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Revista Tempo e Argumento, Florianópolis, v. 9, n. 22, p. 174 - 197, set./dez. 2017. p.174 e-ISSN 2175-1803 Narrativas nacionais e competência histórica na formação inicial de professores primários espanhóis1 Resumo Neste trabalho, foram analisadas as competências de pensamento histórico e a presença de características de narrativa nacional entre 283 estudantes espanhóis do Grau de Licenciatura em Ensino Primário de Murcia e de Valência. Examinaram-se os seus relatos históricos sobre a expansão cristã na Península Ibérica em território muçulmano durante a Idade Média. Utilizaram-se métodos qualitativos para identificar os níveis de complexidade da exposição a partir de conhecimentos substantivos e conceitos metodológicos, e uma avaliação quantitativa para relacionar esses níveis de complexidade com os níveis cognitivos e narrativos, através da taxonomia SOLO. Também se avaliou em que medida se representam elementos discursivos próprios de uma narrativa nacional. Os resultados confirmam uma educação histórica deficiente dos futuros professores primários, tanto em conceitos históricos de segunda ordem quanto na reprodução de uma narrativa nacional já caduca pela historiografia. Também se confirmou que a presença e complexidade do pensamento histórico nas narrativas é maior quanto maior é o nível e pertinência dos conteúdos históricos substantivos. Palavras-chave: Pensamento Histórico. Narrativa Nacional. Formação Inicial do Professor. Educação Histórica. Jorge Sáiz Serrano Doutor em Geografia e História pela Universidade de Valencia. Professor associado na mesma Universidade. Valencia - Espanha [email protected] Cosme Jesús Gómez Carrasco Doutor em Historia pela Universidade de Castilla - La Mancha. Profesor da Universidade de Murcia. Murcia - Espanha [email protected] Ramón López Facal Doutor em Historia pela Universidade de Santiago de Compostela. Professor na mesma Universidade. Santiago de Compostela - Espanha [email protected]s Para citar este artigo: SÁIZ SERRANO, Jorge; GÓMEZ CARRASCO, Cosme Jesús; LÓPEZ FACAL, Ramón. Narrativas nacionais e competência histórica na formação inicial de professores primários espanhóis. Tempo e Argumento, Florianópolis, v. 9, n. 22, p. 174 - 197, set./dez. 2017. DOI: 10.5965/2175180309222017174 http://dx.doi.org/10.5965/2175180309222017174 1 Este trabalho contou com financiamento dos projetos de investigação coordenados EDU2012-37909-C0301 e EDU2012-37909-C03-03 do Plano Nacional de I+D+i (MINECO, do Governo de Espanha), de fundos FEDER da UE e das redes de excelência: Red14 e NEDAT.
Narrativas nacionais e competência histórica na formação inicial de professores primários espanhóis Jorge Sáiz Serrano, Cosme Jesús Gómez Carrasco, Ramón López Facal Revista Tempo e Argumento, Florianópolis, v. 9, n. 22, p. 174 - 197, set./dez. 2017. p.175 Tempo & Argumento National Narratives and Historical Competencies in Spanish Initial Teacher Training Abstract This paper analyzes historical thinking skills and the presence of elements of a national narrative among 283 students at Grade of Primary Education in Murcia and Valencia, future primary teachers in Spain. It's analyzed their narratives about Christian expansion into Muslim territory in Medieval Iberian Peninsula: it's an historical content linked to the Spanish national narrative. Qualitative methods are used to determine levels of narrative complexity in substantive contents and in methodological knowledge or second order concepts. It's also used a quantitative assessment of levels of complexity and its relation to cognitive levels of written using the SOLO taxonomy. It's also assessed the presence of discursive elements of a national narrative. The results confirm a poor historical education of future teachers of Primary Education in second order concepts and in the reproduction of national narratives. It is also confirmed that the presence and complexity of historical thinking in narratives is higher the higher the level and relevance of substantive historical content. Keywords: Historical Thinking; National Narratives; Initial Teacher Training; History Education. Introdução As narrativas históricas são uma importante fonte de informação para investigar o conhecimento histórico e a capacidade de lhe dar significado, tal como o demonstram numerosos estudos, tais como os de Barca (2015), Henríquez e Ruíz (2014), Kropman, Van Boxtel e Van Drie (2015), Lévesque, Croteau e Gani (2015), Sáiz e López Facal (2015 e 2016)
Narrativas nacionais e competência histórica na formação inicial de professores primários espanhóis Jorge Sáiz Serrano, Cosme Jesús Gómez Carrasco, Ramón López Facal Revista Tempo e Argumento, Florianópolis, v. 9, n. 22, p. 174 - 197, set./dez. 2017. p.176 Tempo & Argumento e Sant, González, Santiesteban, Pagès e Oller (2015). Os relatos históricos dão uma imagem dos níveis de compreensão e aprendizagem dos sujeitos investigados: contribuem com um retrato substantivo do passado e informam sobre o conhecimento e o uso das competências do conhecimento histórico. Este estudo assume ambas as perspectivas para analisar relatos de professores primários em formação sobre a expansão cristã na Península Ibérica durante a Idade Média com prejuízo para os muçulmanos. Examinaram-se textos de 283 estudantes do Grau de Licenciatura em Ensino Primário de duas universidades espanholas (Valência e Murcia), aplicando uma perspetiva quantitativa e qualitativa. O objetivo é duplo: em primeiro lugar, o de estudar a organização discursiva dos trabalhos escritos destes futuros professores primários para conhecer os seus níveis de competência histórica como aptidão metodológica própria da disciplina de História (DOMÍNGUEZ, 2015). Em segundo lugar, o de analisar o conteúdo dos referidos relatos sobre o período medieval peninsular para comprovar o grau de mediação do que se considera como narrativa nacional espanhola, com a presença de estereótipos e marcos do relato da “Reconquista” cristã sobre os muçulmanos e o uso de marcadores discursivos de identificação nacional (SÁIZ, 2015). Este trabalho inscreve-se no paradigma de didática da história conhecido como pensamento histórico (historical thinking), assumido no Canadá e nos Estados Unidos por autores como Clark (2011), Lévesque (2008), Seixas (2011), VanSledright (2011 e 2014) e Wineburg (2001), embora a sua origem se situe na inovação e investigação em didática da história a partir dos anos 70-80 no Reino Unido (LEE, 2005). A perspectiva do pensamento histórico foi sintetizada na Espanha por Domínguez (2015), Gómez e Miralles (2015), Gómez, Ortuño e Molina (2014) Sáiz (2015) e Sáiz e López Facal (2015). De acordo com este modelo, há dois tipos de conteúdos históricos. Por um lado, os conteúdos substantivos ou de primeira ordem, conteúdos de história, ou seja, o que sabemos do passado sob a forma de dados, datas, personagens, conceitos e fatos. Por outro lado, os conteúdos estratégicos de segunda ordem, ou conceitos metodológicos, conteúdos sobre história, quer dizer, como se representa o passado e que significado lhe atribuímos; são aptidões relacionadas com as competências do historiador que consideramos competências históricas. Um dos instrumentos para as investigar, bem como para as
Narrativas nacionais e competência histórica na formação inicial de professores primários espanhóis Jorge Sáiz Serrano, Cosme Jesús Gómez Carrasco, Ramón López Facal Revista Tempo e Argumento, Florianópolis, v. 9, n. 22, p. 174 - 197, set./dez. 2017. p.177 Tempo & Argumento ensinar, é recorrer às narrativas históricas. Este estudo analisa, nos 283 relatos, quatro categorias das referidas competências históricas conforme a proposta realizada por Seixas e Morton (2013) e incorporando outras (LÉVESQUE, 2008; VANSLEDRIGHT, 2014; DOMÍNGUEZ, 2015). Em primeiro lugar, a competência de relevância histórica entendida como o grau de transcendência e valor que se concede ao fenômeno relatado na sua ligação com outros. Em segundo lugar, a de causalidade, como a aptidão para expor o fenômeno integrando as múltiplas causas que o explicam. Em terceiro lugar, a de tempo histórico, como a aptidão para descrever as alterações do fenômeno usando o tempo de forma flexível. E, finalmente, a categoria de dimensão ética ou consciência histórica, como a faculdade para valorizar o fenômeno relacionando-o tanto com o seu contexto quanto com o presente. Como complemento analítico para a organização das narrativas, também recorremos à taxonomia elaborada por J. Biggs e C. Tang (2007) conhecida por SOLO (Structure of the Learning Outcome), uma ferramenta criada para o ensino superior que categoriza os níveis de complexidade do pensamento aplicado a trabalhos escritos relativamente a um tema, partindo de níveis básicos ou de reconhecimento, até níveis de abstração profunda. O estudo de relatos históricos também permite que nos aproximemos ao grau de mediação cultural de esquemas narrativos preexistentes. De fato, a partir da psicologia social podemos compreender as representações sociais do passado mediante a noção de “ação mediada” (WERSTCH, 2002): esta perspectiva baseia-se em que as referidas representações decorrem do consumo e uso que as pessoas façam de narrativas já existentes, entendidas como ferramentas culturais a modo de teoria implícitas. Werstch (2002 e 2004) distingue dois grandes tipos de narrativas: por um lado, os esquemas narrativos mestres ou narrativas mestras que operam como modelos construídos num contexto social e partilhados no seio de um coletivo que condicionam as representações sociais do passado; por outro lado, as narrativas específicas, entendidas como discursos, usos ou consumos dessas narrativas mestras geradas pelas pessoas ou pelos coletivos, podendo ser de natureza muito diversa. Este modelo teórico pode, de certa forma, aplicar-se às narrativas nacionais e aos diferentes discursos, usos e representações do passado gerados por pessoas e grupos. As narrativas nacionais, bem como a história
Narrativas nacionais e competência histórica na formação inicial de professores primários espanhóis Jorge Sáiz Serrano, Cosme Jesús Gómez Carrasco, Ramón López Facal Revista Tempo e Argumento, Florianópolis, v. 9, n. 22, p. 174 - 197, set./dez. 2017. p.178 Tempo & Argumento oficial difundida por um Estado-nação, funcionam como narrativas mestras que medeiam ou condicionam as representações sociais sob a forma de narrativas específicas (com as suas personagens, eventos, etc.) criadas por indivíduos e por grupos. Essa mediação verifica-se tanto no conteúdo quanto na forma. Na forma, segundo o sujeito narrativo atue e a primeira pessoa do plural seja utilizada revelando diferentes formas de identificação, tais como gênero ou grupo, sendo uma delas, a nacional (BARTON e LEVSTIK, 2004; PLÁ, 2005). Para este estudo, é importante observar o grau e a forma em que se usa a primeira pessoa do plural; quer o pronome “nós” quer o possessivo “nosso”, bem como o recurso essencial a referências explícitas à Espanha ou aos espanhóis na Idade Média. Isto constitui uma característica específica das narrativas nacionais (CARRETERO e BERMÚDEZ, 2012; LÓPEZ, CARRETERO e RODRÍGUEZ-MONEO, 2015). No que diz respeito ao conteúdo, a mediação narrativa também se constata na presença de fatos, personagens e termos próprios de uma narrativa nacional espanhola do período medieval. Consideramos aqui a existência de uma narrativa nacional sobre a história da Espanha, construída ao longo do século XIX, durante a consolidação do Estado-nação e do nacionalismo espanhol, embora difundida em grande escala ao longo do século XX. Um relato com conteúdos essencialistas que remontaria à unidade da “Espanha” (com fronteiras estáveis ou com uma unidade territorial) ou à origem de um coletivo de “espanhóis” a períodos pré-contemporâneos (LÓPEZ FACAL e SÁIZ, 2016). Entre eles, têm peso os do período medieval, pois consideram a expansão cristã em território muçulmano como um processo de gestação da Espanha, processo para o qual, no final do século XIX, se construiu o conceito de “Reconquista”, uma criação historiográfica que conferiu valor patriótico a um vocábulo já existente (RÍOS, 2011). Desde então, integrou-se no relato fundacional da identidade espanhola a expansão cristã como “Reconquista”. Paralelamente, considera-se o território e o período muçulmano, o Al-Andalus, a partir de um plano secundário e como uma alteridade, mais em termos culturais, como fase de convivência multicultural e/ou de esplendor cultural. Atualmente, os manuais escolares de história privilegiam o conhecimento declarativo da mudança política, como uma sucessão de etapas e espaços de Al-Andalus aos reinos
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Narrativas nacionais e competência histórica na formação inicial de professores primários espanhóis Jorge Sáiz Serrano, Cosme Jesús Gómez Carrasco, Ramón López Facal Revista Tempo e Argumento, Florianópolis, v. 9, n. 22, p. 174 - 197, set./dez. 2017. p.181 Tempo & Argumento Didática das Ciências Sociais de três universidades espanholas, seguindo alguns dos passos propostos por Alfageme, Miralles e Monteagudo (2010). 2 Estabeleceram-se diferentes categorias de informação, por sua vez divididas em níveis. A análise empírica piloto permitiu codificar quatro níveis de complexidade de marcadores de competências históricas. O nível 0 ou nulo, como ausência destas, correspondente a pouca informação substantiva e/ou a erros históricos notórios. O nível 1 ou básico, para os relatos que descrevem uma informação histórica mínima, apresentada linearmente, ou que contribuem com pelo menos um marcador de competências de pensamento histórico, embora com um nível baixo. O nível 2 ou médio, para trabalhos escritos com, pelo menos, dois marcadores de competências históricas, um deles de nível médio e outro de nível médio ou baixo. Finalmente, estabeleceu-se o nível 3 para trabalhos escritos com níveis de pensamento histórico alto por integrarem na sua explicação um ou mais marcadores de nível consolidado. Quanto aos conteúdos substantivos, fixaram-se outros quatro níveis. O nível 0 corresponde a relatos com vazios históricos notórios ou erros de informação graves, quer por não apresentarem dados, quer por apresentarem dados não pertinentes. O nível 1 atribuiu-se aos trabalhos escritos com mera informação descritiva com um ordenamento linear: contribuem com alguns marcos ordenados de forma correta. Trata-se de fatos político-territoriais, desde a invasão muçulmana da Península Ibérica, em 711, até a conquista cristã do reino de Granada em 1492. O nível 2 pertence a trabalhos escritos que combinam esse mesmo relato básico de acontecimentos políticos com fenômenos socioeconômicos, culturais e inclusivamente com avaliações sobre a herança muçulmana ou desse período. O nível 3 corresponde aos relatos de maior riqueza informativa que integram adequadamente explicações de conteúdo político com explicações socioeconômicas e culturais. 2 Utilizou-se um questionário para classificar de 1 a 4 a validade das categorias de análise e a adequação aos níveis de complexidade estabelecidos. Todos os itens receberam uma pontuação média que ultrapassou os 3 pontos. Também se pediu uma avaliação qualitativa do instrumento, que aplicasse as recomendações recebidas na fase de análise de resultados. A informação qualitativa recolheu-se e apresentou-se na base de dados Filemaker Pro, o que permitiu melhorar a formulação das categorias e os seus limites. A informação quantitativa foi posteriormente codificada no pacote estatístico SPSS v.17.0.
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Narrativas nacionais e competência histórica na formação inicial de professores primários espanhóis Jorge Sáiz Serrano, Cosme Jesús Gómez Carrasco, Ramón López Facal Revista Tempo e Argumento, Florianópolis, v. 9, n. 22, p. 174 - 197, set./dez. 2017. p.190 Tempo & Argumento A análise de outros marcadores nas narrativas valencianas proporciona dados complementares como a tipologia do sujeito narrativo dos trabalhos escritos. Embora predomine o recurso a um narrador implícito, em 25% dos relatos consta a primeira pessoa do plural. São referências de pertença a um espaço próprio (o nosso país, território, as nossas terras, a nossa península) ou expressões de identificação com pessoas e a sua cultura passada e o seu impacto no presente, especialmente com os cristãos ou com a influência dos “outros”, os muçulmanos, na “nossa” cultura, história, identidade, costumes e civilização identificada como a cristã do passado. Por outro lado, o aparecimento do termo Espanha ou espanhóis, do povo espanhol como vínculo do presente e do passado medieval, foi um marcador encontrado em 23% dos relatos. Além disso, combina-se com um protagonismo dos Reis Católicos no processo, embora também se destaque a figura de Jaime I: Em suma, o que finalmente criou a Espanha que atualmente conhecemos foi a união da rainha Isabel de Castela com Fernando de Aragão, que tornou possível a união dos territórios e a conquista final da península ibérica por parte dos cristãos. (Ref. 75 UV) Para assegurar a unidade nacional do país, os Reis Católicos utilizaram a religião católica como característica própria de todos os cidadãos espanhóis. (Ref. 82 UV) A Reconquista foi um longo processo que durou quase seis séculos e no qual, pouco a pouco, as tropas espanholas foram avançando do norte para baixo, conquistando os territórios e expulsando os muçulmanos (…). Lideradas por Jaime I no ano 1238, as tropas espanholas chegaram a Valência e no dia 9 de outubro conquistaram o território valenciano. (Ref. 128 UV) Os cristãos começaram a reconquistar os territórios de norte a sul da península e fizemos com que os muçulmanos se fossem retirando (…). Com a chegada dos Reis Católicos assistimos à unificação territorial e ao reforço da Coroa e então os Reis Católicos em 1492 acabaram a Reconquista de Espanha. (Ref. 124, UV) No ano de 722 deu-se a conquista da Península ibérica por parte dos muçulmanos. Os cristãos começaram a conviver com os muçulmanos até ao casamento e daí a união dos reinos de Aragão e Castela (por parte de Fernando e Isabel) que unificaram Espanha. (Ref. 107, UV) Constatam-se marcadores discursivos de ligação com uma comunidade imaginada nacional permanente ou formada no passado medieval, uma das características mais específicas das narrativas nacionais. É de particular interesse saber qual é a complexidade
Narrativas nacionais e competência histórica na formação inicial de professores primários espanhóis Jorge Sáiz Serrano, Cosme Jesús Gómez Carrasco, Ramón López Facal Revista Tempo e Argumento, Florianópolis, v. 9, n. 22, p. 174 - 197, set./dez. 2017. p.191 Tempo & Argumento cognitiva e a presença de marcadores de pensamento histórico entre estes relatos nacionais. Constata-se que 89% dos trabalhos escritos são, quer de nível nulo (19), quer de nível básico (descritivo e linear). Estes dados permitem enunciar uma nova hipótese: uma educação histórica mais completa, tanto em conteúdos quanto em competências de pensamento histórico, pode reduzir a presença de estereótipos próprios das narrativas nacionais. Seria conveniente alargar esta ligação, já constatada noutras investigações (LÓPEZ, 2012; SÁIZ e LÓPEZ FACAL, 2016; SÁIZ, 2015), a futuros estudos: em que medida um conhecimento histórico disciplinar mais sólido durante a formação inicial de professores de história e de professores primários, que inclua conteúdos substantivos e competências históricas, consegue reduzir as representações próprias das narrativas nacionais. Consideramos que a referida educação histórica poderia mitigar, embora não impedir, o impacto desta narrativa nacional, ao dotar os futuros docentes de ferramentas intelectuais para compreenderem e darem significado ao passado evitando identificações românticas e essencialistas. Discussão e conclusões Da análise dos resultados concluímos não ser possível verificar as hipóteses avançadas, especialmente no perfil comum de relatos de futuros professores primários: trabalhos escritos de complexidade organizativa multi-estrutural, com marcadores de competências de pensamento histórico (nível básico e médio) e que proporcionem conteúdos históricos básicos ou médios. Os resultados mostram que os futuros professores primários não têm educação histórica suficiente, tanto em conteúdos substantivos quanto em competências históricas. Os futuros professores primários revelam nos seus relatos que não contam com os níveis básicos de conhecimentos disciplinares e pedagógicos para ensinar história atendendo aos padrões aceitos pelas investigações de didática das ciências sociais (WINEBURG, 2001; BARTON e LEVSTIK, 2004; VANSLEDRIGHT, 2014). Os motivos desta deficiência são diversos. Por um lado, o programa do grau de Licenciatura em Ensino Primário na Espanha tem falta de conteúdos disciplinares históricos. Por outro lado, a pouca educação histórica aprendida no ensino
Narrativas nacionais e competência histórica na formação inicial de professores primários espanhóis Jorge Sáiz Serrano, Cosme Jesús Gómez Carrasco, Ramón López Facal Revista Tempo e Argumento, Florianópolis, v. 9, n. 22, p. 174 - 197, set./dez. 2017. p.192 Tempo & Argumento básico. De fato, na Primária e Secundária prevalece um ensino histórico decorrente da memorização de conteúdos factuais ou conceituais. Este fragmento é revelador: Os muçulmanos assentes desde há anos na península vêm-se invadidos por Jaime I e as suas tropas. Já não me lembro de mais nada porque me ensinaram de memória e naquela altura tive de vomitar isto numa folha. Tudo isto é o que suponho porque realmente não me lembro de o ter dado. (ref. 130 UV) Neste fragmento, reconhece-se a memorização de conteúdos que não se podem recordar. Esta seria a história escolar aprendida, a lembrança de textos acadêmicos decorrentes do currículo, muitos como narrativa nacional e eurocêntrica. As alterações para um currículo por competências educativas básicas em pouco ou nada teriam modificado este modelo de aprendizagem histórica, uma rotina escolar própria do código disciplinar da história como disciplina e a sua vigência em livros de texto (GÓMEZ, RODRÍGUEZ e MIRALLES, 2015; SÁIZ, 2015) e práticas docentes como exames (FUSTER, 2016; GÓMEZ e MIRALLES, 2015). Está acreditada a potencialidade educativa de competências de pensamento histórico na Primária. Os trabalhos de Cooper (2014), de Levstik e Barton (2008) ou de VanSledright (2011) mostram esse caminho no qual se prima pelo uso de fontes, métodos de indagação e raciocínio histórico. No entanto, a conceção epistemológica da história como saber fechado e não como uma disciplina intelectual de construção de conhecimentos está muito arraigada em países como Espanha, onde o ensino se baseia no relato linear de fatos do passado selecionados pelo currículo oficial, livros de texto, programação do estabelecimento de ensino e docente. É necessária uma intervenção transversal que aumente a presença da educação histórica (em conteúdos substantivos e em competências históricas, ambos relacionados) nos níveis educativos básicos (Primária e Secundária) e também na formação de futuros docentes. As deficiências documentadas neste estudo na organização de uma narrativa histórica por estudantes do Grau de Ensino Primário confirmam a necessidade de refletir sobre a formação dos professores primários para além dos aspetos pedagógicos e cognitivos genéricos, reforçando a sua educação histórica.
Narrativas nacionais e competência histórica na formação inicial de professores primários espanhóis Jorge Sáiz Serrano, Cosme Jesús Gómez Carrasco, Ramón López Facal Revista Tempo e Argumento, Florianópolis, v. 9, n. 22, p. 174 - 197, set./dez. 2017. p.193 Tempo & Argumento Referências ALFAGEME, Begoña; MIRALLES, Pedro; MONTEAGUDO, José. Diseño y validación de un instrumento sobre evaluación de la geografía y la historia en Educación Secundaria. Enseñanza de las Ciencias Sociales, v.10, p. 48-60, 2010. ANGUERA, Maria Teresa et al. Métodos de investigación en psicología. Madrid: Síntesis, 1998. ASHBY, Rosalyn. Developing a concept of historical evidence: students’ ideas about testing singular factual claims. International Journal of Historical Learning, Teaching and Research, v. 4, n. 2, p. 44-55, 2004. BAGE, Grant. Narrative matters: teaching and learning history through story. New York: Routledge, 1999. BARCA, Isabel. “Till new facts are discovered’: Students’ideas about objectivity in history. In: ASHBY, Rosalyn; GORDON, Peter; LEE, Peter (Orgs.). International review of history education: v.4 - understanding history: Recent research in history education. New York: Routledge, 2005, p. 68-82 BARCA, Isabel; SCHMIDT, Maria Auxiliadora. La consciencia histórica de los jóvenes brasileños y portugueses y su relación con la creación de identidades nacionales. Educatio Siglo XXI, v.31, n. 1, p. 25-45, 2013. BARCA, Isabel . History and temporal orientation: the views of portuguese-speaking students. In: CHAPMAN, Arthur; WILSCHUT, Arie (Org.), Joined-up history: new directions in history education research. Charlotte, NC: Information Age Publishing, 2015, p. 13-35. BARTON, Keith. Applied research: educational research as a way of seeing. In: MCCULLY, Alan, MILLS, G.; VAN BOXTEL, Carla (Orgs.). The professional teaching of history: UK and Dutch perspectives. Coleraine, Northern Ireland: History Teacher Education Network, 2012, p. 1-15. BARTON, Keith; LEVSTIK, Linda. Teaching history for the common good. New Jersey: Lawrence Erlbaum, 2004. BIGGS, John; TANG, Catherine. Teaching for quality learning at university: what the students does. Berkshire: McGraw-Hill, 2007. CARRETERO, Mario; BERMÚDEZ, Ángela. Constructing histories. In VALSINER, Jaan (Org.). Oxford handbook of culture and psychology. Oxford: Oxford University Press, 2012, p. 625-646.
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