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ESTUDO SOBRE FAUNA URBANIZADA, IV: Aramides cajaneus (Statius Muller, 1776) - Rallidae Rafinesque, 1815

Torres, Vladimir

Abstract

Este estudo relata a ocorrência e o comportamento de Aramides cajaneus (Rallidae) em áreas urbanas de Porto Alegre, com foco no bairro Azenha. Observações desde 2023 registraram indivíduos forrageando em locais antropizados, consumindo moluscos aquáticos (Pomacea spp.), terrestres (Helix aspersa) e carcaças de peixes, evidenciando plasticidade trófica. Também foram observadas atividades reprodutivas, incluindo alterações morfológicas sazonais e construção de ninhos em árvores. Os resultados indicam a adaptabilidade da espécie ao ambiente urbano, embora os impactos sobre o sucesso reprodutivo e a dinâmica populacional permaneçam incertos. O estudo reforça a importância da pesquisa em biodiversidade urbana para conservação e manejo.

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V.S. Torres UNISANTA Bioscience Vol. 14 nº 1 (2025) p. 166-171 Página 166 ESTUDO SOBRE FAUNA URBANIZADA, IV: Aramides cajaneus (Statius Muller, 1776) - Rallidae Rafinesque, 1815 Vladimir Stolzenberg Torres¹ ¹Prefeitura Municipal de Porto Alegre Resumo Este estudo relata a ocorrência e o comportamento de Aramides cajaneus (Rallidae) em áreas urbanas de Porto Alegre, com foco no bairro Azenha. Observações desde 2023 registraram indivíduos forrageando em locais antropizados, consumindo moluscos aquáticos (Pomacea spp.), terrestres (Helix aspersa) e carcaças de peixes, evidenciando plasticidade trófica. Também foram observadas atividades reprodutivas, incluindo alterações morfológicas sazonais e construção de ninhos em árvores. Os resultados indicam a adaptabilidade da espécie ao ambiente urbano, embora os impactos sobre o sucesso reprodutivo e a dinâmica populacional permaneçam incertos. O estudo reforça a importância da pesquisa em biodiversidade urbana para conservação e manejo. Palavras chave: Ambiente urbano. Aramides cajaneus. Avifauna silvestre urbanizada. STUDY ON URBANIZED FAUNA, IV Aramides cajaneus (Statius Muller, 1776) - Rallidae Rafinesque, 1815 Abstract This study reports the occurrence and behavior of Aramides cajaneus (Rallidae) in urban areas of Porto Alegre, focusing on the Azenha neighborhood. Observations since 2023 revealed individuals foraging in anthropized sites, consuming aquatic (Pomacea spp.), terrestrial (Helix aspersa) mollusks, and fish carcasses, highlighting trophic plasticity. Reproductive activity was also recorded, including seasonal morphological changes and nest construction in trees. Results indicate the species’ adaptability to urban environments, though the impacts on reproductive success and population dynamics remain uncertain. The study emphasizes the importance of urban biodiversity research for conservation and wildlife management strategies. Keywords: Aramides cajaneus. Urban environment. Urbanized wild birds. Introdução A coexistência de fauna silvestre em ambientes urbanos tem gerado dilemas éticos, em decorrência do potencial de criação de vulnerabilidades para os animais, para a população humana e para as instituições. O processo de urbanização, caracterizado pela conversão de áreas verdes em zonas construídas, intensificou os desequilíbrios ecológicos. Dentre as diversas consequências, sobressai a frequência crescente de animais silvestres que adentram os centros urbanos em busca de recursos alimentares. Conforme Torres (2015), o “meio ambiente urbano, apesar de pouco V.S. Torres UNISANTA Bioscience Vol. 14 nº 1 (2025) p. 166-171 Página 167 estudado em comparação com ecossistemas naturais preservados, fornece uma oportunidade particularmente significativa para o estudo da fauna, especialmente comunidades de aves”. Os estudos a respeito de aves, em ambientes urbanos, são de extrema importância para o conhecimento da biodiversidade local, com isto, também sendo possível determinar o grau de suporte proporcionado por este tipo de ecossistema. Na espécie do presente estudo, Aramides cajaneus (Statius Muller, 1776) - Rallidae Rafinesque, 1815, conforme Marcondes (2013, p. 33), o “grau de variação morfológica apresentado pelas populações deste complexo é muito grande em comparação com as demais espécies do gênero, mesmo levando-se em conta sua distribuição muito mais ampla”. Ainda de acordo com Marcondes (2013): “os caracteres mais variáveis na plumagem do complexo são: coloração do peito; coloração do dorso, incluindo presença e grau de desenvolvimento de manto castanho; quantidade de penas verdes e castanhas no uropígio; espessura do barramento das coberteiras inferiores da asa; presença e coloração de nódoa nucal; e presença, coloração e espessura da faixa branca entre o castanho do peito e o negro da barriga” (MARCONDES, 2013, pp. 33-34). Merece atenção suplementar o estudo de Marcondes e Silveira (2015) segundo os quais, a história taxonômica desta espécie está repleta de divergências quanto à atribuição de status específico ou subespecífico às populações, bem como quanto aos caracteres morfológicos, diagnósticos e limites geográficos desses taxa putativos. Trata-se de uma espécie politípica, a qual, segundo Marcondes e Silveira (2015), está representada por nove subespécies que podem ser divididas em dois grupos: o primeiro consiste em cinco subespécies (A. c. albiventris, A. c. plumbeicollis, A. c. mexicanus, A. c. pacificus e A. c. vanrossemi), geralmente consideradas mais próximas de A. c. albiventris; enquanto o segundo grupo de subespécies consiste em A. c. cajaneus e os três taxa considerados mais próximos a ele, a saber, A. c. latens, A. c. morrissoni e A. c. avicenniae. Esta espécie desempenha um papel importante na ecologia de seus habitats, atuando como reciclador de matéria orgânica e controlando populações de caramujos. Desta forma, o presente estudo objetivou observar e registrar a presença da espécie A. cajaneus no contexto do ambiente urbano de Porto Alegre, com ênfase ao bairro Azenha, bem como, aspectos comportamentais identificados, comparando as informações obtidas com às fornecidas por outros autores. . Material e métodos O município de Porto Alegre insere-se em uma região caracterizada por temperatura média anual de 19,7 °C. O regime térmico evidencia verões marcadamente quentes e úmidos, enquanto os invernos apresentam condições relativamente amenas. A pluviosidade anual registra valores médios em torno de 1.580 mm, distribuídos de forma relativamente regular ao longo do ano. Conforme a classificação climática de Köppen, a área enquadra-se no tipo Cfa, correspondente ao clima subtropical úmido. As observações foram realizadas desde V.S. Torres UNISANTA Bioscience Vol. 14 nº 1 (2025) p. 166-171 Página 168 2023. A nomenclatura e a ordem taxonômica de Aramides cajaneus (Statius Muller, 1776) - Rallidae Rafinesque, 1815 seguiu a classificação adotada na mais recente lista do Comitê Brasileiro de Registros Ornitológicos (CBRO, 2021). A revisão taxonômica das espécies vegetais, quando necessária, foi realizada por meio da consulta a bases de dados especializadas, notadamente o Missouri Botanical Garden <https://www.tropicos.org/home> e o projeto REFLORA – Plantas do Brasil <https://floradobrasil.jbrj.gov.br>. Resultados e discussão Exemplares tem sido, frequentemente, observados na área interna do Colégio Estadual Coronel Afonso Emilio Massot e na rua Otto Ernst Meyer (figs. 1-2), próximo ao número 55, por entre os veículos ali estacionados. Figura 1. Parte da área do bairro Azenha, Porto Alegre, RS. A) Lago Guaíba ; B) Colégio Estadual Coronel Afonso Emilio Massot; com a rua Otto Ernst Meyer a sua direita. A distância (geodésica) entre os pontos A e B é de, aproximadamente, 1.650 metros (fonte: mosaico organizado a partir de imagens base do Google Earth de fevereiro de 2025). V.S. Torres UNISANTA Bioscience Vol. 14 nº 1 (2025) p. 166-171 Página 169 Figura 2. Casal de A. cajaneus no e junto ao muro do Colégio Estadual Coronel Afonso Emilio Massot; com a rua Otto Ernst Meyer (fonte: banco de imagens do autor). Diferentemente do Maçarico, Plegadis chihi (Vieillot, 1817) (Threskiornithidae Poche, 1904), que se torna comum em áreas de praças com alagadiços, especialmente após períodos de intensa precipitação, esta espécie não é vista nestas áreas no interior do perímetro urbano, estando mais associadas a habitats com maior proporção de ambientes aquáticos, além de demandar bordas de matas naturais. O afastamento do ambiente aquático e da proteção da área de mata, como é o caso dos locais anteriormente citados, quando ocorre, está, normalmente, associado à busca por alimentos, no que se obtém respaldo nas observações de Antas (2005). Conforme Hipolito e Sazima (2016), esta família (Rallidae) compreende “aves onívoras que se adaptam prontamente a novas fontes de alimento, incluindo cadáveres de pequenos vertebrados” - no que são respaldados por Oliveira (2023) - consumindo vários tipos de animais (anfíbios, moluscos, artrópodes), além de consumir material vegetal (sementes e frutos). Pelo fato de apresentar facilidade em escalar árvores, é bem provável que possa predar ovos, e mesmo filhotes, de outras espécies. Villegas-Retana e Picado-Masís (2021), sem entrar no mérito de uma subespécie, relatam A. cajaneus predando Gecarcinus quadratus (de Saussure, 1853) (Gecarcinidae MacLeay, 1838); no que possuem reforço no estudo de Tayloy (2020), segundo o qual, em manguezais essa ave preda intensamente caranguejos. Com fulcro no comportamento alimentar relatado por Hipolito e Sazima (2016), segundo os quais, A. cajaneus preda caramujos aquáticos da espécie V.S. Torres UNISANTA Bioscience Vol. 14 nº 1 (2025) p. 166-171 Página 170 Pomacea lineata (Spix, 1827) (Ampullariidae Gray, 1824) observou-se indivíduos forrageando à margem do lago Guaíba, observados capturando e consumindo exemplares de Pomacea spp que estavam fora da água, ou próximo à superfície; assim como, também se alimentando de peixes mortos ocorrentes na areia. No consumo de Pomacea, conforme Hipolito e Sazima (2016), a ave examinava o caramujo, posicionando a concha de maneira que a abertura ficasse voltada para cima, e golpeava repetidamente com o bico vigorosamente até conseguir desprender e extrair o molusco, mesmo sem possuir um bico especializado para a extração de moluscos de conchas. De forma similar, no ambiente junto ao Colégio Estadual Coronel Afonso Emilio Massot, observou-se a captura e emprego da mesma técnica de extração do molusco, porém, empregada na espécie terrestre Helix (Cornu) aspersa O. F. Müller, 1774. A reprodução se constitui em um estágio crucial da história vital das espécies, e os conflitos energéticos envolvidos são significativamente importantes para aquelas com intenso cuidado parental. No período reprodutivo de A. cajaneus, expressam alterações morfológicas sazonais, caracterizadas pela condição de que as pernas e os olhos dos indivíduos adquirem tons mais avermelhados, o que foi observado em um casal presente Colégio Estadual Coronel Afonso Emilio Massot, na entrada da primavera de 2025. O casal constrói o ninho oculto entre as folhas das árvores, feito de gravetos, ervas e folhas secas com uma depressão central; geralmente localizado em nível do solo, ou em alturas que alcançam os sete metros. A seleção do local de nidificação está diretamente ligada à aptidão dos adultos, podendo minimizar o custo energético do cuidado com a prole e o risco de predação, tanto da ninhada quanto dos adultos. A fêmea coloca de três a sete ovos, incubando-os por cerca de 20 dias (FAVRETTO, 2021). É amplamente sabido que o ambiente se constitui em um fator de significativa importância no controle do ciclo reprodutivo das aves, mas, apesar de tais informações, pouco se sabe sobre a influência de ambientes antrópicos sobre o comportamento reprodutivo desta espécie. Conclusões O presente estudo evidenciou que a espécie Aramides cajaneus, embora tipicamente associada a ambientes naturais com disponibilidade de recursos aquáticos e cobertura vegetal, tem demonstrado capacidade de adaptação a áreas urbanizadas de Porto Alegre, notadamente no bairro Azenha. As observações registradas revelaram comportamentos alimentares oportunistas, incluindo o consumo de moluscos aquáticos (Pomacea spp.) e terrestres (Helix aspersa), além de carcaças de peixes, corroborando a plasticidade trófica já descrita por outros autores. A presença da espécie em locais afastados de corpos d’água e de fragmentos florestais sugere que a urbanização, ao mesmo tempo em que impõe riscos, pode oferecer novas oportunidades de forrageamento. Tais V.S. Torres UNISANTA Bioscience Vol. 14 nº 1 (2025) p. 166-171 Página 171 registros reforçam a importância de ambientes urbanos como espaços potenciais de manutenção da biodiversidade, ainda que em condições de forte pressão antrópica. No que se refere à reprodução, a observação de alterações morfológicas sazonais e da tentativa de nidificação em área urbana indica que A. cajaneus pode ajustar parte de seu ciclo reprodutivo às condições impostas por habitats antropizados. Todavia, persistem lacunas sobre os impactos efetivos desses ambientes no sucesso reprodutivo e na sobrevivência dos indivíduos, aspecto que demanda monitoramentos mais longos e detalhados. De modo geral, o estudo reforça a relevância de pesquisas sobre fauna silvestre em contextos urbanos, especialmente de espécies cuja ecologia é pouco conhecida. A compreensão da dinâmica de ocupação e comportamento de A. cajaneus em áreas citadinas contribui tanto para o avanço do conhecimento científico quanto para subsidiar estratégias de manejo da biodiversidade em cidades, conciliando conservação e convivência com a fauna. Referências CBRO - Comitê Brasileiro de Registros Ornitológicos. Lista das aves do Brasil. 2021. Disponível online em: <https://www.cbro.org.br/wpcontent/uploads/2020/06/avesbrasil_2014ja n1.pdf>. Acesso em 04 de Ago. 2025. HIPOLITO, J. V.; SAZIMA, I. Golpeando cadáveres: saracura-três-potes, Aramides cajaneus, quebra conchas e consome caramujos mortos. Atualidades Ornitológicas, n. 190, 1p., 2016. Disponível online em: <https://www.researchgate.net/publication/ 304717581>. Acesso em 18 Ago. 2025. MARCONDES, R. S. 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