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Os idosos e as novas tecnologías: perspectivas para uma maior qualidade de vida

Correia da Costa, Joaquim Feliciano

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UNIVERSIDADE DE SANTIAGO DE COMPOSTELA FACULDADES DE CIÊNCIAS DA EDUCAÇÃO Departamento de Teoria da Educação, História da Educação e Pedagogia Social Tese de Doutoramento OS IDOSOS E AS NOVAS TECNOLOGIAS: PERSPECTIVAS PARA UMA MAIOR QUALIDADE DE VIDA Aluno: JOAQUIM FELICIANO CORREIA DA COSTA Director: Dr. AGUSTÍN REQUEJO OSORIO SANTIAGO DE COMPOSTELA, 2010 UNIVERSIDADE DE SANTIAGO DE COMPOSTELA FACULDADES DE CIÊNCIAS DA EDUCAÇÃO Departamento de Teoria da Educação, História da Educação e Pedagogia Social Tese de Doutoramento OS IDOSOS E AS NOVAS TECNOLOGIAS: PERSPECTIVAS PARA UMA MAIOR QUALIDADE DE VIDA Aluno: JOAQUIM FELICIANO CORREIA DA COSTA Director: Dr. AGUSTÍN REQUEJO OSORIO SANTIAGO DE COMPOSTELA, 2010 UNIVERSIDADE DE SANTIAGO DE COMPOSTELA Faculdades de Ciências da Educação Departamento de Teoria da Educação, História da Educação e Pedagogia Social OS IDOSOS E AS NOVAS TECNOLOGIAS: PERSPECTIVAS PARA UMA MAIOR QUALIDADE DE VIDA TESE DE DOUTORAMENTO Tese apresentada à Faculdade da Educação, Departamento de Teoria da Educação, História da Educação e Pedagogia Social para obtenção do título de Doutor Preparada sob orientação do Professor Doutor Agustín Requejo Osorio Universidade de Santiago de Compostela Joaquim Feliciano Correia da Costa Santiago de Compostela, 2010 O Professor Dr. AGUSTIN REQUEJO OSORIO Do Departamento de TEORIA DA EDUCAÇÃO, HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO E PEDAGOGIA SOCIAL (Faculdade de Ciências da Educação) na Universidade de SANTIAGO DE COMPOSTELA. Na qualidade de DIRETOR da Tese de Doutoramento que apresenta a Licenciada Dom JOAQUIM FELICIANO CORREIA DA COSTA abaixo o título: OS IDOSOS E AS NOVAS TECNOLOGIAS: PERSPECTIVAS PARA UMA MAIOR QUALIDADE DE VIDA FAZ CONSTAR: Que o trabalho realizado cumpre os requisitos científicos, metodológicos e formais que são pertinentes para a leitura e defesa ante o correspondente tribunal que deve julgar a dita investigação. Em consequência, estima-se procedente autorizar a sua apresentação para obtenção do título de DOUTOR. Santiago de Compostela, 23 de Abril de 2010 Fdo. Prof. Dr. Agustín Requejo Osorio ÍNDICE INTRODUÇÃO..........................................................................................................14 CAPÍTULO 1 - Modos como a sociedade actual encara o idoso 1.1. Introdução.....................................................................................................22 1.2. Envelhecimento demográfico: passado e futuro......................................23 1.3. Estado-Providência em Portugal................................................................34 1.3.1. Politicas sociais para a terceira idade.....................................................36 1.3.2. Situação em Portugal..............................................................................42 1.4. Mitos e realidades sobre o envelhecimento..............................................43 1.5. Estereótipos acerca da idade e sua influência nas relações intergeracionais............................................................................................48 CAPÍTULO 2 - Qualidade de vida do idoso e velhice bem sucedida 2.1. Qualidade de vida ........................................................................................54 2.2. Qualidade de vida do idoso e conceitos relacionados.............................56 2.3. O conceito de velhice bem sucedida .........................................................60 2.3.1. História, definição e delimitações............................................................60 2.3.2. Modelos de envelhecimento bem: o contributo das atitudes positivas e das ciências sociais..............................................................64 2.3.3. Relações, vínculos e legado familiar.......................................................69 2.4. Família, doença e cuidados na velhice......................................................75 2.5. O idoso, uma mais-valia na família: a relação avós-netos e a solidariedade familiar...................................................................................80 2.6. Novos papéis dos idosos na sociedade, animação sócio-cultural e formação de idosos: as universidades da terceira idade .........................83 CAPÌTULO 3 – O idoso como utilizador das novas tecnologias 3.1. Desafios, para o envelhecimento, de uma sociedade tecnológica de informação e comunicação..........................................................................91 3.2. A sociedade portuguesa e as tecnologias de informação e comunicação..............................................................................................98 3.3. A família o idoso e as novas tecnologias de informação e comunicação......................................................................105 3.4. As novas tecnologias, um elo ou um fosso entre gerações?................107 CAPÍTULO 4 – Motivos de exclusão dos idosos face às novas tecnologias 4.1. Dificuldades a nível sensorial...................................................................111 4.2. Dificuldades a nível cognitivo...................................................................115 4.3. Dificuldades emocionais e psicossociais................................................120 4.4. Os estereótipos acerca da idade como dificuldade crucial na utilização das novas tecnologias pelo idoso...........................................123 CAPÍTULO 5 – Um meio de acesso do idoso às novas tecnologias: a percepção de auto-eficácia 5.1. História e definição....................................................................................130 5.2. Fontes componentes e dimensões ..........................................................133 5.3. A auto-eficácia na velhice e seu impacto na formação permanente.....139 5.4. Eficácia colectiva percebida e auto-eficácia do idosos para as novas tecnologias ......................................................................................147 CAPÍTULO 6 – Outro meio de acesso: a capacitação ou empowerment do idoso 6.1. Definir “Empowerment”.............................................................................153 6.2. O “empowerment” do idoso: o paradigma da etarização e os direitos das pessoas idosas......................................................................156 6.3. O “empowerment” do idoso e pelo idoso................................................161 6.4. O “empowerment” do idoso através das novas tecnologias de informação e comunicação........................................................................166 6.5. Empowerment tecnológico do idoso para a cidadania...........................170 CAPÍTULO 7 – Um meio de acesso específico: a ergonomia 7.1. A Ergonomia...............................................................................................173 7.2. Ergonomia na interacção do idoso com a informática...........................175 CAPÍTULO 8 – A importância das novas tecnologias na vida do idoso 8.1. Relação do idoso com as novas tecnologias..........................................180 8.2. Inclusão digital do idoso e aprendizagem ao longo da vida..................185 8.3. Novas tecnologias em ordem a uma velhice bem sucedida..................186 CAPÍTULO 9 – Estudo Empírico 9.1. Objectivos...................................................................................................193 9.2. Metodologia................................................................................................194 9.3. Instrumentos de recolha de dados...........................................................195 9.3.1. Escala WHOQOL-HOLD.......................................................................195 9.3.1.1. Elaboração da Escala ...................................................................195 9.3.1.2. Estrutura e descrição da escala WHOQOL-HOLD........................196 9.3.1.3. Interpretação e aplicações.............................................................202 9.3.2. Escala de atitudes face às novas tecnologias (ANT/25).......................203 9.3.2.1. Elaboração da Escala....................................................................204 9.3.2.2. Estrutura e descrição da Escala (ANT/25).....................................204 9.4. População e amostra.................................................................................208 9.5. Procedimentos na colheita de dados.......................................................210 9.6. Tratamento estatístico...............................................................................211 CAPÍTULO 10 – Estrutura conceptual e análise dos dados 10.1. Hipótese experimental.............................................................................213 10.2. Variáveis ...................................................................................................213 10.3. Dados demográficos da amostra............................................................214 10.4. Análise exploratória dos dados..............................................................224 10.5. Verificação de Pressupostos..................................................................228 10.5.1. Condições e verificação da aplicação dos testes paramétricos .........229 10.6. Teste da hipótese experimental..............................................................232 10.7. Análises complementares.......................................................................235 CAPÍTULO 11 – Discussão Discussão..........................................................................................................246 CAPÍTULO 12 – Conclusões Conclusões........................................................................................................255 Bibliografia .......................................................................................................268 Sitografia .......................................................................................................277 Anexos ...................................................................................................... 279 Índice de figuras Figura 1.2.1 - Evolução da proporção da população jovem e idosa no total da população (%), Portugal, 1960 – 2050....................... 24 Figura 1.2.2 - Taxa média anual de crescimento da população por grandes grupos etários, Portugal 1960/2005 e 2005/2050..... 25 Figura 1.2.3 - Taxa média anual de crescimento da população por grupos etários, NUTSII e III, 2010 2050 ................................. 26 Figura 1.2.4 - Pirâmides etárias da população em percentagem total da população residente ............................................................... 27 Figura 1.2.5 - Proporção da população com 65 ou mais anos/ Índice de envelhecimento 2000 – 2050.................................................. 28 Figura 1.2.6 - Efectivos populacionais 2000-2050 (segundo diferentes cenários, em milhares) ...........................................................29 Figura 1.2.7 - População de jovens e de idosos 2000-2050 (segundo diferentes cenários, em percentagem) ................................... 30 Figura 1.2.8 - Em idade activa 2000-2050 .....................................................30 Figura 1.2.9 - Índice de Dependência de Idosos, 2000-2050 (nos diferentes cenários) .................................................................. 31 Figura 1.2.10 - Índice de Envelhecimento 2000 20050 (nos diferentes cenários)................................................................................... 31 Figura 7.2.1 – Monitor.................................................................................. 178 Figura 7.2.2 – Suporte ..................................................................................178 Figura 9.1.1 - Qualidade de vida.................................................................. 193 16 qualidade de vida e de velhice bem sucedida, bem como de outras realidades ligadas à vida do adulto mais velho, como a família e os novos papéis sociais dos idosos. Vive-se hoje mais tempo, mas o que importa é viver melhor, isto é, ter uma vida de qualidade, com estilos de vida e comportamentos saudáveis. Referimos as várias dimensões deste conceito, que o interligam com outros de igual importância, como a felicidade, a satisfação com a vida, o bem-estar psicológico, a motivação intrínseca, a integridade e a sabedoria. Apresentamos uma breve história e definição do conceito de velhice bem sucedida, relacionando-a com comportamentos básicos do dia-a-dia. Não nos esquecemos de abordar, com algum pormenor, o importante contributo da família para uma velhice de sucesso e com qualidade, começando pelas relações, vínculos e legado familiar. Na verdade, podemo-nos interrogar: com a crise que a instituição familiar atravessa, o que espera os idosos no futuro? Abordamos também alguns temas relacionados, como a tríade família, doença e cuidados na velhice, bem como o do idoso como uma mais-valia na família, entre outras coisas pela sua relação com os netos e filhos, numa lógica de solidariedade familiar. Terminamos, fazendo menção dos novos papéis sociais desempenhados pelos idosos, bem como da sua inclusão num esforço de educação permanente desenvolvido, por exemplo, pelas universidades da terceira idade. No terceiro capítulo, procuramos encarar o idoso como um utilizador específico das novas tecnologias, começando por chamar a atenção sobre os desafios, que uma sociedade tecnológica de informação e comunicação, como a nossa, apresenta quotidianamente ao idoso, seja a nível individual, familiar, social ou político. Procuramos ver o modo como as TIC estão implantadas na sociedade portuguesa, ao nível do ensino, da cultura e de alguns serviços já informatizados, e analisar o 17 impacto das novas tecnologias na vida e relações familiares, com seus perigos, mas também com promissoras oportunidades. Explicamos as razões que afastam os idosos das novas tecnologias, quer ao nível da audição e da visão, quer ao nível motor, quer ainda ao nível cognitivo e emocional, em especial no que se refere à eficiência verbal e à memória, apontando, para cada caso, alguns modos de as compensar ou atenuar. Também aqui, os estereótipos acerca da idade, que aqui reunimos em duas teorias ou discursos, não ajudam o idoso, nem correspondem à realidade. Referindo-nos aos aspectos positivos, focamos, em pormenor, um meio poderoso de acesso do idoso às novas tecnologias, a percepção de auto-eficácia, apontando as suas fontes e componentes principais. Passando em revista a auto-eficácia na velhice, concluímos que, se bem que os adultos idosos difiram muito entre si, eles não revelam, em norma, qualquer declínio na eficácia intelectual percebida nem na performance intelectual, preservando, também, um sentido favorável de eficácia pessoal. Também tentamos evidenciar as vantagens da aprendizagem, pelo idoso, da utilização do computador, já que é ponto assente que as crenças de eficácia no domínio das novas tecnologias afectam o bem-estar e a produtividade do idoso. Outro aspecto facilitador do acesso do idoso às novas tecnologias é a sua capacitação ou empowerment, tanto do lado psicossocial, cívico e jurídico, como do lado instrumental e tecnológico. “Capacitar” é dar poder ao idoso para que resolva os seus problemas vitais, no seu próprio meio envolvente, por meio do desenvolvimento de certas competências pessoais e de grupo. Referimos projectos que relacionam o mundo dos idosos com as novas tecnologias, num processo de empowerment com resultados comprovados, já que os põe em contacto com os desenvolvimentos da sociedade dos nossos dias, pondo ao seu dispor muitos conhecimentos que lhes possibilitam fazer valer os seus direitos, e lhes conferem independência, treino e comunicação com o mundo exterior ao espaço a que, muitas vezes se encontram confinados. 18 Abordamos, depois, um outro meio de acesso, muito específico e intimamente relacionado com as tecnologias, a ergonomia, em especial a que se refere à interacção do idoso com a informática. Referimos os esforços levados a cabo por vários investigadores no sentido de contrabalançar ou, pelo menos, minorar as debilidades causadas pela idade ao nível da diminuição da intensidade e velocidade das reacções do organismo aos estímulos externos, bem como ao nível da adaptação e de concentração cognitiva na interacção com o computador, procurando-se uma adaptação da linguagem informática ao idoso, de forma a estimular-lhe o interesse em lidar com a máquina. Procura-se, também, reduzir-lhe vários obstáculos e barreiras, tanto ao nível da acessibilidade como da usabilidade. Por fim, discutimos, nesta parte teórica, a importância das novas tecnologias na vida do idoso. Nele destacamos como importante a luta contra a chamada tecnofobia, estereótipo que refere os entraves psicológicos à aprendizagem do uso dos computadores e de outras tecnologias pelos idosos, com os efeitos deletérios no seu auto-conceito, com percepções negativas sobre a velhice em geral, crenças negativas de auto-eficácia e impotência física e funcional. Assinalamos vários estudos que apontam atitudes bastante positivas dos idosos em relação às tecnologias, atitudes essas que desempenham um papel muito benéfico no seu auto-conceito e qualidade de vida. São tais atitudes que possibilitam uma autêntica inclusão digital, por meio de uma educação inclusiva, digital, permanente e contínua. Terminamos com considerações que apontam para a certeza de que a tecnologia informática é um factor que contribui para uma velhice bem sucedida, devendo incluir tecnologias novas e melhoradas que promovam e forneçam mais dignidade aos idosos, além dos computadores: aparelhos que ajudem os idosos e seus cuidadores a enfrentarem os desafios do quotidiano, dentro das denominadas tecnologias caseiras e tecnologias de assistência, cujo sucesso depende, em grande parte, da sua adaptação à situação concreta de cada pessoa. Na parte empírica do nosso trabalho, os sujeitos ou participantes no estudo são adultos idosos com variados níveis de escolaridade e literacia, variando no seu grau de actividade, mobilidade, verbosidade e saúde física e cognitiva. Os critérios de inclusão a utilizar são a idade (a partir dos 65 anos), e a existência de uma 19 competência cognitiva e linguístico-comunicativa suficiente para iniciar e manter uma conversação dentro de parâmetros mínimos de aceitabilidade. A população ou universo do nosso trabalho centrou-se nas cidades de Amarante Felgueiras e Lixa e é constituída por um conjunto de 168 idosos, com 65 ou mais anos de idade, que residem no seu domicílio ou estão institucionalizados, por exemplo, em Centros de Dia. Não foi possível aceder a todos os elementos da população, por razões de doença ou indisponibilidade, por parte deles. Desta forma, o nosso estudo tem por base uma amostra voluntária de sujeitos, em função da sua disponibilidade. Pretende-se uma amostra o mais possível homogénea e representativa, a partir de cujos resultados se possam fazer generalizações para toda a população, o que também passa pela observância dos critérios de inclusão acima referidos. A amostragem não pôde ser feita aleatoriamente, dadas as características específicas da população, podendo considerar-se uma amostragem por conveniência. Respeitamos a confidencialidade dos resultados e salvaguardamos aspectos de ordem metodológica e ética decorrentes do facto de o nosso objecto de estudo ser o ser humano idoso, com toda a sua riqueza e limitações, com evidentes diferenças qualitativas e de difícil comparação, no todo ou em parte. A colheita de dados recorre a escalas, sendo a técnica da sua aplicação adaptada às características da amostra (escolaridade, idade, estatuto social e mesmo saúde), pelo que, sempre que possível, se utiliza o auto-preenchimento, recorrendo-se, todavia, ao preenchimento com ajuda parcial ou total de um profissional, em casos de baixo nível de escolaridade (ou mesmo analfabetismo, incluindo o funcional) ou a dificuldades na interpretação das questões. Aplicamos o método experimental controlado, relacionando causas com efeitos, controlando as diversas variáveis e explorando as dimensões e parâmetros de uma variável complexa. A abordagem será empírica, quantitativa, testando-se as hipóteses previamente aventadas, num tipo de investigação que se deseja aplicada, isto é, destinada à 20 resolução, a médio prazo, de problemas práticos, contribuindo, ao mesmo tempo, para o enriquecimento do corpo teórico na área da pesquisa. Apresentamos a hipótese geral: os idosos que utilizam as novas tecnologias de informação e comunicação apresentam atitudes mais positivas relativamente à utilização das novas tecnologias e gozam de uma melhor qualidade de vida do que aqueles que as não utilizam. Como instrumentos de colheitas de dados recorremos, primeiro, a um inquérito de dados sócio-demográficos, relativos a factores sociais que pensamos serem importantes para a caracterização dos idosos participantes no estudo, como o sexo, a idade, o estado civil, a escolaridade, etc. Recorremos, de seguida, a duas escalas, relacionadas com a temática em apreço, sobre as quais se apresentam dados de validação, justificação e de âmbito psicométrico: a Escala WHOCOL-OLD, da autoria da Organização Mundial de saúde, que pretende testar a avaliação da qualidade de vida para pessoas mais velhas e a Escala Atitudes face às novas tecnologias de informação: adaptação e validação da Escala ANT/25 para a língua portuguesa, mediante a qual testamos as atitudes dos idosos para com a utilização das novas tecnologias. Faremos, depois, um cruzamento dos dados provenientes das duas escalas referidas. Haverá uma análise dos dados e o respectivo tratamento estatístico. Os dados obtidos a partir do Inquérito de dados sócio-demográficos, de grande interesse para a caracterização da amostra, são colocados em tabelas em que constam distribuições de frequências, tendo igualmente sido calculadas medidas de tendência central e de dispersão. No tratamento estatístico dos dados, é utilizado o programa informático SPSS 15.0.0 para o Windows. No que respeita a estatísticas inferenciais, foi utilizado o teste t de Student para confirmação, ou não, da nossa hipótese. Serão também utilizados outros testes, como o teste de Kolmogorov-Smirnov, que 21 avalia a normalidade de distribuição da variável dependente, pressuposto para utilização de testes paramétricos que pretendemos utilizar e Análises da Variância (ANOVAS) para análises complementares e cruzamento de variáveis. Apresentamos os resultados do teste da nossa hipótese, dos quais podemos tirar a conclusão de que tais resultados confirmam as hipóteses colocadas no início e estão, de um modo geral, em convergência com as teorias e conclusões dos estudos apresentados na revisão bibliográfica da parte teórica deste trabalho, se bem que também possam revelar divergências em vários pontos. As nossas conclusões são relacionadas, naturalmente, com a teoria apresentada na parte teórica deste trabalho e com os dados obtidos na respectiva parte empírica. 22 CAPÍTULO 1 - Modos como a sociedade actual encara o idoso 1.1. Introdução De um modo geral, a sociedade nossa contemporânea acredita que os idosos têm atitudes mais negativas que os jovens em relação à tecnologia, o que até certo ponto é verdade, pois verifica-se nos idosos menos conforto, eficácia e controle sobre os computadores, mas isto varia, também, em grande parte, com o sexo e as tarefas a executar. Sobre o assunto, duas teorias ou discursos se defrontam, de acordo com Caradec (2001:71) a tese da incompatibilidade e a tese da familiaridade que, mais adiante, referiremos com mais detalhe. Na verdade, nem uma nem outra são exactas nem correspondem à realidade. Ambas são demasiado gerais e não tentam compreender a diversidade real de utilizações das tecnologias pelos reformados e idosos que, na grande parte dos casos, não são abertamente hostis às inovações tecnológicas, mas que, por outro lado, só as adoptam se lhes atribuírem um significado de utilização positivo e se lhes encontrarem utilidade no âmbito do modo de vida em que hoje se movem. Convém, em primeiro lugar, interrogarmo-nos sobre a relação dos idosos e reformados com as tecnologias, o que passa por constatações temporais e calendarizadas. Ter vinte anos no ano 2000 é ter nascido ao mesmo tempo que o computador portátil e ter sido educado na “cultura do ecrã”, pertencer à “geração Internet”. Ter cem anos em 2000 é ter nascido ao mesmo tempo que o automóvel ou o cinematógrafo; é ter tido vinte anos em 1920, nos inícios da radiodifusão. Ter nascido a meio caminho entre as duas gerações referidas, tendo sessenta anos no ano 2000, é ter tido vinte anos em 1960, aquando da proliferação de muitos electrodomésticos, como a televisão, a máquina de lavar e o frigorífico, por exemplo. 23 O que se pode concluir daqui? É que, às gerações de pessoas, correspondem gerações de aparelhos tecnológicos. Ora, a verdade é que algumas dessas tecnologias fazem parte do ambiente familiar desde a nascença das pessoas, sendo, para elas, evidências ou pressupostos. Outras, só aparecem um pouco mais tarde no ciclo vital, e as pessoas aprendem a lidar com elas ao longo dos seus anos de formação, ou por força da sua actividade profissional. Outras ainda, só aparecem na idade adulta avançada ou na reforma. Deverá concluir-se que os jovens e os velhos vivem em mundos diferentes e que o universo se torna cada vez mais estranho à medida que se envelhece? Antes de respondermos a isto, vamos ocupar-nos das atitudes da sociedade em geral, sobre o idoso e sobre os processos do envelhecimento e, se possível, separar aí, os mitos e os estereótipos mais ou menos estabelecidos, das realidades acerca do que de facto acontece quando se envelhece. Em seguida faremos o mesmo relativamente à relação dos idosos com as novas tecnologias, em geral, e com as de comunicação e informação em particular. No entanto, parece-nos importante, como pano de fundo, tecer algumas considerações sobre o envelhecimento demográfico. 1.2. Envelhecimento demográfico: passado e futuro Como diz Carrilho e Gonçalves (2004:177), “O envelhecimento demográfico é o fenómeno mais relevante do século XXI nas sociedades desenvolvidas, devido às suas implicações na esfera socioeconómica, para além das modificações que se reflectem a nível individual e em novos estilos de vida.” Segundo estas autoras, pode existir envelhecimento se os efectivos idosos (idade superior a 65 anos) diminuírem a um ritmo inferior das classes etárias mais baixas, de forma a que os idosos, no total da população, aumentem, originando um envelhecimento pela base. 24 O envelhecimento assenta na maior longevidade dos indivíduos, ou seja, no aumento da esperança média de vida. Mas, não só o aumento da esperança de vida define o envelhecimento da população: é necessário que exista uma (…) transição demográfica, normalmente definida como a passagem de um modelo demográfico de fecundidade e mortalidade elevados para um modelo em que ambos os fenómenos atingem níveis baixos, originando o estreitamento da base da pirâmide de idades, com redução de efectivos populacionais jovens e o alargamento do topo, com acréscimo de efectivos populacionais idosos. DECP (2002:188) O INE (Instituto Nacional de Estatística), na sua publicação de 1999, previa que a população idosa com mais de 65 anos ultrapassasse a dos jovens com menos de 15 anos entre 2010 e 2015. Mas, na sua publicação recente INE, (2007:24) mostram-nos que a população idosa já ultrapassou a população jovem, como podemos constatar pela visualização do gráfico a seguir representado (Figura 1.2.1). Figura 1.2.1 - Evolução da proporção da população jovem e idosa no total da população (%), Portugal, 1960 - 2050 Fonte: INE (2007) - Censos de População, Estimativas e Projecções de População Residente A população portuguesa de pessoas com 65 ou mais anos duplicou nos últimos 45 anos, passando de 8% no total da população em 1960, para 17% em 2005. E, de acordo com as projecções demográficas mais recentes, elaboradas pelo INE, estima-se que esta proporção volte a duplicar nos próximos 45 anos, representando, em 2050, 32% do total da população1. 1 Este cenário assenta em hipóteses que têm subjacente um aumento gradual da fecundidade (1,7 crianças por mulher em 2050, nível ainda inferior ao de substituição das gerações: 2,1 crianças por mulher), numa hipótese moderada de acréscimo de esperança de via à nascença (79,0 anos para os homens e 84,7 anos para as 25 Em paralelo, a população jovem diminui de 29% para 16% do total da população entre 1960 e 2005 e poderá atingir os 13% em 2050. O ritmo de crescimento da população idosa e da população muito idosa é bastante superior ao da população total, quer no período retrospectivo, quer no período de projecção. Conforme se pode visualizar no gráfico (Figura 1.2.2), entre 1960 e 2005, a população total cresceu em média 0,4% ao ano, um ritmo muito próximo do observado no grupo da população em idade activa dos 15-64 anos (0,5%). No entanto, neste mesmo período destacam-se, desde logo, grandes contrastes nas dinâmicas de evolução da população jovem, que diminui a um ritmo médio de 1% ao ano e a população idosa que regista taxas de crescimento anual de 2,1%. Figura 1.2.2 - Taxa média anual de crescimento da população por grandes grupos etários, Portugal 1960/2005 e 2005/2050 Fonte: INE (2007) - Censos de População, Estimativas e Projecções de População Residente mulheres, em 2050), bem como num saldo migratório positivo, decrescente e igual a 10 mil indivíduos até 2010, nível que se mantém constante até ao final do período de projecção. 32 fecundidade, de mortalidade e o sentido das correntes migratórias, determinaram os diversos graus de envelhecimento nas várias regiões do país. As desigualdades etárias futuras dependem do modo como: um encargo, mas sim • , tanto a experiência, como as É necessário ainda que se invista em medidas para a inclusão social, apontando-se, xiste uma vasta gama de serviços dedicados aos idosos que vão desde cuidados elativamente à percepção que têm os idosos perante os cuidados de enfermagem e um modo geral, os idosos acham que os seus cuidadores deviam ser mais ais percepções dos idosos sobre os seus cuidadores estão bem patentes nas • As sociedades encarem o envelhecimento: não como como um desafio e uma oportunidade. Se potenciarem iniciativas que visem capacidades das pessoas idosas, de modo a dar-lhes oportunidades para intervirem na vida em sociedade. como de vital importância, a integração das pessoas idosas no seio da família, constituindo um intercâmbio de forças e potencialidades favorável a todas as partes. Segundo Gonçalves (2003:43), em 2001, cerca de 57 mil pessoas idosas encontravam-se institucionalizados em convivências de apoio social, saúde e religiosas, representando quase 4% da população idosa total. E de saúde, operadores de turismo, produtos de cosmética, banca, seguradoras, telecomunicações, imobiliárias, residências em condomínios fechados que incluem todos os serviços de apoio tais como saúde, lazer, limpeza, alimentação e até cabeleireiro. R que recebem, verifica-se que ela é, de um modo geral, positiva, na área psicobiológica e menos positiva nas áreas psicossocial e psico-espiritual. D carinhosos, que lhes deviam fornecer mais informações sobre os cuidados prestados, os quais, apesar das razões menos favoráveis apontadas, são avaliados como sendo razoáveis. T queixas ou desabafos que se seguem: “é preciso perguntar várias vezes para darem esclarecimento sobre os cuidados”; (…) “deviam ser mais carinhosos”; (…) “despem- 33 nos e tiram-nos tudo” Silva (1996:100). Os cuidadores devem ser sensíveis e valorizar as necessidades dos idosos, pois os ollinger-Samson, (2000), estuda as relações entre a depressão do idoso internado depressão, segundo o mesmo estudo, é significativa neste tipo de instituições e As pessoas nas instituições não têm, normalmente, qualquer controlo no que Outro factor contributivo, segundo os mesmos autores, para o risco de depressão é ra é muito importante ter em especial consideração o impacto no comportamento e empatia, na verdade, torna possível pensar e sentir como se nós próprios cuidados apenas serão eficientes se os seus recebedores participarem na avaliação dos mesmos cuidados. H em lar de idosos e a empatia que percepciona nos seus cuidadores. A contribui para uma incapacidade acrescida entre os idosos com patologias dos mais diversos foros, sendo função, não só de tais patologias, como de aspectos contextuais do próprio lar: respeita às decisões sobre as actividades diárias básicas, tais como com quem partilham o quarto, o que comem e quando comem, que objectos podem ter consigo, quando vão dormir e quando se levantam, quando podem receber visitas e o que podem vestir. Hollinger-Samson (2000:56) o das perdas e reduções dos contactos sociais, bem como as interacções entre cuidadores e residentes, pois, mais do que as visitas de familiares ou amigos, são os cuidados em si mesmos a principal, primeira e mais potencial fonte de interacção social na instituição. Os auxiliares de enfermagem, com efeito, passam metade do seu tempo em actividades de cuidado directo com os idosos internos. O bem-estar emocional dos idosos residentes, da empatia demonstrada pelo pessoal cuidador, esse aspecto particular do apoio emocional, o qual, segundo o referido estudo de Samson, está fortemente ligado aos níveis de depressão dos idosos residentes. A fôssemos a pessoa com que nos relacionamos, experienciando, de modo substituto, o estado psicológico dessa pessoa. Ela tem, por consequência, efeitos positivos em contextos de prestação de cuidados: 34 A empatia por parte dos médicos é considerada como promotora da aceitação necessário que se afirme, que o que se disse acima só está ao alcance de um 1.3. Estado-Providência em Portugal dos regimes terapêuticos pelos pacientes, e a empatia por parte dos enfermeiros é considerada como redutora da ansiedade e hostilidade dos mesmos pacientes.” Hollinger-Samson (2000:57) É determinado grupo de pessoas que, para além da idade, têm em comum o acesso à informação, usufruindo de determinados bens e equipamentos, geralmente situados apenas nas grandes cidades. Mas, como diz Gonçalves (2004), uma vasta percentagem de pessoas idosas está longe desta realidade, quer porque constituem um grupo bastante vulnerável à pobreza, especialmente as que residem em zonas rurais, ou porque, segundo ainda Gonçalves (2003), é nas idades mais avançadas que surgem em maior número determinadas incapacidades, motoras ou do foro psicológico. O isolamento social e geográfico fomenta sensações de solidão e abandono, com efeitos graves e difíceis de ultrapassar por quem as sente. As profundas alterações que as sociedades modernas atravessam reflexo dos contextos europeus e mundiais, onde as politicas de todos os estados têm como preocupação central a optimização da economia. Esta optimização é conseguida através de altos índices de produtividade privilegiando apenas os cidadãos que acompanhem esta mesma produtividade. Estes novos conceitos que regem as sociedades actuais, reflecte-se negativamente nas famílias, bem como nos grupos mais vulneráveis dos quais destacamos os idosos. Perante este cenário facilmente se pode deduzir, que o idoso é rapidamente excluído de funções laborais e transmissão de conhecimentos. Deste modo, o idoso é remetido a um isolamento, e este possa dar origem a situações de dependência. Tudo o que atrás foi dito faz realçar o problema do envelhecimento como um facto que preocupa a sociedade em geral, vendo-o como um prenuncio de dificuldades relacionadas com o encargo dos idosos sobre as gerações futuras, a falência dos sistemas de reforma, originando dificuldades para as sociedades. Os países do sul da Europa segundo Ferrera (2000:458), “Espanha, Portugal, Grécia 35 e (em menor medida) na Itália o Estado social desenvolveu-se mais tardiamente”. O Estado-Providência português, (…) “apresenta, simultaneamente, picos de generosidade (pelo menos em termos de fórmulas legais) para determinados grupos ocupacionais e lacunas macroscópicas de protecção para outros” em todas as áreas sociais, à excepção das áreas de saúde e de protecção social a idosos. Ferrera (2000:460-464) aponta sete características que distinguem o sistema de sa aos sectores nucleares da força laboral, localizados • buição desequilibrada da protecção social pelos escalões de riscos Este desequilíbrio apontado por Ferrera, tem como causas: a elevada despesa com dos de saúde (…) apesar de apresentarem uma elevada Estado-Providência português assenta na concepção de que os benefícios • Existe (…) uma combinação altamente articulada (mas ocasionalmente protecção social português: • (…) protecção genero dentro do mercado de trabalho regular ou institucional; por outro lado, concedem apenas uma fraca subsidiarização aos sectores situados no mercado de trabalho dito irregular ou não institucional. (…) Só muito recentemente foram introduzidos planos locais que garantem um rendimento mínimo. (…) distri padronizados e, de um modo mais geral, pelas diversas funções da política social. pensões de reforma relativamente a outros tipos de despesa; os precários benefícios e serviços para a família e o subdesenvolvimento da habitação social e subsídios para a habitação. • (…) os cuida fragmentação institucional ao nível das linhas ocupacionais dos seus sistemas de manutenção de rendimentos, (…) são caracterizados por uma abordagem universalista no que toca aos seus serviços de saúde. O monetários devem ser dirigidos a posições laborais (financiados pelos contribuintes), mas os cuidados de saúde devem estar, pelo contrário, unicamente ligados à cidadania universal e sob formas descentralizadas. conluiada) entre instituições e actores públicos e não públicos. Esta característica é particularmente evidente no campo da saúde e dos serviços sociais. 36 • sistência do «particularismo institucional», se não mesmo do puro e • m o evido a este sistema de protecção social as famílias portuguesas, vêem-se perante elacionados com o Estado-Providência estão os programas de ingressos o entanto, devido sobretudo ao cada vez menor ratio entre trabalhadores activos e 1.3.1. Politicas sociais para a terceira idade s idosos dão grande valor a um certo número de direitos, na maior parte não (…) a per simples clientelismo, e, em certos casos, à formação de elaboradas «máquinas de protecção» para a distribuição dos subsídios monetários. As duas últimas características (…) têm essencialmente que ver co financiamento da segurança social. Aqui o problema é constituído por (a) uma distribuição altamente desequilibrada dos custos pelos diversos grupos ocupacionais devido a disparidades legais e (b) uma elevada incidência da «economia paralela» e, assim, da evasão fiscal. D um peso excessivo com a protecção dos seus membros dependentes. Este modelo assim organizado, que deveria ser promotor de bem-estar social não responde às necessidades das famílias, provocando exclusão social. R económicos, reduzindo os custos dos serviços ou dando às pessoas idosas uma reforma ou outra atribuição monetária. Destinam-se aos mais desfavorecidos, como viúvas, incapacitados ou idosos. A Segurança Social é o sistema que suporta as referidas ajudas económicas, numa base assistencial, solidária e de acção social. N pensionistas, a estrutura da Segurança Social sofre de debilidades crescentes: “os encargos financeiros com a terceira idade, nomeadamente com as pensões de reforma, assumem proporções insuportáveis para o Estado, tornando a manutenção do Estado-Providência quase uma utopia” Martin et al., (2007:165). O satisfeitos, como a assistência na doença, a gratuitidade dos serviços, a autonomia e a privacidade, a integridade física e psicológica, o ser tratado como pessoa, o direito à família, ao sigilo, os cuidados no domicílio, a escolha dos serviços prestados, a segurança social. 37 Na verdade, devido ao seu generalizadamente baixo nível económico e à orque procuram os idosos os Centros de Saúde e qual a sua percepção sobre os estudo de Pinto (1998) sobre este assunto conclui que os cuidados de saúde Os idosos percepcionam as necessidades de saúde como sendo de natureza om a universalização do direito à reforma, a velhice passa a estar identificada, reforma não se dirige apenas aos que não têm outro modo de sobreviverem na envelhecimento é função do aumento da esperança de vida e baixo índice de a verdade, há uma grande relação entre a organização dos serviços formais de inadequação das estruturas de apoio, bem como, igualmente, à grande carência no que respeita ao direito à família e à segurança social, impõem-se medidas de intervenção dos organismos socialmente responsáveis: “as relações pobrezadoença-velhice apresentam-se como o território em que importa intervir, conjugadamente, dado que a conjugação dos factores potencia os efeitos circulares e negativos” Costa (2005:264). P serviços aí prestados? O procurados são determinados por razões de pura sobrevivência, originando cuidados curativos grandemente inespecíficos e sem respostas articuladas: diversificada, nas quais interferem, de forma interrelacionada, factores físicos, psíquicos, sociais, económicos, familiares e habitacionais, sendo geradores de desequilíbrios e, consequentemente, se apresentam como necessidades não satisfeitas ou parcialmente satisfeitas, o que nem poderia ser de outra forma, em relação a algumas necessidades evidenciadas. Contudo, o que se revela nesta situação, é a carência quase generalizada dos idosos e a sua relação com a não existência de respostas sociais adequadas; para além disso, há ainda a elevada desarticulação dos serviços sócio-sanitários. Faltam as respostas e as que existem, na visão dos idosos, não estão coordenadas, o que, em termos de saúde e de bem-estar efectivo, é inversamente proporcional à proliferação de leis, normas e regulamentos de instituições, que não funcionam. Pinto (1998:194) C tendo lugar a “passagem do trabalho remunerado ao não-trabalho remunerado. A velhice invisível vai sendo uma velhice socialmente identificada” Guillemard (1992). A velhice, mas é “encarada como decorrente do trabalho em si, e da condição de cidadania. Enquadra-se nos princípios de um Estado-Providência, onde se criaram as condições para uma gestão pública da velhice” Fernandes (1999:140) O natalidade/fertilidade, tendo como resultado alterações no sistema de financiamento das reformas, sistemas de saúde e serviços sociais. N 38 prestação de cuidados e as políticas de cuidados informais: Na na análise destas políticas e destas estratégias concretas adoptadas pelas sociedades ocidentais, encontraremos simultaneamente fundamentos de cariz lém do mais, como diz Requejo, a questão dos idosos não se limita ao número e à Assim, o objectivo não é uma concepção assistencial dos idosos, mas permitir que todas as pessoas, particularmente as de idade mais avançada, de uma política social s problem lítica da velhice só começam a ser m 1974, no programa do II Governo Provisório, são indicadas medidas de política este mesmo Programa que confirma a criação do sistema de Segurança Social, a Constituição de 1976 tais princípios são consolidados. No seu Artigo 63 consta político e económico, ainda que possamos desde já apontar um dos objectivos das políticas de cuidado informal: evitar a institucionalização de longo prazo de pessoas funcionalmente dependentes. Martín (2005:179) A demografia, mas é eminentemente social e uma sua análise enquanto fenómeno social não se deve limitar aos gastos, mas deve incidir no seu papel social: desempenhem um papel próprio na sociedade, assumindo livremente os seus deveres e direitos como cidadãos de todas as idades. Estas pretensões exigem a resposta e a manutenção desenvolvida e configurada no denominado “Estado de Bem-Estar”, que aglutina os cidadãos a favor da solidariedade e coesão social, assegurando-lhes uma série de prestações. Requejo (2007:24) as da população idosa e da poO tratados em Portugal nos anos setenta. E social, de carácter correctivo, por exemplo “a criação de pequenas unidades residenciais para acolhimento dos idosos sem família e a total remodelação dos asilos da terceira idade” (Programa de acção do Ministério dos Assuntos Sociais, Outubro de 1974, Centro de Documentação e Informação do Ministério do Emprego e Segurança Social). É afirmando, como seu vector fundamental”o direito à vida e não a capacidade de produzir trabalho”; elimina-se, por consequência, o conceito de assistência pública como forma institucionalizada de caridade, a relação entre as contribuições dos trabalhadores e o benefício social, considerado uma forma de “seguro”, e o vínculo trabalho-protecção social como base do esquema da segurança social. N que “o Estado promoverá uma política de terceira idade na vida da comunidade”. 39 No passado havia instituições para indigentes, mendigos e velhos, chamados asilos sta imagem negativa do asilo, com toda a segregação social e construção de uma s instituições referidas são especialmente orientadas para a velhice, e norteiam-se s lares ou residências para idosos destinam-se ao alojamento exclusivo dos odas estas instituições se regem pelo princípio básico do respeito pelo meio de o entanto, o quadro mais recente é bem mais animador, pois “segundo a Carta ma forma particular de acolhimento em Portugal é o chamado Acolhimento e hospícios, onde os indivíduos de situação semelhante, em total separação da sociedade, tinham uma vida fechada e formalmente administrada, em ruptura com as relações sociais do mundo exterior, sendo as suas actividades impostas segundo um plano único. E identidade e uma auto-imagem de pessoa idosa, persiste simbolicamente, em especial no que se refere às características da sua população, sob designações como Centros de Dia, Centros de Convívio, Lares de Idosos, Universidades da Terceira Idade ou Serviços de Apoio Domiciliário. A pelos princípios de prevenção da dependência e integração dos idosos na comunidade. O idosos. O Centro-de-dia ou de convívio e os serviços de apoio domiciliário têm como princípio orientador a manutenção da pessoa na sua própria casa. Os primeiros Centros-de-dia em Portugal são de 1976, sendo instituições de acolhimento parcial, ao contrário dos Lares, instituições totais. T integração. No entanto, como se disse, a imagem ou valor simbólico é marcadamente negativa. N Social (2002) a resposta de Lar para Idosos observou uma evolução positiva de 28 por cento no período de referência de 1998-2002. Neste sentido, a evolução dos lares em Portugal é semelhante à tendência internacional de crescimento deste tipo de respostas sociais” Martin et al. (2007:143). U Familiar, da responsabilidade dos Centros Distritais de Solidariedade e Segurança Social, em famílias estruturadas e competentes, de idosos incapacitados de viver 40 sós na sua casa por falta de apoios sociais ou familiares. Outra é o denominado Programa de Apoio Integrado a Idosos, fornecendo apoio o âmbito dos centros de atenção a idosos, em Portugal existem os Centros de Dia, o que se refere aos agentes sociais, eles surgem, em consonâncias com as egundo Fernandes (1999:154): ciais contribui para promover e reforçar uma certa trabalho destes agentes sociais apresenta um certo grau de ambivalência, pois se, ão obstante tudo isto, a solidariedade mantém-se como elemento de base. vertente educativa do trabalho social revela-se por certas intervenções destes domiciliário, serviços médicos e de enfermagem e até um serviço de Telealarme, possibilitando um apoio rápido pelo carregar num botão. N que conferem serviços de apoio, por exemplo a actividades básicas da vida diária, contribuindo para que o idoso possa subsistir no seu meio social e familiar, e os Centros de Convívio, proporcionando meios de animação sócio-cultural, uma “resposta social desenvolvida num equipamento, de apoio a actividades sóciorecreativas e culturais, organizadas e dinamizadas com participação activa dos idosos” Martin et al. (2007:151). N políticas sociais, grandemente como produto de toda uma situação de relativa marginalidade social e de fraqueza, ou mesmo ausência, de relações familiares. S A acção dos agentes so imagem da velhice e legitimar as acções e as posições alcançadas pelos agentes. As concepções que os trabalhadores sociais, agentes encarregues da gestão da velhice, em sentido lato, têm das pessoas idosas, incidem sobre dois aspectos: isolamento físico, social e familiar; carências ao nível material, de saúde e afectivas. O por um lado, as suas funções se identificam com práticas missionárias, radicadas na caridade cristã, por outro lado, tais funções exigem toda uma profissionalização através de uma formação especializada, garantindo um desempenho profissional remunerado e socialmente valorizado. Isto implica, obviamente, conhecimentos específicos sobre a saúde, terapias e animação cultural. N A agentes sociais, sendo o seu alvo preferencial a família, tantas vezes ausente ou em culposa falta no auxílio e solidariedades devidas ao familiar idoso. 41 Através de programas de apoio ao idoso e de acções comunitárias, por exemplo, o ambém Requejo (2007), fala de uma política social implementadora de princípios stá provado haver uma relação forte entre o isolamento social do idoso e os sta posição é contrariada, segundo Blazer (2005) pelos estudos empíricos das elo contrário, o isolamento social e a falta de apoio social estão associados, no experiência dos cuidadores sociais determina, efectivamente, que a depressão é trabalhador social contribui para a construção social da identidade do idoso, como categoria social excluída e cheia de carências, numa tentativa de se reconquistar a dignidade da pessoa idosa, com a ajuda de todos e a solidariedade de toda a comunidade. T que ajudem os idosos e promovidos pela ONU, tais como a independência, o respeito pelas condições de vida próprias deste grupo etário, pela sua participação pró-activa nas políticas responsáveis pelo seu bem-estar, e que digam respeito à sua saúde, auto-realização, dignidade de vida, sem maus tratos ou exploração de qualquer espécie. Este autor conclui que estas políticas sociais que estamos tratando serão geradoras de uma mudança pessoal e social que, apesar das limitações impostas pela idade, imporá progressivamente um conceito de velhice positivo, activo, orientado para o desenvolvimento, aberto a uma maior acção e comunicação intergeracional, como referente de uma sociedade mais solidária que apoia as pessoas de todas as idades. E estados de depressão, bem visível no estudo de Blazer (2005) que refere a hipótese antiga de alguns cientistas sociais de que há um afastamento progressivo entre a sociedade e o indivíduo que envelhece, que cada vez se preocupa mais com o seu eu e menos com os objectos e o meio circundante. E últimas duas décadas que provam que a actividade é o segredo da velhice bem sucedida e que um estilo de vida activa, tanto física como socialmente, é o melhor meio de conseguir uma satisfação com a vida na idade avançada. P idoso, segundo o mesmo autor, com sintomas depressivos. A bastante comum no idoso e está em grande parte, como se disse, relacionada com o 48 responsável por depressões e até suicídios, também é verdade que muitos idosos mantêm cadeias de amizades, contactam intimamente com a sua família e se empenham em actividades sociais. Ainda segundo Fernandes, o modo como a sociedade encara o idoso concorre para a imagem que este faz de si mesmo: o cunho negativo da imagem dominante do idoso como pertencente a um grupo social problemático funciona como um “filtro negro” inibidor da percepção dos aspectos positivos. É, pois, urgente corrigir a imagem dominante, melhorando a auto-imagem e aumentando, em igual medida, a auto-estima, felicidade e satisfação com a vida numa fase vital muito sensível e vulnerável à opinião dos outros e à atenção prestada aos seus gestos e realizações. O idoso que considere a velhice como um fenómeno natural é mais feliz, dá mais sentido à vida, implica-se mais no meio e na sociedade. Reconhecendo em si os aspectos positivos, como a estabilidade de valores, a sensatez, o juízo crítico, bem como certas “vantagens” do envelhecimento, como menos trabalho e responsabilidades, menos competição, o idoso pode apreciar mais a vida e temer menos a morte, utilizando os conhecimentos acumulados e as experiências para ajudar os outros, constituindo-se como força e reserva social, cultural, num intercâmbio geracional, implicando actividade constante, incluindo o investimento, na “reforma”, em áreas da sua competência ou para que demonstre alguma apetência, numa tenaz tentativa de “reformar a reforma”. 1.5. Estereótipos acerca da idade e sua influência nas relações intergeracionais Os estereótipos acerca da idade têm um acentuado papel na interacção e comunicação dos idosos, incluindo a intergeracional. Tais estereótipos têm características complexas, incluindo uma visão positiva e negativa dos idosos, sendo igualmente complexa a relação que se estabelece entre os referidos estereótipos e a comunicação. Não é apenas a idade objectiva que actua nos bastidores do processo comunicativo 49 intergeracional, mas é sobretudo todo um processo de categorização dentro dessa interacção, além do processo de identificação social, proporcionando os papéis de velho ou de novo. Um factor influente operando em conjunto com os referidos processos de identificação social e de categorização é os preconceitos ou estereótipos acerca de certos grupos sociais, neste caso o grupo “idoso”. Uma função central nesta identificação social e categorização referida é a referência frequente, explícita ou implícita, à idade, quer através da descrição de défices pessoais, quer pela nomeação da idade em números. Esta tematização da idade nas conversas inclui também a possibilidade de, através de cumprimentos ou de outras demonstrações positivas e ritualizadas da interacção, como certas normas de cortesia com idosos, contextualizar a identidade do idoso de um modo positivo. Qual a natureza de tais estereótipos? A perspectiva cognitiva é hoje a abordagem predominante no seu estudo. Eles são encarados como esquemas perceptivos de uma pessoa que usa a idade como princípio de categorização primária, sendo a noção de adulto idoso a categoria superordenada, contendo categorias ou subtipos subordinados de adultos idosos. Tais esquemas abarcam subcategorias ou estereótipos, tanto positivas como negativas, de adultos idosos. Hummer, et al., (2004:92), pediram a grupos de jovens, pessoas de meia-idade e idosos, para referirem traços que associassem à categoria adulto idoso. Concluiu-se que os respondentes de todas as idades revelavam estereótipos positivos e negativos, e que a complexidade dos esquemas de estereótipos aumentava através dos três grupos etários. Apesar de haver diferenças de complexidade, como referido, há também evidentes semelhanças nos resultados dos três grupos, de cujos resultados surgem sete estereótipos. Três são positivos: pessoa na idade de ouro, avô perfeito, John Wayne conservador (com as inerentes implicações tipo “cow-boy”). Quatro são negativos: severamente afectado, desanimado, isolado, irascível. Na elaboração dos estereótipos ligados à idade, é de referir a importância dos 50 indícios faciais na percepção das pessoas. Se é verdade que a aparência mais saliente para a percepção física é a raça e a idade, a expressão facial vem logo a seguir. Há sinais fisionómicos de idade avançada que incluem o tamanho e colocação dos olhos, nariz e boca, o tamanho do queixo, bochechas e da testa em relação com o tamanho do crânio, o estado da pele e do cabelo. Quando estes indícios fisionómicos de idade avançada são processados de modo inconsciente pela percepção das pessoas, podem formar a base de uma estereotipização implícita negativa: “De um modo geral, esta pesquisa deparou-se com o facto de que as pessoas com características faciais jovens eram associadas com traços e comportamentos mais positivos pelos seus colegas e por estudantes e crianças, do que o eram as pessoas com traços faciais mais velhos”. Hummert (1997) Há estereótipos implícitos sobre a idade, isto é, afectando a percepção de modo automático, inconsciente, e afectando os julgamentos e comportamentos. Perdue e Gurtman, (2004:93), encontraram provas de tais estereótipos em dois estudos. Num estudo, os participantes referenciados para a palavra velho lembraram-se mais de aspectos negativos em tarefas de evocação, ao passo que os que se confrontaram com a palavra novo evocaram mais traços positivos. No outro estudo, os participantes fizeram julgamentos semânticos sobre traços negativos de um modo mais célere quando confrontados com “velho”, e sobre traços positivos quando confrontados com “novo”. Estes estudos usam o Teste de Associação Implícita (IAT, em inglês) pelo qual se apurou que existe um preconceito negativo sobre as pessoas idosas em comparação com as novas. Contudo, a correlação destas atitudes implícitas com as reveladas em medidas de questionários estandartizados sobre atitudes acerca da idade é baixa ou nãosignificativa e, em certos casos, é diferente: “Por exemplo, as respostas dos jovens adultos ao Teste de Associação Implícita mostraram atitudes mais favoráveis relativamente às pessoas jovens do que às idosas, mas as suas respostas em questionários de atitudes eram mais favoráveis em relação aos mais velhos do que aos mais novos. Como Hummert et al. concluiram, a última descoberta confirma o valor do IAT em avaliar atitudes que os participantes possam hesitar exprimir em questionários”. Hummert (2004:94) 51 No que respeita à comunicação intergeracional, grande parte dos resultados da pesquisa sugere que os estereótipos negativos podem influir mais fortemente que os estereótipos positivos no comportamento comunicativo, isto é, podem conduzir a comunicações paternalistas. Num inquérito a jovens, pessoas de meia idade, velhos e muito velhos, Hummert et al. (2004) chegaram à conclusão que as pessoas dos quatro grupos referidos tinham estereótipos implícitos equivalentes dos jovens como abertos e dos velhos como fechados, mas só os indivíduos pertencentes aos três grupos mais idosos tinham um estereótipo implícito positivo de velho como sábio e de jovens como insensatos. Mas, mesmo assim, o seu estereótipo implícito de velho como sábio era bastante mais fraco que o seu estereótipo de jovem como aberto. A razão para isto é talvez o facto de que os estereótipos positivos para as pessoas idosas estarem menos acessíveis do que aqueles para as pessoas mais jovens, em especial para os mais novos. De qualquer modo, este achado tem implicações para o papel dos estereótipos etários na comunicação interpessoal. LEVY, (1996:71), com a sua pesquisa sobre a memória no adulto, foi dos primeiros a estudar a relação entre os estereótipos de idade implícitos e os auto-estereótipos nos adultos idosos, avaliando o funcionamento da memória antes e depois de uma exposição subliminar de estereótipos positivos (velhos como sábios) ou negativos (velhos como senis). Os participantes idosos confrontados com estereótipos negativos revelavam uma performance mais pobre da memória, e os confrontados com os estereótipos positivos demonstraram uma memória melhorada. Pelo contrário, o rendimento da memória dos participantes mais novos não foi afectado pela diferença referida. Além disso, os estereótipos positivos revelaram trazer benefícios ao comportamento dos idosos, deles resultando uma caligrafia mais controlada, uma inferior resposta cardiovascular ao stress, e melhor aceitação das medidas para prolongamento da vida (tendo os estereótipos negativos um efeito contrário). Num estudo em que se examinam as percepções de adultos jovens, de meia-idade 52 e idosos sobre o envelhecimento, chegou-se à conclusão que, tendo todos os grupos ideias parecidas sobre o assunto, os adultos idosos e os de meia-idade têm ideias mais ricas e complexas que os adultos jovens: “Em particular, os grupos adultos mais idosos viam mais aumentos de desenvolvimento nas características positivas e negativas que ocorrem com o avanço da idade do que viam os adultos jovens, e faziam discriminações mais finas no que respeita ao início desses aumentos e decréscimos desenvolvimentais do que os adultos mais jovens”. Hummert (1994:241) As razões disto são que os indivíduos tendem a ter esquemas mais complexos para o seu próprio grupo que para membros de outro grupo, em relação à idade, raça ou outra dimensão social; outra razão é que tais diferenças de complexidade reflectem a integração de experiências de vida em esquemas acerca do envelhecimento, ou, por outras palavras, os seus esquemas foram modificados e alargados à medida que eles próprios negociavam o seu próprio processo de envelhecimento: à medida que incorporam a heterogeneidade do envelhecimento que podem observar, nos seus próprios esquemas individuais, esses esquemas tornam-se mais diferenciados e mais complexos. Estas observações são específicas da idade, e não das dimensões sociais da raça e do sexo. Em relação entre estes estereótipos e a comunicação é de referir o modelo elaborado por Ryan, et al., (1995), que demonstra que nas relações intergeracionais, quando há estereótipos etários negativos, desenvolve-se uma espiral de feedback negativo entre os participantes. A explicação dada é a de que, quando um idoso interage com um jovem, ele pode provocar o reconhecimento de certos traços etários como aspecto físico, tipo de voz, contexto, etc., tornando evidentes estereótipos etários negativos que acarretam com eles convicções acerca de défices físicos como a surdez, ou cognitivos como a dificuldade em recordar nomes. Em consequência disto, os jovens podem ser levados a adaptar a sua comunicação ao idoso para dar uma resposta a esses presumíveis défices, o que provoca, não raras vezes, que haja uma sobre-acomodação linguística a tais estereótipos etários negativos, que pode consistir, por exemplo, em falar mais alto, em vez de tentarem adaptar a comunicação às reais competências comunicativas desses idosos. Tais reforços podem levar a um retracção das oportunidades de comunicação, baixa auto-estima e mesmo num declínio de capacidades físicas e mentais relacionadas 53 com tais estereótipos. Em oposição aos estereótipos sobre as pessoas idosas de que temos vindo a falar, de referir o conceito de “envelhecimento activo”, que foi o mote do documento de debate da II Assembleia Mundial sobre o Envelhecimento, referido por Tamer e Petriz, (2007), concluindo pela urgência de se alterarem os estereótipos e ideias feitas que são grandemente função de uma ideia reducionista dos idosos como “velhos, pobres e doentes”, valorizando, por outro lado, uma ideia de envelhecimento como conquista da humanidade. Segundo estas autoras: “Existe um amplo consenso na aceitação do facto de que o conceito de envelhecimento activo se refere ao processo de optimização do potencial de bem-estar social, físico e mental das pessoas ao longo da vida, para que este período de idade madura, cada vez mais comprido, seja vivido de forma activa e autónoma”. Tamer e Petriz, (2007) 54 CAPÍTULO 2 - Qualidade de vida do idoso e velhice bem sucedida. 2.1. Qualidade de vida Vivemos num contexto envelhecido, onde não só importa acrescentar anos à vida como acrescentar vida a esses anos e isto melhorando a qualidade de vida dos idosos. Lawton, (1991), apresenta um importante modelo, de cariz ecológico, de qualidade de vida do idoso, que define como um juízo ou uma valoração do sistema pessoaambiente relativamente ao passado, presente e futuro, e que pode ser medido através da competência comportamental do idoso, do modo como ele percepciona a qualidade de vida, pelo ambiente objectivo que o rodeia e pelo grau de satisfação e bem-estar global. Na verdade, pode dizer-se, com Ferrer, (2000:5), que a principal tarefa da gerontologia é hoje: “(…) optimizar aquellas situaciones, condiciones y comportamentos a través de los que se pueda conseguir una calidad de vida razonable”. Viver mais tempo é, hoje, uma realidade assegurada, importa, agora, e para além disso, viver melhor, ter uma vida de qualidade, pelo que todas as políticas sóciosanitárias devem desenvolver intervenções em ordem a fomentarem estilos de vida e comportamentos saudáveis. Como diz Fernández – Ballesteros, (2004:18), o conceito de qualidade de vida, apesar de relativamente recente, tem tido enorme expansão nas últimas décadas nas ciências sociais, naturais e biomédicas, sendo um conceito multidimensional que incorpora condições sócio-ambientais e pessoais, objectivas e subjectivas. Walker, (2004:39), na sua pesquisa sobre a qualidade de vida do idoso, proporcionanos uma descrição comparativa da qualidade de vida em países da União Europeia, relativamente a algumas dimensões suas componentes. 55 Uma dessas dimensões é a saúde, física e mental. Existe aqui uma enorme diferença entre a valoração objectiva da saúde e a percepção que dela têm os idosos que, por vezes, afirmam gozar de boa saúde, ainda que tenham doenças crónicas; esta valorização subjectiva do seu estado de saúde influencia a qualidade de vida. Outras dimensões são o emprego e a aposentação. Não há provas de que a ausência de emprego afecte necessariamente a qualidade de vida nem que a aposentação se associe com um declínio do estado de saúde, ainda que seja importante, para o bem-estar durante a aposentação, que haja uma atitude positiva em relação à entrada na reforma, uma transição para a reforma voluntária e não conflituosa, bem como um alto grau de bem-estar, de optimismo, estabilidade emocional e uma perspectiva positiva relativamente ao envelhecimento. Outros factores importantes são os rendimentos auferidos na reforma e o património, pois uma situação económica favorável pode ajudar muito nesta época da vida. A habitação é também muito importante, pois está, muitas vezes, associada à história individual e familiar, estando repleta de significado e de sentido de identidade, sendo, além disso, o local onde o idoso passa a maior parte do seu tempo. Igualmente importante é haver uma boa vizinhança, uma boa qualidade do bairro onde se vive, um sentimento de segurança. Importante é, ainda, o transporte eficaz, quer individual quer colectivo, para preencher as necessidades de mobilidade do idoso. Outros factores importantes são a família e as redes de apoio, as relações pessoais e a solidariedade familiar intergeracional. Ter um confidente, ter amigos, é essencial. O que mais importa nas relações sociais e redes de apoio é a percepção da proximidade e o significado que lhes atribuem, significado emocional e manutenção de valores importantes como a reciprocidade, a autonomia e a auto-suficiência. Trata-se aqui de uma concepção de qualidade de vida de tipo comportamental para a qual tal qualidade de vida não depende só do bem-estar psicológico ou da satisfação, mas sobretudo daquilo que cada um de nós faz para viver uma vida de 56 qualidade: o que fazemos e como experimentamos, como vivemos o que fazemos, isto é, a qualidade da nossa experiência, é que é o objecto de estudo da qualidade de vida, para a teoria de Lawton. Se fazemos o que queremos ou podemos fazer, a qualidade de vida da nossa experiência é provavelmente plena e tem êxito. É claro que a saúde, as crenças positivas, os recursos materiais, as competências sociais, o próprio apoio social, são importantes, mas não determinantes para uma vida de qualidade. A personalidade desempenha um papel igualmente importante na felicidade pessoal e na quantidade e qualidade de vida: “la persona feliz es producto de disposiciones temperamentales, esfuerzos comportamentales adaptativos y estratégias d afrontamiento adequadas; la persona feliz posee un temperamento positivo, tiende a mirar el lado positivo de las cosas (…) tiene confidentes sociales, y posee recursos adecuados para poder esforzarse en conseguir metas valoradas”. Reig, (2000:8) 2.2. Qualidade de vida do idoso e conceitos relacionados Falar de qualidade de vida do idoso remete para uma constelação de valores que lhe estão relacionados, ou de metas a atingir, para se lograr uma velhice bem sucedida, conceito também relacionado e que, pela sua importância, deixaremos para último lugar. Entre tais dimensões, contam-se a felicidade, o prazer, a satisfação com a vida, o bem-estar psicológico ou subjectivo, a integridade e a sabedoria. Já desde Aristóteles que a procura da felicidade prevalecia sobre todas as outras - saúde, beleza, dinheiro, poder - que se valoravam por referência a ela. Desde então, pouco se tem evoluído na compreensão do que é a felicidade e dos meios para a atingir. Apesar de todas as conquistas científicas e tecnológicas, muitas pessoas, sobretudo quando chegam a velhas, mantêm a mesma sensação de que a sua vida foi um 57 imenso desperdício, cheia de tédio e ansiedade, em vez da tão esperada felicidade. Deveremos responsabilizar a natureza humana, naturalmente insatisfeita, ou será que a felicidade é procurada nos locais errados? Quando é que as pessoas, e entre elas as pessoas idosas, se sentem mais felizes? A felicidade não é algo que simplesmente aconteça, não resulta da sorte ou do aleatório acaso; não se pode comprar nem impor. Na verdade, ela não depende de acontecimentos externos, mas do modo como interpretamos tais acontecimentos. Além disso, a felicidade é algo de privado, dependente e relacionado com o controlo da experiência interior e dos conteúdos da consciência. É algo que se atinge através de uma procura consciente, de um envolvimento completo com cada detalhe das nossas vidas O constructo “bem-estar psicológico” ou “experiência psicológica óptima” opõe-se à ideia fatalista de que somos governados por forças e factores que nos ultrapassam, como a constituição física, o temperamento e a história, pondo a tónica no controlo, por nós próprios, das nossas acções e do nosso destino, com a resultante e profunda sensação de bem-estar e de fruição do que a vida nos oferece. Tais momentos óptimos da nossa vida ocorrem, quer em situações favoráveis, quer em situações desfavoráveis, não sendo forçosamente passivos, receptivos e relaxantes, mas ocorrendo, com frequência, quando o corpo de alguém se esforça até aos seus limites, num esforço voluntário para realizar algo de difícil e de valioso. O que realmente satisfaz as pessoas, incluído as idosas, é sentirem-se bem com as suas vidas: para tal é necessário controlar o que acontece na consciência, na vida interior, com base no esforço e na criatividade de cada um. Dois grandes obstáculos se colocam ao alcançar da felicidade: a frustração, como algo conatural à própria vida (o universo não foi feito para atender às nossas necessidades), e a natural insatisfação do ser humano. Para lidar com tais obstáculos e nos protegerem do caos, vários mecanismos de protecção foram sendo desenvolvidos ao longo dos tempos, como as religiões, as filosofias e as artes, ou, na ausência destas, determinados prazeres mais comezinhos, como a riqueza, o poder e o sexo. 64 Nos últimos trinta anos tem sido norma considerar o idoso com os estereótipos negativos que desenvolvemos noutro local e que o colocam no lugar oposto ao do jovem, numa atitude idadista e discriminatória que influencia o próprio conceito que o idoso faz de si próprio. 2.3.2. Modelos de envelhecimento bem sucedido; o contributo das atitudes positivas e das ciências sociais O primeiro modelo a considerar é o do envelhecimento biológico bem sucedido. Há aqui dois factores importantes: diminuição da morbilidade e longevidade. O tempo médio de vida tem aumentado, fruto de factores ambientais favoráveis, como o estatuto sócio-económico, o estado nutricional, as condições sanitárias, entre outros. Um dos factores do envelhecimento biológico bem sucedido é a compressão da morbilidade. Isto e a grande prevalência das chamadas doenças da terceira idade, como as afecções cardio-vasculares, o cancro, a diabetes e a demência, criaram a ideia de que a doença é uma parte necessária do envelhecimento. Cabe aqui referir as intervenções baseadas na prevenção primária, no combate ao tabagismo, colesterol, sedentarismo. A estabilidade dos factores genéticos tem influência na longevidade individual que tem associados factores como o metabolismo, função imunitária, massa corporal, factores de risco cardiovascular e função cognitiva. No que se refere a o segundo tipo de modelos, os do envelhecimento psicológico bem sucedido, todos eles enfatizam a interacção social, a satisfação com a vida e o bem-estar. Já que envelhecer envolve a perda de papéis, como a reforma e a viuvez, para que o idoso retenha um sentido positivo de si, precisa de encontrar satisfação noutros 65 papéis. De grande importância para um envelhecimento bem sucedido é, também, o apoio social, a integração social, com benefícios para a saúde. Mais laços sociais correlacionam com riscos mais baixos de mortalidade e melhores repercussões na saúde mental e física, desde doenças cardio-vasculares à hipertensão e à depressão, relacionadas com o declínio cognitivo, bem como nos padrões do funcionamento cognitivo, protegendo, entre outras coisas, da instalação da demência. Tanto o envelhecimento bem sucedido como a satisfação com a vida contribuem para o bem-estar subjectivo, de que falámos atrás. O termo “envelhecimento bem sucedido” reflecte, aos olhos do idoso, uma orientação atitudinal ou adaptativa, ao passo que o termo “satisfação com a vida” refere antes as necessidades básicas, sendo descrita em termos de expectativas passadas e situações presentes; o “envelhecimento bem sucedido”, por seu turno, liga-se mais a necessidades de uma ordem superior, como o auto-conhecimento e a ajuda aos outros, sendo mais orientado para estratégias de resistência à frustração e na manutenção de uma perspectiva positiva. De vital impacto e preditores de um envelhecimento psicológico de sucesso, satisfação com a vida e bem-estar psicológico são também os traços da personalidade, de grande maleabilidade, com mudanças, talvez mais na idade avançada, e com relativa consistência e estabilidade, ao longo de toda a vida, das suas dimensões, como o neuroticismo, a extroversão, a abertura à experiência, o carácter agradável e a consciência moral, devido a factores vários como o autoconceito e as atitudes. Os estudos de Costa e McCrae referidos por Lupien e Wan, (2004:1418), demonstram que os traços da personalidade revelados bem cedo durante a vida humana são preditores de bem-estar nos anos subsequentes. Refere, por exemplo, que os afectos negativos estão associados com o factor de personalidade “neuroticismo” e com baixos níveis de bem-estar, ao passo que os 66 afectos positivos se associam com o factor “extroversão” e com um elevado bemestar. Assim, os caminhos para um envelhecimento bem sucedido são determinados muito cedo na vida. Há, por último, os modelos multicriteriais de envelhecimento bem sucedido. São modelos que tomam em conta, conjuntamente, aspectos biológicos, cognitivos e psicossociais do envelhecimento, baseados no reconhecimento da heterogeneidade entre os idosos, de que falámos atrás. O primeiro modelo é de Rowe e Kahn, (1998:143-149). Considera o envelhecimento com sucesso como um estado do ser, uma condição que pode ser medida a um dado momento, e que pode ser definido como variáveis fisiológicas e psicossociais, das quais um envelhecimento de sucesso está no extremo positivo daquilo que se considera um envelhecimento normal. São três, para estes autores, os componentes de um envelhecimento bem sucedido: evitamento de doença e incapacidade, manutenção da capacidade cognitiva e envolvimento activo na vida. Estes autores enfatizam, também, o impacto do stress na função cognitiva. As mulheres idosas são mais reactivas ao stress que os homens, sendo o nível de autoestima um potencial preditor da reactividade ao stress. Tal reactividade, com a respectiva produção de cortisol, a hormona do stress, tem impacto negativo nas performances da memória e da aprendizagem. O segundo modelo é o de Baltes e Baltes, (1993:1-36). O envelhecimento de sucesso é considerado, para este modelo de optimização selectiva com compensação, um processo de adaptação contínua, tentando explicar a dinâmica de trocas de ganhos e de perdas ao longo de toda a vida e o modo como as mudanças relacionadas com a idade e auto-produzidas se podem considerar um exemplo da plasticidade da mente que envelhece. A optimização selectiva com compensação tenta explicar o modo como os 67 indivíduos fazem adaptações sempre que são confrontados com mudanças originadas pelo processo de envelhecimento. Para este modelo de Baltes e Baltes, há três processos que demonstram a capacidade que as pessoas têm de serem resilientes no pensamento, sentimentos ou comportamentos para que atinjam as metas desejadas através do desenvolvimento e do processo de envelhecer. O primeiro processo é o de selecção, isto é, as opções restritas dos domínios funcionais disponíveis, devido a uma perda causada pela idade no domínio do potencial adaptativo. Pela selecção, as pessoas ajustam as suas expectativas, de modo a tornarem possível a experiência subjectiva da satisfação e controle pessoal. O segundo factor, a optimização, que inclui aspectos como o treino, a prática e a educação, tem a ver com o facto de que as pessoas escolhem comportamentos que os ajudem a alcançar níveis de funcionamento mais elevados e mais desejáveis. A optimização mantém o potencial de desenvolvimento que surge quando nós somos capazes de dominar as incertezas e as mudanças da idade avançada. Uma velhice com sucesso é, assim, encarada, como “(…) o processo pelo qual as pessoas idosas alcançam os seus objectivos individuais em face de perdas simultâneas”. Lupien e Wan, (2004:1421) O terceiro factor, a compensação, acontece quando as capacidades comportamentais de dado indivíduo se perdem ou são reduzidas abaixo do nível necessário ao seu funcionamento adequado, sendo mais sentida em situações mais exigentes em actividade e performance. O modelo fornece estratégias contributivas para um envelhecimento individual de sucesso. O bem-estar e uma visão positiva sobre o envelhecimento são os factores protectores maiores contra os efeitos da idade no organismo. Relativamente ao contributo das ciências sociais, é óbvio que uma abordagem ao envelhecimento feita pelas ciências sociais se centra, naturalmente, na 68 compreensão humana, ou seja, na consciência de nós mesmos e do mundo social em que vivemos. As ciências sociais podem fornecer conhecimentos que nos ajudem a criar um mundo social que melhore as experiências de vida para pessoas de todas as idades. Podemos aprender a aumentar as oportunidades de envelhecer com sucesso e a superar os constrangimentos que limitam tais oportunidades. As ciências sociais fornecem ferramentas úteis para a compreensão do que se chama o envelhecimento societal. Os valores e as tradições culturais precisam de ser compreendidos pois são eles que guiam as nossas prioridades quanto às grandes finalidades da vida, enquanto que o desenvolvimento económico fornece os meios para as conseguir. Os nossos padrões de vida organizam-se por estruturas familiares, padrões regionais e processos migratórios. Os estatutos e papéis sociais, baseados na idade e noutros factores, definem as expectativas de vida, os recursos e as vulnerabilidades nas diferentes sociedades. Como afirma Kending, H., (2003:5): “Não há um processo uniforme de modernização social, pois cada país tem as suas próprias tradições e os seus próprios caminhos de desenvolvimento. Contudo, em todas as culturas, o envelhecimento e a mudança social requerem adaptações individuais e sociais importantes. Os principais pontos de tensão podem ser entre os valores de base e as competências sociais aprendidas na infância, as pressões subsequentes para mudar de uma economia e organização social em transformação, e as diferentes expectativas e interesses das coortes mais jovens.” O género é um factor importante, pois é uma das bases mais significativas da diferença social. A educação, por seu turno, pode conferir oportunidades sociais e económicas substanciais durante toda a vida. As ciências sociais contribuem com conhecimentos muito úteis quando se trata de melhorar as experiências vitais para as pessoas idosas e para as sociedades que envelhecem. 69 2.3.3. Relações, vínculos e legado familiar Entre os factores do ambiente e da vida social com mais impacto no desenvolvimento de uma velhice bem sucedida, destacaremos a família, a que dedicaremos uma atenção detalhada. Com a crise que a instituição familiar atravessa, o que espera os idosos no futuro? A família e as instituições têm o dever de olhar pelos seus idosos, bem como os que dirigem o Estado, como diz o artigo 72 da Constituição Portuguesa: “1º. As pessoas idosas têm o direito à segurança económica e a condições de habitação e convívio familiar e comunitário que respeitem a sua autonomia e evitem e superem o isolamento e a marginalização social. 2º. A política da terceira idade engloba políticas de carácter económico, social e cultural tendentes a proporcionar às pessoas idosas oportunidade de realização pessoal, através de uma participação activa na vida da comunidade”. Porém, sem um apoio familiar efectivo e eficiente, tudo isto não passa do papel e de boas intenções. Por sua vez, o apoio ou abandono recebidos pelo idoso dependem do tipo de família em que está inserido. Começando pela estrutura familiar, verificamos que a diversidade e pluralidade de modelos que se colocam à família actual têm sido fonte de alguma desorientação, concluindo, até, alguns, que a família está morta. Mas não: o que morreram foram determinadas concepções de família, para darem origem a concepções novas, mais democráticas, mais laicas e menos patriarcais, valorizando mais os afectos e a manifestação da sexualidade, mais abertas e flexíveis em dimensões como a programação da natalidade, mas também mais exigentes em termos de valores, de criatividade, de generosidade e abertura nas relações interpessoais. Sendo a família um conjunto estruturado de pessoas em interacção, com uma realidade bem superior à simples soma das suas partes, com limites culturais e critérios agregadores de sangue e sobretudo de afecto, de convivência e de 70 intimidade, a sua tarefa principal é a de manter o equilíbrio entre estabilidade e mudança, em demanda da harmonia de vida possível. O sistema familiar é um sistema aberto e inserido no sistema social. Em construção e modificação contínuas, mas buscando sempre o equilíbrio e a estabilidade interna, interessa nele menos a forma que o fundo. A recente recuperação da família por parte das políticas sociais, inclusivamente nos cuidados a prestar a familiares idosos é algo mais que uma reivindicação da família como unidade básica de convivência, sendo igualmente a recriação de um modelo de organização que se identifica com o lar e com a vida em família. É um modelo que se baseia no reconhecimento e na diferença, que está associado à comunicação do dia-a-dia, às relações intersubjectivas, à construção da intimidade e identidade. A unidade de convivência inclui normalmente duas gerações, mas muitas vezes incluiu três gerações, durante os anos em que pais ou sogros vivem com o casal, devido à impossibilidade (por razões de saúde, de viuvez e outras) em viverem sós. Este facto traz benefícios, resultantes do intercâmbio intergeracional, com reforço das referências e do legado familiar, em especial no tocante à sabedoria e aos afectos, ainda que por vezes também gere alguns conflitos relacionais, devido a deterioração progressiva por doença de foro neurológico ou outro. Outras pessoas que, por vezes, integravam (hoje, cada vez menos) a unidade de convivência dos lares foram as empregadas domésticas, por vezes, elas próprias idosas, que, durante décadas viviam com o casal e filhos praticamente como pessoa de família, como “membro da rede de parentesco anexa informal”. McGoldrick, (1996:61). Nas relações familiares existem vínculos de aproximação como o afecto e alguns sentimentos inerentes, como a confiança, o apoio e a empatia, que contribuem grandemente para a aproximação entre os membros da família. 71 O afecto pode ser definido como “aquilo que manifestamos ou sentimos em relação a um objecto ou situação”, Damásio, (2000:389). “Amor” e “paixão” são realidades dificilmente operacionalizáveis, sendo de preferir, portanto, a palavra “afecto” para nomear esses sentimentos. Há quem opine que o “amor não será uma condição necessária para o casamento ideal, que implicaria uma união livre entre duas pessoas felizes, cujo relacionamento e argumentos fossem complementares e, em última instância, construtivos”. Berne, (1985:200). O afecto é reforçado muitas vezes por um apego seguro; por vezes, o apego transforma-se em sobreprotecção e dependência, podendo propiciar alguma tensão e mesmo conflito entre o casal. O afecto e o apego seguro implicam manifestações de afectos positivos, de protecção, de valorização pessoal, que por vezes passam por manifestações físicas de proximidade (beijos, carícias, conversas, convívio, etc.). A mutualidade é outra emoção positiva, de aproximação, mais madura e “adulta” e mais limitada ao casal, mais duradoura e flexível e também mais adaptativa e construtiva para os membros do casal. Torna-se muito útil em casos de ameaça de distanciamento e desvinculação, de interesses divergentes, pois “parte do reconhecimento da ineficácia dos padrões existentes e busca uma resolução conjunta e negociada que costuma ser muito explícita”, Gimeno, (1999:72). Esta relação de mutualidade é garantia do apoio mútuo, de uma boa definição de papéis e do respeito mútuo entre os membros do casal. Outra relação de aproximação, sobremaneira importante, é a relação de intimidade. Sendo um conceito muito utilizado na linguagem comum, sobretudo como sinónimo de “experiência amorosa”, o termo tornou-se de operacionalização difícil, devido à multiplicidade dos discursos que sobre ele se produzem. “Intimidade” provém do adjectivo “íntimo”, do latim “intimus” (“que está mais no interior”), o que aponta para a “subjectividade e a natureza intrapsíquica da experiência afectiva”. Carvalho, (1999:733). As interpretações individuais e colectivas deste conceito têm variado com as épocas 72 e as culturas e se “o sentimento amoroso é quase eterno ou universal naquilo que ele contém, (...) “as formas e as categorizações próprias do amor dependem dos códigos e da semântica própria de uma época”. (Carvalho, 1999). A intimidade implica partilha do que é interior, através da auto-revelação, da exposição mútua dos estados pessoais, dos sentimentos e dos pensamentos, das esperanças e dos projectos, de toda uma história e filosofia de vida. A partilha é importante na construção da identidade do casal, sendo como um padrão ou uma teia do seu tecido relacional, cujos fios constituintes podem ser a “qualidade de comunicação, os modos de expressão dos sentimentos, a percepção da expressão dos sentimentos, a percepção de empatia, de apoio, da qualidade e quantidade dos tempos livres familiares e sociais e dos tempos livres exclusivos do casal”. Narciso, (2002:54). A intimidade implica apoio emocional, empatia, aceitação e valoração, por cada membro do casal, dos sentimentos do outro, a capacidade de descentração, de escuta activa, tornando-nos mais sensíveis aos sinais verbais e não-verbais reveladores dos sentimentos e desejos do outro, “olhando-se nos olhos e emitindo as indicações silenciosas ao interlocutor de que está a ser ouvido”. Goleman, (2000:288). Implica igualmente confiança mútua, pois “aquele que se descobre, através da autorevelação, fica em situação de vulnerabilidade que apenas é sustentável numa relação de confiança”. Narciso, (2002:55). Esta reflexão e consciencialização da importância das emoções de aproximação na vida do casal podem, sem dúvida, contribuir para o seu melhoramento. Há, também, vínculos de distanciamento nas relações familiares, emoções negativas que afectam a família, e que passam por dificuldades de comunicação com os filhos na sua fase de adolescência, ou com os netos, em certos casos, com sentimentos de incompreensão, com manifestações de inconformismo e até, por vezes de agressividade, ou de rejeição. 73 A existência, no seio de uma família, de certas emoções negativas, como a inveja, o ciúme, o medo, por exemplo, dificilmente se pode impedir. O importante é reconhecer a sua existência, dar-lhes nome, localizá-las para as controlar e não as deixar crescer. Por vezes impõe-se uma terapia familiar e, dentro desta, uma terapia do casal., encarado como um sistema, uma rede interraccional. Tal terapia propõe-se modificar as regras de interacção presentes no casal em questão, sendo o doente encarado “como um dos elos da cadeia interactiva disfuncional de um todo, esse sim perturbado, no qual se assume como portador do sintoma (paciente identificado). (…) A partir dos anos 80 (…) há cada vez mais a tendência para “sair” da família, e considerá-la como um contexto entre outros significativos (…) a escola, a empresa, o bairro. Digamos, então, à laia de conclusão, que, na terapia familiar, se avançou da “despatologização” para a “desfamiliarização”. Relvas, (2002:19-20). Considera-se “legado familiar” tudo o que uma família viveu e experimentou em comum, e que inclui as normas consolidadas, as crenças compartilhadas e também os estilos de vida e de comunicação desenvolvidos ao longo do tempo. De tudo isto resulta um sentido de pertença e de identidade, uma sabedoria, transmitida e depurada com o tempo. Tudo isto pode, ao mesmo tempo, levar uma família a questionar positivamente o seu sistema de crenças e a relativizar as suas “verdades”: “a revisão da história ajuda-nos a distanciarmo-nos emocionalmente dos conflitos herdados e a reconciliarmo-nos com o passado e abre-nos a possibilidade de construir realidades familiares mais conscientes e mais nossas”. Gimeno, (1999:116-117). O “futuro forma parte do presente e dá sentido e significado às nossas actividades quotidianas”. Gimeno, (1999:117). É, porém, no presente que é preciso actuar, reflectindo sobre o passado e relendo nele a nossa própria história familiar, seleccionando dele os elementos úteis e eliminando os inúteis. 80 A maioria dos cuidadores são pessoas casadas, entre os 45 e os 69 anos, com baixo nível de escolaridade e coabitando com o idoso dependente. Os cuidadores, em especial os que cuidam durante muito tempo, sofrem alterações importantes na sua vida familiar e social, económica e laboral, muitas vezes estando sujeitos a cansaço e desgaste físico prolongados, tanto físico como psíquico, problemas de sono e hipertensão, depressão e ansiedade. No que se refere à necessária intervenção sobre os familiares cuidadores, eles próprios necessitados de cuidados, os factores de idade, sexo e raça, grupo étnico, tipo de relações prévias e rede social de apoio existente, terão de ser levados em conta para se definirem as linhas de intervenção, sendo necessário compreender, nesta actuação sobre o indivíduo e sua família, as suas circunstâncias únicas, o seu sistema de crenças e valores. Quaisquer programas de intervenção dirigidos aos prestadores de cuidados a familiares idosos agirão de um modo directo sobre a sua saúde mental, melhorando a sua qualidade de vida e, por consequência, a dos idosos a seu cargo, com benefícios económicos, humanitários e sociais. 2.5. O idoso, uma mais-valia na família; a relação avós - netos e a solidariedade familiar Uma das alegrias da permanência do idoso no seio familiar são os netos e a intervenção dos avós na sua educação, o que é, também, logicamente, acompanhado de responsabilidade, exigindo um mínimo de competências, saúde e abertura. Pode também ser uma fonte de conflitos, que serão rapidamente sanados se os avós não se sobrepuserem, através de críticas, contradições ou de um agir acintosamente contrário às linhas pedagógicas advogadas e estabelecidas pelos pais. Há vários estilos e modos de ser avós, e a sua função e as expectativas a este 81 respeito têm mudado muito ultimamente. De destacar a importância, nalgumas famílias, dos avós como co-responsáveis, juntamente com os pais, pelo inculcar de valores éticos e mesmo religiosos nos netos. A sua presença no lar e na educação dos netos tem sido defendida ou contrariada. Na verdade os avós são, hoje em dia, cada vez mais afastados dos seus netos e filhos. A influência dos avós na educação depende, como veremos, de aspectos tão importantes como a idade, formação e personalidade dos mesmos avós, idade e personalidade dos filhos, bem como do grau de necessidade da ajuda dos avós. O estudo da realidade “ser avô/avó” é recente na investigação dos estudos familiares e leva em linha de conta aspectos de socialização, mas também aspectos de transmissão intergeracional e de mudanças de cariz histórico-cultural na base da geracionalidade. Passou a haver um grande interesse pelos avós, por parte da psicologia do desenvolvimento. Conforme afirma Queirós e Barbosa, (2004:98): “Ser avô/avó representa uma experiência normativa: cerca de 70% dos indivíduos de meia-idade e idosos são avós; a idade média para se tornar avô aproxima-se dos 50 anos para o sexo feminino e de cerca de 52 anos para o sexo masculino; os indivíduos vivem a sua condição de avós numa média de vinte e cinco anos (cerca de um terço da vida).” Pelo que atrás se disse, fácil será concluir que os netos dispõem dos avós pelo menos durante as duas primeiras décadas das suas vidas. Assim o avô/avó representa uma experiência da maior importância, quer ao nível pessoal, pelo seu papel no ciclo de vida, quer pela influência exercida na vida dos seus netos. Há, com efeito, um duplo contributo dos avós no desenvolvimento dos seus netos. Um contributo directo, na sua condição de parceiros interactivos, prestadores de cuidados primários, como companheiros e confidentes, como agentes de apoio emocional, fornecendo aos seus netos toda uma estimulação cognitiva e afectiva e transmitindo-lhes todo um legado familiar. Um contributo indirecto, como origem de apoio material e social aos pais. Aliás, como acentuam Queirós e Barbosa, (2004), a convivência com os avós constitui uma experiência importante e influente na construção do significado e na acção dos 82 netos adultos relativamente aos seus próprios pais e a outros familiares. A distância geográfica tem um importante papel mediador nas relações entre avós e netos, pois os que vivem mais próximos uns dos outros são obviamente os que mantêm uma relação mais próxima. Outro factor a ter em conta é a frequência dos contactos, que está relacionada com a qualidade das interacções avós-netos, pois condiciona a percepção construída dessa relação. Importante papel é também o desempenhado pela saúde e idade dos avós nas características da referida relação. Quanto à natureza dos contactos, o tipo de contacto varia conforme a idade, em especial dos netos, mas o que é certo é que o apoio emocional e a transmissão da história familiar são comuns e contribuem para a manutenção da continuidade. Além disso, os avós podem, por vezes, assumir o papel de pais por variadas razões. No que se refere à combinação entre a linha de descendência dos avós e o grau de proximidade destes na relação com os netos, as autoras referidas afirmam que os avós maternos têm maior proximidade com os netos do que os avós paternos e as avós apresentam maior proximidade com os netos do que os avôs. Daqui que os netos mantenham, como regra geral, uma relação de proximidade maior com as avós maternas; porém, o sexo dos netos pode ser determinante e, se o neto for do sexo masculino, poderá ter uma maior aproximação ao avô. Tudo somado, a opinião prevalecente parece ser a de que a presença dos avós em casa é benéfica e salutar, para uma vantajosa educação e solidariedade familiar intergeracional. Tal solidariedade assume uma componente estrutural, potenciando ou diminuindo a oportunidade de interacção social entre as gerações e tendo entre os seus factores aspectos em parte já referidos, como a distância geográfica, a idade, a saúde, o grau de actividade e o número de netos. Esta solidariedade assume também uma 83 componente associativa, contendo factores como a frequência dos contactos sociais e as actividades partilhadas pelas gerações em confronto. Na sua outra componente, a solidariedade funcional, tal solidariedade contempla o apoio e a assistência entre as gerações, incluindo a assistência e o apoio financeiro e instrumental, bem como o emocional, através, por exemplo, de conselhos e de afecto. Há também, por último, a componente da solidariedade activa, que tem a ver com o grau de proximidade emocional entre as gerações, as percepções de proximidade, e a satisfação com a relação, bem como a mutualidade de sentimentos por parte de cada um. Para Fernandes, (1997:103), faz ainda sentido dizer que a família é o garante da solidariedade necessária aos familiares idosos, pois só uma pequena parte destes vive em instituições, coabitando, na sua esmagadora maioria, de um modo regular ou temporário, com os seus filhos e netos. 2.6. Novos papéis dos idosos na sociedade, animação sócio-cultural e formação de idosos; as universidades da terceira idade Um dos objectivos da gerontologia educativa é o de facultar aos idosos papéis significativos na estrutura social: “a intervenção socioeducativa na velhice procura aumentar os níveis de autonomia pessoal e de pertença social, evitando o distanciamento gradual e progressivo, e a diminuição dos níveis de dependência familiar e social, através do desenvolvimento de novos papéis e funções sociais, como aquelas que derivam da participação social, cultural e educativa.” Martin, (2007:63) Contrariando um pouco a ideia de que os papéis sociais desempenhados pelas pessoas idosas se resumem à produção de serviços religiosos, aos programas de voluntariado ou às interacções entre gerações, ou, ainda mais tradicionalmente, aos papéis de prestação de cuidados a familiares, o que hoje se verifica é que os idosos desempenham, na realidade, outros papéis, activamente, na sociedade em que se incluem. 84 Desde logo, no âmbito familiar, o idoso presta cuidados aos filhos e aos netos, dando o seu tempo a cuidar dos netos, para que os seus filhos o possam utilizar para trabalharem e dando também, muitas vezes, uma ajuda instrumental e financeira, assim assegurando ou promovendo o bem-estar e o equilíbrio emocional na sua família restrita. A promoção social é outro dos papéis que o idoso desempenha hoje em dia, através de um voluntariado sénior para o qual detém hoje mais capacidade e competências, pela sua idade menor e pela sua melhor saúde, bem como melhor formação. Exemplo de promoção social são os programas intergeracionais, propiciando relações de carácter individual, entre duas gerações muitas vezes conflituantes, a dos jovens e a dos idosos: “Os objectivos basilares destes programas são as alterações de atitudes intergeracionais, que estão muitas vezes enviesadas; a promoção e garantia da transmissão de tradições culturais; o encorajamento da colaboração activa entre gerações; a partilha de recursos e a resolução de problemas sociais, como o abandono escolar, abuso de substâncias e vandalismo” (Unesco, 2004). Martin, et al., (2007:212) O trabalho sénior é outro papel social activo desempenhado por idosos. No sector primário, como agricultura e pescas, mais de metade da força de trabalho é constituída por seniores, ao contrário do que sucede no sector dos serviços, em que há discriminação e desincentivação quanto ao trabalho dos seniores, muitas vezes empurrados para uma reforma ou pré-reforma não desejadas, pelo simples facto de que se sentem mais úteis, mais realizados, e mais satisfeitos no activo do que na reforma. Os idosos desempenham cada vez mais papéis na política, quer em campanhas eleitorais, políticas ou partidárias: “A participação cívica é também uma forma de envelhecimento produtivo, uma vez que é uma actividade imbuída de valor social (…). Na verdade, a participação voluntária dos cidadãos é imprescindível para a continuidade da democracia. Deste modo, a participação dos seniores na vida política é considerada um factor essencial para a continuidade do funcionamento político”. Martin, et al., (2007:215) As Universidades da Terceira Idade (UTIs), por sua vez, são o modelo de formação de adultos com mais sucesso no mundo e em Portugal. 85 “Consideramos as Universidade da Terceira Idade (UTIs) como a resposta social que visa criar e dinamizar regularmente actividades sociais, culturais, educacionais e de convívio, preferencialmente para e pelos maiores de 50 anos. Quando existirem actividades educativas será em regime não formal, sem fins de certificação e no contexto da formação ao longo da vida. (…) As UTIs são uma resposta social porque combatem o isolamento e a exclusão social dos mais velhos, principalmente a seguir à reforma; incentivam a participação dos seniores na sociedade; divulgam os direitos e oportunidades que existem para esta população; reduzem o risco de dependência e são um pólo de convívio”. Jacob, (2007:2-4) As UTIs são também um projecto social e de saúde, visando a melhoria da qualidade de vida dos seniores e prevenindo o isolamento e exclusão social. As UTIs pertencem, aliás, ao projecto europeu de formação ao longo da vida (educação permanente), destinada a possibilitar que cidadãos europeus passem livremente de um ambiente de aprendizagem para um emprego ou vice-versa, ou de um país para outro, usando adequadamente as suas competências e qualificações, numa aprendizagem que vai do pré-escolar à pós-reforma, abarcando uma educação formal e/ou não-formal. Existe por parte dos idosos uma demanda da construção de laços de socialização diferentes, com a dispersão da grande família, e a perda dos laços informais de vizinhança, pelo que surgiu a necessidade de se criarem redes sociais alternativas, papel muito bem desempenhado pelas UTIs. As Universidades da Terceira Idade têm por principais objectivos incutir o gosto pela participação e organização dos seniores em actividades culturais, cívicas, de ensino e de lazer, bem como o gosto pela história, tradições, artes, e, de um modo geral, por todos os aspectos sócio-culturais, constituindo-se como um pólo de informação e divulgação de serviços, deveres e direitos dos seniores. Outros objectivos serão ainda o desenvolvimento de relações intergeracionais, de pesquisa sobre os temas gerontológicos e, de um modo geral, a procura da valorização e a integração do idoso”, evitando o seu isolamento e marginalização, a formação da população sénior para a sua inserção social e participação comunitária, contribuindo para um novo modo de viver a terceira idade. A primeira UTI chegou a Portugal em 1976 com a criação da Universidade Internacional da Terceira Idade de Lisboa (UITIL), vindo depois a Universidade 86 Popular do Porto, a Universidade de Lisboa da Terceira Idade (ULTI) e a Universidade do Autodidacta e da Terceira Idade do Porto (UATIP). O número de UTIs no nosso país permaneceu muito reduzido e limitado a Lisboa e ao Porto e foi apenas em fins da década de 90 que se deu uma explosão de UTIs pelo país, com o nascimento de dezenas de novas universidades, devido à consciencialização do papel do idoso e do envelhecimento da população, com a realização de seminários e congressos sobre o tema, como o Ano Internacional da Pessoa Idosa em 1999, bem como uma divulgação mais intensa das UTIs pelos meios de comunicação de massas. A educação permanente, que acompanha o indivíduo durante toda a vida, possibilita ao idoso promover acções de integração, de participação, como cidadão produtivo, nas actividades da sociedade. De destacar, porém, que esta faixa etária apresenta especificidades a ter em conta, obrigando a uma metodologia e uma postura de professor diferenciadas. A educação assume papel de relevo, como condição necessária para permitir ao idoso viver e acompanhar as constantes evoluções da sociedade em constante mudança. Uma educação permanente deve ocorrer através de cursos de actualização em diversas a áreas, mas tendo sempre como público-alvo a terceira idade. Aliás a educação contribui grandemente para a auto-estima, auto-confiança e qualidade de vida desta faixa etária. Os processos educativos, nas sociedades industriais, deveriam, poios, valorizar o capital cultural e as actividades dos idosos. Mas não é isso que, em grande medida, se verifica: “A sociedade se caracteriza pela desigualdade e por conflitos. No sistema capitalista, o trabalho está controlado e organizado pelas classes superiores para proteger seus interesses sócio-económicos, gerando uma alienação das classes inferiores. Os idosos situam-se em uma posição marginal dentro da sociedade capitalista. Esse panorama com relação ao idoso não é exclusividade do capitalismo, essa situação desprivilegiada dos anciãos, referente aos aspectos económicos e sociais, permeia a história da humanidade em muitas sociedades. A educação pode mudar esse contexto desprivilegiado dos idosos e vem, de facto, despontando nessa a realidade social com acções de grande importância para tal segmento da população”. F. & Oliveira, (2002:9) 87 Os programas de formação para idosos não devem ter um cariz assistencialista ou de puro lazer, que corresponde a uma forma subtil de marginalizar e alienar essa faixa da sociedade. Pelo contrário, deve ser privilegiada a aprendizagem, contrariando o estereótipo de que os idosos possuem menor capacidade de aprendizagem e, por outro lado, deve emergir a aprendizagem como conquista, elevando, deste modo, a auto-estima e auto-imagem do idoso. Os programas voltados para a terceira idade dirigem-se a um público heterogénea quanto à escolaridade, mas, para terem bons resultados, devem procurar procedimentos metodológicos adequados, permitindo um entendimento do conteúdo nas diferentes abordagens, pelo que o professor deve relacionar todos os conhecimentos novos e todas as informações apresentadas com o quotidiano, assim despertado o interesse e a percepção da importância dos conteúdos ensinados, sempre respeitando o ritmo do idoso no processo ensino-aprendizagem. O ambiente de leccionação deverá ser alegre e acolhedor, todavia não procurando unicamente manter os idosos ocupados, mas, antes, torná-los produtivos, espicaçando-lhes a criatividade e o desenvolvimento do seu potencial. “Para isso, é papel também do professor propiciar uma participação efectiva dos idosos na sociedade através de serviços voluntários, despertando neles o sentido de utilidade, desenvolvendo-lhes a capacidade crítica e a liberdade de expressão. É importante entender que a idade madura e a velhice são, na vida humana, anos de produtividade, sabedoria e discernimento, para assim se conseguir superar o estigma de que a capacidade de aprendizagem no idoso diminui.” F. & Oliveira, (2002:16) As Universidades da Terceira Idade – UTI - funcionam fora do sistema escolar, mantendo-se fiéis aos princípios básicos da aprendizagem informal. A idade é uma variável, entre outras, que nos leva a considerar que as ofertas das UTI não podem ser uniformes; os seus modelos/projectos divergem de país para país mas também, e, dentro de cada país, de região para região, ajustando-se os seus programas e projectos às condições particulares das populações, muito diferentes entre si, com diversos percursos de vida e experiências. As UTI apareceram na década de 70 em França, propagando-se pelo resto da Europa e chegando, como já foi referido, a Portugal em 1976, muito devido ao facto de se dedicar uma maior atenção ao idoso e à educação ao longo da vida. 88 As causas para a criação das UTIS são variadas, mas a principal é o envelhecimento da população e seus efeitos numa adequada adaptação a novos estilos de vida depois da reforma. As UTI estão espalhadas por todo o território nacional, sobretudo no Norte e no Algarve, exceptuando obviamente as áreas metropolitanas de Lisboa e do Porto. As UTI portuguesas não fazem parte do ensino escolar regular, nem das universidades tradicionais, ainda que possam ter protocolos com elas, seguindo, assim, os princípios básicos do ensino informal, não avaliando nem certificando. Os seus alunos podem escolher cursos livres, da área das humanidades, da sociologia, das línguas estrangeiras, da leitura e escrita criativas, da saúde e das artes (plásticas), bem como das novas tecnologias da informação e da comunicação, com actividades diversas, como ginástica, natação, teatro, canto coral, música e trabalhos manuais. Algumas publicam revistas ou outros tipos de periódicos. “A diversidade de níveis de escolaridade dos alunos que frequentam estas instituições, desde licenciados ou detentores de outros graus académicos a indivíduos que possuem unicamente ou “à peine” a antiga 4.ª classe, condicionará naturalmente os respectivos projectos. Depreende-se, porém, do elenco de ofertas exposto que os alunos das UTI estão tão interessados em aprender como em conviver.” Pinto, (2007:7) Os professores das UTIS são profissionais e auferem ordenados simbólicos, mas na maioria, são voluntários. Algumas UTI são autónomas e outras estão ligadas à Santa Casa da Misericórdia ou a associações, centro paroquiais ou centros sociais, podendo receber apoios da Segurança Social, dos poderes locais, da Igreja ou mesmo de entidades privadas. Da vitalidade das UTI portuguesas atesta a criação, em 1998, da Federação Portuguesa das Universidades, Academias e Associações para a Terceira Idade (FEDUATI). A realidade em Portugal é distinta de outras realidades e é a sociedade civil a responsável pelo que tem sido feito para que a nossa situação actual seja o que é. Na verdade, no nosso país, não foi o Estado, ao contrário do que se terá passado noutros países, que tomou a iniciativa de chamar a si a “educação” dos idosos, 89 criando, por exemplo, programas universitários para essa população nas universidades públicas tradicionais. As universidades privadas também não ofereceram, por seu lado, quaisquer tipos de programas universitários para este público. “Esta atitude da universidade tradicional portuguesa pode encontrar justificação no facto de a partir de 1974, em virtude da situação educacional herdada, se eleger como prioritária a educação das populações mais jovens (…). Por outro lado, o número de idosos em Portugal não era então – nos anos 70 do século XX – significativo ao ponto de levar a accionar com alguma prioridade políticas educativas que tivessem os seniores como público-alvo. No início do século XXI, a situação tornou-se totalmente distinta. O número de aposentados não só aumentou mas também se verificou que a aposentação começou a ser requerida por uma população menos idosa”. Pinto, (2007:9) Além disso, estes aposentados que não apresentem, na sua maioria, uma escolaridade baixa, contando-se, entre eles, licenciados, ou pessoas com habilitações académicas superiores, além de funcionários pertencentes a quadros técnicos. Ora esta população, pelo seu nível de instrução, exige uma resposta de programas para seniores muito mais exigente. Paralelamente, as universidades tradicionais começam a ter que se abrir a públicos novos, em resultado das novas tendências demográficas, e esta recente vaga de aposentados, mais jovens e instruídos, poderão vir a formar um novo tipo de público universitário, demandando uma nova pedagogia e novos programas. Podem distinguir-se três gerações de modelos de programas oferecidos até hoje por estas instituições. A primeira geração, dos anos 60, é a de um modelo de serviços educativos mais da ordem do convívio cultural, tendo como objectivo ocupar os idosos, facilitando-lhes as relações sociais, não oferecendo um ensino e uma formação de nível universitário. A segunda geração, dos anos 70, destinava-se a melhorar o bem-estar mental e a 96 maior dependência das pessoas pelas novas tecnologias. O universo de informações e virtualidade disponibilizada pela Internet seduz cada vez mais a sociedade contemporânea. Os cientistas consideram a tecnologia um conflito moral e a sua aplicabilidade pode causar consequências profundas na humanidade e no planeta. Já os sociólogos vêem o problema pelo aumento da complexidade e velocidade das mudanças que a tecnologia está a originar na sociedade. Determinismo Tecnológico é actualmente a teoria mais popular sobre a relação entre tecnologia e sociedade. Chandler, (2006) refere que: “Os deterministas tecnológicos interpretam a tecnologia em geral e as tecnologias de comunicação em particular, como a base da sociedade no passado, presente e mesmo no futuro. Eles dizem que as tecnologias, tais como a escrita, a impressão, a televisão ou o computador “mudaram a sociedade”. Na sua forma mais extrema, toda a forma da sociedade é encarada como estando determinada pela tecnologia: as novas tecnologias transformam a sociedade a todos os níveis, incluindo as instituições, a interacção social e os indivíduos. No mínimo, uma vasta gama de fenómenos sociais e culturais são vistos como estando marcados pela tecnologia. Os “factores humanos” e as disposições sociais são considerados secundários.” A hipótese radical do Determinismo Tecnológico é talvez extremista mas, o seu radicalismo ajuda a tirar-nos da nossa condescendência e dirigir a nossa atenção para um conjunto de factos e possíveis ligações causais previamente negligenciadas. Da mesma forma que a revolução industrial provocou profundas alterações na sociedade, a revolução das tecnologias de informação e comunicação está a operar transformações ao nível da descentralização da economia, das práticas culturais, redefinição dos métodos de trabalho e na democratização da informação, lazer e consumo, afectando a percepção do homem moderno, impondo a sua presença nas diversas actividades como afirma Dertouzos (1997:153): “Está transformando a maneira de como vivemos, trabalhamos e nos divertimos, como acordamos pela manhã, fazemos compras investimos dinheiro, escolhemos nossos entretenimentos, criamos arte, cuidamos da saúde, educamos os filhos, trabalhamos e participamos ou nos relacionamos com as instituições que nos empregam, vendem algo ou prestam serviços à comunidade.” A sofisticação tecnológica a que assistimos hoje, está gerar uma sociedade de 97 exclusão controlada pela burocracia de 0 e 1 (linguagem digital), num sistema totalitário do software. Só quem domina o software pode apresentar produção ou realizar tarefas básicas para a sua vida diária. Neste contexto será info-excluído todo aquele que não possua competência informacional (information literacy) definido pela American Library Association, como competência que exige das pessoas habilidades de uso do pensamento crítico para localizar, avaliar e usar informação tornando-as aprendizes independentes. Estes novos desafios impostos pela sociedade da informação alicerçada nas novas tecnologias implicam que os cidadãos se apropriem da tecnologia na obtenção e produção da informação. Só que, nem todos possuem meios económicos nem materiais para fazer face a esta nova exigência. Ainda existem aqueles que aquando jovem lhes foi pedido a força dos seus músculos agora, já com a idade avançada vem-se perante uma realidade para a qual já não possuem uma “memória de trabalho” eficaz nem agilidade necessária para enfrentarem as novas exigências do mercado de trabalho. Estes trabalhadores que se encontram a um passo da reforma, bem como aqueles que já nela entraram são uma das franjas da sociedade que mais sente os efeitos perniciosos das tecnologias de informação e comunicação existindo “(…) pouco espaço para os que não estão familiarizados com a informática, para os grupos que não consomem e para os territórios onde a comunicação global não intervém”. Castells, (2005:29). Para além da pouca familiaridade dos idosos com os novos meios de comunicação existe ainda a acrescentar outro obstáculo que abrange não só idosos como as restantes faixas etárias que é a questão da língua de comunicação que, “(…) continua a ser essencialmente o inglês, a língua franca da nossa era. E que (…) duas terças partes das páginas world wide web são em inglês”. Cardoso, et al., (2005:137). O baixo rendimento dos idosos é ainda outro factor discriminatório o qual contribui para a exclusão digital. Pensamos ser tarefa de todos na defesa da democracia e no combate às 98 desigualdades sociais exigir o controlo do cidadão sobre o uso das tecnologias de informação e comunicação. A tomada de decisões neste universo – seja em que contexto for – deve necessariamente levar em consideração os anseios, as necessidades e prioridades dos cidadãos. O impacto dos novos meios de comunicação da sociedade dos saberes e do conhecimento está ligado à possibilidade de uma maior apropriação de quem os usa, seja como indivíduo, como comunidade ou grupo activo. 3.2. A sociedade portuguesa e as TIC Sob o ponto de vista conceptual e linguístico, Sociedade da Informação, Sociedade do Conhecimento, Economia Global, são expressões concebidas no interior do mesmo fenómeno e que, se não recorrem exactamente aos mesmos significados, pertencem, contudo, ao mesmo campo semântico estendido na planície eloquente redentorista da globalização. Nesta perspectiva, Portugal, antes mesmo da apropriação da materialidade abstracta da globalização, personificada na livre circulação do capital financeiro, foise apropriando de projectos e programas recheados de retórica de inclusão que constituem marcos das aspirações da sociedade mundializante. As conclusões dos senhores da nova doutrina compõem alegações que, pela recitação insistente, se vão constituindo em verdades profetizadoras: novo paradigma tecno-económico, liberalizar o comércio, constituir uma nova ordem social, diminuir a exclusão, economia assente na informação, no conhecimento e no aprendizado, evitar que se crie classe de "info-excluídos", alfabetização digital, fluidez em tecnologias de informação e comunicação, aprender a aprender, justiça social e inclusão social como prioridade absoluta, democratização dos processos sociais pelas tecnologias da informação, vencer a clivagem social entre o formal e o informal, igualdade de oportunidades de acesso às novas tecnologias, condição indispensável para a coesão social em Portugal. Estes conceitos preconcebidos tentam espelhar, de uma forma clara, o pensamento 99 simplista que constitui a utopia ambiciosa da sociedade global da informação e que tentam imperceptivelmente contradizer a opinião “esperem pela justiça social, até que sejamos mais ricos”. Stiglitz, (2002:12). Portugal, no seu Livro Verde (1997) para a Sociedade da Informação, expressa as ideias programáticas, bem como as metas e objectivos a atingir para a sua sociedade da informação. Mais recentemente Em Março de 2000, no Conselho Europeu de Lisboa, foi definida uma estratégia para a UE, elegendo o emprego, as reformas económicas e a coesão social como partes integrantes de uma economia baseada no conhecimento. Nesta Cimeira de entre outras foram consagradas as seguintes decisões: • Política para a sociedade da informação - centrada na melhoria da qualidade de vida dos cidadãos em termos de educação, serviços públicos e comércio electrónico – democratização do acesso à Internet e produção de conteúdos que valorizem o património cultural e científico europeu, entre outros; • Política de Investigação e Desenvolvimento (I&D) - criação, até 2001, de uma rede transeuropeia de alta velocidade para as comunicações científicas por via electrónica, interligando institutos de investigação, universidades, bibliotecas científicas, centros científicos e progressivamente escolas. Não obstante o mau desempenho global da UE, o progresso realizado por Portugal desde a integração europeia, embora apoiado com fundos estruturais, não dá sinais de convergência com a UE, apresentando uma das mais baixas capitações do PIB assim como das mais baixas taxas de afectação do PIB a I&D e das mais baixas taxas de investigadores na população activa – os principais objectivos para a sociedade do conhecimento. Existem vários programas implantados e em desenvolvimento para o uso das tecnologias da informação e comunicação na educação, com a introdução de computadores nas escolas do 1º, 2º e 3º Ciclo do Ensino Básico e Secundário, bem como o acesso à Internet e mais recentemente em banda larga (ADSL). Ao nível do Ensino Superior, criam-se parcerias com universidades estrangeiras na 100 produção e difusão de conteúdos digitais e multimédia, dão-se os primeiros passos no e-learning, reforça-se o acesso à informação através de redes wireless. Na cultura, intensifica-se a criação de Redes de Leitura Pública, Teatros, Museus e Arquivos. Mas estamos ainda muito atrasados na outra dimensão essencial das redes, como articulação dos equipamentos e serviços e dos seus programas. Alguns ministérios têm vindo a disponibilizar uma série de serviços informatizados que antes requeriam, em geral, longas vias burocráticas de dificuldades variadas: • Cartão comum do cidadão, reunindo as informações de identificação civil, do contribuinte, do utente de saúde, do eleitor e todas as demais que possam ser associadas nos termos constitucionais; • Documento único automóvel, reunindo o registo automóvel e as informações da Direcção-Geral de Viação; • Informação Predial única, reconciliando e condensando sistematicamente a realidade factual da propriedade imobiliária com o registo predial, as inscrições matriciais e as informações cadastrais; • Extinção das circunscrições e competências territoriais, nomeadamente em matéria de registos, tendo em conta a desmaterialização e a informatização de procedimentos; • Portal da Justiça na Internet, permitindo-se o acesso ao processo judicial digital e a serviços on-line; • Número Telefónico Nacional e Call-center da Segurança Social, através do qual os cidadãos poderão ver esclarecidas as suas dúvidas, e minimizadas as deslocações desnecessárias aos serviços. Existe, no país, uma grande quantidade de fornecedores de acesso à Internet e aos seus conteúdos através de ligação por cabo ou via satélite e um sistema bancário altamente informatizado bem como uma ampla disseminação de telemóveis, hoje utensílio indispensável ao cidadão/empresa. Tudo isto é factor de inclusão de Portugal no mundo digitalizado da informação e da comunicação, o que nos leva a perguntar: Então, Portugal está dentro? Está dentro 101 e fora ao mesmo tempo. É incluído pela modernidade dos programas e pela ambição das metas a atingir, sustentado em representações de pós-modernismo que tão bem decora e reproduz. É excluído, contudo, quando se apuram os resultados alcançados e se verifica um pequeno avanço social no domínio das tecnologias da informação e comunicação até ao momento. Conforme se pode verificar pelo estudo do Instituto Nacional de Estatística (INE)4, com a colaboração da UMIC - Unidade de Missão Inovação e Conhecimento, apresentado recentemente os resultados do Inquérito à Utilização de Tecnologias da Informação e da Comunicação nas Famílias. Os resultados do inquérito sobre a utilização das TIC (Tecnologias de Informação e Comunicação), dos agregados domésticos portugueses mostram o seguinte: • Uma predominância da televisão/Telemóvel/Telefone fixo/Leitor portátil de áudio e que só possuem computador 48% (ver Tabela 3.2.1); 4 Dados estatísticos actualizados sobre a Sociedade da Informação em Portugal 2007. Esta compilação, preparada sob coordenação da UMIC – Agência para a Sociedade do Conhecimento, IP e em colaboração com o INE – Instituto Nacional de Estatística, no âmbito do Conselho Superior de Estatística, apresenta as principais estatísticas na área da Sociedade da Informação produzidas pelas seguintes entidades: UMIC – Agência para a Sociedade do Conhecimento, IP, INE – Instituto Nacional de Estatística, ICP-ANACOM – Autoridade Nacional de Comunicações, Gabinete de Estatística e Planeamento da Educação (GEPE) do Ministério da Educação, Direcção de Serviços de Informação Estatística em Ensino Superior (DSIEES) do Gabinete de Planeamento, Estratégia, Avaliação e Relações Internacionais (GPEARI) do Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior. 102 Tabela 3.2.1 - Agregados domésticos que possuem TIC (16 e os 74 anos) 2002 2003 2004 2005 2006 2007 Televisão 87 99 99 99 100 99 Telemóvel 69 80 79 83 86 87 Telefone (operador fixo) x x 75 74 71 71 Computador 27 38 41 42 45 48 Desktop 26 x x 39 40 41 Consola de jogos x x 14 19 18 20 Computador portátil 3 x x 12 15 20 Leitor de áudio digital x x x x x 71 Palmtop 0 2 2 1 2 3 Fonte: INE/UMIC – (x Dado não disponível) • Dos 46% (ver Tabela 3.2.2) de indivíduos com idade entre os 16 e os 74 anos que utilizam computador só 6% das pessoas entre os 65 e 74 anos é que utilizam computador (ver Tabela 3.2.3); Tabela 3.2.2 - Utilizadores de computador 2002 2003 2004 2005 2006 2007 Utilizadores de computador 27 36 37 40 42 46 Fonte: INE/UMIC Tabela 3.2.3 - Utilizadores de computador, por escalão etário (%) Idade 2002 2003 2004 2005 2006 2007 16-24 55 71 73 78 83 90 25-34 40 51 54 57 63 66 35-44 28 36 38 42 44 49 45-54 19 28 29 30 32 33 55-64 8 13 13 15 17 21 65-74 3 4 4 3 4 6 Fonte: INE/UMIC • Ao nível da escolaridade existe um fraco nível de utilização por pessoas com o 3º Ciclo (38%), subindo este valor para 88% com o nível Secundário e 94% para aqueles que possuem Ensino Superior (ver Tabela 3.2.4); 103 Tabela 3.2.4 - Utilizadores de computador, por nível de escolaridade (%) Nível de Ensino 2002 2003 2004 2005 2006 2007 Até ao 3.º ciclo 15 22 22 24 27 30 Ensino secundário 72 81 83 86 87 88 Ensino superior 82 90 92 90 91 94 Fonte: INE/UMIC • A utilização da Internet é preponderante das camadas mais jovens com valores de 85%, verificando-se uma diminuição aconselhável nos escalões etárias seguintes, reduzindo-se para uns míseros 4% para pessoas com mais de 65 anos (ver Tabela 3.2.5); Tabela 3.2.5 - Utilizadores de Internet, por escalão etário Idade 2002 2003 2004 2005 2006 2007 16-24 43 56 64 70 75 85 25-34 30 37 43 46 54 58 35-44 18 22 30 34 36 41 45-54 12 18 20 21 24 26 55-64 4 7 8 10 12 17 65-74 1 1 2 2 3 4 Fonte: INE/UMIC • Comparando utilizadores de computador ao nível da União Europeia verificase que Portugal se encontra muito próximo do fim da lista. Tabela 3.2.6 - Utilizadores de computador, na União Europeia 2002 2003 2004 2005 2006 2007 UE27 x x 52 58 59 63 UE25 x x 55 58 61 65 UE15 51 56 58 62 63 67 Suécia 76 81 86 84 87 88 Países Baixos 73 x x 83 84 87 Dinamarca 72 78 81 83 86 84 Finlândia 74 73 75 76 80 81 Luxemburgo 50 61 74 77 76 80 Alemanha 63 66 70 73 76 78 Reino Unido 67 68 69 72 73 78 Áustria 48 56 60 63 68 73 Bélgica x x x x 67 70 França x x x x 55 69 Estónia x x 53 60 62 65 Eslováquia x x 58 63 61 64 Irlanda x 40 41 44 58 62 Eslovénia x x 48 52 57 58 104 2002 2003 2004 2005 2006 2007 Hungria x x 41 42 54 58 Letónia x x 41 47 53 58 Espanha 20 46 49 52 54 57 República Checa x 38 42 42 52 55 Polónia x x 40 45 48 52 Lituânia 28 36 37 42 47 52 Chipre x x 42 41 44 47 Portugal 27 36 37 40 42 46 Itália 37 40 39 41 43 43 Grécia 24 26 26 29 38 40 Bulgária x x 23 x 30 35 Roménia x x 16 x 30 34 Fonte: EUROSTAT - Survey on ICT Usage in Households and by Individuals 2002 - 2007. Portugal no seu Livro Verde chama a atenção para “(…) o risco de as tecnologias da informação contribuírem para reforçar o poder dos mais fortes e enfraquecer aqueles que já se encontram numa posição debilitada”, o que em nosso entender se tem vindo a verificar, conforme se pode ler nos dados das tabelas acima representadas. A expressão exclusão social: “É hoje uma expressão de uso generalizado, embora não esteja seguro de que todos quantos a utilizam tenham a ideia clara do que significa. (…) a Comissão Europeia, por razões científicas discutíveis e razões políticas compreensivas, (…) pretendeu que a expressão substituísse o termo e noção de pobreza (…) e designou por exclusão social não apenas a fase terminal de um processo, mas o próprio processo de marginalização.” Costa, (2002:9-10) Para desagrado nosso, verificamos que as desigualdades sociais se têm vindo a agravar-se no nosso país, como refere o Presidente da República, Aníbal Cavaco Silva, Portugal é “identificado como uma sociedade de profundas desigualdades sociais” no qual as “situações de pobreza e exclusão social que ainda abundam no país e que a todos devem envergonhar”. Cavaco Silva dissertou igualmente sobre o envelhecimento associado à pressão para a inactividade precoce, em especial a resultante do “recurso a reformas antecipadas ou desemprego de milhares de trabalhadores que não são muito novos para serem aposentados, mas já demasiado idosos para retomarem uma actividade profissional”. 105 3.3. A família, o idoso e as novas tecnologias de informação e comunicação É conhecido o impacto das novas tecnologias na vida e relações familiares, que inclui perigos, mas também novas oportunidades. Á medida que os computadores e os telefones móveis ficam mais baratos e que muitas famílias se deslocam on-line, podemos perguntar-nos de que modo a tecnologia está a dar forma à vida familiar e de que modo as famílias estão, por seu turno, a dar forma ao uso da tecnologia. Entre os temas-chave a este respeito, podemos referir a melhoria da comunicação e das relações familiares, por exemplo através da Internet, cujo exemplo máximo é talvez o das famílias migrantes, que beneficiam por estarem separadas geograficamente. Quanto aos perigos, os elementos mais velhos da família devem alertar os mais novos para a necessidade de usarem a Internet e a televisão de um modo crítico e encontrarem um equilíbrio entre o uso do computador e as outras actividades. Outro tema chave é a preocupação de que as famílias que não têm condições económicas para comprarem um computador ou acesso à Internet, fiquem para trás, relativamente às famílias que as têm, no que se refere a competências e conhecimentos computacionais, ficando marginalizadas numa sociedade cada vez mais digital. Quanto à cibersegurança, outro tema candente, há quem afirme que se pode proteger os mais novos de conteúdos ofensivos, colocando os computadores em locais públicos e monitorizando o uso da Internet, mas, acima de tudo, discutindo em família o uso apropriado da Internet, papel em que os mais velhos têm, pela sua experiência e exemplo, um papel poderoso. O mesmo se pode aplicar ao uso dos jogos pela Internet, que devem ser apropriados para cada grupo etário. O computador é, também, um elemento compensador para os adultos dependentes. A utilização do computador traz benefícios adaptativos aos idosos fragilizados pela doença, mas tentando manter 112 padrões, factores que devem ser tidos em conta quando os idosos usam os computadores e outras tecnologias. O ratio da sensibilidade binocular para a sensibilidade monocular para o olho em melhores condições é mais baixo nas pessoas idosas que nas mais novas; pelo contrário, não se encontraram diferenças com a idade na visão estereotípica. Há também uma perda, devida à idade, da sensibilidade e descriminação da cor, talvez devida à perda, com a idade, de foto-receptores na retina Kraft e Werner (1999:223-230). Baltes & Lindenberger, (1997:12-21), encontraram uma relação forte entre a acuidade visual, os limiares auditivos de tons puros e várias medidas de funcionamento intelectual, sendo as correlações maiores nos adultos mais velhos, mas igualmente positivas e significativas em grupos mais jovens, o que, segundo esses autores, reflecte um padrão comum de envelhecimento do cérebro afectando esses vários tipos de medidas. Para, em parte, compensar estas dificuldades são apontados vários factores compensatórios por van de Watering, como conjuntos de instruções de design para interfaces, incluindo websites, recomendações sobre cores, tipos, navegação, som, conteúdo, layout e estilo. Recomenda-se que se proporcionem alternativas textuais para todo o conteúdo sem texto, que se usem amplas áreas de espaço em branco e pequenos blocos de texto, ou que se maximise o contraste entre as cores do primeiro plano e do plano de fundo. No que respeita à audição, a patologia conhecida por prebiacusia está intimamente ligada ao envelhecimento. Nela há que distinguir a de tipo sensorial, afectando as tonalidades agudas, que, se atingir as frequências da linguagem falada, pode afectar muito a compreensão linguística. Há também a de tipo nervoso, que afecta a discriminação das frequências globalmente, alterando dramaticamente a compreensão linguística, e a de tipo 113 metabólico, menos problemática, pois gera uma perda de audição média, sem distorção. Por último, existe a presbiacusia mecânica, com perda de audição em todas as frequências e bem corrigida com aparelho auditivo. Alguns estudos sobre o declínio auditivo, referidos em Fraquelli, (2008:22), dizem que há uma diminuição do poder da audição, com a idade em ambos os sexos, mais acentuada nas frequências agudas. O zumbido é frequente a partir dos 60 anos. Há também, relacionadas com o envelhecimento, perturbações de integração central, isto é, de fusão das informações recolhidas em separado por cada ouvido, bem como perturbações associadas com zumbidos e silvos, devidos a alterações timpânicas ou do ouvido médio e interno e, mais perturbadoras, as vertigens, devido a modificações, ligadas à idade, do sistema vestibular. Os estudos comportamentais e electrofisiológicos são elucidativos quanto aos problemas das pessoas idosas, cuja maior queixa referente à comunicação é a dificuldade em entender o discurso, especialmente em meios de audição/escuta degradados. A causa é em grande parte uma perda de sensibilidade relacionada com a idade, mas os défices na capacidade de processamento auditiva central e o declínio cognitivo actuam em conjunto para diminuir a compreensão do discurso em situações do quotidiano. Além disso, existem grandes variações individuais e diferenças de género nestas mudanças, relacionadas com a idade, na sensibilidade auditiva, nas reacções às perdas de audição e nos problemas de compreensão do discurso. O certo é que os problemas da audição são “o mais frequente tipo de afecção relatado por indivíduos com 65 ou mais anos. (…) Idosos com problemas de audição ligeiros a moderados referem um impacto substancial na comunicação em situações sociais e uma reacção emocional significativa como resultado das dificuldades de comunicação”, Fozard, & Gordon-Salant, (2001:251). 114 A presbiacusia, perda de audição devida aos efeitos da idade, já referida, não se distingue da perda de audição devida a factores hereditários, à exposição a ruídos, a processos patológicos, à ototoxicidade e a outros aspectos exógenos, pelo que os resultados encontrados reflectem efeitos cumulativos da idade e destes outros factores. As mudanças devidas à idade mais bem documentadas são as do ouvido interno e nervo auditivo, por exemplo uma perda de células ciliadas internas e externas e de células de suporte no giro basal da cóclea, o que reduz a transmissão neural aferente dos sinais de alta frequência (no caso das internas) e o feedback activo, com perda de audição e selectividade de frequências limitada (no caso das externas). Também a população de neurónios do nervo auditivo é marcadamente reduzida nos idosos, reduzindo a transmissão aferente dos sinais acústicos e afectando a selectividade de frequências e a resolução temporal. No que se refere ao sistema nervoso auditivo central, o seu envelhecimento caracteriza-se por uma redução no número de neurónios em cada núcleo do tronco cerebral auditivo, um dramático declínio na população neuronal do córtex auditivo, afectando o processamento dos estímulos acústicos complexos. Quanto à percepção do discurso com ruído de fundo, foi demonstrado que os mais velhos tinham piores resultados em testes de reconhecimento de palavras monossilábicas, em especial os homens. É claro que o reconhecimento do discurso pelo idoso com mais ou menos problemas de audição ou de ruído de fundo ou de interrupções temporais, é reduzido ou aumentado pela ausência ou pela presença de factores cognitivos coadjuvantes, como pistas linguísticas, semânticas ou contextuais, que interferem com a sua memória, em especial com a memória de trabalho, tão afectada pela idade. GordonSalant & Fitzgibbons, (1997:423-431). No que respeita às relações entre os défices auditivos e a manipulação das tecnologias, e uma vez que, como referimos, as maiores dificuldades dizem respeito 115 aos sons de maior frequência (mais agudos), no design de um interface ou de um website destinado a idosos, quando se usa o som, este deve ser em zonas de frequências mais baixas que o habitual. No aspecto motor, há igualmente mudanças devido à idade, como uma lentificação dos movimentos, postura mais flectida, patologias ósseas, como a artrite, perda de força e de resistência, de equilíbrio e coordenação de movimentos, e até aparecimento de movimentos involuntários e tremuras, num quadro geral de declínio do tempo de reacção e do rigor de movimentos. Todas estas mudanças nas habilidades motoras do idoso afectam o modo como usa o computador, pelo que as mudanças acima referidas devem ser tidas em conta quando se trata de conceber adaptações no uso dos computadores por pessoas de idade. Van de Watering, refere algumas adaptações: 1. Remover, sempre que possível, a necessidade de executar tarefas complexas usando o rato, apresentar alvos mais amplos e remover menus. 2. Apresentar opções de ajuste de alvos, como, por exemplo, usar uma “bacia atractiva” (“attractive basin”), que consiste numa região circular em volta do alvo do ecrã, que obriga o cursor a ficar sujeito a uma força que o puxa para o centro, deste modo ajudando os utilizadores idosos com movimentos involuntários. 3. Apresentar dispositivos de input modificados, usando a tecnologia de forcefeedback para ajudar os utilizadores idosos com grandes problemas de movimento. 4.2. Dificuldades a nível cognitivo Em muitos trabalhos sobre a “terceira idade” tem havido o pressuposto que esta fase é um tempo de perdas, de cada vez pior funcionamento, de regressão, dependência, fragilidade e declínio. 116 Porém, as recentes descobertas em investigação gerontológica sugerem ser o envelhecimento uma experiência mais positiva do que o que se acreditava, e com menor taxa de doença e depressão : “A investigação gerontológica tem vindo a dissipar os estereótipos do idoso enquanto ser frágil, dependente, pobre, assexuado, esquecido e infantil e, só mais recentemenmte, tem contribuído para a descrição do que é o adulto na maturidade tardia”. Lima, (2006:9) No campo da cognição, o idoso conserva ou, sofre um ligeiro declínio na eficiência verbal e na inteligência cristalizada, mas tem um acentuado declínio nas suas funções perceptivo-espaciais (com velocidade de realização reduzida) e na inteligência fluida, tudo se somando numa diminuição da eficiência cognitiva global, em parte devido à lentificação do processo de informação e resposta. Como explicações para este declínio da inteligência destaca-se a chamada teoria do desuso, ou não utilização das competências cognitivas que em anos anteriores era normalmente usada, bem como uma maior lentidão no funcionamento mental por problemas neurológicos, também ligados à atenção e concentração. Também no campo da linguagem há perdas, relacionadas com o referido declínio auditivo e visual (dificultando a audição e a leitura) e uma perda da motivação: “O idoso, particularmente quando a saúde está debilitada, contacta menos com o mundo exterior, perdendo desempenho na linguagem. As limitações na linguagem oral e escrita podem dever-se outrossim a alterações da inteligência (fluida), por sua vez muito relacionadas com o estado neuronal do sujeito; mas também são devidas a menor motivação”. Oliveira, (2005:52) Oliveira, (2005:43-44), identifica “uma série de factores susceptíveis de reduzir o risco de um declínio cognitivo precoce, como não sofrer afecções cardiovasculares ou doenças crónicas, ter tido um alto nível de escolaridade, continuar a participar em actividades intelectuais estimulantes, treinar a flexibilidade, considerar-se satisfeito com o passado.” A cognição ou a interpretação de informações recebidas pelos idosos também sofrem com a idade e, mesmo no envelhecimento normal, há a percepção de declínio na habilidade em adquirir e recordar informações. 117 Entre as características do declínio cognitivo da memória podemos salientar, com Fraquelli, (2008:25), “a capacidade de armazenar informações apreendidas recentemente e a capacidade de lembrar-se de factos distantes”. Por causa deste declínio cognitivo, os idosos, segundo a mesma autora, “podem apresentar dificuldades no desempenho em actividades que exijam iniciativa, planeamento e avaliação de comportamentos complexos.” O envelhecimento afecta todas as formas de memória, como refere Backman, L. et al., (2001:349). Desde logo a memória episódica (responsável pela aquisição e recordação da informação adquirida num dado tempo e lugar, e cujo declínio começa muito antes da velhice, e de um modo lento e contínuo). Afecta também a memória não episódica, quer a semântica (ligada ao significado de palavras e símbolos, organizada hierarquicamente e que permanece, normalmente, bem conservada até avançada idade, no que respeita a estrutura, ainda que com problemas de acesso rápido à informação lexical), quer ainda a memória de curto prazo. Esta última é formada, não só pela memória primária - retendo a informação na consciência e pouco afectada pelo envelhecimento – como pela memória de trabalho – que processa a informação ao mesmo tempo que mantém a um nível consciente outra informação, juntamente com objectivos e estratégias importantes para a tarefa a executarem, e que é muito afectada pelo envelhecimento. A memória processual, responsável pela aquisição de habilidades e outros aspectos menos conscientes do conhecimento, motores, perceptivos e cognitivos, é pouco influenciada pelo envelhecimento. Ligada à memória e também afectada pela idade está a capacidade de aprendizagem; as duas são as principais responsáveis pelas dificuldades sentidas pelos idosos no uso dos computadores. Especialmente afectada pela idade está a chamada “memória fluida”, responsável 118 pelo solucionar dos problemas cujas soluções não decorrem de treino formal ou de práticas culturais e que é justamente o tipo de memória necessário à aprendizagem da utilização dos computadores. As dificuldades que os idosos demonstram em reconstituir e percorrer (navegar) uma rota ou itinerário são do mesmo género das habilidades de navegação necessárias ao uso da Internet. No entanto, seguindo ainda van de Watering, (2001), os idosos usam estratégias de compensação adquiridas pela experiência, como: 1. Uso de um modelo mental relacionado com outro tipo de tecnologia que o idoso domina. Por exemplo, quando usa um computador, o idoso pode pensar num gravador vídeo, ou quando precisa de se lembrar de uma sequência de acções, escreve-as num papel, o que pode levar algum tempo, mas tem bons resultados. 2. No caso de afecções da memória de trabalho, há que trabalhar com maior lentidão e um tanto aleatoriamente, sem grandes possibilidades de armazenar conclusões num modelo mental. Não obstante, os idosos com problemas na memória de trabalho ainda são capazes de aprender, utilizando um outro tipo de interacção e aspectos da cognição menos sujeitos a serem afectados pelo envelhecimento. 3. Cursos de aprendizagem on line são outra possibilidade de aprendizagem para idosos, sobretudo se, na aquisição de habilidades computacionais, se misturarem utilizadores jovens e idosos. 4. Os jogos de computador, são um exemplo de como o uso do computador eleva o nível da capacidade cognitiva e motora dos idosos. Além de serem uma actividade de recreio, está demonstrado que jogar estes jogos tem efeitos positivos no processamento da informação, na leitura, na compreensão e na memória, contribuído, também, para um mais rápido tempo de reacção, aumento 119 do alcance da atenção e da coordenação mão-olho, tudo isto consistindo numa importante ajuda para o quotidiano das pessoas. Estes jogos devem, logicamente, obedecer a certas condições, como aspectos visuais, feedback imediato, para estimular as capacidades de aprendizagem, sendo seleccionados com base em tais requisitos e nos efeitos com eles desejados. Outro conceito importante na cognição humana é a atenção, que, segundo Rogers, & Fisk, (2001:267): “é um constructo multidimensional que envolve processos que focam, seleccionam, dividem, sustêm e inibem”. Os seus três principais componentes são a selecção, a vigilância e o controle. Foram observados défices devidos à idade na atenção sustida e na atenção selectiva. Esta última consiste em dois processos: retenção de informação relevante e inibição de informação irrelevante. Os adultos idosos são menos aptos que os mais novos em tarefas de atenção selectiva, bem como em processos de inibição. No que se refere à vigilância, também chamada atenção sustida, e que implica a manutenção da atenção ao longo do tempo, o seu declínio com a idade depende das características da tarefa, dos objectivos do indivíduo e da natureza dos estímulos. Relativamente ao controle da atenção, ou seja à capacidade de o indivíduo focar, mudar e dividir a sua atenção, há perdas com a idade, sobretudo para tarefas mais exigentes. Quando se concebe e desenha web sites acessíveis a utilizadores idosos, devem tomar-se em linha de conta todas as capacidades e limitações no campo da atenção e atrás referidas. 120 Rogers, & Fisk, (2001:281), fazem as recomendações seguintes no que se refere a compensações para declínios, devidos à idade, da atenção selectiva: 1. Não colocar fundos padronizados por detrás do texto. 2. Evitar todos os gráficos e toda a animação desnecessários. 3. Limitar o conjunto da informação que se apresenta por página. 4. Evitar usar menus que surgem inesperadamente (“pop-up menus”) e listas recobrindo outros elementos da interface. 5. Utilizar idênticos links names, tipos e gráficos para todos os links da mesma página. 6. Marcar todos os links com um sublinhado ou outro dado convencional. 4.3. Dificuldades emocionais e psicossociais Segundo Lima, (2006:16), “Emocionalmente, os estudos indicam que os adultos mais velhos tendem a tornar-se menos impulsivos e menos afectados pela ansiedade, com maior riqueza afectiva e com reacções mais profundas aos acontecimentos e com maior controlo emocional”. Ao nível da personalidade, há maior estabilidade na idade adulta avançada. Há também potencial para um maior autoconhecimento. Mas existem, também os aspectos negativos típicos desta fase da vida. O sentimento de solidão, os estados depressivos, as tendências suicidas, as doenças mentais próprias da terceira idade, como a doença de Alzheimer, assim como toda a espécie de abusos e maus tratos a que o idoso está sujeito, quer na sociedade, quer na própria família, representam, em si mesmas, motivos de ordem sócio-emocional que podem excluir o idoso do acesso às novas tecnologias, pelas mesmas razões que o excluem do acesso a novos conhecimentos, novas relações sociais e novos empreendimentos. Sabe-se, também, que a solidão é um dos problemas mais graves entre idosos. 121 Para Gierveld, (2001), há uma íntima relação entre solidão e as características do curso vital dos indivíduos, como a história matrimonial, a composição do agregado familiar, o estado de saúde prévio e actual, o substracto etnocultural e o sexo. No respeitante às diferenças entre os sexos, os artigos de Gierveld, (2001), são unânimes ao afirmar que há, no que respeita à solidão, pouca diferença entre os sexos no seu primeiro casamento; porém, as diferenças surgem entre os que se encontram numa segunda ou terceira relação: aqui a solidão é maior entre as mulheres. Entre os não casados há igualmente diferenças de solidão conforme o sexo, com um maior peso nos homens que nas mulheres. No que se refere à relação entre situação geográfica e solidão, foram encontrados maiores níveis de solidão nas cidades do norte da Europa e menores níveis na Europa rural do sul. A solidão é dada como principal responsável pelos males físicos e psíquicos do idoso (estados depressivos, suicidários, regressivos, demenciais, de desnutrição, por exemplo). Há, porém, que distinguir “isolamento”, isto é, situação de separação física, de “solidão”, ou seja, o sentimento de se estar separado dos outros. Enquanto o isolamento é, por vezes, procurado como ocasião de reflexão e reencontro, a solidão relacional é sinónimo de inquietação e angústia. Consequentemente, uma intervenção sobre o isolamento não garante uma modificação do sentimento de solidão. O essencial é encontrar o factor gerador da descompensação. É que cada pessoa reage à sua maneira à situação de viver só, desde a serenidade e optimismo ao sofrimento e à depressão. Como factores precipitantes de sofrimento face ao isolamento podem citar-se o estado de celibatário, de viuvez e de luto em geral, de doença ou incapacidade, de localização domiciliária de difícil acesso, bem como um baixo nível sociocultural. 128 cada vez menos e de diferente natureza. O idoso tem medo do computador, de fazer experiências com ele, inicialmente porque receia estragá-lo e, mais tarde, porque teme dar erros que depois não saiba corrigir. Mas também esse sentimento muda, à medida que os erros se tornam menos frequentes e mais típicos. No entanto, também se verifica que as diferenças devidas à idade, no que se refere às atitudes sobre os computadores, são pequenas e que os efeitos do treino e da experiência de pesquisa são positivos e semelhantes para velhos e jovens: com um breve treino, bem concebido, os idosos aprendizes tem bons resultados Nas suas pesquisas na Web têm, além disso, atitudes e reacções positivas às suas experiências com a Web. A natureza da experiência que o idoso teve com o computador tem grande impacto na mudança de atitude. De um modo geral, pode afirmar-se que os idosos encaram as conquistas tecnológicas a uma luz positiva, na medida em que acreditam que essas conquistas lhes vão conferir uma melhor qualidade de vida, a eles e à sociedade em que se inserem. Isto está relacionado com a crença de que é possível que o idoso adopte as habilidades especializadas necessárias para que utilize as novas tecnologias. Também se verifica que a maioria dos idosos tem desejo de aprender tais habilidades, ainda que ainda não tenha iniciado o processo de aprendizagem. A atitude dos idosos sobre a tecnologia avançada é, portanto, muito afectada, pela positiva, pelo seu uso do computador. Esta atitude positiva em relação à tecnologia, reflectida no conforto e na vontade em experimentar, tem como preditores, além do uso do computador, a capacidade auditiva, e é relativamente insensível a variáveis como a idade, sexo, educação, rendimentos, etc. 129 Na verdade, o nível de conforto ao usar objectos tecnológicos, como o telemóvel, sistema de automação e de monitorização de saúde no domicílio e outros, é muito maior entre os idosos que usam o computador. O mesmo de pode dizer para a atitude positiva ou vontade de experimentar as tecnologias, muito maior também entre idosos que usam o computador. A explicação para o facto parece ser a de que aqueles idosos interessados em tecnologia usam mais o computador, mas também o uso do computador lhes dá a sensação de um domínio inicial da tecnologia que os abre para o uso de outros aparelhos de alta tecnologia. O certo é que, uma frequência voluntária num curso básico de computadores predispõe o idoso para atitudes mais positivas. Independentemente da população idosa como um todo, os idosos mais desejosos de aprender assumirão, logicamente, atitudes positivas para com as tecnologias informáticas. Para que a sua aprendizagem tenha sucesso, é preciso que os idosos não sejam tratados como principiantes mais jovens e muito menos comparados com eles em tarefas computacionais específicas. É que, um ingrediente fundamental para uma aprendizagem de sucesso por parte de alunos seniores é uma experiência inicial positiva com os computadores, para combater a chamada alienação tecnológica, o que, em parte, se consegue com um curso especialmente concebido para idosos, destinado a ensinar os conceitos e as manipulações básicas. 130 CAPÍTULO 5 - Um meio de acesso do idoso às novas tecnologias: a percepção de auto-eficácia 5.1. História e definição A auto-eficácia tem uma história curta, mas um longo passado, pois ela insere-se numa já longa tradição de teorias de competência, eficácia pessoal e seu impacto na adaptação e bem-estar psicológico. Como nos diz Faria & Simões, (2002:179): “É de salientar que o estudo das variáveis ligadas ao self sofreu um enorme desenvolvimento na década de 60, depois de Allport ter afirmado que um dos acontecimentos mais estranhos na história da Psicologia era o modo como o self havia sido ignorado até então”. Em 1977 introduziu Bandura o constrtucto denominado auto-eficácia na investigação em Psicologia, com o ser estudo Self-efficacy: toward a unifying theory of behavioural change. Em 1988, Bandura re-situou o conceito de auto-eficácia numa teoria sociocognitiva do comportamento humano, conceptualizando a abordagem do self numa teoria mais ampla que a anteriormente exposta, na qual assume que somos capazes de moldar os ambientes em que vivemos pela auto-reflexão e auto-regulação, não sendo meros agentes autónomos ou transmissores mecânicos das influências ambientais. Em 1997, em Self-efficacy: the exercise of control, o mesmo autor engloba a autoeficácia em toda uma teoria de acção pessoal e colectiva, operando, conjuntamente com outros aspectos sociocognitivos, na regulação e na promoção do bem-estar. É dentro deste último quadro conceptual que se têm realizado as mais diversas investigações em ciências como a psicologia, educação, medicina e desporto. Contrariando, até certo ponto, a convicção generalizada, para as ciências psicológicas e do comportamento, de que as diferenças do desempenho entre os 131 indivíduos eram função directamente proporcional dos estímulos do meio ambiente, bem como das diferentes capacidades individuais, a psicologia actual reconhece que as realizações comportamentais não reflectem unicamente os estímulos externos, as capacidades e a vontade de cada pessoa, mas são mediadas pela sua cognição, pela avaliação que faz das sua próprias capacidades, ou seja, pelas crenças ou expectativas de auto-eficácia por ela nutridas. Para uma melhor compreensão da cognição, da emoção e da acção do homem muito contribuiu a teoria social cognitiva de Bandura e isto muito devido à sua tónica na noção fundamental de agência humana, isto é, da capacidade de não nos limitarmos, como referimos, a ser simples reactores aos estímulos do meio ambiente que nos cerca, como pretendiam as teorias condutistas, mas, em lugar disso, sermos construtores desse mesmo meio circundante: ora as crenças de autoeficácia são a pedra basilar dessa agência ou intervenção. De acordo com o autor que mais tratou este assunto, Bandura, (1994:1), a autoeficácia percebida pode definir-se como: “ (…) as crenças das pessoas acerca das suas capacidades de produzir níveis de performance que exerçam uma influência sobre os acontecimentos que afectam as suas vidas”. As crenças de auto-eficácia são a convicção pessoal de que se pode levar a cabo uma acção de um modo bem sucedido, de modo a produzir, numa dada situação da vida, os resultados desejados. As crenças na auto-eficácia influenciam o modo como se pensa, sente, se motiva e actua. O sentimento de eficácia, com efeito, aumenta a realização e o bem-estar, pois as pessoas que confiam nas suas possibilidades encaram as tarefas difíceis como desafios e não como ameaças, o que promove um interesse intrínseco, reduzindo o stress e baixando a tendência para a depressão. As crenças, no sentido genérico do termo, são ideias que a pessoa considera como verdades absolutas, sendo noções pré-existentes sobre a própria natureza da realidade, que contribuem para a percepção que temos de nós próprios, dos outros 132 e do meio ambiente. Quer sejam verdadeiras ou falsas, adaptativas ou não, as crenças podem tornar-se a realidade interna que controla o comportamento das pessoas e a sua funcionalidade física e psíquica. A chamada Teoria Comportamental de Bandura demonstrou que a apresentação, conservação ou anulação dos comportamentos se relacionam, de um modo muito directo, com as consequências de tal comportamento: se, para quem tem esse comportamento, as consequências dele forem positivas e lhe acarretarem prazer, tal facto será um reforço positivo e tal comportamento manter-se–à; se as consequências, pelo contrário, forem negativas, tal comportamento tenderá a desaparecer. A referida teoria muito contribuiu para que se passasse a compreender melhor o facto de que os processos da cognição servem de intermediários na relação que existe entre os comportamentos e as suas consequências, sendo de primeira importância para a aquisição e manutenção dos padrões de comportamento. Segundo Bandura, mais importante do que as consequências é o significado, positivo ou negativo, que se atribui a tais consequências, isto é, o processo cognitivo que determinará se tal comportamento irá ser mantido, reforçado ou eliminado. A aquisição ou manutenção dos nossos comportamentos tem também como intermediário a motivação. A motivação tem como origem a representação cognitiva dos resultados que advêm dos nossos comportamentos, antecipando os benefícios ou adversidades resultantes desses comportamentos. Outra origem da motivação é o tipo de objectivo almejado e respectiva autoavaliação de desempenho. A percepção de que há discrepância entre o objectivo proposto e a auto-avaliação do desempenho em função desse mesmo objectivo, conduz a insatisfações e 133 frustrações que, por sua vez, podem levar a ajustes e correcções desse mesmo comportamento, com o fim de se conseguir atingir os resultados desejados. Por outro lado, essa mesma percepção de discrepância pode levar a comportamentos de evitação e fuga devido ao medo de se poder ser confrontado com situações excedendo a capacidade de coping, isto é, de lidar com as dificuldades e frustrações. A auto-eficácia é, portanto, um componente fundamental da motivação e, consequentemente, da aquisição e alteração do comportamento. 5.2. Fontes componentes e dimensões A fonte principal das expectativas de auto-eficácia são as experiências bem sucedidas, experiências de realização e desempenho pessoal, sobretudo se envolvem resiliência e perseverança na ultrapassagem dos obstáculos. A sua importância advém de se basearem em experiências das próprias pessoas, experiências reais vividas e avaliadas pelas próprias pessoas num domínio específico. Tais experiências reúnem todas as vivências de sucesso e de insucesso anteriores, fontes vivas de informação sobre a competência pessoal para realizações, em situações idênticas. A vivência de experiências de sucesso origina vivos sentimentos de eficácia pessoal, ao passo que a vivência de insucessos torna mais fraco tal sentimento. Esta relação não é, porém, linear, em especial no que se refere aos sucessos, que não constituem uma fonte de auto-eficácia se forem alcançados facilmente, pelo que a contínua vivência de sucessos fáceis não reforça o sentimento de eficácia pessoal, já que não constitui uma fonte de informação sobre as reais capacidade de uma pessoa. 134 Como afirmam Pina & Faria, (2004:393): “Neste sentido, parece ser pertinente salientar a relação que se pode estabelecer entre o constructo de auto-eficácia e as percepções avaliações dos sujeitos acerca das causas e dos factores que podem explicar os resultados da sua acção (atribuições causais), nomeadamente no que respeito ao nível de dificuldade percebida das tarefas realizadas, pois estas explicações determinam o modo como o sucesso e o insucesso são percebidos e avaliados enquanto fonte de informação sobre as capacidade e a mestria pessoais”. Visto que o sucesso melhora a avaliação de eficácia e o insucesso a diminui, os indivíduos que confiam nas suas capacidades aceitam melhor, como causas de insucesso, factores situacionais como um esforço insuficiente e o emprego de estratégias inadequadas, generalizando, além disso, os ganhos em auto-eficácia para outras situações em que o seu desempenho estava prejudicado devido a uma percepção de inadequação. Outra fonte de auto-eficácia é a observação da experiência, ou experiências vicariantes, que reúnem informações e observações sobre a realização e o desempenho dos outros, contribuindo para a formação de expectativas de autoeficácia, por modelagem ou transferência de comportamento, ou seja, o facto de vermos outras pessoas, semelhantes a nós, terem sucesso, através do esforço, faznos acreditar que também nós temos capacidade para o mesmo. As experiências vicariantes são uma fonte menos influente de auto-eficácia dos que as anteriormente referidas experiências de realização e desempenho pessoal, porque o sujeito apenas testemunha a experiência e não tem oportunidade de a viver. As expectativas de auto-eficácia assim formadas são menos fortes, mais vulneráveis e mais sujeitas à mudança. A semelhança que, a este respeito, se estabelece entre o modelo observado e a realização pessoal futura é um factor que tem grande influência na génese das expectativas de eficácia pessoal, e que lhe conferem força e resistência à mudança. Nesta ordem de ideias, podemos afirmar que, quanto maior for o número de semelhanças com o modelo observado, maior influência terão as informações recolhidas, dando lugar a mais intensas expectativas de auto-eficácia. Influenciando também a força das expectativas, estão o número e a diversidade dos 135 modelos observados, bem como o poder percebido ou que se atribui a esses mesmos modelos, bem assim como a sua pertinência e importância para o sujeito. A terceira forma de reforçar as crenças de auto-eficácia é através da persuasão verbal e pessoal de que temos capacidades para dominar certas actividades, pondo de lado as dúvidas e medos cerca disso. Enquanto que as duas fontes de auto-eficácia anteriores se reportam a informações organizadas e avaliadas pelo próprio sujeito, na persuasão encontramos uma manipulação externa da informação. Tal manipulação incide sobre as percepções de capacidade pessoal dos sujeitos, por meio de uma sugestão organizada sobre reforços acerca da sua capacidade, e sobre o facto de acreditarem que detêm as competências necessárias para uma boa realização de uma tarefa, ou para lidar com a situação de modo eficaz, assegurando que são bem sucedidos. Pela persuasão, podemo-nos sentir estimulados a enfrentar certas situações que avaliamos como excedendo as nossas capacidades, o que pode conduzir a desempenhos com sucesso, sobretudo se o reforço for oferecido dentro de limites realistas e se a experiência for organizada de modo a que as pessoas tenham mesmo sucesso. Os resultados da persuasão verbal sobre os sentimentos de auto-eficácia não se notam de um modo tão nítido como os da realização pessoal ou os das experiências vicariantes. Estão, além disso, dependentes de certos factores, como a natureza, pertinência e realismo dos reforços, bem como da capacidade de persuasão da pessoa que induz a sugestão. A quarta fonte de auto-eficácia é a dos estados e reacções fisiológicas e emocionais. Incluem variados sentimentos e emoções, como o humor, a ansiedade, a sensação de bem ou de mal-estar, e estados e reacções fisiológicas como o ritmo cardíaco e a tensão arterial, a fadiga e o controle motor, que ocorrem antes ou durante a tarefa 136 realizada, e que afectam as expectativas construídas quanto à capacidade em lidar de maneira eficaz com as situações com que nos confrontamos, e alcançar os objectivos em vista. Sentimentos de stress e de ansiedade, ou aumentos do ritmo cardíaco ou da pressão arterial, são percebidos como aspectos negativos em situações de realização, diminuindo as crenças de eficácia pessoal no sujeito, enfraquecendo a realização e diminuindo o grau de desempenho, gerando desânimo perante as dificuldades e levando, não poucas vezes, ao abandono da tarefa. É que a ansiedade e o stress são vividos como aspectos negativos, dificultando ou inviabilizando até a realização, e produzindo emoções e percepções negativas no sujeito e na situação de realização, conduzindo ao que Neves & Faria, (2004:394), chamam “a manifestação de um padrão de desistência”. Pelo contrário, sentimentos de bem-estar, calma e bom humor fazem levantar as expectativas de auto-eficácia, os níveis de realização, a persistência em face de dificuldades e à finalização da tarefa. Impõe-se, pois, dominar ou, pelo menos, reduzir o desgaste emocional, a ansiedade, o medo e outras respostas emocionais negativas, se se quer melhorar a percepção do desempenho e auto-eficácia. A auto-eficácia tem como componentes a expectativa de auto-eficácia e a expectativa de resultados. A expectativa de auto-eficácia é a crença ou convicção de que somos capazes de realizar um certo comportamento de modo a alcançar determinados resultados. Por sua vez, a expectativa de resultados é a crença ou convicção de que um comportamento determinado levará a certos e determinados resultados. As expectativas de eficácia estão ligadas a factores internos, individuais, relacionados com o sentimento de competência pessoal, ao passo que as expectativas de resultado se ligam a factores externos ou ambientais. 137 As duas expectativas referidas são consideradas por Bandura como componentes bipolares, pois a combinação dos vários níveis de cada uma traz consequências e comportamentos específicos. Deste modo, quando existem expectativas de resultados negativas, isto é, quando o meio ambiente não permite ou, pelo menos, dificulta a realização da acção almejada, pode haver lugar a sentimentos de resignação e apatia por parte dos sujeitos com expectativas de eficácia negativas, o que leva à não realização, por abandono, da acção pretendida, ou a sentimentos de ressentimento e de protesto por parte dos sujeitos com expectativas de eficácia mais positivas, o que os leva a assumirem comportamentos de persistência perante as situações e circunstâncias ou até a reorganizarem a sua acção no sentido de uma readaptação de estratégias. No caso contrário ao anterior, quando o ambiente facilita a acção, havendo, portanto, expectativas de resultado positivas, podem, ainda assim, gerar-se sentimentos de desânimo e desvalorização pessoal, em pessoas com fracas expectativas de eficácia, o que as leva a ter comportamentos de evitamento ou abandono da acção. Pelo contrário, gerar-se-ão sentimentos de confiança e de segurança, relativamente à acção e si próprios, em pessoas com expectativas de eficácia mais positivas, orientando-as para a persecução e finalização da acção. Relacionando-se, assim, a auto-eficácia com o comportamento humano, Bandura operacionalizou-a como um constructo assumindo uma função orientadora da acção humana. Tanto a auto-eficácia como as expectativas que se lhe associam e que acabámos de referir, afectam a iniciação e persistência das realizações humanas, o grau de esforço e de investimento pessoal nas tarefas e actividades, o que leva a que as pessoas, por um lado, escolham aquelas situações nas quais acreditam poder ter sucesso, construindo, desse modo, expectativas positivas para tais situações, e evitar aquelas situações que sentem que estão para além das suas potencialidades e que não têm condições de levar a cabo com sucesso, formando, deste modo expectativas negativas para tais situações. 144 Ora a memória é, como já referido, um domínio susceptível, devido às preocupações, entre os homens, acerca da performance da sua própria memória, da qual cerca de 80% se queixa, sinal de que estão preocupados com a sua sanidade cognitiva. O que este estudo oferece de mais interesse são provas de que as crenças de autoeficácia instrumental são uma característica potencialmente modificável, que parece influenciar padrões de mudança na performance da memória verbal por acção da idade. As provas sugerem que, pelo menos no homem, as crenças na eficácia instrumental influenciam significativa e positivamente as mudanças no desempenho da memória verbal. Quanto à formação permanente, incluindo a de adultos idosos, é, hoje em dia, de indiscutível importância, donde a importância do constructo, com ela relacionado, de auto-eficácia educativa. A psicologia estuda as diferenças de desempenho entre os diferentes indivíduos, que não são uma mera função dos estímulos externos, aptidões ou vontade, mas são mediadas pela cognição, e reflectem as avaliações subjectivas que os indivíduos fazem das próprias capacidades, o que equivale a dizer, as crenças ou expectativas de auto-eficácia. As expectativas de auto-eficácia, sendo as crenças de um indivíduo na capacidade de planear e planificar planos de acção para gerir com eficácia acontecimentos e situações, “influenciam a escolha de tarefas, o esforço e o tempo que vai ser dispendido face a eventuais obstáculos na realização dessas tarefas, assim como as reacções emocionais que acompanham a mesma”. Coimbra & Fontaine, (1999:1061). No que respeita à aprendizagem e formação, as crenças de auto-eficácia influenciam, assim, os processos motivacionais e auto regulatórios. Mas esta teoria expandiu-se a vários campos da acção humana, à clínica ao desporto, à psicologia intercultural e ocupacional. Deste modo, as teorias de Bandura foram desenvolvidas por Schwarzer & Jerusalém, numa escala unidimensional de auto-eficácia 145 generalizada, próxima do conceito de optimismo, onde a própria auto-eficácia era concebida como sendo o conjunto das crenças optimistas de se conseguir lidar com uma gama variada de factores que podem induzir stress. Ao contrário daquilo que habitualmente se concebia como crenças de auto-eficácia, “este constructo parte do pressuposto de que existe uma confiança mais global na capacidade própria para um leque mais alargado de domínios ou situações de funcionamento. Assim, a autoeficácia generalizada é vista como um factor de recurso pessoal em, relação a experiências de distress como as percepções de ameaça ou de perda, que são sentidas de forma mais rápida e mais intensa pela parte de sujeitos com baixas expectativas de auto-eficácia generalizada”. Coimbra & Fontaine, (1999:1062). Para Faria & Simões, (2002:182), “A auto-eficácia desempenha um papel importante no desenvolvimento intelectual e na aprendizagem auto-direccionada (ou autoaprendizagem), característica fundamental para a actual “era de informação”, o que torna premente a necessidade de um dos principais objectivos de uma educação formal dever ser equipar os estudantes com as ferramentas intelectuais, crenças de eficácia e interesses intrínsecos para que eles possam educar-se ao longo da vida.” Segundo os mesmos autores, as opções por esta ou aquela, tarefa ou actividade, mesmo nos idosos, o esforço e persistência investido na realização das mesmas, é função das auto-percepções de eficácia, pois tende a evitar-se as actividades que se pensa exceder as capacidades individuais e a empenhar-se nas actividades em que há uma avaliação positiva de auto-eficácia, estando, assim o desempenho relacionado significativamente com a auto-eficácia. Ainda sobre a auto-eficácia académica, de central importância da educação permanente dos idosos, deve referir-se que os bons resultados em cursos de formação se devem mais às características motivacionais dos alunos do que ao seu coeficiente intelectual, razão pela qual se pode dizer que as percepções de eficácia pessoal, na medida em que têm muito a ver com a motivação, parecem ser melhores preditores do comportamento e realização escolar e formativa do que o nível individual de capacidade intelectual. Como diz Pina & Faria, (2004:391): “ (…) o estudo e a avaliação das crenças de auto-eficácia e, mais particularmente, das crenças de auto-eficácia académica, assumem um papel importante, pois permitem, por um lado, conhecer melhor as características motivacionais dos alunos (percepções de competência e de mestria, sentimentos 146 de valor pessoal, atribuições causais e expectativas para realização futura), e, por outro lado, compreender a influência dessas características no desempenho escolar e nos respectivos resultados.” Na verdade, ainda para os mesmos autores, o constructo de auto-eficácia refere-se às crenças e expectativas sobre a própria capacidade e mestria pessoal, cuja formação depende de circunstâncias e contornos particulares de realização. No seu interessante estudo sobre as crenças de auto-eficácia dos professores, Polydoro, S. et al., definem-na como o julgamento das suas capacidades em alcançar os resultados desejados de empenho e aprendizagem do aluno, mesmo se difícil e desmotivado. Segundo estes autores: “Dentre as variáveis que interferem no ensino eficaz, identifica-se o papel da auto-eficácia percebida. (…) resultados de estudos sobre auto-eficácia no cenário educacional sugerem que a eficácia do aluno e a do professor são positivamente relacionadas, o que já sinaliza a importância de estudos sobre auto-eficácia docente”. Polydoro, et al., (2004:330) Estudos como o referido podem constituir uma importante achega na formação dos docentes, aumentando a sua motivação no processo educativo dos alunos, incluindo os de mais idade. Os desafios na educação que se colocam permanentemente aos docentes são uma justificação suficiente para que se invista na compreensão da sua auto-eficácia pessoal para a acção docente. Sendo a auto-eficácia um elemento essencial da compreensão do comportamento e funcionamento psicológico e podendo definir-se como o julgamento sobre a capacidade pessoal para realizar uma tarefa ou actividade, é interessante o estudo de Teixeira & Carmo, (2004:198): “A investigação tem demonstrado a influência significativa da auto-eficácia nas escolhas vocacionais (…). Os estudos têm evidenciado também uma relação positiva entre a intensidade do esforço implicado nas actividades e o nível de auto-eficácia, bem como as relações significativas entre o nível de aspiração e a auto-eficácia.” Na denominada auto-eficácia para o sucesso académico, presente, em maior ou menor grau, em todos os estudantes, incluindo os idosos, há os aspectos mais propriamente científicos dos vários ramos do saber, como a Matemática, a História, etc., e as crenças pessoais da aprendizagem auto-regulada, os aspectos da 147 prioridade dada ao estudo, relativamente a outras actividades, da concentração no estudo, e as competências de memória para os conteúdos escolares, bem como a intervenção activa na aprendizagem. 5.4. Eficácia colectiva percebida e auto-eficácia do idoso para as novas tecnologias A crença colectiva, partilhada, das pessoas, no seu poder combinado para alcançarem os resultados desejados, é um factor determinante dos empreendimentos e actividades colectivas. Como nos indica Bandura, (2002), a eficácia colectiva percebida aumenta a perspectiva que as pessoas têm daquilo que desejam conseguir, a sua motivação para aquilo que empreendem e a sua resistência à frustração e adversidade. A complexidade crescente das tecnologias, os sistemas sociais e a economia mundial exigem tipos de competências de ordem superior. A transição da idade industrial para a idade da informação, com as suas novas oportunidades, requer competências cognitivas de alto nível e capacidades de autoregulação que logrem preencher os complexos papéis ocupacionais e gerir as difíceis exigências da vida contemporânea. É prioritário o desenvolvimento de uma literacia de Internet, pois 50% da informação já é alcançável unicamente sob forma electrónica e quem não tiver esta forma de literacia estará privado de importante quantidade de informação, com efeitos negativos na gestão da sua própria vida. As crenças de eficácia no domínio das novas tecnologias afectam o bem-estar e a produtividade. No âmbito da saúde, crucial nos adultos idosos, o computador é utilizado como sistema coordenador e postal, orientando as pessoas, idosas ou não, na prevenção e cura as doenças, onde quer que eles vivam. 148 Os serviços de tele-saúde e a promoção interactiva online da saúde permite às pessoas receberem consulta médica directamente em sua casa. Deste modo, a Internet está transformando as relações médicas tradicionais e o modo e local onde a medicina é exercida. As pessoas estão assumindo papéis mais activos na sua própria saúde. Podemos concluir, com Bandura, (2002), que as tecnologias digitais estão determinando a própria natureza da sociedade. As novas tecnologias funcionam como um elemento importantíssimo dentro dos sistemas societais, penetrando profundamente no quotidiano das pessoas. Num efeito e acção recíprocos, a tecnologia influencia e é influenciada pela natureza da vida social. São necessários esforços de capacitação dos aspectos sociais das próprias sociedades para que se assegure que as novas tecnologias de comunicação e informação, bem como o próprio processo de globalização, para que tais tecnologias muito contribuem, sirvam como forças positivas, e não como forças de divisão, na vida dos homens. A informática e as tecnologias digitais revolucionaram a sociedade, mas, no que respeita aos idosos, foram alvo de preconceitos sobre a sua aquisição de novos conhecimentos, em particular os relacionados com as novas tecnologias. Porém, está provado que, apesar de sofreram mudanças ao nível da cognição, essa aprendizagem continua a ser possível. Para tal aprendizagem, contribuem aspectos subjectivos como o auto-conceito e a auto-eficácia do idoso a respeito das tecnologias referidas. Para que tal aprendizagem seja possível é necessário construir-se uma estratégia que permita melhorar a auto-eficácia relativamente às tecnologias, isto é, uma prestação de formação específica em informática, com vários níveis de complexidade e para grupos integrados de adultos idosos, o que, estimulando e 149 activando a dinâmica psíquica, permita às pessoas idosas participantes melhorarem a sua auto-percepção acerca das suas reais capacidades, contribuindo para eliminar os preconceitos sociais e individuais sobre essas capacidades. Pode afirmar-se que uma grande parte dos idosos dos nossos dias não tem níveis médios de educação, nem teve qualquer contacto com as novas tecnologias, não possuindo, também, um nível sócio-económico que lhe permita adquirir tecnologia digital. Para além disto, grande parte da população idosa referida considera o computador como um instrumento de uso complexo, auto-percebendo-se como incapazes de o manipular. Por todas as razões apontadas, seria de pensar que é muito difícil ou até impossível ensinar informática a idosos. Na verdade, o problema pode tornar-se menor se se empregarem estratégias tendentes a modificar no idoso a percepção que tem da sua auto-eficácia para as tecnologias. Nesta ordem de ideias, deve começar-se o curso com actividades familiares para o idoso, como escrever e pintar, para se atingir o objectivo de entrada, que é que o idoso perca o medo aos computadores, gerador de ansiedade e que, a princípio de atribuía à idade, mas que hoje se crê ser tão comum aos adultos jovens como nos idosos. Em vez da idade surgem, como responsáveis por esta tecnofobia, factores como as atitudes, as experiências e a auto-eficácia. Acrescente-se que a mera experiência com computadores não é suficiente para se ultrapassar a dita tecnofobia. Como asseveram Luque, & Burba, (2005), é importante que esta primeira experiência seja coroada de êxito, devendo ter-se com ela um cuidado muito grande, em especial na sua programação e realização. Se tal primeira experiência for negativa, é imperioso que as experiências 150 subsequentes sejam suficientemente positivas para compensar e fazer reverter o mau efeito dessa primeira experiência. É que, se os idosos não se sentirem seguros a manipular a tecnologia informática, e sofrerem experiências adversas quando a tentam abordar, a sua auto-eficácia diminuirá por certo e as suas atitudes negativas aumentarão proporcionalmente. O professor ou orientador dos cursos de informática tem um papel de primeiro relevo, sendo responsável pelo êxito ou falha dos alunos, bem como pela sua aproximação ou aversão à tecnologia digital. Á medida que o medo aos computadores vai diminuindo, ou até desaparece, nos casos mais favoráveis, devem modificar-se as crenças que se elaboraram relativamente ais computadores, e a toda a tecnologia, modificando-as, pouco a pouco, nas aulas. Devem, primeiro que tudo, modificar-se as crenças acerca dos computadores em geral, como, por exemplo, a crença de que se se tocar na tecla errada, se destrói toda a informação armazenada, a crença de que os computadores originam práticas contrárias à ética, a de que os computadores nos retiraram a privacidade. Devem utilizar-se exercícios concretos que mostrem a realidade tal como ela é. Por outro lado, devem também modificar-se as crenças sobre as próprias capacidades dos utilizadores relativamente à aprendizagem e à utilização das tecnologias, como a crença de que não se pode aprender a utilizar qualquer tipo de programa, a crença de que se podem usar os computadores, mas sempre sem demasiadas expectativas, a crença que se deve evitar usar os computadores, com medo de se cometerem erros que não se possam, depois, corrigir. Para se modificarem estas crenças negativas sobre o uso computadores, devem realizar-se, logo desde o início do curso, sessões de trabalho que aumentem, aos poucos, a complexidade das matérias, respeitando os tempos de aprendizagem próprios deste grupo etário e incorporando actividades que aumentem a motivação pelos assuntos ensinados, como o uso da Internet, o desenho gráfico e o desenho Web. 151 As actividades utilizadas destinam-se, além disso, a reactivar, no idoso, funções que podem estar adormecidas, como o nível de concentração, diminuído pela ausência de obrigações laborais, de modo a que as estruturas cognitivas, como a memória, a atenção, a competência linguística e comunicativa e a criatividade, se conservem activas. As actividades programadas devem, além disso, adequar-se às necessidades e aos interesses concretos dos alunos, ao seu nível cultural e de integridade cognitiva, bem como à aplicação que possam dar aos conteúdos aprendidos no curso. Se não se conseguir motivar todos os alunos do curso para avançarem para cursos mais adiantados, ou se nem todos lograram modificar as suas crenças sobre o uso dos computadores, pelo menos muitos alteram a sua percepção sobre as suas capacidades de manipularem e dominarem os instrumentos tecnológicos. O que manteve os idosos motivados para continuarem nestes programas de aprendizagem e a buscarem novas opções foram as suas percepções de autoeficácia. Tais aprendentes motivados, transmitem a sua motivação a colegas seus de outros cursos, a amigos e a familiares, que, até aí, nutriam auto-percepções de incapacidade para aprender a utilizar computadores, oferecendo-se a si mesmos como exemplos de sucesso. Como conclusão, poderemos afirmar que as novas tecnologias de informação e comunicação oferecem instrumentos potentes para o desenvolvimento de aplicações em todos os níveis de prevenção, de modo a conservar um máximo de expectativas de uma vida activa e de um nível funcional óptimo. Como afirmam Luque & Burba, (2005), este tipo de cursos que acabámos de referir e que denominam psico-activação computacional, é, ao mesmo tempo, um método que contribui para o aumento da qualidade de vida, especialmente na idade adulta avançada. 152 Estes cursos informáticos referidos, favorecendo e habilitando os idosos com novos conhecimentos, favorecem, além disso, as relações intergeracionais e intrageracionais, a saúde, a cultura, o gerir dos tempos de ócio, etc. Sendo certo que o envelhecimento da população origina, entre outros efeitos funestos, o aumento da incapacidade, e o proporcional aumento dos gastos com a saúde e assistência social, imperioso se torna que haja, como compensação, um aumento das percepções positivas de auto-eficácia, gerando, por sua vez, um aumento da auto-estima, do auto-conceito e do respeito por si próprio, tudo isto originando um acréscimo de qualidade de vida, que tem, comprovadamente, uma relação inversamente proporcional com a incapacidade. Dentro da procura de soluções para os problemas derivados do envelhecimento populacional referido, os cursos de informática nos programas para adultos idosos, portadoras das características adequadas e acima descritas, são uma importante contribuição e deveriam ser implementados como prioridades, pelas políticas sócioeducativas e sanitárias. É que, na verdade, o conhecimento e a modificação positiva da auto-eficácia do idoso para com as novas tecnologias, origina um importante reposicionamento social deste grupo etário, contribuído para se pôr cobro, de uma vez por todas, aos mitos e estereótipos sobre o envelhecimento, de que falámos noutra alínea, e aumentando a qualidade de vida das pessoas, nesta fase da sua vida. 153 CAPÍTULO 6 - Outro meio de acesso: a capacitação ou empowerment do idoso 6.1. Definir “Empowerment” Vive-se numa sociedade pós-industrial, pós-moderna, e o próprio prefixo “pós” nos remete para um quebrar de espelhos, de paradigmas que se julgava sólidos, sem que se lhes encontre substitutos para o vazio que nos deixam, comparável, talvez, à sociedade do barroco ainda não “iluminado”, só que agora atingida pela perfusão de uma informação superabundante e dificilmente interiorizável num “timing” culturalmente suficiente, e geradora de bi-polarização económico-cultural, de competitividade desumanizante, de exclusão social por razões políticas, sociais e económicas, de pobreza, de marginalização, cultural e psicossocial. É neste cenário que o “empowerment” se foi desenvolvendo, como forma privilegiada de intervenção psicosssocial e comunitária. O “empowerment” é definido como “un medio para hacer frente a los problemas de comunidades minoritarias y mediatizar el rol que la indefensión juega en la creación de problemas sociales, especialmente en el ámbito de la exclusión laboral y social”. Amorós & Ayerbe, (2003:308). Fisher, citado por Tubbs, concebe mesmo uma fórmula para este aumento do assumir e do implementar de decisões a que chamamos “empowerment”: Empowerment = f(AxRxIxA) , sendo: A = authority R = resources I = information A = accountability Tubbs & Moss, (1994:357). O que a fórmula pretende simbolizar é que, aquilo de que os trabalhadores de uma organização, ou outras pessoas sujeitas a “empowerment”, necessitam, para tomarem decisões (factor central de quem é “empowered”), é que lhes seja atribuído 256 é apanágio da velhice, antes se verifica em qualquer fase da vida, os idosos não ma meta a atingir pelo idoso e de central importância no nosso trabalho, a ponto de ade, a autonomia e a auto-suficiência. , como a felicidade, o prazer, a satisfação com a vida, o bem-estar sicológico ou subjectivo, a integridade e a sabedoria. ciência, as nossas acções e do nosso destino, com a resultante e profunda sensação de são, por definição, avessos à mudança, podendo adaptar-se a situações novas, como o resto das pessoas; à medida que se envelhece, as idiossincrasias de cada um acentuam-se, aos mais diversos níveis (das ideias, convicções, traços da personalidade, do humor, etc.), mantendo, muitos idosos, cadeias de amizades, contactando intimamente com a sua família e empenhando-se em actividades sociais. U funcionar como variável dependente, é a obtenção de um nível elevado de qualidade de vida. Este conceito de qualidade de vida, por nós desenvolvido na parte teórica, é relativamente recente, tendo tido enorme expansão nas últimas décadas nas ciências sociais, naturais e biomédicas, como um conceito multidimensional que incorpora condições sócio-ambientais e pessoais, objectivas e subjectivas. Este constructo tem várias e importantes dimensões, como a saúde, física e mental, a valorização subjectiva, pelo idoso, do seu próprio estado de saúde, o emprego e a aposentação, os rendimentos auferidos na reforma e o património, em suma, a situação económica, a habitação, muitas vezes associada à história individual e familiar, cheia de significado e de sentido de identidade, uma boa vizinhança, um sentimento de segurança, um transporte eficaz, a família e as redes de apoio, as relações pessoais e sociais, com todo um significado emocional, e valores como a reciprocid Há, contudo, como também frisámos, alguns conceitos essenciais relacionados com a qualidade de vida das pessoas e necessários para se lograr uma velhice bem sucedida p A felicidade não é algo que simplesmente aconteça, não depende de acontecimentos externos, mas do modo como interpretamos tais acontecimentos, isto é, depende do controlo da experiência interior e dos conteúdos da cons d 257 bem-estar e de fruição do que a vida nos oferece, levando-nos a sentirmo-nos bem com as nossas vidas. Como afirmámos também, a velhice bem sucedida significa ausência de doença e manutenção de um bom funcionamento ao nível físico e mental, mas também satisfação com a vida, na participação social e no funcionamento dos recursos psicológicos, incluindo o crescimento pessoal, o zelo, a determinação, a fortaleza, a felicidade, as relações entre os objectivos desejados e os alcançados, o autoonceito, a moral, o humor e o bem-estar geral. De especial importância é também o , porém, a uma constante ctualização de práticas e saberes para os quais o idoso não está preparado, sendo novos meios de comunicação, o facto de a língua de omunicação ser, em grande medida, o inglês e o baixo rendimento dos idosos. clínio nas suas funções perceptivo-espaciais e a inteligência fluida, além de uma diminuição da eficiência cognitiva global, devido c funcionamento social continuado, as interacções positivas, a integração social e a participação recíproca na sociedade. A actual sociedade das novas tecnologias obriga a excluído da participação e construção do próprio processo social. Como afirmámos no início do capítulo 3, só uma minoria das pessoas usufrui dos seus benefícios, sendo a maioria colocada à margem, com os problemas de saúde que isso acarreta. Há factores determinantes desta info-exclusão dos idosos, como a pouca familiaridade com os c Outros factores limitativos são as alterações no campo da visão, audição e desempenho motor, que, como afirmámos, muitas vezes são pouco relevantes separadamente, mas que, combinadas, podem levar a importantes incapacidades, provocando um afastamento progressivo do indivíduo em relação ao meio em que vive, gerando o isolamento, a depressão, o declínio cognitivo. Neste campo cognitivo, por sua vez, há um pequeno declínio na eficiência verbal e na inteligência cristalizada, e um mais acentuado de n à lentificação do processo de informação e resposta e ao desuso, ou não utilização das competências cognitivas e aos défices de atenção e concentração. Felizmente, há também importantes meios de acesso, ou aspectos facilitadores, para o idoso, do acesso às novas tecnologias, sendo o primeiro a percepção de 258 auto-eficácia. uas apacidades e vontade, mas são mediadas pela sua cognição, pela avaliação que auto-eficácia é, como também referimos, um componente fundamental da otivado, pode incorrer em depressão, sobretudo se desmotivado de iver. e de sucesso anteriores, originando sentimentos de eficácia pessoal. ácia, por modelagem ou transferência e comportamento: na verdade, o facto de vermos outras pessoas, semelhantes a Conforme referimos, e segundo a psicologia actual, as realizações comportamentais de uma pessoa não são apenas uma função dos estímulos externos, das s c faz das sua próprias capacidades, isto é, pelas crenças ou expectativas de autoeficácia por ela nutridas. Isto enquadra-se na teoria social cognitiva que confere um relevo especial à noção de agência humana, isto é, à capacidade de não nos limitarmos a reagir aos estímulos do meio ambiente, como pretendiam os behavioristas, mas a intervirmos e a construirmos esse mesmo meio ambiente. A auto-eficácia é constituída pelas crenças das pessoas acerca das suas capacidades de produzir níveis de performance que exerçam uma influência sobre os acontecimentos mais relevantes para si.. A motivação e, consequentemente, da aquisição e alteração do comportamento. A motivação é, por sua vez, muito necessária para o bem-estar psicológico do idoso, o qual, se desm v A verdadeira motivação, expressão última da inteligência emocional, é a motivação intrínseca, que gera e promove sentimentos de entusiasmo, zelo, confiança, persistência, esperança e optimismo, tão importantes na terceira idade. A fonte ou componente principal das expectativas de auto-eficácia são as experiências bem sucedidas, experiências reais vividas e avaliadas pelas próprias pessoas num domínio específico, reunindo todas as vivências de sucesso in A auto-eficácia pode, também, resultar da observação da realização e desempenho dos outros, gerando expectativas de auto-efic d nós, terem sucesso, através do esforço, faz-nos acreditar que também nós temos capacidade para o mesmo. 259 Outra causa pode ser a persuasão verbal e pessoal de que temos capacidades para dominar certas actividades, fazendo-nos afastar as dúvidas e medos sobre isso. A auto-eficácia generalizada é um factor compensador em relação a situações de s opções por esta ou aquela, tarefa ou actividade, mesmo nos idosos, o esforço e nho relacionado ignificativamente com a auto-eficácia. pela qual se pode dizer que as percepções de eficácia ível dividual de capacidade intelectual. dade. dominarem os instrumentos tecnológicos, e que permitiu que os idosos estivessem motivados para continuar a aprender foram conflito, como as percepções de ameaça ou de perda, frequentes entre as pessoas de idade. A persistência investido na realização das mesmas, é função das auto-percepções de eficácia, pois tende a evitar-se as actividades que se pensa excederem as capacidades individuais e a empenhar-se nas actividades em que há uma avaliação positiva de auto-eficácia, estando, assim, o desempe s No que respeita à auto-eficácia académica, de central importância da educação permanente dos idosos, referimos que os bons resultados em cursos de formação se devem mais às características motivacionais dos alunos do que ao seu coeficiente intelectual, razão pessoal, na medida em que têm muito a ver com a motivação, parecem ser melhores preditores do comportamento e realização escolar e formativa do que o n in A auto-eficácia no âmbito das novas tecnologias tem muito a ver com o bem-estar e a produtivi A informática e as novas tecnologias, foram, como vimos, alvo de estereótipos e preconceitos sobre a sua aquisição por parte dos idosos. Porém, está provado que, estes, embora sofram mudanças ao nível da cognição, podem aceder a essa aprendizagem possível. Muitos alteram a sua percepção sobre as suas capacidades de manipularem e o as suas percepções de auto-eficácia: este aumento das percepções positivas de auto-eficácia origina um aumento da auto-estima, do auto-conceito e do respeito por si próprio, e, portanto, uma melhoria da sua qualidade de vida. 260 Outro aspecto referido, facilitador do acesso do idoso às novas tecnologias, é o empowerment ou capacitação do idoso. Capacitar é dar poder às pessoas para que resolvam os seus problemas vitais, no eio que os rodeia, através do desenvolvimento de certas competências pessoais e os, a preocupação crescente em informar, o social. ara fazerem valer os vezes se encontram restringidos por razões ariadas. e de vida e lhes facilitar a vida na sua própria casa, omo a abertura de portas e janelas ou a climatização por controlo mecânico, nsinar as novas tecnologias a idosos, com as necessárias adaptações na m envolvimento olítico e de cidadania por via electrónica, tornando-o um cidadão digital, numa m do grupo em que se inserem. A intensificação de uma cultura de direit consagrar e efectivar os direitos dos cidadãos mais idosos, reconhece que, sem essa dimensão, nunca se poderá obter uma total integraçã E aqui frisamos, mais uma vez, o conceito de empowerment, dizendo que, para que não se inclua excluindo, ao idoso, que se sente isolado devido à sua idade, é preciso estimulá-lo para os seus direitos e para as suas responsabilidades. Relacionámos o mundo dos idosos com as novas tecnologias, num processo de empowerment bem sucedido, que os põe em contacto com os desenvolvimentos da sociedade dos nossos dias, facultando-lhes conhecimentos p seus direitos, fornecendo-lhes maior independência, treino e comunicação com o mundo exterior ao espaço a que, muitas v Outro exemplo apresentado de empowerment ao idoso é o dos serviços da Internet para lhes melhorar a qualidad c facilitação da assistência médica, conselhos e cursos sobre saúde, recuperação física e da mobilidade. E pedagogia e nos objectivos, é capacitá-los para participarem mais activamente nos momentos históricos que vivemos, terem um acesso às notícias, às compras e aos movimentos bancários, por exemplo, bem como capacitá-los para u p verdadeira e-democracy e num e-political empowerment. 261 Relativamente à parte empírica, validamos e clarificamos o pressuposto de que os idosos que utilizam as novas tecnologias possuem uma maior qualidade de vida do que aqueles que as não utilizam e estão predispostos a possuir atitudes mais favoráveis em relação às TIC. HOQOL-OLD pretendeu desenvolver e testar a avaliação da qualidade de vida dores e na eficácia do seu so. da aprendizagem do uso dos computadores e outras cnologias. Para avaliarmos a nossa hipótese, utilizámos duas escalas: WHOQOL-OLD, da Organização Mundial de Saúde, para testar a qualidade de vida dos idosos e a Escala de Atitudes face às novas tecnologias de informação e comunicação ANT/25, para aferir as atitudes dos idosos em relação às novas tecnologias. W para pessoas mais velhas, através da colocação de questões (itens) relevantes. A segunda escala, “Escala de atitudes face às novas tecnologias” (ANT/25), inscreve-se numa linha de investigação que se centra no estudo das representações e atitudes face às novas tecnologias de informação, incluindo as dos idosos, devido à influência que estas têm nos comportamentos dos utiliza u Tais atitudes são, geralmente, mais negativas que as dos jovens em relação à tecnologia, sendo os idosos muito frequentemente referidos como sofrendo de tecnofobia, que os desincentiva te Pelos resultados estatísticos resultantes das respostas às escalas, podemos, com alguma margem de segurança, afirmar que a nossa hipótese foi confirmada. Tabela 12.1 – Valores estatísticos dos grupos Utiliza os novos aparelhos de informação e comunicação N Mean Std. Deviation Std. Error Mean Sim 84 93,55 11,414 1,245 Qualidade de Vida Não 84 83,62 7,786 ,850 Sim 84 96,37 10,507 1,146 Atitudes face às TIC Não 84 85,14 7,487 ,817 262 Pelos valores apresentados na tabela acima, referente às medidas descritivas, á para as Atitudes Face às TIC e para os mesmos grupos, as diferenças entre as Numa primeira an vão de encontro hipótese por nós formulada, no entanto, não são ainda suficientes para que se ossa desprezar a o s através do teste t-Student para ambas as variáveis dependentes permitem-nos afirmar que a hipót ou seja, existe influência da variável independente ( a as das ariáveis dependentes (Qualidade de Vida e Atitudes Face às TIC). a uma melhor aracterização da nossa amostra e para, ao mesmo tempo, provarmos que as novas tilizando o teste Anova (Tabela 12.2) na comparação das variâncias relativas entre rção inversa da subida da idade dos idosos, tanto ara a variável QV26 como para a variável ANT27. verificou-se que os idosos que utilizam os novos aparelhos de informação e comunicação, no que se refere à variável dependente Qualidade de vida, possuem em média de mais 9,93 pontos do que aqueles que os não utilizam. J médias atingem cerca 11,23 pontos favoráveis ao grupo que utiliza as novas tecnologias. álise, as médias que se obtiveram entre os grupos à p hipótese nula. Os resultados btido ese por nós aventada está correcta Utiliz TIC) nos scores v Tentámos, complementarmente aos teste referidos e utilizando ANOVAS, explorar ao máximo as variáveis sócio-demográficas, cruzando-as com as variáveis dependentes Qualidade de Vida e Atitudes Face às TIC par c tecnologias são preditoras de uma melhor qualidade de vida, bem como de atitudes favoráveis face às TIC. U as variáveis dependentes Qualidade de Vida e Atitudes Face às TIC e a variável independente Idade, verificou-se que os scores das médias relativas às faixas etárias vão decrescendo na propo p 26 Qualidade de Vida 27 Atitudes Face às Tecnologias de Informação e Comunicação 263 Tabela 12.2 – Idade / QV / ANT Idade Qualidade de Vida Atitudes face às TIC 65 a 70 Mean 91,32 94,09 71 a 75 Mean 89,58 91,55 + 75 Mean 85,23 86,88 Com alguma precaução podemos afirmar que a idade tem influência na Qualidade laridade (Tabela 12.3), verifica-se que os scores das médias rução dos indivíduos idosos. de Vida do idoso e que essa mesma idade influencia as suas Atitudes Face às TIC. Relativamente à significância da influência do sexo na QV e ANT, verificamos que não existe, nelas, influência desta variável independente. No que concerne à esco vão aumentado com o grau de inst Tabela 12.3 – Escolaridade / QV / ANT Escolaridade Qualidade de Vida Atitudes face às TIC Ens_Básico Mean 87,24 89,84 Ens_ á ean 5,53 ,58 Secund rio M 9 96 Ens_ rSuperio Mean 98,89 101,21 Outr ean 0,95 ,71 a M 8 82 A ausência ou a baixa escolaridade são um obstáculo a atitudes favoráveis em relação às novas tecnologias e, ao mesmo tempo, perspectivam uma menor Verificou-se que o grau de escolaridade tem uma forte influência na QV e ANT, elativamente à situação laboral, verificamos que dos 168 idosos inquiridos, 148 já se encontravam na relativamente a esta variável sócio-demográfica são superiores para os idosos que se enc m actividad o T. No entanto, teremos que ter alguma precaução r mente à variável dependente QV, uma vez que os valores são muito aproximados, indicando-nos, à partida, que renças significativas nas variâncias entre grupos. Já no que diz qualidade de vida. registando-se níveis de significância elevados. R condição de aposentado. Os scores das médias obtidas ontram ainda e e laboral, possuind uma maior QV e AN elativa não existem dife 264 respeit lue 01), verificou-s quem se encontre ainda em actividade expressa atitudes mais favoráveis às novas tecnologias, pois o valor ANT vão acompanhando a subida dos níveis de rendimento sufruídos pelos idosos da nossa amostra. = 0,000 e 0,000 para QV e ANT spectivamente demonstram que existe uma forte influência da variável Recorrendo a uma variável de “Controlo d Saúde”, na qual se criaram apenas duas es que possuem “Boa” saúde tanto para V como para ANT. tilização das TIC com as variáveis dependentes Qualidade de vida e Atitudes face 0,000 de significância, obtidos no teste t-student, para ambas as o às ANT ( p-va = 0,0 e que obtido é < α=0,05. Para a variável sócio-demográfica “Rendimento”, observamos que os valores das médias para QV e u Pode-mos verificar que os valores de p-value re independente nas variáveis dependentes Qualidade de Vida e Atitudes Face às TIC. Relativamente ao “Estado de Saúde Actual”, dos idosos inquiridos apurámos que as médias dos valores obtidos para a QV e ANT vão subindo em relação à melhoria desse mesmo estado de saúde; no entanto não podemos afirmar que existe influência da variável dependente “Estado de Saúde Actual” na QV e ANT, uma vez que existem grandes disparidades no número de elementos que constituem cada grupo, o que nos é provado pelos valores não significativos de p-value = 0,206 e 0,132 > α=0,05. e condições “Boa” - englobando as condições “Satisfatório”, “Bom” e “Muito Bom” e “Má” - agrupando as condições “Muito Mau” e “Mau”, apurámos que as médias entre grupos continuam a ser maiores para aquel Q No que respeita à parte empírica, podemos apontar algumas conclusões, decorrentes da avaliação que fizemos do cruzamento da variável independente U às TIC. Foi possível observar que existe uma correlação entre a utilização das novas tecnologias (variável independente) e a qualidade de vida do idoso (primeira variável dependente), por um lado, predispondo-o, por outro lado, para melhores e mais favoráveis atitudes em relação às TIC (segunda variável dependente): na verdade, os resultados de 265 variáveis dependentes com uma probabili etalhado podemos afirmar que, ao avaliarmos os factores representativos da escala WHOQOL-OLD da Organização Mundial de Saúde, para s Habilidades Sensoriais, pois estas ditam o seu grau de dependência; isto porque o modo como funcionam os seus sentidos, ou, noutra perspectiva, a • O factor Actividades Passadas, Presentes e Futuras descreve a satisfação do • Morte e que esta é inevitável, ionar a sua qualidade de vida; é que o medo da morte e do morrer é um reflexo do dade de erro de 5%, apontam para o facto de que a diferença entre as médias (cerca de 10 pontos) não se deve a casos ocasionais, fortuitos, mas antes à existência de uma forte probabilidade de influência da nossa variável independente. De um modo mais d , testar a qualidade de vida dos idosos, concluímos que: • O idoso sente particularmente que a sua qualidade de vida depende muito da perda das habilidades sensoriais, tem uma forte influência na sua qualidade vida diária, nas actividades do seu dia-a-dia, na interacção social, bem como no modo como o idoso percepciona tudo isso; • O idoso vê na independência para tomar as suas próprias decisões, controlar o seu futuro, alcançar as coisas que gostaria de fazer, acreditar que as pessoas ao seu redor respeitam a sua liberdade, algo de essencial para a conquista da sua própria Autonomia; idoso pelas realizações que conseguiu ao longo da sua e pelas que deseja ainda realizar, bem assim como pelo reconhecimento merecido que recebeu por via de tais realizações; • O idoso valoriza de uma forma particular a Participação Social, demonstrando satisfação com as suas actividades pessoais, em particular as actividades na comunidade, devido ao convívio e à manutenção dos laços sociais; O idoso, sabendo que não pode controlar a sua sente-se impotente com este facto, o que, de certa forma, pode condic modo como vivemos e como percepcionamos o presente, e também dos 272 HOLL e resident, Aging and mental Heath, Vol. 4, Nº 1, USA. 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Alguns dados pessoais serão solicitados idade, estado civil, ...) mas não serão pedidas informações que permitam a sua identificação (nome, endereço, …) salvaguardando assim a confidencialidade de quem responde. Todos os dados recolhidos são dir intransmissíveis. or favor, leia com atenção as instruções de cada questionário antes de iniciar as uas respostas. ão existe um modo certo ou errado de responder. O importante é a sua opinião Muito obrigado pela atenção dispensada. n ( igidos ao presente estudo e serão P s N sincera. 281 Anexo 2 FICHA DE INFORMAÇÃO SÓCIO-DEMOGRÁFICA com os seus dados pessoais. 1. Idade: ____ Por favor, preencha 2. Sexo: M □ □ F □ □ 3. Estado Civil: Casado □ □ Solteiro □ □ Viúvo □ □ Divorciado □ □ Separado □ 4. Escolaridade: Ensino Básico □ □ Ensino Secundário □ □ Ensino Superior □ □ Outra ____________________ 5. Aposentado: Sim □ □ Não □ □ 6. Rendimento: Menos de 350€ 501€ e 1000 Mais de 100 7. Como definiria o seu estado de saúde? uito mau □ 351€ e 500€ € 0€ M □ □ au M □ □ atisfatório S □ □ □ □ o bom □ □ . Com quem resid o □ □ cônjuge □ □ om filhos □ □ njuge, filho(s) □ □ , (s) e neto(s) □ □ e ne (s) □ □ om outros pare Bom Muit 6 e? Sozinh Com o C Com o cô Com o cônjuge filho Com filho(s) tos C ntes □ □ om amigos □ □ utros: ____________________ C O 288 19 Está feliz com as coisas com que contar daqui para frente? c d e f g 20 Como avaliaria o funcionamento dos seus sentidos (por exemplo, audição, visão, paladar, olfacto, tacto)? c d e f g 21 Em que medida acha que existe companheirismo na sua vida? c d e f g 22 Em que medida acha que existe amor na sua vida? c d e f g 23 Até que ponto sente que exerce esse amor? c d e f g 24 Até que ponto recebe esse mesmo amor? c d e f g 289 Anexo 5 Centros incluídos no desenvolvimento do módulo WHOQOL-HOLD Centro País Estudo piloto (n) Teste de campo (n) Edimburgo Escócia 303 116 Bath Inglaterra 331 145 Leipzig Alemanha 433 354 Barcelona Espanha 302 271 Copenhague Dinamarca 467 384 Paris França 130 164 Praga Rep. Checa 350 325 Budapeste Hungria 304 333 Oslo Noruega 372 324 Victória Canadá 430 202 Melbourne Austrália 364 376 Seattle EUA 235 295 Beer-Sheva Israel 312 250 Tóquio Japão 410 188 Umea Suécia 315 455 Guangzhou China 478 - Hong Kong China 319 - Porto Alegre Brasil 339 328 Montevidéu Uruguai 256 248 Izmir Turquia 345 327 Genebra Suíça 161 139 Vilnius Lituânia 445 342 W HOQOL-OLD GROUP Global 7401 5566