de fricativas: “qu’elles sont produites avec une forte constriction, un blocage partiel du canal buccal. Ce conduit très étroit par où l’air s’échappe produit une turbulence qui laisse entendre un bruit de frottement, d’où le terme de fricatives. […] prend en compte deux paramètres, celui de la constriction et celui de l’ouverture de la glotte […]” Num estudo sobre o inglês, Ladefoged (2003: 155; 2001: 56) analisa as fricativas do inglês e concluiu que as principais características destas consoantes residem nos seguintes aspetos: i) uma distribuição aleatória da energia (Ladefoged, 2003: 153); ii) os formantes das fricativas, ao contrário das vogais, não estão claramente definidos (Ladefoged, 2003:155); iii) cada uma das fricativas em inglês apresenta padrões distintos (Ladefoged, 2001: 55; 2003: 155); iv) os atributos mais importantes das fricativas sibilantes são as frequências centrais dos picos do espectro (Ladefoged, 2003:155), já que têm maior intensidade (Ladefoged, 2001: 56; Clark & Yallop, 1996:242-243 19 ). 18 C. Oliveira (2009:138) refere que apenas é possível defender a perspetiva que [ʃ] e [Ʒ] são as fricativas mais posteriores, se não tivermos em conta o /R/ uvular. 19 Clark e Yallop (1996: 242-243) defendem a existência de duas características das fricativas: “For descriptive purposes, using categories or parameters of description, two properties of fricational sound sources are significant: their intensity, as reflected in the overall intensity of the speech sounds produced with this source; and their categorization as either voiced or voiceless, determined by the presence or absence of any per iodic (harmonic) structure in their spectra.”
33 2.1. Sílabaunidade fonológica Na fonologia estruturalista e com o SPE (Chomsky & Halle, 1968), a sílaba era secundarizada, mas com a fonologia não-linear a sílaba adquire importância nos estudos fonológicos. Assim, a sílaba torna-se importante para a teoria fonológica, sendo vários os autores que defendem a sua importância (Selkirk, 1982; Blevins, 1995; Goldsmith, 1990; Spencer 1996:74; Booij, 1999:22-23; Roach, 2001:70; Tifrit, 2005: 7). Camara Jr (1976: 43) afirma que “a sílaba é uma divisão espontânea” e defende, com base em Jakobson (1968: 133), que “a sílaba é a unidade fonémica elementar” 2 . Blevins (1995) insiste no estatuto funcional da sílaba, embora argumente que não há uma definição desta unidade universalmente aceite (Bertinetto,1996:1; Barbeiro, 1986: 2; Henderson, 1982: 39-40; Barroso,1999: 154; Mateus, 2002; Veloso, 2003: 82). Esta perspetiva da sílaba como fazendo parte do conhecimento intuitivo dos falantes surge também com Blevins (1995: 209-210), que argumenta que a sílaba organiza os segmentos em termos de sonoridade (Blevins 1995:207). 3 Salienta-se, por conseguinte, que existe uma evidência intuitiva da sílaba, devido aos seguintes fatores: i) a existência de sistemas de escrita silábica (Barroso, 1999; Mateus, 2002); ii) sistemas de línguas secretas, por exemplo, a língua dos pês (Barroso, 1999); iii) a sílaba é a primeira unidade linguística rítmica a ser manipulada na produção da fala (Fikkert, 1994; Freitas 1997:601; J. M. Barbosa, 1994; Mateus, 2002). Segundo Booij (1999: 22-23), a sílaba representa o domínio de aplicação de determinados processos e regras: 2 Postura, de certa forma, semelhante à defendida por Bisol (1999:701): “É importante reconhecer que a sílaba ocupa uma posição fixa na hierarquia prosódica, pois ela é um elemento fundamental na fonologia das línguas como domínio de muitas regras ou processos fonológicos. É tida como a estrutura basilar.” (negritos nossos) 3 Posição também semelhante à de Cohn (2001:191), que considera que a sílaba é parte da estrutura hierárquica fonológica, reconhecendo, assim, a importância da sílaba.
34 i) das restrições fonológicas 4 , podendo por isso determinar-se a boa formação de uma sílaba numa determinada língua; ii) dos processos fonológicos; iii) da aplicação do acento. Por último, ainda se poderá afirmar que a estrutura e a organização da sílaba permitem-nos compreender a forma que os morfemas e as palavras assumem (Barbeiro, 1986:49; Spencer 1996: 73; Booij, 1999: 22; Steriade, 1999: 40; Ewen & Hulst, 2001:122). Além disso, a estrutura da sílaba também desempenha um papel importante nos processos fonológicos de uma língua (Booij, 1999:22; Spencer, 1996: 73; Freitas, 1997: 361; Bisol, 1999: 701; Steriade, 1999: 40; Ewen & Hulst, 2001:122). Mateus et al. (2003: 1038) definem a sílaba da seguinte forma: “A sílaba é uma construção perceptual, isto é, criada no espírito do ouvinte, com propriedades específicas que não decorrem da simples segmentação fonética das sequências de segmentos. Na realidade, a sílaba tem uma estrutura interna organizada hierarquicamente.” 5 (negritos das autoras). Podemos, portanto, afirmar que a sílaba é uma “estrutura basilar” (Bisol, 1999: 701) com uma hierarquia e organização próprias, regida por processos fonológicos (Selkirk, 1982: 337-338; Blevins, 1995: 207; Spencer, 1996: 74; Content, Kearns & Frauenfelder, 2001: 178) e percetível pelos falantes. Um outro aspeto recorrente nas várias definições é a sua organização em termos de sonoridade (Selkirk, 1982:110; 116). Estes são os aspetos centrais da definição da sílaba que estão diretamente relacionados com as sequências /#(∅)SC/, pois torna-se difícil determinar qual o 4 Cf. Ewen e Hulst (2001:122; 124). 5 A mesma autora, numa fase anterior, apresenta uma outra definição de sílaba (Mateus et al., 1990: 211): “a sílaba é uma unidade rít mica, constituída por uma sequência de segmentos que se agrupam em torno de um segmento a que está associado maior grau de p roeminência.” Na definição mais recente, nota-se que a tónica é colocada na perceção do falante e na organização da sílaba.
35 estatuto prosódico da fricativa nesta sequência. A organização da sílaba em torno da sonoridade determina que a referida sequência seja encarada como anómala se for ataque complexo, visto não aparecer o centro silábico e uma fase crescente e, posteriormente, decrescente devido à proximidade a nível de sonoridade da fricativa e da oclusiva. 2.2. Sonoridade Como foi afirmado na secção anterior, a sílaba organiza-se em torno da sonoridade. A sua organização assenta, essencialmente no Princípio de Sonoridade, na Condição de Dissemelhança e no Princípio do Ataque Máximo. O Princípio de Sonoridade pode ser definido da seguinte forma (cf. Blevins 1995: 210; Vigário & Falé 1994: 473; Mateus et al. 2003: 1040, com base em Selkirk 1984): PRINCÍPIO DA SONORIDADE “Numa sílaba, a sonoridade dos segmentos tem de decrescer a partir do núcleo até às suas extremidades. A sonoridade dos segmentos é definida pela seguinte escala, apresentada por ordem decrescente de sonoridade: VogaisLíquidasNasaisFricativasOclusivas.” (Vigário & Falé 1994: 473) Por conseguinte, o Princípio de Sonoridade (Selkirk, 1982:116) permite prever as sequências de segmentos possíveis numa língua, tendo em conta a hierarquia de Sonoridade. Os segmentos são também organizados segundo uma escala de sonoridade indexada a cada língua e a boa formação das sílabas depende da organização dos segmentos (Van der Hulst, 1984: 38).
36 A Condição de Dissemelhança, por seu turno, segundo Vigário e Falé (1994: 473), “deve especificar, para cad a língua, o valor da diferença de sonoridade que os segmentos adjacentes numa mesma sílaba devem manter entre si” e pode ser definida da seguinte forma: “Os segmentos adjacentes numa mesma sílaba têm de ter entre si uma diferença de sonoridade igual ou superior a 4 6 […], sendo sempre preferível um valor superior e sendo sempre marcada (ou impossível) uma sequência com um valor inferior. ” (Vigário & Falé, 1994: 474) 7 A escala de sonoridade indexada para o português é também apresentada pelas autoras supra-mencionadas, com base em Selkirk (1984) 8 : Figura 5Escala de Sonoridade Indexada do PE OCL. [-voz] 0.5 [+voz] 1 FRIC. [-cor] [-voz] 1.5 [+voz] 2 [+cor] [-voz] 2.5 [+voz] 3 NAS. 3.5 LIQ. LAT. 5.5 VIB. 6 VOG. 10 (Vigário & Falé 1994: 474) Selkirk (1984: 110) considera que uma definição das classes naturais deve ser baseada na escala de sonoridade (‘sonority index’). Ao definir classes naturais com base na sonoridade, dá um contributo relevante para caracterizar a estrutura da sílaba. Tendo em conta que as condições que restringem as posições em que os segmentos podem 6 De acordo com a escala de sonoridade indexada do PE apresentada na fig. 5. 7 Baseado em J.W. Harris (1983), Selkirk (1984) e Van der Hulst (1984). 8 O agrupar dos segmentos em função da sua sonoridade pode variar de língua para língua e é derivada de uma estrutura universal e os traços estão hierarquicamente organizados (Van der Hulst, 1984:49-50).
37 ocorrer se baseiam na sonoridade, a perspetiva baseada na hierarquia da sonoridade fica legitimada (Selkirk, 1984: 116). Uma outra questão que pode ser colocada é a definição de sonoridade, que também se torna, por vezes, problemática. Selkirk (1984:111) afirma que há uma base fonética para uma definição de sonoridade (cf. Cardoso, 2008: 18; Parker, 2008:55; 56) 9 e apresenta vários parâmetros para esta definição. Os critérios que permitem delinear um parâmetro físico para a noção de sonoridade são: i) regras fonotáticas; ii) alternância morfofonémica. No entanto, não existe uma definição clara de sonoridade. Ewen e Hulst (2001: 120) defendem que é um princípio viol ável, como se diria na Otimidade: “Sonority is thus a relative, rather than an absolute property”. Goldsmith (2009: 15), por seu turno, apresenta a seguinte definição de sonoridade, que considera abstrata e que não soluciona muitos dos problemas: “sonority is the name we give to our method of organizing the segments from a language along a one-dimensional scale, with the ultimate purpose of describing permissible syllables." (Goldsmith, 2009: 15) Uma outra perspetiva menos frequente assenta em aspetos representacionais (Hermans & Oostendorp, 2005:206), sendo justificada da seguinte forma: “Our argument runs as follows. It is an essential characteristic of the sonority scale that rules, or constraints for that matter, always refer to a contiguous range of positions defined on it. We show that Contiguity of Reference, as we will call it, does not always hold; phenomena do exist that refer to discontinuous positions on the scale. This is a fundamental problem for all approaches of sonority that are based on a scale, but, interestingly, this problem does not exist for the representational 9 Cardoso (2008:18) argumenta que é difícil definir sonoridade, visto poder abarcar várias perspetivas: i) amplitude; ii) abertura do trato vocal. Selkirk (1984: 111) faz corresponder este conceito ao d e ‘loudness’. Hermans e Oostendorp (2005:206) referem que a perspetiva mais abrangente é para definir sonoridade com base numa escala e com motivação fonética.No entanto, admitem a complexidade da definição de sonoridade.
38 approach, which precisely predicts that certain discontinuity effects should exist.” (Hermans & Oostendorp, 2005:206) Com base no Princípio de Sonoridade e na Condição de Dissemelhança, algumas sequências de consoantes não podem ser admitidas no PE como tautossilábicas, como por exemplo: oclusiva+nasal (pneu, gnomo); oclusiva mais fricativa (psicologia, absinto); oclusiva+oclusiva (captivo, obter); fricativa+ obstruinte (espelho, oftalmológico), nasal+nasal (amnésia). Segundo Mateus (1995: 291-292). Neste exemplos a violação dos princípios em questão é justificada com a presença de um núcleo vazio (Mateus, 1995: 296; Freitas, 1997: 108; Mateus & D’Andrade, 2000: 42, 43, 44, 45), com base nas evidências adquiridas através de erros ortográficos e da linguagem infantil, para além de exemplos do PB. Argumenta, por conseguinte, que não há sequências de consoantes em ataque de sílaba que violem o Princípio de Sonoridade e a Condição de Dissemelhança em PE 10 . No entanto, como se pode comprovar pela escala de sonoridade indexada para o PE (Vigário & Falé, 1994), que foi apresentada anteriormente, entre a fricativa e a oclusiva não existe uma diferença igual ou superior a quatro, como é estipulado pelo estudo de Vigário e Falé (1994) e de acordo com o intervalo medido pela escala de sonoridade indexada para o PE. 2.3. Estrutura interna Camara (1976: 43) propõe uma organização da sílaba em termos de crescendo de sonoridade e em torno de um “núcleo” (Camara, 1976: 43) 11 , que seria composto por 10 Esta perspetiva mantém-se em Mateus e D’Andrade (2000: 46). 11 O termo núcleo não é utilizado pelo autor. De notar que a expressão utilizada é centro silábico. No estruturalismo, a designação “núcleo” não era referida.
39 uma vogal. De facto, tradicionalmente, considera-se que a sílaba se organiza em torno de uma vogal (cf. Barroso, 1999: 155; Bisol, 1999: 702; Freitas & Santos, 2001: 20). 12 Existem várias perspetivas que apresentam organizações distintas da estrutura interna da sílaba. Apresentamos três das principais que são apresentadas na fig. 6 (Goldsmith, 2009:8): Figura 6Diferentes representações de sílaba (Goldsmith, 2009:8) Contudo, no nosso ponto de vista, mediante o exposto anteriormente a representação dos constituintes mais aceitável é a A. Para o presente trabalho adotamos a representação A (modelo Ataque/Rima). 12 Note-se que Camara (1976:43) também não exclui a possibilidade de que as soantes poderem ser centro de sílaba. Um outro autor, Barroso (1999: 155), em nota de rodapé refere o sânscrito como uma língua em que os fonemas consoantes líquidos e nasais (=soantes) também tinham uma função silábica, à semelhança das vogais. Atualmente, existem estudos que admitem a possibilidade de ataques ramificados de obstruintes, sem a inserção de um schwa como núcleo (Ridouane 2008:321). Syllable Onset Rhyme Nucleus Coda Syllable Constituent Coda Nucleus Onset Syllable Coda Nucleus Onset A. B. C.
40 A escolha deste modelo tem como base os argumentos de Blevins (1995:212) e Ewen e Hulst (2001: 129-131). Os referidos autores defendem o modelo binário de ataque e rima tendo em conta a seguinte fundamentação: i) a aparente independência dos dois constituintes, do ataque e da rima. As sílabas são constituídas pelo ataque e pela rima, sendo as regras e as restrições aplicadas ao nível destes constituintes, o que reforça o argumento que são dois constituintes autónomos cada um com as suas restrições e estrutura interna (Blevins, 1995: 212; Ewen & Hulst, 2001: 132); ii) as escalas de sonoridade de cada língua nunca se aplicam tendo em conta a vogal seguinte ou anterior, o que aponta para a necessidade de dois constituintes independentes (Blevins, 1995: 213): um que é integrado pelo o segmento vocálico (Rima) e outro pelo o segmento consonântico (Ataque); iii) as regras de atribuição de acento (Blevins, 1995:214; Ewen &Hulst, 2001:131). A atribuição do acento está dependente da rima, não sendo nunca influenciada pelo número de consoantes em ataque 13 . Portanto, com base nas ideias defendidas pelos autores acerca da organização da sílaba (Selkirk, 1982: 343; Freitas, 1997:31; Bisol, 1999: 702; Mateus & D’Andrade, 2000: 60; Mateus et al., 2003: 1038-1039) e dos argumentos a favor da estrutura binária (Belvins, 1985; Ewen & Hulst, 2001) é possível aceitarmos a seguinte estrutura interna para esta unidade prosódica: 13 Mais uma vez, com este argumento os autores pretendem defender a estrutura binária.
41 Figura 7Estrutura Interna da Sílaba (cf. Selkirk, 1982: 341; Booij,1999: 23; Trommelen, 1983: 101, 116; Blevins 1995: 213; Freitas 1997: 31; Bisol, 1999: 702; Freitas & Santos, 2001: 23; Ewen & Hulst, 2001: 130; Veloso, 2003: 92; Mateus et al,. 2003: 1038-1039) Esta estrutura comprova a ideia de que a sílaba é uma entidade complexa, internamente organizada e hierarquiza (Blevins, 1995). De acordo com Mateus e D’Andrade (2000: 60), que aplicam ao PE o modelo Ataque e Rima de Selkirk (1982:341) e que também é adaptado por Blevins (1995: 213), são considerados como obrigatórios os constituintes de ataque e rima; na rima o preenchimento segmental do núcleo é obrigatório, sendo o preenchimento da coda facultativo, em PE. Esta é também a posição de Bisol (1999: 702), que defende a seguinte estrutura para o PB: “a sílaba possui necessariamente um núcleo, sua essência, que, seguido ou não por coda, forma a rima; essa vem precedida pelo ataque que, em português não é obrigatório.” 14 Relativamente à estrutura da sílaba é possível retirar as seguintes conclusões (D’Andrade & Viana, 1993: 34; Vigário & Falé, 1993: 469; Mateus, 1995: 289; Freitas, 1997: 30-31; Bisol, 1999: 704; Mateus & D’Andrade, 2000: 60), que vão orientar este estudo: 14 Esta estrutura não se aplica apenas ao português, pois Kenstowicz (1994: 252-253) defende a seguinte estrutura para a sílaba: “[…] the syllable has traditionally been seen containing an o bligatory nucleus proceded by an optional consonantal onset and followed by an optional consonantal coda. The nucleus plus coda form a tighter bond than the onset plus nucleus. Consequently, traditional grammar recognizes an additional subconstituent called the rhyme (or rime) that includes the nucleus and the coda.” (cf. Booij, 1999:23; Trifit, 2005: 99). Sílaba Rima Ataque Núcleo Coda
42 i) a sílaba do português tem estrutura binária (Freitas, 1997:25), representada pelos constituintes ataque e rima, dos quais apenas a rima é obrigatória 15 ; ii) a rima também tem estrutura binária, núcleo e coda. O núcleo é sempre uma vogal, no português e a coda é uma soante ou /S/; iii) o ataque compreende o máximo de dois segmentos, o segundo dos quais é uma soante não nasal. A estes constituintes aplicam-se restrições fonotáticas (Selkirk, 1982: 337; Blevins 1995: 207-208; Spencer 1996: 73-74; Veloso 2003: 88, 93) (como é o caso das consoantes que podem ocorrer em coda, os ataques ramificados permitidos em PE). Ataque No caso do português, todas as consoantes podem ser ataque de sílaba, no início ou no meio da palavra (Mateus & D’Andrade, 2000: 39; Mateus et al., 2003: 1039), embora / ɾ/ nunca surja no início e / ʎ /, / ɲ / só muito dificilmente ocorram em início de palavra. Em ataque as restrições importantes, no PE, ocorrem sobretudo em relação aos ataques ramificados. Apenas são legitimados os ataques que não violam o Princípio de Sonoridade (Mateus & Andrade, 2000: 40; Mateus et al., 2003: 1039) e a Condição de Dissemelhança. Portanto, os ataques podem ser simples (preenchidos apenas por um segmento), vazios (não são preenchidos a nível fonético por nenhum segmento) ou ramificados/complexos (preenchidos por dois segmentos), que estão representados na fig.8, no 1), 2) e 3). 15 Estudos na área d a aquisição da linguage m validam a estrutura binária ‘Ataque-Rima’, segundo Freitas (1997: 362).
49 sonoridade (Selkirk, 1982:110, 116; Blevins 1985: 210; Content, Kearns & Frauenfelder 2001: 178; Cohn, 2001: 189). Este aspeto origina uma problemática para as sequências /#(∅)SC/ em início de palavra, visto não aparecer o centro silábico, normalmente ocupado por uma vogal, uma fase crescente e, posteriormente, decrescente devido à proximidade a nível de sonoridade da fricativa e da oclusiva. Tendo em conta a frequência com que ocorre esta sequência, ter-se-á de verificar qual a proposta mais correta, como será analisado nos capítulos 4 e 5. A selecção assentará sempre na preservação do Princípio de Sonoridade. Embora se possa questionar a universalidade deste princípio, consideramos que é possível encontrar uma proposta em que este princípio seja respeitado. Uma outra proposta, corroborada por Blevins (1995:21), é a possibilidade de ser uma condição de preferência. Segundo a referida autora (Blevins, 1995: 211) o facto de alguns autores considerarem a possibilidade do Princípio de Sonoridade ser uma condição de preferência de cada língua, que reflectia valores de marcação universal, pode ser uma proposta a ter em consideração. Como condição de preferência entende-se que as diferentes línguas podem apresentar explicações e representações distintas (Goad, 2011), preferindo uma proposta em detrimento da outra, consoante a especificidade de cada língua. A organização da sílaba em termos de sonoridade é uma constante nas diferentes perspetivas teóricas, corroborada pelo facto de a segmentação por parte dos falantes parecer assentar respeitar esta organização, pois estes segmentam tendo em conta o número de vogais e o crescendo silábico. A divisão tem em conta, em muitos casos, o número de vogais (Henderson, 1982: 40; Barroso, 1999: 155; Bisol, 1999: 702; Freitas & Santos, 2001: 20), como já foi referido. Por outro lado, é a própria organização da sílaba em termos de sonoridade, mais especificamente de um crescendo de sonoridade, que coloca o problema com algumas sequências, nomeadamente com sequências
50 fricativa+ obstruinte tautossilábicas 23 em posição inicial, que não são permitidas no português, nem noutras línguas, como o inglês e italiano 24 , por violarem o Princípio de Sonoridade e a Condição de Dissemelhança (Delgado-Martins, Harmegnies & Poch, 1995a; 1995b; Leite, 1997; Delgado-Martins, 1996; Veloso, 2000; Freitas, 1997; 2000; D’Andrade & Rodrigues, 1999; Rodrigues, 2000; Freitas & R odrigues, 2003). Assim como ataques de mais de três consoantes, que não são permitidos em PE. As fricativas, como foi afirmado no capítulo anterior, caracterizam-se pela sua estridência, à semelhança com as vogais, no entanto, não pretendemos defender a possibilidade de /S/ ser núcleo. Uma das questões colocadas assenta na impossibilidade de percecionar uma vogal inicial, que pode estar presente e, assim sendo, não havia violação das regras fonotáticas. Uma outra possibilidade consiste na criação de um núcleo vazio à esquerda, que está contemplada pelo algoritmo de silabificação. A inexistência de uma vogal inicial, de acordo com as convenções para o PE, bem como na maioria das línguas, o núcleo é associado a uma vogal (Convenção de Associação de Núcleos) pode ser explicada com base na hipótese da presença de um núcleo vazio. Portanto, a problemática central reside em atribuir o estatuto prosódico de /#(∅)SC/, podendo resumir-se as possibilidades que irão ser analisadas da seguinte forma: Quadro 1-Diferentes propostas de prosodização da sequência fricativa+obstruinte Proposta Consequências /sC./ Violação do Princípio de Sonoridade e da Condição de 23 Centramo-nos neste exemplo visto ser um trabalho sobre as fricativas coronais e sobre as suas ‘especificidades’, mais concretamente relativamente ao seu co mportamento na sílaba. 24 Cf. Marotta (1995), Bertinetto (1999), Kaye (1996). Com efeito, também no inglês, como no português, tais sequências não são permitidas, como é referido por Blevins (1995: 211): “However, in English syllable initial /sp st sk/ occur, and post vocalic tautossyllabic /sp st sk/ are also found, and English is far from unique in this regar d”. Salienta-se, no entanto, que não estamos perante a mesma fricativa no inglês e no português.
51 Dissemelhança. /∅s.C/ Preservação do Princípio de Sonoridade e da Condição de Dissemelhança. /Vs.C/ Preservação do Princípio de Sonoridade e da Condição de Dissemelhança /s.C/ Violação da convenção de preenchimento de núcleo. Após a apresentação e análise das diferentes hipóteses, entre as quais as expostas no quadro anterior, presentes na literatura, tentar-se-á dar um contributo para determinar o estatuto prosódico das sequências /#(∅)SC/, tendo por base de diferentes línguas.
52 Capítulo IIIA estrutura /#(∅)SC/ na aquisição fonológica
53
54 Apesar de este trabalho não ser desenvolvido no domínio da aquisição de linguagem, nem apresentar dados próprios resultantes de um estudo experimental, considerámos que seria importante analisar o que é proposto em termos de estabilização da aquisição fonológica da sequência /#(∅)SC/, com o objetivo de encontrar mais pistas para a compreensão do estatuto prosódico da fricativa coronal subespecificada na sequência em estudo. Os dados da aquisição fonológica parecem-nos importantes porque podem ajudar-nos a explanar o estatuto prosódico da sequência /#(∅)SC/ e, em particular, o da fricativa (/S/) nesta sequência. A ordem pela qual os grupos consonânticos são adquiridos de acordo com o constituinte silábico que ocupam também é diferente, podendo as crianças cometer um maior ou menor número de ‘erros’ (ou melhor, estratégias de reparação) de acordo com a posição na sílaba e com a frequência de ocorrência da sequência em estudo (Demuth & McCullough, 2009: 248). Com esta perspetiva em mente, selecionámos diferentes autores cuja leitura pode constituir um contributo importante para o tema em discussão: determinar o estatuto prosódico da fricativa coronal subespecificada quando seguida de obstruinte (se é ataque, se se encontra em coda ou se é uma consoante extrassilábica). De seguida, analisamos a aquisição das fricativas nos diferentes constituintes silábicos 1 (a aquisição das fricativas; a aquisição da fricativa em ataque, em ataques complexos e em coda), atendendo a que a aquisição da sílaba e dos seus constituintes permite compreender melhor determinados fenómenos (Freitas, 1997: 361). Num primeiro momento, um dos 1 Apesar de haver um aparente consenso na ordem da aquisição dos sons nas diferentes línguas (Menn & Stoel-Gammon, 1995: 347; Bernhardt & Stemberger, 1998: 277; C. Silva, 2011: 36), deve-se ter em conta as diferenças individuais de cada criança (Kirk, 2008) e, no fundo, só se pode falar de probabilidades (Menn & Stoel-Gammon, 1995: 347-348; Bernardt & Stemberger, 1998: 277) quando nos referimos à aquisição de linguagem.
55 aspetos que interessa analisar centra-se na ordem da aquisição das fricativas, nomeadamente em relação às oclusivas. Relembramos que não será dada ênfase a uma teoria em detrimento de outra, visto todas poderem fornecer pistas úteis para a nossa investigação. 3.1. Aquisição das fricativas Jakobson (1941/68), baseado na noção de marcação 2 , propõe os seguintes universais implicacionais para a aquisição: i) As fricativas implicam a aquisição prévia das oclusivas. ii) Se só uma fricativa estiver presente, será /s/. iii) As africadas implicam um contraste inicial entre fricativas/oclusivas no mesmo ponto de articulação. iv) Os sons anteriores implicam a aquisição prévia de sons frontais. v) As obstruintes vozeadas implicam a aquisição anterior de obstruintes não vozeadas. vi) A aquisição das vogais arredondadas implica a aquisição prévia de vogais não arredondadas, o que não é pertinente para o presente estudo 3 . Tendo em conta estes universais implicacionais, Jakobson (1964/1968) previu que as oclusivas seriam os primeiros segmentos a serem adquiridos pelas crianças (Smith, 1973; Ingram, 1978; Menn & Stoel-Gammon, 1995:348; Vihman, 1996:141; Bernardt 2 A noção de marcação assume diferentes significados e será explorada na secção 3.1.1.. 3 Este universal implicacional foi incluído por ser um dos vários apresentados por Jakobson. Jakobson previa outros universais implicacionais que não foram aqui considerados, visto não serem relevantes para este trabalho.
56 & Stemberger, 1998: 278; Fikkert, 1994:4; Freitas, 1997: 119). Posteriormente, Smith (1973), Ingram (1974), (1986), Fikkert (1994) e Lléo (1994) confirmaram esta proposta. Jakobson (1941/68) defende ainda que os primeiros segmentos a serem adquiridos são aqueles que apresentam maior contraste (no sentido de oposição), existindo também uma ordem pela qual os contrastes e as regras são adquiridos (Fikkert, 2000:4) 4 . Por este motivo, o referido autor apresentava a aquisição dos diferentes segmentos com base nos seguintes contrastes: i) consoante/ vogal; ii) contrastes a nível das consoantes: oral vs. nasal; labial vs. dental; iii) constrastes a nível das vogais: fechado vs. aberta; frontal vs. recuada. Brown e Matthews (1997: 100) também concluem que as crianças entre as idades 1;3 e 2;4 desenvolvem gradualmente a capacidade de distinguir oposições fonémicas. Os referidos autores, entre outros (Chin & Dinnsen, 1992; Gierut, 1996; Bernhardt & Stemberger, 1998: 286), propuseram novas descrições para a aquisição do inventário fonémico com base na geometria de traços, que é semelhante à hierarquia proposta por Jakobson (1941/1968). Bernhardt e Stemberger (1998: 286), por exemplo, referem que o traço coronal está numa posição hierárquica superior, como se pode constatar pela fig.10: 4 De acordo com Fikkert (2000:4) Jakobson: “claims about the distribution of phonolo gical features among the world’s languages, that not only determine inventories but also dictate what kind of rules are to be expected in acquisition.”
57 Figura 10Hierarquia de aquisição dos traços Bernhardt e Stemberger (1998: 286) Por outro lado, C. Oliveira (2004:88), por seu turno, defende que as coronais /s/, /z/, /ʃ/ e /ӡ/ são as aquisições mais tardias na classe das fricativas, o qu e comprova a ideia de que não existe um consenso total no que se refere à ordem da aquisição dos segmentos. Em suma, as fricativas são adquiridas numa fase mais tardia, em relação à aquisição das oclusivas. Apesar de poder haver aspetos comuns a nível universal deve deixar-se alguma margem para a especificidade de cada língua, a nível da aquisição da fonológica. Atendendo a que se defende a aquisição prévia do formato não marcado (Jakobson, 1941/ 1968; Demuth, 1995; Fikkert, 2000: 4; Stites et al., 2004), consideramos fundamental analisar brevemente o conceito de marcação, que vai ser apresentado na secção seguinte. 3.1.1. Conceitos de marcação Fluxo do ar Ferramentas SV Ponto de Articulação Raíz Laríngeo C.G. (C.G) Cont (Oclusiva) Oral (Nasal) Vocálico (Lateral) Periférico Coronal Dorsal (Labial)
58 O termo marcação foi proposto por Trubetzkoy pela primeira vez (1939: 66). No entanto, este conceito foi adquirindo novos sentidos (Haspelmath, 2005: 27) e perde, sobretudo, a ligação a uma teoria em particular, para além de ser difícil de apresentar uma definição (De Lacy, 2006: 1; C. Silva, 2011: 18). Haspelmath (2006: 25) considera que o conceito de marcação é supérfluo e ambíguo, para além de ter várias aceções. A referida autora divide a multiplicidade de conceitos em três grandes grupos: i) complexidade; ii) dificuldade; iii) fora do normal 5 ; Incluidos nestes três eixos são apresentadas 12 aceções (Haspelmath, 2005) que o conceito marcação foi adquirindo com diferentes autores e com teorias diferentes: I. Marcação como complexidade 1. marcação como especificação de uma oposição fonológicapresente em Trubetzkoy (1931), no âmbito da sua teorização da noção de oposição (exemplo: /t/ mais marcado que /d/). Quanto um elemento apresenta uma marca que o outro não tem, por exemplo vozeado, esse elemento transporta a ‘marca’ v ozeado. Neste sentido, marcação é um conceito ligado às oposições fonológicas, estando relacionado com a oposição presença/ausência de um traço (Haspelmath, 2005: 28). 2. marcação como uma oposição semântica–oposições que transmitem significado lexical e gramatical (Haspelmath, 2005: 28). Por exemplo, dog é o termo menos marcado porque pode aplicar-se ao feminino ou masculino; 5 O termo utilizado por Haspelmath (2005) é abnormality.
65 holandês, que as crianças adquirem ataques complexos quando estes diferem no máximo em sonoridade, o que comprova que preservam o Princípio de Sonoridade e a Condição de Dissemelhança. A explicação para as sequências que não respeitam o Princípio de Sonoridade reside, segundo a autora, na extrassilabicidade 11 (Fikkert 1994:43). O conceito de segmentos extrassilábicos, com base em Trommelen (1983), permite solucionar violações do Princípio de Sonoridade, nomeadamente no caso de /s/+obstruinte (Fikkert 1994: 44). Com esta explicação a fricativa coronal (/S/) não constituiria ataque ramificado com a oclusiva e, portanto, não existia violação nem do Princípio de Sonoridade, nem da Condição de Dissemelhança. Fikkert (1995:13) propõe três fases importantes na aquisição/desenvolvimento da estrutura das sílabas. i) Aquisição de CV (Fikkert 1995: 13). ii) Redução de grupos consonânticos (Chin & Dinnsen, 1992:260; Freitas, 2003). iv) Apagamento de consoantes finais em final de palavra. 3.2.1.1. Estratégias de reparação A redução dos grupos consonânticos surge sobretudo como forma de manter a estrutura CV (Smith, 1973: 161; Lléo & Prinz, 1996:32, que é o formato não marcado. No caso dos grupos fricativa+obstruinte, em inglês, o /s/ é que é sempre omitido (Smith, 1973: 166; D. Ohala, 1995:398 12 ), como forma de evitar uma sequência que violaria o Princípio de Sonoridade e a Condição de Dissemelhança. 11 Fikkert (1994: 43) afirma: “we will argue that the child language data strongly argue for the SSP as a linguistic principle. Moreover, it will be argued that elements do not obey the SSP are not part of the syllable, lie outside it.” 12 A referida autora (D. Ohala, 1995:398) conduz um estudo em que constata que na sequência fricativa+ obstruintea há a omissão da fricativa, mas quando há a sequência fricativa+líquida as crianças omitem esta última.
66 No caso do PE, nos ataques complexos, uma das primeiras estratégias de reparação é a redução de um dos elementos do ataque complexo (Freitas, 2003: 28). Freitas (2003: 39) refere as seguintes estratégias de reparação para ataques ramificados: i) redução do elemento à esquerda; ii) redução do elemento à direita; iii) núcleo vazio; iv) epêntese da vogal. Estabelecem-se, portanto, as seguintes fases para a aquisição dos ataques ramificados, com base nos dados do holandês (Fikkert, 1994; Freitas, 2003): Estádio 0: o ataque ramificado não está presente nos dados lexicais, no output, da criança. Estádio 1: o ataque ramificado é reduzido ao seu elemento esquerdo 13 . Estádio 2: o grupo consonântico é reduzido ao segundo elemento Estádio 3: os dois elementos do grupo consonântico são produzidos. Os estádios estabelecidos por Fikkert (1994) para o holandês foram posteriormente verificados por Freitas (1997) para o PE. Freitas (1997; 2003) constata que as crianças falantes do PE têm um comportamento diferente das crianças falantes do holandês porque numa fase inicial procedem à redução dos dois elementos do ataque ramificado (Freitas, 2003: 34), não revelam a tendência para redução do segmento à direita, mas sim do segmento à esquerda. Além disso, numa fase posterior, quando já adquiriam os ataques ramificados apresentam a tendência para inserção de uma vogal 13 No caso do PE, de acordo com Freitas (2003: 39) os dados do seu estudo revelam que as crianças omitem o elemento à esquerda, preservando o segmento à direita.
67 epentética (Freitas, 2003:39). Numa fase final, os ataques ramificados tornam-se estáveis e são produzidos (Freitas, 2003: 39-40). Uma realidade parece ser comum às várias línguas, que é a aquisição tardia dos ataques ramificados (Chin & Dinnsen, 1992: 261; Freitas, 2003: 28), para além da utilização de mecanismos de reparação, preservando-se sempre o Princípio de Sonoridade e a Condição de Dissemelhança. Para além da ordem pela qual os grupos consonânticos são adquiridos, a frequência com que os grupos consonânticos ocorrem numa determinada posição também é relevante (Rose, 1997:196; Chang et al., 2001:82; Demuth & Mccullough, 2009:428). Para crianças falantes do alemão, a aquisição de grupos consonânticos em coda ocorre primeiro do que grupos consonânticos em ataque porque há uma maior frequência de grupos consonânticos em coda (Demuth & Mccullough, 2009:428). No entanto, os dados para o PE serão diferentes, atendendo ao facto de a coda ser opcional e haver a tendência para o seu esvaziamento (Veloso, 2008). Além disso, a redução de um dos segmentos do grupo consonântico também vai depender da língua (Lléo & Prinz, 1996). Lléo e Prinz (1996), num estudo comparativo entre crianças alemães e espanholas, concluíram que as primeiras preferiam manter a fricativa e as segundas, a oclusiva. Segundo os referidos autores, esta preferência diferente nas duas línguas tem por base parâmetros de silabificação diferentes. A preferência pela preservação da oclusiva em espanhol tem por base o facto de ter os parâmetros de silabificação da direita para a esquerda, de acordo com os autores referidos, enquanto que no alemão a direcionalidade é da esquerda para a direita. Um fenómeno que comprova esta explicação assenta na inserção de uma vogal inicial, impedindo, assim, o /s/ de ser extrassilábico.
68 No entanto, estudos referentes a outras línguas não detetam diferenças entre ataques com a sequência /#(∅)SC/ e outros ataques (Bloch, 2011: 12). No fundo, os mecanismos de reparação são semelhantes, no sentido em que o mecanismo mais frequente é a redução de um dos elementos (Bernardt & Stemberger, 1998; 527; Mildner & Tomič, 2011:1383). Em síntese, de acordo com algumas línguas, os dados de aquisição podem apontar para a possibilidade de fricativa+obstruinte constituir um ataque complexo, com base nos seguintes aspetos: a redução da fricativa, o elemento à esquerda, que costuma ser uma estratégia comum na produção inicial de ataques complexos 14 . Por outro lado, também podemos questionar esta proposta com base no seguinte argumento: as crianças produzem esta sequência antes de terem adquirido ataques com fricativas (Fikkert, 1994); nas produções iniciais as crianças tendem a preservar o Princípio de Sonoridade. 3.3. A aquisição de codas Numa fase inicial, uma caraterística universal parece residir na não realização de coda ou no seu apagamento (J. Devilliers & P. Devilliers, 1978: 44; Fikkert, 1995: 13). Primeiro, são adquiridas as rimas e, posteriormente, rimas com codas simples (Fikkert, 1994; Hernandorena & Lamprecht, 2000: 1) e, numa fase posterior, codas complexas 14 Esta proposta, à semelhança das outras apresentadas, vai ser analisada e o facto de ser integrada neste capítulo não é significativo da nossa concordância como a proposta explicativa mais adequada.
69 (Fikkert, 1994). Esta evolução na aquisição está sujeita a algumas diferenças individuais. Hernandorena e Lamprecht (2000) estudam a aquisição da coda e chegam à conclusão de que existem três estádios: a) inicialmente, verifica-se a ausência de coda; b) depois, surge a rima ramificada, na maior parte das situações com o alongamento da vogal (Hernandorena & Lamprecht, 2000: 6); c) finalmente, surge o preenchimento da coda por um segmento (rima ramificada). Uma das variáveis a ter em também em conta é a posição da fricativa em coda na palavra 15 , podendo os resultados variar (Mezzomo, 2004: 140) de acordo com a posição ocupada. Para além disso, a aquisição da coda é um processo tardio (Mezzomo, 2004: 132) Segundo Freitas (1997:230), a ordem de emergência das codas preenchidas seria a seguinte: “1) Coda fricativa em sílaba tónica, em posição interna de palavra; 2) Coda fricativa em sílaba tónica, em posição final de palavra; 3) Coda fricativa em sílaba átona, em posição interna de palavra; 4) Coda fricativa em sílaba átona, em posição final de palavra.” Todavia, a motivação desta emergência da coda associada a fricativa pode estar relacionada não apenas com fatores fonológicos, mas sobretudo com razões de natureza morfossintática (Freitas, 1997:234), visto em final de palavra a fricativa estar associada à marca de número (plural) e de pessoa, sendo o conteúdo morfológico um dos critérios para a aquisição de determinados grupos consonânticos (Demuth & McCullough, 2009: 426). 15 “O surgimento da fricativa em coda na fala das crianças não é tão precoce como a emergência da líquida lateral e da nasal. Aos 1:6 a fricativa surge em coda final e ao s 2:0 emerge em coda medial.” (Mezzomo, 2004: 140).
70 Contudo, a aquisição da sequência /#(∅)SC/ e, essencialmente, dos constituintes silábicos pode variar até devido à frequência de alguns segmentos em determinadas posições. O facto de numa língua em particular ser mais frequente a existência de codas ramificadas pode influenciar a produção mais tardia ou não por parte das crianças (Chang et al., 2009). Este fator torna-se importante na medida em que pode condicionar a aquisição (Demuth & McCullough, 2009: 426) 16 e a mudança (Bybee, 2001:58 17 ), pois a maior ou menor frequência de ocorrência de determinados segmentos em determinadas posições pode conduzir à sua queda, ou mesmo à sua modificação. De acordo com alguns estudos a posição nas sílabas ou nas palavras são as primeiras unidades de oposição (J. DeVilliers e P. DeVilliers, 1978: 39; Dresher, 1990:330; Freitas, 1997). Fikkert (1994) e Freitas (1997), por seu turno, mostram o surgimento de determinados segmentos em diferentes posições na sílaba. 3.4. As sequências /#(∅)SC/ na aquisição fonológica A aquisição da sequência /#(∅)SC/ vai estar condicionada pela ordem da aquisição dos constituintes silábicos e com a frequência de determinadas estruturas em cada uma das línguas. Apesar de a sequência em estudo poder ser mais marcadas do que outras sequências consonânticas, em algumas línguas são adquiridos primeiro (Pan & Snyder, 2004: 437). Segundo alguns autores, as sequências consonânticas /#(∅)SC/ são adquiridas 16 Demuth (2009: 426) refere os seguintes aspetos como os fundamentais que influenciam a aquisição de grupos consonânticos: i) frequência da estrutura; 2) conteúdo morfológico; 3) restrições da sílaba. 17 Bybee (2001:58) refere que as palavras mais frequentes apresentam mais possibilidades de sofrerem mudanças.
71 tardiamente na maioria das línguas (Cardoso, 2008:16), apesar de registarem alguma frequência de ocorrência em várias línguas (português, italiano, espanhol, inglês) 18 . Todavia, noutras perspetivas, segundo Barlow (2001: 9), num estudo sobre o inglês 19 , a sequência /#(∅)SC/ ocorre relativamente cedo em inglês, ao passo que em línguas como o português é mais tardia (Freitas, 1997; Freitas, 2000). Portanto, no português poder-se-á considerar uma sequência marcada. Uma outra questão reside nas estratégias de reparação. A primeira estratégia para o PE, com base em Freitas (1997; 2000), será a eliminação de um dos segmentos, nomeadamente da fricativa, à semelhança da estratégia usada para determinados grupos consonânticos (Freitas, 1997:294). Os dados de D. Ohala (1995) para o inglês também revelam que quando surge fricativa+obstruinte em início de palavra fonético é a fricativa que é eliminada. Por outro lado, noutras línguas, pode ocorrer a eliminação da oclusiva. Uma outra estratégia consiste na inserção da vogal (Freitas, 1997), até em crianças falantes do holandês (Fikkert, 1994). Se considerarmos a existência de uma vogal inicial, a aquisição destes grupos seria menos complexa e talvez as crianças estabelecessem um paralelo com estas sequências em posição medial, onde está sempre presente uma vogal. Quer se admita a existência um núcleo vazio, quer a presença de uma vogal inicial, a estrutura destas sequências obedecerá às regras fonotáticas, uma vez que a fricativa será coda da primeira sílaba Pan e Snyder (2003:622), num estudo sobre o inglês, propõem a aquisição de dois parâmetros de categorias vazias 20 : o parâmetro de ataque vazio (Empty Onset 18 Não se está com esta afirmação a defender que estamos perante ataques complexos, mas sim que surgem na literatura como investigados na posição de ataque. A nossa proposta é que não constituem ataques complexos, como foi afirmado na introdução e como vai ser argumentado no capítulo 6. 19 Sanoudaki (2007:47), num estudo sobre o grego, apresenta conclusões semelhantes a Barlow (2001). 20 Os referidos autores construem a sua proposta com base numa abordagem paramétrica (Pan & Snyder, 2003: 615). O termo parâmetro é usado pelos referidos autores com base nesta perspetiva teórica, da
72 Parameter) e o parâmetro de núcleo vazio (Empty Nucleus Paramater). Embora estes parâmetros sejam aplicados ao holandês, acreditamos que com estes seja mais fácil explicar a aquisição destas sequências e, sobretudo, a colocação da fricativa em coda. Apesar de as codas em PE não serem tão frequentes (Veloso, 2008, baseado em Mateus & Andrade, 2000; Vigário & Falé, 1984), de o formato mais comum ser o CV, o formato VC também é um dos primeiros a serem adquiridos (Bernhardt & Stemberger, 1998; Costa & Freitas, 1998; Pan & Snyder, 2003: 623). Fikkert (1994), através do seu estudo, conclui que estas sequências são representadas da mesma forma que os ataques ramificados, mas também existem alguns argumentos contraditórios, como o facto de surgirem antes de outros ataques, As propostas apresentadas para esta sequência são semelhantes a nível da aquisição de linguagem e da fonologia dos adultos. Encontram-se as seguintes propostas: i) núcleo vazio (Pan & Snyder, 2004); ii) apêndice (Grijzenhout & Joppen-Hellwig, 2002); iii) extrassilabicidade (Fikkert, 1994; Sanoudaki, 2007). 3.4.1. Núcleo Vazio Pan e Snyder (2004: 43) defendem a adaptação de proposta de Kaye (Fonologia do Governo) para a aquisição, ou seja, a existência de um núcleo vazio (#∅∫.C), com base no parâmetro de licenciamento de um núcleo vazio. As autoras defendem esta proposta com base nos seguintes argumentos: mesma forma como é utilizado por Fikkert (1994) e Freitas (1997), que adoptam o modelo da Gramática dos Princípios e dos Parâmetros de Chomsky.
73 i) a sequência fricativa+ obstruinte em início assemelha-se àquela que ocorre em meio de palavra, sendo a única diferença o facto de o núcleo não ser preenchido. ii) os exemplos dos empréstimos em espanhol, que registam a inserção de uma vogal inicial 21 . De acordo com esta posição, a aquisição da sequência /(∅)SC/ estaria mais ligada à aquisição da rima (Pan & Snyder, 2004:445) do que à aquisição de ataques. Por conseguinte, consideram que a sequência /#(∅)SC/ não pode ser encarada como em início de palavra porque no início tem-se um núcleo vazio (Pan & Snyder, 2004:445). 3.4.2. Proposta de extrassilabicidade da fricativa A justificação para as sequências iniciais que não respeitam o Princípio de Sonoridade reside, segundo (Fikkert 1994:43), na extrassilabicidade 22 . O conceito de segmentos extrassilábicos, com base em Trommelen (1983), permite solucionar violações do Princípio de Sonoridade, nomeadamente no caso de /s/+obstruinte (Fikkert 1994: 44). A autora defende a hipótese, para o holandês, de que o /s/ é extrassilábico (Fikkert 1994:44;112) 23 . Esta perspetiva assenta na noção que apenas o /s/ funciona como adjunto e esta é uma das restrições mais elevadas na hierarquia, de acordo com a TO (Boyd, 2006: 41-42). 21 As autoras referem os dados do espanhol, embora efetuem um estudo sobre o inglês. 22 Fikkert (1994: 43) afirma: “we will argue that the child language data strongly argue for the SSP as a linguistic principle. Moreover, it will be argued that elements do not obey the SSP are not part of the syllable, lie outside it.” 23 Ewen (1982: 48) fala em ambissibilacidade, assim como Hulst (1984: 51), com base em Kahn (1976), contesta, contudo a hipótese de Trommelen (1983) que o apêndice é extramétrico: “The conclusion must be that the syllable prefix cannot be given the status of an extrametrical element that can only occur at the periphery.” (Hulst, 1984: 116).
74 Segundo Sanoudaki (2007), com base em dados sobre o grego, uma possível justificação para a variação pode residir no facto de algumas crianças adquirirem primeiro os ataques ramificados e posteriormente segmentos extrassilábicos. Inicialmente, o /s/ está fora do ataque, depois através da derivação o /s/ é ligado a um constituinte através de uma regra de adjunção (Sanoudaki, 2007: 47) Uma outra proposta é que sejam estruturados como africadas (Van der Weijer, 1984). Lléo e Prinz (1996: 35) apenas analisam a sequência fricativa+ obstruinte em posição medial porque defendem que não se trata de um ataque ramificado, mas de um único segmento. 3.4.3. Apêndice/ Adjunto Esta proposta decorre na maioria dos autores da noção de extrassilabicidade, em que o /s/ não tem um constituinte silábico atribuído. De acordo com Gierut (1999:721), tendo em conta os resultados de um estudo experimental, a fricativa é um adjunto e é não marcado na aquisição. O facto de as crianças usarem como estratégia a redução da fricativa justifica a possibilidade de ser um adjunto, mas não explica a inserção do /e/, em estudos sobre o inglês (Pan & Snyder, 2004: 437). Em alemão, /S/ pode surgir em ataques com oclusiva, o mesmo acontecendo em posição medial (Grijzenhout & Joppen-Hellwig, 2002: 3). Enquanto que em posição medial é defendida a estrutura coda+ ataque, em posição inicial de palavra os referidos autores defendem a noção de apêndice, porque em alemão é possível ter sílabas sem ataque. A estrutura em alemão pode ter até duas consoantes em ataque, que podem ser
81 Portanto, uma primeira justificação parece residir na excecionalidade desta sequência, segundo alguns autores (Parker, 2002; Morelli, 1999). Por outro lado, um facto é consensual: a sua frequente ocorrência em diversas línguas 2 . No entanto, uma questão que se coloca é se esta sequência consonântica terá a mesma representação em todas as línguas (Goad, 2011) e, conforme a resposta, se se trata de uma condição de preferência (vd. p. 49) ou de um princípio universal (Blevins, 1995. Assim, poderíamos falar de tendências, ou pelo menos de graus de universalidade, no que se refere ao Princípio de Sonoridade (Van der Torre, 2003). Hipóteses explicativas em estudo De acordo com a definição de sílaba e dos seus constituintes, bem como com as diferentes perspetivas 3 teóricas analisadas, selecionámos seis 4 hipóteses para o estatuto silábico de /S/. Tais hipóteses são as seguintes: i) a fricativa é um segmento extrassilábico (Selkirk, 1982; Fikkert, 1994; Goldsmith, 1990; Booij, 1995). Nesta proposta, a fricativa coronal (/S/) não é associada um constituinte silábico específico 5 (Bisol, 1999:114; Ewen & Hulst, 2001). Esta noção de extrassilabicidade surge, por vezes, ligada a noções de adjunto (Trommelen, 1983; Davis, 1990; Giegerich, 1992; Fikkert, 1994; Barlow, 2001, Barlow & Dinnsen, 1998) e de apêndice (Selkirk, 1982; Van der Hulst, 1984; Goldsmith, 1990; Fikkert, 1994; & 2 Morelli (1999) faz um levantamento exaustivo de línguas em que se regista a ocorrência da sequência /#(∅)SC/. 3 Segundo Cardoso (2008: 19) podem ser consideradas pouco ortodoxas e são bastante diversas. 4 Incluímos adjunto e apêndice na hipótese de extrassilabicidade de /S/, mas depois a proposta de adjunto e de apêndice são analisadas numa secção separada. 5 Uma outra designação, apresentada por Collischonn (2004:62) é a de consoante ‘perdida’, que é definida da seguinte forma: “uma consoante não apta a ocupar uma posição siláb ica de ataque ou coda não seria ligada a nenhum nó silábico. ” (Collischonn, 2004:62).
82 Hulst, 2001; Ewen Goad & Rose, 2004). Nesta explicação, a fricativa não tem um constituinte silábico atribuído, é extrassilábica (Ewen & Hulst, 2001: 148), ficando dependente diretamente da sílaba (Barlow, 1999: 2) ou, em algumas situações, da palavra fonológica, quer na noção de adjunto, quer na noção de apêndice. De acordo com Vaux (2004) o apêndice é, normalmente, legitimado pela palavra fonológica. No entanto, as posições dos autores variam relativamente a este ponto; ii) a fricativa é precedida de um núcleo vazio que pode ou não ser foneticamente preenchido 6 ; consequentemente, esta consoante é coda da primeira sílaba (Davis, 1987; Nikiema, 2000; Goad, 2011, com base em Kaye, 1992; 1996); iii) a existência de uma vogal epentética (Carlisle, 1988; Colina, 1997; Carlisle, 2001) coloca a fricativa em coda da primeira sílaba. Esta proposta surge, na maioria dos casos, na sequência do núcleo vazio, que é preenchido por uma vogal fonética, segundo alguns autores, cuja natureza será explanada na secção seguinte; iv) a fricativa e a oclusiva constituem uma unidade fonológica única, semelhante a uma africada (Fudge, 1962:273 7 ; Ewin, 1982: 47; Anderson & Ewen, 1987; Van der Weijer, 1984; Lléo & Prinz, 1997). Portanto, esta sequência é encarada, nesta proposta explicativa, como um segmento complexo; v) é atribuída silabificidade à fricativa (Leite, 1997; Freitas, 1997/2000). De acordo com Leite (1997) estamos perante uma consoante (/S/) silábica. A 6 Em algumas línguas, como o espanhol, a hipótese de um núcleo vazio, mas preenchido foneticamente, e vogal epentética são apresentadas na mesma proposta, atendendo a que esta vogal epentética preenche o núcleo vazio. 7 Citado por Ewin (1982).
83 proposta de Leite (1997) e Freitas (1997/2000) são distintas. Segundo Freitas (1997) a atribuição de silabicidade à fricativa ocorre em sequência do núcleo vazio inicial. vi) sequências de fricativa+ obstruinte são encaradas como ataques complexos (Delgado-Martins, 1994; Marotta, 1995; Veloso, 2002). Esta hipótese viola o Princípio de Sonoridade e a Condição de Dissemelhança. Apesar das propostas de núcleo vazio e vogal epentética surgirem frequentemente como uma única proposta, dependendo da língua analisada, optámos por apresentar estas duas explicações como duas propostas separadas, visto a vogal epentética só ocorrer quando se está perante um núcleo vazio. A opção por apresentar as duas propostas (núcleo vazio e vogal epentética) em separado teve por base o PE, visto a presença de um núcleo vazio poder originar a presença ou não de uma vogal epentética e o inglês, língua em que não surge uma vogal epentética. Como analisamos duas línguas diferentes (PE e inglês) e a proposta de núcleo vazio poder conduzir à inserção de uma vogal epentética, julgamos ser mais adequado a apresentação das duas propostas em separado. Na secção seguinte, analisamos cada uma das propostas separadamente, com o intuito de constatar quais as explicações que poderão apresentar-se como uma solução para a problemática em estudo. Posteriormente, questionaremos as justificações de cada uma destas hipóteses explicativas da sequência /#(∅)SC/, com o propósito de concluir sobre a validade de cada uma. Proceder-se-á, deste modo, a uma análise de cada uma das propostas.
84 4.1. Fricativa extrassilábica Atendendo a que a sequència /#(∅)SC/ não pode ser um grupo consonântico tautossilábico, uma das primeiras propostas é a fricativa ser extrassilábica (Trommelen, 1984). 8 Trommelen (1984: 109), um dos autores que apresenta a proposta de extrassilabicidade, salienta as vantagens desta explicação para o /s/, nomeadamente: i) é a única consoante permitida num ataque de três consoantes no holandês (Trommelen, 1984:109) e no inglês (Kenstowicz, 1994:258; Hammond, 1999); ii) segundo o referido autor (Trommelen, 1984), esta é a consoante extramétrica por excelência no holandês e permite explicar a presença de ataques de três consoantes 9 . Considera que a fricativa /s/ é claramente extramétrica e que só excecionalmente surgem outras consoantes extramétricas, no holandês (Trommelen, 1984:116), como por exemplo [k] antes de [n]. Por conseguinte, o /s/ não estaria ligado a nenhum constituinte da sílaba (Goad, 2011: 913), mas sim à palavra fonológica. Uma outra possibilidade, segundo Itô (1989: 231), consistia no /s/ estar associado diretamente ao nó da sílaba. No caso da fricativa, quando seguida de obstruinte, esta não é associada a um constituinte silábico em particular, nem a uma sílaba, segundo alguns autores; outros, 8 Relembramos a definição apresentada de Bisol (1999:119), que define um segmento extrassilábico como “um segmento que, durante o processo de silabação de uma dada sequência, não pode ser associado a nenhuma sílaba, mas que não é apagado porque é considerado invisível às operações de apagamento.” (vd. p.2). Cote (2000: 25) apresenta uma definição semelhante à de Bisol (1999). 9 Kenstowicz (1994:258) refere o mesmo argumento para o inglês.
85 porém, afirmam que a fricativa pode ser legitimada pela sílaba (Goad, 2011) dependendo da língua em estudo. Em sequência desta problemática, alguns autores (Selkirk, 1982; Trommelen, 1984; Fikkert, 1994) argumentam que a consoante fricativa em estudo é extrassilábica, o que lhe permite ser legitimada pela palavra fonológica ou diretamente pela sílaba, numa fase derivacional. Em algumas línguas a tendência é para um determinado segmento ser legitimado pela sílaba (Van der Hulst, 1984) e noutras pela palavra fonológica (Goldsmith, 1990; Goad, 2011). Porém, o processo de legitimação também é distinto de autor para autor, pois nem todos apresentam a mesma solução, como se pode observar através da fig. 15. Figura 15Diferentes Propostas de legitimação do /s/ em /#(∅)SC/ (Goad, 2011) a. extraprosódico b. legitimado pela palavra c. legitimado pela σ fonológica (Steriade, 1982) (Goldsmith, 1990) (Van der Hulst, 1984) O= Onset (Ataque) PWd= Phonological word (Palavra fonológica) Como se pode constatar pela figura 15 existem diferentes propostas de legitimação, memo quando se considera /s/ extrassilábico: Van der Hulst (1984) coloca a fricativa a O p <s> PWd σ O σ O p s s p
86 ser legitimada pela sílaba, ao passo que Goldsmith (1990) coloca a fricativa sob o domínio da palavra fonológica. Vaux e Wolfe (2008: 104) sintetizam as propostas que assentam no argumento da extrassilabicidade 10 em quatro contextos centrais gerais: a) Margens complexasnas margens de determinados constituintes (Vaux & Wolfe, 2008: 104); b) Sílabas em que falta o núcleo (Vaux & Wolfe, 2008: 104); c) Apêndices que são legitimados pela palavra fonológica (Vaux & Wolfe, 2008: 105); d) Os denomonados segmentos flutuantes (‘Stray’), que não pertencem a nenhum constituinte, nem à estrutura prosódica (Vaux & Wolfe, 2008: 105). Portanto, podemos ter alguns contextos que são, por regra, motivadores de extrassilabicidade em geral 11 e que podem ser aplicados à sequência fricativa+obstruinte em particular: i) os segmentos que violam o Princípio de Sonoridade são analisados como extrassilábicos no nível em que o Princípio de Sonoridade, que é aplicado ao nível dos constituintes silábicos. Como afirmam Cote (2000:24) e Vaux (2004:3), as consoantes nas extremidades são marcadas como extrassilábicas por razões de silabificação, tendo em conta as regras de boa formação das sílabas. Numa fase derivacional mais tardia são adicionadas à sílaba, numa fase pós-lexical; ii) os segmentos que fazem parte de sílabas sem núcleo; apêndices, legitimados normalmente pela palavra fonológica (Vaux, 2004:3); 10 Esta proposta dos autores não é apresentada para todas as consoantes extrassilábicas. 11 Os exemplos fornecidos pelos autores são relativos a consoantes extrassilábicas, não se reportando apenas à sequência fricativa+obstruinte.
87 Com o intuito de solucionar a problemática de sequências em que um dos segmentos é extrassilábico, surgem as seguintes estratégias (Cote, 2000:24-25; Vaux, 2004:3 12 ): i) as consoantes extrassilábicas são legitimadas por um constituinte superior à sílabalegitimação indireta; ii) a extrassilabicidade é resultado das restrições fonotáticas, visto estes segmentos, nestas sequências, não obedecerem a restrições fonotáticas são colocadas fora do domínio de qualquer constituinte silábico. Consequentemente, há um alinhamento com restrições de uma posição hierárquica acima da sílaba (Cote, 2000: 25) para legitimar esses segmentos. Estas restrições podem ser aplicadas ao nível da palavra fonológica. 4.1.1. Análise da proposta de extrassilabicidade da fricativa Com base no holandês (Trommelen, 1984), numa fase inicial, podemos encontrar argumentos favoráveis a esta proposta: i) /s/ é o único segmento que pode ser seguido de oclusiva ou nasal (Kenstowicz, 1994) ii) A fricativa é o único segmento que ocorre em ataques de três consoantes (Trommelen, 1984; Kenstiwcz, 1994; Hammond, 1999). 12 Vaux (2004:3) apresenta outras estratégias para a solução de sequências como segmentos extrassilábicos: grupos consonânticos complexos em coda ou ataque; segmentos que fazem parte de sílabas sem núcleo; apêndices, legitimados normalmente pela palavra fonológica; segmentos que não associados a nenhum constituinte. Segundo o referido autor, os segmentos que violam o Princípio de Sonoridade são analisados como extrassilábicos no nível em que o Princípio de Sonoridade é aplicado.
88 iii) as crianças produzem o /s/ inicial quando ainda não são produzidas em ataques simples, nomeadamente ataques com fricativas (Fikkert, 1994); iv) o /s/ é muitas vezes segmentado como coda da primeira sílaba. O facto de ser a única consoante, designadamente em holandês (Trommelen, 1984:116) e em inglês (Hammond, 1999; C. Silva, 2011), que pode surgir em ataque de três consoantes prova a sua ‘especificidade’ (exemplos: stray, Spring). A vantagem de /S/ ser extrassilábico reside na regularização da sua segmentação sem have violação dos princípios silábicos. Alguns dos fenómenos, em algumas línguas, mesmo quando as justificações são diferentes, parecem assentar na noção de extrassilabicidade do /s/ (Abrahamsson, 1999:476; Clements & Keyser, 1983). No espanhol, a inserção da vogal pode também ser explicada pela extrassilabicidade do /s/ (Abrahamsson, 1999:476; Clements & Keyser, 1983; Carlisle, 1988: 18 13 ; Carlisle, 2001: 7). Por outro lado, existem argumentos que nos permitem questionar esta hipótese. No caso do holandês, a inserção da vogal inicial por crianças (Fikkert, 1994) parece um pouco mais irregular, visto as palavras holandesas não terem vogal inicial gráfica, parecendo, portanto, uma sequência aceitável. A inserção desta vogal poderá ser um argumento para questionar a proposta de /S/ ser extrassilábico. Se o /s/ fosse extrassilábico não seria necessária a inserção da vogal. 13 Carlisle /1988: 18) afirma: “Because the representation of the beginning of escuela,for example, might be thought to be /sk/. However /sk/ is a prohibited tautosyllabic sequence which cannot occur in underlying representation according to the syllable structure conditions of Spanish. Therefore, in underlying representation the initial /s/ must be an extrasyllabic consonant. Because extrasyllabic consonants cannot appear on the surface, Spanish has a rule of epenthesis inserting a vowel which acts as a syllabic nucleus to which the extrasyllabic consonant resyllabifies before reaching the surface representation.”
89 Como contra-argumentos, podemos considerar que é uma explicação ad hoc (Parker, 2002), na medida em que não é atribuída uma posição definida na estrutura da sílaba à fricativa. Por outro lado, Hall (2002), por exemplo, refere que não existem consoantes extrassilábicas no alemão e no inglês; para isso, analisa o comportamento de sequências fricativa+ obstruinte, quer em final de palavra (Hall, 2002: 37), quer em posição inicial de sílaba (Hall, 2002:38). Estas consoantes são denominadas como ‘stray’ porque estão numa posição indefinida (Hall, 2002: 41). Em suma, o facto de haver autores que argumentem que uma das estratégias de reparação da extrassilabicidade é a inserção de um segmento flutuante melódico (Booij & Rubach, 1992: 711) pode comprovar a possibilidade de não se tratar de consoantes extrassilábicas, pelo menos neste contexto. Quadro 2Quadro síntese da proposta de extrassilabicidade Argumentos favoráveis Argumentos desfavoráveis i) não existe violação do Princípio de Sonoridade porque /S/ não pertence a um constituinte silábico. Encontrase, portanto, numa posição fora dos constituintes silábicos; ii) /S/ surge em ataques de duas ou mais consoantes no inglês e no holandês. iii) De acordo com Hall (2002), não existem consoantes extrassilábicas (Hall, 2002). Portanto, esta explicação não é consensual; iv) atendendo à diversidade de justificações, não é esclarecido se a fricativa coronal é legitimada pela palavra fonológica ou pela sílaba;
90 4.2. Apêndice/ Adjunto A proposta de extrassilabicidade nem sempre deriva nas propostas de apêndice 14 ou adjunto. Contudo, para alguns autores, a fricativa extrassilábica é um adjunto, ou um apêndice (Ewen & Hulst, 2001) 15 . Enquanto que uns autores defendem que é um adjunto, outros apêndice e, além disso, não é especificada a posição desse segmento extrassilábico. Vaux e Wolfe (2008: 131) salientam que a extrassilabicidade é suportada por vários argumentos, variando, contudo, a proposta de apêndice. De acordo com Gierut (1999: 709), por seu turno, com base em Selkirk (1982), o /s/ é adjunto de um ataque simples. 4.2.1. Análise da proposta de adjunto/ apêndice O facto de a fricativa não estar associada a um constituinte conduz, por vezes, a que alguns autores falem de adjunto ou apêndice, com o intuito de atribuir uma posição à fricativa (apêndice: Van der Hulst, 1984; Goldsmith, 1990; Giegerich, 1992; Fikkert, 1994; Goad & Rose, 2004; adjunto: Trommelen, 1983; Davis, 1990; Giegerich, 1992; Fikkert, 1994; Barlow, 2001, Barlow & Dinnsen, 1998). No fundo, acabam por ser propostas explicativas semelhantes. De facto, Booij (1999:27), com base em Trommelen (1984:103), sugere que o /s/ seja interpretado como um apêndice, que se encontram fora do domínio da sílaba (Ewen & Hulst, 2001:137), permitindo, desta forma, explicar a ocorrência desta fricativa em ataques de três consoantes (Booij, 1999: 28). Contudo, Van der Hulst (1984: 66) 14 Ewen e Hulst (2001: 137) afirmam: “Appendices, then, are considered to be outside the domain of normal syllabification processes.” 15 Ewen e Hulst (2001: 149) distinguem entre apêndice e ‘prependix’, o primeiro ocorre no final de palavra e o segundo no final.
97 Segundo a Fonologia do Governo (Kaye et al., 1990; Kaye, 1996), privilegia-se a estrutura universal CV; portanto, privilegia-se o ataque, sendo as codas marcadas. Com efeito, à luz da Fonologia do Governo, as sequências que estão a ser alvo de estudo são sempre justificadas com a presença de um núcleo vazio (Kaye, 1996; Kaye et al,1990; Pan & Snyder, 2004: 458; Pan & Chen, 2008). Para esta teoria, o estatuto destes grupos é claro: núcleo vazio (magic empty nucleus parameter). Por outro lado, a perspetiva da existência do núcleo vazio surge aliada a outras explicações, como é o caso da inserção de uma vogal epentética no espanhol (Clements & Keyser, 1983; Carlisle, 1988: 18; Abrahamsson, 1999: 476; Carlisle, 2001: 7) para o preenchimento do núcleo vazio e da silabificação da fricativa no PE. Em conclusão, a vantagem desta proposta, na nossa opinião, reside no facto de colocar a fricativa em coda, não existindo assim um grupo consonântico que viole o Princípio de Sonoridade. Esta sequências é heterossilábica. Quadro 4Quadro síntese da proposta de núcleo vazio Argumentos favoráveis Argumentos desfavoráveis i) evita a violação do Princípio de Sonoridade e da Condição de Dissemelhança; ii) o prefixo IN‒ sugere que estamos perante um núcleo vazio, pois é inserida uma vogal; iii) não é necessário preenchimennto fonético do núcleo, de acordo com a Fonologia do Governo (Kaye, 1996). iv) a fricativa ocupa a posição de coda, não havendo nenhum tipo de i) esta proposta é aplicada pelos autores sobretudo às línguas românicas.
98 violação. 4.4. Vogal Epentética Nesta proposta, os autores defendem que é inserida uma vogal epentética para solucionar a silabificação da fricativa, que ocupa a coda da primeira sílaba. Através da inserção da vogal epentética, evita-se a violação do Princípio de Sonoridade e o /S/ ocupa uma posição específica, deixando de ser extrassilábico. Com efeito, o processo de inserção de uma vogal epentética permite a criação de uma sílaba bem formada. A única questão que se mantém é relativa à natureza desta vogal, se é fonética ou pode ser também fonológica. Convém salientar que esta proposta encontra-se ligada, na maioria das línguas, à proposta explicativa do núcleo vazio, pois a vogal epentética permite preencher o núcleo vazio. Em línguas como o espanhol é inserida uma vogal, daí que se afirme, por vezes, que não existem sequências /#(∅)SC/ em espanhol. No entanto, as sequências /#(∅)SC/ em estudo existem no espanhol, o que não existe é uma sequência fonética [sC] inicial, pois é inserida uma vogal epentética. Podemos refletir sobre a razão desta diferença, sobretudo porque no caso do espanhol existe a vogal que é depois inserida pelos falantes porque percebem intuitivamente a violação da sequência (Abrahamson, 1999). Na maioria das situações, existe um vogal subespecificada (Colina, 1997; Wheeler, 2005:205). Conclui-se que é preferível a inserção de uma vogal do que a eliminação de segmentos presentes na estrutura subjacente (Colina, 1997: 244), na nossa perspetiva.
99 No caso dos falantes do espanhol, a introdução da vogal é mais notória na produção de palavras inglesas, aspeto que não ocorre com os falantes do português, como já foi referido. Estes parecem aceitar a produção do grupo consonântico /#(∅)SC/. Este fenómeno pode levar-nos a questionar se para o PE o Princípio de Sonoridade tem um peso menor do que no espanhol e no PB, visto não conduzir à inserção de vogal inicial de forma constante, como acontece com os falantes de espanhol. Veja-se, por exemplo, os dados do PB em que na palavra scanner, stress, regista-se, segundo Assis (2007), a inserção de uma vogal inicial, como se constata pela representação presente na fig 17. Figura 17-Inserção da vogal epentética na palavra inglesa stress para o PB (Assis, 2007:152) Contudo, os falantes de espanhol, italiano e PB inserem sempre uma vogal inicial. Esta diferença parece apontar para a aplicação das restrições da fonologia de L1 à fonologia de L2. Assim, podemos pensar que, no caso do PE, estas sequências são facilmente aceites pelos falantes ou, pelo menos, não são uma combinação que σ σ σ O R Nu R r t s e s O R R Nu Co Nu Co s t r e s i
100 considerem anómala. O mesmo não se verifica, aparentemente, nas outras línguas referidas. Este será, por conseguinte, um argumento a favor da proposta explicativa segundo a qual esta é uma restrição específica de cada língua. Assim sendo, poder-se-ia argumentar que o Princípio de Sonoridade constitui uma condição de preferência 22 (Blevins, 1995), podendo cada língua apresentar combinações diferentes dos segmentos (Morelli, 1999). 4.4.1. Análise da proposta da inserção de vogal epentética Esta proposta evita a violação das regras fonotáticas, na medida em que a fricativa constitui coda da primeira sílaba, evitando-se, assim um ataque ramificado. Além disso, a proposta da inserção de uma vogal epentética está ligada, nalguns casos, à explicação de núcleo vazio. Carlisle (1988) e Eddington (2001), por exemplo, afirmam que a inserção da vogal permite preencher o núcleo vazio e solucionar o problema da extrassilabicidade da fricativa no espanhol. Uma outra questão que se prende com a inserção da vogal inicial na sequência /#(∅)SC/ é a natureza da vogal. A vogal inserida é, na maioria das situações, fonética (vogal epentética); a questão que persiste é se esta vogal corresponde à presença de uma vogal fonológica. A própria vogal apresenta realizações diferentes porque vai variar conforme a vogal que for considerada a vogal por defeito (schwa) de cada língua. Seria interessante, por exemplo, analisar a natureza desta vogal à luz da fonologia articulatória, visto a produção desta vogal se esbater na produção da fricativa, que tem valores elevados de estridência. Por outro lado, esta não é considerada uma vogal a nível fonológico, na maioria das situações, mas sim a nível fonético. No entanto, se 22 Assim, o PS deixaria de ser universal, para ser um condição preferêncial de cada língua.
101 existe uma vogal a nível fonético, essa vogal pode, provavelmente, ter uma correspondente fonológica. Esta vogal epentética já ocorria na sequência /#(∅)SC/ no latim vulgar (Bisol, 1999). Na nosssa perspetiva, este segmento inicial corresponde à vogal por omissão de cada língua, que, no caso do espanhol corresponderia a /e/ (J. Harris, 1983: 43; Eddington, 2001:47; Wheeler, 2005: 250) e, no caso do PE, a [ɨ]. Contudo, Mateus e Andrade (2000) não considerem a existência desta vogal a nível subjacente, (Veloso, 2010) afirma, com base em Van Oostendorp (1999), que é a vogal não marcada e subespecificada do PE (Veloso, 2012:241). Portanto, teremos [ɨ] a nível fonético que poderá a /i/ ou /e/ a nível fonológico. Van Oostendorp (1999), por exemplo, apresenta uma classificação tripartida para estas vogais que poderão ou não ser epentéticas: i) “e-schwa”- vogal epentética, que é inserida para ocupar núcleos vazios, com o objetivo de resolver situações complexas, sendo portanto fonética; ii) “r-schwa”- ocupam posições que são fonologicamente preenchidas com vogais especificadas e que estão sujeitas a reduções vocálicas; iii) “s-schwa”- são vogais centrais subjacentes, não são o resultado nem de redução vocálica, nem da inserção de uma vogal epentética. Caso se admita que a vogal antes da fricativa, um “e-schwa”, estamos perante um núcleo vazio, o que resolveria o problema de silabificação da sequência /#(∅)SC/. No entanto, como já foi referido, no PE existem duas sequências gráficas, que parecem ter duas explicações diferentes, segundo os vários autores (Miguel, 1993; Mateus, 1995; D’Andrade & R odrigues, 1999; Rodrigues, 2000; Mateus & Andrade, 2000; Rodrigues, 2003; Freitas & Rodrigues, 2003; Henriques, 2008). No primeiro
102 exemplo (<esC>), defendem a existência de núcleo vazio e, no segundo (<exC>), a existência de uma vogal subjacente: /e/. As duas propostas distintas são baseadas no facto de os falantes agirem de forma diferente face às duas sequências gráficas quer a nível da produção, quer da segmentação, t endo em conta alguns estudos (D’Andrade & Rodrigues, 1999). Nas sequências gráficas <esC>, não existe a inserção de vogal na produção e, na segmentação. No caso das sequências gráficas <exC>, há uma maior variação na sequência inicial, nomeadamente a inserção da vogal /i/ e de ditongo [ej] e [ɐj] (D’Andrade & Rodrigues, 1999). Em conclusão, no nosso ponto de vista, os resultados relativos a estas duas sequências podem ser influenciados pela aprendizagem da leitura e da ortografia (Rodrigues, 2003; Henriques, 2008; Henriques, 2012). Tendo em conta que as duas sequências gráficas iniciais são compostas pelos mesmos fonemas, deviam ter resultados iguais. Por outro lado, como sublinham alguns autores (D’Andrade & Rodrigues, 1999; Rodrigues, 2003), etimologicamente estamos perante duas sequências distintas. De acordo com Miguel (1993:183-184) o percurso histórico da fricativa coronal [ʃ] justifica a pluralidade gráfica. Quadro 5Quadro síntese da proposta de vogal epentética Argumentos favoráveis Argumentos desfavoráveis i) preservação de uma sílaba bem formada; ii) não há violação do Princípio de Sonoridade. i) não é uma proposta independente de outras, nomeadamente do núcleo vazio; ii) explicação apenas fonética,
103 dependendo da natureza da vogal; i) não é apresentada uma explicação relativa à natureza da vogal (fonética, fonológica). 4.5. Unidade fonológica única A proposta para considerar a a fricativa+obstruinte como uma unidade fonológica única, um segmento complexo, semelhante a uma africada, surge com Fudge (1969), Ewen (1982) e Van der Weijer (1994). De forma semelhante, Wiese (1991) propõe, para o alemão, que estamos perante um segmento complexo. De acordo com os autores (Fudge, 1969; Wiese, 1991; Ewen, 1982; Van der Weijer, 1994) que defendem esta explicação, a violação do Princípio de Sonoridade estaria resolvida caso a sequência /#(∅)SC/ preenchesse o espaço de uma unidade fonológica única, semelhante a uma africada. Alguns autores propõem que /#(∅)sC/, em conclusão, seja monoposicional. Assim, o segmento não é dividido (Broselow, 1992; Van der Weijer, 1994:174). Assim, a proposta de representação seria a presente na fig. 18. Figura 18Representação de /#(∅)SC/ com base na proposta de segmento único (Van der Weijer, 1994: 165) C [cont] [stop] Place
104 Esta proposta é fundamentada com base nos seguintes pressupostos, de acordo com os referidos autores: i) o estatuto especial das fricativas coronais (Van der Weijer, 1994:166); ii) o fenómeno da reduplicação no gótico e sânscrito 23 (Van der Weijer, 1994: 168, 169). No fenómeno de reduplicação do gótico, o comportamento de /#(∅)SC/ é semelhante ao dos segmentos simples (exemplos: haita –haihait /era chamado) porque se mantêm os dois elementos, no morfema reduplicado e no elemento inicial (exemplo: stalda –staistald /adquiri). Por outro lado, no caso dos grupos consonânticos, na reduplicação no sânscrito, há simplificação na reduplificação (exemplos (1) e (2)) e preservação da forma inicial, como se pode ver nos seguintes exemplos: (1) fraisa – faifrais /tentei; (2) slepan –saislep /dormi. iii) a simplificação para formato CV em empréstimos do holandês para o cingolês (língua falada por um grupo maioritário do Sri Lanka) (Van der Weijer, 1994: 173), como se verifica com os exemplos seguintes: holandês cingolês (tradução) plan palana planificar stal stala-ya/istala-ya estável schoppen skoppa espadas Nos grupos consonânticos é inserida uma vogal para o formato CV (plan-palana), enquanto que nas sequências em estudo é preservada a 23 Os exemplos de reduplicação do sânscrito serão apresentados na subsecção seguinte.
105 mesma estrutura, à semelhança dos segmentos simples. Portanto, segundo Van der Weijer (1994), com base nos exemplos dos empréstimo a sequência em estudo poderia ser uma unidade fonológica única, um segmento complexo semelhante a uma africada. iv) o processo de aliteração (Kuryɫowicz, 1966:195 citado por Van der Weijer, 1994; Van der Weijer, 1994: 175). Neste exemplo, os autores referem a aliteração presente nos versos do poema Beowulf, no qual se verifica a aliteração de toda a sequência à semelhança dos segmentos simples. (3) Beowulf 212 on stefn stiʒon; strémas wundon 288 scearp scyldwiʒa ʒescád witan (exemplos de Van der Weijer, 1994:175, sublinhado nosso) No exemplo supra mencionado pode-se constatatar que é mantida toda a sequência, o que, segundo o autor, comprova a hipótese de estarmos perante uma unidade fonológica única. v) a aquisição desta sequência consonântica numa fase inicial, com base em Fikkert (1994:109), embora outros autores possam defender a sua aquisição numa fase mais tardia. 4.5.1. Análise da proposta de unidade fonológica única Um dos argumentos a favor da explicação de segmento fonológico único reside nos exemplos do fenómeno de reduplicação do gótico (Van der Weijer, 1994: 168) e do
106 sânscrito (Van der Weijer, 1994: 169). No entanto, na nossa opinião, exemplos, como os presentes em (4), (5), (6) e (7), provam que a sequência /#(∅)SC/ não se comporta como um segmento fonológico único, pois no perfeito do sânscrito o ataque é simplificado, surgindo apenas o primeiro segmento. Caso fosse uma unidade fonológica única, semelhante a uma africada, preservar-se-iam os dois elementos. Exemplos da reduplicação em sânscrito (Van der Weijer, 1994: 169) (4) prath - pa-práth-a (espalhar) (5) dru -du-druv (correr) (6) skand - ka-skánd (saltar) (7) stu - tu-stu (elogiar) Estes dados apresentados por Van der Weijer (1994: 169) são, na nossa opinião comprovativos de que /S/ é completamente invisível às regras de reduplicação. Considerando-se, com base nestes dados, que seria mais provável que a fricativa fosse extrassilábica (Selkirk,1982; Boyd, 2006) e não tanto uma unidade fonológica única com a oclusiva, no nosso ponto de vista. Relativamente aos exemplos do sânscrito, apresentados na página anterior, no caso de sequências /sk/ o /s/ não pode ser silabificado, de acordo com Boyd (2006:59) 24 . Por conseguinte, mantém-se o formato universal não marcado CV (Boyd, 2006:60). Apesar de haver uma reduplicação no perfeito no sânscrito, quando se verifica uma violação do formato CV, nos exemplos com a sequência em estudo não há reduplicação. No perfeito do sânscrito, a raiz da palavra é reduplicada, mas sem o grupo consonântico inicial (Selkirk, 1982; Kenstowicz, 1994:258; Boyd, 2006: 60), assim como no grego 24 “The initial /s/ cannot be incorporated into the syllable by the Onset Rule because all /s/+ obstruent clusters violate the MSD” (Boyd, 2006: 59).
113 consonântico complexo). Em síntese, as várias propostas, para além de terem em conta algumas teorias fonológicas (Fonologia do Governo, OT, fonologia autossegmental), estão condicionadas pela à tradição teórica de cada língua. O /s/ extrassilábico está mais ligado a línguas germânicas porque nunca apresentam a vogal inicial, ao passo que o espanhol permite mais interpretações com vogal epentética como forma de restaurar uma sequência anómala, após um núcleo vazio ou da silabificação da fricativa. Estas distinções entre as explicações para as diferentes línguas serão analisadas no capítulo 5, com o objetivo de comparar os dados e concluir se podemos falar de universalidade, bem como de encontrar uma perspetiva que justifique o estatuto prosódico da fricatica na sequência /#(∅)SC/. Como afirma Parker (2002: 9) as explicações são de natureza vária: “A number of formal devices, some of which are painfully ad hoc, have been posited to explain away exceptional “sonority reversals” like these: extrasyllabicity, syllable appendices and “affixes”, adjunction, non-exhaustive parsing, degenerate syllables, null or empty nuclei, language particular stipulation, complex phonetic units […]” Quadro 9Quadro síntese das diferentes propostas explicativas Proposta Argumentos a favor Argumentos contra Fricativa extrassilábica Não existe violação do PS ou da CD porque está fora do domínio dos constituintes silábicos. Não é associado a nenhuma sílaba. Dificuldade em definir se está sob o domínio da sílaba ou da palavra fonológica. Noção criada pela
114 Trommelen (1984) considera que é a consoante extramétrica por excelência, com base nos dados do inglês e do holandês perspetiva teórica. A nível da literatura de outras línguas, como o PE, não surge esta teoria. Existência de um núcleo vazio A consoante é coda da primeira sílaba, não existindo violação do PS ou da CD. A estrutura da sílaba é preservada. Proposta baseada na Fonologia do Governo (Kaye et al., 1990). Os dados deprodução colocam a fricativa em coda. Aparentemente a proposta do núcleo vazio não se adequa a todas as línguas. Vogal epentética Uma vogal fonética inicial evita a violação do PS e da CD. Não justifica fonologicamente, apenas refere a presença de uma vogal a nível fonético. Unidade fonológica única Segmento complexo, semelhante a uma africada. Não havia violação da condição de dissemelhança ou do Princípio de Sonoridade. Os dados de reduplicação do gótico e do perfeito do sânscrito provam que não constituem um segmento único; Os dados da aquisição Atribuição de silabicidade à fricativa A fricativa preenche a posição deixada vazia pelo núcleo. A fricativa, na maioria das línguas, não é aceite como uma consoante silábica. Ataques complexos Alguns dados de produção tautossilábica. Violação do Princípio de Sonoridade
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116 Capítulo VAs diferentes propostas aplicadas às diferentes línguas
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118 Como já foi referido, a sequência /#(∅)SC/ surge em várias línguas 1 e neste capítulo vão ser analisadas as propostas explicativas presentes na literatura para cada uma delas. Cada uma das hipóteses mencionadas no capítulo anterior (capítulo 4) vai ser confrontada uma a uma, língua a língua. Contudo, nem todas as hipóteses vão ser analisadas em todas as línguas porque nem todas as propostas explicativas são aplicadas a todas as línguas, de acordo com a literatura consultada. O número de línguas em que esta sequência ocorre é grande e algumas não serão examinadas não só por não existirem muitos estudos sobre elas, mas também porque não seria possível analisá-las todas. Assim, restringimos a nossa revisão às línguas indoeuropeias e, dentro destas, a cinco línguas repartidas por duas subfamílias: três línguas românicas (português, espanhol e italiano) e duas línguas germânicas (inglês e holandês). Ocasionalmente, por comparação poderão ser referidas outras línguas, mas apenas como argumentos a favor ou contra uma determinada posição. Com esta análise, pretendemos explorar as várias propostas na tentativa de encontrar algumas possíveis respostas para a compreensão da sequência /#(∅)SC/ em PE. Como foi referido na introdução desta dissertação, este capítulo tem por base o objetivo principal de analisar e comparar as diferentes propostas existentes. 5.1. Português (PE) Para o PE, as propostas mais frequentemente aceites pela literatura (Miguel, 1993; D’Andrade e Rodrigues, 1999; Rodrigues, 2000; Freitas e Rodrigues, 2003; Rodrigues, 2003), para a explicação da estrutura prosódica da sequência, residem na de núcleo 1 Não seria possível fazer um estudo exaustivo de todas as línguas, mas existem estudos como Morelli (1999) que analisam um elevado número de línguas. Yavas et al. (2008) contemplam, no seu estudo, o inglês, o norueguês, o holandês e o hebraico.
119 vazio (D’Andrade e Rodrigues, 1999; Rodrigues, 2000; Rodrigues, 2003) na atribuição de silabicidade à fricativa (Freitas, 1997; Leite, 1997). Selecionámos, assim, as propostas mais comuns e que serão desenvolvidas nesta secção: i) núcleo vazio (Miguel, 1993; D’Andrade & Rodrigues, 1999; Rodrigues, 2000; Rodrigues, 2003; Freitas & Rodrigues, 2003); ii) atribuição de silabicidade à fricativa (Freitas, 1997, 2000; Leite, 1997); iii) ataque complexo (Delgado-Martins, 1994; Delgado-Martins et al., 1995a; Delgado-Martins, 1995b; Veloso, 2002); iv) existência de vogal fo nológica inicial (D’Andrade & Rodrigues, 1999; Rodrigues, 2000; Rodrigues,2003; Henriques, 2008). Salientamos que a última proposta surge na literatura referente sobretudo à sequência <exC>, relativamente à qual autores co m D’Andrade e Rodrigues (1999:122) e Rodrigues (2003:347) admitem a existência de uma vogal fonológica inicial, propondo a silabificação /eS.C/ (D’Andrade & R odrigues, 1999:122). No entanto, se considerarmos que as duas sequências gráficas (<esC>, <exC>) são iguais fonologicamente, como cremos, a representação teria que ser a mesma, pelo que se pode aceitar a proposta explicativa que defende a presença de uma vogal inicial. Realçamos que com esta referência à presença de duas sequências ortográficas não se pretende encará-la como um argumento linguístico a favor ou contra uma explicação. Esta referência serve para defender que a explicação deverá ser igual para as duas sequências, pois linguisticamente são iguais, na nossa opinião. O facto de existir uma proposta em que se advoga a presença de uma vogal fonológica inicial não podia ser descurado. Trata-se de uma proposta que deve ser estudada, mas que na literatura é
120 associada a palavras com uma sequência gráfica diferente. Por outro lado, a proposta de núcleo vazio também deve ser explanada e pode ser aplicada às duas sequências gráficas. 5.1.1. Núcleo vazio Esta hipótese explicativa é uma das mais recorrentes relativamente a várias línguas 2 , entre as quais o PE. Na sequência da supressão da vogal inicial devido ao vocalismo átono (Mateus & Andrade, 2000: 52) 3 , a posição inicialmente ocupada pela vogal é, após o enfraquecimento da vogal átona, devido ao processo do vocalismo átono, preenchida por um núcleo vazio, que precede a fricativa. Alguns autores propõem a existência de um núcleo vazio inicial (Miguel, 1993; Mateus, 1995; D’Andrade & R odrigues, 1999; Rodrigues, 2000; Mateus & Andrade, 2000; Rodrigues, 2003). Convém, todavia, sublinhar novamente que os autores citados estabelecem uma distinção quanto à aplicação desta interpretação fonológica a sequências graficamente representadas como <esC> e <exC>. D’Andrade e Rodrigues ( 1999: 117) propõem o seguinte: “nos casos em que a mesma palavra pode ter ou não representação fonética para a vogal: ou a estrutura tem uma vogal em posição inicial e os casos em que ela não ocorre foneticamente se devem a queda ou, pelo contrário a estrutura não tem vogal e, quando ela surge na forma fonética, isso é devido a inserção” 4 . Em virtude de considerarem possível a existência de um núcleo vazio na representação subjacente, os autores (D’Andrade & Rodri gues, 1999:120) apresentam, 2 Cf. Kaye (1996), Bertinetto (1999), Marotta (1995). 3 Mateus e Andrade (2000:52-53) defendem que o núcleo vazio também pode existir à direita da consoante. 4 Este estudo não se limitava às palavras iniciadas por <esC> e <exC>. Neste artigo estabelece-se um contraponto com palavras como isqueiro e palavras de origem anglo-saxónica stress, stop.
121 para palavras como escola, a representação da estrutura subjacente /.SC/. Esta posição é baseada em dois argumentos: i) uma mesma palavra, ou palavras morfologicamente aparentadas, poderem apresentar foneticamente uma vogal antes da fricativa (exemplo: estado, esbirro); ii) o facto de a fricativa assumir o vozeamento da consoante seguinte (assimilação), o que só seria possível se fosse coda silábica. No caso de palavras cuja consoante seguinte é sonora, a fricativa passa a ser /ӡ/, como, por exemplo, em esbanjar, esgotar. O estudo D’Andrade e Rodrigues (1999) tem como fundamentação teórica a Teoria da Otimidade (TO). Assim, o candidato ótimo selecionado teria de ser aquele que não violasse o Princípio de Sonoridade, o que acontece com a representação /∅ʃ.kɔ.lɐ/. Por conseguinte, não havia a violação do Princípio de Sonoridade, bem como da Condição de Dissemelhança e do Princípio do Ataque Máximo, como se vê na fig. 20. Figura 20-Descrição da representação das palavras do tipo de escola (cf. D’Andrade & Rodrigues, 1999) Skɔla ONS-SON5 M-INT DEP-IO SV.kɔ * * VS.kɔ6 * Skɔ.. *! (D’Andrad e & Rodrigues, 1999: 121) 6 /V∫.kɔ/ é um núcleo vazio. Segundo D’Andrade e Rodrigues (1999 : 121), “Os candidatos que preenchem com vogal a posição anterior à fricativa não são senão diferentes possibilidades de preenchimento de núcleos vazios em português.”
122 Nota: ONS-SONrestrição que diz respeito à sonoridade dos segmentos dos ataques silábicos, impondo que exista um aumento de sonoridade nos ataques complexos. M-INTrestrição que impõe que os segmentos de um morfema não sejam separados. DEP-IOa cada segmento do input tem de corresponder um elemento do output (i.e. não deve existir um segmento no output que não esteja presente no input). MAX-IOrestrição que exige que todos os segmentos do input estejam representados no output. De acordo com a OT, o output que violaria a restrição menos elevada na hierarquia seria o que possui núcleo vazio, que vai substituir a vogal inicial. Embora exista um núcleo vazio no output que não surge no input, esta restrição situa-se num nível hierárquico inferior e não constitui, portanto, uma restrição fatal, de acordo com a TO. Para as sequências gráficas <esC>, um outro argumento, apresentado pelos referidos autores, que parece confirmar a existência da vogal à esquerda da fricativa é o facto de as palavras derivadas (exemplo: inestimável) apresentarem a vogal [ɨ] quando da junção com o prefixo IN-, como é o caso de estimável [ʃtˈmavɫ]/ inestimável [inɨʃtiˈmavɫ] 7 e experiente [ɨ∫pɨrijẽtɨ][ɐjpɨrijẽtɨ]/inexperiente [in∫pɨrijẽtɨ][inɐjpɨrijẽtɨ] (Miguel, 1993; Freitas, 2000). D’Andrade e Rodrigues (1999) assumem que não existe a produção inicial de vogal, mas torna-se necessário ter em conta que, por vezes, nos resultados de alguns estudos, se registe a produção de uma vogal inicial (Henriques, 2008). De acordo com o processo do vocalismo átono, esta vogal não ocorreria, mas em alguns estudos (D’Andrade e Rodrigues, 1999, Henriques, 2008), a vogal inicial é produzida. Embora não sejam apresentados dados estatisticamente significativos, nestes estudos, a diferença na produção com ou sem vogal pode ter sida em conta. 7 Exemplo de Freitas (2000: 500)
129 ii) na produção da sílaba inicial (Freitas, 1997: 298); iii) na produção de erros no início da palavra, os quais podem ser interpretados como vestígios de problemas no processamento da estrutura /#Vʃ.Cx/ (Freitas, 1997: 298) Leite (1997) também apresenta a hipótese de ser atribuída silabicidade à fricativa, embora não associe esta situação à presença de um núcleo vazio, nem desenvolva a proposta, como faz Freitas (1997, 2000). Delgado-Martins et al. (1996) também defendem que as consoantes possam exercer a função de núcleo silábico, face à queda da vogal inicial, o que, segundo os autores, pode constituir uma mudança em curso. Esta proposta para o PE não surge independente da noção de núcleo vazio, nem se baseia no facto de haver algumas consoantes que possam ser admitidas como silábicas em algumas línguas, como o bella coola (Gibson, 1995), o berbere de imdlawn Tashlhiyt (Dell e Elmedaloui, 1988) ou lendu (Demolin, 2002), visto no PE, não se considerar a existência de consoantes silábicas. 5.1.4. Ataque Complexo Uma proposta menos frequente e, talvez, menos ortodoxa assenta na possibilidade de este grupo consonântico ser considerado um ataque complexo (Delgado-Martins, 1994:280; Delgado-Martins et al., 1996). Através de estudos acústicos, esta autora constatou que muitos falantes não produzem o segmento vocálico, outros produzem um segmento híbrido ou optam pela “não realização”. A realização híbrida é também encarada pelos referidos autores como um argumento a favor de
130 atribuição de silabicidade à fricativa. Portanto, podemos afirmar que esta proposta de uma realização híbrida não é assumida inteiramente pelos referidos autores. Esta proposta não é suportada por muitos estudos. À exceção de escassos dados experimentais recolhidos por Veloso (2002) e Henriques (2008), nos quais as crianças 13 aceitam a sequência fricativa+obstruinte como um ataque complexo, não dispomos, efetivamente, de uma comprovação empírica robusta. Com base nos estudos existentes (D’Andrade & Rodrigues, 1999; Rodrigues, 2000; Rodrigues, 2003; Freitas & Rodrigues, 2003), argumentamos que a sequência /#(∅)SC/ em iníco de palavra não corresponde a um grupo consonântico complexo. Primeiro, a sequência /#(∅)SC/ viola o Princípio de Sonoridade e a Condição de Dissemelhança se for ataque ramificado. Segundo, não existem muitos estudos que advoguem a proposta de ataque ramificado, apenas surgem alguns dados estatisticamente pouco significativos e em muito poucas línguas (PE e italianoMarotta, 1995; Bertinetto, 1999). Terceiro, o facto de haver algumas produções com vogal inicial podem constituir um argumento para não considerar estas sequências como um ataque complexo. Finalmente, o facto de a fricativa assumir a sonoridade da consoante seguinte, como se vê em palavras como esboço (D’Andrade & Rodrigues, 1999:120 14 ) pode ser um argumento favorável para a hipótese que a fricativa não constitui um ataque com a obstruinte, no PE. Quadro 10Síntese das propostas apresentadas para o PE Proposta Explicação/ Argumentos Núcleo vazio na inclusão do prefixo –IN não se verifica a atribuição da 13 As segmentações tautossilábicas são admitidas em alguns estudos (Veloso, 2002; Henriques, 2008), sobretudo em falantes de 2 e 5 anos 14 D’Andrade e Rodrigues (1 999:120) analisam diferentes estruturas iniciais gráficas e chegam à conclusão que são diferentes, nomeadamente em palavras como isqueiro.
131 (Miguel,1993; D’Andrade e Rodrigues, 1999; Rodrigues, 2000); Rodrigues, 2003; Freitas e Rodrigues, 2003) nasalidade ao prefixo. Conclui-se que existe um núcleo que não recebe interpretação fonética, mas que se manifesta silabicamente. Com a adjunção do prefixo IN‒ o autossegmento nasal preenche a posição do núcleo vazio; o facto de a fricativa assumir a sonoridade da consoante seguinte. Se for uma sonora, a fricativa passa a ser [ӡ]; a existência de núcleo vazio inicial não viola o Princípio de Sonoridade, nem a Condição de Dissemelhança. Vogal inicial (D’Andrade & Rodrigues, 1999); Rodrigues, 2000; Rodrigues, 2003; Henriques, 2008) Existência de vogal inicial, sobretudo aplicado às sequências gráficas <exC>, uma vez que na produção e na segmentação os falantes inserem vogal ou ditongo inicial; não há violação do Princípio de Sonoridade, nem da Condição de Dissemelhança, visto a fricativa ser coda da sílaba inicial; vogal epentética surgida no Latim vulgar e que deu origem ao aparecimento da vogal gráfica (Bourciez, 1967; Bisol, 1999). Silabicidade da fricativa (Freitas, 1997, 2000; Leite, 1997; Delgado-Martins, Mateus e Poch-Olivé, 1996) A fricativa /S/ recebe silabicidade através do preenchimento do Núcleo vazio criado pelo apagamento da vogal (Freitas, 1997: 300). Esta proposta apresenta as seguintes vantagens: não viola o Princípio de Sonoridade; não viola a binaridade máxima dos constituintes; preserva o único constituinte universalmente obrigatório na sílaba: o Núcleo; não ter de assumir extrassilabicidade para o PE;
132 a existência da vogal quando é adicionado um prefixo IN- (Freitas, 1997: 286-287); os dados da aquisição apresentam fortes indícios que as crianças produzem a vogal inicial (a autonomia em relação à segunda sílaba); Ataques complexos (Delgado-Martins, 1994: 280; Delgado-Martins, Mateus, Harmegnies e Poch-Olivé, 1996) através de estudos acústicos constatou-se que muitos falantes não produziam o segmento vocálico, outros produziam um segmento híbrido ou uma «não realização»; esta proposta viola o Princípio de Sonoridade e da Condição de Dissemelhança; baseada apenas em dados fonéticos; implicam a violação do Princípio de Sonoridade e da Condição de Dissemelhança. 5.2. Espanhol Esta secção não se encontra dividida em subsecções referentes às propostas apresentadas para a sequência fricativa+obstruinte porque as hipóteses explicativas de núcleo vazio, extrassilabicidade da fricativa, inserção de vogal epentética são fases que resultam na inserção da vogal epentética, de acordo com os autores consultados (Carlisle, 1988; Abrahamsson,1999; Eddington, 2001, 2004). Nas outras línguas, na maioria dos autores, núcleo vazio e extrassilabicidade são propostas independentes. No espanhol a introdução do [e] inicial (Colina, 1997:241; J.W. Harris, 1983:30; Wheeler, 2005: 250) torna a sequência bem formada, não havendo mesmo sequências
133 iniciais de fricativa+obstruinte 15 , de acordo com alguns autores (Hualde, 2005: 74; Eddington 2004: 66) 16 , nem a violação do Princípio de Sonoridade (Colina, 1997:243). No entanto, podemos colocar algumas questões para a abordagem das sequências em estudo: i) Quais são as motivações para a epêntese da vogal inicial? ii) Quais são os processos lexicais ou históricos subjacentes? Relativamente às motivações da inserção de uma vogal inicial, ocorrem também algumas questões que têm de ser analisadas. Uma das primeiras relaciona-se com o facto de surgir sempre a vogal /e/, o que aponta para esta ser a vogal por defeito ou subespecificada em castelhano (J. W. Harris, 1983: 30; Eddington, 2001: 47; Wheeler, 2005: 250 17 ). Segundo, a evolução destes grupos consonânticos para o latim vulgar conduz à inserção da vogal (Boyd-Bowman, 1980: 3; 125) 18 , aspeto que pode ter alguma influência para todas as línguas românicas. Outra questão relevante assenta nas motivações para a inserção desta vogal, mesmo nos estrangeirismos (à semelhença do PB, inserem uma vogal de natureza diferente). Esta inserção está, na nossa opinião com base em outros autores, ligada à evolução do latim para o castelhano, bem como para outras línguas, como para o PE e francês 19 . De acordo com Eddington (2001: 47; 2004: 63): “Epenthesis was an extremely productive process in the development of Spanish from Latin. According to 15 De acordo com Mateus (1995) também não ocorrem no PE, visto a autora afirmar que existe uma vogal fonológica inicial. 16 “it is important to keep in mind that, unlike in English, Spanish words cannot start with sC clusters” (Hualde, 2005: 74) 17 Wheeler (2005:250) afirma “process by which ‘underlying’ sequences that violate the sono rity sequence principle (SONSEQ) are made acceptable by the ‘insertion’ of a default or unspecified vowel.” Este aspeto também é referido por Bisol (1999), como tendo-se mantido até à atualidade, mas este é um fenómeno mais adequado ao PB. 18 “In the initial position, S (+consonante) prefixed na ein Spanish, Po rtuguese, and French.” (BoydBowman, 1980: 125). 19 Exemplos: latim Spatham>espada (por/espanhol); espada> fr.Épée.
134 some accounts this historical process continues to be in effect in contemporary Spanish”. Portanto, este processo de evolução da língua mantém-se até à atualidade. Por outro lado, é igualmente possível considerar-se que se trata de um processo de formação de léxico (Eddington, 2001), à semelhança do que afirma Bisol (1999) para o PB. Abrahamsson (1999), com base em Carlisle (1988), argumenta que o /e/ surge numa fase derivacional, sendo a forma subjacente sem vogal (Abrahamsson, 1999: 476). Numa perspetiva com base na TO, o /s/ é considerado extrassilábico (Abrahamsson, 1999:476 20 ; Clements & Keyser, 1983). A primeira forma escolhida pelos falantes seria aquela em que o /e/ se encontra ausente, mas como estes ataques são proibidos o /s/ torna-se extrassilábico, dando origem a uma ressilabificação (Abrahamsson, 1999: 476). Embora esta evolução possa estar relacionada com a frequência das palavras com esta sequência inicial, no nosso ponto de vista, revela essencialmente uma preferência pela manutenção da estrutura silábica VC (Hualde, 2005: 73) 21 . No caso do espanhol, considera-se que existe uma sequência tautossilábica, que não é admitida pelas regras da fonologia do espanhol (Harris, 1983; Carlisle, 1988; Carlisle, 2001; Hualde, 2005). J.W. Harris (1983) propõe uma série de operações que vão permitir a legitimação desta sequência no espanhol. Segundo J. W. Harris (1983: 29), de acordo com a tradição descritiva, como não há consoantes silábicas no espanhol é inserida uma vogal epentética para ter uma sílaba bem formada, seguindo-se as seguintes fases: 20 “When Spanish speakers are about to pronounce a word like España, they would start out by selecting the underlying form/spaɲa/. However, since initial /sC(C)/ clusters are prohibited by the Spanish SSCs, the /s/ is not associated with a syllable node […]. The extrasyllabicity of /s/ then tri ggers the application of the epenthesis rule in (1), which inserts the /e/ […]. Finally, a “resyllabification convention” applies, and the /s/ resyllabifies to the new syllable node to the left, giving the new syllable /es/.” 21 “a first general rule is that a consonant is always syllabified with a following nucleus. “ (Hualde, 2005: 73).
135 i) é atribuído o traço [+ silábico] à consoante; ii) é introduzida uma vogal epentética antes da consoante, o que origina a reconversão da consoante novamente em [-silábica]; iii) a vogal ganha uma nova posição. Portanto, a solução inicial para a violação das regras reside no facto de o /s/ ser extrassilábico e, posteriormente, ocorrer a epêntese do /e/ (Carlisle, 1988: 18 22 ; Carlisle, 2001: 7). Este processo está visível nas figuras 22 e 23. Esta proposta explicativa apresenta-se distinta do PE, para o qual se pressupõe a existência de uma vogal que é depois apagada a nível fonético. Portanto, as duas línguas apresentam resultados diferentes. Nas explicações descritivas não é defendido para o PE, uma sequência tautossilábica inicial, embora Delgado-Martins, Veloso (2002) não excluam totalmente esta proposta. No espanhol regista-se a tendência para a inserção de uma vogal, ao passo que no PE se nota uma tendência para a supressão da vogal inicial, a nível fonético. De salientar que numa determinada fase o /s/ é silabificado (vd. figura 23), para depois surgir a vogal epentética. Daí que se possa afirmar que em espanhol não existem sequências /sC/, pelo menos a nível fonético. Figura 22Representação do surgimento da vogal epentética (Colina, 1997:243) 22 “Because the representation of the begin ning of escuela, for example, might be thought to be /sk/. However /sk/ is a prohibited tautosyllabic sequence which cannot occur in underlying representation according to the syllable structure conditions of Spanish. Therefore, in underlying representation the initial /s/ must be an extrasyllabic consonant. Because extrasyllabic consonants cannot appear on the surface, Spanish has a rule of epenthesis inserting a vowel which acts as a syllabic nucleus to which the extrasyllabic consonant resyllabifies before reaching the surface representation.” s f e r a | | | | | C C V C V
136 Figura 23Colina (1997:243) Numa perspetiva mais recente, à luz da TO, Colina (1997: 243) defende a inserção de vogal. A inserção da vogal resulta do respeito pela restrição ONSET SONORITY, ou seja, há um distanciamento mínimo nos valores da sonoridade, para além de ser preferível a inserção de segmentos à eliminação de segmentos presentes na estrutura subjacente (Colina, 1997: 244). Por conseguinte, a inserção da vogal permite respeitar a restrição hierarquicamente mais elevada, de acordo com os princípios da Teoria de Otimidade. Figura 24Representação da sequência /SC/ (Colina, 1997: 243) Candidates ONS-SON B-DEP-IOa. sta. ßi.li.ðá.ðe *! b. es.ta.ßi.li.ðá.ðe * O espanhol, segundo Gussman (2002:113), preenche o núcleo vazio inicial com a inserção da vogal epentética. V s f e r a | | σ σ s f e r a | | σ σ e s f e r a | | σ σ e s f e r a | | σ σ σ Insertion: ∅→ V / E2 Default: V V | | [∅F] [e]
137 Conclusões: 1. No espanhol não existem foneticamente grupos consonânticos /#(Ø)SC/, devido à inserção da vogal epentética. 2. A diferença desta hipótese explicativa reside no facto de o /s/ ser considerado extrassilábico (Carlisle, 1988; 1991; 2001), sendo posteriormente convertido no núcleo por uma regra especial de atribuição de silabicidade à fricativa ou núcleo vazio (Gussman, 2003: 213; Colina, 1997). Finalmente, é inserida uma vogal inicial. 3. Na estrutura subjacente, tem-se /sC/, mas o /S/ é extrassilábico e há uma ressilabificação com a inserção da vogal epentética. 4. Trata-se de um processo histórico e sincrónico. Verificou-se a evolução do latim vulgar para o espanhol. Com efeito, está-se perante a replicação sincrónica de um processo diacrónico. 5. Esta sequência em espanhol acaba por ser igual à sequência em meio de palavra, visto haver uma vogal inicial (exemplos: espada). Em suma, a posição mais consensual defende a existência de uma vogal epentética que vai legitimar o /S/, no caso do espanhol, como é possível verificar no quadro síntese (11): Quadro 11Quadro síntese das propostas para o espanhol Proposta Argumentos/ explicação Epêntese da vogal inicial (J.W. Harris, 1983) A sequência em estudo não pode ser tautossilábica (Carlisle, 1988: 18); inserção de uma vogal epentética. /S/ extrassilábico e Há uma ressilabificação da fricativa, com a
138 epêntese da vogal (Carlisle,1988; Carlisle, 1991; Carlisle, 2001) posterior epêntese da vogal (Carlisle, 1988: 18; Carlisle, 2001: 7). atribuição de silabicidade a /S/, núcleo vazio e epêntese da vogal (Colina, 1997) Uma regra especial converte o /s/ num segmento silábico, uma outra regra dá origem a um núcleo vazio, que é preenchido por /e/, vogal por defeito para o espanhol. núcleo vazio (Gussman, 2002) O núcleo vazio inicial (Gussman, 2002:113) apresenta preenchimento fonético. 5.3. Italiano No caso do italiano, esta sequência apresenta os mesmos problemas encontrados nas línguas analisadas nas secções anteriores (Bertinetto, 1999; Bertinetto, 2004; Nikiema, 2000; Wiltshire, 2000: 211; Kaye, 1996; Kaye et al., 1990: 203). À semelhança das outras línguas, no italiano as sequências /#(∅)SC/ não respeitam o Princípio de Sonoridade, nem a Condição de Dissemelhança, atendendo ao facto de a fricativa e a oclusiva não diferirem em mais de 4 23 , como se constata na escala de sonoridade sonoridade indexada ao italiano (fig. 25): Figura 25Escala de sonoridade para o italiano (Davis, 1987:66) voiceless voiced non-cor Cor glides stops< stops< frics< Frics < n < m < liq < vow 1 2 3 4 5 6 7 8 Face ao exposto, encontrámos na literatura as seguintes propostas para o italiano: 23 A Condição de Dissemelhança é apresentada por Davis (1987:66) , para o italiano, da seguinte forma: “[…] allows the rule to incorp orate na initial consonante of a consona nte clu ster into the onset only if there is a sonority distance of at least +4 between the two consonants; otherwise, the initial consonant does not form part of the onset of the Italian syllable.”