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Breves reflexões acerca do processo de feminização do magistério no Brasil: do Império à primeira República

João Vitor Santos Silva; Edilaine Aparecida da Silva Florêncio; Lúcia Helena Moreira de Medeiros Oliveira

Abstract

Resumo: O presente trabalho aborda a temática da feminização do magistério no Brasil contextualizado entre o Império e a primeira República e o interesse em aprofundar as reflexões emergiu em uma disciplina do mestrado profissional em Educação Básica, na UFU/Campus Pontal. Enquanto problemática diretriz da pesquisa elegemos: como se configurou historicamente a feminização do magistério e de que modo esse processo se relacionou com a expansão das escolas normais no Brasil? Por isso, alguns objetivos foram traçados e o primeiro deles, historicizar o processo de feminização do magistério no Brasil e sua articulação com a expansão das escolas normais. Já os específicos: contextualizar a feminização do magistério nesse recorte histórico; apresentar o percurso da formação de professores no Brasil; e discutir a ampliação das escolas normais nesse período. Nesse sentido, alguns autores foram essenciais para realização deste trabalho, sendo eles: Saviani(2009), Tanuri(2000), Ribeiro(2015), Soares(2007), Martins(2009), entre outros. A metodologia que utilizamos para a realização deste trabalho foi de abordagem qualitativa e o procedimento metodológico de levantamento bibliográfico, realizado na Capes periódicos, no qual possível problematizar seis (6 ) artigos que se aproximaram da temática. Diante disso, podemos destacar breves resultados, de que a feminização do magistério no Brasil foi algo que aconteceu na intenção de se expandir um ideal político, social e econômico, sobretudo, contribuiu de forma significativa para dar possibilidade das mulheres ingressarem no mercado de trabalho. Palavras-chave: História da Educação. Feminização do Magistério. Escolas Normais.

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HUMANIDADES & TECNOLOGIA (FINOM) - ISSN: 1809-1628. vol. 61 – Out./Dez. 2025 Doi 10.5281/zenodo.17373208 69 Breves reflexões acerca do processo de feminização do magistério no Brasil: do Império à primeira República Brief Reflections on the Process of the Feminization of Teaching in Brazil: From the Empire to the First Republic João Vitor Santos Silva 1 Edilaine Aparecida da Silva Florêncio 2 Lúcia Helena Moreira de Medeiros Oliveira 3 Resumo: O presente trabalho aborda a temática da feminização do magistério no Brasil contextualizado entre o Império e a primeira República e o interesse em aprofundar as reflexões emergiu em uma disciplina do mestrado profissional em Educação Básica, na UFU/Campus Pontal. Enquanto problemática diretriz da pesquisa elegemos: como se configurou historicamente a feminização do magistério e de que modo esse processo se relacionou com a expansão das escolas normais no Brasil? Por isso, alguns objetivos foram traçados e o primeiro deles, historicizar o processo de feminização do magistério no Brasil e sua articulação com a expansão das escolas normais. Já os específicos: contextualizar a feminização do magistério nesse recorte histórico; apresentar o percurso da formação de professores no Brasil; e discutir a ampliação das escolas normais nesse período. Nesse sentido, alguns autores foram essenciais para realização deste trabalho, sendo eles: Saviani(2009), Tanuri(2000), Ribeiro(2015), Soares(2007), Martins(2009), entre outros. A metodologia que utilizamos para a realização deste trabalho foi de abordagem qualitativa e o procedimento metodológico de levantamento bibliográfico, realizado na Capes periódicos, no qual possível problematizar seis (6 ) artigos que se aproximaram da temática. Diante disso, podemos destacar breves resultados, de que a feminização do magistério no Brasil foi algo que aconteceu na intenção de se expandir um ideal político, social e econômico, sobretudo, contribuiu de forma significativa para dar possibilidade das mulheres ingressarem no mercado de trabalho. Palavras-chave: História da Educação. Feminização do Magistério. Escolas Normais. 1 Mestrando do Programa de Pós-Graduação em Educação Básica – PPGPEDU da Universidade Federal de Uberlândia. ORCID: https://orcid.org/0000-0003-3139-8704. E-mail: vitorcon[email protected]m. 2 . Mestranda do Programa de Pós-Graduação em Educação Básica – PPGPEDU da Universidade Federal de Uberlândia. ORCID: https://orcid.org/0000-0002-3959-5932 . E-mail: edilaineflorencioped[email protected]m. 3 Doutora em Educação pelo Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Estadual de Campinas – UNICAMP. ORCID: https://orcid.org/0000-0001-7292-4307. E-mail: lucia.medeiro[email protected] Recebido em 02/09/2025 Aprovado em: 16/10/2025 Sistema de Avaliação: Double Blind Review HUMANIDADES & TECNOLOGIA (FINOM) - ISSN: 1809-1628. vol. 61 – Out./Dez. 2025 Doi 10.5281/zenodo.17373208 70 Abstract: This study addresses the theme of the feminization of teaching in Brazil, contextualized between the Empire and the First Republic. The interest in deepening this reflection emerged from a course in the Professional Master’s Program in Basic Education at UFU/Campus Pontal. As the guiding research problem, we selected the following question: how did the feminization of teaching historically take shape, and in what way was this process related to the expansion of normal schools in Brazil? To that end, some objectives were established — the main one being to historicize the process of feminization of teaching in Brazil and its articulation with the expansion of normal schools. The specific objectives were: to contextualize the feminization of teaching within this historical framework; to present the trajectory of teacher education in Brazil; and to discuss the growth of normal schools during this period. In this regard, some authors were essential to the development of this work, such as Saviani (2009), Tanuri (2000), Ribeiro (2015), Soares (2007), Martins (2009), among others. The methodology adopted was qualitative in nature, with a bibliographical research approach conducted through the CAPES journals database, where six (6) articles related to the topic were analyzed. The results highlight that the feminization of teaching in Brazil occurred as part of a political, social, and economic project, and, above all, significantly contributed to enabling women’s entry into the labor market. Keywords: History of Education. Feminization of Teaching. Normal Schools. 1 Introdução Trata-se de um estudo historiográfico a respeito da feminização do magistério no Brasil e insere-se no campo de estudos da História da Educação Brasileira. O texto pretende contribuir com as discussões propostas neste e-book, cuja finalidade é apresentar discussões que se articulam e explicam possíveis tensões, nexos, disputas políticas, ao longo dos séculos XIX e XX, e que, amoldaram o projeto de nação referente a esse período. Nesse sentido, olhar fecundamente para os projetos educacionais como instrumentos eminentes no processo da escolarização brasileira nos permite compreender as permanências e as descontinuidades no processo histórico de formação da sociedade brasileira. Para tanto, delimitamos enquanto problema desta pesquisa o seguinte questionamento: como se configurou historicamente a feminização do magistério e de que modo esse processo se relacionou com a expansão das escolas normais no Brasil? Por isso,alguns objetivos foram traçados e o primeiro deles, historicizar o processo de feminização do magistério no Brasil e sua articulação com a expansão das escolas normais Já os específicos: contextualizar a feminização do magistério nesse recorte histórico; apresentar o percurso da formação de professores no Brasil; e discutir a ampliação das escolas normais nesse período. Nesse movimento, elegemos alguns registros a respeito do processo histórico da feminização docente em nosso país, levando em consideração as publicações e autores que se HUMANIDADES & TECNOLOGIA (FINOM) - ISSN: 1809-1628. vol. 61 – Out./Dez. 2025 Doi 10.5281/zenodo.17373208 71 dedicaram e dedicam às pesquisas dessa natureza, Saviani (2009), Tanuri (2000), Ribeiro(2015), Soares(2007), Martins(2009), entre outros. Nesse sentido, a curiosidade epistemológica que nos moveu retomar essas produções poderá contribuir para ampliar nosso entendimento sobre o tema e, quiçá, elaborar outras discussões a respeito do tema, por isso, nosso objetivo maior, é estender a reflexão sobre o que os autores trazem, em uma leitura atenta e movimentada no sentido de realizar críticas acerca do percurso histórico da feminização das escolas normais. Para tanto, utilizamos enquanto metodologia a abordagem qualitativa e o procedimento metodológico de levantamento bibliográfico, realizado no Capes periódicos, onde foi possível trazer para este trabalho 6 artigos que se aproximam da temática, o período escolhido foi de 2005 a 2025 e justifica-se este momento devido o aumento de pesquisas realizadas neste recorte. Sendo assim, o trabalho foi organizado da seguinte forma: Do Império à República: o contexto da feminização do magistério no Brasil; A formação de professores no Brasil; A expansão das escolas normais no Brasil; As escolas normais no Brasil: análise das publicações na base dados Capes (2005-2025); e por fim, Considerações Finais. 2 O Do Império à República: o contexto da feminização do magistério no Brasil De acordo com a historiografia, percebe-se que, no final do século XIX e início do século XX no Brasil, passamos por um momento de grandes e significativas tensões dentro dos setores políticos, sociais e econômicos. O fim do Império e a proclamação da República no ano de 1889, trouxeram marcas profundas para o novo período na história do país e, nesse cenário, a educação destacou-se como instrumento necessário para a conformação do projeto de nação que estava em disputa, uma nação laica, livre e moderna em detrimento de uma visão conservadora e oligárquica de sociedade. Neste sentido, a feminização do magistério tornou-se um episódio relevante porque compôs um arcabouço potente de intenções, um conjunto de diretrizes e finalidades que contribuíram para as transformações sociais, políticas e culturais que marcaram o período de consolidação da República e das reformas educacionais voltadas para a difusão da escola primária. Importante retomar que em 1889 com a Proclamação da República, chega ao fim no Brasil, o Império, período em que o país foi governado por uma monarquia constitucional, obedecendo a uma hierarquia na qual o imperador ocupava o topo, a economia era baseada na agricultura, trabalhando na produção de café e de açúcar, o que era de extrema importância para a economia do país. Neste momento, houve a abertura de espaço na República que trazia consigo um novo projeto de nação. HUMANIDADES & TECNOLOGIA (FINOM) - ISSN: 1809-1628. vol. 61 – Out./Dez. 2025 Doi 10.5281/zenodo.17373208 72 Importante salientarmos que essa transição foi sublinhada por intensos conflitos políticos, sociais e culturais. Do ponto de vista político, observou-se o esfacelamento do poder imperial diante das pressões sofridas por militares, republicanos e elites urbanas que ensejavam exercer sua participação nas decisões políticas; socialmente, as relações econômicas e sociais sofreram impactos e a nova república anunciava seus ideais laicos e civis, contudo, para além de um novo regime, a tensão entre tradição e modernidade na sociedade brasileira estava em evidência. Tais mudanças políticas, sociais e culturais, exigiram que a educação legitimasse a nova ordem política com base no civismo e na liberdade para formar cidadãos capazes de participar da sociedade republicana, imprimindo um novo modelo para a escola. Foi necessário enfatizar discussões sobre métodos pedagógicos, currículos e a formação do professor/professor, e, em vista desse contexto, foram criadas escolas públicas e laicas, com distanciamento da religião católica e as escolas normais. Desse modo, a feminização do magistério no Brasil, é um tema relevante que nos traz reflexões acerca do processo de institucionalização da educação em nosso país. Até este momento, o mercado educacional era dominado pela figura masculina, porém, as mulheres passaram a adentrar nesse espaço profissional que ainda era de difícil acesso por ser dominado pelos homens. Nesse contexto, a expansão das escolas normais no Brasil foi um elemento importante para a feminização do magistério, permitindo que as mulheres ocupassem os espaços de formação profissional tornando-se professoras. As escolas normais exerceram um papel relevante no processo de feminização no magistério, uma vez que foram criadas para capacitar/instruir as professoras para a educação básica, possibilitando às mulheres uma oportunidade de se profissionalizarem e terem uma carreira. Essa era uma ideia que já havia sido vislumbrada em documentos anteriores como os pareceres que emergiram do Primeiro Congresso do Rio de Janeiro, sobre a feminização do magistério no Brasil. Esse evento trouxe debates sobre a competência das mulheres para ensinar e, ainda, sobre sua presença cada vez maior dentro das escolas. Em meio aos pareceres apresentados nesse Congresso, muitos argumentos foram favoráveis à feminização, mas também surgiram argumentos contrários ao movimento, trazendo pautas como, a capacidade de ensinar, questões sobre sua moralidade e a influência que as mulheres exerciam sobre seus estudantes. Entre as visões sobre a mulher, discutidas no Congresso, apontam a mulher não só enquanto um ser frágil, com instinto maternal e que lidava com as situações baseadas na emoção, mas ainda como pessoas capazes de ensinar e educar. Neste processo da feminização do magistério no país, algumas mudanças aconteceram, entre elas nota-se alterações no papel HUMANIDADES & TECNOLOGIA (FINOM) - ISSN: 1809-1628. vol. 61 – Out./Dez. 2025 Doi 10.5281/zenodo.17373208 73 social da mulher e também na expansão da educação básica, contudo, essa discussão transitava entre os conservadores e os que ensejavam um outro projeto educacional. (Nogueira et al., 2007) Outros aspectos importantes que contribuíram para uma maior participação da mulher no mercado de trabalho foi o aumento da urbanização e da industrialização desencadeando a necessidade de mão de obra barata e, essa condição, configurou o trabalho feminino de forma desvalorizada, inferiorizada, mas que ao mesmo tempo, abriu oportunidades para a profissionalização e a carreira docente. O processo em busca da inserção da mulher no espaço do magistério, não aconteceu de forma tranquila, pois se tratava de uma intenção política e social do final do século XIX. Aconteceram lutas por direitos, que possibilitavam à mulher ocupar tal espaço. Nesse movimento, destacam-se, “sucessivas mudanças de costumes e mentalidades acerca do trabalho feminino, que vinham na esteira do novo século, para uma sociedade que precisava de novos atores sociais para o seu desenvolvimento” (Almeida, 1998, p. 70). O surgimento das escolas normais, veio justamente para oportunizar que essas mulheres pudessem ter instruções para exercer esse trabalho de magistério, e esse foi o início do desenvolvimento feminino em outros níveis de escolaridade. Nesse sentido, a docência em instância primária foi disseminada como um “dom” feminino, o que foi divisor de águas na feminização do magistério. Isso aconteceu, pois havia uma ideia de que a mulher tinha uma vocação natural para ensinar, principalmente na educação infantil. Com a chegada da mulher no magistério, a figura masculina foi se afastando pois ocorreu a desvalorização da profissão e os baixos salários. E para além, desse afastamento se deu, pois segundo a Igreja Católica, havia uma necessidade da moralidade no ensino primário, o que os homens não ofereciam. Já a mulher, era vista como um ser frágil e dócil, nascida para o lar e para a maternidade. A educação da mulher foi voltada para uma idealização de esposa perfeita e da mesma com muitos valores e princípios o que poderíamos da docilização da profissão. (Martins, 2009) Como nas reflexões já apresentadas acerca da temática, entendemos ser complexo e que abrange questões históricas, culturais e sociais, é importante, que a feminização do magistério, seja entendida enquanto um fenômeno que reflete mudanças sociais e culturais da época. Fenômeno este, que continua trazendo implicações relevantes para sociedade e para educação brasileira e ainda da importância de entender todo esse contexto histórico e cultural, para que possamos compreender com mais clareza as questões atuais que estão relacionadas à educação e ao trabalho docente. HUMANIDADES & TECNOLOGIA (FINOM) - ISSN: 1809-1628. vol. 61 – Out./Dez. 2025 Doi 10.5281/zenodo.17373208 74 A feminização do magistério teve desdobramentos relevantes para a educação brasileira, tais como a mudança do perfil dos professores e a reformulação dos papéis de gênero na sociedade. Processo este, que contribuiu para a estruturação de uma identidade profissional docente feminina. Contudo, pode se dizer que a compreensão da história é de suma importância para entendermos melhor questões atuais ligadas à educação e ao trabalho docente. E a partir de tantas lutas e processos importantes, podemos ainda salientar a importância de políticas que favoreçam a valorização da profissão docente e ainda da igualdade de gênero. Para além disso, esse processo de adentramento das mulheres no fazer educativo, possibilitou repensar nas formações de professores, pois para que elas conseguissem desenvolver seu trabalho, era importante ter acesso a determinados conhecimentos, nesse sentido, no próximo tópico apresentaremos brevemente o processo de formação de professores que visava nesse momento formar essas mulheres. 3 A formação de professores no Brasil A formação dos professores acompanha os interesses políticos, sociais, econômicos e culturais de cada período histórico, por isso, são muitos os desafios, inclusive para afirmarmos que estamos fazendo uma educação de qualidade. O que ensejamos é apresentar, historicamente, como essa formação se configurou durante o período em estudo nos possibilitando ampliar a visão de mundo de como a formação docente foi se constituindo e reverberou nos dias atuais. Recorremos a Saviani (2009) para entender o processo da formação de professores(as) que foi se constituindo no Brasil, desde a colônia quando educação brasileira era organizada pelos jesuítas que garantiam um ensino pautado, principalmente, na catequização das pessoas, com as reformas pombalinas que ocorreram, a educação tinha outro intuito, o de permitir que as pessoas tivessem conhecimentos para além do caráter religioso, seu objetivo central era o de seguir os interesses do Estado, o que infelizmente permanece até hoje. (Saviani, 2009) Ainda, Saviani (2009)explica que a formação de professores só aparece com a Lei das Escolas de Primeiras Letras, em 15 de outubro de 1827, quando começaram a pensar em formação de professores propriamente dito, anteriormente, havia apenas rumores dessa necessidade de formação, mas orienta-se quem tinha interesse em ser docente, ter conhecimento sobre o Ensino Mútuo, e cabia a esses realizar a formação por conta própria, no entanto isso se torna obrigatório somente com a promulgação desta lei. É na Lei das Escolas de Primeiras Letras, promulgada em 15 de outubro de 1827, que essa preocupação apareceu pela primeira vez. Ao determinar que o ensino, nessas escolas, deveria ser desenvolvido pelo método mútuo, a referida lei estipula no artigo HUMANIDADES & TECNOLOGIA (FINOM) - ISSN: 1809-1628. vol. 61 – Out./Dez. 2025 Doi 10.5281/zenodo.17373208 75 4º que os professores deverão ser treinados nesse método, às próprias custas, nas capitais das respectivas províncias. Portanto, está colocada aí a exigência de preparo didático, embora não se faça referência propriamente à questão pedagógica. (Saviani, 2009, p.144) Antes da referida Lei o ensino era ofertado por qualquer pessoa que dispunha de conhecimentos, não tinha orientações sobre o que ensinar para as crianças, por mais que no início, se tentou uma formação específica que pensava o processo, viu-se que o mais apropriado era aprender o conteúdo a ser repassado. Mas essa formação era oferecida por quem? Por meio de Escolas Normais, que perdurou durantes muitos anos no Brasil. (Saviani, 2009) É importante abordar que o conhecimento a ser ensinado naquele período, [...] enfatizavam o ensino da leitura, o ensino rudimentar da aritmética e, sobretudo, o domínio do método criado por Joseph Lancaster, que consistia num sistema de monitoria no qual os alunos mais aplicados lecionavam para os alunos iniciantes, ou com problemas de aprendizagem, todos regidos por uma disciplina rígida e respeito à hierarquia escolar. (Ribeiro, 2015, p.16) Exigia-se dos sujeitos aprendentes, obediência sob a ameaça de castigos severos para quem descumprisse qualquer que fosse a hierarquia presente nos espaços de ensino. A figura do professor continuou sendo muito importante, por mais que houvesse monitores em sala, os docentes faziam a fiscalização da aprendizagem e de tudo o que se ensinava havendo necessidade de respeitar essa hierarquia no ambiente escolar. Sobre essa hierarquia, a autora ainda explica que O Método pressupunha uma rigorosa disciplina, imposição de regras, e distribuição hierarquizada dos alunos sentados em bancos dispostos num salão amplo. O professor concentrava-se num local mais alto, de onde fiscalizava os alunos, e orientava os trabalhos dos monitores. A disciplina escolar nesse método era estimulada a competição entre os alunos. Ser auxiliar do professor, isto é, ser monitor, conferia prestígio aos alunos. (Ribeiro, 2015, p.16) O professor ficava em um local superior e os monitores e alunos na parte debaixo. Além disso, vimos no trecho acima citado que havia o incentivo de competição, pois todos desejavam ser o monitor da turma, para tanto, era necessário mostrar competência e disciplina. Esse modelo a qual nos referimos contribuiu posteriormente para as já citadas escolas normais, que tinha enquanto proposta formar as professoras para conduzir o processo de aprendizagem dos alunos. Viu-se a necessidade de pensar em outras formar de construir o processo educativo, uma vez que o ensino mútuo não possibilitaria realizar o que tinham enquanto interesse que era estender educação para todo o Brasil, e só seria possível essa efetivação se tivessem pessoas HUMANIDADES & TECNOLOGIA (FINOM) - ISSN: 1809-1628. vol. 61 – Out./Dez. 2025 Doi 10.5281/zenodo.17373208 76 aptas para isso. Vale destacar que a inserção da mulher no processo de escolarização foi acompanhada por algum tipo de formação advindo das escolas normais. A criação das escolas normais no Brasil pensadas para estruturar a formação de professoras primárias, teve grande importância dentro do contexto educacional brasileiro. Elas foram criadas no Império, período no qual somente o governo central possuía o controle sobre as escolas superiores, e em contrapartida, as províncias, cada uma das grandes divisões administrativas, que era governada por um presidente e eram responsáveis pela criação das escolas normais (Martins, 2009). Destaca-se ainda que a formação de professoras no Brasil foi pensada de acordo com o projeto de nação que se desejava construir, sendo assim, ultrapassa a questão da feminização em si, por mais que tenha sido um momento em que houve progresso para as mulheres com possibilidade de se profissionalizarem e atuarem no mercado de trabalho, esse não era o interesse primordial. Essa questão será melhor explorada no tópico a seguir, onde abordaremos aa respeito da expansão das escolas normais. 4 A expansão das escolas normais no Brasil O processo de expansão das escolas normais apresentou alguns pontos relevantes que impactaram suas atividades. É notável a diferença existente entre o ensino voltado para os meninos e aquele destinado às meninas. Nesse sentido, o ensino voltado às meninas, de modo geral, reforçava a ideia de obediência, doçura e respeito, buscando uma aproximação com o ideário do lar e, consequentemente, oferecendo disciplinas diferentes para as mulheres. Enquanto aos meninos eram oferecidas disciplinas como geometria, às meninas cabia o aprendizado do bordado. Havia ainda o discurso de que a mulher era intelectualmente inferior e, ao final do século XIX, recebia da sociedade a incumbência de moralizar e ser mãe, pois se acreditava que possuía maior capacidade afetiva do que intelectual. Essa identidade era construída a partir de um parâmetro cultural. Nesse sentido, Sabe-se que a mulher tem mais facilidade, mais jeito de transmitir aos meninos os conhecimentos que lhes devem ser comunicados. Maneiras menos rudes e secas, mais afáveis e atraentes que os mestres, aos quais incontestavelmente vence em paciência, doçura e bondade. Nela predominam os instintos maternais e ninguém como ela possui o segredo de cativar a atenção de seus travessos e inquietos ouvintes, sabendo conseguir que as lições, em vez de tarefa aborrecida, tornem-se-lhes como uma diversão, um brinco. Sim a escola já não é para os meninos um lugar de aborrecimento. [...] A mestra lembra-lhes a mãe, e afinal pensam os pequenos traquinas, é preciso aprender a lição porque a mestra é boa e é preciso proceder bem para que ela não se zangue e ralhe. (Nogueira, 1884. p. 3). HUMANIDADES & TECNOLOGIA (FINOM) - ISSN: 1809-1628. vol. 61 – Out./Dez. 2025 Doi 10.5281/zenodo.17373208 77 Havia o domínio das ideias impostas pelos comandos das autoridades do período acerca do profissional da educação e ainda do espação escolar. E dentro desses espaços escolares é perceptível notar a construção e reprodução dos discursos. Vale ressaltar a noção que se tinha das mulheres, serem mais tranquilas para construir os conhecimentos com as crianças. Esse contexto nos remete às escolas graduadas, materializadas em forma de grupo escolar que contribuíram de forma significativa para pensar a educação, sobretudo, das elites. Apenas quem tinha condições conseguiam estudar nessas escolas, organizadas de forma seriada, e que em uma mesma escola era separado o espaço para os meninos e para as meninas, a coeducação; o conhecimento ofertado para as meninas era voltado para saberes domésticos e para os meninos, os saberes matemáticos (Saviani, 2004). Nesse sentido, a formação de professoras não poderia ser a mesma, e neste ponto, expandiram-se as escolas normais. O processo de criação das escolas normais, ocupou um espaço de grande importância tanto na formação de professores, quanto na da educação feminina no país. Neste momento, as mulheres passam a ter a oportunidade de se edificar enquanto profissionais o que é considerado uma ascensão à época, permitindo que trabalhassem em outro espaço que não fosse o seu lar e ainda trouxesse a possibilidade de uma realização profissional. Quando falamos em escolas normais, refletimos acerca da sua contribuição para a democratização do ensino feminino e também para a formação de professores no Brasil. Fato que colaborou para uma transformação social e cultural do país. A primeira escola normal do país, foi criada na Província do Rio de Janeiro, no ano de 1835. Essas instituições normais, trouxeram como objetivo a formação do professor para a escola primária, a princípio apresentavam currículos simples, voltados para atividades como, ler, escrever, aritmética e geografia. (Martins, 2009) O desenvolvimento da escola normal, tirou a escola enquanto algo isolado e possibilitou uma melhor organização do ensino, de modo mais eficaz. A reorganização do ensino primário, criou uma estrutura curricular mais consistente, como aponta Saviani (2009, p.145) “A reforma foi marcada por dois vetores: enriquecimento dos conteúdos curriculares anteriores e ênfase nos exercícios práticos de ensino[...]” e isso contribuiu na definição de objetivos na educação primária. Toda essa movimentação dentro do âmbito educacional. Segundo Martins (2009) no âmbito político no século XIX o desenvolvimento da construção dos Estados Nacionais, fez-se necessário a criação de um sistema educacional que pudesse normalizar, regular e dominar a difusão da instrução. Uma disputa entre conservadores e progressistas, para a efetivação de um sistema educacional. HUMANIDADES & TECNOLOGIA (FINOM) - ISSN: 1809-1628. vol. 61 – Out./Dez. 2025 Doi 10.5281/zenodo.17373208 84 A respeito do ensino ofertado no contexto a que nos referimos os autores Camponogara at el (2021, p.9) qse debruçaram a pesquisar entre 1946-1971 e explicitam que, O ensino, inicialmente, era ofertado para uma classe social: a elite. Aos poucos, os bancos escolares dessa instituição foram sendo ocupados pela pequena burguesia. Quando o povo (das classes sociais mais baixas da sociedade brasileira) começou a invadir esse espaço e o Estado a abrir Escolas Normais Públicas, não houve interesse das políticas governamentais brasileiras em investimento necessário nesse setor e as instituições religiosas abriram mão desse segmento, imprimindo o declínio da Escola Normal, essa instância tradicional de socialização, que formava as Normalistas –professoras primárias brasileiras. Sendo assim, como coloca Camponogara (2021) quando se expandiu as escolas normais para as pessoas mais pobres, não houve interesse por parte do poder público em investir dinheiro para que essas mulheres pudessem estudar, o que ocasionou nos desafios de se dar continuidade a essas escolas. Isso impactou fortemente a queda dessas instituições. É importante pensar que para que se tenha um ensino voltado para as pessoas de forma pública, o investimento se faz necessário para suprir as demandas existentes nesse processo, uma vez que as mulheres necessitava ter acesso ao ensino para se formarem e atuarem no mercado de trabalho. Como vimos neste tópico, as mulheres encontraram nas escolas normais uma possibilidade de viver de outra forma na sociedade, já que, até então, a única alternativa era permanecer no lar. Assim, as escolas normais assumiram, em certa medida, o papel de “salvadoras” dessas mulheres. Ainda que essas instituições tenham sido criadas como uma forma de controle social, elas proporcionaram a oportunidade de um futuro melhor para muitas mulheres. Ressalta-se a necessidade de repensar as questões relacionadas às instituições públicas. Foi possível observar que, ainda hoje, existe uma carência de investimentos nesse setor educacional. Embora muitos avanços sejam evidentes, o reconhecimento efetivo da profissão docente ainda não se concretizou. Considerações Finais O presente trabalho teve como objetivo apresentar discussões que se articulam e explicam possíveis tensões, nexos e disputas políticas ocorridas ao longo dos séculos XIX e XX, as quais contribuíram para a conformação do projeto de nação desse período. Considerase que tal objetivo foi alcançado, uma vez que, ao longo deste estudo, foram abordados aspectos relevantes que marcam a história da educação brasileira, especialmente no que se refere à feminização da profissão docente. Inicialmente, buscou-se apresentar questões relacionadas à primeira República, situando o processo de feminização do magistério no Brasil. Verificou-se que esse processo não ocorreu de maneira simples, pois sua efetivação esteve associada à necessidade do Estado em HUMANIDADES & TECNOLOGIA (FINOM) - ISSN: 1809-1628. vol. 61 – Out./Dez. 2025 Doi 10.5281/zenodo.17373208 85 construir um novo projeto de sociedade, o qual seria viabilizado por meio da disseminação de saberes e valores, tarefa que foi atribuída, em grande medida, às mulheres. No que tange à formação de professores, as escolas normais desempenharam um papel fundamental no cenário educacional brasileiro. O modelo de Ensino Mútuo, amplamente utilizado à época, configurou-se como uma estratégia pedagógica que possibilitou repensar as formas de ensinar. Seus vestígios podem ser observados ainda hoje nas práticas de monitoria presentes nos cursos de graduação, em que estudantes auxiliam docentes na resolução de dúvidas, na correção de atividades e em outras tarefas pedagógicas. Quanto à expansão das escolas normais no Brasil, observou-se que sua criação remonta ao período imperial. Em um primeiro momento, essas instituições atendiam prioritariamente à formação masculina; entretanto, com o passar do tempo, verificou-se a inserção feminina e a consequente ampliação dessas escolas pelo território nacional. Tal movimento estava vinculado ao projeto de nação em construção, que exigia a formação de um número maior de professoras e professores para a consolidação do sistema educacional. A análise dos artigos encontrados na plataforma Periódicos Capes permitiu refletir sobre o processo de feminização do magistério e compreender que se tratou de uma trajetória marcada por lutas e resistências. Para as mulheres, o ingresso nas escolas normais representava a possibilidade de romper com a exclusividade das funções domésticas, assumindo novas identidades sociais e profissionais. Apesar dos desafios enfrentados ao longo da história, essas instituições simbolizaram um avanço significativo na conquista de espaços e direitos femininos. Em síntese, embora importantes transformações tenham ocorrido no que se refere à feminização da profissão docente, a igualdade entre homens e mulheres ainda não foi plenamente alcançada. Persistem desafios quanto à valorização profissional, à equiparação salarial e ao reconhecimento social da docência como carreira digna e essencial para o desenvolvimento da sociedade. Faz-se, portanto, necessário continuar promovendo políticas e ações que garantam condições equitativas de trabalho e ampliem as possibilidades de existência e de emancipação das mulheres. HUMANIDADES & TECNOLOGIA (FINOM) - ISSN: 1809-1628. vol. 61 – Out./Dez. 2025 Doi 10.5281/zenodo.17373208 86 Referências ALMEIDA, Jane Soares de. Mulher e educação: a paixão pelo possível. São Paulo: Editora da UNESP, 1998. CAMPONOGARA, Maria do Horto Machado; BICA, Alessandro Carvalho; STOLL, Vitor Garcia. O cenário da cultura e das práticas escolares na escola normal (1946-1971): Contribuições para a formação de professoras. RSD Journal, 2021. Disponível em: https://rsdjournal.org/rsd/article/view/16985/15281. Acesso em: 5 set. 2025. DURAN, Marília Claret Geraes; ALMEIDA, Jane Soares de. Quem tem saudades da "Escola normal"? ECCOS – Estudos Científicos de Educação, 2010. Disponível em: https://uninove.emnuvens.com.br/eccos/article/view/2329/1806. Acesso em: 5 set. 2025. GAWRYSZEWSKI, Bruno; HASTENREITER, Thiago. A função social da Escola Normal no tempo presente. Labor: Revista de Educação e Sociedade, 2022. Disponível em: https://www.periodicos.ufc.br/labor/article/view/78305. 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