RELATO DE EXPERIÊNCIA: REFLEXÕES SOBRE VIVÊNCIAS DOCENTES NO ENSINO DE BIOLOGIA
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RELATO DE EXPERIÊNCIA: REFLEXÕES SOBRE VIVÊNCIAS DOCENTES NO ENSINO DE BIOLOGIA Amanda Beatriz da Costa Moura1 Resumo: Este trabalho relata a experiência do Estágio Supervisionado no Ensino Médio II, componente da Licenciatura em Ciências Biológicas da Universidade Estadual do Ceará (UECE), realizado em um colégio particular na cidade de Caucaia-CE. O estágio ocorreu entre abril e maio de 2025, sendo dividido em três etapas: observação, regência e aplicação de projeto didático com as turmas do 1º, 2º e 3º anos do Ensino Médio. A observação permitiu compreender as dinâmicas de sala e os diferentes perfis das turmas. O 1º ano mostrou-se participativo, mas exigia mediação constante. O 2º ano apresentava contrastes entre alunos reflexivos e outros mais dispersos, enquanto o 3º ano revelou grande desmotivação, exigindo estratégias diferenciadas de aproximação. A regência foi planejada com o uso de recursos didáticos diversos, visando tornar os conteúdos mais acessíveis e promover o engajamento. O projeto didático, intitulado “Batalha das Gerações: Ciências e Divulgação”, utilizou o jogo como ferramenta para integrar conteúdos biológicos com argumentação e comunicação científica. A proposta favoreceu o envolvimento e proporcionou uma aprendizagem mais dinâmica, especialmente entre os alunos já engajados. A experiência proporcionou reflexões importantes sobre o fazer docente, destacando a necessidade de escuta ativa, flexibilidade e estratégias adaptadas a cada realidade. O estágio contribuiu significativamente para minha formação, fortalecendo meu compromisso com uma educação mais humana, crítica e sensível às particularidades dos estudantes. Palavras-chave: Ensino de Biologia. Estágio supervisionado. Prática docente. 1. INTRODUÇÃO O Estágio Supervisionado no Ensino Médio II (ESEM II) é um dos requisitos para a Licenciatura em Ciências Biológicas da Universidade Estadual do Ceará (UECE). É um componente essencial na formação de professores, pois promove a aproximação entre teoria e prática, permitindo ao licenciando vivenciar os desafios e as possibilidades do exercício docente. Com isso, esse momento é bastante esperado pelos discentes, já que é a ocasião perfeita para aplicar todo o conhecimento de conteúdos e metodologias adquiridas ao longo da graduação. Santos e Farias (2011) afirmam que o estágio supervisionado é um dos ápices da graduação, principalmente ao futuro professor, pois irá preparar e capacitar esse 1Graduanda, estudante, [email protected]
indivíduo para futuramente exercer a profissão de docente com qualidade, competência e responsabilidade. O presente trabalho tem como objetivo relatar as experiências adquiridas no estágio supervisionado em docência de Biologia no Ensino Médio, realizado em um colégio particular, localizado no município de Caucaia-CE. As atividades envolveram observação, regência de aulas e aplicação de um projeto didático com turmas do 1º ao 3º ano do Ensino Médio. O colégio é da rede privada situada na Jurema, em Caucaia. A escola apresenta uma estrutura física adequada ao ensino, com sala multimídia, laboratório de ciências, biblioteca e quadra esportiva, atendendo a estudantes de diferentes faixas etárias. As turmas contempladas durante o estágio foram compostas por 22 alunos (1º ano), 10 alunos (2º ano) e 14 alunos (3º ano), com frequência média estável. O estágio foi dividido em três etapas: observação, regência e projeto didático. A seguir, serão descritas essas etapas, bem como os desafios enfrentados e os aprendizados adquiridos. 2. OBSERVAÇÃO E REGÊNCIA A etapa de observação foi realizada durante o mês de abril e teve como principal finalidade acompanhar a atuação da professora supervisora em sala de aula. Durante esse período, foi possível perceber a forma como os conteúdos eram abordados, o uso de recursos didáticos, a relação professor-aluno e a organização do tempo pedagógico. As turmas demonstraram características distintas entre si. O 1º ano apresentava maior energia e participação, enquanto o 2º ano era dividido, tendo alunos mais introspectivos e outros extremamente participativos. O 3º ano, por sua vez, mostrava imaturidade e pouco interesse pelo ambiente escolar, tendo um grupo muito pequeno de alunos com foco. A observação permitiu uma análise das práticas de ensino utilizadas e forneceu subsídios importantes para a etapa de regência. Entre os dias 28 de abril e 6 de maio, foram ministradas aulas para as turmas do 1º ao 3º ano do Ensino Médio. Cada aula foi planejada com base nos conteúdos previamente definidos. As aulas foram conduzidas com apoio de slides, quadro branco e recursos visuais, buscando tornar os temas mais acessíveis e atrativos aos alunos. A participação dos estudantes foi significativa, especialmente quando eram propostas atividades interativas. Foi possível identificar avanços na compreensão dos conteúdos, bem como dificuldades que exigiram intervenções pedagógicas pontuais. Durante a regência, alguns desafios foram enfrentados, como a busca pela atenção e interesse na turma do 3º ano. Para lidar com isso, foi necessário adaptar a abordagem, utilizando dinâmicas e estratégias de mediação que favorecessem a escuta e o envolvimento. 3. PROJETO DIDÁTICO O projeto didático foi aplicado no mês de maio e teve como objetivo promover a aprendizagem significativa por meio da ludicidade, utilizando o jogo “Batalha das Gerações: Ciências e Divulgação”, criado com foco na integração entre conteúdos biológicos e habilidades de argumentação, comunicação científica e pensamento crítico. As estratégias utilizadas envolveram o uso de dinâmicas em grupo, cartas temáticas e perguntas interativas baseadas nos conteúdos previamente estudados em sala.
A proposta permitiu que os alunos se engajassem ativamente, explorando conceitos de forma colaborativa e competitiva, ao mesmo tempo em que desenvolviam habilidades socioemocionais e cognitivas. 4. REFLEXÕES SOBRE A PRÁTICA DOCENTE 4.1 Reflexões sobre o 1° ano Durante a observação, o 1º ano se apresentou como uma turma bastante afetuosa, animada e participativa. Apesar de agitação excessiva em alguns momentos, consegui perceber que, com uma postura firme e respeitosa por parte do professor, os alunos retomavam rapidamente a atenção. Essa experiência mostrou a importância de equilibrar autoridade com empatia em sala de aula, criando um ambiente seguro, mas organizado para a aprendizagem. Na etapa da regência, compreendi que o envolvimento da turma dependia muito mais do vínculo criado com os alunos do que apenas da metodologia adotada. Quando os estudantes percebem que estão sendo ouvidos e respeitados, tornam-se mais receptivos. Mesmo diante de alguns que se mantinham desinteressados, percebi que a escuta ativa, o olhar atento e o esforço para integrar todos são atitudes que contribuem significativamente para o engajamento coletivo. Durante a aplicação do projeto didático, a turma respondeu com entusiasmo à proposta do jogo “Batalha das Gerações”. A atividade trouxe leveza à aula, despertou a curiosidade e incentivou a participação em grupo. No entanto, exigiu atenção constante na condução, já que a animação dos alunos, por vezes, ameaçava comprometer o foco na aprendizagem. Isso evidenciou a importância de planejar atividades interativas com intencionalidade clara, sabendo quando intervir para que o objetivo educativo não se perca. Com essa vivência, compreendi que ensinar exige mais do que dominar o conteúdo, exige saber conduzir os ritmos da turma, acolher suas características e transformar a energia do grupo em potência pedagógica. 4.2 Reflexões sobre o 2° ano A observação no 2º ano revelou uma turma pequena e silenciosa, formada por perfis bastante distintos. Havia alunos atentos, que participavam com frequência, faziam perguntas e se mostravam conectados com o conteúdo; e, por outro lado, alguns permaneciam alheios à aula, dispersos e sem envolvimento aparente. Essa vivência evidenciou como é necessário compreender a dinâmica interna de cada grupo, respeitando suas diferentes formas de expressão e de participação. Muitas vezes, a ausência de fala não significa desinteresse, mas uma forma particular de estar presente, e cabe ao professor perceber isso com sensibilidade. Durante a regência, busquei construir esse equilíbrio, utilizando recursos que pudessem alcançar tanto os mais engajados quanto os mais reservados. As atividades em dupla foram especialmente eficazes, pois criaram um espaço de conforto e permitiram que os alunos se expressassem sem a exposição direta ao coletivo. Também percebi que perguntas direcionadas e pausas intencionais estimulavam a atenção dos mais calados. Foi uma experiência que me ensinou a observar com mais
profundidade os pequenos sinais da turma e a ajustar a minha prática conforme as respostas que recebo, mesmo que não venham de forma explícita. O projeto didático trouxe uma quebra de rotina bem-vinda para a turma. O jogo despertou o interesse dos alunos, inclusive daqueles que antes pouco interagiam. A proposta lúdica criou um ambiente mais leve e afetivo, onde todos puderam se envolver de maneira mais espontânea. Essa experiência me mostrou que, muitas vezes, o envolvimento pode ser despertado por estratégias que tocam o emocional e o coletivo da turma, criando novas possibilidades de participação. A diversidade de perfis em sala exige, do professor, criatividade, atenção e disposição constante para experimentar novos caminhos. 4.3 Reflexões sobre o 3° ano A observação do 3º ano revelou uma realidade desafiadora. A desmotivação era visível em grande parte da turma, que demonstrava pouco ou nenhum envolvimento com o processo de aprendizagem. Muitos alunos pareciam encarar a escola como uma etapa a ser concluída, sem conexão com seus planos de vida futuros. O interesse em continuar os estudos após o Ensino Médio era raro, o que impactava diretamente no comportamento e na participação em sala. Diante disso, percebi como é urgente que a escola se aproxime mais dos contextos reais dos estudantes e crie pontes entre o currículo e os seus projetos de vida, para que o conhecimento faça sentido em suas trajetórias, não apenas ENEM, vestibulares e números. Durante a regência, o maior desafio foi manter a atenção dos que já haviam se desligado da proposta escolar. Foquei no pequeno grupo interessado e, ao mesmo tempo, tentei envolver os demais por meio de exemplos mais próximos da realidade deles, com pouco êxito. Essa experiência me ensinou que o retorno do trabalho docente nem sempre é imediato. Há momentos em que o professor precisa semear, mesmo sem saber se colherá, e essa é uma das provas mais exigentes da prática pedagógica. Persistir, ainda que os resultados não sejam visíveis no momento, faz parte da construção do compromisso com a educação. O projeto didático teve uma aceitação parcial. Os alunos mais envolvidos participaram com interesse e engajamento, com uma conexão com a aprendizagem, enquanto os demais se mostraram participativos, porém tratando o jogo como uma atividade apenas de entretenimento, sem relação direta com a aprendizagem. Ainda assim, observei pequenos sinais de aproximação, olhares atentos em momentos pontuais, sorrisos de reconhecimento, dúvidas lançadas quase sem querer. Foram brechas mínimas, mas significativas. Isso me fez compreender que mesmo em cenários adversos, o esforço por inovar, adaptar e tentar novas estratégias pode abrir caminhos. A docência, nesse caso, é também um exercício de paciência e esperança. Pode-se observar um comparativo das turmas no quadro 1. Quadro 1 – Comparativo geral de perfil entre as turmas. Série Perfil da Turma Participação Principais desafios 1º ano Calorosos, brincalhões e afetivos. Atentos quando chamados. Alta, com momentos de dispersão. Controle da agitação e manutenção do foco.
2º ano Turma pequena, heterogênea. Alguns muito atentos, outros dispersos. Alta por alguns alunos, com bons momentos de reflexão. Estimular os alunos menos engajados. 3º ano Desmotivados, com poucos focados nos estudos. Baixa, restrita ao grupo interessado. Falta de perspectiva acadêmica e engajamento. Fonte: Elaborado pelo autor. 5. CONSIDERAÇÕES FINAIS. O Estágio Supervisionado no Ensino Médio II representou um marco significativo na minha formação como futura professora de Biologia. Vivenciar a realidade escolar em suas múltiplas faces, com suas alegrias, desafios e complexidades, me permitiu amadurecer não só enquanto licencianda, mas enquanto educadora em construção. Cada turma, com suas particularidades, exigiu de mim posturas, estratégias e olhares diferentes. O 1º ano me ensinou sobre afeto e condução; o 2º, sobre escuta e sutileza; o 3º, sobre resiliência e persistência. Ao longo do processo, compreendi que a docência vai muito além do conteúdo. Ela envolve empatia, criatividade, paciência e uma escuta atenta às demandas que nem sempre são ditas. A aplicação do projeto didático reforçou minha convicção de que o lúdico pode ser um caminho potente para tornar a aprendizagem mais significativa, mas que esse caminho exige planejamento intencional e mediação constante. Finalizo este estágio com a certeza de que estou no caminho certo. A experiência reafirmou meu desejo de ensinar, mas também apontou que a formação docente é contínua, construída na prática, no erro, na escuta e no acolhimento. Levo comigo aprendizados que não se resumem a técnicas ou conteúdos, mas a uma postura ética, sensível e comprometida com a transformação da sala de aula em um espaço de construção coletiva e acolhedora.
REFERÊNCIAS SANTOS, C. T; FARIAS, R. M. Relatório De Estágio: Experiências Com O Ensino Fundamental II. UFSC, 2011.