OS IMPACTOS DA CARGA HORÁRIA DA DISCIPLINA DE BIOLOGIA NO AMBIENTE ESCOLAR E NO ESTÁGIO SUPERVISIONADO
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OS IMPACTOS DA CARGA HORÁRIA DA DISCIPLINA DE BIOLOGIA NO AMBIENTE ESCOLAR E NO ESTÁGIO SUPERVISIONADO Ana Jade da Costa Fernandes Gomes1 Resumo: Na busca de atualizar as escolas para uma nova geração da sociedade, a reforma no ensino médio surge com uma mudança na carga horária do ensino de Biologia, reduzindo-a. Neste relato, é observado as consequências desse fato. O estágio ocorreu em uma escola localizada no bairro Barra do Ceará, Fortaleza, em várias turmas do ensino médio. Ele se deu em etapas de observação do professor supervisor, regência do estagiário e projeto didático. As etapas de regência e projeto no primeiro ano tiveram foco em uma sequência didática sobre o objeto de conhecimento "Serviços ecológicos da diversidade biológica”, em ênfase em relações ecológicas e sucessão ecológica. Não foi um estágio linear, pois foi perpassado pela realidade do ambiente escolar, principalmente os impactos da carga horária de biologia, que afeta professores e alunos. É necessário que quem vive a escola em seu cotidiano, os principais sujeitos do processo de ensino e aprendizagem, sejam ouvidos. Palavras-chave: Ensino Médio. Iniciação à docência. Formação docente. 1. INTRODUÇÃO. A instituição escolar foi estruturada no auge da Revolução Industrial, com um dos objetivos de sistematizar o conhecimento acumulado pela humanidade ao longo do tempo. Porém, diante das inúmeras transformações históricas, há uma consciência crescente de que os paradigmas educacionais também vêm passando por profundas alterações, especialmente por vivermos em uma era marcada pela rapidez no processamento da informação e pela intensificação da comunicação (Cerqueira, 2006). Atualmente, diante da necessidade de redefinir a identidade do ensino médio, diversas propostas de mudança têm surgido no Brasil. Entre elas, destaca-se o Novo Ensino Médio, impulsionada pela aprovação da Base Nacional Comum Curricular (BNCC) em 2018, que promoveu uma reestruturação significativa no currículo dessa etapa educacional. As alterações envolveram a redistribuição da carga horária, a divisão dos componentes curriculares entre disciplinas obrigatórias e itinerários formativos, e a reorganização das áreas do conhecimento. O que resultou em uma redução da carga 1 Graduanda, Ciências Biológicas, UECE, [email protected]
horária específica para o ensino de Biologia. Essa mudança tem gerado debates sobre a formação integral dos estudantes e a qualidade do ensino de ciências oferecido nas escolas (Souza, 2023). A escola que escolhi para realizar meu último estágio, foi uma estadual na Avenida Leste Oeste, trata-se de uma Escola de Ensino Médio em Tempo Integral (EEMTI), localizada na regional 1, bairro Barra do Ceará em Fortaleza. Atende apenas alunos de ensino médio e de forma integral, tendo quatro turmas de cada série. Conta com muitas salas de aula, cantina, quadra de esportes, sala de informática, laboratório de química e biologia, biblioteca, auditório, estacionamento e jardim. As turmas acompanhadas foram o primeiro ano e segundo ano, turmas A, B, C e D, com 35 alunos em média em cada. As faltas eram baixas a moderadas, tendo a frequência média de 25 a 35 alunos. Lá foi vantajoso para mim, por três motivos: primeiro, por indicação de uma colega que também fez estágio lá, falando muito bem da instituição e da professora de biologia. Segundo, por ser próxima a minha casa, sendo alguns quarteirões de distância. E terceiro, por poder contar com o sistema de transporte público urbano, já que em frente a escola há tanto ponto de ônibus quanto bicicletas públicas compartilhadas, trazendo facilidade na locomoção. O estágio tem como objetivo dar oportunidade e auxílio para o graduando em licenciatura, de aprender a ensinar na prática e no dia a dia das escolas, o que o torna muito importante na formação do futuro profissional educador. Como estudante, mudei bastante minhas visões, com o senso crítico sendo exercitado a cada situação nova que vivi nesses anos. Dessa vez, o que mais busquei entender foi sobre o funcionamento das escolas do estado, e principalmente a rotina do que é ser professor de biologia nessas instituições, pois além de ser uma posição que almejo para o futuro, também afetou diretamente minha vivência no estágio. Portanto, o presente trabalho tem como objetivo relatar, através das minhas experiências como graduanda em Ciências Biológicas em seu último estágio obrigatório, os impactos da carga horária da disciplina de biologia em uma escola do estado no ambiente escolar e no estágio supervisionado. 2. DESENVOLVIMENTO O último estágio traz a sensação de finalização do curso e também a nostalgia: ver como era no início e agora como estamos no final dessa jornada. A mudança é grande, já entendia todos os processos quando cheguei na escola no primeiro dia e, apesar do nervosismo comum sobre ser aceita ou não, estava confiante no que deveria fazer, como deveria me organizar, pois aprendi com erros passados. Fui aceita, sendo bem recebida pela equipe e comecei o reconhecimento do ambiente. As escolas do estado estavam sendo entregues em um modelo padrão, muito bem desenvolvido e bonito, mas que nem sempre recebia manutenção, que era o caso dessa. Ela é grande, abarcando todas as demandas de um ensino médio integral. Uma das primeiras coisas que notei, foi um guarda no portão. Ao mesmo tempo que havia reforma em alguns espaços e também bons equipamentos em outros, também havia salas com infiltração e com ar condicionado quebrado. O lugar que eu mais gostei foi a biblioteca, grande e muito organizada (figura 1, A) e o laboratório de química e biologia, que era bem equipado.
O primeiro impacto da carga horária no meu estágio, foi no planejamento dele, em que era preciso estabelecer qual dia da semana e quais turmas eu ia acompanhar, com base nos horários da professora e nos meus (Figura 1, B). O que aconteceu foi que, ao ter somente 1 aula de biologia por turma por semana, eu precisaria acompanhar mais turmas e também aulas de eletiva de biologia para cumprir minhas horas de estágio. Ficou combinado que seriam duas vezes na semana, pela manhã. Figura 1. Fonte: Elaborado pelo autor (2025). Observação No dia seguinte fui para a primeira observação. Cheguei cedo e fiquei na sala dos professores esperando a professora supervisora, que chegou em cerca de 30 minutos após o início do horário de aula. Com uma rotina pesada de mãe e professora, faltando tempo para tantas atividades, ainda mais dependendo do transporte público, isso ocorreu algumas vezes durante todos os meses que fui. As primeiras aulas do dia eram as mais afetadas, com pouco tempo restante de aula, não era muito proveitoso. Mas também por parte dos alunos, que tinham o costume de chegar atrasados todos os dias na sala. Alguns alunos são laudados e nas salas havia um profissional auxiliar com eles. As salas de aula são estrutura simples, mas funcional: apesar de muitos alunos, a sala era larga e não funda, diminuindo a distância entre o professor e o aluno da última cadeira, o que é muito bom para ambos. Para o professor é bom, pois consegue visualizar a sala toda e ter maior controle. Para o aluno, ele pode enxergar melhor o quadro e o professor. É pintada de branco, com ar condicionado, quadro longo e boas cadeiras. Os assuntos acompanhados foram: relações ecológicas (primeiro ano), ciclo celular e mitose (segundo ano), correção de atividades no livro (ambos). Apesar da escola ter datashow, a professora usava de seus próprios equipamentos, como notebook, datashow e caixa de som quando precisava, pois o da escola não estava sempre disponível. No geral as aulas eram dadas como resumo no quadro (Figura 2, B), tanto pela questão acima, mas também porque os alunos não tinham livros didáticos próprios, podendo só usar emprestado na escola. A professora então, tentava incentivar a copiar no caderno para que tivessem acesso ao conteúdo em casa.
Minha percepção sobre a postura da professora ao longo das aulas foi a seguinte: ela cumpre rigorosamente as normas da escola, demonstra grande organização tanto no planejamento quanto na condução das atividades, além de ser muito criativa. É acolhedora, mas sabe quando intervir. Atua como mediadora e facilitadora no processo de aprendizagem, utilizando bons exemplos e fazendo resumos. Demonstra empatia. Em relação às turmas, os alunos do segundo eram agitados ou dormiam, mas no momento de explicação, respeitavam e ouviam. Alguns já tinham preocupação com o vestibular, outros com o trabalho. Já os primeiros anos, eram tranquilos e tímidos, participavam das aulas. Acredito que são assim por todos serem novatos tanto na escola quanto no ensino médio, e precisam de mais tempo para se acostumar com a nova rotina e colegas. Notei que as turmas estavam em etapas diferentes do planejamento anual: umas já estavam vendo mitose, outras ainda estavam no ciclo celular, por exemplo. Isso acontecia pelo o mesmo motivo, a carga horária. 50 minutos de aula por semana de biologia não é o suficiente para que os alunos consigam aprender, foi o que observei. Acontecimentos inesperados se fazem presente no ambiente escolar, que facilmente afetam esse tempo, como feiras, palestras, conversa em sala, buscar os livros didáticos, avisos externos. Mesmo que fosse bem aproveitado, uma semana separa aquela aula da próxima, então notei o esquecimento dos alunos em relação ao conteúdo visto anteriormente. Com tantas outras aulas, uma rotina cansativa, como poderiam lembrar tão bem de uma aula que mal conseguiu ser dada? Houve também um episódio que escancarou a realidade dos estudantes. Em uma noite, houve uma tentativa de chacina nas proximidades da Vila do Mar, na Barra do Ceará, com pelo menos duas vítimas. No dia seguinte, fui à escola, mesmo com medo dessa situação. Obviamente, não era a única com esse sentimento: muitos alunos faltaram, ao ponto de apenas 5 a 10 alunos por turma terem ido. Outras escolas por perto fecharam. Chovia. Como poderia ter aula normal com todos aqueles sentimentos? Os professores preferiram então, tornar aquele lugar o mais acolhedor possível, como se dentro das paredes da escola fosse uma outra realidade. Conversamos e fizemos jogos. Foi marcante, professores trazendo segurança mesmo com uma realidade dura, mesmo com aulas perdidas pela violência. A figura 2, A, foi tirada nesse dia. Figura 2. Fonte: Elaborado pelo autor (2025).
Regência e projeto didático Antes de iniciar minhas aulas, conversei e planejei com a supervisora as possibilidades do que poderia realizar nas regências e projeto. Decidimos que, nessa nova etapa, as regências seriam em ambas as séries, mas no projeto apenas seria nos primeiros anos. Isso acontece pelos horários e acontecimentos da escola. Pois os segundos estavam atrasados na disciplina e logo teriam que organizar uma feira de ciências, que ocupariam algumas aulas. Em todas as atividades que estive à frente, apresentei os planos de aulas e o plano do projeto, aprovados pela professora. Nos segundos, dei aulas de ciclo celular, mitose e meiose. Nos primeiros, relações ecológicas e sucessão ecológica. Em ambos utilizei de resumos no quadro para explicar os assuntos, seguindo a recomendação da professora pela situação com os livros. A figura 3, A e B, mostra esse momento. Essas aulas se seguiram calmas e sem percalços. Ao fim da explicação, resolvemos questões do livro em conjunto. Uma dica que ganhei da professora, é dizer para os alunos que vai escrever muito no quadro, mesmo quando vai escrever pouco, pois se acontecer o contrário, dizer que vai ser pouco, mas acaba sendo muito, vai frustrar muito os alunos, pois é como se o “acordo” que fizeram foi rompido. Estou levando essa dica comigo, pois minha letra é grande e até resumos curtos preenchem a lousa. Figura 3. Fonte: Elaborado pelo autor (2025). Para tentar amenizar o esquecimento, em cada aula, no início, eu explicava o conteúdo da aula anterior de forma breve. Tentei buscar a assimilação pela repetição e pela visualização. No segundo, usei o recurso de vídeos curtos no youtube e modelo didático. Ambos foram para que o conteúdo das células fosse mais real aos alunos, pois acaba sendo muito abstrato. Tive bons retornos dos alunos e discussão do conteúdo em sala. Já nos primeiros, apliquei o projeto didático com eles. O projeto foi planejado para seguir da seguinte forma: em cada turma, de A a D, em 1 aula (50 minutos), os alunos deveriam ser separados em 4 equipes com mais ou menos a mesma quantidade. Cada grupo receberia um terrário, que foi montado previamente pela professora, e deveriam observar e discutir entre si, respondendo questões no quadro. O objetivo é que
eles conseguissem relacionar os conteúdos de relações ecológicas, sucessão ecológica, fatores bióticos e abióticos do ecossistema com o terrário, identificando esses fatores e relações. A figura 4 mostra um pouco desse momento. Nas duas primeiras turmas que apliquei o projeto, ambas se saíram bem, pois responderam as perguntas, demonstraram empolgação com atividade e percebi envolvimento entre as equipes. Já nas outras duas turmas, foram adiadas, pois uma palestra sem muitas informações foi realizada na aula de eletiva no dia anterior, fazendo com que a professora tentasse recuperar esse tempo perdido na aula de biologia. Posteriormente, foi realizado, mas não tão bem engajado, pois parecia que havia passado o tempo de ocorrer, perdido um pouco do sentido. O que eu via, era que as aulas e os planejamentos naquele espaço era como “tentar equilibrar pratos”, não deixando nada cair. Também como uma cadeia sucessiva de acontecimentos que iam se acumulando e se não fosse resolvido, provavelmente com alguma perda, os prejuízos seriam maiores. A professora parecia que fazia tudo: tinha muita planilha para preencher, planejamentos para fazer e seguir, prova para corrigir. Tudo, mas o que menos fazia era seu papel principal: dar aula e promover aprendizado. Não por culpa dela, e senti isso na prática ao tentar realizar minha parte e não conseguindo. Figura 4. Fonte: Elaborado pelo autor (2025). 3. CONSIDERAÇÕES FINAIS A profissão de professores tem mudado bastante, com novos currículos e novas estratégias para nova geração de alunos. Nem toda mudança é boa, como a carga horária de biologia para os alunos do ensino médio, o que é visível tanto para os alunos, quanto professores e estagiários. Também pelas várias funções extras sendo cobradas do profissional. Quem atua, quem vive as escolas no seu cotidiano, quem são os principais sujeitos nesse processo de ensino e aprendizagem, devem ser ouvidos para que os problemas não persistam. REFERÊNCIAS
CERQUEIRA, T. C. S. O professor em sala de aula: reflexão sobre os estilos de aprendizagem e a escuta sensível. Psic. São Paulo. v.7 n.1 jun. 2006. SOUZA, R. et al.. O novo ensino médio e suas implicações nos conteúdos de zoologia presentes nos livros didáticos de biologia. Anais IX CONEDU. Campina Grande: Realize Editora, 2023.