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USO DE AULAS LABORATORIAIS PARA O ENSINO DE BIOLOGIA: EXPERIÊNCIA FORMATIVA DE UM ESTÁGIO CURRICULAR SUPERVISIONADO

Feitosa da Silva, Liandra; Ponte, Maxwell Luiz da

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USO DE AULAS LABORATORIAIS PARA O ENSINO DE BIOLOGIA: EXPERIÊNCIA FORMATIVA DE UM ESTÁGIO CURRICULAR SUPERVISIONADO Liandra Feitosa da Silva1 , Maxwell Luiz da Ponte2 Resumo: O estágio curricular supervisionado é uma etapa essencial na formação docente, pois permite ao licenciando vivenciar, na prática, os desafios do ambiente escolar e refletir sobre as teorias estudadas ao longo da graduação. Este trabalho tem como objetivo relatar e analisar a experiência de utilização da experimentação descritiva durante o estágio supervisionado realizado em uma escola pública estadual do Ceará, voltada ao ensino médio. As atividades foram conduzidas no laboratório multidisciplinar da escola, com turmas do 1º e 2º ano do ensino médio, como observação de lâminas histológicas ao microscópio e um experimento sobre oxidação, seguindo roteiros previamente elaborados, nos quais os estudantes realizavam procedimentos e registravam observações visuais sem a formulação de hipóteses. As práticas, portanto, se caracterizaram como experimentações descritivas, modalidade amplamente utilizada no contexto escolar por demandar menos recursos e maior viabilidade de execução. A avaliação das atividades foi realizada por meio da observação direta da participação dos estudantes e das discussões promovidas ao longo do processo. Os resultados indicaram que, mesmo em formato descritivo, as práticas experimentais despertaram a curiosidade e o interesse dos alunos, contribuindo para a compreensão de conceitos abordados em sala de aula e promovendo a aproximação com a linguagem e os procedimentos da ciência. A mediação ativa do professor, a elaboração de roteiros claros e a contextualização dos conteúdos foram fatores fundamentais para o engajamento dos estudantes. Assim, conclui-se que a experimentação descritiva, quando bem articulada aos objetivos pedagógicos e à realidade escolar, pode representar uma estratégia eficaz no processo de alfabetização científica, além de tornar o ensino de Biologia mais dinâmico e acessível. As experiências vivenciadas evidenciam, ainda, a importância do estágio supervisionado como espaço formativo que contribui para o amadurecimento profissional do licenciando, possibilitando a aplicação de conhecimentos teóricos em contextos reais e a construção de práticas pedagógicas significativas. Palavras-chave: Experimentação descritiva; Alfabetização científica; Práticas Pedagógicas. 2 Doutor em Ciências (UNICAMP). Professor adjunto da UECE. Professor Permanente do Mestrado Profissional em Ensino de Biologia - PROFBIO. 1 Graduanda em Licenciatura Ciências Biológicas, Universidade Estadual do Ceará, Centro de Ciências da Saúde/Curso de Ciências Biológicas. E-mail: [email protected] 1. INTRODUÇÃO O estágio curricular obrigatório representa uma etapa fundamental na formação docente, pois possibilita ao acadêmico vivenciar, na prática, os desafios e as dinâmicas do ambiente escolar. Essa experiência aproxima o futuro professor da realidade da profissão, favorecendo a compreensão concreta das teorias estudadas ao longo da graduação. Além de ser um componente formativo importante, o estágio estabelece uma ponte entre universidade e sociedade, o que possibilita o reconhecimento do contexto social em que a escola está inserida. Dessa forma, contribui não apenas para o amadurecimento profissional do licenciando, mas também para a transformação da comunidade escolar, ao possibilitar a troca de saberes e a construção coletiva do conhecimento (Scalabrin; Molinari, 2013). No mais, o estágio propicia na prática a visualização de abordagens e conceitos pedagógicos. No contexto do ensino de Biologia, as práticas pedagógicas que favorecem a participação ativa dos estudantes, como o uso do laboratório escolar. As aulas práticas são amplamente reconhecidas por seu potencial em tornar os conteúdos mais concretos e atrativos, desenvolvendo habilidades como observação, análise e pensamento crítico, o que corrobora para a alfabetização científica (Luz; Lima; Amorim, 2018). Este trabalho tem como objetivo discutir a importância das aulas práticas no ensino de Biologia, especialmente em espaços laboratoriais escolares, trazendo concepções de autores que abordam o papel da experimentação, especificamente a experimentação demonstrativa, no processo educativo, analisando em particular as potencialidades e limitações da experimentação descritiva — modalidade comumente utilizada nas escolas e que, apesar de seu caráter demonstrativo, pode contribuir para o engajamento dos alunos e sua familiarização com o fazer científico, desde que bem contextualizada e articulada aos objetivos de aprendizagem. 1.1 Descrição do local de atuação A escola onde foi realizado o estágio supervisionado é uma instituição de tempo regular da rede pública estadual do Ceará, voltada ao ensino médio. Possui aulas nos turnos manhã e tarde, além da modalidade EJA - Educação de Jovens e Adultos - no período noturno. Sua estrutura física é ampla e bem organizada, contando com salas de aula espaçosas, climatizadas, áreas de convivência como refeitório, quadra esportiva com arquibancada, bancos em alguns locais, biblioteca, laboratório de informática bem estruturado e um laboratório multidisciplinar. 1.2 O laboratório multidisciplinar O laboratório multidisciplinar da escola apresenta uma estrutura bem equipada, com destaque especial para os recursos voltados ao ensino de Biologia. O espaço conta com diversos microscópios ópticos em funcionamento e uma ampla variedade de lâminas histológicas, que permitem aos estudantes observar tecidos animais e vegetais, algas, bactérias e outros microrganismos, favorecendo o aprendizado prático em conteúdos como citologia e microbiologia. Também estão disponíveis modelos anatômicos tridimensionais de sistemas corporais (Figura 1), incluindo um esqueleto humano completo, que contribuem para o estudo da anatomia e fisiologia. As vidrarias, como béqueres, tubos de ensaio, pipetas e balões volumétricos, além dos reagentes químicos organizados e identificados, possibilitam a realização de experimentos simples, aproximando os alunos da linguagem e da prática científica. Adicionalmente, o laboratório atende às outras áreas com materiais como pêndulo de Newton, espelhos, kits de ótica e instrumentos geométricos. A diversidade de recursos biológicos, o bom estado de conservação e a organização por disciplinas tornam o espaço especialmente propício para o desenvolvimento de aulas investigativas e interativas em Biologia, despertando a curiosidade e promovendo aprendizagens mais significativas. Um dos principais desafios enfrentados é o número limitado de bancadas, espaço e equipamentos em relação ao tamanho das turmas, que possuem em média 40 alunos, o que demanda a divisão dos alunos em grupos menores, alternando o uso do laboratório, comprometendo, em certa medida, o tempo e a continuidade das práticas. Ainda assim, o laboratório se mostra um espaço valioso para a promoção da aprendizagem significativa, estimulando a curiosidade e o engajamento dos estudantes no processo de construção do conhecimento científico. Figura 1 – Modelos tridimensionais Fonte: Elaborado pela autora (2025). 2. DESENVOLVIMENTO 2.1 Fundamentos da experimentação descritiva no ensino de Biologia As aulas práticas no ensino de Biologia contribuem para tornar os conteúdos mais compreensíveis e interessantes na perspectiva dos estudantes, principalmente por permitir o contato direto com materiais e fenômenos que, muitas vezes, não seriam facilmente visualizados apenas por meio de aulas teóricas. A experimentação descritiva, nesse contexto, consiste em práticas nas quais o professor propõe um roteiro de observação e os estudantes seguem procedimentos previamente definidos (Braghini, 2017). É comum que os resultados já sejam conhecidos, e a atividade se concentre na descrição e no reconhecimento de estruturas ou processos. De acordo com Stoll et al. (2015), esse tipo de prática tem sido amplamente utilizado nas escolas, principalmente por ser mais simples de ser aplicada em ambientes com infraestrutura limitada, que representa o cenário da maior parte das escolas. A experimentação, ainda que não seja investigativa, sem aplicação de hipóteses, pode ser significativa se for contextualizada e se dialogar com os conteúdos que estão sendo trabalhados em sala de aula (Medeiros et al., 2015). Assim, esse tipo de prática se torna uma ferramenta possível e eficaz diante das realidades escolares, especialmente no ensino médio 2.2 Descrição das estratégias e experiências desenvolvidas Durante o estágio supervisionado, tive a oportunidade de acompanhar e desenvolver práticas experimentais com turmas do 1º e 2º ano do ensino médio. As atividades foram realizadas no laboratório da escola, com destaque para a observação de lâminas em microscópio e uma atividade sobre oxidação (Figura 2). Em todas as práticas, a estrutura seguiu um modelo descritivo: os estudantes seguiram roteiros previamente elaborados, realizaram observações visuais e responderam a algumas perguntas orientadoras. Não houve levantamento de hipóteses, mas sim uma descrição com base em observações, o que caracterizou essas práticas como descritivas. As turmas foram divididas em dois grupos devido à limitação de espaço físico e de equipamentos do laboratório, o que exigiu planejamento e organização para que todos pudessem participar. Todas as práticas foram regidas e orientadas pelo docente. De acordo com minhas observações e interpretações da prática, a reação dos estudantes foi bastante positiva, principalmente diante da prática de microscopia. Muitos demonstraram surpresa e curiosidade ao visualizar estruturas celulares reais, o que gerou engajamento e favoreceu a aprendizagem. Figura 2 – Alunos executando experimento Fonte: Elaborada pela autora. 2.3 Avaliação e replicabilidade da estratégia A avaliação das práticas foi realizada por meio da observação direta da participação dos estudantes e das discussões que surgiram antes, durante e após a atividade. De modo geral, os alunos demonstraram envolvimento e interesse nas aulas práticas, sobretudo pela possibilidade de visualizar, de forma concreta, conteúdos que nas aulas teóricas costumavam parecer mais abstratos. Além de apresentarem empolgação com a variação das aulas expositivas, que são mais comuns. As práticas descritivas se mostraram eficazes para introduzir conceitos de maneira acessível, especialmente quando bem mediadas pelo professor e articuladas aos conteúdos já trabalhados em sala. Essa percepção vai corrobora com Medeiros et al. (2015), ao destacarem que a experimentação pode acentuar o interesse dos alunos e favorecer a assimilação dos conteúdos, desde que acompanhada por uma mediação docente intencional. Ademais, as limitações observadas foram o tempo restrito de aula devido à necessidade de dividir a turma por questões de limitação do espaço físico do laboratório, o que exigiu a realização da mesma atividade em dois turnos distintos. Ainda assim, a estratégia demonstrou ser viável e possível de ser replicada em outras escolas com perfis semelhantes, que disponham de um laboratório multidisciplinar minimamente equipado e estruturado. As experiências observadas e desenvolvidas durante o estágio confirmam a importância da experimentação descritiva como uma ferramenta que favorece a aproximação entre teoria e prática. O contato direto com os materiais despertou a curiosidade dos alunos e incentivou sua participação nas atividades propostas. Como apontam Stoll et al. (2015), o uso da experimentação é possível mesmo diante de desafios estruturais, desde que haja organização, planejamento e clareza nos objetivos pedagógicos. A elaboração de roteiros intuitivos, a linguagem acessível e a atuação ativa do professor foram fatores essenciais para o êxito das aulas. Portanto, a experimentação descritiva, pode ser compreendida como uma etapa introdutória importante no processo de formação científica dos estudantes quando associada com outras estratégias de ensino. 3. CONSIDERAÇÕES FINAIS As experiências vivenciadas durante o estágio supervisionado evidenciaram a importância da experimentação como prática pedagógica no ensino de Biologia, mesmo quando adotada em sua forma descritiva. Ainda que não promova diretamente a investigação ou a formulação de hipóteses por parte dos estudantes, a experimentação descritiva contribui para a aproximação dos alunos com os objetos de conhecimento e etapas do processo da ciência, tornando os conteúdos mais palpáveis e significativos. No contexto observado, as práticas desenvolvidas favoreceram a compreensão de conceitos abordados em sala de aula, despertaram a curiosidade e estimularam a participação ativa dos alunos. O uso de roteiros simples, a contextualização dos conteúdos e o incentivo ao diálogo entre professor e estudantes foram elementos centrais para o êxito das atividades. Assim, este relato reforça que a experimentação descritiva, quando bem conduzida, pode cumprir um papel importante no processo de alfabetização científica dos alunos. Mais do que demonstrar fenômenos, ela permite vivenciar o conteúdo de forma concreta e sensível. Portanto, a valorização do espaço laboratorial e o investimento na formação de professores capazes de mediar esse tipo de prática são passos fundamentais para tornar o ensino de Biologia mais envolvente, acessível e significativo. REFERÊNCIAS BRAGHINI, Katya Zuquim. As aulas de demonstração científica e o ensino da observação. Revista Brasileira de História de Educação, v. 17, n. 2, p. 208-234, 2017. LUZ, Priscyla Santiago da; LIMA, Josiane Ferreira de; AMORIM, Thamiris Vasconcelos. Aulas práticas para o ensino de biologia: contribuições e limitações no ensino médio. Revista de Ensino de Biologia da SBEnBio, [S. l.], v. 11, n. 1, p. 36–54, 2018. DOI: 10.46667/renbio.v11i1.107. Disponível em: https://renbio.org.br/index.php/sbenbio/article/view/107. Acesso em: 11 jul. 2025. MEDEIROS, A. M.; LIMA, R. M. O.; RODRIGUES, E. C.; DIAS, M. A. S. O desenvolvimento da aprendizagem em biologia através da experimentação. In: V ENCONTRO DE INICIAÇÃO À DOCÊNCIA DA UEPB & III ENCONTRO DE FORMAÇÃO DE PROFESSORES / UEPB, 2015, Campina Grande. Anais [...]. Campina Grande: Realize Editora, 2015. Disponível em: https://editorarealize.com.br/artigo/visualizar/11731. Acesso em: 14 jul. 2025. SCALABRIN, Izabel Cristina; MOLINARI, Adriana Maria Corder. A importância da prática do estágio supervisionado nas licenciaturas. Revista unar, v. 7, n. 1, p. 1-12, 2013. STOLL, Vitor Garcia et al. A Experimentação no Ensino de Ciências: um Estudo no Catálogo de Teses e Dissertações da CAPES. Revista Insignare Scientia-RIS, v. 3, n. 2, p. 292-310, 2020.