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Compromisso Desportivo: Passado, presente e futuro em Espanha e Portugal

Sousa, Catarina; García Mas, Alexandre; Sánchez Miguel, Pedro Antonio; Lois Río, Graciela

Abstract

O presente trabalho teve como principais objetivos situar as origens e abordar os principais resultados da investigação desenvolvida no domínio do compromisso desportivo, designadamente no que se refere à Península Ibérica, procurando ainda sugerir alguns dos principais desafios futuros que se colocam nesta área do conhecimento. Nesse sentido, é explicada a atual formulação do Sport Commitment Model, desenvolvido por Tara Scanlan e a sua equipa na UCLA, no âmbito do Sport Commitment International Scale Development Project, com o propósito de explicar porque continuam os atletas a sua prática desportiva ao longo do tempo, bem como é apresentado o instrumento elaborado por aqueles autores para testar o modelo proposto e posteriormente adotado pela maior parte dos pesquisadores nesta área; i.e., o Sport Commitment Questionnaire (SCQ). Adicionalmente, é explicado o processo de desenvolvimento da versão revista e melhorada daquele instrumento (o Sport Commitment Questionnaire-2; SCQ-2), com base no método de-centering que facilita a tradução e adaptação a diferentes idiomas visando obter um instrumento válido e fiável, atualmente em adaptação para as realidades portuguesa e espanhola. Finalmente, são indicados os que se consideram ser os principais desafios futuros à investigação nesta área: 1) adaptar o SCQ-2 para outros idiomas; 2) investigar o compromisso desportivo, considerando idade, género e nível competitivo dos indivíduos; 3) adaptar o SCQ-2 a diferentes âmbitos e agentes desportivos; 4) analisar a relação do compromisso desportivo com outras variáveis; e 5) desenvolver um instrumento de observação do compromisso desportivo

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Compromisso Desportivo: Passado, presente e futuro em Espanha e Portugal Catarina Sousa*, Alexandre Garcia-Mas**, Pedro Antonio Sánchez-Miguel*** e Graciela Lois**** SPORT COMMITMENT: THE PAST, PRESENT AND FUTURE IN SPAIN AND PORTUGAL KEYWORDS: Sport commitment, Sport Commitment Model, Sport Commitment Questionnaire, Research in Portugal and Spain. ABSTRACT: The main objectives of this paper are to discuss the origins and to address the main findings of research undertaken in the field of sport commitment, particularly with regard to the Iberian Peninsula, trying to suggest some key future challenges for this field of knowledge. An outline is given of the current configuration of the Sport Commitment Model developed by Tara Scanlan and her team at UCLA within the framework of the Sport Commitment Scale International Development Project in order to explain why athletes continue to do sport over time. A presentation is given of the tool developed by the said authors to test the proposed model, which has subsequently been adopted by most researchers in this field; that is, the Sport Commitment Questionnaire (SCQ). Additionally, an explanation is given of the process of the development of a revised improved version of the tool (the Sport Commitment Questionnaire-2; SCQ-2), based on the de-centering method, which facilitates its translation into and adaptation to different languages in order to obtain a valid reliable instrument - one that is currently being adapted to the Portuguese and Spanish cultures. Finally, the main challenges for future research in this field are outlined: 1) to adapt the SCQ-2 to other languages; 2) to investigate sport commitment, taking into account individuals’ age, gender and competition level; 3) to adapt the SCQ-2 to different contexts and sports stakeholders; 4) to analyze the relationship between sport commitment and other variables; and 5) to develop an instrument for monitoring sport commitment. Revista de Psicología del Deporte 2013. Vol. 22, núm. 2, pp. 525-531 ISSN: 1132-239X Universitat de les Illes Balears Universitat Autònoma de Barcelona Correspondência: Catarina Sousa . Departament Psicologia Bàsica, Evolutiva i de l’Educació. Edifici B. Universitat Autònoma de Barcelona. 08193 Bellaterra (Barcelona). España. E-mail: [email protected] * Universitat Autònoma de Barcelona. ** Universitat de les Illes Balears. *** Universidad de Extremadura. **** Universidad de Santiago de Compostela. — Artículo invitado con revisión Uma das principais preocupações atuais relativamente ao desporto infanto-juvenil consiste no número elevado de crianças e jovens que decidem abandonar precocemente a prática e nas potenciais consequências prejudiciais daí decorrentes (Torregrosa & Cruz, 2006). Na verdade, é particularmente reconhecida a importância das pessoas manterem um estilo de vida ativo, tanto enquanto jovens como adultos, assim como são conhecidos os seus benefícios para a saúde principalmente em determinadas populações (Castillo, Balaguer & García-Merita, 2007; Cervelló, Escarti & Guzman, 2007). Nesse sentido, investigar quais os fatores que influenciam jovens e adultos a adotarem a prática de um desporto e a comprometerem-se com a manutenção de um estilo de vida ativo adquire um relevo e uma importância assinaláveis. Ainda assim, e apesar da palavra compromisso ser um termo frequentemente utilizado neste domínio, bem como noutros também relacionados com o contexto do desporto, a investigação a respeito do compromisso desportivo a nível ibérico é relativamente recente (Sousa, Torregrosa, Viladrich, Villamarín & Cruz, 2007; Sousa, Viladrich, Gouveia, Torregrosa & Cruz, 2008), reclamando-se, por isso mesmo, a sua intensificação. Assim sendo, procura-se com este trabalho, por um lado, descrever, nos seus traços essenciais o desenvolvimento do Sport Commitment Model (SCM; Scanlan, Simons, Carpenter, Schmidt & Keeler, 1993), enquanto marco teórico privilegiado para estudar os fatores que levam os atletas a continuar a realizar a sua prática desportiva, e, por outro, abordar o modo como se foi desenvolvendo a investigação sobre esta temática em Portugal e Espanha, procurando ainda avançar com algumas sugestões sobre o futuro da investigação nesta área do conhecimento. Sport Commitment Model e Sport Commitment Questionnaire Apesar do interesse em integrar a variável relativa ao compromisso desportivo em investigações com diferentes coletivos e enfoques, até 1993 não existia na literatura científica qualquer instrumento válido e fiável que permitisse avaliar este construto. Nesse sentido, os autores do modelo do compromisso desportivo (definido, por eles, como o estado psicológico para continuar a praticar um desporto no decorrer do tempo), propuseram-se colmatar esta lacuna e desenvolver um instrumento que lhes permitisse validar o seu modelo teórico, criando o Sport Commitment Questionnaire (SCQ; Scanlan, et al., 1993). Concomitantemente, o mesmo grupo de investigação liderado por Tara Scanlan (Scanlan, Carpenter, Schmidt, Simons & Keeler, 1993; Scanlan, Simons et al., 1993) determinou as propriedades psicométricas do SCQ com base em três estudos realizados com uma média por estudo de 165 crianças e jovens americanos, de ambos os sexos e com idades compreendidas entre os 10 e os 20 anos de idade, praticantes de diferentes desportos (e.g., futebol, natação). Bem mais recentemente, verificando que o compromisso desportivo vinha a ser estudado principalmente com jovens atletas norte-americanos - na verdade, eram conhecidos apenas dois estudos realizados na Europa: i) com atletas de cricket em Inglaterra (Carpenter & Coleman, 1998); e ii) com membros de um ginásio na Grécia (Alexandris, Zahariadis, Tsorbatzoudis & Grouios, 2002) – e tencionando desenvolver investigação sobre esta temática em Espanha, Sousa, Torregrosa, Viladrich, Villamarín & Cruz (2007) procederam à tradução e adaptação transcultural do SCQ, aplicando a versão resultante a uma amostra constituída por 437 jovens futebolistas. Considerando os resultados positivos encontrados e tentando expandir a mesma linha de investigação a Portugal, porquanto a pesquisa neste domínio também era inexistente neste país, Sousa, Viladrich, Gouveia, Torregrosa & Cruz (2008) procederam igualmente à tradução e adaptação transcultural do SCQ para a língua e cultura portuguesas, tendo utilizado a versão resultante num estudo realizado com 850 atletas de Lisboa, Porto e Região Autónoma da Madeira com o objectivo principal da determinação das respectivas propriedades psicométricas. Com base nos dados recolhidos nestes dois estudos, aqueles autores propuseram-se também analisar a invariância transcultural e a equivalência métrica dos itens do SCQ nas referidas amostras de participantes portugueses e espanhóis, através do recurso às técnicas da Análise Factorial Confirmatória (AFC) e do Funcionamento Diferencial dos Itens, respetivamente, tendo os resultados apontado, de uma forma geral, no sentido da inexistência de diferenças marcantes. Efetivamente, os resultados obtidos apoiaram, pelo menos em parte, a assunção da validade da versão portuguesa do SCQ, bem como a semelhança estrutural das versões portuguesa e espanhola, as quais evidenciam algumas diferenças com a versão original (para a comparação com a versão original do SCQ foram utilizados os resultados publicados na literatura pelos respetivos autores). Mais especificamente, os resultados produzidos pela AFC forneceram suporte parcial para o modelo teórico testado, revelando a existência de um ajustamento global razoável à matriz de dados empíricos examinados e de índices satisfatórios de consistência interna para os itens de quatro dos seis fatores que fazem parte do modelo de compromisso desportivo (i.e., compromisso desportivo, divertimento desportivo, coações sociais e alternativas à implicação), registando-se apenas resultados insatisfatórios para os itens dos restantes dois fatores do modelo (i.e., investimentos pessoais e oportunidades de implicação). Adicionalmente, foi possível verificar que o divertimento se constituiu como o fator preditivo mais potente do compromisso desportivo, enquanto as alternativas à implicação o predisseram negativamente, corroborando assim os postulados do modelo teórico; ainda assim, de referir que o fator coações sociais não assumiu qualquer valor preditivo do compromisso desportivo (Sousa et al., 2007). Entretanto, entendendo o SCM como estando em processo de validação e considerando que os resultados iniciais não eram completamente conclusivos, Scanlan, Russell, Beals & Scanlan, 2003) decidiram recorrer à metodologia qualitativa e entrevistar jogadores de râguebi de elite, visando a exploração e expansão do respetivo modelo teórico e a compreensão e eliminação das lacunas existentes. Assim, nos últimos três anos, aqueles autores concentraram-se na tentativa de atualização do modelo e no aumento da sua compreensão sobre o compromisso desportivo, baseando-se igualmente nos estudos realizados através da utilização de métodos mistos ao longo de 19 anos de pesquisa. Neste processo, foi dedicada particular atenção aos resultados de natureza quantitativa dos estudos originais, mas também aos posteriores resultados de natureza qualitativa e aos resultados da investigação realizada em Espanha e Portugal. Com base nos resultados anteriores relativamente aos itens e fatores “questionáveis”, foram melhoradas e ampliadas as subescalas do SCQ e avaliados novos construtos adicionados mais recentemente ao modelo de compromisso desportivo, através do recurso ao novo Sport Commitment Questionnaire – 2 (SCQ-2), que passou a constituir-se como o instrumento de referência do Sport Commitment International Scale Development Project e a servir de base para o desenvolvimento e adaptação, atualmente em curso, de versões similares a outras línguas e culturas, de entre as quais poderemos destacar a portuguesa e a espanhola. Com o desenvolvimento deste novo instrumento e da reformulação do modelo de compromisso desportivo (que a seguir analisaremos em maior detalhe), deu-se assim origem à nova e atual fase de investigação, a qual se espera vir a atrair mais investigadores para esta área do conhecimento. Atual formulação do Sport Commitment Model O novo modelo de compromisso desportivo compreende onze determinantes ou fontes de compromisso desportivo, duas dimensões de compromisso (o Entusiasta/ Enthusiastic e o Constrangido/ Constrained) e a persistência como principal consequência comportamental das duas dimensões de compromisso. De recordar que o modelo inicial (proposto por Scanlan, Carpenter, et al., 1993) continha 5 determinantes para explicar a continuidade da prática desportiva ao longo do tempo, os quais se mantêm no novo modelo: o Divertimento/ Sport Commitment, as Oportunidades Valiosas/ Valuable Opportunities (designadas inicialmente como Involvement Oportunities) as Outras Prioridades/ Other Priorities (designadas inicialmente como Involvement Alternatives), os Investimentos Pessoais/ Personal Investments e as Coações Sociais/ Social Constraints. A estes cinco fatores foram agora adicionados dois novos fatores: o do Apoio Social/ Social Support e o do Desejo de Destacar-se/ Desire to Excel. Uma das principais novidades no novo modelo de compromisso desportivo é o facto de serem contempladas duas dimensões de compromisso: o Compromisso Entusiasta e o Compromisso Constrangido, correspondendo, respetivamente, ao “want to” e ao “have to”. Ou seja, o construto do Compromisso Desportivo/ Sport Commitment foi substituído pelo do Compromisso Entusiasta/ Enthusiastic Commitment, que corresponde à parte positiva, isto é, à “vontade própria” do compromisso. Importará também ressaltar que três fatores apresentam subcategorias: o dos Investimentos Pessoais, o do Apoio Social e o do Desejo de Destacar-se (para mais detalhes, consultar a Tabela 1). Com base no recurso a metodologias de investigação mista/ combinada (i.e., qualitativa e quantitativa), foram portanto sendo realizadas várias modificações e ampliações no SCM original, designadamente no que se refere à introdução de dois novos determinantes/ fontes (i.e., o Apoio Social e o Desejo de Destacarse) e de uma dimensão (i.e., a do Compromisso Constrangido) do compromisso desportivo. Quanto ao fator de Apoio Social, Catarina Sousa, Alex Garcia Mas, Pedro Antonio Sánchez-Miguel e Graciela Lois 526 Revista de Psicología del Deporte. 2013. Vol. 22, núm. 2, pp. 525-531 O construto de investimentos pessoais também foi ampliado através de duas abordagens. Enquanto a primeira é consistente com as investigações anteriores, no âmbito das quais se avaliava a quantidade de investimentos pessoais que um atleta realizava no seu desporto (Investimentos Pessoais - Quantidade), a segunda converge com Rusbult (1983) e avalia o nível de dificuldade em deixar o desporto devido aos investimentos pessoais já realizados (Investimentos Pessoais - Perda); ou seja, a possibilidade de perder os investimentos realizados atua como barreira para deixar o desporto. No sentido da aquisição de uma visão mais completa do processo de compromisso foi considerada uma segunda dimensão de compromisso: a do Compromisso Constrangido. Tal como mencionado anteriormente, esta dimensão não estava contemplada no modelo inicial; contudo, diversos estudos tinham vindo a abordar o duplo “papel” do compromisso (Weiss & Weiss, 2003; Young & Medic (2011). De resto, se retomarmos Brickman (1987), observamos que ele já sugeria que o compromisso, por natureza, poderia abarcar uma dimensão funcional (“want to”), assim como uma dimensão de obrigatoriedade (“have to”). Conceptualmente, convirá referir que um atleta pode sentir que quer continuar a praticar o seu desporto e ao mesmo tempo sentir-se forçado/ obrigado a continuar em determinado ponto da época desportiva; em conformidade, os níveis de compromisso dos dois tipos podem variar ao longo do tempo. No recente SCM, o tipo de compromisso funcional está representado pelo Compromisso Entusiasta e o tipo de compromisso de obrigatoriedade está representado pelo Compromisso Constrangido. Versão reformulada do Sport Commitment Questionnaire Tal como referido anteriormente, o SCQ (Scanlan et al., 1993) constituiu-se, após a sua publicação, como o instrumento privilegiado pelos investigadores para avaliar o compromisso Compromisso Desportivo 527 Revista de Psicología del Deporte. 2013. Vol. 22, núm. 2, pp. 525-531 recentemente introduzido no modelo como fonte de compromisso (Scanlan, Russell, Magyar & Scanlan, 2009), a investigação tem revelado que os atletas recebem de diferentes pessoas significativas diferentes tipos de apoio – emocional, informativo e instrumental -, os quais fortalecem um tipo de compromisso mais deliberado (Scanlan et al., 2003; Scanlan et al., 2009). O fator do Desejo de Destacar-se resultou da análise indutiva de entrevistas intensivas e compreende duas subcategorias: a Realização Autónoma/ Autonomous Achievement e a Realização Social/ Social Achievement. Construto Definição Compromisso Entusiasta disposição psicológica que representa o desejo e a decisão de continuar a participar num determinado desporto. Compromisso Constrangido disposição psicológica que representa a percepção de obrigação para continuar a participar num determinado desporto. Divertimento resposta afetiva positiva a uma experiência desportiva que reflete sentimentos gerais de prazer. Oportunidades Valiosas oportunidades importantes que estão presentes apenas através do envolvimento contínuo num desporto. Outras Prioridades alternativas percepcionadas como atrativas ou que pressionam e entram em conflito com a prática desportiva continuada. Investimentos Pessoais - Perda investimentos pessoais que investidos no desporto não poderão ser recuperados no caso de abandono da prática desportiva. Investimentos Pessoais - Quantidade quantidade de investimentos pessoais realizados num determinado desporto. Coações Sociais referem-se às normas ou expectativas sociais que fomentam sentimentos de obrigação para continuar a praticar determinado desporto. Apoio Social - Emocional reconhecimento do ânimo, preocupação e empatia fornecidos por parte de pessoas significativas numa atividade desportiva. Apoio Social - Informativo reconhecimento de informação útil, orientação ou conselhos fornecidos por parte de pessoas significativas numa atividade desportiva. Apoio Social - Instrumental reconhecimento de material ou auxílio em tarefas fornecidos por parte de pessoas significativas numa atividade desportiva. Desejo de Destacar-se – Realização querer e esforçar-se por melhorar e conseguir mestria num desporto. Autónoma Desejo de Destacar-se – Realização querer e esforçar-se por ganhar e estabelecer superioridade sobre os adversários Social num desporto. Tabela 1. Nome dos construtos e definições. desportivo e analisar o valor preditivo de cada determinante/ fonte de compromisso. Todavia, apesar de algumas indicações no sentido da existência de aceitáveis propriedades psicométricas, tendo sido inclusivamente fornecido algum suporte para a validade, pelo menos parcial, da sua estrutura fatorial, foi igualmente evidente que o SCQ revelou problemas em alguns dos seus itens e fatores (e.g., alternativas à implicação), tanto na sua versão original como nas versões traduzidas e adaptadas para as realidades portuguesa e espanhola. Nesse sentido, os seus autores decidiram desenvolver mais trabalho neste domínio e, melhorando e ampliando a versão original, criaram uma nova versão daquele instrumento, à qual deram o nome de Sport Commitment Questionnaire -2 (SCQ-2). Devido ao fato de a versão inglesa ter sido desenvolvida em paralelo com as versões espanhola e portuguesa, utilizou-se o método de-centering durante o processo de concepção dos itens (Hambleton, 2005). Este método (que, tanto quanto é do nosso conhecimento, nunca havia sido utilizado no contexto desportivo) envolve a revisão dos itens na linguagem de origem (i.e., a inglesa), procurando que estes sejam equivalentes na linguagem de destino (i.e., na castelhana e na portuguesa). As potenciais alterações aos itens ocorrem quando na linguagem de origem o item contém alguma palavra ou expressão que não existe na linguagem de destino ou para a qual não existe uma tradução considerada como equivalente. Deste modo, evitam-se palavras ou expressões difíceis de tradução no idioma para o qual se pretende adaptar o instrumento facilitando o processo de comparação transcultural (Sousa, Scanlan, Cruz & Garcia-Mas, 2010). Enquanto versão melhorada do SCQ, o SCQ-2 constitui-se neste momento como a referência a utilizar pelos investigadores interessados em traduzir e adaptar um instrumento com a qualidade necessária para avaliar o compromisso desportivo. O processo de verificação da sua validade foi desenvolvido com base em estudos realizados em duas fases com elevado número de participantes (753 e 952 atletas em cada fase, respetivamente), com idades compreendidas entre os 13 e os 19 anos, de diferentes desportos e com diferentes níveis de interação (Chow et al., 2012) e evidenciou a sua robustez, especialmente devido ao número de itens (56) e fatores (11). De referir a este propósito que, no âmbito do Sport Commitment International Scale Development Project, decorrem neste momento em Espanha e Portugal estudos com amostras cujas caraterísticas são semelhantes às do estudo realizado por Chow et al. (2012), com o objetivo de determinar as propriedades psicométricas das versões previamente traduzidas e adaptadas para as respectivas línguas e culturas, sendo estas as primeiras versões europeias do SCQ-2, a utilizar posteriormente para a realização de uma análise transcultural. Decorre, portanto, do anteriormente exposto, e de acordo com o hipotetizado no SCM, que são quatro as fontes que predizem o Compromisso Entusiasta: de forma positiva, o Divertimento, as Oportunidades Valiosas e o Desejo de Destacar-se - Realização Autónoma; e, de forma negativa, as Outras Prioridades. Quanto aos fatores que predizem positivamente o Compromisso Constrangido, ou seja, que aumentam este tipo de compromisso, são eles: Outras Prioridades, Coações Sociais, Investimentos Pessoais – Perda e Desejo de Destacar-se - Realização Social. Um resultado interessante é o fato de os fatores de Divertimento e Oportunidades Valiosas, além de aumentarem o Compromisso Entusiasta, também reduzirem o Compromisso Constrangido. Resultados da investigação Para além das preocupações orientadas para o desenvolvimento contínuo do SCM e do(s) correspondente(s) instrumento(s) para testar os seus postulados, a análise da literatura disponível neste domínio permite verificar que outras questões igualmente relacionadas com o compromisso desportivo também têm vindo a ser objeto de pesquisa. Na verdade, no que concerne ao contexto desportivo de uma forma geral, têm sido desenvolvidos vários estudos sobre o compromisso, enfatizando aspetos como: a potencial alteração dos seus determinantes ao longo do tempo (Carpenter & Coleman, 1998; Carpenter & Scanlan, 1998; Weiss & Weiss, 2006), os fatores que prevalecem no contexto da atividade física (Alexandris et al., 2002; Wilson et al., 2004), a sua relação com a conduta real de abandono ou continuidade da prática desportiva (Weiss & Weiss, 2007), o aprofundamento do seu conhecimento através da teoria de autodeterminação (Zahariadis, Tsorbatzoudis & Alexandris, 2006), ou as razões pelas quais alguns treinadores continuam a sua carreira e outros abandonam (Raedeke, Granzyk & Warren, 2000). Mais especificamente em Portugal, tem sido perceptível um interesse crescente pela investigação neste âmbito, mesmo que tal ainda não tenha grande reflexo em publicações em revistas científicas, à exceção do estudo realizado por Fernandes, Correia e Abreu (2009) com jovens andebolistas com idades compreendidas entre os 10 e os 15 anos e que verificou que os atletas que se mantinham ativos estavam mais comprometidos com o seu desporto do que aqueles que o tinham abandonado. Em Espanha a realidade é, todavia, relativamente distinta, porquanto o interesse nestas questões tem vindo a ser igualmente materializado na publicação de vários estudos. Com efeito, podemos encontrar estudos publicados sobre a influência de pais e mães no compromisso desportivo (Torregrosa et al., 2007), sobre a relação entre o clima motivacional criado pelo treinador e o compromisso de jogadores de futebol (Torregrosa, Sousa, Viladrich, Villamarín & Cruz, 2008; Torregrosa et al., 2011) e de basquetebol (Leo, Sánchez-Miguel, Sánchez-Oliva, Amado & García-Calvo, 2009) ou ainda sobre a relação do compromisso com a teoria dos objetivos de realização (García-Calvo, Leo, Martín & Sánchez-Miguel, 2008; Sousa, Torregrosa, Viladrich, Villamarín & Borrás, 2007). Para além destas questões, porém, em Espanha, o compromisso desportivo tem também vindo a ser estudado em relação à motivação (García-Calvo, Sánchez-Miguel, Leo, Sánchez-Oliva & Amado, 2012; Garcia-Mas et al., 2010), relacionando-o com a teoria da autodeterminação (Deci & Ryan, 2000). Efetivamente, alicerçando-se naquela teoria, atualmente considerada como um dos enquadramentos conceptuais mais coerentes e sólidos para explicar a motivação humana (Moreno & Martinez 2006), Leo, Gómez, Sánchez-Miguel, Sánchez-Oliva e García-Calvo (2009) realizaram um estudo com 850 futebolistas de ambos os sexos, com idades compreendidas entre os 11 e os 16 anos, tendo verificado que quanto mais elevado era o seu nível de autodeterminação mais comprometidos se encontravam com a sua prática desportiva. Sugestões para o futuro Com a reformulação do SCM, bem como com as melhorias introduzidas no SCQ, que deram origem ao recente SCQ-2, parecem estar reunidas condições para continuar e intensificar o estudo do compromisso desportivo e promover a sua adaptação Catarina Sousa, Alex Garcia Mas, Pedro Antonio Sánchez-Miguel e Graciela Lois 528 Revista de Psicología del Deporte. 2013. Vol. 22, núm. 2, pp. 525-531 a diferentes culturas e idiomas. Aliás, atendendo a que o SCQ-2 foi desenvolvido e aperfeiçoado com base numa metodologia que facilita a adaptação a diferentes idiomas, seria interessante analisar se o conceito de compromisso desportivo pode ser vivido de forma diferente dependendo da cultura. Igualmente no que se refere ao futuro nesta área do conhecimento, e considerando o que foi realizado até ao momento, entendemos que poderá ser importante tentar dar seguimento a cinco desafios: 1) adaptar o SCQ-2 a outras línguas e culturas na Europa, ou mesmo noutros países; 2) investigar o compromisso desportivo de acordo com a idade, o género e o nível competitivo dos indivíduos; 3) adaptar o SCQ-2 a diferentes âmbitos e agentes desportivos; 4) analisar a relação do compromisso desportivo com outras variáveis; e 5) desenvolver um instrumento de observação do compromisso desportivo. No que se refere ao primeiro dos desafios propostos, convirá recordar que o processo de desenvolvimento do SCQ-2 foi realizado no respeito pelos critérios anteriormente mencionados de forma a permitir que a sua tradução e adaptação a diferentes idiomas não estivesse sujeita a diferenças culturais e, deste modo, as suas propriedades psicométricas beneficiassem desse facto e fossem o mais elevadas possível. De salientar ainda que, para além de Portugal e Espanha, diferentes grupos de investigação em países como Bélgica, Grécia, Itália e Brasil têm demonstrado o seu interesse na utilização do SCQ-2, perspetivando-se, por isso, que a existência de dados provenientes de contextos relativamente distintos mas recolhidos de acordo com enquadramentos conceptuais e metodologias similares possa fornecer um desejável impulso a esta área. Relativamente ao segundo desafio sugerido, consideramos que a identificação e interpretação das razões subjacentes às diferenças e semelhanças existentes no domínio do compromisso desportivo entre indivíduos com diferentes idades, géneros e nível competitivo permitirão obter informação relevante e útil para que os diferentes agentes no desporto possam atuar melhor sobre os aspetos mais frágeis do compromisso de grupos e indivíduos com diferentes características (e.g., jovens, adultos, amadores, profissionais, homens, mulheres) promovendo o seu nível de compromisso A proposta de adaptação do SCQ-2 a diferentes âmbitos (como seja, por exemplo, o da atividade física, o das atividades de ócio, o das atividades educativas, o das empresas, ou o das relações pessoais e profissionais) baseia-se na nossa convicção de que isso permitirá aumentar o conhecimento sobre esta variável. Estudar o compromisso de quem gere e lidera equipas e atletas será certamente uma linha de investigação inovadora, dado que a maior parte das vezes o interesse centra-se apenas nos atletas. Investigar sobre o compromisso desportivo dos treinadores e comparar com o nível e tipo de compromisso dos seus atletas seria, por exemplo, um tema de interesse, relativamente ao qual não são conhecidos, até à data, quaisquer estudos publicados. Do mesmo modo, investigar sobre o compromisso em diferentes âmbitos e agentes desportivos, como sejam os treinadores ou atletas em transição de carreira (Torregrosa, 2002) poderá beneficiar um maior número de pessoas e entidades. Na mesma linha, estamos igualmente convictos de que conhecer a relação do compromisso desportivo com outras variáveis (e.g., a motivação) e/ ou estabelecer modelos em que a variável compromisso surja como mediadora poderá fornecer evidências adicionais para o suporte das qualidades do SCQ-2 e ajudar à explicação de determinadas situações desportivas. Finalmente, quanto ao último desafio que propomos, orientado para o desenvolvimento de um instrumento de observação do compromisso desportivo, o qual acreditamos poderá vir a permitir cruzar informação de diferentes tipos e, consequentemente, contribuir para o aprofundamento do conhecimento atualmente existente sobre o compromisso desportivo, gostaríamos igualmente de sugerir que, numa primeira fase, de natureza mais exploratória, integre contribuições de peritos e agentes desportivos com diferentes características e competências, designadamente treinadores, psicólogos, dirigentes e atletas. Com base nestas diferentes contribuições será certamente mais fácil identificar os comportamentos dos atletas que mais e melhor correspondam ao seu compromisso desportivo, entre os quais muito provavelmente estará o esforço aplicado nos exercícios durante um treino, a presença em treinos e competições/ jogos, a assiduidade e pontualidade na participação em reuniões, treinos, etc. Em suma, o presente trabalho procurou descrever, ainda que de forma necessariamente breve e sucinta, o percurso da pesquisa sobre o compromisso desportivo assim como os principais trabalhos científicos publicados neste âmbito. Nesse sentido, espera-se que se constitua como um ponto de partida e de inspiração para todos os interessados no tema, porquanto não só integra os mais recentes desenvolvimentos do SCM e do respetivo instrumento de avaliação do compromisso desportivo (i.e., o SCQ-2), como aponta algumas possíveis pistas para a investigação neste domínio. Compromisso Desportivo 529 Revista de Psicología del Deporte. 2013. Vol. 22, núm. 2, pp. 525-531 COMPROMISSO DESPORTIVO: PASSADO, PRESENTE E FUTURO EM ESPANHA E PORTUGAL PALAVRAS-CHAVE: Compromisso Desportivo, Sport Commitment Model, Sport Commitment Questionnaire, Investigação em Portugal e Espanha. RESUMO: O presente trabalho teve como principais objetivos situar as origens e abordar os principais resultados da investigação desenvolvida no domínio do compromisso desportivo, designadamente no que se refere à Península Ibérica, procurando ainda sugerir alguns dos principais desafios futuros que se colocam nesta área do conhecimento. Nesse sentido, é explicada a atual formulação do Sport Commitment Model, desenvolvido por Tara Scanlan e a sua equipa na UCLA, no âmbito do Sport Commitment International Scale Development Project, com o propósito de explicar porque continuam os atletas a sua prática desportiva ao longo do tempo, bem como é apresentado o instrumento elaborado por aqueles autores para testar o modelo proposto e posteriormente adotado pela maior parte dos pesquisadores nesta área; i.e., o Sport Commitment Questionnaire (SCQ). Adicionalmente, é explicado o processo de desenvolvimento da versão revista e melhorada daquele instrumento (o Sport Commitment Questionnaire-2; SCQ-2), com base no método de-centering que facilita a tradução e adaptação a diferentes idiomas visando obter um instrumento válido e fiável, atualmente em adaptação para as realidades portuguesa e espanhola. Finalmente, são indicados os que se consideram ser os principais desafios futuros à investigação nesta área: 1) adaptar o SCQ-2 para outros idiomas; 2) investigar o compromisso desportivo, considerando idade, género e nível competitivo dos indivíduos; 3) adaptar o SCQ-2 a diferentes âmbitos e agentes desportivos; 4) analisar a relação do compromisso desportivo com outras variáveis; e 5) desenvolver um instrumento de observação do compromisso desportivo. Catarina Sousa, Alex Garcia Mas, Pedro Antonio Sánchez-Miguel e Graciela Lois 530 Revista de Psicología del Deporte. 2013. Vol. 22, núm. 2, pp. 525-531 EL COMPROMISO DEPORTIVO: PRESENTE Y FUTURO EN ESPAÑA Y PORTUGAL PALABRAS CLAVE: Compromiso deportivo, Sport Commitment Model, Sport, Commitment Questionnaire, Investigación en Portugal y España. RESUMEN: El presente trabajo tiene como principales objetivos establecer los orígenes y abordar los principales resultados d ella investigación desarrollada en el campo del compromiso deportivo, fundamentalmente referido a la península Ibérica, y tratar de sugerir algunos de los principales desafíos futuros que aparecen en esta área de conocimiento. En este sentido, se explica la actual formulación del Modelo de Compromiso Deportivo, desarrollado por Tara Scanlan y su equipo de la UCLA, en el ámbito del Sport Commitment International Scale Development Project, con la intención de explicar porque los deportistas continúan en su práctica deportiva a lo largo del tiempo, presentando el instrumento elaborado por esos autores para poner a prueba el modelo sugerido, y posteriormente adoptado por la mayor parte de los investigadores ene este campo, e.g., el Sport Commitment Questionnaire (SCQ). Además, se explica el proceso de desarrollo de la versión revisada y mejorada de ese instrumento (el Sport Commitment Questionnaire-2; SCQ-2),basado en le método de-centering, que facilita la traducción y adaptación a diferentes idiomas buscando obtener un instrumento válido y fiable, y que se halla actualmente adaptándose a las realidades portuguesa y española. Finalmente, se indican los que se consideran más importantes desafíos para la investigación en esta área: 1) adaptar el SCQ-2 a otros idiomas; 2) investigador el compromiso deportivo en relación a la edad, el género y el nivel competitivo de los deportistas; 3) adaptar el SCQ-2 a diferentes contextos y agentes deportivos; 4) analizar la relación del compromiso deportivo con otras variables, y 5) desarrollar un instrumento de observación del compromiso deportivo. Referências Alexandris, K., Zahariadis, P., Tsorbatzoudis, C. & Grouios, G. (2002). 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