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1 Este artigo está licenciado com uma Licença Creative Commons - Atribuição-NãoComercial 4.0 Internacional LÍNGUA E LINGUÍST ICA AlgumAs estrAtégiAs de negAção sintáticA no português brAsileiro 1 Selmo Ribeiro Figueiredo Junior* https://orcid.org/0000-0001-8367-0306 Como citar este artigo: FIGUEIREDO JUNIOR, S. R. Algumas estratégias de negação sintática no português brasileiro. Todas as Letras – Revista de Língua e Literatura, São Paulo, v. 26, n. 2, p. 1-17, maio/ago. 2024. DOI: https://doi.org/10.5935/19806914/eLETLL16373. Submissão: 12 de agosto de 2023. Aceite: 8 de fevereiro de 2024. Resumo: Este artigo aborda a negação via dialetologia, com foco na sintaxe do português falado no Brasil, com recorte na relação posicional entre operador de negação e aquilo abrangido em seu escopo. A discussão começa com a conhecida tricotomia negação pré-verbal, dupla negação e negação pós-verbal, segue à classificação tripartite negação sentencial, negação de sintagma complexo e negação de constituinte para então chegar à identificação de nove estratégias (ou types) de negação sintática específicas. Palavras-chave: Dialetologia. Sintaxe. Negação. Variação linguística. Correlações extralinguísticas. * Faculdade de Tecnologia (Fatec), Piracicaba, São Paulo. E-mail: [email protected]
Selmo RibeiRo FigueiRedo JunioR 2 LÍNGUA E LINGUÍST ICA Todas as Letras, São Paulo, v. 26, n. 2, p. 1-17, maio/ago. 2024 DOI 10.5935/1980-6914/eLETLL16373 Introdução1 ■De acordo com Zeijlstra (2015), toda língua natural dispõe de algum recurso cujo propósito seja inverter o valor de verdade de sentenças, ou seja, algum recurso de negação. Todavia, nem sempre se trata de valor de verdade. Esse é o caso de uma sentença como (1): (1) “Não corra!” O imperativo nesse caso expressa uma ordem que, no momento da sua enunciação, não pode ser verificada em termos de verdade. Enquanto ato de fala, ela pode ser medida a posteriori, com uma necessária extrapolação dos níveis linguísticos, ou seja, com uma necessária referência ao âmbito pragmático-social (cf., por exemplo, Han, 2001). Por essa e outras razões, a negação em línguas naturais, apesar de já bastante explorada investigativamente2, ainda impõe muita labuta aos linguistas em particular. Embora toda língua disponha de algum recurso de negação, operadores de negação podem diferenciar-se de um idioma a outro. Essa diversidade é ampla, em forma, função e interpretação, e aumenta de modo considerável quando o escopo de análise vai além do nível estritamente sintático, incluindo nomeadamente os níveis morfológico, prosódico e discursivo-pragmático. No estudo científico da língua com base empírica, o esforço geral dos pesquisadores é que eles tentem localizar, descrever e explicar os fatores que respondem pela (influência à) produção do seu objeto de investigação. No entanto, o número de fatores (ou variáveis independentes) é vasto. Por exemplo, sabe-se que as regiões geográficas constituem um fator relevante (variável diatópica). Os grupos de falantes têm suas particularidades como efeito da sua estratificação (variável diastrática). Certas situações sociais demandam certos registros de fala (variável diafásica). Indivíduos femininos e indivíduos masculinos possuem diferentes preferências (variável diassexual ou diagenérica). Diferentes gerações são atravessadas por diferentes estados sincrônicos da língua (variável diageracional). A lista de fatores de motivação extralinguística não para por aqui. Assim, com a existência de uma constelação tanto de recursos de negação (âmbito linguístico) quanto de fatores que os determinam ou influenciam (vindos do âmbito linguístico e do âmbito extralinguístico), um recorte é evidentemente necessário para o presente trabalho. Vamos lidar com a “negação sintática” e, com dados próprios (a partir da seção “Estratégias em detalhes”), vamos correlacionar estratégias de negação específicas com fatores extralinguísticos, nomeadamente com o diastrático, o diageracional e o diassexual. Aqui, utilizo a expressão “negação sintática” como hiperônimo a distintamente fazer referência à “negação sentencial”, à “negação de sintagma complexo” e à “negação de constituinte”. Assim, ficam de fora morfemas negativos presos (por exemplo, in-), pronomes negativos (por exemplo, nenhum), pronomes de reforço 1 Num primeiro momento da pesquisa, como parte de um doutorado na Universidade de São Paulo (USP), o corpus foi levantado com os auspícios da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp, procs. 2015/14038-5 e 2011/51787-5), do Serviço Alemão de Intercâmbio Acadêmico (DAAD, prog. 57214225) e da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes, proc. 0128-16-3 / 99999.000128/2016-03). Num momento posterior, no âmbito de um estágio de pós-doutoramento na USP, os dados foram processados e analisados, e a presente publicação, a primeira da pesquisa, foi tornada possível graças ao apoio do projeto de pesquisa institucional Cooperatio – Lingvistika, da Univerzita Karlova, Praga, República Tcheca. 2 Trabalhos de vulto a esse respeito são, por exemplo, de Haegeman (1995) e Horn (2001), entre tantos outros.
3 LÍNGUA E LINGUÍST ICA AlgumAs estrAtégiAs de negAção sintáticA no português brAsileiro Todas as Letras, são paulo, v. 26, n. 2, p. 1-17, maio/ago. 2024 doi 10.5935/1980-6914/eletll16373 negativo (por exemplo, algum pós-verbal em parceria com operador de negação pré-verbal), negação da negação, prosódia sugestiva de negação e negação pragmática sem contraparte linguística. De uma perspectiva ampla, as diferentes instanciações da negação sintática com que vamos lidar mais centralmente neste trabalho podem ser subsumidas às já mencionadas (2) negação sentencial, (3) negação de sintagma complexo e (4) negação de constituinte, ilustradas adiante3. (2) “Não está tarde.” (3) “– Vamos? – Não de novo…” (4) “Esta é uma faca não afiada.” O exemplo (2) ilustra uma negação com escopo numa oração. O (3) ilustra especificamente uma negação com escopo num sintagma preposicional. Já o exemplo (4) ilustra uma negação com escopo num item lexical apenas. Na próxima seção, porém, vamos ter um panorama da negação sintática através da conhecida tricotomia constituída pela “negação pré-verbal”, pela “dupla negação” e pela “negação pós-verbal” com apoio em dados coletados e analisados por diferentes pesquisadores em localidades representativas de várias regiões do Brasil. Depois, vamos expandir o panorama com instanciações particulares da negação sintática via estratégias específicas identificadas em dados próprios. três estratégIas de negação sIntátIca Yacovenco e Nascimento (2016) aduzem a negação pré-verbal, a dupla negação e a negação pós-verbal, e as analisam com base em dados próprios (extraídos de 18 entrevistas do corpus Português Falado na Cidade de Vitória – PortVix, estado do Espírito Santo) e em dados trazidos pelos estudos de Roncarati (1996), Furtado da Cunha (2000), Alkmim (2001), Rocha (2013) e Goldnadel et al. (2013). Elas apresentam as três estratégias de negação da seguinte forma4: “N + SV” (negação pré-verbal) (5); “N + SV + N” (dupla negação) (6); e “SV + N” (negação pós-verbal) (7). Na notação, “N” denota “negação”; “SV”, “sintagma verbal”. Seguem os exemplos respectivos: (5) “Ah, não tem a vida muito boa, sei lá.” (6) “Compraria carro também, só que eu não tenho idade ainda não.” (7) “Alimentação é normal. Tem nada de regime de nada não.” Os resultados gerais obtidos nos estudos referidos encontram-se quantificados na Tabela 1. As reduções na primeira coluna referem-se a diferentes estados nacionais – “ES” = “Espírito Santo”, “CE” = “Ceará”, “RN” = “Rio Grande do Norte”, “MG” = “Minas Gerais”, “SP” = “São Paulo”, “SC” = “Santa Catarina”, “PR” = “Paraná”, “RS” = “Rio Grande do Sul” –, enquanto a redução “S/O” nas duas últimas colunas denota “sem ocorrências”. 3 Na presente elaboração, subsumo tacitamente a dupla negação à negação sentencial. 4 Reproduções de Yacovenco e Nascimento (2016) extraídas do corpus PortVix.
Selmo RibeiRo FigueiRedo JunioR 4 LÍNGUA E LINGUÍST ICA Todas as Letras, São Paulo, v. 26, n. 2, p. 1-17, maio/ago. 2024 DOI 10.5935/1980-6914/eLETLL16373 Cidade Negação pré-verbal Dupla negação Negação pós-verbal N % N % N % Vitória, ES 1.751/2.263 77,4 478/2.263 21,1 34/2.263 1,5 Fortaleza, CE 625/774 77,0 149/774 18,0 39/774 5,0 Natal, RN 308/466 66,1 96/466 20,6 62/466 13,3 Mariana, MG 1.787/2.505 71,5 489/2.505 19,5 40/2.505 1,5 São Paulo, SP 5.279/5.607 94,0 354/5.607 5,8 4/5.607 0,2 Florianópolis, SC 1.018/1.065 95,6 47/1.065 4,4 S/O S/O Curitiba, PR 1.371/1.408 97,4 37/1.408 2,6 S/O S/O Porto Alegre, RS 1.402/1.410 99,4 8/1.410 0,6 S/O S/O Tabela 1 – Negação em várias regiões brasileiras5 Fonte: Yacovenco e Nascimento (2016, p. 134-135). Em Vitória, a negação pré-verbal predomina, com 77,4%. Em segundo lugar, vem a dupla negação, com 21,1%. A negação pós-verbal tem ocorrência bastante baixa. Com esse fato considerado, pode-se dizer que os vitorienses praticamente não lançam mão da terceira estratégia, em favor sobretudo da primeira. Em Fortaleza, o quadro é essencialmente o mesmo. Apenas que a negação pós-verbal se eleva um pouco mais. A situação já passa a mudar mais com relação a Natal, onde a negação pós-verbal logra já significativos 13,3%, o que a torna relativamente próxima da segunda colocada, a dupla negação. Sua primeira estratégia cai praticamente 10% em comparação com as localidades anteriores. Já Mariana nivela-se com Vitória no que concerne às três estratégias em questão. Apenas há uma diferença mais sensível quanto à negação pré-verbal, a qual Mariana produz um pouco menos do que Vitória. Uma primeira explosão na relação das localidades até aqui consideradas diz respeito à cidade de São Paulo, onde a negação pré-verbal obtém altivos 94% de frequência relativa, deixando as outras duas estratégias de negação extremamente à margem. Tal situação é essencialmente compartilhada com as localidades restantes: Florianópolis, Curitiba e Porto Alegre. Estas últimas fazem parte da Região Sul do Brasil. Pelos resultados exibidos na Tabela 1, fica copiosamente claro que os sulistas virtualmente só se servem da negação pré-verbal. estratégIas em detalhes A partir desta seção, vamos abordar estratégias de negação específicas, em extensão a uma perspectiva tricotômica, com base em dados de pesquisa própria. A coleta teve lugar no âmbito do meu doutoramento, objetivando a elaboração de um atlas linguístico (Figueiredo Junior, 2019) sob os auspícios da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo, do Serviço Alemão de Intercâmbio Acadêmico e da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior6. Contudo, em função da priorização de outros níveis linguísticos 5 Os 7,5% faltantes na linha de Mariana referem-se a uma outra variante não contemplada pela tabela. 6 Fapesp (procs. 2015/14038-5 e 2011/51787-5), DAAD (prog. 57214225) e Capes (proc. 0128-16-3 / 99999.000128/2016-03).
5 LÍNGUA E LINGUÍST ICA AlgumAs estrAtégiAs de negAção sintáticA no português brAsileiro Todas as Letras, são paulo, v. 26, n. 2, p. 1-17, maio/ago. 2024 doi 10.5935/1980-6914/eletll16373 à época, os dados sintáticos permaneceram intocados até o pós-doutoramento pela Universidade de São Paulo (2019-2021), recém-concluído, que fora proposto especificamente para processar tais dados, e o presente artigo divulga os primeiros resultados mais adiante. Metodologia Com o aporte teórico-metodológico da dialetologia pluridimensional (Radtke; Thun, 1996; Thun, 2000, 2005), dados sintáticos foram coletados e análises inéditas sobre estratégias de negação no português brasileiro são apresentadas. O instrumento metodológico de coleta aplicado é uma versão modificada do Questionário Morfossintático (QMS) originalmente desenvolvido pelo Comitê Nacional do Projeto Atlas Linguístico do Brasil – ALiB (2001). Aqui, importam-nos as questões 47, 48 e 49, por serem as perguntas do QMS que tematizam a negação, cujos enunciados o Quadro 1 exibe. Q47 Vc/Sr sabe se tem vida em outro planeta / na lua? Q48 Vc/Sr já viu disco voador? Q49 Vc/Sr já viajou de avião? / Tem medo de viajar de avião? Legenda: vc = você; sr = o senhor / a senhora Quadro 1 – Questões do QMS A elas, responderam 80 informantes7. Em cada grupo, uma metade tinha baixa escolaridade (do analfabetismo até o ensino médio/secundário incompleto; classe b, Cb), e a outra metade tinha alta escolaridade (a partir dos estudos superiores/do terceiro grau, completos ou incompletos; classe a, Ca). Ainda, uma metade tinha de 18 a 36 anos (grupo geracional I, GI), e a outra metade tinha a partir de 55 anos (GII). Além disso, uma metade era formada por mulheres (Wf), e outra metade era formada por homens (Wm). Todos os informantes tinham um total não inferior a três quartos da vida morando na respectiva localidade. Desse tempo, todos lá estavam de modo ininterrupto pelos últimos cinco anos pelo menos. Portanto, no estudo, Cb e Ca constituíram os valores alternativos possíveis para a variável diastrática (Cx); GI e GII; os valores alternativos possíveis para a variável diageracional (Gy); e Wf e Wm, os valores alternativos possíveis para a variável diassexual (Wz). Com isso, os dados dos informantes serviram a três correlações (ou cruzamentos) equitativas e sistemáticas: CxGy, CxWz e WzGy. Antes de abordá-las, vejamos as matrizes do universo das respostas obtidas de uma perspectiva geral na seção a seguir. Dados primários Em ordem decrescente, a Tabela 2 mostra as respostas elicitadas à questão 47. Na segunda coluna, as reduções com suas respectivas formas por extenso são as seguintes: “neg.” = “negação”; “orac.” = “oracional”; “SV” = “sintagma verbal”; 7 Das seguintes dez localidades: Santana de Parnaíba, Pirapora do Bom Jesus, Araçariguama, São Roque, Sorocaba, Itu, Porto Feliz, Tietê, Capivari e Piracicaba.
Selmo RibeiRo FigueiRedo JunioR 6 LÍNGUA E LINGUÍST ICA Todas as Letras, São Paulo, v. 26, n. 2, p. 1-17, maio/ago. 2024 DOI 10.5935/1980-6914/eLETLL16373 “SV1” = “SV da matriz”; “SV2” = “SV encaixado”; “conj.” = “conjunção”; “enc.” = “encaixada”; “extraorac.” = “extraoracional”; “CNV” = “constituinte não verbal”; “SP” = “sintagma preposicional”. Os parênteses encerram o elemento contingente. As chaves organizam as hierarquias sintáticas. Estratégias de negação FA FR (i) {neg. orac. + SV} →{NO + SV} 38 59% (ii) {SV1 + conj. + {neg. orac. enc. (+ SV2)}} →{SV1 + C + {NOS (+ SV2)}} 14 22% (iii) {apenas neg.} →{a.N} 3 5% (iv) {{neg. extraorac.} {(+ conj.)} + {SV(s)}} →{{NE} {(+ C)} + {SV(s)}} 2 3% (v) {{neg. orac. + SV} + {neg. extraorac.}} →{{NO + SV} + {NE}} 2 3% (vi) {sintagma não verbal + neg.} →{SNV + N} 2 3% (vii) {{neg. extraorac.} + {neg. orac. + SV}} →{{NE} + {NO + SV}} 1 2% (viii) {neg. de constituinte não verbal + CNV} →{NCNV + CNV} 1 2% (ix) {SV1 + conj. + {SP + negação orac. enc.}} →{SV1 + C + {SP + NOS}} 1 2% [ RI ] 16 ∑:80 100% Legenda: RI = respostas inválidas; FA = frequência absoluta; FR = frequência relativa com base nas respostas válidas. Tabela 2 – Matriz referente à Q47 Das respostas concretas registradas à questão 47, uma amostra aleatória ilustrativa é a que segue: (i) “Não sei.” (informante 4); (ii) “Acho que não tem.” (inf. 45); (iii) “Não.” (inf. 15); (iv) “Não, mas acredito que sim.” (inf. 52); (v) “Não acredito, não.” (inf. 71); (vi) “Com provas, não.” (inf. 77); (vii) “Não, não sei.” (inf. 32); (viii) “Talvez não iguais à da Terra.” (inf. 49); e (ix) “Acho que na lua não.” (inf. 25). Ato contínuo, a Tabela 3 apresenta a matriz referente à questão 48. Estratégias de negação FA FR (a) {apenas neg.} →{a.N} 52 71% (b) {neg. orac. + SV} →{NO + SV} 10 14% (c) {{neg. extraorac.} {(+ conj.)} + {SV(s)}} →{{NE} {(+ C)} + {SV(s)}} 5 7% (d) {{neg. extraorac.} + {neg. orac. + SV}} →{{NE} + {NO + SV}} 3 4% (e) {sintagma não verbal + neg.} →{SNV + N} 2 3% (f) {SV1 + conj. + {neg. orac. enc. (+ SV2)}} →{SV1 + C + {NOS (+ SV2)}} 1 1% [ RI ] 7 ∑:80 100% Legenda: RI = respostas inválidas; FA = frequência absoluta; FR = frequência relativa com base nas respostas válidas. Tabela 3 – Matriz referente à Q48
7 LÍNGUA E LINGUÍST ICA AlgumAs estrAtégiAs de negAção sintáticA no português brAsileiro Todas as Letras, são paulo, v. 26, n. 2, p. 1-17, maio/ago. 2024 doi 10.5935/1980-6914/eletll16373 Um recorte aleatório ilustrativo do conjunto das respostas elicitadas à Q48 é o que segue: (a) “Não.” (inf. 25); (b) “Nunca vi.” (inf. 36); (c) “Não, mas vi coisas…” (inf. 60); (d) “Não, nunca vi.” (inf. 39); (e) “Graças a Deus, não.” (inf. 1); e (f) “Acho que não.” (inf. 35). Por fim, a Tabela 4 aduz a matriz referente à questão 49. Estratégias de negação FA FR (A) {apenas neg.} →{a.N} 38 51% (B) {neg. orac. + SV} →{NO + SV} 20 27% (C) {{neg. extraorac.} + {neg. orac. + SV}} →{{NE} + {NO + SV}} 8 11% (D) {neg. de constituinte não verbal + CNV} →{NCNV + CNV} 3 4% (E) {{neg. orac. + SV} + {neg. extraorac.}} →{{NO + SV} + {NE}} 3 4% (F) {SV1 + conj. + {neg. orac. enc. (+ SV2)}} →{SV1 + C + {NOS (+ SV2)}} 2 3% (G) {{neg. extraorac.} {(+ conj.)} + {SV(s)}} →{{NE} {(+ C)} + {SV(s)}} 1 1% [ RI ] 5 ∑: 80 100% Legenda: RI = respostas inválidas; FA = frequência absoluta; FR = frequência relativa com base nas respostas válidas. Tabela 4 – Matriz referente à Q49 Como feito antes a respeito das questões anteriores, eis aqui também uma amostra aleatória ilustrativa à Q49: (A) “Não.” (inf. 46); (B) “Nunca viajei.” (inf. 24); (C) “Não, nem pretendo.” (inf. 56); (D) “Nem um pouco.” (inf. 51); (E) “Não tenho medo, não.” (inf. 43); (F) “Acho que não.” (inf. 71); e (G) “Não, tenho medo.” (inf. 72). A Tabela 5 unifica os dados das tabelas 2, 3 e 4. Estratégias de negação FA FR (I) {a.N} 93 44% (II) {NO + SV} 68 32% (III) {SV1 + C + {NOS (+ SV2)}} 17 8% (IV) {{NE} + {NO + SV}} 12 6% (V) {{NE} {(+ C)} + {SV(s)}} 84% (VI) {{NO + SV} + {NE}} 52% (VII) {NCNV + CNV} 42% (VIII) {SNV + N} 42% (IX) {SV1 + C + {SP + NOS}} 10% [ RI ] 28 ∑: 240 100% Legenda: RI = respostas inválidas; FA = frequência absoluta; FR = frequência relativa com base nas respostas válidas. Tabela 5 – Matriz geral
Selmo RibeiRo FigueiRedo JunioR 8 LÍNGUA E LINGUÍST ICA Todas as Letras, São Paulo, v. 26, n. 2, p. 1-17, maio/ago. 2024 DOI 10.5935/1980-6914/eLETLL16373 O equivalente gráfico dos dados válidos da Tabela 5 é o Gráfico 1. Ele será importante para os propósitos comparativos da próxima seção, na qual serão feitas correlações entre os resultados da matriz geral e as variáveis extralinguísticas controladas no estudo, referentes aos perfis dos informantes, ou seja, as variáveis (ou fatores) diastrática, diageracional e a diassexual. 44% 32% 8% 6% 4% 2% 2% 2% 0% 0% 5% 10% 15% 20% 25% 30% 35% 40% 45% 50% (I) (II) (III) (IV) (V) (VI) (VII) (VIII) (IX) Gráfico 1 – Distribuição estatística da matriz geral8 Correlações e análises Esta seção apresenta cruzamentos entre a produção linguística dos 80 informantes inquiridos e os fatores extralinguísticos a eles mesmos associados. Para isso, vamos considerar nas tabelas e nos gráficos não só as estratégias de negação mais estatisticamente significativas (I-IV), mas ainda as menos significativas (V-IX), em consonância com o interesse da dialetologia pluridimensional, atenta também aos resultados menos expressivos quantitativamente. Neste artigo, porém, o foco analítico recai nas variantes mais estatisticamente significativas. A Tabela 6 correlaciona os dados válidos às variáveis diastrática e diageracional. Var. CaGII CaGI CbGII CbGI FA FR FA FR FA FR FA FR (I) 20 42% 24 42% 19 35% 30 57% (II) 16 33% 21 37% 20 37% 11 21% (III) 3 6% 4 7% 6 11% 4 8% (IV) 2 4% 3 5% 5 9% 2 4% (V) 3 6% 1 2% 1 2% 3 6% 8 Ver Tabela 5 para índice das estratégias aqui apenas numeradas por simplicidade. (continua)
9 LÍNGUA E LINGUÍST ICA AlgumAs estrAtégiAs de negAção sintáticA no português brAsileiro Todas as Letras, são paulo, v. 26, n. 2, p. 1-17, maio/ago. 2024 doi 10.5935/1980-6914/eletll16373 Var. CaGII CaGI CbGII CbGI FA FR FA FR FA FR FA FR (VI) 2 4% 0 0% 2 4% 1 2% (VII) 0 0% 3 5% 0 0% 1 2% (VIII) 2 4% 0 0% 1 2% 1 2% (IX) 0 0% 1 2% 0 0% 0 0% ∑48 100% 57 100% 54 100% 53 100% Legenda: Var. = variante; FA = frequência absoluta; FR = frequência relativa entre os dados válidos; Ca/b = classe escolar alta/baixa; GII/I = grupo etário velho/jovem. Tabela 6 – Cruzamento CxGy Como se observa na Tabela 6, a variante {a.N} (I) – que é a com a substância linguística mais leve dentre todas – é a norma9 entre os falantes jovens da classe baixa, com 57% de FR. Esse valor é responsável por colocar a classe baixa como um todo (isto é, considerados ao mesmo tempo seus dois grupos) na posição daqueles que mais articulam {a.N}: sua média aritmética é 46% (= (57% + 35%) / 2) contra 42% da classe alta. Em compensação, o mesmo grupo jovem da classe baixa é o que menos lança mão da estratégia {NO + SV} (II), com 21% de FR. Contudo, nota-se um equilíbrio no uso dessa variante por parte tanto do grupo jovem da classe alta quanto do grupo velho da classe baixa, antagônicos entre si. Apesar disso, em ambos a estratégia {NO + SV} obtém 37% de FR cada. Esse fato contrasta o anterior, apontando para a plausibilidade de que {NO + SV} tem aplicação não influenciada por fatores extralinguísticos. Quanto à estratégia {SV1 + C + {NOS (+ SV2)}} (III), há evidências, ainda que tênues, de que sua utilização é influenciada pelo fator diastrático: as frequências relativas mais altas estão ao lado da classe baixa. São 11% e 8% de FR observados na classe baixa velha e na classe baixa jovem, respectivamente, contra 6% e 7% de FR observados na classe alta velha e na classe alta jovem, respectivamente. Com relação à variante {{NE} + {NO + SV}} (IV), tendo-se o parâmetro > 5% para valores estatisticamente significativos, nota-se que a estratégia em questão só é significativa na classe baixa velha, com 9% de FR, enquanto os outros três grupos pontuaram abaixo do parâmetro referido. No que tange à variante {{NE} {(+ C)} + {SV(s)}} (V), as evidências quantitativas exibidas na Tabela 6 sinalizam neutralidade de influência de fatores extralinguísticos, já que grupos antagônicos realizam os mesmos valores: a classe alta velha e a classe baixa jovem apresentam-se com 6% de FR cada, e a classe alta jovem e a classe baixa velha apresentam-se com 2% de FR cada. Isso dito, passemos ao Gráfico 2 a seguir, derivado da Tabela 6. Tal gráfico computa os dados das primeiras quatro variantes (I-IV) e agrupa as demais (V-IX) em “O” (de “outras”). 9 Neste artigo, norma denota uma variante com frequência relativa > 50%.
Selmo RibeiRo FigueiRedo JunioR 16 LÍNGUA E LINGUÍST ICA Todas as Letras, São Paulo, v. 26, n. 2, p. 1-17, maio/ago. 2024 DOI 10.5935/1980-6914/eLETLL16373 Relativamente à nossa própria pesquisa aqui divulgada, contando com uma base documental com 212 (88%) dados válidos, notamos que a estratégia específica (I) – {a.N}: “Não.” – é norma entre os falantes jovens da classe baixa, com 57% de frequência relativa (FR), e a classe baixa como um todo é a que mais a articula. Aliás, o grupo jovem da classe baixa é o que menos lança mão da estratégia (II) – {NO + SV}: como em “Não sei.” –, com 21% de FR, ao mesmo tempo que os resultados também indicam que tal estratégia tem aplicação não influenciada por fatores extralinguísticos. Quanto à estratégia (III) – {SV1 + C + {NOS (+ SV2)}}: como em “Acho que não tem.” –, há evidências, ainda que sutis, de que sua aplicação é influenciada pelo fator diastrático, nomeadamente pela classe baixa. Com relação à estratégia (IV) – {{NE} + {NO + SV}} (IV): como em “Não, não sei.” –, tendo-se em mente o parâmetro > 5% para valores estatisticamente significativos, ela só é significativa na classe baixa velha. No particular da estratégia (V) – {{NE} {(+ C)} + {SV(s)}}: “Não, mas acredito que sim.” –, as evidências sinalizam neutralidade de influência de fatores extralinguísticos. Aponta-se que a estratégia (I) é progressiva e que a estratégia (II) é regressiva entre os falantes da classe baixa como um todo. Isso ocorre porque (II) predomina entre os velhos, e (I) é hegemônica entre os jovens. Em relação a tal comparação entre indivíduos da classe alta, existe um equilíbrio entre os velhos e os jovens não só quanto às variantes (I) e (II), mas também às demais. A ordem descendente das variantes entre os velhos é a mesma notada entre os jovens. Outra constatação refere-se ao fato de haver muito mais variação na classe baixa do que na classe alta, quando o fenômeno enquadrado são as estratégias de negação. Nota-se também que a classe baixa masculina, com 50% de FR, é o grupo que se destaca no emprego da estratégia (I). Em relação à estratégia (II), o grupo que mais a articula é novamente masculino, mas da classe alta. Aliás, o traço masculino é o fator extralinguístico que mais atua na produção da estratégia (II). No que diz respeito à variante (III), acontece o oposto: as mulheres, sobretudo da classe baixa, são os falantes que mais produzem a estratégia (III). A estratégia (V) é ligeiramente menos rara na classe baixa masculina do que nos outros grupos. Por fim, diga-se que o conjunto composto pelas estratégias de (V) a (IX)10 presente na classe alta feminina, com surpreendentes 17% de FR, supera quantitativamente as estratégias (III) e (IV), não só quando estas últimas são tomadas isoladas, mas também quando elas são tomadas somadas. Esse fato adicionalmente reduz a importância das estratégias (III) e (IV) e, em contraste, destaca a relevância das estratégias (I) e (II) do ponto de vista da frequência relativa, com 40% e 29% de FR, respectivamente. some syntactIc negatIon strategIes In BrazIlIan Portuguese Abstract: The negation in Brazilian Portuguese syntax is studied via dialectology. The focus lies on the positional relationship between the negation operator and the elements within its scope. We explore the well-known trichotomy of preverbal negation, double negative, and postverbal negation. Moreover, we introduce a tripartite classification consisting of sentence negation, complex phrase 10 (VI): {{NO + SV} + {NE}}, como em “Não acredito, não.”; (VII): {NCNV + CNV}, como em “Nem um pouco.”; (VIII): {SNV + N}, como em “Com provas, não.”; (IX): {SV1 + C + {SP + NOS}}, como em “Acho que na lua não.”
17 LÍNGUA E LINGUÍST ICA AlgumAs estrAtégiAs de negAção sintáticA no português brAsileiro Todas as Letras, são paulo, v. 26, n. 2, p. 1-17, maio/ago. 2024 doi 10.5935/1980-6914/eletll16373 negation, and constituent negation. We then identify nine specific strate gies (or types) of syntactic negation. Keywords: Dialectology. Syntax. Negation. Linguistic Variation. Extralinguistic Correlations. referêncIas ALKMIM, M. G. R. As negativas sentenciais no dialeto mineiro: uma abordagem variacionista. 2001. Tese (Doutorado em Estudos Linguísticos) – Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte, 2001. COMITÊ NACIONAL DO PROJETO ALiB. Atlas linguístico do Brasil: questionários. Londrina: Eduel, 2001. FIGUEIREDO JUNIOR, S. R. Atlas linguístico pluridimensional do português paulista: níveis semântico-lexical e fonético-fonológico do vernáculo da região do Médio Tietê. 2018. Tese (Doutorado) – Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, São Paulo, 2019. FURTADO DA CUNHA, M. A. Variação e mudança no domínio funcional da negação. Gragoatá, n. 9, p. 155-170, 2000. GOLDNADEL, M. et al. Estratégias alternativas de negação sentencial na região Sul do Brasil: análise da influência de fatores pragmáticos a partir de dados do projeto Varsul. Revista de Estudos da Linguagem, v. 21, n. 2, p. 35-74, 2013. HAEGEMAN, L. The syntax of negation. Cambridge: Cambridge University Press, 1995. HAN, C. Force, negation and imperatives. The Linguistic Review, v. 18, p. 289325, 2001. HORN, L. R. A natural history of negation. Standford, CA: CSLI Publications, 2001. RADTKE, E.; THUN, H. Neue Wege der romanischen Geolinguistik: eine Bilanz. In: RADTKE, E.; THUN, H. (org.). Akten des Symposiums zur empirischen Dialektologie. Kiel: Westensee-Verl, 1996. p. 1-24. ROCHA, R. S. A negação dupla no português paulistano. Dissertação (Mestrado em Semiótica e Linguística Geral) – Universidade de São Paulo, São Paulo, 2013. RONCARATI, C. A negação no português falado. In: MACEDO, A. T. de; RONCARATI, C.; MOLLICA, M. C. (org.). Variação e discurso. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1996. p. 97-112. THUN, H. (dir.). Atlas lingüístico diatópico y diastrático del Uruguay. Kiel: Westensee-Verl, 2000. THUN, H. A dialetologia pluridimensional no Rio da Prata. In: ZILLES, A. M. S. (org.). Estudos de variação linguística no Brasil e no Cone Sul. Porto Alegre: Editora da UFRGS, 2005. p. 63-92. YACOVENCO, L. C.; NASCIMENTO, C. A. R. do. A negação no português falado em Vitória/ES. Revista (Con)Textos Linguísticos, v. 10, n. 17, p. 122-138, 2016. ZEIJLSTRA, H. The morpho-syntactic realisation of negation. In: KISS, T.; ALEXIADOU, A. (ed.). Syntax – theory and analysis: an international handbook. Berlin: De Gruyter Mouton, 2015. v. 1, p. 274-309.