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Trajes e normas: a influência europeia nos modos e modas femininas através doperiódico "O Brazil Elegante" (1902-1904)

Pinto, Ana Letícia de Andrade

Abstract

Este artigo investiga a influência europeia na moda e nos modos femininos no Brasil por meio da análise do periódico O Brazil Elegante (1898-1904). O estudo foca nas edições de 1902 a 1904, período das reformas urbanas de Pereira Passos no Rio de Janeiro, inspiradas no modelo parisiense. A pesquisa, fundamentada na História Cultural e no conceito de Práticas e Representações, utiliza a análise documental para compreender como essas influências foram reinterpretadas em um país tropical. Os resultados indicam que a imprensa da época desempenhou um papel central na normatização do feminino, promovendo padrões europeus de elegância e comportamento. Conclui-se que a moda, mais do que um reflexo estético, funcionava como um instrumento de regulação social, moldando as representações de feminilidade na Belle Époque brasileira.

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(ENTRE)LINHAS Revista do Programa de Pós-graduação em História da UFOP Mariana, V.05, N. 01, 2025. DOI 10.5281/zenodo.17226625 Ana Letícia de Andrade Pinto¹ Trajes e normas: a influência europeia nos modos e modas femininas através do periódico “O Brazil Elegante” (1902-1904) INTRODUÇÃO O presente texto objetiva proceder um estudo acerca dos reflexos das influências europeias nos modos e modas femininas através do periódico “O Brazil Elegante”, que circulou no Rio de Janeiro entre 1898 e 1904. As edições trabalhadas serão principalmente as publicadas entre 1902 e 1904, período correspondente ao do governo do prefeito Francisco Pereira Passos, que promoveu a grande reforma urbana do Rio de Janeiro, inspirada na cidade de Paris. O periódico será analisado a partir do viés fornecido pela perspectiva teórico-metodológica História Cultural, e, dentro dela, o conceito de Práticas e Representações. O objetivo principal é compreender melhor quais foram e como as influencias vindas da Europa eram adaptadas no Brasil, um país com clima e costumes bastante diferentes. O periódico também será analisado pela perspectiva do gênero, visando observar como essas influencias refletiam na normatização das mulheres no início do século XX. O período compreendido como “Belle Époque” foi de grandes transformações econômicas, culturais, sociais e políticas, tanto na Europa² quanto em outras partes do mundo, incluindo o Brasil. Nas palavras de Maria de Fátima da Silva Costa Garcia Mattos, “É na segunda metade do século XIX, que a influência francesa atinge o seu auge no Brasil, determinando os modelos da vida social e cultural, através das suas referências intelectuais e filosóficas, como as da pintura, da decoração, da culinária e da moda” (MATTOS, 2006, p. 394). No Brasil, pode-se considerar que o marco inicial dessa nova era foi em 1889, com a Proclamação da República. Porém, o período em que teve maior influência foi no início do século XX, tendo os periódicos como principais disseminadores das ideias vindas da Europa. Com a independência em 1822, o estabelecimento do império e 1 Mestranda em História - Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ). E-mail para contato: [email protected] 01 (entre)linhas, Mariana, V. 05, N. 01, 2025, p. 01-27. doi.org/10.5281/zenodo.17226625 2 Paris era considerada a capital cultural do mundo. Trajes e normas: a influência europeia nos modos e modas femininas através doperiódico “O Brazil Elegante” (1902-1904) | PINTO posteriormente a proclamação da República em 1889, a nação brasileira passava por um momento de diversas mudanças sociais e políticas, buscando forjar nova identidade. Nicolau Sevcenko afirma que, Nesse contexto, a imprensa desempenhou um papel crucial, pois jornais, revistas e periódicos tornaram-se mecanismos fundamentais na formação de sociabilidades e cultura no Brasil. Além das transformações que ocorriam nos âmbitos político, social e cultural, o Brasil também passava por uma industrialização tardia, que acarretou em um grande êxodo rural. O país estava buscando deixar para trás seu passado agrário e colonial, desenvolvendo uma política remodeladora capaz de atrair mão de obra e capital estrangeiros. Sevcenko escreve que, “Nas palavras de um cronista coevo, a sociedade se tornava um ‘desabalado torvelinho de interesses ferozes, onde a caça ao ouro constitui a preocupação de toda agente’”(SEVCENKO, 2003, p. 26). O Rio de Janeiro, que era a capital do Brasil nesse período, iniciou o século XX com perspectivas bastante promissoras, tornando-se o maior centro comercial do país. Era sede das maiores casas bancárias nacionais e estrangeiras e da maior bolsa de valores; também constituía o maior centro populacional do país, o que possibilitou ainda mais a instalação de novas indústrias, por possuir grande mercado de consumo e mão-de-obra. Nas palavras de Sevcenko, a cidade tornou-se então, “o maior centro cosmopolita da nação, em íntimo contato com a produção e o comércio europeus e americanos, absorvendo-os e irradiando-os para todo o país” (SEVCENKO, 2003, p. 28). Com todo este processo de industrialização, a cidade tornou-se cada vez mais consumista, sempre buscando o que era novo, a “última moda”. Segundo André Luiz Paulilo, “O planejamento, a consolidação da ordem e a capacidade técnica da engenharia são tomadas como expressões da cultura das camadas altamente urbanizadas.” (PAULILO, 2004, p. 514). Esse apreço pelas novidades acabou por se tornar um inconveniente, pois logo evidenciou-se que a cidade estava “velha demais” para toda essa nova fase, 02 Estimuladas sobretudo por um novo dinamismo no contexto da economia internacional, essas mudanças irão afetar desde a ordem e as hierarquias sociais até as noções de tempo e espaço das pessoas, seus modos de perceber os objetos ao seu redor, de reagir aos estímulos luminosos, a maneira de organizar suas afeições e de sentir a proximidade ou o alheamento de outros seres humanos. De fato, nunca em nenhum período anterior, tantas pessoas foram envolvidas de modo tão completo e tão rápido num processo dramático de transformação de seus hábitos cotidianos, suas convicções, seus modos de percepção e até seus reflexos instintivos (SEVCENKO, 1998, p. 7-8). (entre)linhas, Mariana, V. 05, N. 01, 2025, p. 01-27. doi.org/10.5281/zenodo.17226625 para os novos tempos (as ruelas estreitas dificultavam as conexões com o porto e as áreas pantanosas provocavam muitas epidemias). De acordo com Sevcenko, Para acompanhar todo esse progresso, era necessário então assemelhar-se cada vez mais aos padrões e à economia europeus. A estabilização do regime e medidas econômicas abriram caminho para a remodelação da cidade e a consagração do progresso com o objetivo fundamental. “A velha cidade, feia e suja, tem os seus dias contados” (SEVCENKO, 2003, p.30). Segundo Paulilo, Vários casarões coloniais que, devido ao êxodo rural causado pela industrialização, haviam se tornado pensões abarrotadas de pessoas pobres, foram demolidos do centro da cidade para dar lugar a belas avenidas (como a Avenida Central), praças, lindos jardins e várias estátuas importadas da Europa. Ainda nas palavras de Paulilo, Inicia-se, então, uma abominação por qualquer cultura popular que fugisse dos padrões parisienses, surgindo, assim, um cosmopolitismo agressivo. Entretanto, as mudanças não ocorreram apenas na estética da cidade, mas também no modo de se vestir. Sevcenko escreve que “O novo cenário suntuoso e grandiloquente exigia novos figurinos” (2003, p. 31). A moda brasileira era uma mistura da cultura local com o que vinha de Portugal. Mas, nesse período 03 Era preciso, pois, findar com a imagem da cidade insalubre e insegura, comum a enorme população de gente rude plantada bem no seu âmago, vivendo no maior desconforto, imundice e promiscuidade [...] Somente oferecendo ao mundo uma imagem de plena credibilidade era possível drenar para o Brasil uma parcela proporcional da fartura, conforto e prosperidade em que já chafurdava o mundo civilizado (SEVCENKO, 2003, p. 29). A transformação do espaço público foi enorme. É necessário lembrar que resultou em muitos planos diferentes. Eles podem ser divididos em três grandes rubricas: o bota-abaixo da administração Pereira Passos(1902—1906), a intensa abertura viária promovida por Paulo Frontin(1906-1907) e o arrasamento do Morro do Castelo por Carlos Sampaio(1920-1922). Do mesmo modo, podem ser agrupadas sob uma curiosa interseção, pois, no conjunto, são obras de engenheiros cuja agudeza das remodelações destruíram os alicerces de tradições de convivência no perímetro urbano da cidade do Rio de Janeiro (PAULILO, 2004, p. 515). Os contrastes e os erros proporcionados pela ação sobre a organização urbana da capital eram motivos suficientes para desapontar seus artífices, que esperavam soluções definitivas para os problemas urbanos (PAULILO, 2004, p. 521) Trajes e normas: a influência europeia nos modos e modas femininas através doperiódico “O Brazil Elegante” (1902-1904) | PINTO (entre)linhas, Mariana, V. 05, N. 01, 2025, p. 01-27. doi.org/10.5281/zenodo.17226625 04 de grandes mudanças, o vestuário precisava estar de acordo com a nova estrutura urbana da cidade. Com isso, tudo o que era moda em Paris, tornavase moda no Brasil. Seja por importação ou até mesmo cópia das revistas de moda francesas, o importante era “ser chic ou smart conforme a procedência do tecido ou do modelo” (SEVCENKO, 2003, p. 31). Com todas essas mudanças, principalmente as que ocorreram na remodelação da cidade (como, por exemplo, a demolição dos casarões, que haviam se tornado pensões), ocorreu uma grande crise de habitação, que obrigou os mais pobres a se abarrotarem nos subúrbios e nos morros, pois os alugueis no centro da cidade tornaram-se extremamente caros. Isso fez com que o centro se tornasse reservado apenas para a elite (os elegantes e chic), mantendo-se, assim, um padrão considerado a altura da elegância francesa, como aponta Sevcenko: Intensifica-se, então, a repulsa pelos indígenas, considerados pela chamada “boa sociedade”³ como selvagens. Para os que buscavam modernizar-se, os indígenas e sua cultura destoavam do novo estilo de vida, que era baseado principalmente nos padrões europeus (RAINHO, 2002, p. 102). Sua língua, suas plumas, tudo era considerado vergonhoso. Ao contrário do que havia sido no período da Independência, em que as elites buscavam uma aproximação com os nativos (o indianismo⁴) e demonstravam um grande desejo em ser brasileiros, ter uma identidade nacional própria, na chamada “Belle Époque” desejavam, mais do que nunca, se parecer com os estrangeiros, desejavam até mesmo ser estrangeiros. Ansiavam por tudo o que vinha de fora, desde as roupas e mobílias até o comportamento, o lazer, as escolas filosóficas, as peças teatrais e, até mesmo, conhecimento das doenças. Nas palavras de Sevcenko, “O auge desse comportamento mental cosmopolita coincidiria com o início da Grande Guerra, - quando as pessoas na Avenida, ao se cruzarem, em lugar do convencional ‘boa tarde’ ou ‘boa noite’, trocavam um ‘Viva a França’” (SEVCENKO, 2003, p. 37). Em contraste com toda essa busca pelo estrangeiro, com a abolição da escravidão, uma parcela significativa da população do Rio de Janeiro passou a viver em situação de marginalidade, sem saber qual lugar poderia ocupar na dinâmica social da cidade, que é importante frisar, havia sido remodelada. Não conseguiam se encaixar em nenhum daqueles novos padrões, até porque sequer conseguiam empregos. Como citado anteriormente, tudo o que [...] Agora porém a cidade mudou e nós mudamos com ela e por ela. Já não é mais a singela morada de pedras sob coqueiros; é o salão com tapetes ricos e grandes globos de luz elétrica. E por isso, quando o selvagem aparece, é como um parente que nos envergonha. Em vez de reparar nas mágoas do seu coração, olhamos com terror para a lama bravia dos seus pés. O nosso smartismo estragou a nossa fraternidade (SEVCENKO, 2003, p. 35). 3 Como as pessoas brancas, mais abastadas e de status social elevado eram denominadas na época(Rainho, 2002, p. 108). 4 Movimento literário da primeira geração romântica brasileira que idealizava o indígena comoheróinacional, associando-o à natureza e aos valores autênticos da nação, em oposição à cultura europeia.(Costa, 2011, p. 62). Trajes e normas: a influência europeia nos modos e modas femininas através doperiódico “O Brazil Elegante” (1902-1904) | PINTO (entre)linhas, Mariana, V. 05, N. 01, 2025, p. 01-27. doi.org/10.5281/zenodo.17226625 05 lembrava a cultura popular e o passado colonial e imperial era completamente rejeitado, dificultando, assim, a inserção dessas pessoas na sociedade. De acordo com Sevcenko, a cidade Todo esse fascínio pelo estrangeiro, manifestado pelo padrão parisiense, acabou por tornar as cidades belas e civilizadas apenas de fachada. Os centros eram belíssimos, com pessoas bem vestidas, lindas mansões e avenidas, mas o restante da população (talvez até a maioria) vivia em condições terríveis, amontoadas nos subúrbios e nos altos de morros. Segundo Paulilo, Pode-se dizer que esse período foi marcado pela tentativa de passagem de um Brasil rural (colonial) para um Brasil cosmopolita da elite. Também foi um período em que as diferenças de classe se acentuaram muito mais, podendo-se perceber essas diferenças principalmente nos costumes e modos de vestir. A IMPRENSA PERIÓDICA COMO DIFUSORA DE MODERNIDADE E PADRÕES DE ELEGÂNCIA Voltando aos periódicos, durante o período estudado, eles foram uma das principais formas de se atentar às modernidades vindas da Europa, que trazia imagens e todo tipo de novidade em seus textos, principalmente no que dizia respeito ao que estava na moda em Paris, que como dito anteriormente, era considerada a capital cultural do mundo. Os periódicos desempenharam um papel fundamental no Brasil durante a chamada “Belle Époque”, tanto como veículos de comunicação quanto agentes de influência cultural e política. Eles foram um reflexo das mudanças sociais e intelectuais da época, e muitos historiadores destacaram sua importância na construção da identidade Carecia de moradias e alojamentos, falta de condições sanitárias, moléstias (alto índice de mortalidade), carestia, fome, baixos salários, desemprego, miséria: eis os frutos mais acres desse crescimento fabuloso e que cabia à parte maior e mais humilde da população provar (SEVCENKO, 2003, p. 52). A cidade instaurada pelo discurso urbanístico foi definida à maneira de um sistema; manifestava a capacidade de conceber e construir o espaço a partir de uma tripla projeção. A perspectiva de um passado resultante daquilo que a razão técnica pode fazer sobre a natureza e das rentabilizações financeiras sobre o espaço urbano. O diagnóstico dos males do presente, minuciosa descrição dos problemas de aeração, ventilação, congestionamento do tráfego e dos sistemas de coleta de lixo, abastecimento e distribuição de água. O prognóstico de um futuro incerto, baseado na hipótese ou na necessidade do seu saneamento, do seu embelezamento, da sua funcionalidade e da sua organização, em suma, baseado numa reforma (PAULILO, 2004, p. 523). Trajes e normas: a influência europeia nos modos e modas femininas através doperiódico “O Brazil Elegante” (1902-1904) | PINTO (entre)linhas, Mariana, V. 05, N. 01, 2025, p. 01-27. doi.org/10.5281/zenodo.17226625 06 nacional e na disseminação de ideias. Tania Regina de Luca argumenta que Durante esse período, o Brasil testemunhou um aumento no número de periódicos, tanto em termos de quantidade quanto de diversidade de conteúdo. Jornais e revistas se tornaram canais para a circulação de informações, notícias, literatura, opiniões políticas, críticas culturais e análises sociais. Nas palavras de Carlos Costa, “Nesse novo século que engatinha, haveria espaço para publicações de todo gênero – das mundanas às culturais, das humorísticas às informativas.” (COSTA, 2012, p. 427). Esses periódicos proporcionaram um espaço para o debate público e permitiram que diferentes perspectivas fossem apresentadas e discutidas. Segundo Constância Lima Duarte, “A convivência coma corte e os novos costumes importados da Europa, como a etiqueta, os modismos, o gosto pela literatura, a imprensa se encarregou de difundir, impondo à parcela esclarecida da elite o passo ditado pelo novo século” (DUARTE, 2017, p. 14). A expansão da imprensa contribuiu para a disseminação de ideias e informações para diferentes camadas da sociedade, possibilitando um maior envolvimento público com os assuntos em debate. No entanto, é importante ressaltar que a influência dos periódicos não era homogênea. Muitas publicações refletiam os interesses e pontos de vista das elites dominantes, o que, por vezes, resultava em uma visão parcial dos acontecimentos. No que se refere ao vestuário, os periódicos exerceram um papel fundamental na difusão das tendências de moda e estilo do período. Mais do que apenas refletirem as transformações sociais e culturais em curso, eles atuaram ativamente na construção da identidade visual e estética da sociedade da época. Os periódicos de moda⁵, como o “Brazil Elegante”, eram plataformas que acompanhavam e documentavam as últimas tendências em trajes, penteados e acessórios. Eles ofereciam ilustrações detalhadas e descrições das roupas A aceleração do tempo e o confronto com os artefatos que compunham a modernidade (automóveis, bondes, eletricidade, cinemas, casas noturnas, fonógrafos, câmaras fotográficas), a difusão de novos hábitos, aspirações e valores, as demandas sociais, políticas e estéticas das diferentes camadas que circulam pelas cidades, os conflitos e esforços das elites políticas para impor sua visão de mundo e controlar as "classes perigosas", a constituição dos espaços públicos e os meandros que regiam seu usufruto e circulação, as intervenções em nome do sanitarismo e da higiene, a produção cultural e as renovações estéticas, tudo isso passou a integrar as preocupações dos historiadores, que não se furtaram de buscar parte das respostas na imprensa periódica, por cujas páginas formularam-se, discutiram-se e articularam-se projetos de futuro (LUCA, 2008, p. 120). 5 Entre os periódicos contemporâneos ao Brazil Elegante, destacam-se títulos como A Vida Elegante, A Estação e O Malho, que também atuavam na divulgação de costumes, modas e valores sociais da época. Trajes e normas: a influência europeia nos modos e modas femininas através doperiódico “O Brazil Elegante” (1902-1904) | PINTO (entre)linhas, Mariana, V. 05, N. 01, 2025, p. 01-27. doi.org/10.5281/zenodo.17226625 usadas pela alta sociedade, contribuindo para a disseminação dos padrões de beleza e elegância da época. “Moda, modos, maneiras passavam a estar associados à novidade, à transformação, aos novos tempos e novas coisas. O verbete não poderia ser mais claro ao traduzir também um comportamento que se modificava” (MONTELEONE, 2019, p. 86). Não apenas apresentavam os visuais da elite, mas também influenciavam as aspirações de moda de outras camadas sociais. Ao destacar os trajes usados por figuras proeminentes da sociedade, os periódicos moldaram as percepções de status e de classe social, incentivando muitos a seguirem as tendências da moda para expressar sua posição na sociedade. “[...] a moda ficaria entre a necessidade de imitação e a vontade de distinção dos indivíduos” (MONTELEONE, 2019, p. 90). Além disso, os periódicos de moda eram parte integrante da cultura de consumo que estava se desenvolvendo na “Belle Époque”. Eles promoviam produtos de beleza, acessórios e roupas, incentivando a compra e a adesão às novas tendências. Isso se alinhava com a crescente urbanização e a ascensão da sociedade de consumo. Segundo Joana Monteleone, No entanto, é importante ressaltar que os padrões de beleza e moda retratados nesses periódicos nem sempre eram acessíveis a todas as camadas da sociedade. As tendências eram frequentemente adaptadas e reinterpretadas de acordo com as possibilidades econômicas das diferentes classes sociais. Em síntese, os periódicos de moda desempenharam um papel significativo na definição das tendências estéticas e na promoção das aspirações de moda durante a chamada “Belle Époque” brasileira. Eles refletiam não apenas a evolução das roupas e estilos, mas também as dinâmicas sociais, econômicas e culturais da época. Visto isso, o presente trabalho se dividirá em três partes. A primeira, intitulada “‘O Brazil Elegante’: um panorama da influência europeia nas modas e modos femininos no Rio de Janeiro (1902-1904)”, em que apresentarei o jornal e suas principais características, buscando evidenciar como a Europa manteve sua influência na capital brasileira no período em que estavam ocorrendo grandes mudanças sociais, culturais, políticas e econômicas. Na segunda parte, intitulada “‘O Brazil Elegante’ e suas adaptações de trajes europeus em um país tropical”, procurarei entender principalmente como eram feitas as adaptações nos trajes vindos da Europa para um país tropical, lugares com climas completamente distintos. Na terceira e última parte, intitulada “Normatização feminina através do periódico ‘O Brazil Elegante’”, procurarei entender como esses periódicos tentavam moldar o gênero 07 Vestir-se elegantemente, ou simplesmente, estar à moda, era algo que se aprendia e se ensinava. Para isso, novos veículos de comunicação, o jornal, o almanaque, a revista, o semanário, cumpriram um papel fundamental, num século de transição (MONTELEONE, 2019, p. 106). Trajes e normas: a influência europeia nos modos e modas femininas através doperiódico “O Brazil Elegante” (1902-1904) | PINTO (entre)linhas, Mariana, V. 05, N. 01, 2025, p. 01-27. doi.org/10.5281/zenodo.17226625 08 feminino, como impunham os comportamentos adequados à uma dama da sociedade, por exemplo, tendo em vista a influência que a imprensa tinha sobre as pessoas. “O BRAZIL ELEGANTE”: UM PANORAMA DA INFLUÊNCIA EUROPEIA NOS ESTILOS FEMININOS NO RIO DE JANEIRO (1902-1904) Sob a direção de A. F. Reynaud, o periódico "O Brazil Elegante" surgiu com o intuito de apresentar para as damas da sociedade as modas vigentes no período, em sua maioria vindas de Paris, que como já dito anteriormente, era considerada a capital mundial da cultura. Suas publicações eram feitas quinzenalmente, nos dias 1 e 16 de cada mês, sem interrupções, refletindo o compromisso com a regularidade e a atualização frequente. O preço da venda era diferenciado entre a compra avulsa (1§500) e também pelo correio (1§800), revelando que o periódico possuía uma estratégia de acesso tanto ao público local (Rio de Janeiro) quanto ao distante (demais estados e cidades). Possuía dois tipos de assinatura, sendo elas a anual (capital 26§000 e estados 28§000) e semestral (capital 14§000 e estados 15§000). Além de tudo, “O Brazil Elegante” é considerado o primeiro periódico que se dedicou exclusivamente à moda. A ênfase na elegância é evidente na abordagem editorial do periódico, trazendo em suas páginas imagens e descrições detalhadas de modelos de trajes e tecidos utilizados para cada um, instruindo como fazer, pintar e bordar, tudo isso para que as leitoras pudessem produzi-los de forma artesanal. Na edição 24 de 1901, na página onze, temos um exemplo de como eram feitas estas descrições: Partimos do pressuposto que a imprensa de fins do século XIX e início do século XX não visava refletir a sociedade, mas sim atuar sobre ela. Por isso, temos condição de avaliar através da análise de periódicos, como alguns setores da sociedade viam o comportamento feminino e criavam representações para as mulheres (NASCIMENTO, 2006, p. 15). Molde cortado tamanho natural de Saia Bertholet A parte de traz é cortada em forma sem costura no meio a saia sendo aberta do lado esquerdo, essa parte corta-se n’um tecido em 1m.20 de largura aberto e dobrado no travez sobre 1m.20 poir o molde como meio das costas no travez do tecido. Deve-se deixar mais 10 centímetros pela bainha. O avental e os pannos de lado cortam-se com a fazenda dobrada ourela com ourela sendo o meio da frente sem costura. Uma vez os pannos cortados alinhavar e provar pespontar as costuras, alinhavar a escossia e experimentar outra vez para dobrar a bainha (O Brazil Elegante, Rio de Janeiro, Trajes e normas: a influência europeia nos modos e modas femininas através doperiódico “O Brazil Elegante” (1902-1904) | PINTO (entre)linhas, Mariana, V. 05, N. 01, 2025, p. 01-27. doi.org/10.5281/zenodo.17226625 09 Percebe-se, por meio das ilustrações e do que eles chamavam de “Descrição das Toilettes”, que o público alvo de “O Brazil Elegante” era principalmente as damas da alta sociedade, que frequentavam bailes, faziam passeios durante o dia e recebiam visitas em casa (mostrando uma realidade totalmente distinta das mulheres que precisavam trabalhar fora). Figura 1 – Página do periódico “O Brazil Elegante”, com ilustrações e descrições das toilettes mais usadas no momento das publicações Fonte: Hemeroteca Digital Brasileira. O Brazil Elegante, Rio de Janeiro, RJ, ano V, n. 24, 16 dez. 1901, p. 2. RJ, ano V, n. 24, 16 dez. 1901, p.11) Trajes e normas: a influência europeia nos modos e modas femininas através doperiódico “O Brazil Elegante” (1902-1904) | PINTO (entre)linhas, Mariana, V. 05, N. 01, 2025, p. 01-27. doi.org/10.5281/zenodo.17226625 16 Posto isto, é notável que, entre os grupos sociais com acesso aos periódicos e maior proximidade com os padrões europeus, havia um forte desejo de vestirse à moda de Paris, ainda que isso exigisse adaptações nos moldes e tecidos do modelo original. Estar alinhada às tendências parisienses era entendido, nesses círculos, como sinal de elegância e civilização. Na perspectiva de Gilda de Mello e Souza, a moda é Com esse desejo constante de seguir a moda europeia, começa-se uma imigração de vários profissionais da moda franceses para tentarem a vida no Brasil, principalmente no Rio de Janeiro. Vieram de Paris modistas, alfaiates, cabeleireiros e vários comerciantes, com o intuito de estabelecerem seus negócios e conseguirem lucros que muitas vezes não conseguiam em sua terra natal (SILVA, 2019, p. 129). Lená Medeiros Menezes escreve que Portanto, manter-se na moda não era apenas algo supérfluo, que as damas da alta sociedade faziam para se sentirem superiores às mulheres das demais classes. Envolvia a economia do país, questões sociais e culturais. NORMATIZAÇÃO FEMININA ATRAVÉS DO PERIÓDICO “O BRAZIL ELEGANTE” [...] um dos instrumentos mais poderosos de integração e desempenha uma função niveladora importante, ao permitir que o indivíduo se confunda com o grupo e desapareça num todo maior que lhe dá apoio e segurança. E como as modas vigentes são sempre as da classe dominante, os grupos mais próximos estão, a cada momento, identificando-se aos imediatamente superiores através da imitação da vestimenta (SOUZA, 1987, p. 129-130). Deixando de lado aqueles que buscaram no Brasil um refúgio político ou que por aqui passaram como parte de suas viagens científicas ou artísticas, ou, ainda, por conta de suas atividades como livreiros e editores, um destaque especial deve ser dado aos que, na nomenclatura atual, poderiam ser chamados de imigrantes econômicos, sempre menosprezados nas análises feitas sobre a influência cultural francesa na cidade. Nosso destaque, como já foi dito, volta-se principalmente para as modistas e costureiras francesas, imortalizadas na rua do Ouvidor, para as quais fazer a América no Brasil significou, em última instância, concretizar o sonho do negócio próprio, superada a aventura atlântica (MENEZES, 2004, p. 73 apud SILVA, 2019, p. 134). As roupas, como artefatos, “criam” comportamentos por sua capacidade de impor identidades sociais e permitir que as pessoas afirmem identidades sociais latentes. Por um lado, os estilos de roupa podem ser uma camisa de força, restringindo (literalmente) Trajes e normas: a influência europeia nos modos e modas femininas através doperiódico “O Brazil Elegante” (1902-1904) | PINTO (entre)linhas, Mariana, V. 05, N. 01, 2025, p. 01-27. doi.org/10.5281/zenodo.17226625 17 Como foi escrito na seção anterior, o vestuário não se trata apenas do vestir, mas envolve diversas áreas, como economia, sociedade e cultura. Estar na moda era sinônimo de distinção e civilização, e quem podia seguir as influências da Europa distinguia-se das demais camadas da população. Segundo Gilda de Mello e Souza, Estar à altura da elegância europeia era o maior desejo da “boa sociedade” carioca e, à luz do que já se expôs, os periódicos desempenhavam papel fundamental nesse processo, funcionando como guias de comportamento que muitos buscavam seguir à risca. Porém, alguns desses conselhos muitas vezes publicados pelos periódicos acabavam restringindo o modo de vida das pessoas, principalmente do gênero feminino. Essas modas vindas da Europa chegavam ao Brasil exercendo um certo papel de normatização. Os que gostariam de ser elegantes só o seriam se seguissem completamente o que os periódicos traziam de fora. Nas palavras de Judith Butler, Ou seja, por mais que essas normas restringissem, elas eram consideradas completamente normais dentro daquela sociedade, daquele período. Sevcenko escreve que o importante era ser “chic” (SEVCENKO, 2003, p. 31). Portanto, assim como vários outros periódicos publicados na época, “O Brazil Elegante” os movimentos e gestos do indivíduo, como foi o caso do vestuário feminino durante a era vitoriana. [...] Por outro lado, as roupas podem ser vistas como um vasto reservatório de significados, passíveis de ser manipulados ou reconstruídos de forma a acentuar o senso pessoal de influência (CRANE, 2013, p. 22). A aproximação em que vivem as pessoas na área urbana desenvolve, efetivamente, a excitabilidade nervosa, estimulando o desejo de competir e o hábito de imitar. Nas sociedades mais enfastiadas, por exemplo, o ambiente torna-se propício às inovações que, lançadas por um indivíduo ou um grupo de prestígio, logo se propagam de maneira mais ou menos coercitiva pelos grupos imitadores, temerosos de sentirem-se isolados (SOUZA, 2019, p. 20-21). Uma norma opera no âmbito de práticas sociais sob o padrão comum implícito da normalização. Embora uma norma possa ser analiticamente separada das práticas nas quais ela está inserida, também pode mostrar-se recalcitrante a quaisquer esforços de descontextualização de sua operação. Normas podem ou não serem explicitas, e quando elas operam como o princípio normalizador da prática social, elas geralmente permanecem implícitas, difíceis de perceber e mais clara e dramaticamente discerníveis nos efeitos que produzem (BUTLER, 2014, p. 252). Trajes e normas: a influência europeia nos modos e modas femininas através doperiódico “O Brazil Elegante” (1902-1904) | PINTO (entre)linhas, Mariana, V. 05, N. 01, 2025, p. 01-27. doi.org/10.5281/zenodo.17226625 18 trazia em suas páginas diversas regras e moda a serem seguidas para quem queria ser parte da elite carioca. Tratando-se das damas da alta sociedade, elas deveriam estar sempre “impecáveis”, usando o traje adequado para cada ocasião. Deveriam ser sempre “lindas e dóceis”, para que seus maridos pudessem exibi-las com “troféus”. Afinal, para demonstrarem sua riqueza e o poder de suas famílias, o melhor modo era estarem tal qual as regras de etiqueta e elegância mandavam. Nas palavras de Diana Crane, “o papel da mulher de classe alta, que não devia trabalhar nem dentro nem fora de casa, refletia-se na natureza ornamental e nada prática do estilo das roupas da moda.” (CRANE, 2013, p. 48). As capas do “O Brazil Elegante” sempre traziam mulheres vestidas de acordo com esse padrão, reafirmando a questão de que era de extrema importância se vestir com elegância. Ainda nas palavras de Crane, “A diversidade de imagens em revistas de moda associada a estilos de roupa feminina podem ser vistos como um indício do esforço para definir as identidades da mulher no século XX” (CRANE, 2013, p. 52). A seguir, a capa do periódico “O Brazil Elegante”, ano VIII, n. 2, de 16 de janeiro de 1904: Figura 7 – Capa do periódico “O Brazil Elegante”, ano VIII, n. 2, de 16 de janeiro de 1904 Trajes e normas: a influência europeia nos modos e modas femininas através doperiódico “O Brazil Elegante” (1902-1904) | PINTO (entre)linhas, Mariana, V. 05, N. 01, 2025, p. 01-27. doi.org/10.5281/zenodo.17226625 19 Fonte: Hemeroteca Digital Brasileira. O Brazil Elegante, ano VIII, n. 2, de 16 jan. 1904, p. 1. O único dever da mulher da alta sociedade, além de estar sempre impecável, era o de instruir os filhos para que soubessem se portar com elegância — função que se manifestava como extensão do ideal de domesticidade e moralidade burguesa. Como observa Carla B. Pinsky, este ideal de feminilidade construiu um modelo de mulher recatada, dedicada à vida privada, ao lar e à educação dos filhos, funcionando como guardiã da ordem moral e afetiva da família (PINSKY, 2004, p. 608-609). Nesse sentido, “O Brazil Elegante”, já em sua primeira edição de 1902, reforça esse papel, evidenciando como tais periódicos contribuíam para a difusão e naturalização dessas normas de conduta feminina. Trajes e normas: a influência europeia nos modos e modas femininas através doperiódico “O Brazil Elegante” (1902-1904) | PINTO (entre)linhas, Mariana, V. 05, N. 01, 2025, p. 01-27. doi.org/10.5281/zenodo.17226625 20 O dever da mulher Por cima da porta nossa velha Universidade d’Aberdeen lê-se esta inscripção: Diz-se O que é que se diz? Deixae dizer. Parece-me que podemos adoptar esta divisa, quando discutem a obra da mulher, tanto no passado como no presente. Deixae dizer... Nossas mães, avós, e antepassados procederam segundo o seu ponto de vista: mas se queremos ser dignas de succeder-lhes, devemos aproveitar a sua experiencia e procurar que nossa actividade dê ainda melhores resultados. Tudo no mundo progride e melhora. A instrucção faz a sua obra. Começamos a comprehender que é do nosso dever não nos limitar a socorrer os pobres e os desgraçados, mas tambem a occuparmonos das victimas d’uma educação insufficiente ou má, e luctar contra os preconceitos absurdos, ou contra falsas doutrinas sociaes. E’ a nós que pertence procurar as causas da miséria e do crime; fazer todo o possível, para, ao menos, travar o mal, quando não o pudermos curar. Esta obra regeneradora, a reforma social, está no alcance de toda a mulher dotada de intelligencia, de coração e de juizo, porque a verdadeira missão da mulher é, não sómente applicar no seu meio ideas elevadas e principios generosos, mas ter uma influencia salutar sobre as leis e a orientação da vida social. Feliz o paiz cujas filhas comprehendem que esta nobre missão é do seu dever, e que teem a coragem suprema de se dedicarem ao triumpho de justiça, do direito e da equidade em todas ás classes da sociedade! Tivemos sempre muitas occasiões de ser uteis e bemfeitoras, mas esta via é verdadeiramente eriçada de difficuldades, não podemos dizer o contrario. Não é bastante propagar á obra; é preciso também desarmar a critica. Mas as hostilidades e ás discordias que temos a vencer, ainda que inevitaveis, não são invenciveis. Ataquemos pois corajosamente estas difficuldades, preparemo-nos Trajes e normas: a influência europeia nos modos e modas femininas através doperiódico “O Brazil Elegante” (1902-1904) | PINTO (entre)linhas, Mariana, V. 05, N. 01, 2025, p. 01-27. doi.org/10.5281/zenodo.17226625 21 para a lucta e – deixemos fallar. Condessa Aberdeen.⁹ Percebe-se então que a mulher era considerada responsável pela educação que a sociedade recebia, como escrito no trecho citado acima. Ela era criada para isso, para cuidar da família e nada além disso, o que se pode confirmar através de vários exemplos no periódico em questão e em vários outros contemporâneos a eles. Figura 8 – Ilustração de uma dama passeando de barco com duas crianças, provavelmente seus filhos 9 O Brazil Elegante, Rio de Janeiro, RJ, ano VI, n. 1, 1 jan. 1902, p. 16. Trajes e normas: a influência europeia nos modos e modas femininas através doperiódico “O Brazil Elegante” (1902-1904) | PINTO (entre)linhas, Mariana, V. 05, N. 01, 2025, p. 01-27. doi.org/10.5281/zenodo.17226625 22 Fonte: Hemeroteca Digital Brasileira. O Brazil Elegante, Rio de Janeiro, RJ, ano VI, n. 24, 16 dez. 1902, p. 8. Isso se reflete também no modo como eram instruídas a se vestir. Como visto nas imagens usadas para exemplificar, todos os trajes eram extremamente recatados, o cabelo sempre preso e aparência das modelos sempre de mulheres dóceis e inocentes. Nas palavras de Crane, pode-se concluir então que, “A moda sempre estabeleceu uma pauta social para as mulheres, e as maneiras de vestir-se são sempre motivadas socialmente” (CRANE, 2013, p. 53). CONSIDERAÇÕES FINAIS A análise empreendida buscou compreender a maneira pela qual as influências europeias eram incorporadas e adaptadas ao contexto brasileiro, especialmente considerando um país com particularidades climáticas e culturais distintas dos países da Europa. Este trabalho reafirma a importância de compreender o papel dos periódicos como agentes de disseminação cultural e normatização de comportamentos. Durante a chamada "Belle Époque", os jornais e revistas não apenas refletiam as mudanças sociais e culturais, mas também as influenciavam, desempenhando um papel fundamental na construção da identidade visual e estética da sociedade da época. Nas palavras de Silva, “A construção e perpetuação de uma visão coletiva da moda e da cultura da moda parisiense se sustentaram através de uma contínua produção e reprodução” (SILVA, 2019, p. 137). Um dos pontos centrais desta pesquisa reside na forma como o periódico "O Brazil Elegante" não somente acompanhava as tendências europeias de moda, mas também ditava padrões e comportamentos, moldando a normatização do gênero feminino na sociedade carioca do início do século XX. As análises empreendidas revelaram não só a imposição de padrões estéticos, mas também a influência na estruturação social e nas percepções de classe. Ainda segundo Silva, É importante ressaltar que, embora os periódicos tenham sido agentes cruciais na difusão de tendências e normas, eles refletiam, em grande parte, os interesses e visões das elites dominantes. Isso resultava em uma visão parcial [...] ao reproduzir os padrões de consumo das classes mais altas da Europa, a elite brasileira buscava materializar seu desejo de se diferenciar de outros grupos, [...] a moda parisiense alimentava seu desejo de subir na escala social e atingir o mesmo nível da elite, pelo menos no que dizia respeito à aparência (SILVA, 2019, p. 139140). Trajes e normas: a influência europeia nos modos e modas femininas através doperiódico “O Brazil Elegante” (1902-1904) | PINTO (entre)linhas, Mariana, V. 05, N. 01, 2025, p. 01-27. doi.org/10.5281/zenodo.17226625 23 dos acontecimentos e, por vezes, na marginalização de vozes e perspectivas de grupos sociais menos privilegiados. Ao longo deste estudo, foi possível reconhecer o impacto da imprensa não somente na disseminação de moda, mas também na consolidação de uma cultura de consumo em ascensão durante aquele período. Os periódicos não apenas retratavam as últimas tendências, como exerciam influência direta sobre as aspirações e percepções de status social, tornando-se um veículo essencial na definição das identidades sociais. Nas palavras de Crane, a moda “se torna também um meio de o indivíduo solucionar sentimentos ambivalentes em relação à expressão de ‘status de superioridade’ como classe, gênero e raça através das roupas.” (CRANE, 2013, p. 53). No âmbito da cultura de consumo emergente, os periódicos desempenhavam um papel crucial na construção de uma sociedade que valorizava não só a estética, como também a identidade social a ela associada. Mais do que simples veículos de informação sobre moda, atuavam como agentes ativos na criação de uma cultura que envolvia aspirações, comportamentos e um ideal de status ligado ao vestuário e ao estilo de vida. Ainda nas palavras de Crane, Diante do exposto, este estudo contribui para uma compreensão mais aprofundada das dinâmicas sociais, culturais e de consumo durante a "Belle Époque" no Rio de Janeiro. Ele lança luz sobre a complexa interação entre influências europeias, normatização de comportamentos e formação de identidades sociais, deixando margem para pesquisas futuras que possam explorar outras fontes e perspectivas para uma visão mais abrangente desse período crucial na história brasileira. Abre caminho para futuras investigações que possam ampliar a perspectiva, incluindo outras fontes e grupos sociais para uma compreensão mais holística desse período de transformações marcantes na história brasileira. Os fatores que levam à circulação de estilos de diferentes origens, particularmente da classe operária à classe alta, devem também ser considerados como uma questão que diz respeito às relações entre organizações que produzem e disseminam cultura. Presume-se, às vezes, que a moda, de maneira misteriosa, seja o exemplo mais bem acabado da essência de tendências culturais de uma determinada época. [...] a moda, assim como outras formas de cultura popular, emerge de um conjunto de organizações e redes que interagem e moldam esse conceito de várias maneiras (CRANE, 2013, p. 45-46). Independente da época ou dos motivos que são entendidos como determinantes para o nascimento da moda, as roupas sempre foram estratificadoras sociais. As cores, os tecidos, o corte, o volume e as técnicas empregadas na confecção denunciavam quem eram os portadores do poder. Sendo assim, entendemos que o Trajes e normas: a influência europeia nos modos e modas femininas através doperiódico “O Brazil Elegante” (1902-1904) | PINTO (entre)linhas, Mariana, V. 05, N. 01, 2025, p. 01-27. doi.org/10.5281/zenodo.17226625 24 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS AZEVEDO, Natanael Duarte de; JÚNIOR, José Temístocles Ferreira. 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