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OBSERVAÇÕES DO ESTÁGIO SUPERVISIONADO: UM RELATO DE EXPERIÊNCIA FRENTE A VIDA DE UM PROFESSOR CONCURSADO

Cavalcante de Sousa, Talita

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OBSERVAÇÕES DO ESTÁGIO SUPERVISIONADO: UM RELATO DE EXPERIÊNCIA FRENTE A VIDA DE UM PROFESSOR CONCURSADO Talita Cavalcante de Sousa1 Resumo O presente artigo tem como objetivo relatar as experiências, reflexões e desafios vivenciados durante o Estágio Supervisionado no Ensino Médio em uma escola pública do município de Maracanaú. O estágio, compreendido como um elo entre teoria e prática, possibilita ao licenciando vivenciar a realidade escolar e construir sua identidade docente por meio de observações, regências e convivência com a comunidade escolar. A escola em questão atende alunos da classe média baixa, apresenta estrutura física e pedagógica limitada e conta com um corpo docente majoritariamente temporário. A professora supervisora, formada em Ciências Biológicas, foi acompanhada nas aulas de Biologia e na trilha de Ciências da Natureza para o ENEM. Sua atuação demonstrou domínio dos conteúdos e comprometimento, apesar da baixa carga horária destinada às disciplinas e da evidente desmotivação dos alunos. O estágio evidenciou múltiplos desafios enfrentados por docentes da rede pública, como a falta de apoio da gestão, situações de assédio institucional, dificuldade de progressão na carreira e políticas que impedem a reprovação de alunos, mesmo em casos de baixo rendimento. Também se observou desinteresse dos estudantes, ausência de participação e resistência a qualquer proposta didática. Como metodologia, foram utilizadas observações, conversas informais com professores e regência em turmas do 1º, 2º e 3º ano, o que permitiu analisar a realidade escolar sob diferentes perspectivas. Apesar das dificuldades, o estágio também possibilitou reflexões importantes sobre o papel do professor, os limites da atuação docente e os caminhos possíveis na formação profissional. Conclui-se que, embora o estágio seja um espaço formativo rico, revela com crueza as fragilidades da educação pública e os dilemas enfrentados por quem escolhe a docência como profissão. Palavras-chave: Educação pública; Formação docente; Desafios da docência. 1. INTRODUÇÃO O estágio supervisionado é responsável por estabelecer um elo entre teoria e a prática, é momento em que o licenciando pode experienciar o que foi aprendido na academia, aplicando e adaptando à realidade como professor. É também a fase em que o 1 Graduando em Ciências Biológicas, Universidade Estadual do Ceará-UECE, [email protected]. futuro professor visualiza-se na profissão e tenta estabelecer métodos e ajustá-los à realidade escolar à qual está exposto naquele instante. “É o momento em que o licenciando tem a oportunidade de articular a teoria com a prática docente, em um processo de reflexão crítica e construção da identidade profissional."(Sousa et al, 2010). Este trabalho propõe-se a relatar percepções, reflexões e experiências vivenciadas, ao longo do estágio no ensino médio em uma escola pública do município de maracanaú segundo as perspectivas da própria autora, usando como ponto de apoio também, relatos dos professores em que teve convívio ao longo do período do estágio. Visa também demonstrar a evolução e autopercepção da autora quando professora da rede pública de ensino, principalmente, já que "o estágio é mais do que um momento de aplicação: é um espaço-tempo de formação, onde o licenciando ressignifica saberes, constrói vínculos e se vê como futuro educador" (Franco, 2010). 2. DESENVOLVIMENTO 2.1 Caracterização do ambiente escolar A escola está localizada no bairro Conjunto Industrial, no município já mencionado. É um bairro de classe média baixa, bem abastecido de pontos comerciais básicos que suprem o público morador. A instituição escolar em questão tem em média 350 alunos matriculados, mas com uma frequência diária de 150 a 200 alunos. Os estudantes matriculados são moradores do bairro em que a escola está situada, mas também recebe alunos dos bairros circunvizinhos. A instituição escolar funciona em regime integral e conta com um quadro de professores com pouco mais de 20 professores, mas apenas 7 são concursados efetivos, os demais são todos temporários. A professora supervisora que acompanhou e supervisionou todo o estágio faz parte do grupo dos efetivos. Encontra-se ainda em regime probatório, faltando apenas 1 ano para concluí-lo. O espaço educacional tem diretora e coordenadora, mas conheci apenas a coordenadora, que era, inclusive, a responsável por admitir os estagiários. Fui muito bem recebida por ela e todos os funcionários. A escola conta com segurança na entrada todos os dias, incluíndo à noite pois nela há também turmas EJA, com os agentes de segurança trabalhando por escala. Não há profissionais concursados na parte de serviços gerais, apenas terceirizados, que por ventura não vão regularmente para à escola e nem limpam certos espaços da escola, como a sala dos professores ou banheiros dos mesmos. Além disso, os professores não recebem água, café, lanches ou outras refeições com os fundos da escola, tudo isso é custeado pelos próprios educadores. Figura 1 - Entrada da escola Fonte: Google Maps, 2025. Figura 2 - Avenida da Escola e Fachada Fonte: Google Maps, 2025. 2.2 Professora Supervisora Formada em Ciências Biológicas pela UESPI - Universidade Estadual do Piauí, é concursada do Estado e segue pelo segundo ano no probatório. Já era concursada do município de Maracanaú, mas pediu exoneração para assumir no estado. Trabalha em duas escolas da rede estadual, ambas em Maracanaú, desde 2023. Ela já atua como professora desde 2013 embora seja jovem. Na escola do presente estágio ela é a única professora de biologia, possuindo 3 turmas em cada uma das séries (1º, 2º e 3º anos), além de ser professora da trilha de Ciências da Natureza para o ENEM nas 3 turmas do 3º ano. A acompanhei tanto em biologia quanto em CN para o ENEM. Cada turma tem em média 35 alunos, mas cerca de 25-30 alunos batem a frequência diária. A disciplina de biologia conta apenas com 1 hora/aula semanal, e quando a disciplina de CN para o ENEM possui 2 horas/aulas semanais. Foi a primeira vez ao longo dos meus estágios que tive alguém formado em biologia como professor supervisor, até então, nos estágios de ESEF, todos eram licenciados em química. A experiência é muito diferente. A supervisora atual tinha excelente domínio sobre os assuntos de biologia, e mesmo com apenas 1h/a ela sempre levava o máximo de informações, e em momento nenhum “facilitava demais” os assuntos frente aos alunos que pareciam não ligar nem um pouco para as aulas. 2.3 Observação Este é, para mim, o tópico principal deste trabalho. Ao longo de todos os meus estágios, mesmo com as dificuldades com os alunos, a escola com pouca estrutura e todos os demais percalços, essa foi a primeira vez em que pensei seriamente em desistir de ser professora, até mesmo concursada da rede pública. A professora me relatou muitas situações onde a gestão da escola vai contra o professor, não apoia e até mesmo assedia o professor. Uma delas ocorreu durante as minhas observações,onde a professora precisou retirar um aluno de sala por mau comportamento. O aluno foi para a coordenação. Alguns minutos depois a coordenadora vai até a sala pedindo para falar com a professora pois o aluno alegava que a professora tinha sido desrespeitosa com ele, demonstrando acreditar mais no aluno do que na própria professora. A minha supervisora pediu até que eu manifestasse minha opinião como forma de testemunhar o ocorrido. Após o fim da aula ela veio conversar falando que infelizmente isso acontece com vários professores, onde a coordenação não apoia o professor dificultando o relacionamento professor-gestão. Disse-me ainda que nunca encontrou uma escola pública onde a gestão soubesse se comunicar com o professor. Outra situação relatada, mas que ocorreu na outra escola em que a mesma trabalha, foi uma situação de assédio que, em resumo, por meio de uma trama do gestor da instituição, ela quase perdia sua lotação na escola, tudo isso motivado por uma falta no dia de votação para escolha do gestor. Falta essa justificada com atestado médico, pois ela estava grávida e foi a uma consulta pré-natal. Por estar em período probatório, nem mesmo uma denúncia ela pode fazer. Ademais, muitos professores me relataram outras situações de desestímulo enfrentadas nesta e em outras escolas. Muitas vezes fui questionada: “tu vai querer ser professora mesmo?” o que evidencia e muito o cansaço, sobrecarga e baixa valorização do profissional educador. Descobri também como o estado dificulta a progressão de carreira do professor. Aqueles que precisam de licença por algum motivo (complementação de títulos - mestrado, doutorado; licença por saúde mental; maternidade, etc) são impedidos de tentarem a progressão de carreira após retorno, isso porque é preciso ter um tempo ininterrupto específico para progredir. A minha supervisora não pode porque tirou licença maternidade,uma outra professora não pode porque pegou 4 meses de licença por motivos de saúde mental, um outro não pode porque pausou para fazer seu doutorado. A escola também não permite, por orientações que vêm da própria CREDE, que os alunos tenham notas abaixo da média, independentemente de como vai seu aprendizado, desempenho real ou conduta no ambiente escolar. Um dia, quando estava na sala dos professores, a auxiliar da coordenação veio repassar informes vindos da CREDE: apenas 3 alunos da escola inteira poderiam ser reprovados e que os professores conversassem para decidir quais seriam, pois essa era a cota máxima para que a escola não sofresse “penalidades”. Somado a tudo isso, vem as experiências em sala de aula. Muitos alunos não fazem as atividades, nem sequer levam os livros para casa para ter que trazer diariamente para a escola. Não realizam as atividades, mesmo que sejam aulas diferenciadas. A grande maioria dorme durante a abordagem dos conteúdos, são raros aqueles que participam. Não realizam trabalhos, apresentações, nem provas. A conclusão que ficou foi a de que ser professor concursado compensa apenas pelo salário fixo. 2.4 Regências Meu período de regências foi bem tranquilo. As turmas de 1º ano são mais fáceis de lidar, então todas as minhas aulas lá foram tranquilas. A turma de 3º ano era a mais tranquila das três, então também consegui lidar, embora a grande maioria só dormisse ao longo das aulas. A turma 2º ano era a mais problemática, difícil de conter e com alunos muito “respondões”. Não tive nenhum impasse ao longo das aulas, mas era a turma que eu mais tinha receio. Infelizmente os alunos não participavam muito, e pouquíssimos faziam as atividades solicitadas. As turmas de 1º ano eram as que mais interagiram durante as aulas e ainda assim era um pouco limitado. Abaixo algumas fotos dos momentos dos estágios. Figura 3 - Regência no 1º ano Fonte: elaborada pela autora, 2025. Fonte: elaborada pela autora, 2025. Figura 4 - Regência no 1º ano Visualização das estampas da divisão celular Fonte: elaborada pela autora, 2025. Figura 4 - Regência no 3º ano - CN para o ENEM Fonte: elaborada pela autora, 2025. 3. CONCLUSÃO Oliveira, 2004 fala como "a carreira docente nas redes públicas tem sido marcada por baixos salários, sobrecarga de trabalho e falta de condições adequadas para a atuação profissional” mesmo sendo uma das profissões mais indispensáveis para o crescimento da sociedade. Deparar-se com este cenário apenas ao chegar ao mercado de trabalho, tornaria a permanência do professor no ramo da educação ainda mais difícil. "Ao final do estágio supervisionado, nota-se que o licenciando apresenta maior segurança, domínio didático-metodológico e compreensão das funções sociais da escola" (Diniz, 2013). Mesmo com todas as dificuldades, e após me deparar com o cenário descrito e as situações enfrentadas diariamente pelos professores, decidi que não posso desistir. Caso contrário, mais caótico se tornará a educação pública. “A vivência do estágio revela desafios importantes como a gestão de sala de aula, a adaptação de linguagem e conteúdos e a inserção em um ambiente, muitas vezes, pouco acolhedor" (Carvalho, 2008), e graças a isso posso tentar buscar alternativas para que eu possa driblar algumas das adversidades que vou encontrar. E além disso, buscar por uma melhora e valorização do professor. REFERÊNCIAS CARVALHO, A. M. P. et al. O estágio supervisionado e a construção do saber docente na licenciatura em Ciências Biológicas. Revista Ensaio, 16(60), 2008. Disponível em: <https://www.scielo.br/j/ensaio/a/fV8PmMRCw7LqRtzJ4pHFc3f/?lang=pt>. Acesso em: 14 jul. 2025. DINIZ, R. E. S. et al. A importância do estágio supervisionado para a formação de professores de Biologia. Ciência & Educação, 19(1), 2013. Disponível em: <https://www.scielo.br/j/ciedu/a/SKRk9jR8NQScdQQ9ZGQRMVm/?lang=pt>. Acesso em: 14 jul. 2025. FRANCO, M. A. A. et al. Estágio supervisionado: espaço de formação e de resistência docente. Rev. Educ. Pesqui. 36(3), 2010. Disponível em: <https://www.scielo.br/j/ep/a/YmMFjrfGdF4WvbZTSTCvHvL/?lang=pt>. Acesso em: 14 jul. 2025. Oliveira, D. A. Trabalho docente e precarização: o caso brasileiro. Educação & Sociedade, v. 25, n. 89, 2004. Disponível em: <https://www.scielo.br/j/es/a/Zm6cWn3CwvgzMzqFqMSX3wp/>. Acesso em: 14 jul. 2025. SOUZA, C. R. et al. O estágio supervisionado e a formação do professor de Ciências e Biologia. RBPEC, 10(3), 2010. Disponível em: <https://www.scielo.br/j/rbpec/a/GCrT9rHdFVjD6TrVpFcNj9G/?lang=pt>. Acesso em: 14 jul. 2025.