UMA ESCOLA, DOIS MUNDOS: AS DIFERENÇAS ENTRE OS ESTÁGIOS SUPERVISIONADOS NO ENSINO FUNDAMENTAL I E II
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UMA ESCOLA, DOIS MUNDOS: AS DIFERENÇAS ENTRE OS ESTÁGIOS SUPERVISIONADOS NO ENSINO FUNDAMENTAL I E II Yngrid Lemos Pereira¹ Isabel Cristina Higino Santana² Resumo: O estágio obrigatório é uma etapa importante na formação do professor. Ao ter a oportunidade de lecionar, preparar práticas pedagógicas e utilizar de diversas metodologias de ensino, o licenciando tem a chance de se entender melhor como o professor que está se tornando. Assim, em uma escola existem diversas realidades as quais o aluno da graduação pode ser exposto. Nesse resumo, observam-se as diferenças entre dois estágios realizados com diferentes professores supervisores e os diversos aprendizados a partir dessa experiência. Por fim, considera-se que o ensino deve ter um olhar humano, que aproxime o aluno do objeto de estudo. Esse olhar humano torna o aluno mais afeiçoado com o ensino, pois se sente respeitado e seguro no âmbito escolar. Palavras-chave: Estágio supervisionado, Anos finais, Respeito, Relação professor-aluno. ¹Graduando em Ciências Biológicas, Universidade Estadual do Ceará, [email protected] ²Professora de Estágio no Ensino Fundamental II, Universidade Estadual do Ceará, [email protected]
1 INTRODUÇÃO A escola é um ambiente de diversidade. Nesse ambiente, o professor atua ativamente para ensinar aos alunos muito além do conteúdo previsto no planejamento. O cuidado, carinho e atenção de um docente com os estudantes faz, portanto, toda a diferença no processo de aprendizagem. O estabelecimento de uma parceria entre o professor e o aluno é muito importante para que o trabalho realizado em sala de aula seja fluido. Essa proximidade influencia na motivação, na segurança e até na melhoria do desempenho escolar do aluno, pelo incentivo que o professor pode proporcionar (Rodrigues; Poletto, 2023). Isso é importante para garantir o aprendizado do conteúdo de uma forma mais afetiva, com um outro olhar de quem aprende. No ensino fundamental anos finais a dinâmica de ensino é diferente, tendo em vista, especialmente, a nova geração atendida nessas séries. Nesse contexto, o uso de metodologias ativas é necessário, para que o conteúdo não seja repassado da forma engessada do ensino tradicional. Dentre as metodologias que podem ser utilizadas por um professor, destacam-se os mapas mentais, as atividades em grupo de pesquisa, os seminários, entre outros, que proporcionam conhecimentos mais profundos em relação à aprendizagem passiva (Araújo; Ramos, 2023). Em colaboração com a boa didática do professor para repassar o conhecimento aos alunos, também se encontra a supervisão do docente em relação ao desempenho atingido pelo aluno ao longo do ano letivo. Esse acompanhamento tem muita importância para que o professor consiga identificar falhas em seu trabalho, além de também confirmar quando o trabalho é feito de forma satisfatória (Batista; Lopes, 2021). O estágio foi realizado em uma escola de ensino fundamental da rede municipal de Fortaleza, localizada na regional 6. A escola atende ensino fundamental anos iniciais e finais, possuindo uma boa infraestrutura, com salas climatizadas, carteiras relativamente novas, quadros brancos, ventiladores, boa iluminação (artificial e natural), além de pátio usado como refeitório, cantina e quadra de esportes com arquibancadas. As turmas contempladas pelo estágio foram sexto e sétimo ano A do turno da tarde. Nas turmas observadas, os alunos tinham entre onze e quinze anos de idade. No geral, a frequência de alunos por aula era de cerca de 35 alunos, ambas turmas tendo 40 alunos matriculados. Por turma, tinha, pelo menos, um aluno PCD, mas que não conseguiam ser devidamente incluídos na aula devido ao elevado número de estudantes por turma. Dessa forma, o objetivo desse resumo é relatar as diferenças entre os dois estágios realizados na realidade do ensino fundamental que fiz, ambos na mesma escola mas com turmas e professores supervisores diferentes.
2 RELATO 2.1 Observação O estágio de observação foi realizado ao longo de três semanas, nas quartas-feiras pela tarde. Antes do início, foi feito o reconhecimento da escola, no qual conversei com a coordenação acerca dos horários e de quem seria o professor que iria me acompanhar. Por eu já ter feito o ESEF I nessa mesma escola com um professor, a coordenadora me sugeriu ficar com outra professora para ter uma experiência diferente, ideia que achei muito interessante e concordei. Assim, um dia após o reconhecimento já iniciei o estágio. No primeiro dia, 30 de abril, conheci a professora que estaria comigo nesse processo. Ela me recebeu muito bem, sendo muito educada, solícita e querida. Como já estava perto do horário de iniciar as aulas, conversamos pouco. Ao ter contato com a primeira turma, o 7º ano A, percebi que os alunos eram bem agitados, bem, de certa forma, adultizados. Poucos alunos agiam como o esperado para a faixa etária, e é bastante comum nessa idade esse tipo de comportamento, já que se aproximam da adolescência. A turma tinha cerca de 40 alunos, e a sala não comportava, confortavelmente, toda essa demanda. Eu, como um intruso entre os alunos, ainda fiquei me sentindo um pouco mal de pegar uma cadeira para me sentar, visto que estavam todos amontoados, muito perto uns dos outros. A professora me apresentou à turma, dizendo que estou em formação para me tornar professor futuramente e explicou como funciona o estágio. Percebi que os alunos me olhavam curiosos, mas tiveram pouca aproximação. Notei que o modelo de aula da professora era completamente diferente do que vi no estágio passado e achei fascinante. Era um modelo bem dialogado, com os alunos conversando sobre o conteúdo, tirando dúvidas, trazendo experiências. Ao longo da explicação, a professora passava as questões da atividade e deixava um tempo para que os alunos procurassem as respostas no livro didático. Após o intervalo, a aula foi na turma de 6ºano A. Os alunos dessa turma, desde o primeiro dia de estágio, eram muito mais receptivos. Eles gostavam bem mais da minha presença, o que percebi por causa dos desenhos que ganhei, e da forma que eles conversavam comigo em alguns momentos. Percebi que, com essa turma, a professora era um pouco rígida. Ela me explicou, ao longo das semanas de observação, que fazia isso pois eles eram mais agitados por terem recentemente saído do fundamental I. No período de observação em ambas as turmas, pude conhecer melhor os alunos, entender a dinâmica das turmas e até criar um vínculo, em especial com os alunos de sexto ano. Percebi que os alunos de sétimo ano eram um pouco mais distantes, com um ou outro mais interessados. 2.2 Regência A regência ocorreu também nas quartas-feiras, com exceção do último dia, que foi realizado durante a culminância do projeto didático na feira de ciências, em uma sexta-feira. O início das regências considerei mais amenos, senti que os alunos tentavam prestar mais atenção, em especial no sétimo ano. Durante as semanas de regência, planejei aulas utilizando modelos didáticos, além de fazer aulas interativas, nas quais fazia muitas perguntas para os alunos. Na
primeira aula, nas duas turmas, perguntei que modelo de atividades eles gostariam de seguir: todas as questões da atividade ao final da aula ou ir espalhando as questões. Achei interessante que as duas turmas preferiram a segunda opção. Percebi, nisso, que eles se sentiam mais interessados no conteúdo quando a atividade era feita dessa forma. Em relação ao sexto ano, tinha um aluno com autismo que não conseguia ser incluído no conteúdo. Isso ocorria justamente pela falta de preparo que a própria escola tem para receber alunos nessas condições. Além disso, a professora não conseguia fazer uma atividade específica para o aluno, pois a turma já constava com 40 alunos para ela lidar, e ficava muito difícil. Nessa turma, também tive contato com alunos muito hiperativos, que falavam muito ao longo da aula e eram inquietos. No entanto, não foi um desafio lidar com eles durantes as minhas aulas, pois eles respeitavam o momento. Por serem ainda crianças, essa turma tinha um carisma e um interesse nas aulas que regi que me deixaram muito feliz. Nas regências do sexto ano, percebi que eles interagiam bem mais nas aulas que os alunos do sétimo ano. Quando eu fazia perguntas para a turma, eles prontamente respondiam ou levantavam as mãos. Na turma de sétimo ano, já tinha uma diferença considerável de comportamento. Tiveram alguns embates da professora com um grupo de alunas que a trataram mal, além de um aluno que constantemente saía de sala para ficar andando pela escola e alunos que agiam de forma rude. Era difícil a regência nessa turma devido ao pouco respeito que os alunos tinham pela minha aula, com poucos alunos prestando atenção realmente. No último dia de regência, durante a feira de ciências, eu estava observando as apresentações dos alunos do sétimo ano. Em um momento, a turma de sexto ano entrou, e os alunos me cumprimentaram, conversaram comigo e perguntaram se eu ainda daria aula para eles. Disse que não, que estava acabando o estágio. Um dos alunos me abraçou e fiquei emocionada, gostei muito dessa turma e foi muito importante ter esse retorno deles. Nunca os esquecerei. 2.3 Diferenças entre ESEF I e ESEF II Embora realizados na mesma instituição, pude perceber diferenças nítidas entre os dois estágios que fiz. No primeiro estágio, o professor supervisor era de difícil acesso, o que tornava a comunicação muito custosa e difícil. Embora ele tivesse uma boa formação, não conseguia realizar uma boa transposição didática dos conteúdos, o que era nítido em relação ao tanto que os alunos compreendiam sobre os assuntos vistos em sala de aula. Também tratava os alunos com muita indiferença. Essa dificuldade na transposição de conteúdos e na relação com os alunos reflete na construção do aprendizado. Júnior et al. (2023) retrata que uma aula com diferentes metodologias e uma relação estável e segura entre o professor e os alunos contribui para o desenvolvimento acadêmico, social e emocional dos estudantes. O tratamento que o professor dava aos alunos também me incomodava um pouco. Ele dirigia algumas palavras de teor negativo aos alunos, o que causava um distanciamento entre ele e os alunos, tornando, portanto, mais difícil o processo de ensino-aprendizagem. Conforme Rodrigues, Blaszko e Ujiie (2021), a afetividade na relação professor-aluno é muito importante na reverberação nos reflexos positivos do processo de aprendizagem, pois trazem uma sensação de pertencimento e uma melhor associação de conteúdos. Percebi também que ele não sabia o nome dos alunos.
Embora no primeiro estágio tivesse o recurso de slides para ensinar ciências, as aulas eram muito menos envolventes e entendíveis. Além disso, o professor não fazia provas, apenas passava atividades, as quais nem sequer checava as respostas dos alunos. Percebi que eles escreviam qualquer coisa nas respostas, apenas para ganhar o visto e a nota da atividade. Por outro lado, o segundo estágio trouxe uma nova perspectiva do ensino. A professora tinha um tratamento completamente diferente com os alunos, os tratando com respeito. Ela sabia o nome de muitos alunos, embora esquecendo alguns devido a grande quantidade de alunos. De acordo com Rodrigues, Blaszko e Ujiie (2021), o professor influencia no desenvolvimento de interações, relações harmoniosas e afetivas, o que resulta em um melhor desenvolvimento do aluno em ambos âmbitos escolar e pessoal. A aula era mais interativa, realmente aproximando os alunos por meio das perguntas feitas. Embora o conteúdo fosse explicado apenas por leituras e falas da professora, percebi que os alunos aparentavam entender melhor o conteúdo dessa forma. Vi também que a professora tinha respeito pelos alunos. Em um caso específico de um aluno com problemas pessoais, diagnosticado com depressão e ansiedade, a professora fazia questão de acompanhá-lo e conversar com ele nos momentos em que estava mais agitado. 2.4 Projeto Didático O projeto didático foi inspirado nos alunos autistas que observei durante o estágio. Por não haver uma devida inclusão deles no aprendizado coletivo, conversei com a professora sobre qual temática poderia ser desenvolvida com a turma de sétimo ano para que houvesse uma maior comoção dos alunos. Ao longo das regências, a turma foi dividida em duas equipes para a montagem dos cartazes e modelos. Os alunos eram supervisionados por mim e pela professora, tirando dúvidas de como confeccionar o projeto. Eles fizeram uma parte da pesquisa em casa, que foi aprimorada no momento de discussão em sala de aula. O projeto trabalhou com “tecnologias assistivas”, que são meios de tornar o mundo mais acessível para pessoas com deficiências. Assim, ao longo de duas semanas, trabalhamos com os alunos nas montagens dos cartazes e maquetes e, na feira de ciências da escola, os alunos apresentaram a temática, como é possível ver nas figuras 1 e 2. Figura 1 - Tema da feira de ciências - 7º ano A Fonte: próprio autor, 2025.
Figura 2 - Exposição de cartazes Fonte: próprio autor, 2025. O momento de apresentação foi dividido nas mesmas duas equipes que montaram os trabalhos. Os alunos falaram sobre o que são as tecnologias assistivas, como funcionam, qual a importância e aplicações. Com a culminância da feira de ciências, percebi que os alunos dominavam o conteúdo, entendendo como essas tecnologias são importantes para os alunos com deficiências. 3 CONSIDERAÇÕES FINAIS Com a realização desse estágio, percebi que existem diversas realidades em um mesmo ambiente escolar. Ao comparar os dois estágios já realizados, percebi o quanto a estratégia utilizada pelo professor pode cativar o aluno, influenciando-o a prestar atenção nas aulas, interagir e se esforçar na matéria. Vi também que os alunos possuem um potencial magnífico. Ambas as turmas eram esforçadas, se dedicavam às aulas e faziam as atividades. Senti que o sexto ano era mais amoroso, enquanto o sétimo era mais independente, refletindo a entrada dos alunos na puberdade. Ao ensinar nas turmas, gostei mais da interação do sexto ano, que tinham um jeito mais curioso em relação às ciências. Esse contato me fez gostar um pouco mais da docência e até considerar seguir nesse caminho. Acredito que, em relação à escola, abre-se uma oportunidade de realizar parcerias, já que a professora supervisora era muito receptiva em relação a novas metodologias de ensino. Assim, pode ser pensadas atividades com realização no ensino fundamental nessa escola. Por fim, acredito que a melhor forma de ensinar seja com um olhar humano. Uma forma na qual o professor veja o aluno além, e que possa entender e ser entendido. Além disso, ver a docência como um trabalho também é necessário, pelo esforço e desgaste que ela exige. Ainda assim, quando feita com gosto torna-se menos dolorida, e traz consigo momentos de beleza.
REFERÊNCIAS ARAÚJO, W. P.; RAMOS, L. P. S. Metodologias ativas no ensino de Ciências: desafios e possibilidades na prática docente. Research, Society and Development, v. 12, n. 1, p. e1412139150-e1412139150, 2023. BATISTA, T. M.; LOPES, R. C. B.. A importância do professor na Educação Inclusiva. REVISTA FACULDADE FAMEN| REFFEN|, v. 2, n. 3, p. 91-103, 2021. JÚNIOR, João Fernando Costa et al. A importância de um ambiente de aprendizagem positivo e eficaz para os alunos. Rebena-Revista Brasileira de Ensino e Aprendizagem, v. 6, p. 324-341, 2023. RODRIGUES, G. M. M. M.; BLASZKO, C. E.; UJIIE, N. T. A afetividade na relação professor-aluno e o processo ensino-aprendizagem. In: Colloquium Humanarum. ISSN: 1809-8207. 2021. p. 61-76. RODRIGUES, S. F.; POLETTO, L. Relação professor aluno: a importância da afetividade no ambiente escolar. EDUCAÇÃO E CULTURA EM DEBATE, v. 9, n. 1, p. 119-132, 2023.