DESEMPENHO E MÉRITO COMO CONCEITOS NORTEADORES NO EMPREGO DE MÉTODOS DE AVALIAÇÃO ESCOLAR EM TURMAS DE ENSINO FUNDAMENTAL NA CIDADE DE FORTALEZA
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DESEMPENHO E MÉRITO COMO CONCEITOS NORTEADORES NO EMPREGO DE MÉTODOS DE AVALIAÇÃO ESCOLAR EM TURMAS DE ENSINO FUNDAMENTAL NA CIDADE DE FORTALEZA Mikael Silva de Oliveira1, Isabel Cristina Higino Santana2, Jeanne Barros Leal de Pontes Medeiros3 Resumo A sociologia de Pierre Bourdieu aponta para uma compreensão do papel social da escola a partir do entendimento das relações entre as classes sociais. A adoção de ideais meritocráticos no âmbito escolar colaboram para a manutenção e reprodução de desigualdades sociais existentes. O relato de experiência que se segue resulta das experiências oportunizadas pelo estágio realizado em uma escola municipal de tempo integral localizada na cidade de Fortaleza durante os meses de abril a junho de 2025. As etapas de observação e regência foram realizadas em quatro turmas de oitavo e nono ano, perfazendo uma média de 80 a 160 alunos, somando-se todas as turmas. As atividades executadas ao longo do estágio consistiram no acompanhamento de atividades realizadas pelo professor-supervisor e a realização de aulas teóricas, respectivamente. A partir da observação, foi identificada a utilização de metodologias de avaliação firmadas em noções meritocráticas de desempenho e produtividade. A problematização da prática se deu a partir de acontecimentos vividos ao longo da etapa de observação nas turmas citadas.Métodos meritocráticos de mensuração do desempenho dos estudantes foram constatados no dia-a-dia de todas as quatro turmas. A avaliação consistia no recebimento de atividades e a subsequente concessão de benefícios na realização de provas parciais, incluindo liberdade de consulta de materiais didáticos e formação de duplas, para estudantes com maiores índices de desempenho. Conclui-se com base na observação dos acontecimentos e reflexão acerca de suas implicações, que métodos do tipo contribuem para a perpetuação de uma visão segregacionista no âmbito escolar, favorável à criação de um espaço de competição em detrimento do aprendizado real. Dessa forma, é enfatizado o papel do docente frente às problemáticas citadas, uma vez que este pode atuar como agente catalisador de transformações, ao passo que, também, pode reforçar e contribuir para a perpetuação de relações de desigualdade já existentes no âmbito da escola. Palavras-chave: Meritocracia. Educação básica. Metodologia. 1Estudante de Graduação em Ciências Biológicas (UECE), e-mail: [email protected] 2Doutora em Educação (UFC). Professora adjunta da UECE. Professora permanente do Mestrado Profissional em Ensino de Biologia (PROFBIO), e-mail: [email protected] 3Doutora em Educação (UECE). Professora adjunta da UECE, e-mail: [email protected]
1. INTRODUÇÃO. Entende-se por escola, a instituição responsável por garantir o acesso ao conhecimento erudito e sistematizado (Saviani, 2013). Complementarmente, a sociologia bourdieusiana aponta para uma verdadeira compreensão do papel social da escola a partir do reconhecimento de suas relações estabelecidas entre as classes sociais (Nogueira; Nogueira, 2002). A noção de produtividade e desenvolvimento econômico inaugurada pelos teóricos do século XX foi responsável por introduzir medidas de avaliação do trabalho humano formuladas objetivamente, em contradição à subjetividade intrínseca do ser humano (Barbosa, 1996). Tamanha influência tem exercido nas instituições e relações sociais, dado que sua expansão alcançou, desde a sua introdução aos dias de hoje, os espaços escolares de ensino, entre muitas outras esferas sociais. Nesse diapasão, a escola define um conjunto de normas de excelência que fomenta a competição e comparação entre os sujeitos, e, por consequência, a criação de hierarquias baseadas no seu grau de aproximação da norma (André, 1996). A adoção dessa postura enraizada em percepções meritocráticas de esforço e sucesso, por parte das instituições de ensino, colaboram tanto para a manutenção da reprodução de desigualdades sociais quanto para o aprofundamento dessa disparidade já existente (Marcato; Conti, 2017). Como resultado, é observado um negligenciamento de estudantes cujo desempenho distancia-se da norma estabelecida pela instituição, de modo que a instituição não volte sua atenção para possíveis formas de sanar as dificuldades apresentadas por estes alunos (Gonçalves, 2023). Seguindo a mesma linha de raciocínio, os impactos da meritocracia na educação tornam mais acentuadas as desigualdades observadas em espaços educacionais frequentemente habitados por grupos minoritários, como pessoas negras (Hilário; Costa; Almeida, 2023). O referido trabalho é um relato de experiência ancorado nas vivências experimentadas ao longo da disciplina de Estágio Supervisionado no Ensino Fundamental 2 (ESEF 2), presente na grade curricular do curso de licenciatura em Ciências Biológicas da Universidade Estadual do Ceará. A finalidade deste manuscrito é incentivar a reflexão sobre a aplicabilidade de metodologias de avaliação enraizados em concepções de meritocráticas no ambiente escolar. 2. DESENVOLVIMENTO Durante a experiência de estágio, período onde foram vivenciadas as situações aqui relatadas, foi realizado em uma escola municipal de tempo integral localizada nas imediações do bairro Itaperi e Parque Dois Irmãos. Dada à sua localização, o território em que está situada a instituição escolar apresenta índices relativamente altos de violência decorrente do conflito de facções criminosas instaladas na periferia dos bairros citados. A despeito disso, a instituição escolar conta com uma boa infraestrutura, dispondo de salas de apoio pedagógicos, salas técnicas equipadas com TDIC (Tecnologias Digitais de Informação e Comunicação) e ampla biblioteca, entre outras coisas que a diferenciam das demais escolas da região. Tanto a etapa de observação quanto de regência foram realizadas em turmas de 8° e 9° séries do ensino fundamental, perfazendo um total de 4 turmas – distribuídas em duas turmas por série. Por turma, estima-se um total de 20 a 40 alunos, totalizando uma média de 80~160 alunos. O tema escolhido nasce a partir de uma problemática identificada no período de observação, em específico na aplicação de avaliações parciais em todas as séries citadas.
Uma explanação pormenorizada dos acontecimentos que suscitaram a escolha do tema da meritocracia e sua influência no ambiente escolar estará contida no subtópico subsequente a este texto, o qual intitula-se “Observação”. Os eventos que inspiraram a escrita do trabalho estão presentes no relatório de campo (FIGURAS 1 e 2). Figura 1 – Diário de Campo. Figura 2 – Relatório de observação. Fonte: Elaborado pelo autor (2025). Fonte: Elaborado pelo autor (2025). 2.1. Observação. Em virtude do início tardio das atividades de estágio, deu-se início à execução das etapas de observação e regência concomitantemente ao calendário escolar onde previa-se a aplicação de revisões preparatórias para as avaliações parciais do bimestre letivo. Por esta razão, foi possível acompanhar o desenvolvimento do planejamento do professor-supervisor frente às demandas subsequentes do período de aplicação de provas. Entre as formas de avaliação do desempenho adotadas pelo professor-supervisor, o recebimento de atividades passadas ao longo do semestre era uma prática recorrente. Dias antes da aplicação das provas, os estudantes recebiam prazos para a entrega de atividades avaliativas repassadas anteriormente. Para cada atividade recebida, o estudante acumulava um ponto na sua média parcial, além de usufruir de certos benefícios em relação aos demais durante a realização das provas; assim, o
favorecimento concedido ao aluno respondia de maneira diretamente proporcional à quantidade de atividades realizadas. Aos alunos cuja pontuação de entrega de atividades estivesse mais próxima à norma em relação ao que se entende como desempenho máximo, usufruía de apanágios como: a escolha de uma dupla para a realização da prova; e a livre consulta de materiais didáticos para a realização das provas. A adoção dessa forma de avaliação corrobora os apontamentos realizados por André (1996). Ademais, o método de avaliação empregado pelo professor-supervisor apresenta-se enquanto reflexo do quadro descrito pelas conclusões de Barbosa (1996), o qual denuncia a introdução de métodos de avaliação de desempenho baseados em critérios objetivos face à subjetividade humana, processo que origina-se paralelamente ao advento da modernidade e o desenvolvimento técnico-científico. No entanto, no lugar de maneiras de mensurar a produtividade de máquinas, o faz em estudantes. Para a escolha do tema e o desenvolvimento deste trabalho, leva-se em consideração dois acontecimentos. O primeiro refere-se à aplicação das avaliações parciais nas turmas de oitavas séries. O segundo, às turmas de nonos anos. Na primeira turma do oitavo ano, a grande maioria dos estudantes foram autorizados à realização da prova em dupla e com direito à consulta de materiais didáticos. Em contrapartida, os demais estudantes, postos de lado por não atenderem aos requisitos necessários para a concessão dos privilégios citados, a realizaram individualmente. Apesar disso, a aplicação transcorreu normalmente. A segunda turma do oitavo ano apresentou um quadro diferente. Uma parcela significativa dos estudantes não havia apresentado bons resultados na entrega das atividades. Por conseguinte, a quantidade de alunos que não realizaram a prova em dupla, muito menos pesquisada, foi baixa em comparação à primeira turma. Os dois cenários revelam em seu cerne a problemática tratada nos textos utilizados como fonte de pesquisa para a redação do presente trabalho. Ambas as situações descrevem formas de segregação fomentadas pela compensação por índices de produtividade atingidos, onde se é possível deparar uma turma de estudantes onde um grupo desfruta de benefícios em relação aos demais, classificados, a partir do que se deixa subentendido, incapazes e, portanto, não merecedores das mesmas oportunidades possibilitadas aos seus colegas. Além disso, a adoção de práticas similares induz a um entendimento das relações escolares como mera competição. Sendo assim, retorna-se às conclusões de Nogueira e Nogueira (2002), onde se é possível entender plenamente a escola somente através da compreensão das suas relações entre as classes sociais. Desse modo, não é de se surpreender que estratégias como estas sejam adotadas, uma vez que a competição e o desempenho, à nível social, exercem a função de moedas de troca das quais se obtêm prestígio e reconhecimento. Nesse diapasão, a escola se distancia de sua primordial função, sublinhada por Saviani (2013), o qual evidencia a importância da escola enquanto espaço onde se tem acesso ao conhecimento sistematizado e à cultura erudita: no contexto da meritocracia, a sua função restringe-se à reprodução de saberes superficiais e na perpetuação e reprodução de desigualdades. 3. CONSIDERAÇÕES FINAIS. Ao longo deste trabalho, buscou-se relatar e analisar de forma crítica a experiência vivenciada na etapa de observação realizada no período de execução das atividades da disciplina de estágio supervisionado, com enfoque na problemática em
torno da utilização de metodologias de avaliação do desempenho escolar calcada na concepção meritocrática de desempenho e produtividade. Enquanto ideal teórico, a meritocracia propõe a valorização do esforço individual como critério determinante para o sucesso, partindo da premissa de que todos possuem oportunidades iguais e condições necessárias para atingir o êxito. No âmbito escolar, essa visão de mundo está mascarada na forma de métodos de avaliação e ensino aparentemente inovadores, mas que, no entanto, refletem o imaginário social e o modo de vida dominante em nossa sociedade. A implementação de práticas enquadradas na descrição acima, no contexto das experiências relatadas pelo autor do trabalho, é razão para que se possa observar uma crescente pressão entre os estudantes, fomentando-os a visualizar o ambiente escolar como um espaço de competição onde se deve atingir a maximização do seu desempenho. Pode-se perceber, também, que a figura do professor é essencial para a desconstrução de paradigmas do tipo. Apenas o docente, em posse de seu conhecimento e saberes construídos ao longo do seu exercício no magistério, é capaz de transformar o espaço da sala de aula, mesmo que estas transformações resultem em reverberações mínimas em relação à atual configuração dos fatos. Por outro lado, é igualmente reconhecido que o docente, pode, da mesma forma, atuar como um mantenedor do status quo, cuja agência pauta-se profundamente nas concepções de desigualdade nas quais estão calcadas o seu ensino. Apesar dos trágicos cenários relatados na experiência descrita, para além disso, o contato com a aplicação dessas ferramentas avaliativas meritocráticas foram fundamentais para aventar importantes questionamentos acerca das implicações de sua aplicabilidade no ambiente escolar situado em uma realidade marcada por desigualdades, em especial por se tratar de uma instituição escolar localizada em uma regionalidade onde isto se mostra nitidamente acentuado. Nesse sentido, é importante ressaltar a tarefa do estágio supervisionado na formação de futuros docentes, uma vez que experiências como a citada neste trabalho, só se tornam experimentalmente possíveis para o estudante de licenciatura, por meio do enfrentamento dos desafios que transpassam a prática docente na contemporaneidade, incentivando, assim, o estudante de graduação a refletir sobre as suas práticas e suas experiências, fomentando uma posição intervencionista sobre a realidade, situando-o como agente ativo de transformação frente às carências e demandas da educação. REFERÊNCIAS ANDRÉ, Marli Eliza Dalmazo Afonso de. Avaliação escolar: além da meritocracia e do fracasso. Cadernos de Pesquisa, n. 99, p. 16-20, 1996. BARBOSA, Lívia. Meritocracia à brasileira: o que é desempenho no Brasil?. Revista do Serviço Público - RSP, v. 47, n.3, set. 1996. Disponível em: http://repositorio.enap.gov.br/handle/1/1309. GONÇALVES, Graziele Gomes. Aluno cinco estrelas: a meritocracia e desigualdade no contexto escolar. 2023. 20f. Artigo Científico (Letras - Portugues - Ingles) - Universidade Estadual de Goiás, Campos Belos, 2023. HILÁRIO, Rosângela; COSTA, Dulcicléia Santana; ALMEIDA, Silvia Rodrigues Nascimento de. Meritocracia na Educação Básica: mito ou privilégio branco?. In: VIII Semana da Diversidade Humana., Porto Velho, RO, 2023. Anais da VIII Semana da Diversidade Humana., Porto Velho, RO, 2023. Disponível em: Meritocracia na
Educação Básica: mito ou privilégio branco? | Semana da Diversidade Humana (ISSN: 2675-1127). MARCATO, Célio Tiago; CONTI, Celso Luiz Aparecido. Justiça e igualdade na escola: a falácia da meritocracia. Devir Educação, [S.l.], v. 1, n. 1, p. 66-74, abr. 2017. ISSN 2526-849X. Disponível em: http://lppi.ded.ufla.br/revistaded/index.php/DEVIR/article/view/14. Acesso em: 08 jul. 2025. NOGUEIRA, Cláudio Marques Martins; NOGUEIRA, Maria Alice. A sociologia da educação de Pierre Bordieu: limites e contribuições. Educação & Sociedade, v. 23, p. 15-35, 2002. Disponível em: https://doi.org/10.1590/S0101-73302002000200003 SAVIANI, Demerval. Pedagogia Histórico-Crítica: Primeiras Aproximações. 11. ed. rev. Campinas: Autores Associados, 2013. 160p.