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EDUCAÇÃO SEXUAL NO ENSINO FUNDAMENTAL: UTILIZAÇÃO DE RODA DE CONVERSA EM TEMÁTICAS POLÊMICAS.

Muniz Maciel, Ana Larissa

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EDUCAÇÃO SEXUAL NO ENSINO FUNDAMENTAL: UTILIZAÇÃO DE RODA DE CONVERSA EM TEMÁTICAS POLÊMICAS. Ana Larissa Muniz Maciel1 Resumo: Este trabalho apresenta uma experiência de estágio supervisionado em uma escola pública localizada na periferia de Fortaleza, Ceará, com turmas dos anos finais do Ensino Fundamental. A proposta teve como objetivo principal investigar o uso da roda de conversa como metodologia ativa para o ensino de temas polêmicos, especialmente no campo da Educação Sexual. Durante as etapas de Observação, Regência e Aplicação de um projeto didático, foi constatado o interesse espontâneo dos alunos por temas como fisiologia sexual, métodos contraceptivos, menstruação e prazer, os quais foram coletados de forma anônima por meio de uma dinâmica em sala. Os resultados indicaram que a metodologia favoreceu maior participação dos estudantes, ampliando o engajamento e a compreensão dos conteúdos em comparação com aulas expositivas tradicionais. Contudo, também foi observada a necessidade de maior tempo para aprofundamento e inclusão de alunos menos participativos. Conclui-se que a roda de conversa é uma ferramenta pedagógica eficaz para a abordagem de temas sensíveis, promovendo o diálogo, a empatia e a construção coletiva do conhecimento. Palavras-chave: Roda de conversa. Educação sexual. Ensino fundamental. Temas polêmicos. Metodologia ativa. 1.INTRODUÇÃO A roda de conversa configura-se como um método pedagógico de debate e troca de ideias que se fundamenta na participação coletiva e no diálogo aberto entre os envolvidos. Essa metodologia promove um espaço de escuta ativa e fala consciente, no qual cada participante tem a oportunidade de compartilhar suas experiências, opiniões e conhecimentos, ao mesmo tempo em que se dispõe a ouvir o outro com atenção e respeito. Segundo Moura (2014), trata-se de um exercício reflexivo que favorece a construção coletiva do saber, possibilitando o intercâmbio de perspectivas diversas, o fortalecimento das relações interpessoais e o desenvolvimento de aprendizagens significativas. Além disso, esse formato de interação contribui para o processo contínuo de (re)construção de saberes, ou seja, a aprendizagem e a reaprendizagem a partir da vivência dialógica e colaborativa. Diante desse referencial teórico-metodológico, durante minha experiência de estágio supervisionado no componente curricular de Língua Portuguesa, desenvolvida em uma escola pública localizada na periferia de Fortaleza, no estado do Ceará, busquei 1Graduanda, discente em licenciatura em Ciências Biológicas na Universidade Estadual do Ceará, [email protected] . aplicar a metodologia da roda de conversa como estratégia central de ensino. Essa experiência envolveu as três etapas principais do estágio: Observação, Regência e Aplicação de um projeto didático. O público-alvo foram turmas do oitavo ano do Ensino Fundamental, compostas por adolescentes em fase de formação crítica e cidadã. O objetivo principal do trabalho foi investigar e testar o potencial das rodas de conversa como recurso pedagógico para abordar temas polêmicos e socialmente relevantes, tais como questões de gênero, racismo, desigualdade social, entre outros, de forma sensível, crítica e participativa. A proposta visou, portanto, não apenas à transmissão de conteúdos, mas também à promoção de um ambiente de diálogo que incentiva o pensamento crítico, a empatia e a expressão de diferentes pontos de vista dentro do espaço escolar. 2. DESENVOLVIMENTO O estágio ocorreu no período de maio de 2025 à junho de 2025, período onde ocorreram as festividades juninas, a feira de ciências e os jogos interclasse. O projeto didático ocorreu em uma escola pública estadual em um bairro periférico do município de Fortaleza no Ceará, com a iniciativa da avaliação final do Estágio Supervisionado do Ensino Fundamental 2. O objetivo do projeto didático é suprir alguma necessidade encontrada pela estagiária à partir da interação e observação das turmas acompanhadas. A escola possui dois andares, salas com climatização natural, laboratório de inovações, sala de multimídias, biblioteca, quadra poliesportiva, refeitório e pátio para lazer. Não possui uma sala para laboratórios, mas há uma iniciativa de ‘laboratório móvel’, com aparatos (sistema solar, réguas, tesouras, lupa.) para levar às práticas às salas de aula. Foram acompanhadas três turmas de oitavo ano (A, B e C) com, em média, quarenta alunos por sala, passando pelo período de Observação, Regência e Aplicação do Projeto Didático. 2.1 Observação Durante o período de observação, foi possível perceber que as turmas apresentavam diferentes níveis de receptividade em relação às aulas expositivas conduzidas pela professora orientadora. Essa variação ficava ainda mais evidente conforme o conteúdo abordado em sala. Em especial, quando foi proposto o tema “Sistema Urogenital”, notou-se uma reação diferenciada por parte dos alunos, marcada por grande interesse e curiosidade. Esse entusiasmo espontâneo foi evidenciado pela quantidade expressiva de perguntas feitas durante a aula, o que acabou dificultando a continuidade do planejamento original, uma vez que o número e a profundidade dos questionamentos extrapolaram o tempo previsto para a abordagem tradicional do conteúdo. Diante desse cenário, a professora orientadora decidiu adaptar sua metodologia naquele momento e propôs uma dinâmica voltado a participação dos estudantes de forma mais estruturada e anônima. Foram distribuídas folhas de papel em branco para cada aluno, com a instrução de que escrevessem duas perguntas sobre o tema trabalhado, abrangendo não apenas o Sistema Urogenital, mas também assuntos relacionados à Educação Sexual e à Reprodução Humana. Para garantir a liberdade de expressão e preservar a privacidade dos estudantes, foi solicitado que não identificassem os papéis com seus nomes. Após o preenchimento, os papéis foram dobrados e depositados em um pequeno recipiente, de forma a misturá-los aleatoriamente. No contexto escolar formal, conforme apontado por Furnatello et al. (2018), é geralmente o professor das disciplinas de Ciências e Biologia o principal responsável por tratar de temas relacionados à Educação Sexual no ambiente da sala de aula. Essa responsabilidade, no entanto, pode ser compartilhada e enriquecida por outras áreas do conhecimento, como a Língua Portuguesa, especialmente quando a abordagem é voltada para o desenvolvimento da linguagem, da argumentação e do pensamento crítico. Ao todo, participaram da atividade cerca de 82 alunos, distribuídos entre três turmas do oitavo ano. No entanto, após o recolhimento dos papéis, foi constatado que apenas 49 apresentavam perguntas pertinentes ao tema proposto. Os demais estavam em branco ou continham desenhos, frases soltas ou comentários que se afastavam do foco da atividade, o que revela, por um lado, o desafio de manter todos os alunos engajados e, por outro, a importância de estratégias pedagógicas que favoreçam o envolvimento genuíno e respeitoso. Os papéis com as perguntas foram cuidadosamente analisados e organizados em seis categorias principais, que permitiram agrupar as dúvidas de acordo com temas recorrentes: Métodos Contraceptivos, Menstruação, Gravidez e Reprodução, Higiene, Fisiologia e Masturbação e Prazer. A partir dessas classificações, foram selecionadas perguntas representativas, baseadas na frequência com que determinados questionamentos apareceram entre os alunos. Essas perguntas serviram como base para a elaboração do Quadro 1, que foi posteriormente apresentado e discutido com a professora orientadora. O objetivo foi definir a melhor estratégia para abordar os conteúdos em sala, utilizando a metodologia da roda de conversa como forma de promover um espaço mais acolhedor, participativo e reflexivo para a construção do conhecimento. Quadro 1 – Perguntas base para a construção da aula voltada ao projeto didático aplicado. Fonte: Elaborada pelo autor. As perguntas do (Quadro 1) foram selecionadas a partir da quantidade de vezes que apareceram na dinâmica, 3. Elaboração do projeto Dessa forma, buscando uma estratégia que se encaixasse no perfil das três turmas, desenvolvi um plano de aula utilizando como metodologia a roda de conversa, um instrumento que pode trazer à tona temas que foram despertados a partir do interesse pela partilha segundo Moura, 2014. Além disso, segundo Fuigueiró (2003), a educação formal deve seguir princípios; - educar sexualmente é muito mais que ensinar os conteúdos de biologia e fisiologia da sexualidade; - educar sexualmente é criar oportunidades para o aluno expressar seus sentimentos, angústias e dúvidas, refletir sobre suas atitudes e rever preconceitos; - para educar sexualmente é preciso saber ouvir; - o aluno deve ser visto como sujeito ativo no processo ensino aprendizagem e deve ter muito espaço para falar e ouvir seus colegas; - o professor deve ser a pessoa que cria as condições para o aluno aprender, ao invés de ser um simples transmissor de conhecimentos. Tendo em vista esses princípios, o plano de aula foi preparado com base nas perguntas recolhidas, propondo, inicialmente, três perguntas norteadoras; ‘O que é sexo?’, ‘O que são ISTs?’, ‘Você conhece algum método contraceptivo? Qual?’ Assim, o seguinte projeto obteve como objetivo construir um ambiente propício para o aprendizado de Educação Sexual em turmas de oitavo ano do ensino fundamental. Categorias Perguntas Quantas vezes essa pergunta apareceu: Masturbação e Prazer Dói Perder a Virgindade 2 A masturbação faz bem pra saúde? 3 Menstruação Todas as mulheres menstruam? 2 Fisiologia Por que os homens ficam eretos? 2 Por que os homens ficam eretos? 2 O que sai de dentro do pênis? 2 Gravidez e Fecundação Tem como o ser humano se reproduzir sem o ato sexual? 1 A mulher pode engravidar sem o ato sexual? 1 Higiene Como manter a higiene nas meninas? 1 O que acontece se não lavar o pênis? 1 4. RESULTADOS A coleta dos dados avaliativos de aprendizado seriam organizados em uma palavra cruzada que, por incongruência com os horários das turmas e a conclusão do semestre, tiveram que ser reorganizados para melhor atender à necessidade dos alunos. Dessa forma, houve um acompanhamento com as turmas perante a proposição de uma atividade pesquisada sobre o assunto dado ao longo das últimas semanas de estágio, servindo como uma recuperação paralela. Foi percebido a diferença de compreensão perante o conteúdo abordado na roda de conversa e o conteúdo abordado com uma aula expositiva utilizando o quadro. Contudo, as incongruências se encontram, principalmente, na falta de tempo disponibilizado para a roda de conversa já que, a partir do método avaliativo, foi percebido parte da abordagem científica não fixou o conhecimento geral na mente de alguns alunos, contudo, foi percebida essa dificuldade naqueles que menos participaram da troca de informações e realizações de perguntas. Assim, conclui-se que, para alunos que não interagem com tamanha facilidade, um tempo estendido para a melhor elaboração de um ambiente educativo e livre de julgamentos seria mais proveitoso. Segundo a professora orientadora da instituição concedente, foi percebido um maior interesse e participação dos alunos em todas as turmas, com um assunto que desperta a curiosidade e de extrema importância. Foi abordado por ela em uma conversa ao fim do estágio, deixando claro que o envolvimento dos alunos havia ocorrido de maneira única e singular no momento da roda de conversa. Dessa forma, a roda de conversa foi uma proveitosa estratégia de ensino, propiciando uma participação maior dos alunos na construção do conhecimento e, consequentemente, um aprendizado para as futuras tentativas de aplicar a roda de conversa em meio à assuntos polêmicos abordados em sala de aula no âmbito do Ensino Fundamental. REFERÊNCIAS FIGUEIRÓ, Mary Neide Damico. Educação sexual: retomando uma proposta, um desafio. 3. ed. Londrina: Eduel, 2010. FURLANETTO, M. F. et al. Educação sexual em escolas brasileiras: revisão sistemática da literatura. Cadernos de Pesquisa, v. 48, n. 168, p. 550–571, 1 jun. 2018. MOURA, A. F.; LIMA, M. G. A Reinvenção da Roda: Roda de Conversa, um instrumento metodológico possível. Universidade Federal da Paraíba. Revista Temas em Educação; João Pessoa Vol. 23, Ed. 1, (Sep 2014): 95-103.