[Recensão] Literatura-Mundo Comparada: Perspectivas em Português I – Mundos em Português, coord. geral Helena Carvalhão Buescu; coord. científica do vol. I Helena Carvalhão Buescu e Inocência Mata; coord. executiva do vol. I Ariadne Nunes, Flávia Ba, Francisco Carlos Marques, Gonçalo Cordeiro, Miriam de Sousa, Patrícia Infante da Câmara e Rafael Esteves Martins. Lisboa, Tinta-da-China, 2017. ISBN 978-989-671-392-8
Full text
EVPHROSYNE REVISTA DE FILOLOGIA CLÁSSICA CENTRO DE ESTUDOS CLÁSSICOS FACULDADE DE LETRAS DE LISBOA M M X I X NOVA SÉRIE VOLUME XLVII http://www.letras.ulisboa.pt NOVA SÉRIE VOL. XLVII M M X I X ESTE VOLUME DE EVPHROSYNE TEM O APOIO DE: EVPHROSYNE O azul é mais escuro como é habitual Esta actividade é financiada por Fundos Nacionais através da FCT – Fundação para a Ciência e a Tecnologia, I.P., no âmbito do projecto UID/ELT/00019/2019
ORIENTAÇÕES PARA PREPARAÇÃO DE ORIGINAIS 01. Euphrosyne — Revista de Filologia Clássica, órgão do Centro de Estudos Clássicos da Universidade de Lisboa, está aberta à colaboração da comunidade científica na área da filologia clássica, entendendo esta em sentido largo da diacronia da tradição, das áreas científicas específicas e respectivas disciplinas. 2. Os artigos poderão ser enviados por correio electrónico para [email protected] ou para a morada do Centro de Estudos Clássicos. 3. Os originais enviados para publicação devem ser inéditos e não estar submetidos a outra entidade editorial; serão remetidos à Direcção de Euphrosyne em forma definitiva e apresentados segundo as normas da revista. Os originais não serão devolvidos, assumindo-se que os autores conservam cópia dos mesmos. Os trabalhos considerados a publicação são sujeitos a arbitragem científica. 4. Serão aceites até 31 Janeiro do ano da publicação do volume; será dada informação sobre a aceitação da publicação até 31 de Julho. 5. O original será sempre apresentado electronicamente e em forma dupla: em documento de texto (Word/.doc(x) – pref.) e em PDF. 6. O artigo será encabeçado por: a) título (breve e explícito); b) nome e apelidos do autor; c) instituição académica ou científica a que está adstrito; d) endereço electrónico; e) resumo (não superior a 10 linhas) em língua inglesa; f) indicação de três palavras-chave em língua inglesa. 7. A extensão recomendada para os artigos é de 10 páginas, não devendo ultrapassar 20 páginas de A4, a corpo 12 e duplo espaço. 8. Sistema de notas: fim de artigo (endnotes); numeração automática seguida. Na publicação, as notas de artigo sairão em fundo de página (footnotes). 9. Sistema de referências: a) Não é permitida remissão para páginas do interior do artigo. b) Referências (em nota): Monografias: J. de R omilly , La crainte et l’angoisse dans le théâtre d’Eschyle, Paris, 1959, pp. 120-130 (casa editora mencionada apenas para edições antigas). Ou em 2.ª ref.: J. de R omilly , op. cit., p. 78. Revistas: R. S. C aldwell , “The Misogyny of Eteocles”, Arethusa, 6, 1973, 193-231 (vol., ano, pp.). Ou em 2.ª ref.: R. S. C aldwell , loc. cit. Obras colectivas: G. C avallo , “La circolazione dei testi greci nell’Europa dell’Alto Medioevo” in J. Hamesse (ed.), Rencontres de cultures dans la Philosophie Médiévale – Traductions et traducteurs de l’Antiquité tardive au XIVe siècle, Louvain-la-Neuve, 1990, pp. 47-64. c) Abreviaturas: Seguir-se-ão as abreviaturas convencionadas por ThLL, para autores latinos; Liddel-Scott-Jones, para autores gregos; Année Philologique, para títulos de revistas; para as abreviaturas mais comuns: p. / pp.; ed. / edd.; cf.; s.u.; supra; op. cit.; loc. cit.; uid.; a.C. / d.C. (em redondo). d) Citações: Devem ser colocadas entre comas “…” (não as de textos gregos); os itálicos serão utilizados apenas para sublinhar palavras ou pequenas frases; as citações em latim ou em grego serão breves. 10. Eventuais figuras ou imagens serão de qualidade gráfica (de preferência no formato TIF, com a resolução mínima de 200 p.p.), fornecidas em suporte electrónico (como os originais) e com a indicação precisa da referência no texto e na ordem assim como do título (devem ser acautelados os direitos de reprodução por parte do autor do artigo). 11. Aos autores não será fornecido mais do que um jogo de provas; estas deverão ser devolvidas num prazo máximo de 7 dias. Em princípio, não serão permitidas alterações ao original. 12. Aos autores será fornecido um exemplar do volume e a versão electrónica do respectivo artigo. EVPHROSYNE REVISTA DE FILOLOGIA CLÁSSICA Centro de Estudos Clássicos - Faculdade de Letras PT - 1600-214 LISBOA - PORTUGAL [email protected] EVPHROSYNE REVISTA DE FILOLOGIA CLÁSSICA * CENTRO DE ESTUDOS CLÁSSICOS FACULDADE DE LETRAS DE LISBOA PT - 1600-214 LISBOA PORTUGAL e-mail: [email protected] sítio electrónico: http://www.tmp.letras.ulisboa.pt/cec-publicacoes/cec-euphrosyne diReCtoRa maRia CRiStina de CaStRo-maia de SouSa Pimentel ComiSSão de RedaCção abel do naSCimento Pena, ana maRia SánChez taRRío, aRnaldo monteiRo do eSPíRito Santo, beRnaRdo mota, JoSé PedRo Silva SantoS SeRRa, manuel JoSé de SouSa baRboSa, Paulo FaRmhouSe albeRto, RodRiGo FuRtado, vanda maRia Coutinho GaRRido anaStáCio ConSelho CientíFiCo aiReS auGuSto do naSCimento (U. Lisboa), CaRlo Santini (U. Perugia), CaRmen CodoñeR meRino (U. Salamanca), emilio SuáRez de la toRRe (U. Pompeu Fabra), Joël thomaS (U. Perpignan), JoSé manuel díaz de buStamante (U. Santiago de Compostela), manuel alexandRe JúnioR (U. Lisboa), maRC mayeR y olivé (U. Barcelona), Paolo Fedeli (U. Bari), thomaS eaRle (U. Oxford) ConSelho de aRbitRaGem CientíFiCa ánGel uRbán FeRnández (U. Córdoba), aRnaldo monteiRo do eSPíRito Santo (U. Lisboa), auRelio PéRez Jiménez (U. Málaga), CaRloS JeSuS alCalde maRtin (U. Málaga), CaRmen CodoñeR meRino (U. Salamanca), CaRmen moRenilla talenS (U. València), daniel lóPez Cañete (U. Sevilla), donato de Gianni (U. Wuppertal), FRanCiSCo GaRCía JuRado (U. Complutense de Madrid), FRanCiSCo JoSé talaveRa eSteSo (U. Málaga), GReGoRio RodRíGuez heRReRa (U. Las Palmas de Gran Canaria), hélène vial (U. Clermont Auvergne), iñiGo Ruiz aRzalluz (U. País Vasco), iSabel almeida (U. Lisboa), Joaquim PinheiRo (U. Madeira), JoSé manuel díaz de buStamante (U. Santiago de Compostela), JoSé maRía maeStRe maeStRe (U. Cádiz), JoSé PedRo SeRRa (U. Lisboa), JoSé RamoS (U. Lisboa), Juan Gil FeRnández (U. Cádiz / U. Granada), manuel lóPez-muñoz (U. Almería), maRCo antonio CoRonel RamoS (U. València), maRia adelaida andRéS Sanz (U. Salamanca), maRía doloReS RinCón González (U. Jaén), maRía violeta PéRez CuStodio (U. Cádiz), maRta González González (U. Málaga), nuno SimõeS RodRiGueS (U. Lisboa), Paulo FaRmhouSe albeRto (U. Lisboa), RamiRo González delGado (U. Extremadura), RobSon tadeu CeSila (U. São Paulo), RoSaRio CoRtéS tovaR U. Salamanca), SantiaGo lóPez moReda (U. Extremadura), SaSkia PeelS (U. Groningen), SeRGio CaSali (U. Roma Tor Vergata), SoFia FRade (U. Lisboa), SteFano GRazzini (U. Salerno), vitalino valCáRCel (U. País Vasco), william dominik (U. Lisboa), zulmiRa SantoS (U. Porto) Tiragem 500 exemplares Depósito legal 178089/02 ISSN 0870-0133 PubliCação anual SuJeita a aRbitRaGem CientíFiCa ReFeRenCiada em l’année PhiloloGique | aRtS and humanitieS Citation index | ANVUR | biblioGRaPhie inteRnationale de l’humaniSme et de la RenaiSSanCe | CSa linGuiStiCS and lanGuaGe behavioR abStRaCtS | dialnet | ebSCo | eRih PluS | latindex | medioevo latino | SCoPuS
CENTRO DE ESTUDOS CLÁSSICOS FACULDADE DE LETRAS DE LISBOA EVPHROSYNE REVISTA DE FILOLOGIA CLÁSSICA MMXIX NOVA SÉRIE – VOLUME XLVII
LIBRI RECENSITI 503 Literatura-Mundo Comparada: Perspectivas em Português I – Mundos em Português, coord. geral Helena Carvalhão Buescu; coord. científica do vol. I Helena Carvalhão Buescu e Inocência Mata; coord. executiva do vol. I Ariadne Nunes, Flávia Ba, Francisco Carlos Marques, Gonçalo Cordeiro, Miriam de Sousa, Patrícia Infante da Câmara e Rafael Esteves Martins. Lisboa, Tinta-da-China, 2017. ISBN 978-989-671-392-8 Todas as antologias de literatura deveriam ser assim: um corpus extenso cuidadosamente seleccionado a partir de um elevado número de textos e autores que, em toda a história, escreveram ou escrevem em português (desde as origens da língua até ao ano 2000). A riqueza da literatura que se serve desta língua como veículo pode ser compulsada nestes grandes volumes, que incluem todos os géneros literários tradicionais, mas com particular representatividade da ficção e da poesia. A distribuição dos textos ao longo da obra faz-se de acordo com um critério temático: “Conflito e Violência”, “Memória e Vida”, “Humor, Sátira e Ironia”, “Poesia Sobre Poesia”, “Viagens e (Des)conhecimento do Outro” no primeiro tomo; no segundo volume encontram-se “Amor e Experiência”, “História e Identidade”, “Cartografias da Tradição”, “Literatura e Condição Humana”, “Língua e Variação”. Dentro de cada tema, os textos organizam-se alfabeticamente, pelo apelido do autor. Felizmente, tal opção não impede os organizadores de repetir autores (embora seja raro verificar-se a duplicação de autoria em cada apartado temático; Os Lusíadas assumem um papel especial, como é notado na Introdução Geral, p. 27 do vol. I) e, dada a amplitude do resultado obtido, é difícil encontrar ausências (como costuma acontecer aos recenseadores de obras deste tipo, mas reservo observações a este respeito para mais tarde), apesar de se tratar de “uma leitura historicamente e comparativamente situada no quadro das literaturas do mundo” (Introdução Geral, p. 25). De modo geral, pode dizer-se que não há, na literatura escrita em português – na Europa, na América do Sul, em África ou na Ásia – nenhum escritor de relevo que tenha sido esquecido (é de saudar, por exemplo, que se tenha conseguido incluir o poeta Mário António), o que não quer dizer que o autor desta recensão não gostasse de ver incluídos românticos como Castilho, Soares de Passos ou Maria Browne, e que a distribuição epocal fosse um pouco mais uniforme. No entanto, pela amplitude conseguida, pode admitir-se que um dos aspectos mais louváveis do trabalho que aqui se apresenta é a convivência de textos conhecidos e divulgados, de todas as literaturas de língua portuguesa, ao lado de outros que, por diversos motivos, nos eram estranhos ou estavam afastados da nossa memória. No fim do segundo volume, encontra-se uma “Lista dos Impossíveis”, ou seja, referências bibliográficas completas de textos que não figuram na antologia (são textos para os quais, “por motivos de ordem diversa”, não foi possível obter autorização para a reprodução). No mesmo volume, figuram também “Notas Críticas” sobre os autores representados (mas não dos “impossíveis”), da autoria de especialistas nas literaturas de língua portuguesa que colaboraram com a publicação. Não são, por isso, notícias biográficas dos 257 escritores (os heterónimos de Fernando Pessoa são tratados individualmente, mas Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Horta e Maria Velho da Costa surgem em conjunto a propósito das Novas Cartas Portuguesas), incluindo dos textos anónimos (como a “Nau Catrineta”, por ex.), mas uma criteriosa e bem-vinda apreciação das suas obras, ainda que breve, com realce para as incluídas na recolha. Ao contrário do que sucede na antologia, em que os autores são ordenados pela ordem alfabética do apelido, nas “Notas Críticas” eles figuram pela ordem do primeiro nome; discrepância que, embora anotada na Introdução Geral, p. 29, merece uniformização numa próxima oportunidade porque (mesmo descontando lapsos na alfabetação – António Fonseca antes de António Barbosa Bacelar) não há nada que justifique procurar Gomes Leal em António Gomes Leal, Oliveira Martins em Joaquim Pedro ou Correia Garção em Pedro António; além
504 LIBRI RECENSITI disso, o Padre António Vieira está em António, enquanto Bernardes só se encontra em Padre Manuel Bernardes. Sendo irreal a possibilidade de reproduzir aqui todo o índice, reservo uma análise mais atenta à quarta secção, dedicada à “Poesia sobre Poesia”. O tópico é preenchido por textos de Oswald de Andrade (“Manifesto Antropofágico”, de Utopia Antropofágica), Sophia de Mello Breyner Andresen (“Para Arpad Szènes”, de O Nome das Coisas), Machado de Assis (“Um Homem Célebre”, de Um Homem Célebre – Antologia de Contos), Bocage (“Camões, grande Camões, quão semelhante”, dos Opera Omnia), Fiama Hasse Pais Brandão (“Quando eu vir vaguear por dentro da casa”, de Obra Breve), Luís de Camões (as estâncias 1 a 83 d’Os Lusíadas e a canção X das Rimas), Ruy Duarte de Carvalho (“Aprendizagem do dizer festivo”, de Hábito da Terra), Mário Cesariny (“Louvor e simplificação de Álvaro de Campos”, de Nobilíssima Visão), Natália Correia (“No túmulo de Florbela”, de Poesia Completa), Maria Velho da Costa (excerto de Missa in Albis), Dom Dinis (“Proençaes soem mui bem trobar”, da Lírica Galego-Portuguesa), Mário Dionísio (“[Só tintas claras Delicadas]”, de Poesia Incompleta), Florbela Espanca (“Ser Poeta”, de Obras Completas de Florbela Espanca, Poesia: 1918-1930), Daniel Filipe (“Pequena ode marítima”, de Pátria, Lugar de Exílio), Almeida Garrett (canto X de Camões), Ferreira Gullar (“Traduzir-se”, de Toda Poesia), Manuel Gusmão (“Canção porque (não) morres”, de Migrações de Fogo), Herberto Helder (“[tão fortes eram que sobreviveram à língua morta]”, de A Morte sem Mestre), Luiza Neto Jorge (“A Magnólia”, de Poesia 1960-1989), Nuno Júdice (“Arte Poética”, de Teoria Geral do Sentimento), Clarice Lispector (excerto de A Hora da Estrela), David Mourão-Ferreira (“Teia”, de Obra Poética), João Cabral de Melo Neto (“A educação pela pedra”, de A Educação pela Pedra), Alberto Estima de Oliveira (“[Mirante: janela exposta]”, de O Rosto), Teixeira de Pascoaes (“Poema 1 – Senhora da Noite. Verbo Escuro”, de Obras Completas), Infante Dom Pedro e Frei João Verba (parte VI, capítulo IX do Livro da Vertuosa Benfeitoria), Fernando Pessoa (“Autopsicografia”, de Poesias), Adélia Prado (“Com licença poética”, de Bagagem), Odete Costa Semedo (“Em que língua escrever”, de Entre o Ser e o Amar), Pedro Tamen (“7”, de O Aparelho Circulatório), José Luís Tavares (“Limiar”, de Paraíso Apagado por um Trovão) e Cesário Verde (“Num bairro moderno”, de Cantos do Realismo e Outros Poemas). De fora da selecção reproduzida ficou, dentro do mesmo tópico, Augusto de Campos, “Luxo” (de Viva Vaia). Da amostra composta pela “Poesia sobre Poesia”, evidencia-se a concepção larga que os organizadores transmitem de “Poesia”, pois aí se incluem textos em prosa (Machado de Assis, Maria Velho da Costa, Clarice Lispector e Infante D. Pedro; em Ruy Duarte de Carvalho, a narrativa e a poesia convivem no mesmo excerto) e um manifesto (Oswald de Andrade), que, participando de um outro tipo de texto, mantém o carácter metapoético que singulariza esta selecção. Outra situação que a escolha de textos deste tópico revela é de natureza histórica (a qual noutras secções se manifesta necessariamente de modos diferentes), e diz respeito à concentração de textos do século XX, momento em que a tendência para a reflexão metapoética se acentua na literatura portuguesa, sobretudo, e de acordo com Eduardo Lourenço, a partir da Poesia 61. Com efeito, somente oito textos de sete autores são anteriores ao século XX, sendo os restantes trinta e três textos (incluindo o “impossível”) do século passado. Acrescente-se, além disso, que a leitura desta secção (como de todas) é complementar das outras, pois é de singular interesse o cruzamento deste discurso metapoético com a tradição, a respeito da qual existe a oitava secção (onde figura Vasco Graça Moura, ausente da “Poesia sobre Poesia”). Considerado por mim desnecessário notar ausências, como em qualquer antologia se verifica por força, mas tratando-se de um exercício oportuno e sem deslegitimar os textos que aqui figuram, talvez tivesse sido de considerar alguns textos do século XVIII, marcado por um forte pendor metapoético, como poemas de Filinto Elísio (por se tratar de um autor mal lembrado e completamente ausente da antologia, embora fundamental na formação da Marquesa de Alorna e de um jovem Garrett), cuja “Carta ao Senhor F[rancisco] J[osé] M[aria] de B[rito]”, de 1790, é uma verdadeira arte poética que actua-
LIBRI RECENSITI 505 liza para o seu tempo e nas nossas letras os conselhos que Horácio envia aos Pisões na epístola convencionalmente intitulada Ars Poetica. Do mesmo modo, a inclusão do manifesto antropofágico aconselharia que também se tivessem transcrito excertos de outros textos da mesma natureza (lembro alguma doutrinação de Alexandre Herculano, António Feliciano de Castilho e, claro, o prefácio de Camões ou de Lírica de João Mínimo, de Almeida Garrett), para não falar da dissertação terceira de Correia Garção ou a sua sátira “Ao Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor Conde de S. Lourenço”. Como textos fundadores, teria sido de grande importância a inclusão do prólogo às Cantigas de Santa Maria (Afonso X está representado na secção “Conflito e Violência”) ou ao Cancioneiro Geral, de Garcia de Resende (o qual também não surge em “História e Identidade”); embora tenha sido incluída a descrição do encontro com as Graças, o leitor esperava poder ter lido o excerto do Livro da Vertuosa Benfeitoria a partir do momento em que se diz “nom embargante que a poesya mais seia sabor que saber”. Outra nota menos positiva, se assim me posso expressar, é a escolha de algumas edições utilizadas para a transcrição dos textos. Talvez tivesse sido melhor a opção por edições mais recentes que, não sendo críticas no sentido mais técnico do termo, expõem os critérios de transcrição modernos. Refiro-me sobretudo a Sá de Miranda (edição de Marcia Arruda Franco), Bocage (Daniel Pires) e a todos os poemas da lírica trovadoresca (coord. de Graça Videira Lopes). Há ainda uma discrepância entre a actualização ortográfica de Fernão Lopes em face da Vertuosa Benfeitoria. Por falha de revisão, alguns textos repetem no fim da citação as referências bibliográficas dos cabeçalhos, acrescentadas de direitos de autor (que me parece um exagero). Seja como for, estes são preciosismos de recenseador que em nada desmerecem esta obra – que resulta de um trabalho de investigação no âmbito do Centro de Estudos Comparatistas da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e cujo enquadramento é feito na “Introdução Geral” (vol. I, pp. 25-29) –, que mostra bem a opulência, o interesse e (se ainda se pode dizer assim) a deslumbrante beleza da língua portuguesa, em qualquer parte do mundo em que seja utilizada (noutros volumes da série, publicam-se traduções de outras línguas). Afinal, estratégias políticas como o Acordo Ortográfico de 1990 (cujas regras os livros não seguem, adequando-se à grafia das variantes do português de acordo com as edições utilizadas) são menos importantes para o florescimento da língua do que a aposta num ensino de qualidade (a que a obra também se destina), o qual passa necessariamente (“de que se não pode desistir ou evitar”, segundo a etimologia) pelas Humanidades. riCardo noBre Centro de Estudos Clássicos da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa [email protected] b) Literatura. Cultura. História antonia sarri, Material Aspects of Letter Writing in the Graeco-Roman World. 500 BC - AD 300, Berlin / Boston, De Gruyter, 2018 (Materiale Textkulturen; 12). Viii + 388 pp., 79 figs. ISBN 978-3-11-042694-6 O livro em epígrafe vem preencher uma lacuna do conhecimento sobre a epistolografia antiga, uma vez que se ocupa de aspectos materiais da comunicação epistolar, e não das cartas literárias (reais ou ficcionais) que habitualmente merecem estudos de âmbito linguístico, literário, ou histórico, isto é, aquelas a que vulgarmente associamos a etiqueta “epistolografia”. O leitor encontra, neste volume, um documentado estudo sobre
I COMMENTATIONES La Antígona de Eurípides y el P. Oxy. 3317 – Carmen morenilla / núria llagüerri .. 9 Más allá de las formas del amor: γάμος y ἔρως en Suplicantes de Esquilo – maría del Pilar FernándeZ deagustini ............................................................................ 31 Exemplum Pietatis: Lausus in the Aeneid – lee Fratantuono ....................................... 53 There’s something fishy about Philaenis: Martial 9.62 and related epigrams – daniel lóPeZ-Cañete Quiles ............................................................................................... 69 El prólogo de la Expositio quattuor Euangeliorum atribuida a Jerónimo (CPL 631 y CLH 65): presentación, edición crítica y comentario – José CarraCedo-Fraga .. 93 Le parole del pianto nella poesia di Venanzio Fortunato – FranCesCa d’angelo ........ 119 Le fonti del sesto libro del De rerum naturis: le fondamenta dell’opera di Rabano Mauro – Camilla Bertoletti .................................................................................. 161 La medida del pie romano: nota de crítica textual sobre un problema filológico-matemático de la Repetitio Sexta de Mensuris de Nebrija – José maría maestre maestre .................................................................................................................... 191 De muscipulis et caveis. The cage and the mousetrap as pictorical and literary motifs in neo-latin emblem books – Carlos PéreZ gonZáleZ .............................. 221 La representación simbólica de la paz: la disputa por el patronazgo de Atenas en los Emblemata (Fráncfort, 1596; Heidelberg, 1600) de Denis Lebey Batilly – BeatriZ antón .......................................................................................................... 247 II STVDIA BREVIORA The Adjectives ὅσιος and ἀνόσιος referring to Divinities in Euripides – ana C. ViCente sánCheZ .................................................................................................................... 273 Ov. Met. 8.647: una proposta esegetica – alessia maria sCalera .................................. 279 Note testuali a Seneca, De brevitate vitae – giusePPe russo .......................................... 287 Atticism in Plutarch: a μίμησις τῶν ἀρχαίων or diglossia? – José Vela teJada .............. 295
552 RERVM INDEX Marco Aurelio, vida y pensamiento en una tragedia actual – maría luisa harto truJillo .................................................................................................................... 309 Las Vitae XII Caesarum de Suetonio en los florilegios latinos – maría José muñoZ JiméneZ ..................................................................................................................... 325 Ex obliuionis tenebris. Apuntes sobre la edición veneciana de las obras de Hernán Ruiz de Villegas – laura JiméneZ ríos ................................................................... 339 Nuevos datos sobre la versificación latina de Benito Arias Montano: el libro quinto de los Hymni et secula – antonio dáVila PéreZ .................................................... 353 Mujer y ejercicios retóricos en los Progymnasmata de J. Micraelio – Jesús aleXis moreno garCía ........................................................................................................ 367 El ejemplo de Lucrecia en el De institutione feminae christianae de Juan Luis Vives – rosa maría marina sáeZ ...................................................................................... 381 Recepción clásica en la biosfera. La hipótesis Medea o la vida como enemiga de sí misma – helena gonZáleZ-VaQueriZo ................................................................... 393 The Syria Trojan Women from therapeutic theatre to a cry for action – sandra Pereira Vinagre ....................................................................................................... 403 III DISPVTATIONES FrederiCo lourenço, Nova Gramática do Latim – riCardo noBre .............................. 417 Juan gil (ed.), Chronica Hispana saeculi VIII-IX – rodrigo Furtado........................... 435 Habiller en latin. La traduction de vernaculaire en latin entre Moyen Âge et Renaissance – ana maría sánCheZ tarrío ........................................................................ 447 IV VARIA NOSCENDA “Dar un beso” (φίλημα δοῦναι) y “besar” (φιλέω, καταφιλέω) en el Nuevo Testamento: sus traducciones al latín, gótico y antiguo eslavo eclesiástico – daniel ayora esteVan ..................................................................................................................... 457 V LIBRI RECENSITI a) Edições de texto. Comentários. Traduções. Estudos Linguísticos martha krieter-sPiro, Homer’s Iliad: The Basel Commentary. Book XIV, translated by Benjamin W. Millis and Sara Strack, edited by S. Douglas Olson. – Claude
RERVM INDEX 553 Brügger, Homer’s Iliad: The Basel Commentary. Book XVI, translated by Benjamin W. Millis and Sara Strack, edited by S. Douglas Olson – rui Carlos FonseCa .................................................................................................................... 481 luigi BatteZZato, Euripides. Hecuba – ana aleXandra alVes de sousa ....................... 485 Vergílio, Geórgicas, trad. Gabriel A. F. Silva – riCardo noBre .................................... 485 rhiannon ash (ed.), Tacitus: Annals Book XV – maria Cristina Pimentel ................... 487 Juan antonio lóPeZ FéreZ, Galeno. Preparación y constitución de textos críticos, entrega y publicación de obras propias o ajenas – inmaCulada rodrígueZ-moreno .... 489 riCCardo maCChioro, Le redazioni latine della Passio Tryphonis martyris. Traduzioni e riscritture di una leggenda bizantina – P. F. alBerto ........................................... 491 Navigatio sancti Brendani. Editio Maior a cura di Rossana E. Guglielmetti. Testo critico di Giovanni Orlandi e Rossana E. Guglielmetti – P. F. alBerto ............... 492 Juan a. estéVeZ sola (ed.), Chronica Hispana saeculi XII. Pars III. Historia Silensis – rodrigo Furtado................................................................................................... 493 e. PéreZ rodrígueZ (ed.), Las palabras del paisaje y el paisaje en las palabras de la Edad Media. Estudios de lexicografía latina medieval hispana – P. F. alBerto .... 495 aldus manutius, Humanism and the Latin Classics. Edited and Translated by John N. Grant – maria luísa resende ............................................................................ 497 antonio dáVila PéreZ, Benito Arias Montano. Apología de la Biblia Regia – Juan Carlos JiméneZ del Castillo .................................................................................. 497 Expostulatio Spongiae. En defensa de Lope de Vega, edición y traducción de Pedro Conde Parrado y Xavier Tubau Moreu – armando senra martins ..................... 499 noël golVers (ed.), Ferdinand Verbiest, Postulata Vice-Provinciae Sinensis in Vrbe Proponenda, A blueprint for a renewed SJ mission in China – arnaldo do esPírito santo ......................................................................................................... 501 Literatura-Mundo Comparada: Perspectivas em Português I – Mundos em Português, coord. geral Helena Carvalhão Buescu; coord. científica do vol. I Helena Carvalhão Buescu e Inocência Mata; coord. executiva do vol. I Ariadne Nunes, Flávia Ba, Francisco Carlos Marques, Gonçalo Cordeiro, Miriam de Sousa, Patrícia Infante da Câmara e Rafael Esteves Martins — riCardo noBre ........... 503 b) Literatura. Cultura. História antonia sarri, Material Aspects of Letter Writing in the Graeco-Roman World. 500 BC - AD 300 – maria Cristina Pimentel ...................................................................... 505 simon CritChley, Tragedy, the Greeks and Us – soFia Frade ........................................ 507