RELATO DE EXPERIÊNCIA: O PAPEL DO ENSINO DE BIOLOGIA NA PROMOÇÃO DA SAÚDE NO ENSINO MÉDIO
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1Graduando, Ciências Biológicas, UECE, isaac.g[email protected]ce.br RELATO DE EXPERIÊNCIA: O PAPEL DO ENSINO DE BIOLOGIA NA PROMOÇÃO DA SAÚDE NO ENSINO MÉDIO Isaac Ben-hur Gomes da Silva1 Resumo O estágio supervisionado constitui uma etapa essencial na formação dos licenciandos, pois proporciona aos futuros professores a oportunidade de vivenciar o ambiente escolar na prática, desde o reconhecimento da instituição até a atuação direta em sala de aula. Realizei meu estágio entre abril e junho de 2025, na Escola Estadual de Ensino Médio Félix de Azevedo, localizada no bairro Rodolfo Teófilo, em Fortaleza. Durante esse período, trabalhei principalmente com turmas do 2º e 3º ano do ensino médio, no turno da tarde, com algumas intervenções também pela manhã. A escola dispõe de cerca de sete salas de aula, uma biblioteca e um laboratório de ciências. Ao longo do estágio, acompanhei as aulas ministradas pela professora regente, observando atentamente a postura dos alunos diante dos conteúdos abordados. Em uma das aulas, em que foram discutidos os tipos de doenças virais e bacterianas, percebi o quanto o ensino voltado à saúde é relevante para a formação integral dos estudantes. Neste relato, compartilho minha experiência nas aulas de Ciências do Ensino Médio, nas quais foram abordadas temáticas relacionadas à prevenção de doenças e à promoção da saúde por meio do uso de estudos de caso e do Jogo das Três Pistas. Essas metodologias permitiram que os alunos investigassem situações reais, identificassem sintomas, discutissem formas de prevenção e refletissem sobre a importância dos cuidados individuais e coletivos, além de estimular o pensamento crítico, a colaboração e o raciocínio lógico. Além da regência, participei de momentos de observação, acompanhei diferentes práticas pedagógicas e colaborei na organização de atividades didáticas, o que ampliou minha visão sobre a necessidade de integrar os conteúdos científicos a temas atuais e significativos para os jovens. Ao término do estágio, ficou ainda mais clara a convicção de que trabalhar a prevenção de doenças e o cuidado com a saúde nas aulas de Biologia, utilizando recursos lúdicos e participativos, é indispensável para tornar o aprendizado mais dinâmico, significativo e alinhado à formação cidadã dos estudantes. Palavras-chave: Educação em saúde. Prevenção. Ensino de Biologia.
1 INTRODUÇÃO O estágio supervisionado é um momento marcante na formação docente, pois é nele que começamos a vivenciar, na prática, os desafios e as possibilidades da sala de aula. Trata-se do primeiro contato direto com a realidade escolar, onde aprendemos não apenas a transmitir conhecimento, mas também a lidar com diferentes situações e a aprimorar nossa forma de ensinar. Mais do que um requisito acadêmico, essa experiência nos permite refletir sobre nosso papel como professores e sobre como o conhecimento científico e pedagógico se conecta ao dia a dia da educação. Nesse processo, começamos a dar significado à profissão e a enxergar a docência de maneira mais concreta, repensando estratégias e buscando alternativas para tornar a aprendizagem mais eficaz (Telles Rossato, 2023). Para que o estágio cumpra seu papel de conectar teoria e prática na formação do futuro professor, a interação entre o estagiário e o supervisor deve ser vista como um processo de coaprendizagem (Sarti; Araujo, 2016). A aprendizagem, nesse contexto, acontece como uma troca constante, na qual o estagiário também pode contribuir com o professor regente, trazendo consigo o contato com metodologias ativas e inovadoras aprendidas nas disciplinas pedagógicas da universidade (Preste; Silva, 2019). Nesse cenário, torna-se relevante considerar os temas que atravessam a formação dos estudantes para além dos conteúdos tradicionais. Dentre eles, destaca-se a educação em saúde, que encontra na disciplina de Biologia um espaço privilegiado para ser abordada, uma vez que essa área do conhecimento permite relacionar conceitos científicos ao cotidiano e à qualidade de vida dos alunos. A escola, nesse contexto, se configura como ambiente propício para a promoção de hábitos e atitudes voltados ao bem-estar individual e coletivo, especialmente quando o ensino de Biologia contempla temas como doenças infecciosas, sexualidade, alimentação saudável, saúde mental e prevenção de doenças (Brasil, 2018). Ao trabalhar essas temáticas, o professor atua não apenas como transmissor de conhecimento, mas como agente de formação integral, contribuindo para o desenvolvimento crítico e cidadão dos estudantes. Como apontam Mont’alverne e Catrib (2013), a escola exerce papel político e educativo na formação de valores, sendo espaço estratégico para ações permanentes de educação em saúde. Dessa forma, este relatório tem como objetivo apresentar e refletir sobre a experiência vivenciada no estágio supervisionado em Biologia, com ênfase na abordagem de temas relacionados à saúde no Ensino Médio. A partir dessa vivência, busca-se observar a importância de práticas pedagógicas que dialoguem com as realidades dos alunos, promovendo aprendizagens significativas e socialmente relevantes.
2 DESENVOLVIMENTO 2.1 Contextualização do Estágio A escola, conta com 305 alunos matriculados no ensino médio. Ela oferece uma infraestrutura com recursos como quadra, refeitório, biblioteca equipada com computadores e projetor, um laboratório, sete salas de aula (que não são climatizadas), uma sala para professores, um auditório e uma área verde para os estudantes. A maioria dos alunos vive no próprio bairro da escola, o que aproxima ainda mais a comunidade (FIGURA 1). Figura 1 - escola Fonte: Google maps acesso, 2025 Durante o estágio supervisionado, acompanhei duas turmas do Ensino Médio: 2º e 3º anos, cada uma com aproximadamente 35 alunos. As aulas aconteceram nos turnos da manhã e da tarde, às segundas-feiras, e nas manhãs de terça-feira, com horários das 07:00 às 11:50 e das 13:20 às 17:50. Ao longo desse período, participei principalmente de aulas voltadas para os temas doenças bacterianas e virais. Para facilitar a compreensão desses assuntos, os conteúdos foram organizados em uma sequência didática que permitisse aos alunos assimilar, primeiro, conceitos fundamentais. Iniciamos com as diferenças entre organismos procariontes e eucariontes, passando pelas características gerais de bactérias e vírus, suas formas de reprodução e transmissão, para então abordar as principais doenças causadas por esses agentes, suas formas de prevenção e tratamento. No começo, apresentei para eles a diferença entre organismos procariontes e eucariontes, explicando onde as bactérias e os vírus se encaixam nesse universo. Em seguida, exploramos as características principais desses microrganismos, sua estrutura, modos de reprodução e formas de transmissão. Essa etapa foi importante para que os estudantes entendessem as diferenças entre bactérias e vírus, preparando o terreno para os estudos mais específicos que viriam depois. Com essa base, partimos para as doenças causadas por esses agentes. No 2º ano, trabalhamos as principais doenças virais, conversando sobre como elas se espalham, os sintomas que causam, os tratamentos e, claro, como podemos preveni-las. Já com a 3º
série, aprofundamos um pouco mais nas doenças bacterianas, relacionando o assunto à genética para que eles pudessem compreender como esses vírus agem dentro das células e como mutações podem influenciar sua resistência. Esse caminho facilitou bastante a aprendizagem dos alunos, pois eles conseguiram conectar os conceitos mais teóricos a situações do cotidiano, além de refletir sobre a importância da prevenção e do cuidado com a saúde. Percebi o quanto a escola pode ser um espaço importante não só para transmitir conhecimento, mas também para formar cidadãos conscientes e preparados para cuidar de si mesmos e da comunidade. 2.2 A Importância do Estudo de Caso na Educação Ao planejar as regências sobre saúde, pensei em métodos que aproximassem o conteúdo da realidade dos alunos e que também fossem importantes para a vida deles. A saúde, principalmente quando trabalhada a partir de situações do dia a dia, foi um ponto de partida importante para chamar a atenção e incentivar reflexões. Por isso, o estudo de caso foi escolhido como uma boa estratégia para tornar o aprendizado mais concreto e participativo. Com casos fictícios baseados em situações reais, os alunos puderam investigar doenças, identificar sintomas, discutir formas de prevenção e entender as questões sociais relacionadas ao tema. O estudo de caso se destaca como uma estratégia pedagógica eficaz por possibilitar a análise aprofundada de situações reais. Essa abordagem estimula a reflexão, o debate e a aplicação prática de conteúdos teóricos, tornando o processo de aprendizagem mais significativo (Nunes, 2016). Ao se depararem com um cenário concreto, os alunos conseguem visualizar como os conceitos estudados são utilizados na prática, o que favorece uma compreensão mais sólida e contextualizada. Além de aproximar teoria e prática, o estudo de caso é uma ferramenta versátil, aplicável a diversas áreas do conhecimento. Ele permite avaliar a capacidade do estudante de mobilizar saberes teóricos diante de desafios reais, promovendo o desenvolvimento de competências como pensamento crítico, raciocínio analítico e resolução de problemas Aguiar et al. (2023). Outro aspecto relevante é o papel ativo do estudante nesse processo. O engajamento, a participação e a forma como cada aluno se envolve com o caso contribuem diretamente para a construção coletiva do conhecimento. Esses elementos fortalecem a integração entre ensino e aprendizagem, favorecendo o desempenho acadêmico e a formação mais completa do aluno ( Barroso, 2016). Para dar início às regências, foi elaborada uma tabela contendo a divisão entre doenças virais e bacterianas. Entre as bacterianas, foram selecionadas: Meningite, Sífilis, Gonorreia, Leptospirose, Tuberculose, Hanseníase, Tétano e Botulismo entre as doenças virais abordadas estavam: H1N1, Dengue, Zika, Chikungunya, Covid-19, AIDS, HPV, Mpox e Raiva. Já Nas turmas de terceira série, o tema abordado foi doenças bacterianas. Para estimular o pensamento crítico e a construção do conhecimento, os alunos participaram de uma atividade interativa baseada em nove estudos de caso fictícios, elaborados com o auxílio da inteligência artificial (Chat GPT). Esses casos retratavam situações do cotidiano de adolescentes diagnosticados com diferentes enfermidades virais, promovendo discussões sobre sintomas, formas de transmissão, prevenção e tratamento. Cada grupo de alunos recebeu 3 casos para analisar e, a partir das informações fornecidas, deveria identificar as doenças em questão, levantar hipóteses sobre a forma
de contágio, reconhecer os sintomas descritos, indicar possíveis formas de prevenção e sugerir orientações para o tratamento. Estudo de caso 1: João, de 17 anos, procurou o hospital com febre alta, dor de cabeça intensa e rigidez na nuca. Ele também apresentava náuseas e sensibilidade à luz. Os sintomas começaram de forma súbita, e colegas da escola relataram sintomas semelhantes nos dias seguintes. Estudo de Caso 2: Maria, 19 anos, notou o aparecimento de uma ferida indolor na região genital, mas não buscou atendimento imediato. Algumas semanas depois, surgiram manchas pelo corpo e inchaço no pescoço. Ela relatou não usar preservativo em suas relações. Estudo de Caso 3: Lucas procurou a unidade de saúde com queixas de ardência ao urinar e secreção esbranquiçada. Relatou ter iniciado uma nova relação sexual recentemente e não utilizam preservativos. Estudo de Caso 4: Carlos ajudou na limpeza das ruas de sua cidade após uma enchente, sem utilizar equipamentos de proteção. Dias depois, começou a sentir febre alta, dor muscular intensa, olhos amarelados e calafrios. Estudo de Caso 5: Pedro, 22 anos, procurou atendimento após semanas com tosse persistente, febre vespertina, suor noturno e perda de peso. Um exame de escarro confirmou a presença de uma bactéria que afeta os pulmões. Estudo de Caso 6: Cláudia, 20 anos, percebeu manchas claras na pele com perda de sensibilidade. As lesões não doíam, mas estavam se espalhando lentamente. Ao procurar o posto de saúde, foi encaminhada para tratamento específico, de longa duração. Estudo de Caso 7: Pedro pisou em um prego enferrujado e não buscou atendimento médico. Quatro dias depois, começou a sentir rigidez muscular, dificuldade para abrir a boca e espasmos dolorosos. Estudo de Caso 8: Aline apresentou visão dupla, dificuldade para engolir e fraqueza muscular após consumir palmito em conserva com cheiro alterado. Os sintomas apareceram poucas horas depois da refeição. Após a análise dos estudos de caso em grupo, cada aluno foi convidado a compartilhar com a turma as conclusões sobre a doença investigada. Nesse momento, os estudantes apresentaram os principais sintomas identificados, assim como as formas de transmissão e prevenção relacionadas à enfermidade abordada, demonstrando envolvimento e compreensão dos conteúdos discutidos. Em seguida, de acordo com as doenças que surgiam nas apresentações, foram realizadas intervenções pontuais com explicações complementares, com o objetivo de aprofundar o conhecimento e esclarecer possíveis dúvidas. De modo geral, os alunos demonstraram interesse pela atividade e relataram surpresa ao perceber que muitas doenças bacterianas compartilham formas semelhantes de contaminação e prevenção. Nas turmas de segunda série, foi abordado o tema doenças virais, com destaque para H1N1, Dengue, Zika, Chikungunya, Covid-19, AIDS, HPV, Mpox e Raiva. Para consolidar os conhecimentos adquiridos de forma lúdica, foi utilizado o Jogo das Três Pistas (FIGURA 2). Figura 2 - Jogo das três pistas
Fonte: Elaborado pelo autor (2025). Durante o desenvolvimento dessa atividade, os alunos participaram de uma dinâmica voltada à revisão dos conteúdos estudados. O principal objetivo foi reforçar, de maneira divertida e interativa, as informações sobre as doenças virais mencionadas. Além disso, a proposta buscou estimular habilidades importantes, como raciocínio lógico, escuta atenta e trabalho em equipe. O jogo foi realizado da seguinte forma: a turma foi dividida em pequenos grupos e, a cada rodada, o professor apresentava três pistas relacionadas a uma das doenças estudadas. As pistas eram fornecidas uma a uma, iniciando pelas mais genéricas e avançando para as mais específicas. Os grupos deveriam tentar identificar a doença com o menor número possível de pistas. Quanto mais cedo acertassem, maior era a pontuação atribuída. Por exemplo, em uma das rodadas, a primeira pista foi: “É transmitida por via respiratória”; a segunda: “Provoca sintomas como febre alta, dores no corpo e tosse seca”; e a terceira: “Foi responsável por uma pandemia mundial iniciada em 2020”. A resposta correta, nesse caso, foi Covid-19 . A atividade despertou grande interesse e envolvimento por parte dos alunos. Além de reforçar os conteúdos de forma significativa, contribuiu para o desenvolvimento de habilidades como argumentação, cooperação e construção coletiva do conhecimento. Ao final do jogo, o professor retomou brevemente cada doença abordada, esclarecendo dúvidas e reforçando os pontos mais relevantes (FIGURA 3). Figura 3 - Cartas do jogo Fonte: Elaborado pelo autor (2025).
3 CONSIDERAÇÕES FINAIS O estágio supervisionado foi uma experiência importante para vivenciar na prática os desafios e as possibilidades do ensino de Biologia. Trabalhar temas relacionados à saúde, como doenças bacterianas e virais, aproximou o conteúdo da realidade dos alunos e tornou as aulas mais significativas. O uso de estudos de caso e do Jogo das Três Pistas favoreceu a participação ativa dos estudantes, estimulando o pensamento crítico, a colaboração e a compreensão dos conceitos. Além disso, percebi que a escola é um ambiente fundamental para promover a formação integral, incluindo hábitos e atitudes voltados à saúde e ao cuidado coletivo. Essa experiência reforçou a importância de metodologias que valorizem o protagonismo dos alunos e o diálogo, para tornar o ensino mais motivador e eficaz. Sinto-me mais preparado para atuar como professor, com foco em uma educação que contribua para o desenvolvimento científico e cidadão dos estudantes.
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