As findas do debate entre Meen Rodriguiz Tenoiro e Juião Bolseiro (B403bis-V14)
Abstract
O debate entre Meen Rodriguiz Tenoiro e Juião Bolseiro, transmitido no Cancioneiro da Biblioteca Nacional (cod. 10991) e no Cancioneiro da Biblioteca Vaticana (Vat. Lat. 4803), conclui com duas findas notavelmente deterioradas pelos erros de cópia. Por este motivo, a passagem é uma das de mais difícil edição dos cancioneiros galego-portugueses. O presente trabalho consiste na análise do trecho em questão, com o objectivo de oferecer uma nova leitura do texto mais plausível.
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Data de recepción: 29.05.2014 ■ Data de aceptación: 21.11.2014. * Este trabalho colabora no desenvolvimento do projeto FFI2011-26785. VERBA, ISSN 0210-377X, 2015, vol. 42: 403-428 • SECCIÓN ARTIGOS As findas do debate entre Meen Rodriguiz Tenoiro e Juião Bolseiro (B403bis-V14)* Déborah González Universidade de Santiago de Compostela Resumo. O debate entre Meen Rodriguiz Tenoiro e Juião Bolseiro, transmitido pelo Cancioneiro da Biblioteca Nacional (cod. 10991) e pelo Cancioneiro da Biblioteca Vaticana (Vat. Lat. 4803), conclui com duas findas notavelmente deterioradas por erros de cópia. Por este motivo, esse texto é um dos de mais difícil edição dos cancioneiros galego-portugueses. O presente trabalho consiste na análise do excerto em questão, com o objetivo de oferecer uma leitura plausível. Palavras-chave: Lírica galego-portuguesa, tenção, findas, Meen Rodriguiz Tenoiro, Juião Bolseiro. AbstRAct. The two findas in the tenson of Meen Rodriguiz Tenoiro and Juião Bolseiro, copied in the Cancioneiro da Biblioteca Nacional (Cod. 10991) and in the Cancioneiro da Biblioteca Vaticana (Vat. Lat. 4803), are seriously damaged because of many transcription errors. The passage is view as one of the most problematic in the Galician-Portuguese Lyric. The aim of this paper is offering a new plausible reading of the text. Keywords: Galician-Portuguese Lyric, tenson, findas, Meen Rodriguiz Tenoiro, Juião Bolseiro. 1. APRESENTAÇÃO DO PROBLEMA Há alguns anos, a Universidade de Vigo iniciou, sob a direção dos professores Bieito Arias Freixedo e Alexandre Rodríguez Guerra (2009-), um interessante projeto em rede: um blog dedicado à crítica textual das cantigas profanas galego-portuguesas. Neste fórum chamado Locus Criticus, a professora Ângela Correia (2010) apelou à
VERBA, 2015, vol. 42: 403-428 • SECCIÓN ARTIGOS Déborah González404 necessidade de melhorar a fixação textual das duas findas que concluem a tenção entre Juião Bolseiro e Meen Rodriguiz Tenoiro, dado que, como esta mesma investigadora explicaria posteriormente noutro lugar: Embora o corpo do texto não ofereça grandes dificuldades de edição, as duas findas encontram-se especialmente corrompidas, o que talvez tenha resultado da deterioração material de um antecedente, na parte final do texto. Esta deturpação reflete-se nas divergências entre as edições das findas (Correia 2011: 22). Antecipamos que a demanda não conseguiu o objetivo ambicionado, mas, contudo, foi atendida pelo professor Rip Cohen, que começava assim a sua intervenção: Ângela Correia has chosen one of the most difficult passages in the secular lyric, one that seems impossible to edit. I would first of all suggest that this is one of many passages that makes it seems doubtful that B and V were copied from a single exemplar. There are just too many differences to reconcile with that theory (which I once believed in as doctrinal truth) (Cohen 2010 [25/01/2014]). Com efeito, esta tenção é transmitida nos dois apógrafos quinhentistas, o Cancioneiro da Biblioteca Nacional (Cod. 10991), B, e o Cancioneiro da Biblioteca Vaticana (Vat. Lat. 4803), V, mas a parte conclusiva apresenta-se notavelmente afetada pelos distintos erros de cópia tanto em B quanto em V, de tal modo que surpreende como dois testemunhos tão errados e tão diferentes neste lugar puderam sair de um mesmo modelo1. A vontade de estabelecer uma edição do conjunto das tenções galego-portuguesas conduziu-nos a um incontornável estudo deste debate e a uma necessária reflexão sobre as possibilidades de fixação das findas. Os problemas que aqui se expõem não encontraram rápida nem fácil resposta e a dificuldade do texto manuscrito torna qualquer solução puramente conjetural. Não obstante, a partir da consideração dos usos destes copistas —que, evidentemente, não incorrem nos mesmos vícios nem defeitos—, parece possível fixar uma hipótese de leitura mais ou menos fiável. 2. A LOCALIZAÇÃO DO TEXTO Esta tenção ocorre em B entre o f. 89v, col. b, e o f. 90r, col. a. Além da habitual numeração, que aqui se particulariza por repetir o número dado à cantiga anterior, há 1 Evidentemente, não é a nossa intenção avaliar essa questão neste trabalho. Sobre a tradição manuscrita, a hipótese do antecedente comum a B e V ou a existência de dois modelos distintos,
VERBA, 2015, vol. 42: 403-428 • SECCIÓN ARTIGOS As findas do debate entre Meen Rodriguiz Tenoiro e Juião Bolseiro 405 outras duas apostilas de A. Colocci em relação a esse texto. Uma das anotações aparece na margem inferior do f. 89v: Et nota que le tenzon fanno uno congedo per uno et per le rime infra 416. Esta referência remete para a cantiga 416 do mesmo cancioneiro, que corresponde à tenção entre Vaasco Martĩiz de Resende e Afonso Sanchez, a respeito da qual se lê: tenzon per le rime supra 403 (na margem inferior do f. 92r). O motivo destas anotações em ambos os debates poderá dever-se ao artifício das cobras doblas e, mais concretamente no diálogo de Bolseiro e Tenoiro —onde Colocci fez alusão ao congedo—, provavelmente pela identidade nas rimas das malparadas findas, destacadas pelo humanista por meio de um traço vertical (prática não infrequente em B). Estas observações e marcas são tanto mais surpreendentes se tivermos em consideração o resultado da cópia no apógrafo B, que nem reflete uma correta segmentação de todos os seus versos nem é facilmente compreensível. Temos de supor então que Colocci fez estes apontamentos a partir da leitura do modelo; aliás, só assim se entende que o humanista não tenha tentado dar solução à problemática transcrição, nem tenha oferecido qualquer apostila nesta parte do texto. Uma segunda anotação em relação ao diálogo encontra-se na margem direita do f. 89v, que chama a atenção sobre o género e a paternidade da cantiga: questa prima tenzon de [m]een roiz supra. Não é de todo evidente a razão que levou a Colocci a escrever «primeira», dado que esta é a única tenção que os cancioneiros recolhem com atribuição a Meen Rodriguiz Tenoiro, nem se corresponde à primeira tenção do cancioneiro B (mas é o primeiro debate que se acha nos fólios do códice da Vaticana, devido à sua conhecida condição acéfala). Talvez esta apostila tenha sido escrita no momento em que o humanista remetia para a cantiga 416, e nesse momento não se lembrasse da reprodução doutras tenções em fólios precedentes de B, que mesmo apresentam rubricas explicativas com atribuição aos autores (os textos são B142 e B144)2. Não obstante, parece mais provável que, neste ponto, a intenção principal do humanista fosse a de salientar a paternidade de Tenoiro, autor que toma a iniciativa do debate (tenha-se em consideração que, tirando poucas exceções, as tenções galego-portuguesas se transmitem no interior dos ciclos dos trovadores que começam o diálogo). A atribuição do texto a Tenoiro e a Bolseiro é inegável, dado que os nomes aparecem repetidamente na cantiga (pois, como é habitual nas tenções, os autores consulte-se: D’Heur (1974), Ferrari (1979, 1993a, 1993b e 2010), Gonçalves (1993 e 2007), Tavani (1969: 77-179; 1988 e 2002). 2 É evidente que Colocci reparou nestas cantigas e nas rubricas que as complementam; aliás de várias apostilas, desenhou uma mão indicadora ao lado de cada uma das prosas com a finalidade de chamar a atenção sobre elas (sobre esses dois textos, pode consultar-se González 2012, e em relação à manicula colocciana, veja-se González 2013).
VERBA, 2015, vol. 42: 403-428 • SECCIÓN ARTIGOS Déborah González406 apostrofam-se nos começos estróficos). Não obstante, no cancioneiro B, o diálogo ficou dentro de uma série outorgada a Afonso Fernandez Cebolhilha: no f. 89r, col. a, há uma rubrica que concede o texto B397 a Tenoiro; imediatamente a continuação desta cantiga, figura o nome de Cebolhilha, de tal modo que este fica como autor de uma série encabeçada por B398. Outra rubrica atributiva a Cebolhilha aparece no f. 90r, col. b. De tal modo, segundo a distribuição das atribuições em B, Tenoiro seria autor de B397 e da tenção B403bis, e Cebolhilha seria responsável por B398-B403 e B404-B405 (sequências interrompidas, precisamente, pelo debate B403bis). Por isto, talvez com questa prima tenzon de [m]een roiz supra, Colocci pôde querer salientar a paternidade de um trovador cuja rubrica atributiva ficara no f. 89r (e de aqui o supra). Contudo, existem indícios suficientes que apontam para uma paternidade dos ciclos diferente daquela que oferece B: a cantiga anterior à tenção, B403, é só uma estrofe, que se identifica com a cobra inicial de uma cantiga de amigo reproduzida na secção correspondente sob a autoria de Meen Rodriguiz Tenoiro (B718-V319). Além disto, na Tavola percebe-se que houve certas complicações para dispor as referências numéricas em relação aos nomes dos autores, até ao ponto de Colocci ter utilizado signos para esclarecer a vinculação: 397 corresponde a Meen Rodriguiz Tenoiro; 404 a Afonso Fernandez Cebolhilha; 405 a Afonso Sanchez3. Encontra-se igualmente o 398 próximo ao nome de Cebolhilha, mas este ficou sem ligação explícita (lamentavelmente, pois, dada a problemática que se recolhe em B, acaso seria o mais merecedor de incorporar uma marca corroborativa). No cancioneiro vaticano, observa-se que a tenção corresponde a V14, transcrita a uma só coluna entre o f. 4v e o f. 5r4, e se apresenta no final do ciclo V7-V14 (canções correspondentes a B397-B403bis); a respeito da autoria, o ciclo é inteiramente atribuído a Meen Rodriguiz Tenoiro5. Neste códice não houve vacilação na adscrição da série, e há mesmo várias rubricas a recordar a paternidade do trovador (sobre V7, no f. 2v, na margem superior do f. 3v e no f. 4v sobre a tenção). Em vista disto, podemos concluir que a tenção B403bis fecha a série de cantigas de Tenoiro transmitidas (não todas devidamente) na secção de amor dos apógrafos B e V, e que a rubrica a Cebolhilha escrita sobre o texto B398 deve obedecer a um engano de Colocci. 3 Mas, em B, a cantiga 405 aparece atribuída a Cebolhilha e a série de Afonso Sanchez começa em 406 (veja-se Gonçalves 1976: 437). 4 Na margem esquerda do f. 4v, figura o número LXXXVIIJ, que forma parte do sistema de referências fixadas por Colocci no códice vaticano, cujo valor não está totalmente esclarecido. Sobre este, consulte-se Monaci (1875: VII-VIII), Tavani (2002 e 2008), Ferrari (1993b e 2010). 5 Em V transcreveu-se a seguir, como parte do diálogo, vários versos que parecem corresponder a uma cantiga de amor, mas finalmente foram riscados.
VERBA, 2015, vol. 42: 403-428 • SECCIÓN ARTIGOS As findas do debate entre Meen Rodriguiz Tenoiro e Juião Bolseiro 407 3. A TEMÁTICA E A ESTRUTURA DO TEXTO O estudo do conjunto dos debates galego-portugueses transmitidos em B e/ou em V permite identificar um talho especialmente recorrente no género, consistente em quatro estrofes de sete versos decassílabos; aliás, com frequência, o debate conclui com duas findas de três versos decassílabos. Além disso, normalmente, os pares estróficos relacionam-se por meio do artifício das cobras doblas. Sem lugar para dúvida, as estrofes do diálogo entre Tenoiro e Bolseiro adaptam-se aos modelos maioritários; em concreto, consta de quatro cobras de sete versos decassílabos agudos que seguem a fórmula abbacca, e duas findas de três versos, que necessariamente são também decassílabos, apresentam a mesma fórmula e utilizam rimas idênticas. Na cantiga, verifica-se o emprego da técnica das cobras doblas e, neste caso, as rimas que se utilizaram nas findas parecem coincidir com as rimas iniciais das estrofes III e IV (aab), e não com as dos versos finais, como acontece amiúde nas tenções. Na fixação do texto das findas, sendo que estas funcionam normalmente como epítome do diálogo, é imprescindível levar em consideração a temática e os argumentos que os autores empregaram nas estrofes anteriores. A este respeito, a particularidade desta tenção é que se distancia de ser paradigma de um diálogo lírico razoado, no qual os trovadores procurassem medir as suas respetivas habilidades pelo uso dos melhores argumentos. Longe dessa idealizada joute poétique, Tenoiro e Bolseiro estabeleceram um debate onde, aparentemente, não há mais fio argumental do que a ameaça física e a agressividade verbal, sendo observada uma atitude mais belicosa da parte de Tenoiro e mais passiva e defensiva da parte de Bolseiro —diferença que tem sido objeto de diferentes interpretações que não iremos analisar neste lugar—6. A violência plasma-se verbalmente por meio do uso frequente de vocabulário que remete para esse campo semântico (couces, ferir, entençon, punhada...), destinado a enfatizar as noções de agressão e de luta, assim como o emprego de insultos 6 Para Reali: «L’atmosfera, sia pure letterariamente esasperata, della tenzone ci fornisce un’immagine davvero meschina di Bolseyro, allora agli inizi del suo faticoso “iterˮ di poeta per professione: l’impaccio ostentato in tutta la composizione è infatti una riprova che essa fu scritta nel periodo giovanile, quando il giullare, inconsapevole delle proprie possibilità, non aveva ancora attinto dalla gioia della creazione poetica il coraggio per un “modus vivendiˮ più dignitoso e sereno» (Reali 1964: 16). No entanto, é pouco o que se conhece deste autor; há de ter-se em conta a informação publicada por Souto Cabo (2012), que apresenta um Iulianus Arie, bulsarius em possível relação ao meio catedralício compostelano já em 1240. Para Lopes, o tom da discussão fica próximo das disputas infantis e, segundo esta investigadora, «a intenção é muito mais jocosa do que agressiva. Podemos mesmo imaginar uma qualquer encenação teatral» (Lopes 2002: 326). Para Correia (2011), este texto seria uma paródia de uma tenção anterior e teria por hipotético alvo satírico a Rodrigu’Eanes de Vasconcelos.
VERBA, 2015, vol. 42: 403-428 • SECCIÓN ARTIGOS Déborah González408 e termos propostos com valor pejorativo (cochon, coteife nojoso, rapaz mui mao, vilão...). 4. ANTERIORES LEITURAS DAS FINDAS Antes de apresentar as principais leituras das findas, é imperioso reproduzir o trecho em B e em V, de tal forma que o leitor estará em posição de julgar a pluralidade existente e, igualmente, permitirá uma melhor avaliação das explicações que exporemos mais adiante. Cancioneiro da Biblioteca Nacional Cancioneiro da Biblioteca Vaticana B403bis (f. 90r, col. a) V14 (f. 5r) Como se pode observar, tanto em B como em V, o texto das findas aparece gravemente alterado pelos erros de cópia e deduz-se que os respetivos copistas encararam um modelo que se caracterizaria neste lugar por uma difícil legibilidade. A complicação recolhida nos manuscritos reflete-se na diversidade de propostas conjeturais que obteve a parte final da composição. Michaëlis 453 (1990, I: 879): –Juyão, pois, te quer[o] eu filhar pelos cabelos, e quer’ arrastar; e que dos couces te pes [eu farei]. –Meen Rodriguiz, se m’eu respons(?) dar, ou se me cal(o), ou se vus dẽostar’, ay trovador, ja vus non amarei.
VERBA, 2015, vol. 42: 403-428 • SECCIÓN ARTIGOS As findas do debate entre Meen Rodriguiz Tenoiro e Juião Bolseiro 409 Apesar da usual excelência que caracteriza as propostas da editora alemã, para esta composição só contou com o testemunho de V e a leitura não pode ser qualificada de satisfatória, pois mesmo praticou emendas em lugares que, graças ao cotejo entre os testemunhos, podem considerar-se mais ou menos fiáveis: por exemplo, são inadequadas as correções quer[o] e quer’ no primeiro e no segundo verso, o verbo fano na segunda finda foi corrigido a cal(o) e a emenda à forma verbal amarei é injustificável no contexto. A mesma Michaëlis reconhecia: «É de esperar que da indispensavel collação com o CB resulte um texto menos deturpado. As fiindas principalmente necessitam emendas» (Michaëlis 1990, I: 878). Machado-Machado 346 (1950: 206): –Iuyão, pois quer t eu filhar pelos cabelos e quer t arrastrar e a grandes couces te possetrerey. –Meen Rrodriguiz, se m’ eu trosquiar, ou se me fino ou se me crestar, ay trouador, ia uos non trouarey. Estes editores reproduziram a leitura de Michaëllis e, ademais, a do códice vaticano de Braga: –Juyão poys quer’ eu filhar pelos cabellos, e quer’ arrastrar a quem dos couces te pez’ que entençey. –Meem Roiz, se m’ eu repostar ou se me salvo ou se me quero estar, ay tunador, já ves, nunca mays a direi (Braga 1878: 3). O texto fixado pelos Machado —que levaram em consideração o de Michaëlis e também as observações de H. Lang a propósito de respons(?), recolhidas na sua recensão à edição do Cancioneiro da Ajuda (Lang 1908: 396-397)— não chega a ser satisfatório. Ademais das complicações para editar o v. 3, a finda I inclui emendas que se estimam desnecessárias. Contudo, a finda II oferece alguma melhora em relação ao texto da editora alemã, especialmente nos vv. 1 e 2. Reali 1 (1964: 11): Juyão, pois que t’eu filhar pelos cabelos, e que t’arrastrar, que dos couces te pês eu creerey.
VERBA, 2015, vol. 42: 403-428 • SECCIÓN ARTIGOS Déborah González410 Meen Rodríguiz, se m’eu trosquiar, ou se me fano, ou se me crestar, ay trovador, já vos non torvarey. Reali estabeleceu uma hipótese de leitura algo mais fiável e menos discutível que a de Michaëlis, ao poder dispor dos dois testemunhos. O primeiro verso tem base nos manuscritos —que se define por ser o menos problemático, mas hipómetro, e assim o reproduziu Reali—, e igualmente o v. 2 é mais acertado que o dos editores anteriores (graças à identificação da conjunção que, nos vv. 1 e 2). Sem dúvida, mais questionável é a leitura do último verso de cada uma das findas: principalmente o v. 3 da finda I, que apresenta uma estrutura um tanto forçada (quase tanto como o seu sentido). Por esta razão, discrepamos abertamente do sintagma que a editora propôs. Lapa 302 (1995: 198): –Juião, pois que t’ eu [for] filhar pelos cabelos e que t’ arrastrar, que dos couces te pês eu creerei. –Meen Rodríguez, se m’ eu trosquiar, ou se me fano, ou se m’ en trescar, ai, trobador, já vos non travarei. Lapa reconhecia que: «O final da tenção não apresenta um texto muito claro, e a nossa interpretação, encostada o mais possível à letra dos apógrafos, é um pouco conjectural» (Lapa 1995: 197). O professor português tratou de dar solução ao problema métrico do v. 1 mediante a integração da forma verbal for, dando lugar a uma perífrase verbal neste verso, for filhar, e que se deve subentender no verso seguinte, (for) arrastrar. A hipótese não convence; o feito de poder interpretar filhar e arrastrar como futuros de conjuntivo faz duvidosa uma correção desse calibre. Por outra parte, o v. 3 da finda I identifica-se com o de Reali, igual que a parte final do v. 1 da finda II. No segundo verso desta finda II, Lapa defendeu uma forma trescar, que interpretou como ‘sofrer pisaduras’ (Lapa 1970: s.v. trescar); mas a expressão apenas se encontra nesta cantiga, pelo qual não parece uma proposta plenamente satisfatória. Silva 3 (1993: 171): –Juião, pois que t’ eu filhar pelos cabelos e que t’ arrastrar o que dos couces te pe[n]se crerei.
VERBA, 2015, vol. 42: 403-428 • SECCIÓN ARTIGOS As findas do debate entre Meen Rodriguiz Tenoiro e Juião Bolseiro 411 –Meen Rodríguiz, se m’ eu trosquiar ou se me fano ou se me crestar ai, travador, já vos non travarei. Este autor de uma edição das tenções galego-portuguesas (trabalho de mestrado que lamentavelmente ficou inédito) apresentou um primeiro verso da finda I sem contemplar restituições, já que, para ele, a sílaba carente poderia encher-se com uma pausa métrica depois do vocativo. Do meu ponto de vista, o grande acerto deste editor, respeito dos textos dos editores anteriormente comentados, consistiu na identificação da expressão travador no último verso e a expressão em rima travarei, pois, como se exporá, obedece mais fielmente ao que parece recolher-se nos manuscritos. Apesar desta notável melhora, ainda ficaram dúvidas, especialmente em relação ao v. 3 da finda I. Lopes 267 (2002: 327)7 –Juïão, pois que t’[or’] eu filhar pelos cabelos e que t’arrastrar, ah que dez couces te presentarei! –Meem Rodriguez, se m’eu trosquiar, ou se me fano, ou se m’encostar, ai, trobador, já vos nom tornarei! Do mesmo modo que intencionara Lapa, esta editora tentou de dar resposta ao problema métrico do v. 1 da finda I. Para o v. 3, procurou um sentido contextual a partir das erradas lições de B e V, que não chega a ser totalmente satisfatória. Sobre este verso, G. Videira Lopes explicava: «Verso de leitura muito difícil nos mss., pelo que a sua reconstituição será sempre conjectural No que respeita a dez couces, também seria possível ler do[u]s em vez de dez; é uma questão de número de couces que parecem diferir nos dois mss.» (Lopes 2002: 327, nota ao v. 31). Em relação aos vv. 2 e 3 da segunda finda, do meu ponto de vista, a hipótese supõe um retrocesso respeito da leitura de Silva. 7 A mesma proposta recolhe-se em CMGP [25/01/2014], unicamente diferenciada no primeiro verso da finda I: Juïão, pois que t’eu [ora] filhar. Do ponto de vista métrico não é aceitável a integração de uma partícula dissilábica.
VERBA, 2015, vol. 42: 403-428 • SECCIÓN ARTIGOS Déborah González418 5.5. Linha 5 B: ou ʃeme fano ou ʃeme caɼoʃtar V: ou ʃome fano ou ʃeme q oʃtar Verso 33: ou se me fano, ou se me crastar, Este verso não apresenta graves problemas de edição, mas é indispensável emendar a palavra em rima. O testemunho de B permite uma correção fácil (advertimos que, em caɼoʃtar, a representação da abreviatura é convencional), mas em V figura q ostar, pelo que <cr> (ou talvez <cɼ>) teria sido confundido com <q>, acrescentando a marca de abreviação. A partir da observação das variantes, devemos supor que o antecedente oferecia aqui uma lição já errada, consistente na reprodução da abreviatura e, ao mesmo tempo, a transcrição da sílaba completa, mas de forma incorreta, dado que o verbo não obedecerá a «crostar» mas a crastar. A parte final do verso recebeu diferentes leituras: Michaëlis deu prioridade a dẽostar. Como foi exposto, Lapa fixou um sintagma consistente em m’en trescar, definido como ‘sofrer pisaduras’. Lopes propôs o verbo m’encostar, entendido como ‘morrer’. Os Machado, Reali e Silva coincidiram em crestar, que é uma variante hipotética possível. Porém, em vista da abreviatura em B e de ser a forma crastar muito mais frequente que crestar (‘castrar’, a partir do latim CASTRĀRE), segundo se conclui dos exemplos apresentados por R. Lorenzo (1977 [04/08/2014]: s.v. crastar) e das ocorrências que se recolhem no Corpus Xelmírez (04/08/2014)11, esta será a forma preferida no texto. Por último, os testemunhos autorizam a forma verbal fano, já adoptada por uma parte dos editores anteriores (Reali, Lapa, Silva e Lopes). Desde o ponto de vista semântico, fanar equivalia, em geral, a ‘mutilar’, ‘cortar unha parte do corpo’, valores ainda vigentes hoje; de tal modo, se me fano significará ‘se fico mutilado’. Esta parece ser a única ocorrência de fanar no conjunto da lírica profana, mas reaparece na produção religiosa, também num contexto de agressão física: Sobr’esto muitos chrischãos | foron mui mal açoutados e outros a paancadas | os costados ben britados, e ar outros das orellas | porende foron fanados (Mettmann 1986-1989, III: 161; CSM328, vv. 55-57). 11 Em realidade, no Corpus Xelmírez [05/09/2014], só encontramos algumas ocorrências de crastar e nenhuma de crestar.
VERBA, 2015, vol. 42: 403-428 • SECCIÓN ARTIGOS As findas do debate entre Meen Rodriguiz Tenoiro e Juião Bolseiro 419 5.6. Linha 6 B: aẏ tauador iaue9 nõ tarue’y V: ay tūador imes nõ tam oy adiz’ Verso 34: ai, travador, ja vos non travarei! É a segunda parte do verso a que oferece maiores dificuldades. Não obstante, as edições críticas consultadas mostram uma grande hesitação em relação ao substantivo que se encontra no começo do verso, travador, o qual se dispõe, tanto em B como em V, sem erros de cópia. Todos os editores, à exceção de Silva (que deu prioridade a travador), modificaram a expressão a trovador ou mesmo a trobador (dado que, nos cancioneiros galego-portugueses, este termo figura escrito normalmente com <b> e não com <v>), mas estas formas não respondem à lição de B (pode duvidar-se em V, devido à abreviatura geral utilizada pelo copista). A abreviatura que figura na representação da variante em B (que de forma convencional represento como <a>), encontra-se comummente no Colocci-Brancuti com o valor ar/ra12. Compare-se este caso com vários exemplos tirados do mesmo fólio ou de fólios próximos do cancioneiro: travador, f. 90r; grave, f. 87r; gram, f. 89v; garganta, f. 90r; utras donas, f. 95r. Como se pode calcular, os registos deste signo são numerosíssimos ao longo de B. No entanto, não podemos oferecer outros exemplos da abreviatura utilizada em travador no interior dos apógrafos. A procura deste substantivo nas duas bases de dados da lírica profana galego-portuguesa evidencia que nem sequer se documenta a forma: isto porque na MedDB2 se adotou a edição de G. Videira Lopes (2002) para este texto —que, lembremos, emendou o verso a ai, trobador, já vos nom tornarei!—, e esta mesma leitura é a que se reproduz na base de dados CMGP [25/01/2014]. Porém, a falta de documentações no corpus lírico não deve fazer obstar a possível adequação e correção do substantivo. De facto, a expressão está documentada por R. Lorenzo: luitador e travador de grandes ligeirices (Lorenzo 1968 [02/02/2014]: s.v. travador). Também se encontra no castelhano, no Libro de las formas y de las ymágenes (1279) de Alfonso X: pora seer pobre lazrado trauador & sofridor (Sánchez12 Mas não parece ter o valor or/ro. Em concreto, para a palavra trobador, encontrei poucos casos com a sílaba inicial parcialmente abreviada no cancioneiro B. Em todos eles, a abreviatura corresponde a <o> (que se apresenta normalmente nos cancioneiros com valor ro ou or): na tenção entre Coelho e Bolseiro (B1181-V786) regista-se tobadores em B e V (v. 10), aliás de tobador em V (v. 23). Também a forma tobador em V597 (v. 11). Reaparece a abreviatura, ainda que mal situada, em B1573: faz otbador (v. 12).
VERBA, 2015, vol. 42: 403-428 • SECCIÓN ARTIGOS Déborah González420 -Prieto Borja 2003 [02/02/2014]). No texto da tenção, pode observar-se como um correto derivado de travar, verbo que se documenta com relativa frequência nas cantigas religiosas e profanas (nomeadamente, em tenções e sátiras de tema literário) com o sentido ‘repreender’, ‘dizer mal’, ‘censurar’, ‘pegar’ (Nunes 1928; Mettmann 1972; Lapa 1970: s.v. travar [02/02/2014]). Reconhecemos que as expressões com o verbo travar ocorrem principalmente em composições de tema escarninho estabelecendo um jogo léxico baseado na paronomásia com formas como trobar e trobador (é possível que isto pesasse nas leituras dos editores nesta tenção); sirvam como exemplos os seguintes enunciados tirados doutras cantigas galego-portuguesas: E outro trobador ar quis travar / en ũa cobra (MedDB2 [04/02/2014]: 2,22 vv. 8-9); mays lus trobadores travar-vos-an (60,5 v. 26); que trobastes sempre d’ amor por mi / e ora vejo que vus travam hy (64,5 vv. 2-3); ca no vosso trobar sei-m’ eu com’ é: / i á de correger, per bõa fe, / máis que nos meus, en que m’ ides travar (70,28 vv. 2628); E pois vos assy travam en trobar, / de vos julgar, senhor, non me coitedes (88,13 vv. 13-14); de vós porque m’ ides sempre travar / en meus cantares, ca ssey ben trobar (88,14 vv. 2-3)13. Embora não se registem outras ocorrências de travador no corpus profano, é possível ter em consideração a representação que adopta o verbo travar. Contudo, nas ocorrências que se encontram mediante uma pesquisa nas bases de dados da lírica profana, observa-se que o uso da abreviatura nesta expressão é pouco usual. Normalmente, a sílaba inicial aparece transcrita ao completo, razão pela qual só podemos chamar a atenção sobre a cópia de um texto: a tenção que mantêm o trovador Joan Garcia de Guilhade e o jogral Lourenço, B1493-V1104 (v. 28). A abreviatura empregada pelo copista d em travador-B403bis pode julgar-se afim à utilizada pelo copista a em B1493 (f. 312v, col. b), no infinitivo ẽq mides tauar (em V a abreviatura adoptou outra forma, um traço que represento como enq mides t’uar)14: (em B1493) 13 O destacado uso de travar em composições satíricas foi já constatado por C. Michaëlis, que explicava a presença da expressão em «ataques verbais a poetas com os quais se começa uma disputa, questionando a sua habilidade, apresentado objecções, descubrindo faltas, enfim, pondo-lhes ‘escandalosos’ obstáculos no caminho. [...] Poder-se-ia traduzir travar em alg. c. ou em alg. por ‘levantar falso testemunho contra’; travar com alg. ‘começar disputa com alguém’. Sinônimos são cometer = atacar 868, 556, 155, desfazer = contestar CV 823, 1117, que também aparece nas cantigas das amas, e desloar CV 1104. O contrário é emparar = tomar a defesa de algo (CV 1117, e no nosso verso 117); se o poeta se defende a si mesmo a palavra de moda é defender CV 868» (Michaëlis 2004: 102-103). 14 Desestimo na valoração a abreviatura localizada no v. 5 de B1585-V1117, já que em B há um erro de cópia; em V1117 há uma abreviatura afim à utilizada em V1104 (a já referida tenção entre Guilhade e Lourenço).
VERBA, 2015, vol. 42: 403-428 • SECCIÓN ARTIGOS As findas do debate entre Meen Rodriguiz Tenoiro e Juião Bolseiro 421 Levando em consideração o que foi exposto, julgamos correta a lição de B e V no caso do substantivo travador, que equivale a ‘maldizente’ ou ‘pegador’, e, em vista do contexto, talvez seria admissível um jogo semântico a partir do valor ‘pegar’ que regista o verbo travar. A ocorrência do substantivo pode pôr-se em relação com a presença do verbo correspondente na parte final do verso, onde B e V oferecem, neste caso sim, diversos erros de cópia: iaue9 nõ tarue’y em B, imes nõ tam oy em V. A necessidade de oferecer uma palavra de rima -ei (em associação com porregerei), favorece a ideia de um futuro travarei, não excessivamente afastado da lição de B: neste manuscrito, a sequência <ar> explica-se por um erro de cópia por metátese das grafias ou por um desenvolvimento errado de uma abreviatura com valor ar/ra. O problema devia reproduzir-se já no modelo, onde talvez a legibilidade era dificultosa, dado que V apresenta <am >, onde B oferece <aru>. A marca de abreviatura que completa a parte final do verbo fica em B ligeiramente deslocada em <ue’y>, pois corresponderia <u’ey>. Travar é plenamente congruente no contexto, pois, como já se explicou, o verbo ocorre com frequência em textos satíricos de tema literário. Como ficou dito, os autores deste diálogo recorreram às ameaças e aos insultos, mas, desde o início da cantiga, é óbvio o jogo semântico criado a partir do uso equívoco de entençar e entençon, que podem fazer menção tanto a uma briga física como a uma justa poética. Em consequência, do ponto de vista paleográfico e semântico, travarei julga-se mais acertado do que amarei, torvarei ou tornarei, propostas por Michaëlis, Reali e Lopes, respetivamente. 6. EDIÇÃO CRÍTICA DO TEXTO A finalidade deste trabalho foi mostrar não apenas a possibilidade de editar as findas, mas principalmente a de tentar estabelecer uma leitura o mais fiável possível, baseada nos testemunhos e no trabalho dos amanuenses dos apógrafos B e V, manejando uma série de hipóteses sobre a ocorrência de alterações e entendendo que estas se teriam cometido pelo estado já defeituoso do modelo, talvez muito deturpado pela inclusão de erros ou mesmo pela escassa legibilidade15. 15 Para a fixação do texto, seguimos essencialmente os critérios reproduzidos em Ferreiro-Martínez Pereiro-Tato Fontaíña (2007). No aparato crítico, as variantes significativas e gráficas distribuíram- -se em duas franjas. Utilizamos o ponto (.) —que non se apresenta no aparato crítico com outro valor— para delimitar as distintas variantes no interior de um mesmo verso.
VERBA, 2015, vol. 42: 403-428 • SECCIÓN ARTIGOS Déborah González422 B403bis, f. 89v, col. b – f. 90r, col. a V14, f. 4v – f. 5r –Juião, quero contigo fazer, se tu quiseres, ũa entençon; e quer[r]ei-te, na primeira razon, ũa punhada mui grande poer 5 eno rostr[o] e chamar-te rapaz mui mao; e creo que assi faz boa entençon quen a quer fazer. –Meen Rodriguiz, mui sen meu prazer a farei vosc’, assi Deus me perdon; 10 ca vos averei de chamar cochon pois que eu a punhada receber, des i trobar-vos-ei mui mal assaz; e atal entençon, se a vós praz, a farei vosco, mui sen meu prazer. 15 –Juião, pois tigo começar fui, direi-t’ora o que te farei: ũa punhada grande te darei, des i quer[r]ei-te muitos couces dar na garganta por te ferir peor, 20 que nunca vilão aja sabor doutra tençon comego começar. –Meen Rodriguiz, que[r]rei-m’emparar, se Deus me valha, como vos direi: coteife nojoso vos chamarei, 25 pois que eu a punhada recadar; des i direi, pois so os couces for: «Lexade-m’ora, por Nostro Senhor!», ca si se sol meu padr’a emparar. –Juião, [e] pois que t’eu filhar 30 pelos cabelos e que t’arrastrar, aqueles couces te porregerei! –Meen Rodriguiz, se m’eu trosquiar, ou se me fano, ou se me crastar, ai, travador, ja vos non travarei!
VERBA, 2015, vol. 42: 403-428 • SECCIÓN ARTIGOS As findas do debate entre Meen Rodriguiz Tenoiro e Juião Bolseiro 423 1 Iuy’ão B 2 entencõ B entẽton V 3 et B . q reyte BV 5 rostre BV . trapaz V 6 maor creo B mas τ qeo V 7 entẽţõ BV 8 spoīz V 9 đz me perdem V 10 tauos auey V 11 apunlxida V 12 tebar uos ey V . assam V 13 et V . entẽcõ B entengõ V . se auez B 14 men praz B . men V 15 cometar B comeţar V 18 q reyte B q reyte V . muy toz couce9 B muẽtos toues V 19 Ina V 20 nuca V 21 truotra V . comecar B . cometar V 22 q reym B q roym V 23 se se B . como ua V 24 coreyfe BV 25 retadar B retadu V 26 soaz coutesfor B 27 np o V 28 cā asy B ca asy V 29 Iuy’as B Jupiao V . ceu B 30 pedes tabe lez rq cassastrar B palos tabelam τ q tassastrar V 31 e a q des B a q dos V . cougas V . te possetrerey B te pessegẽgey V 32 Meã rroīz semen trosqiar B Mene spiz so meu tps dar V 33 ou some fano V . carostar B . q ostarV 34 iaue9 B imes V . tarue’y B tam oy V 1 Juyãõ V . q ro BV . faz’ BV 2 qise res B qiseres V . hũa BV 3 τ V . pimeyra razõ BV 4 hũa BV . muy B . grãde B grã de V 5 rrapaz 6 muy B . q assy BV 7 q na BV . faz’ B faz V 8 r riz B . muy BV . praz’ BV 9 afarey B a farey V . uoscassy B uos cassy V . đs me pdom B 10 cauos aue’y de chamarco chõ B 11 poys q eu BV 12 desy BV . tobar uos ey B . muy BV 13 τ B . auos V . paz B pz V 14 afarey B a farey V . uosco BV . muy BV . praz V 15 Iuyão B Juyãõ V . poys BV 16 fuy B . direytora B dyreytora V . oq B o q V . farey BV 17 hũa BV . grãde V . darey BV 18 desy BV 19 gaganta BV 20 q BV . nũca B . uylão BV . aia BV 21 tençõ B 22 rriz BV . enparar BV 23 đs me ualha BV . u9 B . dyrey BV 24 noioso uos chamarey BV 25 poys B Poys V . q BV 26 desy direy BV . couçes V 27 pr BV . nro B . senr BV 28 enparar BV 29 q BV 30 τ q V 32 rriz B 34 ay BV . tauador B tuador V . nõ BV BIBLIOGRAFIA Acevedo Huelves, Bernardo-Fernández y Fernández, Marcelino (1932): Vocabulario del bable de occidente. Madrid; in A. Santamarina (coord.): Diccionario de diccionarios. [A Coruña:] Fundación Pedro Barrié de la Maza, 2003; in RILG: Recursos integrados da lingua galega. http://sli.uvigo.es/RILG. Arias Freixedo, X. Bieito-Rodríguez Guerra, Alexandre (eds.) (2009-): Locus Criticus. Crítica textual en rede [em linha]. Vigo: Universidade de Vigo. https:// webs.uvigo.es/locuscriticus. Braga, Theophilo (ed.) (1878): Cancioneiro Portugues da Vaticana... Lisboa: Imprensa Nacional. CMGP = Lopes, Graça Videira-Ferreira, Manuel Pedro et al. (2011-): Cantigas Medievais Galego Portuguesas. Lisboa: Instituto de Estudos Medievais. FCSH/ NOVA. http://cantigas.fcsh.unl.pt. Cohen, Rip (2010): «Juião Bolseiro, quero contigo fazer», in X. B. Arias Freixedo- -A. Rodríguez Guerra (eds.) (2009-): Locus Criticus. Crítica textual en rede [em linha] 7 (2º trimestre 2010). Vigo: Universidade de Vigo. https://webs.uvigo.es/ locuscriticus/?p=209.
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