Decadentes e modernidade
Abstract
The paper explores definitions of modernity, with a particular focus on the relationship between Baudelaire’s modern poetry and the Portuguese poetry of Decadentismo.
Full text
Decadentes emodernidade Ernesto Rodrigues Universidade de Lisboa 1. DEFINIÇÕES Como definir, em suas particularidades ebalizas cronológicas, amodernidade? As navegações eatipografia de Quatrocentos são, para alguns, os inícios da idade moderna, sensível ao “tempo histórico”, contra aindiferença medieval ao tempo, na Idade Média. Ahistória eageografia situam-nos num espaço, cartografado aténovos continentes eoutros planetas. Num quadro em que os meios de comunicação tornam mais leve, quase etéreo, ofluxo de informação, mas não convidam àresponsabilidade individual, fuzilam pontos de vista, cada vez mais selfies emenos solidários de uma cultura inclusiva, que as grandes migrações de infelizes mal sobressaltam. Certo éque, desde oJoão de Barros da Década I(1552), acivilização europeia não éacivilização, os nossos valores não são os valores universais. Essa cultura mundi foi mérito inquestionável de humanistas. Atento ao Chinês, que nunca viu, esta circunstância concorre certamente para tornar possível uma visão do mundo como ade João de Barros, cheia de admiração por civilizações não europeias, capaz de aceitar aideia da exiguidade da Europa earelatividade da sua civilização, ede considerar, enfim, omundo de um ponto de vista múltiplo esegundo uma escala planetária1. Oprogresso científico no século XVII éoutro considerando de modernidade, por ter abolido “l’autoritéde la tradition“, apar de uma “conscience réflexive du temps, qui exigeait tout naturellement une justification de soi-même”2. Oexemplo de Pascal (1647), no confronto com os Antigos, poderia ser antecipado pelo de ToméPinheiro da Veiga, em 1-V-1605, ao inventariar progressos técnicos recentes, econcluindo, em termos semelhantes aos do Francês: “de maneira que, com razão, ficamos, pelo menos, pueri in collo gigantum: pois, ainda que sobre seus ombros esobre oque nos ensinaram, vemos, contudo, mais que eles ede mais alto”3. Este topos medieval do anão ou anões ao ombro de gigantes revê-se no Padre António Vieira: 1 Saraiva 1995, p.290. 2 Behler 1997, p.63. 3 Veiga 2011, p.56. OPEN ACCESS
50 SVĚT LITERATURY / O MUNDO DA LITERATURA Um pigmeu sobre um gigante pode ver mais que ele. Pigmeus nos reconhecemos em comparação daqueles gigantes que olharam antes de nós para as mesmas Escrituras. Eles sem nós viram muito mais do que nós pudéramos ver sem eles, mas nós, como viemos depois deles esobre eles pelo benefício do tempo, vemos hoje oque eles viram eum pouco mais4. Este continuum, que amodernidade proteicamente reproduz, não éimitação, mas aventura. Éoque Anthony Giddens designa por “apropriação reflexiva de conhecimento […], afastando avida social da fixidez da tradição” eseus controlos, enquanto uma das “três fontes dominantes do dinamismo da modernidade”— fonte “intrinsecamente estimulante”, mas “instável”5, qual opresente comporta, eos Modernos de 1688 defendiam contra os Antigos. Oparadoxo está em que, nascido orelógio em Seiscentos, para definir eestandardizar otempo, útil àRevolução Industrial, nos debatemos, hoje, com osonho de não entrar esair àmesma hora, subsumindo uma decerto mais inteligente cultura de risco, condição de modernidade. Quanto àironia, em acenos fecundos de ironia romântica eauto-ironia, já se encontra nesse Português de 1605, sem esquecer oD. Quixote. Eatéum gosto contrastante, que faz lamentar entrada de Encyclopédie nem sempre iluminista, lembrada em Behler: “Les règles fondamentales du goût sont les mêmes dans tous les siècles, puis qu’elles découlent des attributs invariables de l’esprit humain”6. Outros situam amodernidade em 1789 erevoluções subsequentes. Duzentos anos depois, com as revoluções do centro eleste da Europa, ter-se-ia entrado na pós-modernidade. Mas que diferença subsiste, num arco de seis centúrias, entre aexecução de Jan Hus (1415) eas actuais guerras de religião? Se os inícios da globalização coincidem com oatropelo da crença no seio do catolicismo, outros fanatismos conformam, hoje, uma espiral de violência mais perigosa que ado socialismo real. Recuso, por isso, que, afechar oséculo XX, “l’avènement de l’ère postmoderne peut être interprétécomme une critique intensifiée contre les présupposés de la modernité”. Quando supomos descontinuidades, “pós-moderno” viria romper essa lógica; será melhor “modernidade tardia” ou “radicalizada”, segundo Giddens? Que “pressupostos” são esses? Já no fim do século XIX, temos “l’éveil d’une critique et d’une autocritique accrues dans la conscience moderne“7, em que me vou demorar. 4 Vieira 1983, p.106. Cf. Rob Riemen, no “ensaio introdutório” aSteiner 2006, p.20: “Bernard de Chartres, filósofo emonge do século XII, deixou-nos uma das mais belas descrições da relação existente entre alunos erespectivos mestres: «Anões empoleirados nos ombros de gigantes»”. 5 Giddens 2005, p.37. As outras duas fontes são “aseparação do tempo edo espaço”, com vista ao “exacto zonamento temporal eespacial”, e“odesenvolvimento de mecanismos de descontextualização”, que “«retiram» aactividade social de contextos localizados, reorganizando as relações sociais através de grandes distâncias de espaço-tempo”, na base da confiança, que balança entre segurança erisco. 6 Behler 1997, pp.65–66. 7 Ibidem, p.67. OPEN ACCESS
ERNESTO RODRIgUES 51 1. 1. No nosso trânsito-de-século novecentista, de lírica preciosa, rebuscada, decorativista (como na ornamentação de fachadas), avirtude da coragem justifica atenção, tal osobressalto em leitores comodistas. Hoje, ninguém se sobressalta, e, pior, ofamiliar ecorrentio desaguam em trivialidades, senão grosserias. Acrueza do naturalismo fez-se light. Se, além, ainquietação de sujeitos, dobrando ocabo da despersonalização parnasiana, identificava moderno enovo, na “presunção da reflexividade generalizada— que inclui, evidentemente, areflexão sobre anatureza da própria reflexão”8—, aqui, aindiferença do gosto democrático, asubmissão colectiva ao díspar eao disparate, denunciam um conformismo indolor, uma modernidade que se nega, na ausência de porquês. 1. 2. Solução? Ver opós-modernismo como respeitando “aaspectos de reflexão estética sobre anatureza da modernidade“ pouco ajuda. Émais lúcido Terry Eagleton, quando lê R. Williams, Marxism and Literature (1977): Oque converteu acultura em tema do nosso tempo foi aindústria cultural. Se acultura está na ordem do dia, isso deve-se ao facto de, ao longo do processo histórico do pós-guerra, ter sido progressivamente integrada no processo geral de produção de bens de consumo. Mas este facto faz parte de uma narrativa da nossa época muito mais ampla ecomplexa, narrativa que consuma um aburguesamento da cultura de “massa” que remonta, pelo menos, ao fin de siècle. Nas primeiras décadas do século XX, as discussões acerca da cultura eram na realidade sobre esta enorme evolução, que para muitos pressagiava amorte da própria civilidade9. Giddens enquadra assim após-modernidade: Para além do sentimento geral de se estar aviver uma época de disparidade manifesta relativamente ao passado, […] descobrimos que não se pode saber nada com qualquer certeza, uma vez que todos os “fundamentos” preexistentes da epistemologia se revelaram falíveis, que a“história” édestituída de teleologia e, consequentemente, nenhuma versão de “progresso” pode ser plausivelmente defendida; eque nasceu uma nova agenda social epolítica com acrescente importância das questões ecológicas e, talvez, dos novos movimentos sociais em geral10. Vinte ecinco anos depois (The Consequences of Modernity éde 1990), os media digitais diluem, se não rasuram, tais preocupações— sendo sob oprisma, melhor, sob 8 Giddens 2005, p.27. 9 Eagleton 2003, p.159. 10 Giddens 2005, p.32. OPEN ACCESS
52 SVĚT LITERATURY / O MUNDO DA LITERATURA apirâmide eredes comunicacionais que deve ser pensada aliteratura. Solução não édizer, com Anne Souriau, que “la post-modernitéest plutôt un retour àun certain classicisme, quand on se fatigue de ce qu’une modernitéavait eu de trop évidemment passager“11. Ainda que este seja debate íntimo de criadores, as “dimensões institucionais da modernidade“ não são passageiras, nem de agora: écada vez maior a“vigilância (controlo de informação esupervisão social)“12, aque ocidadão frenética egostosamente se expõe; crescem as desigualdades operadas num capitalismo de base industrial, que também joga na violência ena guerra, disseminando poderes militares. E, retomando acultura pós-moderna segundo Eagleton, vivemos uma cultura sem classes no sentido em que oconsumismo também não tem classes, oque quer dizer que atravessa adivisão de classes ao mesmo tempo que impulsiona um sistema de produção para oqual tais divisões são indispensáveis. Seja como for, oconsumo de uma cultura sem classes éhoje em dia cada vez mais um sinal distintivo da classe média13. Àluz da imprensa de massas, era já oquadro em 1890–1892 e1914–1916, um braço nacional submetido ao Ultimatum militar inglês, outro erguido na Primeira Guerra Mundial, apoteose de uma indústria ereavaliação de poderes. Num alheamento culposo, foi oDecadentismo um dos seus traços-de-união, eprimeiro arrojo de Modernismo. Enquanto índice de negatividade, altera oolhar, incomoda, em século desejado positivo. Vejamos os seus anteontens e, atentos aalgumas propostas, concluamos para hoje. 2. OBOM GOSTO “Littérature de décadence!” lamentava Baudelaire que se ouvisse regularmente em 1857, pois implicava que houvesse une échelle de littératures, une vagissante, une puérile, une adolescente, etc. Ce terme, veux-je dire, suppose quelque chose de fatal et de providentiel, comme un décret inéluctable; et il est tout àfait injuste de nous reprocher d’accomplir la loi mystérieuse. Tout ce que je puis comprendre dans la parole académique, c’est qu’il est honteux d’obéir àcette loi avec plaisir, et que nous sommes coupables de nous réjouir dans notre destinée. Exemplificando com um “soleil agonisant” e“délices nouvelles” que disso tiram “certains esprits poétiques”, mas não “professeurs jurés”, conclui da insuficiência destes, ao não saberem explicar porque “une nation commence par la décadence, et débute par où les autres finissent”… Opretexto éPoe14; mas, na sequência da póstuma ter11 “Moderne / Modernité”. In Étienne Souriau 1999, p.1019. 12 Giddens 2005, p.42. 13 Eagleton 2003, p.161. 14 “Notes nouvelles sur Edgar Poe”, prefácio aNouvelles histoires extraordinaires. Citado em Baudelaire 1980, pp.589–590. OPEN ACCESS
ERNESTO RODRIgUES 53 ceira edição de Les Fleurs du mal (1868 [1857, 1861]), Edmond Scherer escreve que em, ou sobre, Baudelaire se podia estudar “ce que c’est la décadence d’une littérature”15. Abre-se um mal-entendido, que identifica decadência emodernidade. Oque não convergisse em fácil adequação entre emissor econsumidor significava “decadência”. Aclareza esimplicidade estilísticas conjugavam-se com anitidez da página ou tipografia: aisto se resumia uma recensão. Leia-se programa de António Augusto Teixeira de Vasconcelos: “Procuro escrever com clareza alinguagem do meu tempo, conforme afallam eescrevem as pessoas cultas eajuizadas, sem affectação erudita, sem archaismos estudados, equanto por ora me épossivel, sem sabor estrangeiro. Ambiciono ser lido eentendido pelo povo”16. Mas, se os camponeses voltavam para casa “suados”, como arriscou Tomás Ribeiro no D. Jaime (1862), emesmo respeitando as “severas leis da claresa, da verosimilhança, da verdade eda moral”, já uma objecção se levantava: “Não direi outro tanto do adjectivo suado que me parece repugnante com quanto seja transumpto fiel da natureza. Aescóla que os franceses chamam réaliste approva estas verdades cruas. Obom gosto não, porque nem todas as verdades se dizem.” Assim, em França, oadultério levava atribunal (Madame Bovary, 1857); apoesia do Mal, também. Mas arazão moral pouco era diante das assombrosas tiragens do folhetim, cuja lógica, enquanto factura eindústria, se diluía na estranheza do verso novo. Entretanto, aobediência à“lei misteriosa” éromântica, se não aquisermos iónica; mas tirar dela, ede um destino, “prazer” choca aseriedade crítica, que já oaceita no destinatário, assim perdoando as estratégias convencionais da massificação esua indiferença ao destino, inclusive, das personagens. Novos comportamentos expressivos, temáticas evalores, apar de subjectividades alteradas, desaguam nos primeiros rostos da modernidade, ainda questionados nos anos quarenta do século XX. 2. 1. AMODERNIDADE LITERÁRIA Entendamo-nos, primeiro, quanto àmodernidade literária. No século XVIII, nasce essa figura baudelaireanamente retratada em 1863, eparadigmática: “ce solitaire doué d’une imagination active, toujours voyageant àtravers le grand désert des hommes”, cuja finalidade vai além da do “pur flâneur“ eseu “plaisir fugitif de la circonstance”: Il cherche ce quelque chose qu’on nous permettra d’appeler la modernité: […]. Il s’agit, pour lui, de dégager de la mode ce qu’elle peut contenir de poétique dans l’historique, de tirer l’éternel du transitoire. […] La modernité, c’est le transitoire, le fugitif, le contingent, la moitiéde l’art, dont l’autre moitiéest l’éternel et l’immuable. 15 “Baudelaire”, Le Temps (Paris), 20-VII-1869. No mesmo jornal, em 19-IX-1882, “Baudelaire et le baudelairianisme”, diz que “Son titre unique c’est d’avoir contribuéàcréer l’esthétique de la décadence”. 16 “Cartas Profanas”, ARevolução de Setembro (Lisboa), 6-IX-1862. OPEN ACCESS
54 SVĚT LITERATURY / O MUNDO DA LITERATURA Em gesto paradoxal próprio desse regime, Baudelaire acrescenta: “En un mot, pour que toute modernitésoit digne de devenir antiquité, il faut que la beautémystérieuse que la vie humaine y met involontairement en ait étéextraite”17. 2. 2. gÉNIO EgOSTO AAntiguidade, além de cronologia ou mera história, interessa se tiver valor histórico. Este éreconhecível enquanto marca poética do presente. Asua eternização (oque chamamos posteridade, tão contingente, tão precária) depende das relações entre essoutra metade que ogénio dá eogosto, num equilíbrio além-kantiano da faculdade de julgar (1790): édesejável que ogosto não misture, tão-só, prazer estético eintelectual, se pode acrescentar uma resposta ética, por exemplo. Deixa, por isso, de ser prazer desinteressado ou necessário, finalidade sem fim? Existe gosto puro (seja, sem conceito: não preciso de conhecer um objecto para ojulgar belo) quando tanta crítica assenta no que deve ser? Ainda, pois, que obom gosto de Teixeira de Vasconcelos olhe às conveniências (morais, da verosimilhança, etc.), temos obra conseguida? Entra, aqui, a“beleza misteriosa” do génio, cujas representações são as mais-valias da nossa vida. Assente naquela “lei misteriosa”, que designamos por originalidade, lamenta-se oequívoco de Kant, ao dar preferência ao gosto, enquanto disciplinador do génio: clareza eordem darão consistência às Ideias, diz ele, visando um assentimento durável euniversal. Importa oentendimento, menos aliberdade erica imaginação. Ojuízo estético kantiano desinteressa-se do objecto, apostando no observador, que consome. Hegel defende osujeito criador, que em arte se consuma. 2. 3. INDEFINIÇÕES Eis oquadro na segunda metade do século XIX, quando irrompe omovimento dos “poetas novíssimos” (Trindade Coelho). Aprópria designação, incerta, dá outro rosto da modernidade nascente em Portugal: “Nefelibatas? […] Simbolistas? […] Instrumentistas? […] Decadentes?”18 Veremos como estes foram recebidos na imprensa de 1890 a1892; saltando, no final, para idêntica desfamiliarização em 1914–1916, de co existência vanguardista, na dúvida se ogozo crítico anti-Orpheu não continuava adever-se ao “Opiário” (1914; em Orpheu 1, 1915) eaum Ângelo de Lima que devera espantar menos quem conhecesse ouso das maiúsculas em Paul Laforgue (Les Complaintes, 1885). 3. ESTILO ECIVILIZAÇÃO Em Edmond Scherer eoutros, confundindo decadência (= velhice civilizacional) emodernidade, subvertia-se a“Notice” de Gautier na edição de Les Fleurs du mal de 1868, que explicava as “correspondências” ou combinações: 17 Baudelaire, “IV / La Modernité”, Le Peintre de la vie moderne, 1980, pp.797–798. 18 “Os poetas novos”, 31-3-1892. OPEN ACCESS
ERNESTO RODRIgUES 55 Le poète des Fleurs du mal aimait ce qu’on appelle improprement le style de décadence, et qui n’est autre chose que l’art arrivéàce point de maturité extrême que déterminent àleurs soleils obliques les civilisations qui vieillissent: style ingénieux, compliqué, savant, plein de nuances et de recherches, reculant toujours les bornes de la langue, empruntant àtous les vocabulaires techniques, prenant des couleurs àtoutes les palettes, des notes àtous les claviers, s’efforçant àrendre la pensée dans ce qu’elle ade plus ineffable, et la forme en ses contours les plus vagues et plus fuyants, écoutant pour les traduire les confidences subtiles de la névrose, les aveux de la passion vieillissante qui se déprave et les hallucinations bizarres de l’idée fixe tournant àla folie. Ce style de décadence est le dernier mot du Verbe sommé de tout exprimer et poussé àl’extrême outrance. […] il exprime des idées neuves avec des formes nouvelles et des mots qu’on n’apas entendus encore. Àl’encontre du style classique, il admet l’ombre et dans cette ombre se meuvent confusément les larves des superstitions, les fantômes hargards de l’insomnie, les terreurs nocturnes, les remords qui tressaillent et se retournent au moins bruit, les rêves monstrueux qu’arrête seule l’impuissance, les fantaisies obscures dont le jour s’étonnerait, et tout ce que l’âme, au fond de sa plus profonde et dernière caverne, recèle de ténébreux, de difforme et de vaguement horrible. 3. 1. TEORIA DA DECADÊNCIA Este último período era de molde acausar calafrios em receptor não preparado. Aconformidade àrazão pós-Boileau ainda olhava ànatureza, mas dela pintando oque fosse conforme àrazão, excluindo da arte omonstruoso— como se arazão não criasse monstros... Doença, nervos, dissolvência já detecta Jacinto do Prado Coelho no Guilherme de Azevedo de AAlma Nova (1874)19. Mallarmé, por seu lado, observava “Un ciel pâle, sur le monde qui finit de décrépitude”20. Desde 1876, Paul Bourget21 afirma Baudelaire “un doctrinaire de décadence”22, alongando-se em “Théorie de la Décadence”23, fixada nos Essais de psychologie contemporaine (1883; = Nouveaux essais…, 1885). Ocapítulo II, “Le pessimisme de Baudelaire”, eseu tædium vitæ, dá passagem aIII, “Théorie de la Décadence”: chegado tarde auma “civilisation vieillissante”, em vez de odeplorar, “il s’en est réjoui, j’allais dire honoré. Il était un homme de décadence, et il s’est fait un théoricien de décadence. […] C’est peut-être celui qui aexercé la plus troublante séduction sur une âme contemporaine.” Em rodapé, Bourget atribui-se os devidos créditos: “Écrit en 1881, avant que cette théorie de la décadence ne fût devenue le mot d’ordre d’une école.” No parágrafo seguinte, definição que nos parece longe de tudo: “Par le mot de décadence, 19 S. v. “Decadentismo”. In Coelho 1979, p.249. 20 “Le Phénomène futur”, citado em Mallarmé 1977, p.97. 21 “Notes sur quelques poètes contemporains”, Le Siècle Littéraire (Paris), 1-IV-1876, pp.265–267. 22 “Statues et bustes”. Le Parlement (Paris), 12-XII-1880. 23 Nouvelle Revue (Paris), 15-XI-1881. OPEN ACCESS
56 SVĚT LITERATURY / O MUNDO DA LITERATURA on désigne volontiers l’état d’une société qui produit un trop petit nombre d’individus propres aux travaux de la vie commune. Une société doit être assimilée àun organisme.”24 Sem articulação entre indivíduo ecélula social, perde-se anecessária energia; oorganismo social “entre en décadence aussitôt que la vie individuelle s’est exagérée sous l’influence du bien-être acquis et de l’hérédité”25. Omesmo no organismo “linguagem”, quando livro, página, frase epalavra começam aindependentizar-se, acrescendo morbidez eartifício que mestre Baudelaire ensina aos discípulos, décadents, chama-lhes Maurice Barrès, em Dezembro de 1884…26 3. 2. DECADISMO Desde 1882, fala-se em Paris de poemas decadentes, subtítulo explicativo no título pejorativo Les Quintessences: poèmes décadents, de Adoré Floupette (fusão de dois autores paródicos, Maio de 1885). Em Agosto de 1885, Jean Moréas designa oseu grupo como Les Décadents, buscando “le pur Concept et l’éternel Symbole”, embora acrítica devesse “les appeler plus justement des symbolistes”: por isso, em Le Temps (18IX-1886), anova escola intitula-se Le Symbolisme. Esta confusão leva Anatole Baju eMaurice du Plessys a, respondendo ao generalizado título-sarcasmo da imprensa parisiense, pensarem, desde Agosto de 1885, na revista Le Décadent Littéraire et Artistique (inaugurada em Abril de 1886). Odécadisme (barbarismo saudado por Verlaine, iniciador-mor, enão só pelo verso “Je suis l’Empire àla fin de la décadence”, apar de Mallarmé eRimbaud) sobrepunha-se anomes concorrentes— maudits, déliquescents…—, antecipando-se aLa Décadence (1-X-1886), de René Ghil, revista votada à“école symbolique et harmoniste”, que multiplica publicações eabsorve temas decadistas. Baju conta essa aventura radical em L’École décadente (1887), cuja concepção está em Les Fleurs du mal. Lamenta aliteratura “vénale, stérile et terre àterre” de Zola edo naturalismo, “qui fait les délices du bourgeois sans âme”27; numa sociedade cansada, de spleen incurável apelando àMorte eao Nada, urgia a“universalisation du Beau” 28. Ocapítulo “Le décadisme” traz programa, cuja tradução adapto: reflectir aimagem deste mundo spleenático; nada de descrições, ou tão-só uma súmula rápida dando aimpressão dos objectos. Não pintar, fazer sentir; dar asensação das coisas, seja por construções novas, seja por símbolos evocando aideia, com uso mais intenso da comparação. Sintetizar amatéria, mas analisar ocoração. Mallarmé dissera-ohá muito, ao pressentir “une poétique très nouvelle, que je pourrais définir en ces deux mots: Peindre non la chose, mais l’effet qu’elle produit”29. 24 Bourget 1920, p.19. 25 Ibidem, p.20. 26 Para outras precisões, ver Guyaux 2007, pp.107–121. 27 Baju 1887, p.2. 28 Ibidem, p.3. 29 Em carta aHenri Cazalis, Outubro de 1864, apropósito de “Hérodiade / II. Scène”, que saíra em Le Parnasse contemporain, 2a série, 1871. Ver Mallarmé 1977, p.322. OPEN ACCESS
ERNESTO RODRIgUES 57 3. 3. INSTÂNCIAS DA MODERNIDADE [1] Oonírico tem aí parte larga, promovendo ainterpretação dos sonhos freudiana (1900 [1899]). Estes subsumem nódulos fulcrais da modernidade: vago, fluidez, aleatório, fragmentação, recorrências, instabilidade, ansiedade eauto-reflexividade. Não exclusivamente do foro lírico, esta arte conjuga morte esua celebração tumular, nocturnidade, homossexualidade, morbidez, histeria, nevrose— em suma, “Dégénérescence”, título de um poema de Miguel Fernandez, eda tradução francesa de Max Nordau (2 vols., 1894). Bénédict Morel estreara otermo em Traité des dégénérescences physiques, intellectuelles et morales de l’espèce humaine et des causes qui produisent ces variétés maladives (1857). 3. 4. CRÍTICA PSIQUIÁTRICA Na carta-prefácio aLombroso, Nordau pretendeu “examiner les tendances àla mode dans l’art et la littérature”, provando “qu’elles ont leur source dans la dégénérescence de leurs auteurs”: afortiori, os decadentistas eram objecto de estudo, como Poetas epintores de Rilhafoles (1900) ou homossexuais na peça Os crucificados (1902) serão para Júlio Dantas. Aqueles, porém, não tinham acaução social de qualidade, que igualmente escapara aJúlio César Machado, ao dar versos de inquilino de Rilhafoles em Da loucura edas manias em Portugal (1871). Em 1944, Dantas analisará obras recentes sobre Baudelaire, Verlaine, Rimbaud, ou oSimbolismo eDecadentismo diante da ciência psiquiátrica, para distinguir entre homem eobra, eevitar amoda de meter tudo etodos no mesmo saco: Uma escola literária não é uma doença. Uma corrente estética nada tem de comum com odesequilíbrio mental ou com acarência moral dos indivíduos que aservem ou ailustram. Oêrro fundamental de Max Noudau, classificando sob amesma etiqueta simbolismo edegenerescência, decadentismo ehomossexualidade, projecta-se ainda nas obras que li agora30. 3. 5. INSTÂNCIAS DA MODERNIDADE [2] Para Baju, “tout décade”, tudo decai, inelutavelmente; se assim é, nessa civilização de abundância em que encontraremos oJacinto queirosiano dos anos 90, cujas serras também se alheiam da crise nacional— não associar mecanicamente, pois, aDecadência sociológica eartística—, escreva-se com delicadeza (marca de instabilidade), elevação (sinal de artifício) eorefinamento de olhar parcial (fragmentação) que gere particular estilo. Seria bom, todavia, precisar este programa; éoque faz Mallarmé. 3. 6. INSTÂNCIAS DA MODERNIDADE [3] Entrevistado por L’Echo de Paris (1891), Mallarmé assinala, na música, “une infinité de melodies brisées qui enrichissent le tissu sans qu’on sente la cadence aussi forte30 “Aarte eavida”, OPrimeiro de Janeiro (Porto), 2-III-1944. OPEN ACCESS
64 SVĚT LITERATURY / O MUNDO DA LITERATURA como podiam eles, esses sadios eesses mansos, ser os portadores das perversões deste final de literatura pessimista, eroto-mística, inconfidente, epileptizada da dor de viver, com desejos de morte eterrores da sepultura, vaidosa epusilânime, pregando oamor sem posse eviolentando ao mesmo tempo anatureza, niilista eegoísta, hamlética, impulsiva, escorrendo luz eescorrendo pederastia?!60 Adissociação parece clara, longe de Baudelaire eda síntese de Gautier, além de se perder no conceito publicado (jornalístico) eno consumo das fracas tiragens. Coragem não chega. Acorrente não estudava as próprias margens, e, se apurava metros erimas, carecia de qualidade maior da modernidade, que Álvaro da Campos resolve: ironia, esua reflexa auto-ironia. 4. 9. REVISÃO Na convocação de grupos díspares (decadistas ou decadentistas, nefelibatas, simbolistas, soístas, neo-garretistas eregionais, pré-expressionistas…), há nomes etítulos que ora entenebrecem ocaeirismo de Cesário, ora correm adoenças psicológicas edefinham ànossa frente, num já insensato dandismo: Júlio Dantas, Manuel Penteado, José Duro, algum Gomes Leal ou Fialho, mesmo Raul Brandão (com Júlio Brandão eJustino de Montalvão, autor de Nefelibatas, 1891, sob ocriptónimo Luís de Borja). Alista seria numerosa, até Pessoa ortónimo eMário de Sá-Carneiro, Pessanha eÁlvaro de Campos, que destrinça entre ser eestar decadente: “Fui em tempos poeta decadente [no “Opiário”]; hoje creio que estou decadente, ejá onão sou.” (Contemporânea, 4, 1922) Em 1933, “Psiquetipia” abria, como fechando um processo: “Símbolos. Tudo símbolos…” 4. 10. CANTO DO CISNE No meio de crise já não só nacional— ameio da Primeira Guerra Mundial—, Luís de Montalvor busca remissão igualmente aristocratizante para adoença de viver: “Ser- -se doente éser-se doente espiritualmente, éser-se superior! Aarte éadoença imortal dos pálidos de Deus eda Beleza. Aarte profunda alimenta-se das lágrimas ínfimas da dor universal.” Muitos cultivaram lágrimas, sem referência explícita à“dor universal” em curso, no centro da Europa; receosos, cultivaram menos aandroginia, oequívoco sexual, diluídos num ideal de Beleza: Ah! ser-se decadente éser-se lindo de gestos, éser-se débil efemininamente osistema nervoso de todas asensações, de todas as emoções, de todos os pensamentos, de todas as inferioridades, de todas as grandezas, de todas as imoralidades, de todos os ascetismos, da convulsão espasmódica emediúmnica do nosso século! 60 Fialho de Almeida, Os Gatos, n.º 46, 21-IX-1892. OPEN ACCESS
ERNESTO RODRIgUES 65 Isto éÁlvaro de Campos, que se viu acrescentado de exercícios de vanguarda. Asíntese, com aceno aGautier, Bourget, Baju, eque fez oesplendor da obra-chave que éMorte em Veneza (1912), poderiam ser estas linhas: Somos os decadentes do século da Decadência. Vamos esculpindo anossa arte na nossa indiferença. Avida não vale pelo que é, mas pelo que dói... Só aBeleza nos interessa... Se nos apelidamos ou nos apelidaram caracteristicamente de decadentes, éporque temos um sentido próprio de decadência61. Afirma-se um segregacionismo grupal („Só aBeleza nos interessa…“, na sua majestosa insignificância; seja, aautonomia artística, secundarizando consumidor) face anacionalistas, saudosistas edemais experiências acolhidas ao voto da popularidade, que irritava Mallarmé62. Desde 1909, oortónimo pessoano vai, em seis sonetos, “Em busca da Beleza”, que “No mundo não existe”, povoado de “tédio extremo” ou “intérmino”. Relido Montalvor, talvez compreendamos oesforço programático de Pessoa— nessa “ânsia de Cousa indefinida / Que oser indefinida faz tamanha”63—, visando totalidades de conformação decadentista. 5. ESTADO DA QUESTÃO Se “No mundo não existe”, encontra-se alhures oespectáculo da Beleza, talvez identificada à“perfeição das cousas” de Cesário. Esta insularização étípica da modernidade, que entendemos bem quando nos refugiamos em casulos, nos encapsulamos em tablets esmartphones. Adeus, longue durée; adeus, grandes narrativas, só já para nostálgicos do Realismo oitocentista. Efeito, sensação, presente, instante, artifício, moda, enudez que furiosamente se esquiva. Recifes de auto-identidade, mal percebemos que somos mediados, reorganizados por outrem. Aâncora do self torna-se frágil, emais se nos escapam as interacções do local edo global. Descontextualizados, eainda que recombinados na distância próxima de um email, sobe desse recife ovulcão da ansiedade. Vivemos em fantasmagoria, num locus pessoal turvado por factores exógenos. Um título de Nietzsche, esboçado em 1887, traduzido como La Volontéde puissance. Essai d’une transmutation de toutes les valeurs, antecipa oprocesso. O“livro primeiro” reflecte sobre “Le nihilisme européen”, seguido de “II. Pour une critique de la modernité”. Compara oseu enosso tempo àRenascença eReforma, em que “le régne 61 Luís de Montalvor, “Tentativa de um ensaio sobre aDecadência”, Centauro (Lisboa), 1, Outubro de 1916. 62 “Q’un philosophe ambitionne la popularité, je l’en estime. […] Mais qu’un poète, un adorateur du beau inaccessible au vulgaire,— ne se contente pas des suffrages du sanhédrin de l’art, cela m’irrite, et je ne le comprends pas. / L’homme peut être démocrate, l’artiste se dédouble et doit rester aristocrate.” Conclui assim “Hérésies artistiques / L’ art pour tous”: “Opoètes, vous avez toujours été orgueilleux; soyez plus, devenez dédaigneux.” (L’Artiste, 15-IX-1862). Mallarmé 1977, pp.143–144. 63 Pessoa 1972, pp.103–105. OPEN ACCESS
66 SVĚT LITERATURY / O MUNDO DA LITERATURA de l’‘individu’ ases limites— La dissipation est trop grande, […] et l’épuisement suit pas àpas.” Caracteriza os três séculos seguintes em aristocratismo, na figura de Descartes, da razão eda vontade; feminismo, com Rousseau eseu “règne du sentiment”; animalismo, ou Schopenhauer, “règne des appétits”, do instinto animal, “plus véridique, mais plus sombre”. Écontra este século “plus terre-à-terre, plus laid, plus réaliste, plus populacier”, que luta adistância decadentista; infelizmente, num pontuar fragmentário, nenhum dos literatos coetâneos écitado, eomesmo em “III. Pour une théorie de la décadence”. Mas éàluz dessa “transmutação de todos os valores” que amodernidade se erige, eresiste. 6. CONCLUINDO As rupturas operadas pela modernidade não constituem tradição (que trabalha ao lado), mas desafio. Os humanistas modernizaram os Antigos, não os parafrasearam. Amimesis camoniana teria sido letra morta, se não olhasse ao individual, local euniversal, desaguando em obra compósita. Odesejo de ser vorazmente presente éíndice de modernidade. Vê-se na moda, no frenesi das redes sociais, na durabilidade do instante, que urge repor em cada segundo. Na literatura pós-baudelaireana, não foi atitude, mas comprovação: oar do tempo invadiu interstícios do verso, enquanto os signos mais humildes (uma conjunção, por exemplo), em posição de rima ou isolados em sintaxe rítmica— não de cadência— conquistavam um sentido próprio, eperfaziam um sentido geral esquivo, não raro acusado de obscuro, como se aí não residisse oenigma, talvez omistério da poesia. Insulados, com direito ao próprio espectáculo, erguendo altares de razão vária ao conceito de Beleza, mutável— logo, instantânea epresente—, fugidia efrívola (até às indústrias culturais de hoje), assistiu asarcasmos eresistiu aos poucos leitores (que são os mais perigosos), para, socorrendo-se de ironia eauto-reflexividade, consciente dos seus artifícios, se acomodar às instituições do livro eda revista, antes de entrar na escola enos circuitos informais. Fica alição de uma instabilidade de ouro em universo fragmentado, em que éde somenos oregresso ao “clássico” ou adesvarios temático-formais do Decadentismo, face anterior do Modernismo literário. No outro rosto de poeta— farol do seu tempo— éque está osegredo. BIBLIOGRAFIA Baju, Anatole. LʼÉcole décadent. Paris: Léon Vanier, 1887. Baudelaire, Charles. Œuvres complètes. Paris: Robert Laffont, 1980. Behler, Ernst. Ironie et modernité. Paris: PUF, 1997. Bourget, Paul. Essais de psychologie contemporaine, t. 1. Paris: Plon, 1920. Coelho, Jacinto do Prado (dir.). Dicionário de Literatura, vol. 1. Porto: Figueirinhas, 1979. Eagleton, Terry. Aideia de cultura. Lisboa: Temas eDebates, 2003. Giddens, Anthony. As consequências da modernidade. Oeiras: Celta Editora, 2005. Guyaux, André. Baudelaire. Un demi-siècle de lectures des Fleurs du mal (1855–1905). Paris: OPEN ACCESS
ERNESTO RODRIgUES 67 Presses de l’Université Paris-Sorbonne, 2007. Mallarmé, Stéphane. Poésies. Paris: Livre de Poche, 1977. Ortigão, Ramalho. As farpas completas, vol. 5. Lisboa: Círculo de Leitores, 2007. Pessoa, Fernando. Obra poética. Rio de Janeiro: José Aguilar Editôra, 1972. Saraiva, António José. Para aHistória da Cultura em Portugal, II. Lisboa: Gradiva, 1995. Souriau, Étienne. Vocabulaire d’Esthétique. Paris: Quadrige / PUF, 1999. Steiner, George. Aideia de Europa. Lisboa: Gradiva, 2006. Veiga, Tomé Pinheiro da. Fastigínia. Lisboa: CLEPUL, 2011. Vieira, P. António, Livro anteprimeiro da história do futuro. Lisboa: Biblioteca Nacional, 1983. THE DECADENTS AND MODERNITY The paper explores definitions of modernity, with aparticular focus on the relationship between Baudelaire’s modern poetry and the Portuguese poetry of Decadentismo. KEY WORDS / PALAVRAS-CHAVE: Modernity; modern poetry; decadence modernidade; poesia moderna; decadência Endereço profissional: Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa Centro de Literaturas eCulturas Lusófonas eEuropeias Endereço eletrónico: [email protected] OPEN ACCESS