DESVIO PORTOSSISTÊMICO (SHUNT) EM FELINOS: REVISÃO DE LITERATURA Maria Raquel Silva Pós-Graduada em Patologia e Parasitologia Veterinária,
[email protected] Hudson Fernandes Correia Graduando em Medicina Veterinária, Universidade Federal da Paraíba – UFPB-PB,
[email protected] Victoria Gabrielly Linhares Delgado Graduando em Medicina Veterinária, Universidade Federal da Paraíba – UFPB-PB,
[email protected] RESUMO O desvio portossistêmico (PSS), também denominado shunt portossistêmico, representa uma anomalia vascular congênita ou adquirida, caracterizada pelo desvio do fluxo sanguíneo da veia porta diretamente para a circulação sistêmica, sem passar pelo fígado. Em felinos, embora menos frequente que em cães, a enfermidade apresenta significativa relevância clínica devido às manifestações decorrentes da insuficiência hepática funcional, incluindo sinais neurológicos compatíveis com encefalopatia hepática, atraso no crescimento, distúrbios gastrointestinais e alterações laboratoriais sugestivas de comprometimento metabólico. O objetivo deste estudo consistiu em revisar criticamente a literatura recente acerca da fisiopatologia, diagnóstico, modalidades terapêuticas e prognóstico do PSS em gatos. Trata-se de uma revisão narrativa de literatura, fundamentada em pesquisas realizadas nas bases Latindex, SciELO, Crossref, PubMed, LILACS, BVS e DIADORIM, além de livros e monografias, abrangendo publicações entre 2020 e 2024. Foram incluídos artigos originais, revisões sistemáticas e relatos de caso, em português, inglês e espanhol, totalizando 11 estudos elegíveis após triagem. Os resultados indicam que os métodos diagnósticos mais empregados incluem exames de imagem, especialmente ultrassonografia com Doppler e tomografia computadorizada contrastada, além da dosagem de ácidos biliares séricos. Quanto ao tratamento, a abordagem cirúrgica, como a ligadura gradual ou uso de dispositivos constritores ameroides, tem se mostrado a opção mais eficaz para correção de PSS congênito, enquanto o manejo clínico com dieta hipoproteica e fármacos como lactulose e antibióticos intestinais é reservado a casos paliativos. Conclui-se que a identificação precoce e a intervenção adequada são determinantes para o prognóstico favorável em felinos acometidos, reforçando a importância do diagnóstico diferencial criterioso e da integração entre exames clínicos e avançadas técnicas de imagem. Palavras-Chaves: Gatos; hepatopatia; distúrbios; diagnóstico; diagnóstico diferencial. 1 INTRODUÇÃO O desvio portossistêmico congênito e adquirido (PSS/DPS) constitui uma anomalia vascular na qual parcela do fluxo portal contorna o fígado, ocasionando redução do aporte de fatores hepatotróficos e subsequente acumulação sistêmica de toxinas como a amônia, responsáveis por manifestações clínicas diversas, sobretudo encefalopatia hepática. Estudos clínicos e revisões recentes descrevem a PSS como causa importante de sinais neurológicos,
retardo no crescimento e alterações bioquímicas em felinos, exigindo abordagem diagnóstica multifacetada (VALIENTE et al., 2020). Do ponto de vista epidemiológico e anatômico, a literatura recortada entre 2020–2024 confirma que os felinos podem apresentar shunts intra-hepáticos e extra-hepáticos, com variação na prevalência conforme raça, idade e localização anatômica do vaso anômalo. Sinais clínicos mais frequentes incluem letargia, incoordenacão, vômitos, poliúria/polidipsia e sinais neurológicos variando de alteração comportamental a convulsões; a apresentação clínica muitas vezes é inespecífica, retardando o diagnóstico sem o emprego de testes laboratoriais e de imagem apropriados (MOHAMMADI et al., 2024). A investigação laboratorial permanece central no rastreio de PSS: concentrações elevadas de ureia plasmática baixa, hipoglicemia intermitente, e principalmente aumento das concentrações de amônia plasmática e de ácidos biliares pré e pós-prandiais constituem indicadores úteis, embora não absolutamente sensíveis isoladamente. A medição de ácidos biliares pré / pós-prandial e amônia em jejum são frequentemente recomendadas como exames de triagem, orientando a necessidade de exames complementares de imagem para confirmação diagnóstica (LISCOMBI et al., 2025). As modalidades de imagem evoluíram substancialmente e hoje incluem ultrassonografia abdominal com Doppler como exame inicial acessível, tomografia computadorizada com contraste (Angio-TC) e portografia mesentérica para confirmação anatômica e planejamento cirúrgico. Estudos publicados em série de casos demonstram que a angiotomografia fornece mapeamento vascular detalhado, crucial para distinguir shunts intra-hepáticos de extrahepáticos e para escolher a técnica de correção mais adequada (MULLINS et al., 2023). No manejo terapêutico, a literatura distingue medidas de suporte médico (dietas proteinadas moderadas, lactulose, antimicrobianos de escolha, controle de precipitares de encefalopatia e correção metabólica) da correção anatômica definitiva por via cirúrgica ou endovascular. Sinais de melhora clínica podem ser obtidos com tratamento clínico, porém a resolução a longo prazo e o restabelecimento funcional pleno do fígado são mais prováveis após a atenuação cirúrgica gradual do shunt (ex.: banda de celofane, anel de ameróide) ou técnicas endovasculares (embolização por bobina/coil), conforme descrito em séries e relatórios recentes (ECONOMU et al., 2022; IZZO et al., 2022). Contudo, as intervenções cirúrgicas não estão isentas de complicações: o desenvolvimento de post-attenuation neurologic signs (PANS), que inclui desde tremores discretos até convulsões generalizadas e síndrome neurocomportamental pós-operação, é um
evento relatado com frequência em gatos submetidos à atenuação de shunt, afetando prognóstico imediato e exigindo manejo intensivo pós-operatório. Estudos multicêntricos e revisões recentes detalham a incidência de PANS, fatores de risco e associações com desfechos de sobrevivência a curto prazo, apontando que episódios de convulsão pós-atenuação reduzem significativamente a probabilidade de sobrevivência precoce (MULLINS, 2023) A literatura também discute variáveis associadas ao prognóstico: tipo de shunt (intra vs. extra-hepático), técnica de atenuação, estado pré-operatório do paciente (presença de encefalopatia, desnutrição), e parâmetros bioquímicos perioperatórios (p. ex., osmolalidade) foram correlacionados a maior risco de PANS e mortalidade precoce. Estudos de 2020–2024 enfatizam a importância da preparação anestésica e das estratégias perioperatórias (manejo de fluidos, controle glicêmico, monitoração neurológica) para reduzir complicações e otimizar resultados (STRICKLAND et al., 2021; MENESES et al., 2022). Além disso, trabalhos recentes em séries de casos de IHPSS (intra-hepáticos) em felinos mostram que, embora a cirurgia ofereça boas taxas de sucesso a longo prazo em muitos animais, existe variabilidade nos desfechos e necessidade de seguimento clínico laboratorial prolongado; alguns pacientes exigem terapêutica contínua para controle de sinais residuais ou complicações tardias. Essas observações reforçam que a decisão entre manejo clínico e correção definitiva deve considerar prognóstico individual, risco cirúrgico e expectativa de qualidade de vida. (ECONOMU et al., 2022). No contexto nacional e em relatos de caso brasileiros (2020–2024), publicações de repositórios e revistas universitárias descrevem experiências clínicas locais, técnicas anestésicas adaptadas e uso de abordagens híbridas que combinam cirurgia aberta e interventional radiology para otimizar atenuação e reduzir traumas, contribuindo para o repertório técnico disponível em centros de referência regional. Esses relatos fortalecem a compreensão das peculiaridades regionais e logísticas do tratamento de PSS em felinos (KONSTANTINIDIS et al., 2023). Por fim, lacunas importantes permanecem na literatura: faltam ensaios prospectivos randomizados que comparem estratégias de atenuação, poucos estudos robustos definem biomarcadores preditivos de PANS, e há necessidade urgente de protocolos padronizados perioperatórios baseados em evidência para reduzir variabilidade de resultados. Recomenda-se ampliar colaborações multicêntricas, consolidar bancos de dados nacionais e priorizar pesquisas translacionais que esclareçam mecanismos fisiopatológicos da PANS e biomarcadores
prognósticos, visando melhorar morbidade e mortalidade associadas ao tratamento de shunts em gatos (MULLINS, 2023; MOHAMMADI, 2024). 2 METODOLOGIA O presente estudo configurou-se como uma revisão de literatura narrativa, conduzida entre os meses de junho e agosto de 2025. Foram consultadas as bases de dados LATINDEX, SciELO, Crossref, PubMed, LILACS, BVS e DIADORIM, além de livros, monografias e repositórios acadêmicos. Os critérios de inclusão foram publicações entre 2020 e 2024, artigos originais, revisões, relatos e séries de casos relacionados ao desvio portossistêmico (PSS) em felinos. Os textos disponíveis foram em português, inglês ou espanhol com trabalhos que apresentassem informações sobre epidemiologia, diagnóstico, tratamento ou prognóstico do PSS. Os critérios de exclusão foram publicações anteriores a 2020, trabalhos sem relação direta com PSS em felinos, documentos incompletos ou indisponíveis em texto integral, e estudos restritos a outras espécies sem menção a gatos. Após triagem inicial, 97 registros foram identificados, dos quais 11 atenderam integralmente aos critérios de elegibilidade e compuseram o corpus da análise. 3 RESULTADOS E DISCUSSÃO Os estudos recentes demonstram que os sinais neurológicos pós-atenuação cirúrgica de shunts portossistêmicos congênitos (CPSS) em gatos, conhecidos como postattenuation neurologic signs (PANS), são complicações frequentes e clinicamente significativas. Strickland et al. (2021) observaram que, em uma coorte de 50 gatos com CPSS submetidos à atenuação, 62% apresentaram sinais neurológicos (PANS), dos quais 22% manifestaram convulsões. O tipo de shunt (intraversus extrahepático), a técnica de atenuação e aspectos perioperatórios foram investigados como fatores de risco, sendo que menor osmolaridade plasmática 24 horas após a cirurgia foi associada a maior probabilidade de PANS (MENESES et al., 2022). Outro estudo retrospectivo, incluindo 59 gatos com CPSS que desenvolveram PANS dentro de sete dias pósoperatório, reportou sobre a sobrevivência em 30 dias. Desses, 78%
sobreviveram, mas a ocorrência de convulsões pós-atenuação (PAS) e o uso de propofol para manejo desses sinais foram fatores de prognóstico negativo (NAGUMO et al., 2025). Consequentemente, embora a maioria dos casos apresente bom prognóstico a curto prazo, esses achados alertam para o risco associado aos manejos anestésicos ou anticonvulsivantes usados na fase pós-operatória (OTERO BALDA et al., 2025). Quanto ao diagnóstico pré-e pós-operatório, modalidades de imagem melhoraram substancialmente a acurácia anatômica e prognóstica. Em um estudo com oito gatos, foi demonstrado que a fração de shunt (shunt fraction, SF) medida por tomografia computadorizada de perfusão (CTP) em períodos pós-operatórios (dias 14 e 75) foi significativamente reduzida comparada ao valor basal em gatos com CPSS, sugerindo que essa medida pode servir como indicador prognóstico de sucesso cirúrgico (VALIENTE et al., 2020). Além disso, ultrassonografia combinada com Doppler, portografia mesentérica e angiografia tomográfica permitem mapear a anatomia do shunt, fator crítico para escolha entre atenuação cirúrgica completa, parcial ou uso de dispositivos especiais. 4 CONSIDERAÇÕES FINAIS O desvio portossistêmico em felinos configura-se como uma condição clínica complexa, que requer diagnóstico preciso, estratégias terapêuticas individualizadas e acompanhamento contínuo para reduzir complicações pós-operatórias. Tanto o manejo cirúrgico quanto o tratamento clínico podem ser eficazes, sendo a escolha do método condicionada à localização do shunt, à gravidade clínica do paciente e à experiência da equipe veterinária. Os sinais neurológicos após a atenuação constituem uma complicação relevante, cuja ocorrência pode ser minimizada por protocolos de monitoramento rigorosos e pela identificação precoce de fatores de risco individuais. O uso de ferramentas de imagem avançadas, como tomografia computadorizada e perfusão hepática, tem se mostrado essencial para avaliação prognóstica e planejamento terapêutico, oferecendo dados objetivos sobre o fluxo sanguíneo hepático e a resposta à intervenção. Abordagens integradas, envolvendo suporte nutricional, manejo clínico e acompanhamento multidisciplinar, são determinantes para a melhoria da qualidade de vida felina e para a redução da mortalidade associada a complicações. A educação
continuada de médicos-veterinários e a adoção de protocolos baseados em evidências fortalecem a tomada de decisão clínica e aprimoram os resultados terapêuticos. Conclui-se que o avanço científico, aliado à experiência clínica e à utilização de tecnologias diagnósticas modernas, permite abordagens cada vez mais seguras e eficazes no manejo de shunts portossistêmicos em gatos. No entanto, persistem lacunas, como a variabilidade individual da resposta pós-cirúrgica e a necessidade de estudos longitudinais multicêntricos que ampliem a compreensão sobre prognóstico e complicações, reforçando a importância de uma prática clínica baseada em evidências e vigilância contínua do paciente felino. REFERÊNCIAS BARBOSA, L. M. Shunt portossistêmico congênito extra-hepático em um felino: relato de caso. Monografia de Especialização em Diagnóstico por imagem, Repositório UFMG, 2024. 38p. ECONOMU, L.; STRICKLAND, R.; LIPSCOMB, V. J. Surgical treatment and outcome of intrahepatic shunts in 12 cats. Journal of Feline Medicine & Surgery, v. 24, n. 10, e411–e419, 2022. KONSTANTINIDIS, A. O.; ADAMAMA-MORAITOU, K. K.; PATSIKAS, M. N.; PAPAZOGLOU, L. G. Congenital Portosystemic Shunts in Dogs and Cats: Treatment, Complications and Prognosis. Veterinary Sciences, v. 10, n. 5, p. 346, 12 maios 2023. LIPSCOMB, V.; ANGHILERI-JARMAN, F.; TAYLOR, S. Retrospective review of outcome following medical management of a congenital portosystemic shunt in 10 cats. Journal of Feline Medicine and Surgery, v. 27, n. 5, p. 1098612X251334086, maio 2025. MENESES, L. M. et al. Anestesia para correção de shunt portossistêmico com anel de ameróide: relato de caso. Revista Ciência Animal, v. 31, n. 2, 2022. MOHAMMADI, S.; PAHLEVANINEZHAD, N.; VALAVI, P.; IRANI, D. M.; SHAMS, F.; MOHAMADI, P.; JOKAR, M.; ABDOUS, A. Neurological consequences after portosystemic shunt attenuation in cats: A meta-analysis study. The Veterinary Journal, v. 306, p. 106150, ago. 2024. MULLINS, R. A. Postattenuation neurologic signs after surgical correction of congenital portosystemic shunts in cats: a narrative review. Veterinary Surgery, v. 52, n. 3, p. 349–360, 2023. NAGUMO, T.; ISHIGAKI, K.; ISHIKAWA, C.; SHIOZAWA, N.; ASANO, K. Postoperative reduction in computed tomography perfusion-derived shunt fraction is associated with
favorable prognosis in cats with congenital portosystemic shunt. American Journal of Veterinary Research, v. 86, n. 9, eajvr.25.04.0125, 16 jun. 2025. OTERO BALDA, I. et al. Prognostic factors for short-term survival of cats that experienced postattenuation neurologic signs after surgical attenuation of single congenital portosystemic shunts. Veterinary Surgery, v. 54, n. 5, p. 930-944, jul. 2025. STRICKLAND, R.; TIVERS, M. S.; FOWKES, R. C.; LIPSCOMB, V. J. Incidence and risk factors for neurological signs after attenuation of a single congenital portosystemic shunt in 50 cats. Veterinary Surgery, v. 50, n. 2, p. 303–311, fev. 2021. VALIENTE, P.; TREHY, M.; WHITE, R.; NELISSEN, P.; DEMETRIOU, J.; STANZANI, G.; DE LA PUERTA, B. Complications and outcome of cats with congenital extrahepatic portosystemic shunts treated with thin film: Thirty-four cases (2008-2017). Journal of Veterinary Internal Medicine, v. 34, n. 1, p. 117-124, jan. 2020.