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Mulheres à frente do ensino: considerações acerca do percurso sócio histórico do magistério feminino

Lucas Diniz Teixeira; Elisabete Aparecida dos Santos Silva; Lúcia Helena M de M Oliveira

Abstract

Resumo: No Brasil, a atuação de mulheres como professoras na Educação Básica é uma característica antiga, notada principalmente na educação infantil e nos anos iniciais do ensino fundamental. Essa ampla presença não é só uma questão de números, mas sim o resultado de mudanças sociais, culturais e históricas que, nos séculos XIX e XX, firmaram a profissão como algo ligado à imagem da mulher. Este estudo considera que a educação sempre esteve ligada a debates políticos, sociais e culturais, definindo participação, exclusão e reconhecimento no trabalho. Desse modo, examinar a presença das mulheres no ensino ajuda a entender como elas se tornaram maioria no setor e quais foram os efeitos disso na valorização da profissão. Mesmo dando uma das primeiras chances para mulheres atuarem fora de casa, o trabalho como professora continuou marcado por salários baixos, instabilidade e pouco reconhecimento, repetindo desigualdades de gênero já existentes. Metodologicamente, a pesquisa usa uma abordagem qualitativa e bibliográfica, o que permite entender as relações entre gênero, educação e trabalho de maneira contextualizada e crítica (Minayo, 2012; Gil, 2019). A análise da literatura mostra que a feminização do magistério, embora tenha aumentado a presença feminina, também ajudou a diminuir o valor da carreira de professor e a manter ideias preconceituosas sobre o papel de cada gênero (Almeida, 1998; Louro, 1997; Vianna, 2001; Nunes, 2016). Assim, o estudo destaca como é importante reconhecer a história do magistério feminino, debater seus problemas e pensar em formas atuais de dar valor à profissão. Palavras-chave: Feminização docente. Magistério feminino. Desvalorização docente.

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HUMANIDADES & TECNOLOGIA (FINOM) - ISSN: 1809-1628. vol. 61 – Out./Dez. 2025 Doi 10.5281/zenodo.17371814 35 Mulheres à frente do ensino: considerações acerca do percurso sócio histórico do magistério feminino Women at the front of the classroom: considerations on the historical path of the ideology on female teaching Lucas Diniz Teixeira 1 Elisabete Aparecida dos Santos Silva 2 Lúcia Helena M de M Oliveira 3 Resumo: No Brasil, a atuação de mulheres como professoras na Educação Básica é uma característica antiga, notada principalmente na educação infantil e nos anos iniciais do ensino fundamental. Essa ampla presença não é só uma questão de números, mas sim o resultado de mudanças sociais, culturais e históricas que, nos séculos XIX e XX, firmaram a profissão como algo ligado à imagem da mulher. Este estudo considera que a educação sempre esteve ligada a debates políticos, sociais e culturais, definindo participação, exclusão e reconhecimento no trabalho. Desse modo, examinar a presença das mulheres no ensino ajuda a entender como elas se tornaram maioria no setor e quais foram os efeitos disso na valorização da profissão. Mesmo dando uma das primeiras chances para mulheres atuarem fora de casa, o trabalho como professora continuou marcado por salários baixos, instabilidade e pouco reconhecimento, repetindo desigualdades de gênero já existentes. Metodologicamente, a pesquisa usa uma abordagem qualitativa e bibliográfica, o que permite entender as relações entre gênero, educação e trabalho de maneira contextualizada e crítica (Minayo, 2012; Gil, 2019). A análise da literatura mostra que a feminização do magistério, embora tenha aumentado a presença feminina, também ajudou a diminuir o valor da carreira de professor e a manter ideias preconceituosas sobre o papel de cada gênero (Almeida, 1998; Louro, 1997; Vianna, 2001; Nunes, 2016). Assim, o estudo destaca como é importante reconhecer a história do magistério feminino, debater seus problemas e pensar em formas atuais de dar valor à profissão. 1 Mestrando em Educação Básica, pelo programa de Pós-Graduação em Educação Básica – PPGPEDU, do Instituto de Ciências Humanas do Pontal – ICHPO, da Universidade Federal de Uberlândia - UFU. Orcid: https://orcid.org/0000-0001-5467-3313. E-mail: [email protected] 2 Mestranda em Educação Básica, pelo programa de Pós-graduação em Educação Básica - PPGPEDU, do Instituto Federal de Ciências Humanas do Pontal - ICHPO, da Universidade Federal de Uberlândia - UFU. Orcid: https://orcid.org/0000-0002-3035-8201. E-mail: elisab[email protected] 3 Doutora em Educação pelo Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Estadual de Campinas – UNICAMP. Orcid: https://orcid.org/0000-0001-7292-4307. E-mail: [email protected] Recebido em 02/09/2025 Aprovado em: 16/10/2025 Sistema de Avaliação: Double Blind Review HUMANIDADES & TECNOLOGIA (FINOM) - ISSN: 1809-1628. vol. 61 – Out./Dez. 2025 Doi 10.5281/zenodo.17371814 36 Palavras-chave: Feminização docente. Magistério feminino. Desvalorização docente. Abstract: In Brazil, women's participation as teachers in Basic Education is a long-standing feature, particularly in early childhood education and the early years of elementary school. This widespread presence is not simply a matter of numbers, but rather the result of social, cultural, and historical changes that, in the 19th and 20th centuries, established the profession as something linked to the image of women. This study considers that education has always been linked to political, social, and cultural debates, defining participation, exclusion, and recognition in the workplace. Thus, examining the presence of women in teaching helps understand how they became the majority in the sector and what effects this had on the profession's appreciation. Despite providing one of the first opportunities for women to work outside the home, teaching continued to be marked by low wages, instability, and little recognition, repeating existing gender inequalities. Methodologically, the research uses a qualitative and bibliographical approach, which allows for a contextualized and critical understanding of the relationships between gender, education, and work (Minayo, 2012; Gil, 2019). The analysis of the literature shows that the feminization of teaching, while increasing the female presence, also contributed to diminishing the value of teaching as a career and maintaining prejudiced ideas about the role of each gender (Almeida, 1998; Louro, 1997; Vianna, 2001; Nunes, 2016). Thus, the study highlights the importance of recognizing the history of female teaching, discussing its problems, and considering current ways to value the professio. Keywords: Feminization of teaching. Female teaching. Devaluation of teaching 1 Introdução No Brasil, a atividade de lecionar na Educação Básica, é tradicionalmente exercida por mulheres. Nas classes, em especial da educação infantil e nos primeiros anos do ensino fundamental, é notável que a maioria dos professores é do sexo feminino. Essa forte presença não deve ser vista como simples estatística, mas sim analisada considerando os aspectos históricos, sociais e culturais que, nos séculos XIX e XX, fizeram da docência uma área profissional associada à figura feminina. Tal ocorrência, chamada de feminização do magistério, demonstra tanto a entrada das mulheres no mercado de trabalho quanto a desvalorização de uma profissão vista, por vezes, como uma extensão das tarefas domésticas e maternas (Louro, 1997; Vianna, 2001). Este estudo conecta-se com a discussão mais abrangente sobre a educação vista como um terreno de divergências, tal como explorado nos registros históricos da educação no país. Ele parte do princípio de que os caminhos da escolarização sempre estiveram atrelados a conflitos de ordem política, social e cultural, moldando as formas de participação e afastamento. Assim, examinar a crescente presença feminina no magistério implica não só entender como as mulheres chegaram a ser maioria no setor educativo, mas também ponderar sobre o impacto HUMANIDADES & TECNOLOGIA (FINOM) - ISSN: 1809-1628. vol. 61 – Out./Dez. 2025 Doi 10.5281/zenodo.17371814 37 dessa jornada na formação da profissão de professor e no reconhecimento que ela recebe da sociedade. Essa perspectiva alinha-se aos estudos que realçam o caráter histórico da escolarização e suas ligações com as relações de poder, possibilitando entender o magistério feminino como uma manifestação de permanências e transformações nos planos educacionais que deram forma à sociedade brasileira. Embora a presença de mulheres no ensino pareça algo natural, esse processo é contraditório. Se por um lado, a docência foi uma das primeiras oportunidades para as mulheres entrarem no espaço público e no mercado de trabalho remunerado, por outro, tornou-se uma profissão com salários baixos, exíguo reconhecimento social e condições de trabalho precárias. Esta pesquisa se fundamenta na exigência de analisar a presença feminina da docência e significa, ao mesmo tempo, refletir sobre as relações entre gênero, educação e trabalho, levando em consideração, uma sociedade que sempre vinculou as mulheres ao lar e ao cuidado; entender como elas se tornaram maioria na área da educação permite discutir os processos de inclusão e exclusão que moldaram a profissão docente. Além disso, ao revisitar essa trajetória, busca-se ressaltar as transições e as continuidades no magistério atual, em um momento em que a valorização da docência ainda é uma das principais necessidades da educação no Brasil (Nunes, 2016). A realização deste estudo também se justifica pela necessidade de aprofundar a discussão sobre o papel das mulheres no magistério, reconhecendo sua contribuição histórica para a formação da Educação brasileira e questionando os preconceitos e desigualdades que ainda permanecem. Trata-se de um tema muito importante para a academia e para a sociedade, pois dialoga tanto com a história da educação quanto com os estudos de gênero, possibilitando novas interpretações sobre a identidade do professor e as condições de trabalho de docentes. Sendo assim, o objetivo geral deste estudo é analisar o percurso sócio histórico do magistério feminino no Brasil, destacando os fatores que possibilitaram a centralidade das mulheres no exercício da docência e as contradições que emergem desse processo. E, como objetivos específicos, a intenção é: i) contextualizar historicamente a entrada das mulheres no magistério e a consolidação da feminização docente; ii) identificar os discursos sociais e culturais que naturalizaram a associação entre docência e feminilidade; iii) discutir as implicações da feminização para a valorização (ou desvalorização) da carreira docente; e iv) refletir sobre os desafios contemporâneos que ainda marcam a profissão, relacionando-os às questões de gênero. HUMANIDADES & TECNOLOGIA (FINOM) - ISSN: 1809-1628. vol. 61 – Out./Dez. 2025 Doi 10.5281/zenodo.17371814 38 Nesta pesquisa, adotou-se uma abordagem qualitativa, dada sua relevância para examinar fenômenos com dimensões subjetivas, históricas e sociais, como a presença feminina na educação. A pesquisa qualitativa, parafraseando Minayo (2012), é um conjunto de práticas que permitem captar significados, valores, crenças e relações que moldam a vida social, permitindo ao pesquisador interpretar a realidade de forma relacional e contextualizada. Ao contrário da abordagem quantitativa, que mede e generaliza dados, a qualitativa busca aprofundar a compreensão, valorizando a complexidade e as particularidades dos processos sociais. Assim, ao investigar as relações entre gênero, trabalho e educação, essa abordagem mostra-se adequada, pois possibilita identificar as contradições, continuidades e rupturas que marcam a feminização do magistério no Brasil. Dentro dessa perspectiva, a investigação foi desenvolvida por meio da pesquisa bibliográfica, vista como um recurso metodológico que se baseia em materiais já publicados, como livros, artigos, dissertações, teses ou documentos institucionais. Esse tipo de pesquisa visa examinar criticamente o conhecimento produzido sobre um tema, mapeando o estado atual das discussões e estabelecendo diálogos entre diferentes concepções teóricas. A pesquisa bibliográfica, nesse sentido, não é apenas um levantamento de obras, mas um exercício sistemático de leitura, análise e interpretação, que permite ao pesquisador construir um quadro teórico sólido e problematizador (Gil, 2019). Ao revisitar a trajetória da docência feminina na educação brasileira, este estudo buscou articular contribuições clássicas e contemporâneas, para entender como a história da profissão docente foi influenciada por relações de poder, desigualdades de gênero e processos de inclusão e exclusão. Assim, a escolha metodológica pela pesquisa qualitativa, combinada com o percurso bibliográfico, visa compreender a docência como um fenômeno social em constante mudança, em vez de apenas descrever sua evolução estatisticamente. Essa estratégia metodológica permite analisar os significados atribuídos ao magistério feminino, inserindo-os nas disputas políticas, sociais e culturais que moldaram o sistema educacional brasileiro nos séculos XIX, XX. Busca-se, então, com essa investigação, ir além da simples recuperação histórica, ao questionar como as condições estruturais de gênero se relacionam com a valorização e a precarização da profissão docente atualmente. Nesse processo, fica claro que a pesquisa bibliográfica, quando conduzida sob uma perspectiva qualitativa, oferece ferramentas analíticas para entender criticamente fenômenos educacionais complexos, contribuindo para o debate HUMANIDADES & TECNOLOGIA (FINOM) - ISSN: 1809-1628. vol. 61 – Out./Dez. 2025 Doi 10.5281/zenodo.17371814 39 sobre a historicidade da escolarização e suas implicações nas dinâmicas de inclusão e exclusão social. No que se refere à revisão de literatura, diversos estudos têm contribuído para a compreensão da feminização do magistério. Almeida (1998) analisa a constituição histórica da presença feminina na escola, mostrando como a docência se consolidou como uma das primeiras oportunidades profissionais para as mulheres. Louro (1997), a partir de uma perspectiva pós-estruturalista, discute como as representações de gênero moldaram o imaginário em torno da docência, vinculando-a a características tidas como naturalmente femininas, como paciência e cuidado. Vianna (2001) destaca as contradições entre feminização e precarização, evidenciando que a ampla inserção das mulheres não significou valorização da carreira, mas, ao contrário, contribuiu para sua desvalorização social. Mais recentemente, Nunes (2016) e Hypólito (2019) ampliam essa discussão, reforçando que a feminização continua a impactar a profissão docente na contemporaneidade, tanto em termos de reconhecimento quanto de condições de trabalho. Dessa forma, a literatura existente fornece uma base sólida para compreender a ambiguidade do processo de feminização do magistério, que, ao mesmo tempo em que abriu caminhos para a presença das mulheres na vida pública, perpetuou desigualdades de gênero e limitações à valorização profissional. Com esse percurso, este estudo contribui para a análise crítica da docência feminina, ressalta seu passado histórico como problematização os desafios ainda presentes na atualidade. 2 Aspectos históricos, sociais e políticos sobre a feminização da docência no Brasil Nossa intenção, nesta seção, é contextualizar historicamente como o processo de feminização ocorreu ao final do século XIX e início do XX no qual as mulheres foram admitidas na profissão docente, especialmente no ensino primário, entre as tensões e embates da organização da escola pública brasileira, ou seja, de um novo projeto republicano pautado na laicidade e na modernização do país e como elas reverberam, ainda hoje, na profissão docente. No Brasil, o aumento do número de mulheres lecionando é algo que se desenvolveu ao longo da história, influenciado por questões políticas, econômicas e culturais. Essa mudança, que ganhou força entre o final século XVIII e início do século XIX, não aconteceu por acaso, nem foi só uma questão de escolha das mulheres. Na verdade, foi um movimento planejado, HUMANIDADES & TECNOLOGIA (FINOM) - ISSN: 1809-1628. vol. 61 – Out./Dez. 2025 Doi 10.5281/zenodo.17371814 40 que unia a expansão da educação com a ideia de manter os papéis tradicionais de homens e mulheres na sociedade. Assim, a crescente presença de mulheres no magistério é fruto de uma sociedade dominada por homens, que, ao mesmo tempo em que permitia que as mulheres trabalhassem fora, também limitava o que elas podiam fazer, direcionando-as para profissões ligadas ao cuidado, à moral e à educação das crianças. Ou seja, ser professora era algo bom e ruim ao mesmo tempo: dava às mulheres a chance de trabalhar e ter alguma independência financeira e social, mas também as mantinha em uma posição inferior, com menos valorização e salários mais baixos do que os dos homens. A história das mulheres no magistério mostra como a busca por liberdade e o controle social se misturam, revelando a tensão entre reconhecer a inteligência das mulheres e a tentativa de mantê-las em um papel social considerado "apropriado" dentro de uma sociedade patriarcal. O aumento da participação feminina no ensino ocorreu em um período de grandes transformações sociais. A partir da segunda metade do século XIX, o Brasil passou por mudanças significativas, como o crescimento das cidades, o início da industrialização (ainda que de forma lenta) e a reorganização da sociedade após o fim da escravidão em 1888 e a Proclamação da República em 1889. Nesse contexto, a educação se tornou fundamental, especialmente o ensino primário, considerado uma ferramenta para civilizar, modernizar e dar bons valores às pessoas mais simples. O ensino básico tornou-se essencial para edificar a República, visto que era tido como alicerce da cidadania e da harmonia social (Saviani, 2007). Deste modo, o aumento do número de escolas primárias era mais que um pedido da sociedade; era uma tática política para fortalecer o novo governo republicano. Todavia, a expansão das escolas primárias não fez com que os professores fossem mais valorizados. Pelo contrário, o aumento das escolas básicas veio junto com a precarização das condições de trabalho dos professores, com salários baixos e pouco reconhecimento na sociedade. Tanuri (2000, p. 63) explica que “o trabalho de professor primário foi perdendo importância, passando a ser uma atividade para ensinar o básico para as pessoas, o que o deixava em desvantagem em relação a outras profissões mais importantes”. Essa desvalorização ampliou possibilidades para que outras mulheres começassem a trabalhar como professoras, já que, na forma de pensar da época, caberia a elas fazerem trabalhos com salários menores e que pareciam ser um prolongamento de suas qualidades naturais. Reitera-se que a chegada de mais mulheres ao magistério não aconteceu por acaso, como destaca Almeida (1998, p. 112), “a entrada das mulheres no magistério foi facilitada por um HUMANIDADES & TECNOLOGIA (FINOM) - ISSN: 1809-1628. vol. 61 – Out./Dez. 2025 Doi 10.5281/zenodo.17371814 41 plano social feito de propósito, que queria colocar as mulheres em um lugar público que combinasse com sua posição inferior, reforçando a separação entre o trabalho de homens e mulheres.” Ou seja, as mulheres foram incentivadas a serem professoras não porque acreditavam que elas fossem boas profissionais, mas porque a profissão foi organizada para receber trabalhadoras que cuidassem, ensinassem o básico e transmitissem bons costumes, por salários inferiores aos dos professores do sexo masculino. A matriz ideológica patriarcal teve um impacto significativo nessa trajetória. Na mentalidade coletiva da época, as mulheres eram consideradas guardiãs dos princípios morais da família e protetoras da infância e, por conseguinte, a atividade de ensinar, especialmente nas séries iniciais, foi retratada como uma progressão natural das responsabilidades maternas. Louro (1997, p. 85) salienta que “a escola primária era vista como uma extensão do lar, e a professora, como uma segunda mãe, encarregada de transmitir valores morais às novas gerações”. Essa narrativa legitimou a presença das mulheres na profissão docente, ao mesmo tempo em que fortaleceu os estereótipos de gênero, associando o ato de lecionar ao cuidado, à tolerância e à entrega, qualidades culturalmente atribuídas ao universo feminino. A inserção das mulheres no campo do ensino também foi impulsionada pelas tensões sociais e políticas marcantes no projeto social da primeira República que exigia profissionais do magistério para atender a grande demanda da população em busca de escolarização, porém, os recursos destinados ao financiamento desta educação eram escassos. A solução encontrada foi validar o ingresso feminino, o que possibilitou manter os salários em patamares mais baixos e, simultaneamente, justificar a desvalorização da profissão. De acordo com Enguita (1991), a feminização do magistério tem sido, ao longo da história, uma estratégia para reduzir os custos da mão de obra docente, baseada na premissa de que o salário da mulher é um complemento ao do marido e, portanto, pode ser menor. Essa perspectiva de complementariedade econômica acentuava a subordinação feminina, uma vez que sua remuneração era vista como secundária e não como a principal fonte de sustento. Naquele cenário, as escolas de formação de professores desempenharam um papel fundamental. Criadas a partir da segunda metade do século XIX, elas foram responsáveis por formar as primeiras gerações de professoras do ensino fundamental. Mais do que apenas oferecer formação profissional, essas instituições tinham como objetivo moldar o perfil feminino ideal para a docência. As escolas normais buscavam não apenas transmitir conhecimentos pedagógicos, mas também formar mulheres disciplinadas, moralmente íntegras e comprometidas com os valores da ordem estabelecida. O currículo dessas instituições era HUMANIDADES & TECNOLOGIA (FINOM) - ISSN: 1809-1628. vol. 61 – Out./Dez. 2025 Doi 10.5281/zenodo.17371814 42 repleto de conteúdos relacionados à moral e ao comportamento, reforçando a ideia de que ensinar era, acima de tudo, uma vocação inerente ao sexo feminino (Saviani, 2007). Tanuri (2000) amplia as reflexões ao evidenciar que as escolas normais se converteram em espaços de internalização de valores sociais, preparando as alunas para exercer a profissão de acordo com os padrões de feminilidade esperados. Não se tratava apenas de ensinar técnicas pedagógicas, mas de reforçar a crença cultural de que a mulher deveria ser gentil, paciente e dedicada, atributos considerados indispensáveis ao exercício do magistério. Essa intenção revela como a feminização do magistério foi um projeto deliberadamente construído, com o propósito de consolidar a associação entre o ensino primário e o papel da mulher. Simultaneamente, este desenvolvimento alinhava-se às mudanças sociais da época. A expansão urbana e o fortalecimento da classe média geraram novas aspirações para as mulheres, que almejavam participar da vida pública sem abandonar totalmente os papéis de gênero convencionais. A profissão de professora oferecia essa chance: autorizava o trabalho fora do lar, numa ocupação vista como moralmente correta e conciliável com seus deveres de mãe. Essa dinâmica não se restringiu ao Brasil, ecoando em outras nações latino-americanas. Estudos sobre a história educacional no México, Argentina e Chile revelam trajetórias similares, onde o ensino fundamental se tornou predominantemente feminino devido à desvalorização da profissão e à conexão cultural entre educação e maternidade. A feminização do magistério foi um fenômeno regional, amparado por discursos de moralização e por estratégias de redução de custos da mão de obra. Essa comparação ressalta que o caso brasileiro deve ser compreendido dentro de um contexto mais amplo, ligado às formas de organização da educação e do trabalho feminino na modernidade latino-americana. Embora o ingresso das mulheres no magistério representasse, em certa medida, um avanço, proporcionando espaço para sua atuação no mercado de trabalho e na esfera pública, é crucial notar que essa entrada ocorreu sob condições de subordinação, como destaca Almeida (1998, p. 119), “à docência foi apresentada como chance de ascensão social, mas essa chance era limitada pelos contornos da ideologia patriarcal, que destinava às mulheres apenas tarefas compatíveis com sua condição subalterna.” Assim, a feminização do magistério deve ser compreendida como um processo histórico marcado por ambiguidades, pois, ao mesmo tempo em que representou uma abertura significativa para a inclusão das mulheres no espaço público e no exercício profissional da docência, também consolidou estruturas de exclusão e reforçou desigualdades sociais e de gênero, uma vez que a ampliação da presença feminina esteve associada à desvalorização HUMANIDADES & TECNOLOGIA (FINOM) - ISSN: 1809-1628. vol. 61 – Out./Dez. 2025 Doi 10.5281/zenodo.17371814 43 simbólica e material da profissão, à naturalização de papéis de cuidado e à manutenção de hierarquias que marginalizaram tanto as mulheres quanto o próprio campo educacional. Um ponto relevante é que, mesmo com a consolidação da feminização, os homens não desapareceram por completo do cenário educacional. Ao contrário, mantiveram-se em posições de liderança, prestígio e autoridade. Enquanto as mulheres se concentravam no ensino fundamental, os homens predominavam nas áreas de maior reconhecimento, como o ensino médio, superior e os cargos administrativos. A divisão sexual do trabalho também se manifestava dentro do próprio sistema educacional: às mulheres, o ensino fundamental; aos homens, as funções de direção e as disciplinas de maior prestígio (Louro, 1997). Tal hierarquização de gênero na educação é uma consequência direta da feminização intencional do magistério, que ainda hoje se reflete na concentração feminina nos anos iniciais da educação básica e masculina nos cargos de poder e decisão. É importante lembrar que a feminização da docência não atenuou as tensões sociais em torno da profissão. Ao contrário, a presença feminina passou a ser usada como justificativa para a manutenção de baixos salários e para a perpetuação da ideia de que o magistério era uma profissão de vocação e não de carreira. A imagem da professora como missionária dedicada à infância contribuiu para consolidar a representação da docência como um trabalho de amor e não como uma profissão que merece valorização e reconhecimento (Carvalho, 1999). Essa representação perdura até hoje, pois a docência continua sendo uma das profissões de menor remuneração em comparação com outras que exigem formação superior, apesar de sua relevância social. A influência histórica da predominância feminina no ensino se reflete claramente nos números atuais. Segundo dados de 2020 do Instituto Nacional de Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira - INEP, no Brasil, as mulheres representam mais de 80% dos docentes da educação básica, com uma concentração ainda maior nos primeiros anos do ensino fundamental. Essa expressiva presença feminina não é apenas um número; ela é o resultado de um processo histórico que conectou o trabalho de professor ao cuidado, à paciência e à dedicação, qualidades vistas como femininas pela sociedade. A continuidade desse cenário mostra como as marcas da feminização proposital da profissão ainda persistem na forma como a sociedade vê e organiza o trabalho docente. Estudar a trajetória da presença feminina no ensino nos ajuda a refletir que o pouco valor dado a essa profissão não é algo novo. É, na verdade, um traço marcante da nossa sociedade, que se formou junto com a chegada das mulheres ao magistério. Ao ligar de forma HUMANIDADES & TECNOLOGIA (FINOM) - ISSN: 1809-1628. vol. 61 – Out./Dez. 2025 Doi 10.5281/zenodo.17371814 50 unindo práticas socialmente moldadas, mas vistas erroneamente como inerentes ao ser mulher. Essa visão simplista esconde o peso socioeconômico e político do cuidar, que deveria ser visto como um trabalho legítimo, técnico e elaborado, e não mero afeto ou dom feminino. É crucial entender o cuidado como uma ação social complexa, envolvendo poder, saber e identidade, e não um simples traço biológico feminino (Louro, 1997). Essa análise ajuda a romper com a ideia de que a feminização da docência a desvaloriza, e a criar políticas e ações que valorizem o trabalho docente de forma justa e abrangente. Embora o cuidado marque a docência feminina, não deve ser visto como uma característica natural ou vocacional, mas sim como algo socialmente construído, que atravessa o poder e a cultura na escola (Scott, 1995). 4 Entre Heranças e Desvalorização: a profissão docente A trajetória do professor no Brasil é extensa e multifacetada, repleta de paradoxos, avanços e entraves estruturais. Seu desenvolvimento não ocorreu isoladamente, mas inserido em um contexto social, econômico e cultural específico, moldando a formação da carreira, a imagem social e a validação profissional dos docentes. Tradicionalmente, a atuação feminina no ensino se estabeleceu através de ideias que ligavam a mulher à vocação, ao zelo e à integridade. Tais ideias, além de justificarem a presença da mulher no âmbito público, reforçavam normas de gênero que definiam os papéis de homens e mulheres, vendo o ensino como uma extensão do papel materno e limitando a autonomia da mulher no âmbito profissional (Almeida, 1998; Louro, 1997; Saffioti, 1987). O ingresso das mulheres no magistério, sobretudo nas séries iniciais do ensino fundamental e na educação infantil, foi historicamente legitimado pela crença popular que associava características como sensibilidade, paciência, empenho e carinho à educação das crianças. Embora essas características fossem socialmente apreciadas, acabaram por consolidar a noção de que o trabalho docente feminino tinha menor valor econômico e técnico do que os cargos majoritariamente ocupados por homens, como a supervisão escolar, a direção e o ensino superior (Carvalho, 1999; Bruschini, 1990). Assim, a profissionalização da atuação feminina na educação ocorreu em meio a desigualdades históricas: salários baixos, hierarquia rígida e expectativa de renúncia pessoal. Essa desvalorização estrutural perdura até os dias atuais, mesmo com o aumento da escolaridade e da presença feminina na educação. A crença de que o ensino é uma extensão do cuidado familiar contribui para a manutenção de um status profissional inferior em relação a HUMANIDADES & TECNOLOGIA (FINOM) - ISSN: 1809-1628. vol. 61 – Out./Dez. 2025 Doi 10.5281/zenodo.17371814 51 outras carreiras. Ademais, a ligação entre vocação e feminilidade reforça estereótipos que restringem a participação masculina na profissão, fomentando a segregação ocupacional e a diferenciação salarial (Souza, 2010). A construção social da identidade do professor ainda é fortemente atrelada às normas históricas de gênero, que definem o que significa ser professor ou professora e quais habilidades são valorizadas. Nos últimos anos, discussões sobre a valorização dos professores ganharam destaque na agenda pública brasileira, mas ainda esbarram em dificuldades estruturais. Em entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo, Haddad (2024) admitiu que o país ainda não possui um modelo consistente de valorização do magistério. O ministro enfatizou a necessidade de aprimorar a qualidade do ensino médio, criar programas para atender crianças de até três anos e implementar mecanismos como a promoção por mérito e a criação de um exame nacional de admissão de professores, visando reconhecer o esforço docente e assegurar padrões de qualidade. Embora tais medidas sejam relevantes, a ênfase na meritocracia e na avaliação quantitativa do trabalho docente pode obscurecer a complexidade do ensino, transformando o trabalho do professor em algo mensurável e controlável, em vez de valorizado como prática ética, política e socialmente relevante. É comum ver nos estudos sobre educação discussões sobre o afastamento dos professores quando se deparam com políticas focadas em mérito e avaliações padronizadas. Fernandes (2010, p.8) aponta que bonificações e recompensas dadas pelas instituições podem "prender" o professor, diminuindo sua capacidade de agir, seu reconhecimento como alguém que forma e sua identidade, gerando dependência e falta de motivação. Essa crítica mostra como ações superficiais de valorização, mesmo com boas intenções, podem aumentar as desigualdades e piorar as condições de trabalho dos professores, em vez de realmente ajudar. Por outro lado, Nóvoa (2013) defende que valorizar os professores significa reconhecer e fortalecer sua identidade, construída a partir do autoconhecimento, da reflexão sobre suas próprias experiências e da ligação entre o que vivem e o que fazem em sala de aula. A formação dos professores deve ir além do aprendizado técnico, incluindo momentos para pensar sobre ética, política e cultura, para que eles entendam que são mais do que apenas pessoas que transmitem conhecimento, mas agentes de mudança na sociedade. Essa visão valoriza o lado humano, único e complexo do trabalho do professor, reconhecendo habilidades emocionais, cognitivas e sociais que não podem ser medidas apenas por números. No passado, o trabalho de professora também estava ligado a regras de moral e controle social. Durante a modernização da educação nos séculos XIX e XX, as escolas tinham HUMANIDADES & TECNOLOGIA (FINOM) - ISSN: 1809-1628. vol. 61 – Out./Dez. 2025 Doi 10.5281/zenodo.17371814 52 um papel importante em espalhar valores de cidadania e moral, promovidos pelo governo e, em muitos casos, pela Igreja. Nesse contexto, as mulheres eram incentivadas a trabalhar nas escolas porque eram vistas como cuidadoras naturais, capazes de educar as crianças de forma moral e afetiva (Almeida, 2004; Louro, 1997). Essa ideia de que a educação era como uma extensão do cuidado em casa reforçou a divisão do trabalho por gênero e fez com que o trabalho de professor fosse visto como menos importante e com menor salário. A relação entre o aumento do número de mulheres na profissão e a desvalorização também aparece na forma como a profissão é organizada. A maioria das professoras está no ensino fundamental e infantil, enquanto os homens se concentram em cargos mais importantes, como supervisão e ensino superior. Essa divisão mostra que ainda existe uma ideia de que o trabalho intelectual e técnico é para os homens, enquanto o trabalho de cuidado e educação é para as mulheres, aumentando as desigualdades e limitando a liberdade das mulheres (Carvalho, 1999; Saffioti, 1987). Outro ponto importante na desvalorização da profissão é a ideia de que o cuidado é algo natural das mulheres. O cuidado, muitas vezes ligado ao afeto e à vocação feminina, precisa ser visto como algo mais complexo, que envolve poder, conhecimento, relações entre instituições e dinheiro. Ao tratar o cuidado como algo natural, a sociedade não reconhece o lado técnico e profissional do trabalho do professor, o que aumenta a desvalorização e dificulta a criação de políticas que valorizem homens e mulheres de forma justa na profissão. Para realmente dar o devido valor aos professores, é preciso atacar o problema de vários ângulos. Não basta criar regras para subir de cargo ou medir o desempenho; é crucial assegurar um bom ambiente de trabalho, salários justos que reflitam o nível de estudo e o peso da profissão, e chances de seguir aprendendo e se aprimorando, reconhecendo que ensinar não é tarefa simples. Criar espaços onde os professores possam pensar sobre o que fazem, ter liberdade para agir e participar ativamente é fundamental para deixar para trás a falta de reconhecimento que sempre existiu, mostrando que o trabalho do professor é vital para a sociedade (Nóvoa, 2013). Valorizar os professores implica considerar os aspectos culturais, sociais e simbólicos que moldam a profissão. É imprescindível que o papel do professor seja reconhecido pela sociedade, que sua autoridade pedagógica e ética seja respeitada e que práticas que combatam estereótipos de gênero sejam incentivadas para criar uma carreira digna e sustentável. Estratégias que combinem incentivos financeiros, desenvolvimento profissional contínuo e HUMANIDADES & TECNOLOGIA (FINOM) - ISSN: 1809-1628. vol. 61 – Out./Dez. 2025 Doi 10.5281/zenodo.17371814 53 valorização simbólica são mais eficazes para lidar com as desigualdades estruturais no ensino e promover a igualdade de gênero (Bruschini, 1990; Almeida, 2004). A profissionalização dos professores também exige lidar com as tensões entre cuidado e produtividade. As expectativas de desempenho e as métricas quantitativas se misturam com as necessidades de atenção, paciência e cuidado, resultando em uma sobreposição de funções que pode diminuir a importância do trabalho docente. Para uma valorização verdadeira, é fundamental reconhecer e equilibrar esses aspectos, evitando que o professor seja reduzido a meros indicadores de desempenho. Historicamente, o magistério feminino se tornou um campo de contradições: embora ofereça oportunidades de expressão social, intelectual e afetiva, mantém desigualdades estruturais, limita a autonomia e reforça estereótipos de gênero. Essa ambiguidade requer uma abordagem crítica que considere tanto as políticas públicas quanto as práticas de formação, valorizando o professor como um sujeito de conhecimento, ética e ação social. Portanto, a história do ensino no Brasil mostra a necessidade de ações conjuntas: políticas estruturais que garantam boas condições de trabalho, valorização financeira e reconhecimento social; formação de professores que desenvolva identidade, autoconhecimento e reflexão crítica; e medidas de igualdade de gênero que desafiem estereótipos antigos e incentivem a participação igualitária de homens e mulheres. Só assim será possível superar a desvalorização histórica da profissão, reconhecendo sua complexidade, relevância social e papel fundamental na educação de qualidade. Em resumo, o ensino no Brasil ainda oscila entre legados históricos e desvalorização estrutural. A feminização da profissão, apesar de ter aberto espaço para a inclusão das mulheres no mercado de trabalho, perpetuou desigualdades, precarização e estereótipos de gênero. Para superar essas limitações, são necessárias políticas públicas abrangentes, formação continuada e uma visão da profissão que valorize a experiência, a competência e a individualidade do professor. Somente assim será possível construir um magistério reconhecido, respeitado e capaz de promover uma educação de qualidade, justa e inclusiva para todos os alunos. 4 Considerações finais Sem querer finalizar o debate proposto neste texto, apresentamos algumas considerações elaboradas a partir do esforço de compreender o percurso sócio histórico da feminização docente para enfrentar os desafios atuais da profissão, sobretudo a desconstrução dos estereótipos de gênero, e a valorização do trabalho docente. HUMANIDADES & TECNOLOGIA (FINOM) - ISSN: 1809-1628. vol. 61 – Out./Dez. 2025 Doi 10.5281/zenodo.17371814 54 A participação das mulheres no ensino não é algo isolado, mas sim parte de uma jornada histórica, social e política maior, onde a educação visava moldar o cidadão da república e firmar uma identidade para o país. Ao mesmo tempo que isso abriu portas para as mulheres no cenário público e no trabalho, também ajudou a criar ideias fixas sobre o papel feminino na profissão, ligando o cuidado e a dedicação como coisas naturais delas. O resultado disso se vê hoje nos salários desiguais, na falta de valorização da profissão e na ideia de que ser professora é um dom nato das mulheres. A ideia de que a mulher tem vocação para ser professora serviu, ao longo da história, como uma forma de controle social, permitindo que ela entrasse no mercado de trabalho, mas sem ameaçar a ordem masculina ou a divisão de tarefas entre homens e mulheres. Assim, a profissão se tornou um campo de aparente liberdade para a mulher, mas que, ao mesmo tempo, reforçava os papéis de gênero e limitava sua autonomia e reconhecimento. Portanto, para valorizar a profissão, é preciso lidar com a tensão entre o cuidado e a produção, desafiando a ideia de que o ensino é apenas uma extensão do trabalho doméstico e emocional da mulher. A atuação das mulheres na educação é influenciada por questões de gênero, raça, classe social e trabalho doméstico, que moldam quem elas são, como agem e as desigualdades que enfrentam. Ao longo dos anos, a forte presença feminina no ensino tem sido justificada por normas culturais que ligam o cuidado e a sensibilidade ao papel da mulher. Essa ligação, embora tenha gerado oportunidades, também contribuiu para a falta de valorização da profissão, principalmente nos primeiros anos de ensino. Entender como as relações de poder, as identidades e as expectativas sociais influenciam é essencial para analisar a atuação das educadoras. Uma análise da presença feminina no ensino mostra a necessidade de valorizar o trabalho dos professores, com políticas públicas que reconheçam sua importância para a sociedade e para a economia. É fundamental combater a falta de boas condições de trabalho e a desigualdade salarial que afetam principalmente as mulheres na educação básica, além de incentivar a participação de homens na profissão, para diversificar as experiências e acabar com as ideias fixas sobre gênero. Criar uma escola realmente inclusiva depende de mudanças na estrutura, da conscientização e do reconhecimento dos valores femininos, que sempre enriqueceram o ensino e contribuíram para uma educação mais humana e transformadora. Referências HUMANIDADES & TECNOLOGIA (FINOM) - ISSN: 1809-1628. vol. 61 – Out./Dez. 2025 Doi 10.5281/zenodo.17371814 55 ALMEIDA, Jane Soares de. 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